Um por todos e todos por um, parte II
- Jack...Jack...- sussurrou uma voz rouca ao ouvido do médico, distribuindo calafrios por todo seu corpo.
- O quê?- disse ele, levantando-se do canto onde estava sentado. Fazia uma meia-hora que Ben tinha saído daquela sala, e que Greg o tinha soltado das amarras que o prendiam a uma cadeira de frente para o monitor, que agora se encontrava desligado.
- Jack!- a voz insistiu, estranhamente era um timbre de voz muito familiar aos ouvidos dele.
Mas Jack não via ninguém, o que tornava a situação bizarra. Começou a andar pelo local, procurando um interfone ou um walk-talk perdido da onde o som pudesse estar saindo, mas não encontrou. Concentrou-se, para ver se escutava mais alguma vez:
- Jack, você tem que sair daqui!- disse a voz, e Jack esfregou os olhos diante da figura que se materializou a sua frente, inexplicavelmente.
- Ana-Lucia!Me disseram que você estava morta!- balbuciou Jack.
Ela se aproximou dele, altiva, usava a mesma roupa desde quando ele a vira pela última vez na barraca improvisada, onde dera à luz a seu filho. Jack deu um passo para trás, estava confuso. Ela ergueu a sobrancelha e deu um meio sorriso antes de tocar o ombro dele com o dedo indicador e indagar:
- Pareço morta pra você?
Jack abriu os olhos de repente, e se deu conta de que nada daquilo era real, estivera sonhando. Mesmo assim havia sido uma visão perturbadora. Ele apertou os braços em volta do corpo, estranhamente estava fazendo frio naquela sala, como se alguém tivesse ligado um potente ar-condicionado. Levantou-se e sentiu uma vontade imensa de ir até a porta. Quando lá chegou, percebeu que a porta estava entreaberta e que o vento frio vinha lá de fora, passando pela fresta.
"Eu não acredito", pensou consigo mesmo. Por que a porta estaria aberta? Descuido de algum dos Outros? Não, eles não eram estúpidos. Jack cedeu a tentação de averiguar o que havia atrás daquela porta, seria sua liberdade ou uma armadilha muita bem engendrada por Ben Linus e seu grupo?
Ele precisava correr o risco e descobrir. Colocou sua mão sobre a maçaneta fria de metal e a puxou bem devagar. O cenário lá fora não era muito diferente, um corredor sombrio mal iluminado e com cheiro de mofo. Aparentemente não havia ninguém. Jack hesitou um pouco em prosseguir, imaginando se não teria um algoz lhe esperando na primeira curva íngreme do corredor. Pensou por alguns segundos no que fazer e seguiu adiante, mesmo que tivesse alguém esperando por ele, tinha que arriscar, talvez fosse a única chance de escapar dali.
Caminhou com cuidado, pé ante pé, prestando atenção a tudo ao seu redor, mas o corredor continuou silencioso, nenhuma alma à vista. Jack seguiu em frente e assustou-se quando uma música ritmada começou a tocar, vinda não se sabia de onde.
Trilha Sonora: Aquarius/ Hair Soundtrack
Ele buscou com os olhos da onde poderia estar tocando aquela música, mas não encontrou nenhum aparelho de som, nem nada parecido. Era uma antiga canção da década de 70, Aquarius, que falava sobre a suposta chegada de uma época onde todas as pessoas seriam felizes como iguais, o amor seria livre, e não haveria mais guerras, miséria e violência.
Jack achou esquisito ouvir aquela música tocando ali. Chegou ao fim do corredor, o barulho da música ficou mais alto e ele viu outra porta entreaberta. Aproximou-se e a abriu com precaução. Não havia ninguém lá dentro também. Era uma sala de monitores de vídeo, com algumas cadeiras estofadas. A música que Jack ouvira no corredor estava tocando em um vídeo-clipe que passava em vários monitores, com exceção do monitor central, que exibia mais um daqueles vídeos de orientação da Dharma Initiative, protagonizado por aquele mesmo homem de traços orientais.
