Episódio 3: "Um por todos, e todos por um"
Sinopse: Eles ainda permanecem presos, mas as coisas estão começando a mudar, ataques e contra-ataques começam a ocorrer. Aliados surgem e mais uma vez Sayid quer montar um grupo de resgate para salvar seus amigos.
Censura: T.
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O barulho irritante de metal batendo contra metal acordou Sawyer de um belo sonho, e irritado ele esfregou os olhos, sentando-se no chão. Pela primeira vez em vários dias sonhava com algo realmente bom, lembranças dele com Ana, porém a presença de Ben Linus batendo com uma colher nas barras de ferro da jaula, mais uma vez o recordava de sua atual condição.
- Bom dia, James!
Sawyer esfregou as têmporas, sentindo dor de cabeça, pelo stress, as noites mal dormidas, a má alimentação e principalmente pela enxaqueca ocasionada devido à falta de seus óculos. Encarou Ben, muito irritado, antes de dizer:
- Eu não entendo toda essa ironia de vocês em querer parecerem civilizados. Ficam nos dando bom dia, boa noite, pedem licença e por favor, somente para nos deixarem trancados nessa jaula comendo biscoito de peixe! Eu atirei numa de vocês, pelo amor de Deus! Mostre um pouco de raiva por isso, algo que indique que você é humano, porque sinceramente me custa acreditar nisso.
Benjamin deu um sorriso sarcástico, e falou com muita calma:
- James, eu sei que atirou na Coleen para proteger a Kate, e isso é perfeitamente compreensível. Qual homem não faria o mesmo para proteger a mulher amada?
Sawyer franziu as sobrancelhas:
- Sei, sei. Agora me diga Lorde Voldemort, onde quer chegar com essa conversa? E já que tocou no assunto, onde está a Kate? Vocês a levaram ontem e não a trouxeram mais.
- Kate, está bem, posso lhe assegurar. Mas na minha humilde opinião, ela estaria melhor com você do que onde está agora. Anda, vamos dar uma volta, respirar o ar puro da manhã e ter uma boa conversa. Posso responder muitas de suas perguntas.
Ele abriu o cadeado da jaula e ficou esperando pacientemente que Sawyer resolvesse segui-lo. Não lhe apontou nenhuma arma, e não o obrigou a usar capuz nem algemas. Desconfiado, Sawyer o seguiu, mas resolveu não tentar nada, aquele homem era muito esperto, com certeza deveria ter uma carta na manga.
(Flashback)
- È ele?
- Sim, Capitã, é ele mesmo. Finalmente o encontramos.
- E por acaso, sargento.
- Devemos prendê-lo agora? Temos todas as provas, o cara não sai nem sob pagamento de fiança.
- Sim, vamos prendê-lo, deixemos apenas que ele termine de almoçar.
A Capitã Cortez sorriu, observando o seu alvo almoçar calmamente, não fazendo a menor idéia de que seria preso em alguns minutos. James Ford, era esse o seu nome, embora suas vítimas o conhecessem como "Sawyer". Muito atraente e de uma lábia invejável, Sawyer era um dos golpistas mais procurados pela polícia de quatro Estados. Nenhum dos golpes que aplicava era igual ao outro, embora houvesse um denominador comum entre eles, arrancar dinheiro dos maridos das mulheres que seduzia.
O Sr. Ford não era um caso que estivesse investigando oficialmente, porém desde que sua última vítima, a Sra. Cassidy Philips, prestara queixa na delegacia sobre ele, a Capitã sentiu-se atraída pelo caso, e por isso nomeou o sargento Weasley para investigá-lo, permanecendo assim indiretamente na questão. Era um pouco pessoal, ela admitira a si mesma, já que mais do que os psicopatas, ela odiava os enganadores, porque fora vítima de um deles quando jovem, e por uma estranha coincidência, o homem que a enganara também atendia pela alcunha de Sawyer. Isso acabou com sua vida, com o seu sonho de fazer faculdade de direito, foi repudiada pela família, ficando sozinha, sem dinheiro e o que era pior grávida de sua filha. Levou muito tempo para que se reerguesse e fosse aceita novamente pelos pais, junto com sua pequena.
Quando recebeu o perfil de Sawyer na delegacia, uma terrível dúvida a assaltara, seria esse homem irmão de sua filha? Prendê-lo era uma questão de utilidade pública, mas descobrir se aquele homem a levaria direito ao homem que a enganara há mais de vinte anos atrás era a consumação de uma vingança que almejara por muito tempo.
Em sua mesa, Sawyer acabara de pedir a conta ao garçom. Não comera quase nada deixando a maior parte da comida no prato. Estava com uma sensação ruim aquele dia, de que algo iria acontecer e ele não estava preparado. Aliás, vinha sentindo isso desde seu último golpe. Tinha sido o mais longo, precisou passar muito mais tempo com essa mulher para que tudo desse certo, e inevitavelmente acabou se envolvendo com ela, além do que era preciso. Por isso sentia-se culpado, embora não devesse. Aquele golpe tinha sido o último, e Sawyer finalmente poderia começar a pensar em ir atrás do homem que destruiu sua família, o homem de quem ele assumira a identidade, o verdadeiro Sawyer.
O garçom trouxe a conta, e Sawyer abriu a carteira depositando o dinheiro sobre a mesa. Já ia se levantando para ir embora quando observou uma mulher por volta dos quarenta e poucos anos, porte altivo, de feições latinas se aproximar da mesa dele. Seu olhar era sério e compenetrado.
- Posso ajudar em alguma coisa, senhora?- Sawyer indagou, simpático assim que a mulher colocou-se frente a frente com ele.
- Sr. James Ford?
