Episódio 4: "A Escotilha das 7 Mulheres"
Sinopse: Os homens mais uma vez estão partindo em uma missão e sete corajosas mulheres precisam proteger o acampamento. Jack, Sawyer e Kate continuam lutando para escapar da outra ilha. Um fio de esperança povoa os pensamentos de Sawyer pois Ana-Lucia pode estar viva.
Censura: M.
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Ainda era possível ouvir o "cri-cri" incessante dos grilos na madrugada, mas ele já estava de pé, totalmente vestido organizando um sem fim de coisas que levaria em mais uma jornada rumo ao desconhecido. Será que sua ajuda dessa vez faria alguma diferença, e o grupo de homens que partiria da praia com a missão de resgatar seu tão necessário líder médico Jack Shephard teria sucesso? Não sabia, sua mente era um mar de incertezas, tão incerto quanto o mar real que estava preste a enfrentar. Era verdade que desejava conseguir resgatar seus amigos naquela missão, mas não fora só por isso que se oferecera para ir e que passara tanto tempo consertando seu velho barco. Ele queria descobrir a verdade, e se a verdade não estava lá fora, onde mais poderia estar? Como saber se existiriam meios de escapar daquela ilha sem tentar ir atrás de um caminho concreto? Por que não salvar Jack e seus amigos, e de quebra encontrar o caminho de volta para casa? O caminho de volta para Penny?
Olhou para o chão da barraca, onde numa cama improvisada com uma colcha de retalhos dormia Tina, a mulher com quem dividia seus sonhos e aflições há alguns meses. Sorriu admirando seu belo rosto iluminado pela luz da lua. Ele pegou sua mochila, e caminhou com cuidado, sem fazer barulho, não queria acordá-la, porém, antes que deixasse a barraca, Tina o chamou com a voz sonolenta:
- Des? Onde você vai?
- Já está na hora, my lovely!- ele respondeu tranqüilamente, com seu acentuado sotaque escocês.
Um sinal de tristeza transpareceu no rosto de Tina, e ela sentou-se na colcha de retalhos.
- Você tem mesmo que ir, Des? Acho isso tudo tão arriscado.
- E o que não é arriscado por aqui, dear? Precisamos resgatar Jack e os outros, nosso acampamento está cada vez mais enfraquecido, não podemos deixar quatro dos nossos à míngua.
Ele sentou-se na colcha, de frente para ela, e acariciou seus cabelos loiros:
- Prometo que terei cuidado, e voltarei logo pra você.
Tina beijou-o com sofreguidão, seu coração doía dentro do peito, estava com um pressentimento de que uma coisa muito ruim iria acontecer em breve, e de que eles não estariam preparados para impedir.
- Desmond!- chamou Locke do lado de fora da barraca. – Sayid nos espera no centro da praia para uma reunião importante antes de partirmos, Tina deve vir também, o que dissermos será do interesse de todos.
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( Flashback)
- Está nervosa?
A menina balançou a cabeça negativamente sacudindo seu laço de fita vermelho que contrastava com seus longos cabelos loiros e lisos. Sua mãe sorriu, Tina era uma garota muito tranqüila em todos os momentos. Havia acabado de completar dezessete anos, e era o orgulho de sua família. Pela primeira vez iria cantar sozinha na igreja, e todos do pequeno povoado tinham ido vê-la.
Tina vivia com sua família, composta dos pais e mais três irmãos, em uma vila na Nigéria. Seu pai era um militar norte-americano e havia sido transferido para lá havia três anos. Desde sua chegada àquele lugar tão cheio de miséria, doenças e assolado pela guerra, Tina transformara tudo ao seu redor. Passava a maior parte de seu tempo cuidando dos doentes, ensinando as crianças a ler e escrever, e ajudando a manter a única paróquia do lugar, administrada pelo bondoso Padre Yemi.
Naquela manhã de domingo, a igreja estava lotada para a estréia do solo de Tina. Muitos comentavam sobre sua bela voz e o poder que tinha em encantar as pessoas, mas tudo não passava de lenda até agora. Finalmente Tina faria uma demonstração de seu poder para os fiéis da igreja do Padre Yemi.