Em meio à música, Jack pôde distinguir o homem dizer a seguinte frase: "A Dharma Initiative é o destino da humanidade, a reconstrução do mundo. Lembrem-se sempre disso! Namaste, Thank you and Good Luck!
O vídeo saiu do ar, mas o vídeo-clipe continuou sendo exibido. Jack mexeu nos botões sintonizadores de imagem e um outro vídeo apareceu. A imagem chocou o médico. Na tela podia ver Benjamin Linus e Ana-Lucia. Ela estava presa em uma cama, toda amarrada e lutava para se soltar, seus olhos pareciam muito assustados. O vídeo não tinha áudio, mas dava para entender claramente o que estava acontecendo. Bem falava próximo ao rosto dela e tocava suas pernas, enquanto lágrimas desciam pelo rosto dela. Viu que ela cuspia nele e Benjamin parecia gritar com ela.
- Meu Deus, o que ele está fazendo com ela?- aquilo estaria acontecendo agora ou seria um vídeo já gravado, Jack queria fazer alguma coisa, mas não sabia o que. Juliet lhe dissera que Ana-Lucia estava morta, mas aquele vídeo era uma prova contrária, ou não. Jack viu Ben pegar uma enorme seringa e se dirigir à Ana-Lucia, ela começou a tremer na cama e chorar, embora Jack não pudesse ouvir seus gritos. – Ana, onde você está?- ele se perguntou, nervoso com a situação. Foi quando o vídeo saiu do ar e Jack não conseguiu descobrir aonde Ana estava.
Bateu forte com o punho sobre os botões do monitor, para retomar o vídeo, mas de nada adiantou. Olhou ao seu redor. Havia mais naquela sala além de monitores de vídeo e poltronas. Tocou em um pequeno botão escondido embaixo de um dos monitores e seus olhos se alargaram ao ver as portas de um armário embutido que ele ainda não tinha notado se abrir no canto esquerdo da sala. Dentro desse armário, havia diversas armas e munição. Jack apressou-se em carregar uma espingarda e uma pistola 9 mm. Colocou o suporte da espingarda, acomodando-a ao longo de seu corpo e enfiou a pistola no bolso de trás da calça. Já ia saindo quando resolveu pegar mais uma pistola, menor. Carregou-a e escondeu-a presa ao sapato, embaixo da barra da calça jeans.
Deu uma última averiguada do lado de fora para ver se era seguro prosseguir e seguiu em frente, encontraria seus amigos e daria o fora daquele lugar.
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Sawyer caminhava ao lado de Juliet, muito desconfiado, não acreditara em uma palavra do que ela dissera sobre tirá-lo dali desde que ele aceitasse levá-la consigo para o acampamento dos sobreviventes da Oceanic. Mesmo assim resolvera arriscar, não tinha nada a perder. Era isso ou ficar enclausurado em uma jaula para sempre, vez por outra sendo espancado por Ben e seus amiguinhos.
- Pra onde está me levando "Sidney Bristow?"- ele indagou a Juliet depois de caminharem cerca de dez minutos em silêncio por entre as árvores da floresta sem ver ninguém.
- Você vai ver por si mesmo.- ela respondeu sem parar de andar.
Sawyer deu um puxão no braço dela, e falou ríspido:
- E como eu vou saber que toda aquela conversinha que tivemos não foi apenas um jeito sórdido de me levar com as minhas próprias pernas para o matadouro?
- Não vai saber. Tem que acreditar apenas na minha palavra, James.
- Tá legal! E se eu não tiver engolido aquela sua história da carochinha de que você se cansou disso aqui e quer abandonar o navio, hã?- insistiu Sawyer, puxando-a outra vez, fazendo-a ficar de frente para ele. – Desde que a vi pela primeira vez você só se ocupou de me bater e me dizer desaforos, loira, então por que eu teria de confiar em você?
- Porque você não tem outra alternativa.- ela falou, soltando seu braço da mão dele com violência. – Apenas eu sei como escapar daqui, além disso, qual o seu problema em levar alguns socos e ouvir desaforos? Não foi assim quando conheceu a Ana-Lucia também? E olha só onde as coisas foram parar! Você gosta disso, cowboy, de ser dominado por uma mulher.- Juliet debochou.