- Sim.- ele respondeu receoso.
- O Senhor está preso!- disse a Capitã tirando as algemas do bolso do casaco.
- Como é que é?- surpreendeu-se Sawyer.
- O Senhor tem o direito de ficar calado, tudo o que disser pode e será usado contra o senhor no tribunal, tem direito a um advogado, se não puder pagar um o Estado se encarregará disso.
As pessoas no restaurante pararam tudo o que estavam fazendo para assistir à cena inusitada. Pelo menos cinco policiais que estavam à paisana no restaurante surgiram do nada e seguraram Sawyer para que Raquel Cortez o algemasse. Ele estava pasmo, jamais tinha sido preso. Seu único pensamento naquele momento, no entanto, era como faria para sair daquela situação.
(Fim do Flashback).
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Kate acordou com os braços fortes de Jack em volta de sua cintura e gemeu preguiçosa se aconchegando ainda mais nele. Jack sorriu ao ouvi-la, e beijou sua testa antes de dizer:
- Eu podia ficar ouvindo você gemer assim o resto da minha vida!
Ela sorriu e o encheu de beijinhos pelo rosto. Apesar da situação inusitada de estarem presos em um quarto, provavelmente cheio de câmeras sentiam-se muito bem somente por ter a companhia um do outro. Decidiram silenciosamente evitar conversar abertamente sobre formas de escapar dali devido à possibilidade de estarem sendo ouvidos. Estarem juntos outra vez renovara suas esperanças em poder fugir dali e retornar ao seu acampamento, por isso esperariam por uma oportunidade perfeita. Seriam mais cooperativos, ganhariam pontos e descobririam pouco a pouco a fraqueza daquelas pessoas. Além disso, Jack os tinha em suas mãos, porque era o único capaz de fazer com que Colleen se recuperasse.
- Vista-se amor, eles logo deverão vir buscá-la.- Jack disse com pesar.
Kate beijou o ombro dele e concordou, procurando pelas roupas no quarto. Jack vestiu-se também, e depois a ajudou a amarrar o laço do vestido. Estava fazendo isso quando Juliet entrou no quarto, chorando desesperada.
- Colleen está morta!- disse entre soluços.
Tudo estava perdido agora. Com a morte de Colleen, Jack não teria mais como pressionar os Outros, estavam de volta à estaca zero e o que era pior, ameaçados de morte. Ben e seu grupo com certeza iriam querer uma vingança pelo falecimento de um dos seus, e Jack não poderia mais garantir a segurança deles, principalmente a de Sawyer, responsável direto pela morte de Colleen.
- Ela morreu, Jack!- repetiu Juliet, ainda chorando.
Kate pôde perceber que existia um pesar sincero em seu pranto, mas ao mesmo tempo parecia algo frio, premeditado. Juliet era um mistério para ela.
- Jack, você nos garantiu que ela se recuperaria.
- Eu imaginei que sim, estou tão surpreso quanto você.- disse Jack, um pouco nervoso, mas não porque sentisse algum tipo de culpa pela morte dela, mas por medo do que aconteceria com ele, Kate e Sawyer. – Juliet, você deve saber melhor do que eu sobre os recursos que vocês possuem aqui, e há de convir comigo que eles são estranhamente escassos. Para uma organização tão poderosa, eu imaginava que vocês tivessem mais condições. Colleen poderia ter sobrevivido numa sala de cirurgia mais equipada, eu não sou um milagreiro!
- Não é o que acreditamos, Jack!- ela gritou, num raro momento de fraqueza aparente.
- E agora, o que vai acontecer com o Sawyer?- indagou Kate, preocupada.
- Ele será executado.- Juliet respondeu, dessa vez não demonstrava pesar, apenas frieza.
- Não!- Kate gritou, desesperada.
Jack a abraçou, tentando acalmá-la.
- Não façam isso!- pediu Jack. – Chega de sangue entre nós, porque nossos grupos não podem coexistir em paz? Sei que a organização de vocês está em decadência, caso contrário por que estariam presos nessa ilha? Vocês não têm como sair daqui, tanto quanto nós.
Juliet deu um sorriso resignado:
- Talvez você saiba uma parte da história, Jack. Mas o todo é muito diferente do que você imagina. Greg!- ela chamou, autoritária.
O brutamontes entrou no quarto, e ouviu as ordens dela:
- Leve a Kate!
- Não!- disse Jack com firmeza. – Eu não confio em vocês levando-a daqui! Não agora depois da morte de Colleen. Kate permanece aqui comigo!
- Me desculpe, Jack!- disse Juliet, eletrocutando Jack com o disparador de choques.
- Jaaaack!- Kate gritou ao vê-lo cair no chão, se contorcendo de dor. Greg a agarrou por trás e saiu arrastando-a do quarto, enquanto ela se debatia chamando por Jack.
Enquanto Jack ainda tremia convulsivamente, Juliet se abaixou e sussurrou próximo ao seu ouvido:
- Confie em mim, tudo irá se resolver!
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- Ana-Lucia.- pronunciou Ben enquanto caminhava com Sawyer pela orla da praia, sua mão devida e discretamente posicionada no disparador de choques no bolso da calça, caso fosse necessário usá-lo.
Sawyer ergueu a sobrancelha ao ouvir o nome dela, mas nada disse, deixou que Ben continuasse.
- Por que ela?- indagou Ben. – Por que amar uma mulher cujo primeiro ato que fez ao encontrá-lo na floresta foi jogá-lo dentro de um buraco?
- Por que está me perguntando isso? Que diferença faz pra você, Gale?