- Caros irmãos e irmãs.- anunciou o Padre. – Nesta doce manhã, estamos reunidos aqui para ouvir a voz de Deus que se manifesta através das cordas vocais de Cristina Macphee.
As pessoas aplaudiram entusiasmadas, inclusive seus pais, sentados nos primeiros bancos da igreja.
- O Padre Jordan, que coincidentemente chegou a nossa paróquia há cerca de três dias irá executar no órgão a canção "Ave Maria" que será interpretada por Cristina.- acrescentou o Padre Yemi.
Tina foi ao centro do altar e começou a cantar. Sua voz encheu a igreja, e agraciou os corações de todos os presentes. Vê-la cantar era como observar um anjo que havia descido do céu para iluminar com seu canto e sua luz todas as coisas ruins que existiam na Nigéria, trasnformando-as em coisas boas. O Padre Yemi tinha lágrimas nos olhos, a voz de Tina só poderia ter sido um presente de deus.
Ao final da canção, tímida a menina fez uma reverência à platéia e disse, suavemente: - Obrigada, muito obrigada.
A igreja inteira irrompeu em aplausos. Ela trocou um olhar meigo com o Padre Jordan que sorriu embaraçado enquanto a aplaudia junto com os demais presentes.
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(Fim do Flashback)
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- Você ouviu isso?- sussurrou Jack para Kate. Os dois estavam deitados, abraçados diante de uma pequena fogueira acesa para iluminar o ambiente.
- Eu ouvi sim.- ela concordou. – Parece o choro de um bebê, mas o que um bebê estaria fazendo de madrugada no meio da floresta?
De repente, um pensamento passou por sua cabeça, e ela deu um belo sorriso:
- Ana? Só pode ser ela Jack, está nos procurando, com o bebê.
- Kate, talvez seja uma armadilha.- disse Jack lembrando-se de que vira Ana-Lucia presa em uma sala branca naquele vídeo horrível em que ela era intimidada por Ben.
- Mesmo assim temos que aveirguar.
Kate ficou de pé. O choro tornou-se mais próximo. Ela gritou:
- Ana-Lucia!
- Kate, não grite! Não sabemos se é mesmo ela! Pode ser uma armadilha para nos capturar, escute, quando fugi da cela eu assisti a um vídeo onde Ana-Lucia aparecia amarrada em uma cama...
- Ela pode ter fugido assim como nós, e está com o bebê, precisa da nossa ajuda. Ana-Lucia!- Kate chamou mais uma vez, ainda mais alto, indo em direção ao choro do bebê.
- Kate, volta aqui!- falou Jack indo atrás dela, engatilhando sua arma caso isso não passasse de uma armadilha, mas em seu íntimo queria acreditar que era Ana-Lucia quem estava próximo deles com seu bebê.
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- Fica calmo, garoto! Vai ficar tudo bem!- disse Sawyer, baixinho para o bebê.
- Sawyer, você tem que fazer ele ficar quieto.- disse Juliet, nervosa.
- Eu estou tentando não está vendo? Sou pai de primeira viagem ou você se esqueceu, loira?- ele reclamou impaciente, sacudindo o bebê junto ao peito, tentando acalmá-lo.
- Eu estou ouvindo passos, acho que estão vindo atrás de nós. Se nos pegarem, seremos executados.
Sawyer balançou a cabeça negativamente:
- Não acha que essa política de vocês é muito radical?
- Ana-Lucia!
- Você ouviu isso?- indagou Juliet. – Essa voz me soa familiar...
- Porque é a voz da Kate.- disse Sawyer levantando-se do chão. – E ela está chamando a Ana-Lucia, será que a encontrou?
O coração dele começou a bater mais forte diante da possibilidade de sua amada estar viva. Porém, dessa vez foi Juliet quem balançou a cabeça:
- Impossível, ela está morta!
- Você viu o corpo dela?
Juliet não disse nada. Sawyer a deixou sozinha seguindo na direção da voz de Kate.
- Sawyer!- Juliet chamou indo atrás dele.
- Kate!- gritou Sawyer.
Jack esboçou um sorriso ao ouvir a voz dele:
- È o Sawyer!
- Então vamos!- disse Kate, ansiosa para rever o amigo.