Sawyer a imprensou em uma árvore, assustando-a momentaneamente. Ela tentou se mexer em meio aos braços fortes dele, mas Sawyer não lhe deixou espaço e tudo o que ela conseguiu foi friccionar seu corpo no dele. Sawyer rangeu os dentes:
- Nunca mais me chame de cowboy outra vez, ou eu não vou hesitar em te estapear até sangrar essa sua carinha linda.
E dizendo isso, ele a soltou. Juliet respirava entrecortadamente por causa do susto, levou uma mão ao peito, e murmurou:
- Rápido, abaixe-se!
- O quê?- ele questionou?
- Abaixe-se James!- ela repetiu, jogando seu corpo em cima do dele com força, fazendo com que eles tombassem no chão de terra batida.
- O que está fazendo, mulher?
- Shiiii!- ela disse unindo seus lábios aos dele, em um beijo lento, doce.
Sawyer deixou-se beijar, mas não correspondeu ao beijo. Depois de alguns segundos, ela parou de beijá-lo e levantou-se de cima dele. Sawyer sentou no chão e ficou olhando para ela com cara de quem não estava entendendo nada. Juliet explicou-se, falando baixinho:
- Tem homens armados do outro lado desse bosque, e eles estavam fazendo vistoria, ouvi os passos, se não tivéssemos nos abaixado eles nos descobririam. Agora levanta, precisamos ir!
Sawyer levantou-se, no entanto, mal ele fez isso dois homens armados com fuzis surgiram de uma clareira e apontaram suas armas para ele.
- Está tudo bem, doutora?- um dos homens indagou a Juliet.
- O que a senhora está fazendo aqui sozinha com esse homem?-perguntou o outro.
- Esse patife!- xingou Juliet, dando um soco bem dado no rosto de Sawyer, que gemeu de dor em resposta. – Estava tentando fugir outra vez, mas eu o capturei de volta.
- E com que arma?- questionou o primeiro homem.
Juliet levou a mão para trás do bolso da calça.
- Ah, a senhora tem um disparador.- concluiu o segundo homem.
- Podem ir, está tudo sob controle!- Juliet ordenou, fazendo menção para que Sawyer andasse na sua frente.
- Mas a senhora não prefere que um de nós dois a acompanhe enquanto escolta o prisioneiro?
- Não será necessário!- ela respondeu. – Apenas me entreguem um de seus fuzis.
O segundo homem entregou seu fuzil a ela e os dois se afastaram, desaparecendo na mesma clareira da onde tinham surgido.
- Agora temos que ir mais rápido, James!- avisou Juliet. – È só uma questão de tempo até aqueles dois idiotas comentarem com alguém que me viram com você aqui na floresta.
- Não, não!- protestou Sawyer. – Não dou mais um passo até que você me diga claramente onde está me levando.
- Está bem!- disse ela, respirando fundo. – Estou te levando para ver o seu filho!
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Kate esperara o dia inteiro por notícias de Sawyer, a tarde já estava caindo e nada de trazerem ele de volta para a jaula. Estaria morto? Aquele pensamento a horrorizou e Kate pôs-se a andar de um lado para o outro da jaula, até que uma coisa lhe veio à cabeça. Desde que Sawyer havia sido levado, ninguém mais tinha aparecido por ali, nem mesmo para levar-lhe comida. O lugar estava muito silencioso. Era realmente estranho.
- Hey!- Kate gritou. – Tem alguém me ouvindo?
Sua voz ecoou pela selva, seguida de uma revoada de pássaros assustados com seu grito, saindo do meio das árvores. Restou novamente o silêncio. Kate passou seus braços franzinos devido à intensa provação que vinha sofrendo pelas barras de ferro e teve uma idéia. Olhou pra cima, a jaula era toda revestida com barras de ferro até o teto, porém as barras de cima eram com certeza mais espaçadas entre si. Começou a imaginar que seu corpo esguio, apesar da gravidez, passaria sem dificuldade por entre as barras.