- Ah sim, antes de continuarmos nossa conversa, é necessário que eu lhe diga o meu nome verdadeiro, afinal eu sei o seu, então seria injusto que eu não dissesse o meu. Linus, Benjamin, Linus.
- Muito prazer, 007.- respondeu Sawyer sarcástico. – Agora pode deixar dessa conversa fiada sobre os meus "sentimentos" e me dizer exatamente por que estamos aqui.
- Eu ainda não acabei, James.- reiterou Ben, seguindo com seu raciocínio. – Como eu dizia, por que amar uma mulher que disse desaforos e te bateu incontáveis vezes? Foi só pelo sexo, James? Você é tão manipulável assim?
- Onde está querendo chegar?- questionou Sawyer, confuso.
Ele fez menção para que se sentassem em duas cadeiras postas embaixo de um enorme guarda-sol à beira da praia. Sawyer o fez, mas continuou encarando-o, em busca de uma resposta para aquele estranho interrogatório.
- Já que não vai responder a minha pergunta, pelo menos me diga então o que mais gostava nela?
- Da falta de paciência que ela tinha em ficar escutando baboseiras como as que está me dizendo agora. Você disse que responderia minhas perguntas, e não que eu teria que responder às suas.
- Justo!- disse Ben, sorrindo enigmaticamente. Pergunte! Quer saber por que os trouxemos aqui? Em que tipo de coisas estamos envolvidos, por exemplo?
- Não. O que eu quero saber é se a Ana está mesmo morta, e se estiver quero saber onde foi enterrada e que me levem até lá. Quero saber também onde está o meu filho?
- São muitas perguntas mesmo.- falou Ben, sem emoção. Mas, vamos lá, Ana-Lucia está morta, não poderá ir ao túmulo dela porque a cremamos e jogamos suas cinzas ao mar, como fazemos com os nossos quando morrem, é bem mais higiênico devo lhe dizer e quanto ao seu filho, ele está bem é só o que posso falar, melhor do que estaria com você que jamais será um bom pai, afinal abandonou sua filha,Clementine.
Sawyer escutou palavra por palavra do que ele disse, e assim que Ben pronunciou a última, jogou-se sobre ele disposto a matá-lo com suas próprias mãos. Entretanto, Ben não se abalou porque em segundos três homens armados com espingardas apareceram e as apontaram para Sawyer, que não teve outro remédio senão sair de cima de dele.
Endireitando a gola da camisa, Benjamin disse:
- Precisamos dar um jeito nesse seu gênio, Sawyer, caso contrário vai ficar difícil a comunicação entre nós. E já que não quer me dizer nada sobre seu relacionamento com Ana-Lucia...
- Por que Ana-Lucia te interessa tanto, ainda mais agora que está morta?- bradou Sawyer.
- Curiosidade.- Ben respondeu calmamente. – Mas como eu dizia, já que não quer me falar nada sobre ela, me fale sobre a Kate.
- O que tem a Kate?- Sawyer indagou, sem tirar os olhos das espingardas que estavam estrategicamente apontadas para ele.
- O filho que ela espera, é mesmo do Shephard?
Sawyer franziu o cenho: - Que raio de pergunta é essa? Por que eu é que tenho que saber? Pergunte a ela.
- Então você não sabe?- insistiu Ben.
- Deveria?- questionou Sawyer.
Ben respirou fundo:
- Quer dizer que não existe a possibilidade de você ser o pai?
- Como é?- disse Sawyer, ficando cada vez mais confuso.
- Se o filho que Kate espera não é seu, então não temos porque te manter aqui entende? Você James "Sawyer" Ford não tem nenhuma utilidade para nós. Danny!
Danny Pickett apareceu armado com duas espingardas, Greg vinha ao seu lado arrastando Kate consigo, amordaçada. Ambos saindo do meio das árvores, aparentemente estiveram lá o tempo todo, apenas esperando a ordem para saírem.
- Ele é todo seu, Danny. Sinto muito pela Colleen, faça justiça!
Como que tomado por um espírito demoníaco, assim que obteve o aval de Benjamin, Danny foi com tudo para cima de Sawyer, desferindo-lhe socos, chutes, pontapés. No início, Sawyer tentou se defender, mas viu Greg apontando uma pistola para a cabeça de Kate e não tentou mais nada, não queria que a machucassem. Danny continuou espancando-o covardemente, enquanto Kate chorava desesperada, seus gritos abafados pelo pano que trazia amarrado à boca.
Sawyer sentiu a pele de seu corpo esmagada, seus ossos sendo estraçalhados aos poucos por aquele homem, e lágrimas começaram a escorrer de seus olhos azuis. Pensou em Ana e em seu filho, buscando uma válvula de escape para sua dor. Kate gemia querendo dizer algo. Ben percebeu e ordenou:
- Pare!
Danny parou de bater nele ao ouvir a voz de Ben, mas voltou os olhos para o seu líder pedindo uma explicação do porque ele pedira para que parasse.
- Vamos ouvir o que a Srta. Austen tem a dizer.
A mordaça de Kate foi retirada, e ela implorou entre os soluços:
- Não o matem, não o matem, por favor. Ele é o pai do meu filho!
Dentro do alojamento, Jack havia sido levado para uma outra sala, fétida como o primeiro porão onde estivera, porém muito mais apertada. Estava amarrado a uma cadeira, com um monitor de TV a sua frente, que acabara de ser ligado e não acreditou quando ouviu Kate afirmar diante da tela:
- Eu juro, Sawyer é o pai do meu filho.
Kate só poderia ter enlouquecido, pensou Sawyer consigo mesmo. Era totalmente impossível ele ser o pai do filho dela. Se estava mentindo para aquelas pessoas tentando protegê-lo, depois que a criança nascesse um simples teste de DNA poderia comprovar que ele não era o pai, e Sawyer acreditava fielmente que os Outros tinham meios para realizar tal exame.