Entretanto, Jack a puxou:
- Não Kate, é melhor nós termos cuidado. E se estiverem usando o Sawyer para nos encontrar?
Mas a dúvida do médico se desfez assim que viu o amigo surgir do meio das árvores, segurando o filho nos braços.
- Oh meu Deus!- exclamou Kate, e seus olhos se encheram de lágrimas ao ver o bebê no colo de Sawyer. – Você recuperou seu filho?
Ela se aproximou dele e tomou o menino em seus braços, embalando-o suavemente.
- Oi, fofinho. Senti sua falta!
- Doutor?- saudou Sawyer com um sorriso.
- Pra que tanta cerimônia!- falou Jack abraçando-o, enquanto Sawyer dava tapinhas calorosos em suas costas.
Os três sorriam, felizes por estarem juntos de novo. No entanto, o sorriso de Jack e Kate se desvaneceu ao verem a presença de Juliet logo atrás de Sawyer. Kate esbravejou:
- O que essa mulher está fazendo aqui?
- Olá pra você também, Kate!- falou Juliet, com sua costumeira expressão sarcástica e serena ao mesmo tempo.
Kate encarou-a furiosamente de volta. Jack repetiu a pergunta dela, diretamente para Juliet:
- Sério, o que você está fazendo aqui? Veio nos capturar de volta?
Foi Sawyer quem respondeu:
- Ela está comigo porque fizemos um trato.
- Que tipo de trato?- assustou-se Kate, imaginando se Sawyer teria passado para o lado dos Outros na tentativa de recuperar seu filho, como Michael havia feito há algum tempo atrás.
- Ela nos tira daqui e em troca a aceitaremos em nosso acampamento.
- Como é?- indagou Jack, incrédulo, passando as mãos pela cabeça.
- Isso mesmo o que você ouviu.- afirmou Sawyer. – E para provar que ela estava me dizendo a verdade, a loira aqui, me levou até o meu filho.
- Sawyer!- bradou Kate.- Como pode ter acreditado nessa mulher? È óbvio que tudo isso não passa de um plano sádico para nos encurralar ainda mais. Fomos capturados por essa gente, aprisionados em jaulas, por Deus! Isso sem falar do sumiço da Ana, você já esqueceu?
- È claro que eu não esqueci!- gritou Sawyer, nervoso, seus lábios tremiam. – Penso nisso todos os dias.
- Eu não tive nada a ver com a morte dela.- defendeu-se Juliet. – Só sei o que me contaram, eu nem sequer a vi morta. E por que ficam agindo como se eu não estivesse aqui? Sawyer está dizendo a verdade. Como acham que conseguiram escapar de suas prisões? Eu dei um jeito de burlar a segurança para que conseguissem fugir, aproveitei a ausência de Benjamin.
- Ausência?- questionou Jack.- Nossa, há tantos lugares para se ir por aqui. Se ele não está nessa ilha, provavelmente está na outra ou então eu estava enganado e sim, vocês possuem contato com o mundo exterior, e Ben aproveitou para tirar longas férias desse lugar.
- Não precisa ser tão desconfiado Jack, existe muitas coisas que vocês não sabem.
- Ah é?- retorquiu Kate. – Então que tal começar a nos dizer?
- No tempo certo.- disse Juliet, por ora temos que nos preocupar em sair daqui. Consegui enganar a segurança, mas isso não vai durar muito tempo. Precisamos chegar ao litoral.
- E o que vamos fazer quando chegarmos lá? Atravessar nadando até o outro lado?- perguntou Kate, muito irritada.
Jack balançou a cabeça negativamente:
- Eu simplesmente não consigo acreditar em você, e nem você deveria, Sawyer. Você sabe quem eu vi antes de conseguir escapar hoje?
Sawyer franziu o cenho, esperando pela resposta. Kate também prestou atenção, ainda embalando James.
- Cindy.- falou Jack, com firmeza.
- Cindy?- repetiu Sawyer. – A aeromoça que desapareceu no dia em que a Ana atirou na Shannon?