Sem pensar duas vezes, subiu em algumas pedras e escalou sem nenhuma dificuldade até as barras de cima, e sorriu ao constatar que realmente conseguia passar por elas. Acomodou seu corpo com cuidado por entre os vãos nas barras, e começou a sair, passando uma perna de cada vez. Sentiu vontade de gritar de felicidade quando se viu livre, sentada nas barras de cima. No entanto conteve-se para não chamar a atenção de quem porventura estivesse ali por perto. Escalou as barras até o chão e se posicionou entre as duas jaulas, decidindo em que direção deveria ir, até que optou por seguir o caminho para onde Juliet e seus capangas haviam levado Sawyer. Encontraria o amigo e com a ajuda dele resgatariam Jack.
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A nuvem de poeira que levantava do chão à medida que caminhava, fez os olhos de Sawyer lacrimejarem ao mesmo tempo em que sua garganta apertava. Olhou de soslaio para Juliet, que caminhava ao seu lado pelo extenso corredor de paredes manchadas e cheiro de mofo, e falou, sarcástico:
- Ora, ora, vejo que meu filho está muito bem instalado, eu realmente não tive porque me preocupar com ele todos esses dias. Por que ele precisaria de mim?
- Nem tudo é o que parece, Sawyer.- Juliet respondeu calmamente. – Agora vê se faz menos barulho enquanto anda, os matos tem olhos e as paredes tem ouvidos por aqui, você ainda não aprendeu?
Sawyer franziu o cenho: - Aprendi uma única coisa nesse lugar, que vocês não são bonzinhos, e se está mesmo me levando para ver o meu filho, tenho certeza que isso vai me custar caro.
Juliet voltou-se para ele:
- Já te dei o meu preço, só quero dar o fora daqui!
- E por que não o faz? Você é um dos "manda-chuvas"dessa bodega, sabe tudo o que se passa por aqui, conhece as saídas, se quer ir embora, então vá!
- Não é tão simples assim.
- E por que?- ele retorquiu. – Por acaso você é tão prisioneira nesse lugar quanto eu?
- Não posso simplesmente ir embora, Sawyer, pra onde eu iria? Uma desertora precisa ter um lugar para ficar depois da traição. Por isso recorri a você.
- Ok, entendi!- ele debochou. – Mas você poderia ter recorrido ao Jack, afinal ele é quem manda lá em "Smallville", eu sou apenas um plebeu.
Juliet balançou a cabeça:
- O Dr. Shephard é muito desconfiado, um líder nato, coloca a vida do seu povo acima da sua, não aceitaria fazer trato com o diabo, pelo menos é o que ele pensa que eu sou. Já você não Sawyer, o seu negócio é, e sempre foi fazer tratos, tudo o que lhe traga uma porcentagem mínima de lucro que seja. Portanto, não me pergunte mais porque o escolhi.
Sawyer não disse mais nada, as palavras de Juliet faziam todo o sentido. Jack realmente não negociaria, a não ser que o trato fosse em prol da salvação da humanidade, que na presente situação resumia-se à comunidade de sobreviventes do vôo 815 da Oceanic Airlines. Caminharam mais um pouco, até chegarem a um pequeno hall, onde havia uma única porta fechada. Juliet tirou um molho de chaves enferrujado de seu bolso e destrancou a porta.
Os olhos de Sawyer se alargaram ao vislumbrar o que havia atrás daquela porta. Era um lindo quarto de bebê, muito amplo e arejado, com janelas grandes que davam para uma bonita vista do mar, ao longe. As paredes do quarto eram pintadas de azul, com desenhos de personagem infantis ornamentando-as. Havia também um conjunto de móveis formados por uma cômoda, um berço, e uma cadeira de balanço de madeira, onde uma mocinha de olhos muito azuis e cabelos castanhos e cacheados embalava o pequeno James, enquanto dava sua mamadeira. Ela pareceu muito surpresa ao ver Juliet adentrar o quarto com Sawyer, mas nada disse e continuou alimentando o bebê.
- Alex, eu preciso que saia um pouco!- disse Juliet, dirigindo-se à menina.
- O que ele está fazendo aqui?- ela indagou em voz baixa, para não assustar o pequeno.