Diante da afirmação de Kate, Benjamin ordenou definitivamente que Danny parasse de espancar Sawyer, e que este fosse levado de volta à jaula. Picket acatou sua ordem, mas seu rosto estava cada vez mais vermelho de ódio por Sawyer, dando a impressão de que explodiria a qualquer momento.
- E quanto a ela?- indagou Greg a Ben se referindo a Kate.
- Levem-na para a jaula com Sawyer, longe de mim querer separar uma família feliz.- comentou, cinicamente.
Dois homens suspenderam Sawyer do chão, cada um segurando em um braço, já iam levando-o quando Ben se aproximou e disse baixinho a ele:
- Conhece a lei de Darwin, Sawyer? Apenas os mais adaptados sobrevivem, pense nisso!
Enquanto era arrastado, Sawyer já não sentia mais ódio, nem pesar, nem indignação, nem sentimento algum, sua vida parecia uma coleção de provações, que ele tinha de suportar resignado. Kate vinha logo atrás dele, chorando silenciosamente, caminhava com suas próprias pernas, sem ser arrastada, tão resignada quanto Sawyer e odiando ter que mentir sobre a paternidade de seu filho para salvar a vida de seu amigo.
Um dos homens que arrastavam Sawyer abriu a porta da jaula, mas antes que ele fosse jogado lá dentro, Juliet apareceu, e ordenou aos homens:
- Não o coloquem na jaula, levem-no para o meu quarto no alojamento.
Os homens entreolharam-se confusos.
- Mas Benjamin disse que...
- Eu me entendo com Benjamin.- insistiu Juliet. – Andem, levem-no para o meu quarto.
Sawyer piscou os olhos azuis, confuso. Não estava entendendo o que aquela mulher queria dele, seria mais um interrogatório tão estranho quanto o de Ben naquela manhã?
- E quanto a Kate?- indagou Greg a Juliet.
- Ela permanece na jaula.- respondeu Juliet.
- Não!- gritou Kate. – O que vocês irão fazer com ele? Não podem matá-lo, ele é o pai do meu bebê, eu já disse.
- Eu sei disso, Kate. E não vou questioná-la, se você diz que Sawyer é o pai do seu filho, quem sou eu para dizer o contrário?
- Não, ela está mentindo para me salvar, o bebê que ela espera é do doutor!- disse Sawyer, surpreendendo a todos, inclusive Kate que quase parou de respirar ao ouvi-lo desmenti-la.
- Não Sawyer, não precisamos mais mentir sobre isso. Se é por causa da Ana que você não quer que saibam a verdade, agora já não importa mais, ela está morta!- falou Kate, tentando manter sua mentira, demonstrando o máximo de frieza possível.
- Não faça isso, sardenta! Você não parou pra pensar que eles devem estar gravando tudo o que estamos dizendo e mostrando pro doutor. Não acha que o doutor vai ficar magoado com essas suas afirmações?
Kate ficou surpresa com a preocupação de Sawyer em relação aos sentimentos de Jack, mas temia muito pela vida dele e manteria sua mentira até que achasse que o amigo estaria em segurança.
- Sei que ele vai ficar magoado, Sawyer, mas essa é a verdade, e você sabe muito bem.- Kate afirmou.
- Já chega dessa lavagem de roupa suja!- bradou Juliet, e sem que Sawyer percebesse aplicou uma seringa de tranqüilizante nele, fazendo-o dormir.
- Sawyer!- gritou Kate, histérica, vendo-o desmaiar.
- Vamos, tragam ele!- ordenou Juliet.
Os homens voltaram a arrastar Sawyer, dessa vez para longe da jaula, levando-o em direção ao alojamento. Kate foi jogada dentro da jaula novamente e ficou gritando, segurando nas barras, enquanto todos se afastavam:
- Sawyer! Sawyer!
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(Flashback)
Era a primeira vez que Sawyer tinha sido preso. Apesar de aplicar golpes já há um bom tempo, nunca tinha sido pego. Se perguntava quem o tinha entregado, informando o seu paradeiro. Seria algum gigolô invejoso que queria tirá-lo de circulação para triunfar sozinho no mundo dos golpes? Quem sabe? O fato era que estar sentado sozinho diante daquelas quatro paredes intimidadoras e escuras da sala de interrogatório da polícia de Los Angeles o estava deixando louco. Tamborilava os dedos, nervosamente pelo tampo da mesa de madeira quando a Capitã que o prendera entrou. O sargento Weasley tinha saído de lá há uns dez minutos, sem conseguir arrancar uma boa confissão de Sawyer, por isso solicitara à Capitã Cortez que o interrogasse, acreditava que os métodos de intimidação dela seriam mais eficientes.
- Capitã!- exclamou Sawyer, sedutor quando a mulher adentrou a sala segurando um copo plástico de capuccino do Starbucks.
Ela não respondeu à saudação dele, apenas encarou-o com o semblante sério, e puxou uma cadeira de frente para ele.
- Você sabe, Sr. Sawyer, que irá pegar provavelmente uns dez anos de prisão pelo que fez, não sabe?
- Dona Capitã...- ele hesitou, lendo o nome dela no crachá preso ao uniforme de policial. – Cortez! Com todo o respeito, em primeiro lugar, a senhora já deveria saber que o meu nome não é Sawyer, e sim James Ford. Não sei da onde tiraram esse nome, provavelmente devem estar me confundindo com alguém. E em segundo lugar, fique sabendo que pedirei uma indenização milionária à prefeitura pela humilhação e o incômodo que estão me fazendo passar hoje.