- Exatamente.- confirmou Jack. – E ela não me pareceu nem de longe a Cindy que eu conheci no avião, ela simplesmente se tornou um Deles, não sei como fizeram, mas isso aconteceu, e por mais absurdo que isso possa parecer, eu acredito que eles irão fazer o mesmo com a gente.
- Isso é ridículo!- falou Juliet. – Você nem sabe se a viu mesmo, Jack, se existe uma coisa que eu aprendi desde que cheguei a esse lugar é que nem tudo o que vemos é real.
- Quem está sendo ridículo agora?- debochou Kate.
Sawyer estava chocado, tentando absorver a informação.
- Ouçam!- pediu Juliet. – Ficar aqui conversando no meio da mata de madrugada não vai nos levar a lugar algum. Precisamos chegar até o litoral e roubar um barco que nos leve de volta à outra ilha.
- E como vamos ter certeza de que está nos levando para o litoral?- perguntou Jack.
- Não terão certeza! Precisarão confiar em mim. Vamos!
Juliet saiu andando na frente. Os três se entreolharam pensando que decisão iriam tomar. Sawyer estendeu os braços para pegar o filho:
- Precisamos ir com ela, tenho que arriscar. Não quero que levem o meu filho outra vez.
- Se você vai arriscar, então arriscaremos todos nós.- disse Jack.
- Eu levo o James!- falou Kate. Sawyer assentiu.
- Podemos ir estar indo com ela agora, mas uma coisa eu digo a vocês, só saio desse lugar quando encontrar a Ana.
Jack sentiu vontade de contar a Sawyer sobre o vídeo que tinha visto, mas achou que aquele não era um bom momento. Os três seguiram então na trilha de Juliet, e esperavam que ela estivesse realmente do lado deles.
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Era madrugada ainda, mas as pessoas no acampamento dos sobreviventes estavam bem acordadas, reunidas no centro da praia para o pronunciamento que Locke iria fazer. Seus rostos denotavam aflição porque sabiam que mais um grupo dos seus iria partir rumo ao desconhecido, e a incerteza de sua volta trazia pesar em seus corações.
- Nós estamos partindo essa madrugada.- dizia Locke. – Vamos tentar trazer de volta nosso líder médico Jack, assim como Kate, Sawyer e Ana-Lucia que foram covardemente aprisionados pelos nossos inimigos, os Outros.
- Temos um bom plano, no entanto, poucas armas e munição.- completou Sayid. – Portanto os riscos que corremos são muito grandes.
- Devido a esses riscos, vamos precisar de mais gente que o habitual para tentarmos obter algum sucesso nessa missão.- continuou Locke. – Por isso, aviso a todos que a maior parte dos homens de nosso acampamento estará empenhada nessa busca. Os que ficarem, farão o seu melhor para proteger cada pessoa desse acampamento. Eu sou o líder na ausência de Jack, e Sayid na minha. Mas como ambos estaremos fora, incluindo Desmond e Eko, Libby ficará responsável pelo acampamento como médica. Craig, Neil e Pedro cuidarão da segurança propriamente dita.
- Pedimos a todos que evitem ficar andando a esmo pela floresta, para evitar riscos, e que continuem o turno da escotilha mantendo as coisas devidamente funcionando. Obrigado.- finalizou Locke.
As pessoas começaram a se dispersar conversando entre si sobre suas impressões a respeito de tudo o que havia sido dito. Jin correu até sua barraca e apanhou sua mochila, que já estava arrumada com tudo o que iria precisar levar. Sun ficou observando-o com uma expressão triste no rosto, à porta da barraca.
- Por que você tem que ir?- indagou em coreano.
- Porque eu sou um exímio navegante, querida.
- Mas e se algo acontecer? Somos uma família, temos um filho.- ela falou chorosa. – Jung precisa do pai.
Jin olhou para o bebê que dormia tranqüilo no berço que havia sido de Aaron. Foi até o filho e acariciou seus cabelos negros, que de tão lisos chegavam a ser espetados.
- Sun, eu não posso ficar aqui de braços cruzados enquanto todos fazem alguma coisa para tentar resgatar Jack. È o meu dever como cidadão desse acampamento. E se fôssemos nós que tivéssemos sido capturados? Eu iria querer ter esperanças de que alguém nesse acampamento estivesse se esforçando para nos ajudar.