- Isso não é da sua conta!- Juliet respondeu, ríspida. – Apenas faça o que eu mando!
- O papai não vai gostar nem um pouco se souber que você o trouxe aqui.
- Não é problema seu!- insistiu Juliet. – Agora me entregue o bebê, e saia!
Alex levantou-se com cuidado da cadeira, e entregou o bebê a Juliet. O menino começou a chorar desesperado porque o bico da mamadeira escapou de sua boca enquanto Alex o passava para os braços de Juliet. Sawyer emocionou-se ao ouvir outra vez o chorinho do filho, e não pôde deixar de lembrar o momento em que o viu pela primeira vez, nos braços de Ana-Lucia, mamando. Estranhamente, aquela imagem pareceu-lhe tão distante, como se fizesse muito tempo que isso tinha acontecido.
- Pode ir dar uma volta, cuidar das suas coisas, eu cuido do bebê.- disse Juliet a Alex. – Soube que irá partir esta noite?
- Sim. – Alex limitou-se em responder e saiu do quarto, fechando a porta.
Por um momento, Sawyer pensou em perguntar para Juliet se Alex iria partir para a outra ilha, mas assim que ela saiu esqueceu-se do assunto, estava mais interessado em ficar com seu filho.
- Vai ficar aí parado?- indagou Juliet a Sawyer tentando pôr a mamadeira novamente na boquinha de James, mas o menino se debatia irritado, dificultando as coisas.
- È que não sei o que fazer.- respondeu Sawyer com sinceridade, jamais havia segurado uma criança tão pequena em toda sua vida.
- Hey, não é tão difícil assim, tente.- pediu Juliet enquanto o bebê continuava se debatendo.
Sawyer se aproximou dela e estendeu os braços timidamente para pegar James no colo:
- Ei, garotão, por que está chorando, hã? Papai está aqui! – ele falou manso, tentando ajeitar o menino nos braços.
- Segure a cabecinha dele direito, James!- disse Juliet ajudando- a ajeitar o bebê em seu colo.
James parou de chorar e instintivamente começou a procurar em Sawyer um seio que não existia.
- O que ele está fazendo?- perguntou para Juliet.
- Ele está com fome, quer mamar, você tem que dar a mamadeira para ele. Sente-se aqui!- Juliet indicou a cadeira de balanço e Sawyer se sentou, sem tirar os olhos do filho. – Tome a mamadeira.
Sawyer pegou a mamadeira das mãos de Juliet e com dificuldade começou a dar ao bebê. O menino se acalmou ao ser alimentado e Sawyer experimentou uma ternura completamente nova para ele. Ficou tocando a mãozinha do filho enquanto ele sugava o bico da mamadeira.
Juliet o fez. Sawyer diligentemente começou a dar a mamadeira para James.
- Isso meu filho, não chore mais! Tá aqui a mamadeira do nenê!
Juliet ficou parada lá, de pé, surpresa com o jeito carinhoso de Sawyer com o filho, à primeira vista ele não lhe pareceu o tipo "pai dedicado". A cena era realmente adorável.
- Saia!- pediu Sawyer.
- O quê?- Juliet indagou.
- Se quer mesmo um lugar para ficar quando sairmos daqui me deixe a sós com o meu rebento, tá ok? Tô a fim de trocar uma idéia com o garoto.
Juliet assentiu, e saiu do quarto, deixando Sawyer sozinho. Uma vez sozinho Sawyer pôde estravazar tudo o que estava sentindo naquele momento ao reencontrar o filho finalmente.
- Você cresceu, campeão!- disse ele, acariciando a cabecinha do menino.
James tinha os olhos azuis bem abertos, como se estivesse encarando o pai. Sawyer segurou uma das mãozinhas rechonchudas dele, e James instintivamente apertou seu dedo, fazendo com que uma lágrima rolasse dos olhos de seu pai.