- Faz parte do seu show não é? Dar esse tipo de resposta.- afirmou a Capitã. – Pois bem, Sr. Sawyer ou Sr. Ford se preferir, fique sabendo que continuar com esse joguinho não vai te levar a lugar nenhum, Cassidy Philips, a mulher que te entregou, a que foi seu último golpe nos contou detalhe por detalhe de quem você é, então não adianta mais continuar com o teatrinho, guarde seus monólogos para a Academia do Oscar, quem sabe você não será indicado como o homem mais mentiroso do século?
Sawyer estava muito surpreso em saber que Cassidy o havia denunciado, não achou que ela seria capaz disso, já que ele tinha certeza de que se apaixonara de verdade por ele. Mesmo assim, não demonstrou o quanto essa informação havia mexido com ele, mantendo o sorriso cínico no rosto. A Capitã continuou:
- Mais mentiroso do que você, Sr. Ford, eu só conheci um homem, e ele também se chamava Sawyer.
O texano franziu as sobrancelhas, ainda mais surpreso:
- Onde está querendo chegar, Capitã?
- Pois bem, eu vou direto ao assunto.- ela disse. – Nossa conversa não está sendo gravada, nem existem câmeras nesse momento aqui nessa sala, nem ninguém atrás daquele vidro. Somos só você e eu.
Sawyer olhou ao seu redor, como se estivesse tentando comprovar o que ela dizia.
- E por que isso?- indagou.
Raquel Cortez respirou fundo:
- Porque esse homem, Sawyer, aplicou um golpe em mim há mais de vinte anos atrás, roubou todo o dinheiro da minha poupança, que meus pais tinham feito desde quando nasci para minha faculdade, e ainda me abandonou grávida.
Sawyer alargou os olhos, aquilo estava ficando cada vez mais estranho.
- Eu preciso saber, se você tem algum tipo de parentesco com esse homem, se sabe onde ele está? Diga-me, ele é seu pai?
- Como eu vou saber que isso não é mais uma jogada para conseguir uma confissão minha pelo golpe do qual sou acusado?- questionou Sawyer, duvidoso.
- Você tem apenas que acreditar na minha palavra.- reiterou a Capitã. – Depois dessa nossa conversa, voltarei aqui novamente e interrogarei você junto com o Sargento Weasley, diante das câmeras, com direito à gravação e pessoas atrás daquele vidro. E você dirá exatamente o que eu mandar.
- E por que eu faria isso?
- Porque será vantajoso pra você, confie em mim, não vai querer passar dez anos confinado na prisão, e eu posso te ajudar a escapar disso.
Raquel tirou a carteira do bolso, e mostrou a Sawyer a foto de uma garotinha de cabelos escuros, sorrindo, mostrando as janelinhas no lugar dos dentes que iam nascer.
- Esta é a minha filha. Ela tinha seis anos nessa foto, vai completar 25 anos na semana que vem. Essa fotografia foi tirada na época em que meus pais me aceitaram de volta, e com o tempo eu conheci um bom homem, com quem me casei e ajudou a criar a minha filha. Mas antes disso, eu sofri durante seis anos por tudo o que esse homem fez pra mim.
- Como ela se chama?- indagou Sawyer passando o dedo polegar sobre a foto.
- Isso não importa, eu preciso saber, que tipo de relação você tem com o Sawyer? È filho dele ou algum tipo de discípulo introduzido no mundo do crime, que utiliza seu nome emprestado?
- Esse homem, Sawyer.- disse ele, rendendo-se às perguntas da Capitã, sentindo-se compadecido por ela, por ter sido vítima do mesmo homem. – Ele seduziu a minha mãe, roubou todo o dinheiro do meu pai. Meu pai ficou furioso com isso e matou a minha mãe, se matando em seguida. Tudo na minha frente.
Ao contar aquela história, tão dolorida para ele, Sawyer não tinha lágrimas nos olhos, já há algum tempo havia aprendido a lidar com aquele fato, não precisava que ninguém tivesse pena dele. Raquel Cortez compreendeu exatamente o que esse sentimento significava. Ao ouvir Sawyer narrar sua triste história, sentiu uma espécie de conexão entre eles, pois ambos foram vítimas do mesmo criminoso. Sem hesitar, ela colocou sua mão sobre a dele e disse:
- Eu quero fazer um trato com você, James.
- Que tipo de trato?
- Se você usa o nome do Sawyer é porque deve ter feito por merecer esta alcunha. Segundo Cassidy Philips você é um dos homens mais ardilosos que ela já conheceu, então façamos uso dessa sua "qualidade". A coisa que eu mais quero na minha vida é a felicidade da minha filha, mas, além disso, tem uma outra coisa que eu preciso: vingança.
- Está me achando com cara de mercenário, Capitã?
- Não estou dizendo que quero que você o mate, apenas preciso que o encontre para mim. Eu quero olhar na cara desse homem e dizer a ele tudo o que sempre quis dizer ao longo desses vinte e cinco anos.
- E depois?
- Depois é com você, só peço que não me envolva em nada do que fizer contra ele.
- A senhora tem um jeito bem diferente de agir para alguém da lei.- constatou Sawyer.
- Sou apenas uma mulher que deseja justiça.
- E qual será o trato?- a essa altura, Sawyer já estava bastante interessado no que ela tinha a propor.
- Você admite sua culpa no golpe contra Cassidy Philips, e eu vou te mandar para uma prisão no Novo México. Eu conheço o diretor de lá, sei que é um homem corrupto. Faça um trato com ele para sair da prisão, ele vai propor isso logo que você chegar lá. Você deve permanecer lá por alguns meses, quando sair me procure, te darei um número de telefone, e então eu te direi o que deve fazer.