Sun baixou a cabeça, sabia que ele tinha razão, mas era impossível não ficar preocupada. Jin colocou a mochila nas costas e beijou carinhosamente a testa da esposa.
- Vai dar tudo certo, querida.
- Jin, está na hora!- avisou Paulo, empolgado. Era a primeira que iria partir em uma missão.
Lá fora, o clima era de despedida. Sayid preparava suas armas, como o bravo soldado que era. Shannon se aproximou dele, sorrindo:
- Tenho tanto orgulho de você, sei que vai conseguir trazê-los de volta.
- Princesa.- ele murmurou.- Melhor do que partir para a guerra é retornar vitorioso, de volta aos braços de sua amada.
Ao lado deles, Desmond despedia-se de Tina.
- Se me disser "te vejo em outra vida", juro que atiro em você!- ela gracejou.
Desmond riu: - Não direi isso dessa vez, my lovely! Até a volta.- beijou-a.
- Charlie, promete que vai comer direitinho.- falou Claire ao roqueiro acariciando os cabelos dele, preocupada enquanto trazia Aaron pendurado em sua cintura.
- Não se preocupe, eu vou ficar bem. Não vou me esquecer de marcar o caminho com pedrinhas brancas de volta para você e o cabeça- de- nabo!
Eles abraçaram-se. Charlie beijou os cabelos do filho, e disse: - Claire, dê lembranças ao Hurley, já que ele está na escotilha não poderei me despedir do meu amigo.
Claire assentiu.
- Eko!- chamou Tina. Ele estava escorado a uma árvore, organizando o mínimo que levaria consigo na viagem.
- Sim, Cristina?
- Poderia ouvir minha confissão antes de partir?
Ele afirmou com um gesto da cabeça.
- Você é o único que conhece o meu passado, sabe o que eu fui capaz de fazer um dia. Queria que me absolvesse dos meus pecados. Estou com um pressentimento ruim.
- Pressentimentos não devem ser ignorados, e eu poderia te absolver já que todos pensam que eu sou um padre de verdade, mas você conhece o meu passado tanto quanto eu conheço o seu. Termos nos reencontrado aqui nessa ilha talvez não tenha sido coincidência, e sim uma oportunidade de nos redimirmos, já soa como absolvição de nossos pecados, não acha?
- Você parece o padre Yemi falando. Quando foi que vocês se tornaram um só? Não importa se você não estudou teologia como ele, você é um excelente representante de Deus para nós nesse lugar sombrio.
Eko beijou a mão dela: - Eu te amo Cristina, sempre amei.
- Mr Eko, vamos!- chamou Locke, apressado. O grupo já estava se encaminhando para fora da praia, em direção à floresta, rumo ao esconderijo do barco de Desmond. Tina fez um sinal com a cabeça para que Eko prosseguisse. Libby se aproximou dela com o pequeno Zack no colo e segurando Emma pela mão, falou, observando os homens indo embora:
- O tempo passa e algumas coisas nunca mudam!
- Nossos homens indo para a guerra.- disse Sun embalando Jung em seus braços.
- E nós ficamos esperando que eles voltem!- completou Shannon.
Rose que estava ao seu lado a abraçou. Claire com Aaron ao colo e Nikki também se juntaram a elas e ficaram olhando o grupo ir embora até que sumissem no horizonte.
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( Flashback)
A porta da igreja se fechou com estrondo, e ela saiu de seu esconderijo, embaixo da mesa do altar. O Padre Yemi estava parado no meio da igreja, tentando absorver as palavras e ameaças cruéis de seu irmão, que insistia para que ele o ajudasse a transportar drogas para fora da Nigéria em troca de dinheiro para comprar vacinas para a população. Ouviu passos atrás de si, e voltou-se com o semblante sério:
- Você não deveria estar na escola, Cristina?
- E de que serve estudar Padre Yemi, se a vida por aqui não irá mudar nunca? Não enquanto existirem homens como o seu irmão.
Yemi franziu o cenho e tocou os ombros dela num gesto protetor:
- Cristina, agora me ouça! Sei que possui um grande coração e que dá o melhor de si em nossa comunidade para tornar a vida das pessoas menos cruel, mas chegará o dia em que em que irá embora e as coisas por aqui continuaram como sempre. Portanto, me prometa que não se envolverá nessa história.