- Seria tudo mais fácil se sua mãe estivesse aqui não é? Ela costumava dar jeito em tudo, nunca desistia de nada, não era uma covarde que nem eu, mas pretendo mudar isso. James, a vida não é fácil, às vezes você se sentirá rejeitado, mas nunca estará sozinho porque sempre estarei com você, mesmo que em espírito, assim como sua mãe. Você fará da minha força a sua, verá minha vida através dos seus olhos, assim como a sua será vista através dos meus. "O filho transforma-se no pai, e o pai transforma-se no filho".
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(Flashback)
Sawyer batia uma perna na outra, nervosamente enquanto esperava ansioso para ver sua filha, no sofá da casa de Cassidy Philips. Segurava em suas mãos trêmulas uma vaca de pelúcia, decidindo interiormente se tinha sido uma boa idéia ir até lá. Levantou-se abruptamente do sofá depois de esperar mais cinco minutos e já ia se dirigindo para a porta disposto a ir embora quando Cassidy apareceu novamente na sala.
- Desculpe a demora, mas ela está terminando de tomar a sopa com a minha sobrinha!
- Então é melhor eu ir embora.- ele respondeu estendendo a vaca de pelúcia para Cassidy. – Não quero atrapalhar!
- Não James, por favor, fique!- ela pediu. – Clementine precisa conhecê-lo.
Sawyer passou uma das mãos em seus cabelos loiros, num gesto típico de quem se sentia acuado.
- Olha Cassie, talvez não tenha sido uma boa idéia eu vir até aqui, viajo hoje mesmo para a Austrália, como eu te disse ao telefone, e se vou embora por que ela deveria me conhecer? Não sei quando volto e nem se vou me envolver...
- Por que me ligou então?- ela protestou. – Fiquei muito surpresa com seu telefonema e resolvi te receber mesmo depois de tudo o que você disse pra mim na prisão. E agora você quer ir embora depois de ter se dado ao trabalho de vir aqui, sem ao menos vê-la?
- Cassie...- ele começou a dizer quando uma voz feminina vinda da cozinha interrompeu a conversa deles.
- Tia Cassie? A Clemen já terminou a sopinha!
- Ok, Debbie. Já vou buscá-la.- Cassie respondeu, já se retirando para a cozinha.
Sawyer então resolveu ficar, e um minuto depois lá estava ela, sua filha. Toda vestida de cor-de-rosa, com brochinhos coloridos adornando os ralos cabelos loiros. Cassidy a colocou no chão, Clementine tinha quase dois anos, já sabia andar e falava algumas palavras.. A menina caminhou na direção de Sawyer como um robozinho, observando-o com curiosidade.
- Clemen, esse é o papai, lembra que a mamãe falou dele, filha?
Clementine cambaleou quando tentou dar mais um passo, e Sawyer instintivamente a segurou.
- Papai?- a menina disse, direitinho, tocando o nariz dele com a ponta do dedinho.
- Sim, princesa!- falou Sawyer, carregando a filha no colo e sentando com ela no sofá, pondo-a em seus joelhos. – Olha o que o papai trouxe pra você!
Os olhinhos da menina brilharam ao vislumbrar a vaquinha de pelúcia e ela estendeu as mãos gordinhas para pegá-la.
- Esta é a Matilde.- disse Sawyer. – Ela vai cuidar de você e da mamãe o tempo em que o papai estiver fora.
A essa altura, os olhos de Cassidy estavam lacrimejados. Apesar de tudo o que Sawyer fizera para ela, ainda o amava. Sentou-se ao lado dele, Sawyer olhou em seus olhos e tocou sua face, carinhosamente.
- Ainda te amo, Cassie e se você me aceitar de volta...
- Eu te amo, James!- ela disse, beijando-o.
- Mamãe, olha!- falou Clementine mostrando o bichinho que tinha ganhado para a mãe.
- Ah que linda vaquinha, Clemen!- exclamou Cassidy. – Foi o papai quem deu?
- Papai!- repetiu a menina enquanto puxava com força o rabo da vaca.
Sawyer e Cassidy voltaram a se olhar, ambos com os olhos cheios de lágrimas:
- Eu preciso muito ir a Sidney, baby. Mas quando eu voltar, vamos ficar juntos, nós três.
- Sim, James!- ela respondeu abraçando-o junto com sua filha.