- Será que eu posso pensar? Sua proposta não me parece muita tentadora, já que eu vou ter que ficar preso.
- Não será por muito tempo, e depois disso eu te financiarei para que encontre o Sawyer. Se ele destruiu sua família, tenho certeza que encontrá-lo é tudo o que você mais quer.
- Feito!- respondeu Sawyer, concordando. Era um trato arriscado, mas não tinha nada a perder e ainda consegueria a chance de ser financiado para caçar o homem que mais odiava na face da Terra.
(Fim do Flashback)
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Quando Ben entrou na sala onde Jack estava trancado e amarrado, o médico não demonstrou emoção alguma. Ficou lá, quieto na cadeira, diante do monitor, perdido em seus pensamentos. Benjamin começou a provocá-lo.
- Sinto muito que tenha visto isso, Jack. Mas eu precisava abrir seus olhos, não pode continuar confiando em Kate e Sawyer. Veja o que eles foram capazes de fazer!
Jack nada disse, sequer olhou para ele. Benjamin continuou insistindo, queria aborrecer Jack.
- Eu fico aqui pensando no quanto a vida é injusta, Jack. Sabe, você se dedicou tanto a Kate e inclusive ao Sawyer desde que caíram aqui nessa ilha, e olha só como eles te agradeceram, te apunhalando pelas costas. Enquanto você dormia tranqüilo na sua barraca à noite, Kate com certeza o deixava sozinho algumas vezes, saindo sorrateira, indo em busca de Sawyer. Por que será que ela não estava satisfeita com você?
Nesse momento, Jack voltou seus olhos para Ben, e deu uma risada sarcástica, o que surpreendeu de imediato o líder dos Outros.
- Por que está rindo, Jack? Estou contando alguma piada?
- Pra mim está.- respondeu Jack, debochando. – Você acha que estou preocupado com a paternidade da criança que Kate espera? Como você mesmo disse, ela me deixava sozinho algumas noites, não todas. Então existe uma possibilidade de 50 do bebê ser meu, não é?
Ben não estava acreditando nas palavras de Jack, não esperava esse tipo de reação dele. Pelo perfil que tinham montado a respeito do médico, ele parecia ser alguém extremamente ciumento e possessivo em relação às mulheres com quem se relacionava, não perdoava traições de espécie alguma. Era honesto demais para isso.
- Está tentando me convencer que não se importa com a traição da Kate?- indagou Benjamin.
- Não estou tentando.- respondeu Jack. – Estou afirmando que não me importo com isso, você sabe como são essas coisas, estamos em uma ilha deserta, sem regras, nem leis, então Sawyer é um cara legal, meu amigo, que mal há em dividirmos a mesma mulher? Até porque eu e Ana-Lucia nos divertimos muito algumas vezes lá no acampamento. Tínhamos uma espécie de acordo entre nós quatro, ou seja, desde que não saísse do grupo, tudo bem pra mim.
- Como é que é?- questionou Ben, incrédulo. – Eu não acredito em você. Está me dizendo que dormia com Kate e Ana-Lucia ao mesmo tempo?
- Ao mesmo tempo não.- disse Jack. – Quando eu estava com Kate, Sawyer ficava com a Ana e quando ele estava com a Kate, eu ficava com a Ana. Funcionava mais ou menos assim.
Ben deu um sorriso de derrota:
- Nunca imaginei que você fosse um pervertido!
- E eu também nunca imaginei que um dia seria capturado por um cientista louco!- debochou Jack.
Benjamin não disse mais nada, e saiu da sala, sentindo-se momentaneamente derrotado. Assim que ele saiu, Jack voltou a ficar impassível, estava louco para sorrir, porque pela primeira vez sentiu que realmente ganhara de Benjamin. Só que sabia que havia câmeras no lugar, por isso preferiu se mostrar indiferente. Mas em seu pensamento, permitia-se comemorar sua pequena vitória. Era óbvio que mentira sobre essa história de relacionamento a quatro, mas não ia ser idiota de duvidar do amor de Kate mais uma vez, sabia que o coração dela era só seu, como também sabia que Sawyer amava Ana-Lucia, mesmo que estivesse morta. O jogo estava começando, e por enquanto o placar era 1 a1.
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Libby lavava o rosto na pia do banheiro da escotilha, estava exausta. Havia passado as últimas 24 horas cuidando direto de Michael, e graças ao seu empenho ele iria sobreviver.
- Libby, querida, você está aí?- indagou Hurley à porta do banheiro.
- Sim, Hurley. Eu já estou saindo.
Ela enxugou o rosto com uma toalha limpa e saiu do banheiro. Hurley estava sentado no sofá. Libby juntou-se a ele, aninhando-se em seus braços. Adorava a sensação de estar com ele assim, era como estar abraçada a um ursinho de pelúcia. Hurley deu um beijo na testa dela, Libby sorriu.
- E como estão as crianças?
- Elas estão bem.- respondeu Hurley. – Rose está cuidando bem delas. – E o Michael?
- Vai sobreviver!- ela disse apontando para ele, que dormia tranqüilamente no beliche do quarto. Vincent estava deitado lá no chão, aos seus pés, Walt o havia trazido mais cedo para que ficasse tomando conta de seu pai.
- Sabe, se o Jack não voltar mais...- disse Hurley com pesar na voz. – Você vai acabar assumindo o lugar dele de vez né?
- Pois eu espero que o Jack volte logo, se surgir uma situação mais complicada do que a de Michael, por exemplo, eu não poderei fazer nada, não sou uma médica realmente.
- Vai haver uma reunião aqui, daqui a pouco.
- Reunião?- indagou Libby.
- Sim, o Locke quer organizar um grupo de busca para ir atrás do Jack e dos outros.
- Mas isso é perigoso, não sabemos nem se eles ainda estão vivos. Já tivemos muitas baixas. Eles precisariam de um bom plano dessa vez!
- E nós temos um, irmã!- disse Desmond adentrando a escotilha, seguido por Locke, Sayid, Paulo, Eko, Jin e Charlie.
- Os cavaleiros da Távola Redonda!- gracejou Hurley ao vê-los tomando seus lugares na mesa redonda de madeira que havia sido construída por Eko e Charlie para ser usada durante reuniões como aquelas. Ele mesmo tomou seu lugar e a reunião começou.
- Estamos aqui para discutir como faremos para retomar nosso líder e os outros que foram seqüestrados de volta. Desmond sugeriu essa reunião quando eu manifestei o meu desejo de organizar um grupo de busca para ir atrás de Jack e companhia.- disse Locke, dando início à reunião.
- Eu concordo com o John que temos de ir atrás deles o quanto antes, aliás, acho até que já esperamos demais.- comentou Sayid. – Mas dessa vez não devemos cometer os mesmos erros, como levar conosco pessoas que não estejam aptas a prosseguir.
- Exato.- disse Paulo. – Aliás, eu não sei o que deu na cabeça de vocês para levarem duas mulheres grávidas consigo quando saíram para resgatar o Sawyer.
- Isso não vem ao caso.- falou Charlie. – Em vez de ficar criticando eu te pergunto, porque não se juntou ao grupo?
Antes que Paulo pudesse responder, Eko interveio:
- Não devemos ficar falando do passado, e sim da atitude futura que iremos tomar quando sairmos em busca de nossos companheiros seqüestrados, e nosso "brotha" Desmond disse que tinha um plano, por que não o ouvimos?
Desmond sorriu contente por estar sendo levado pela primeira vez a sério.
- O meu plano consiste em procurarmos a outra ilha para onde nossos amigos provavelmente foram levados, por mar.
Sayid fez sua expressão divertida:
- Seria um bom plano se eu mesmo não tivesse tido essa idéia antes. Quando o Michael arrastou Jack e os outros para aquela armadilha, eu e o Jin fomos para lá de barco, e foi assim que os resgatamos. Usar o mesmo plano não seria muito óbvio?
Jin falou várias palavras em coreano, ninguém entendeu, mas todos balançaram a cabeça assentindo, somente para não deixá-lo irritado.
- E daí se já usamos o barco, "brotha"? Podemos usá-lo de novo, de qualquer forma o que mudaria seria a estratégia, faríamos o caminho inverso, ao invés de irmos pela nossa praia, poderíamos partir de um porto natural encravado nas montanhas, e dar a volta na costa procurando a ilha.
- Tudo bem, a idéia é até interessante!- falou Paulo. – Porém, eu pergunto a vocês, que barco iremos usar, já que, pelo menos no que eu sei, o barco que vocês usaram na última missão foi quase totalmente destruído.
- Aí é que você se engana!- disse Libby que ainda não tinha se manifestado, estava apenas ouvindo. – O barco "Elizabeth", o qual presenteei ao nosso "brotha" Desmond há cerca de três anos atrás, está pronto para mais uma aventura.
- Presenteou o Desmond? Que papo é esse Libby?- questionou Hurley. – Você nunca me contou isso.
- Está pronto?- surpreendeu-se Locke. – Mas a última vez que eu vi o barco ele estava em frangalhos.
- Passamos quase um ano consertando-o e fazendo reformas.- disse Desmond. – Eu, Libby e...
- Euzinho aqui!- disse Charlie, afoito levantando a mão. – Está praticamente o "Pérola Negra".
Sayid sorriu:
- Então acho que temos o que precisamos. Só nos resta agora preparar as armas, mantimentos e definir quem vai.
Paulo sorriu também, entrando no clima, colocou sua mão sobre o centro da mesa. Todos os outros, incluindo Libby o imitaram. Locke proferiu as antigas palavras da literatura universal:
- Um por todos e todos por um!
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(Flashback)
Sawyer passou muitos meses na cadeia, mas fez exatamente o que combinou com Raquel Cortez na sala de interrogatório quando foi preso. Fez um acordo com o diretor corrupto do presídio e foi solto, ganhando de bônus uma boa quantia em dinheiro. Entretanto, durante o período em que esteve preso, Cassidy Philips o procurou com a notícia bombástica de que era pai de uma garotinha chamada Clementine. De início aquela notícia o surpreendera e o afligira bastante e Sawyer fez questão de deixar claro a Cassidy que jamais se envolveria na educação da menina, nem escreveria a tal carta que ela havia solicitado. Mesmo assim, quando o diretor do presídio o chamou para avisar que ele estava livre e que receberia o dinheiro, Sawyer mandou que depositassem tudo em uma conta em qualquer banco de Albuquerque no nome de sua filha, e que ela jamais viesse saber quem era seu benfeitor.
Mas com o passar do tempo, Sawyer começou a pensar bastante na garotinha, e uma imensa vontade de vê-la foi crescendo dentro dele, e ele telefonou várias vezes para a residência de Cassidy, desligando sempre que escutava a voz dela do outro lado da linha. Naquele momento, estava em uma loja de artigos infantis no centro de Los Angeles, havia comprado alguns brinquedos para a filha. Sentado numa lanchonete dentro da própria loja, não se cansava de admirar toda garotinha que via com seus pais, imaginando como seria a sua. No entanto sabia, que com a vida que levava nunca teria algo como uma família de verdade, morando em uma casa de cerca branca, sua infância não fora assim e ele se sentia incapaz de proporcionar algo diferente do que vivera para sua filha. Por isso, se manteria afastado. Mas precisava de um encontro com ela, apenas um.