Debbie, a sobrinha de Cassidy, observava a cena pela fresta da porta da cozinha. Seu coração batia forte, ela sempre sonhara em ver Sawyer, o belo homem da foto que dera o golpe em sua tia, pelo qual ela se sentia estranhamente atraída.
- Então ele vai pra Sidney?- ela falou consigo mesma, erguendo a sobrancelha.
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(Fim do Flashback)
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Todo aquele lugar parecia um imenso labirinto sem saída, no entanto, depois de muito percorrer os corredores escuros estranhamente vazios, Jack avistou literalmente uma luz no fim do túnel. Era um elevador, com a grade escancarada. Ao lado dele havia o símbolo da Dharma, cravado na parede em alto relevo, com os dizeres, "Estação Hydra".
Jack engatilhou a espingarda com destreza nas mãos e dirigiu-se lentamente até o elevador, esgueirando-se com cuidado para ter certeza de que ainda funcionava. Estava averiguando os botões quando ouviu passos atrás de si. Voltou-se rapidamente para trás com a espingarda prontamente apontada para quem quer que estivesse atrás dele.
Deparou-se com uma mulher em meio ao corredor mal-iluminado. Ela arregalou seus olhos castanho-claros para ele. Era morena, e tinha os cabelos lisos e curtos. Jack a reconheceu imediatamente:
- Cindy?
A mulher não disse nada, apenas ergueu as mãos para cima diante da ameaça do cano da espingarda de Jack.
- Você é a Cindy, não é?- insistiu Jack. – A aeromoça do vôo 815, a que me deu uma garrafa de vodka extra no avião, e que desapareceu misteriosamente durante a caminhada do grupo guiado por Ana-Lucia até o nosso acampamento.
- Eu não sei do que você está falando!- disse a mulher. – Como foi que você conseguiu escapar de sua cela?
- O que Eles fizeram com você?- Jack indagou.
- Eles quem?- rebateu a mulher.
- Os Outros.- Jack respondeu. – Os que me prenderam aqui!
A mulher deu uma risada sarcástica:
- Você não sabe de nada mesmo, não é? Acho bom me entregar essa arma e voltar para a sua cela.
- Venha comigo!- pediu Jack. – Talvez você esteja com amnésia devido a algum tipo de trauma que fizeram você passar aqui.
- Eu não tenho amnésia nenhuma.- ela afirmou.
- Certo!- disse Jack, friamente. – Então não vou sentir nenhum remorso em atirar em você caso não me ajude a colocar essa coisa para funcionar.
Cindy o obedeceu, viu em seus olhos que a ameaça era séria. Entrou no elevador sob a mira da espingarda, e mexeu em alguns fios soltos, fazendo a luz dos botões se acenderem.
- Terminou?- perguntou Jack.
- Sim.- ela respondeu. – Mas saiba que mesmo conseguindo deixar a Hydra, não conseguirá escapar da ilha, não existe mais nada lá fora, vocês são nossos!
Jack deixou apenas que ela terminasse sua sentença, depois disso, sem que ela esperasse, deu uma pancada em sua cabeça com o cano da espingarda. Ela desmaiou imediatamente. Jack passou as mãos pela cabeça, observando-a caída no chão, tentando imaginar o que teriam feito com ela.
Entretanto, fosse lá o que tivessem feito, ele não podia fazer nada naquele momento, Cindy por alguma razão já não era a mesma. Certificou-se de que ela estava completamente desacordada e a carregou para fora do elevador. Fechou a grade e ligou o botão. O elevador subiu vagaroso, as roldanas que prendiam as correntes faziam um barulho irritante enquanto ele subia, e por um momento, Jack teve medo que as correntes arrebentassem e ele fosse parar no fundo do fosso junto com elas, porém depois de três dois minutos que pareceram a ele uma eternidade, chegou ao seu destino.
Abriu a grade, ao mesmo tempo em que posicionava sua arma, preparado para qualquer coisa. Mas não apareceu ninguém, era só mais um corredor escuro. Porém, dessa vez, o corredor escuro terminava em uma saída. Uma porta cuja fechadura estava quebrada e que dava direto na floresta.