Deu mais um gole no milk-shake que havia comprado e sorriu ao avistar uma figura conhecida vindo em sua direção.
- M! Há quanto tempo!- saudou, gracejando.
- James Bond!- respondeu Raquel Cortez tirando os óculos escuros enquanto devolvia o sorriso dele.
Durante o tempo em que ficara preso, Sawyer se correspondia constantemente com a Capitã Cortez e eles acabaram se tornando amigos, unidos por um ideal de vingança. Nas cartas usavam as alcunhas de Sra. M. e James Bond, fazendo alusão ao agente britânico fictício 007 e sua compenetrada chefe na organização secreta.
- Como tem sido a vida fora da prisão outra vez?- indagou Raquel, puxando uma cadeira.
- Melhor impossível!- respondeu Sawyer, sorrindo cinicamente.
- O que descobriu?- ela questionou indo direto ao assunto.
- Na semana passada, eu encontrei um dos meus contatos em um hotel. Ele me disse que existe um homem em Sidney, Austrália com um pequeno negócio gastronômico, chamado Frank Sawyer. Esse homem, segundo o meu contato esteve nos Estados Unidos há muito tempo atrás aplicando golpes. Esse nome te diz alguma coisa?
- O homem que me enganou se chamava Tom Sawyer. Mas isso não importa, sendo ele um criminoso, é óbvio que deve ter trocado de nome. Quando quer partir?
- Agora.- ele respondeu comendo uma batata-frita de um pratinho em cima da mesa.
Raquel pegou uma batata também: - Então você partirá amanhã, arranjarei o vôo, seu passaporte e outros documentos de viagem já estão todos carimbados. Cuidei disso pessoalmente.
- Você é eficiente, Capitã, eu gosto disso. Será que sua linda filha é assim também? Quando irá me apresentá-la?
Ela deu uma risada:
- Se você não fosse um golpista sem-vergonha, adoraria tê-lo como genro, mas não, minha filha já tem problemas demais.
- O que aconteceu?
- Muita coisa, mas basicamente se resume em uma só, minha filha é a minha imagem e semelhança, tão vingativa quanto eu. Gostaria que ela não fosse assim, que conseguisse esquecer e seguir em frente.
- Então eu e ela somos almas gêmeas, porque sou exatamente assim, jamais esqueço de algo, assim como você e foi isso que nos uniu. Eu realmente gostaria de conhecê-la.
- Pois eu espero que você jamais a encontre, pois tenho certeza que se apaixonariam perdidamente.- disse Raquel, irônica.
- Cuidado com as profecias, Capitã, elas podem se realizar. Mas estou só brincando, que chance tenho de conhecê-la, uma em mil? È por isso que penso nela como a mulher da minha vida, já que nunca irei encontrá-la, continuo me divertindo com todas as mulheres que encontro em meu caminho.
- Tem álcool nesse seu milk-shake? Está começando a falar bobagens.
Sawyer sorriu, degustando a última batatinha do prato. No dia seguinte estaria partindo para Sidney, Austrália, para fazer justiça com as próprias mãos. Porém, antes disso tomaria coragem e ligaria para Cassidy, veria a filha antes de partir.
- Sawyer, tem uma coisa que eu queria te perguntar.
- Pergunte!
- Por que transferiu todo o dinheiro que ganhou na prisão para uma conta em nome de outra pessoa?
- Você tem seus segredos, Capitã, e eu tenho os meus. Quem sabe eu te conte, no dia 30 de fevereiro, quando me apresentar à sua filha.
(Fim do Flashback)
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- Hora de acordar, Sawyer!- disse Juliet derrubando um balde de água fria sobre o corpo inerte de Sawyer no chão.
Ele sentou-se de um salto quando sentiu a água gelada sobre o seu corpo e afastou o líquido dos olhos com as costas das mãos.
- Mas que diabos pensa que está fazendo? Onde é que eu estou dessa vez?
- No meu quarto. Eu te trouxe até aqui porque quero dizer-lhe algo muito importante.- ela falou, sentando-se ao lado dele no chão.
- Sei!- debochou Sawyer. – Se quer me usar sexualmente e depois me matar faça isso logo, porque eu já estou cheio de vocês e seus joguinhos psicológicos.
- Sawyer você já confiou em alguém de verdade na sua vida?- ela indagou abrindo uma caixa de primeiros-socorros aos pés deles e passando um algodão embebido em anti-séptico nos ferimentos em seu rosto.
- Sim, na Oceanic Airlines, e veja o que me aconteceu!
- Eu estou falando sério.- protestou Juliet. – Eu vou te dizer uma coisa muito importante agora, e você vai ter de confiar em mim.
Sawyer balançou a cabeça negativamente:
- Seja lá o que você me disser, não espere adquirir a minha confiança, isso é ridículo.
Juliet então suspendeu a blusa branca, surpreendendo Sawyer.
- Está vendo alguma arma presa ao meu sutiã?
Em seguida, ela virou de costas e continuou:
- Se quiser, pode colocar suas mãos nos bolsos da minha calça para averiguar se tenho algum disparador de choques.
Sawyer o fez, revistando os dois bolsos dela, e constatou que aparentemente dizia a verdade.
- E então?
- E então que tem lugares que eu ainda não vislumbrei para ter certeza.- Sawyer respondeu cinicamente.
Juliet o ignorou:
- Agora preste atenção no que eu vou dizer, disso depende a sua vida, a da Kate, do Jack e inclusive a minha.
Continua...