Jack atravessou a porta e sorriu ao sentir a brisa do fim de tarde, estava livre. Ficou pensando por alguns segundos em que direção deveria ir, até que decidiu seguir para o lado esquerdo, se embrenhando na floresta. Tinha que sair dali rápido, pois assim que alguém encontrasse Cindy desacordada perto do elevador, com certeza viriam atrás dele.
Caminhou a passos rápidos por entre as árvores, até que ouviu um farfalhar de folhas, alguém estava vindo em sua direção. Jack respirou fundo, ele atiraria para matar, ninguém iria impedir sua fuga. Pôs o dedo no gatilho e se preparou, suava frio.
Foi nesse momento que Kate surgiu diante dele, mas Jack não conseguiu impedir que seu dedo não apertasse o gatilho.
- Jack!- Kate gritou, se abaixando. E por um milagre a bala passou de raspão em seu braço, arrancando um pedaço dolorido de sua pele.
Jack travou a espingarda, e a largou no chão, precipitando-se até Kate. Ela fechou os olhos de dor e levou a mão ao braço ferido, cujo sangue escorria abundante.
- Kate, me desculpe, eu não quis, eu pensei...
- Estou tão feliz em ver você!- ela disse, esboçando um sorriso.
Ele sorriu também e a abraçou. Beijou sua testa, e disse:
- Deixe-me ver o seu braço.
- Como você conseguiu fugir, Jack?
- È uma longa história!- ele respondeu. – Mas agora precisamos sair daqui!
Jack rasgou um pedaço da camisa e envolveu no braço dela, estancando o sangue.
- Não podemos ir sem o Sawyer.- disse Kate.
- Temos que encontra-lo e a Ana também, Kate eu vi um vídeo...
- Que vídeo?
- Ben Linus está mantendo Ana-Lucia em algum lugar e fazendo coisas horríveis com ela.
- Mas me disseram que ela está morta, Jack?
- Eu já não sei ao certo.
- Juliet tirou o Sawyer da jaula hoje de amanhã, falou algo sobre levá-lo para o quarto dela.
- Deve haver um alojamento deles por aqui.- disse Jack, se abaixando e tirando a pistola que tinha escondida no sapato e entregando-a para Kate.
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- Sawyer, agora precisamos ir!- disse Juliet, à porta do quarto de James.
Sawyer ergueu os olhos para ela, tinha conseguido dar toda a mamadeira para o bebê, que agora dormia tranqüilo em seus braços.
- Ótimo, pegue tudo o que puder carregar!
- Como é?- indagou Juliet.
- Nós vamos levá-lo conosco. Portanto trate de pegar as roupinhas, fraldas, brinquedos e principalmente as latas de leite em pó e a mamadeira.
- Sawyer, você enlouqueceu? Não podemos levá-lo em nossa fuga, é muito arriscado.
- E você acha que ele vai ficar melhor aqui? Eu sou o pai dele, James já perdeu a mãe, precisa de mim! Além disso, Kate vai me ajudar a cuidar dele, tenho certeza!
- Sawyer, nós não podemos fazer isso!- ela insistiu.
- Ótimo, então pode esquecer o nosso acordo porque assim que conseguirmos chegar ao acampamento, você será linchada!
- Está bem!- ela disse resignada, e começou a enfiar tudo o que seria útil a eles em uma sacola de bebê.
- Segure-o pra mim!- pediu Sawyer.
Juliet colocou a sacola em cima da cômoda e pegou James. Sawyer tirou o cobertor felpudo de dentro do berço e envolveu em volta de seu corpo, amarrando-o estrategicamente.
- O que é isso?- perguntou Juliet.
- Eu não sei o nome.- ele respondeu. – Vi o Charlie fazendo isso uma vez para carregar o bebê da Claire. Pronto, coloca ele aqui!
Ela o acomodou junto ao corpo de Sawyer e em seguida pegou a sacola, ao mesmo tempo em que enfiava o fuzil em seu ombro. Olharam-se, era um acordo silencioso que culminaria com a fuga de todos daquela ilha, de volta à sua ilha original.
LOST
Continua no próximo episódio...