- Sim Padre Yemi, eu prometo.
Entretanto, aquela promessa foi somente para aplacar os anseios do bondoso Padre Yemi. No dia seguinte, ela pediu emprestado o carro de seu amigo, o jovem Padre Jordan e saiu às escondidas, de bar em bar na vila, tentando descobrir onde poderia encontrar um homem chamado Mr. Eko.
- Oh, Deus, minha filha!- exclamou a dona de um desses precários estabelecimentos. – Esse homem é o diabo encarnado em gente. Por que quer achá-lo?
- Tenho um assunto particular para resolver com ele.
- Para fazer pacto com o demônio, meu anjo, é necessário pagar o preço.
- Isso é suficiente?- indagou Tina, tirando algumas notas amassadas de uma bolsinha que trazia a tira colo.
Os olhos da mulher brilharam quando viu o dinheiro, e ela apressou-se em tirá-lo das mãos de Tina.
- Há 3 Km daqui, há um bar que consegue ter uma reputação ainda pior que a do meu. Chama-se "Risca-Faca". Com certeza encontrará Mr. Eko por lá. Mas não diga, criança, em hipótese alguma que soube disso por mim, ou então estarei morta.
Tina assentiu e saiu do bar. Era uma completa loucura o que estava fazendo, uma mulher sozinha dirigindo numa estrada deserta da Nigéria em meio à guerrilha. Mas o perigo era a última coisa que lhe importava, queria olhar nos olhos de Mr. Eko e dizer a ele que não tinha o direito de obrigar o Padre Yemi a colaborar com o tráfico de drogas.
Percorridos os três quilômetros, debaixo do sol escaldante da África, Tina chegou ao "Risca-Faca". Era um lugar lúgubre, um antro de perdição, escuro e sombrio mesmo sob a luz do dia. Tina entrou determinada, mas em seu íntimo era muito difícil não se chocar com as coisas grotescas que vislumbrou no bar, alcoolismo, drogas e prostituição. Ao vê-la entrar, um sujeito gordo, fumando uma espécie de cachimbo, se aproximou dela e tocou as pontas de seus cabelos loiros.
- O que um raio de sol como você está fazendo aqui? Procurando trabalho, bebê? Você não me parece o tipo!
- È porque não sou!- ela respondeu com seriedade, afastando as mãos sujas dele de seus cabelos. – Procuro Mr. Eko.
O homem deu uma risada feia, que terminava em um ronco, o que tornava inevitável não compará-lo a um porco.
- Quer falar com Mr. Eko? Você é mesmo pretensiosa, garota!
De repente, um homem muito alto, extremamente forte, de olhos castanhos acesos, pele retinta e expressão austera surgiu das sombras.
- E o que um anjo teria para falar com o diabo?- sua voz grave ecoou pelo recinto e o homem gordo afastou-se amedrontado.
Tina sentiu uma certa aflição no peito diante da presença intimidadora daquele homem, mas não se deixou abater, já que estava lá, iria até o fim com aquilo.
- Na verdade, Mr. Eko, é um assunto muito importante e particular. Existe um lugar mais reservado onde possamos conversar?
Os olhos azuis dela travaram com os olhos castanhos dele, não demonstrava nenhum medo, e Eko sorriu, exibindo seus dentes muito brancos. Fez um sinal para que ela o acompanhasse. Tina o seguiu, pedindo a Deus que a protegesse. Eko levou-a até um escritório nos fundos do bar.
- E então?- ele indagou, enquanto ligava um velho ventilador de teto, que fez um barulho irritante quando começou a rodar.
- Quero que nunca mais vá à igreja ameaçar o Padre Yemi.
Eko fez uma expressão divertida e aparentemente ignorou o comentário dela:
- Não quer sentar, tomar um pouco de água?
- Estou bem de pé!- ela respondeu, ríspida. – O que me diz? Por que não deixa o Padre Yemi em paz?
Mr. Eko serviu-se de um pouco de água em um copo descartável e riu, sarcástico:
- O que uma menininha como você sabe sobre a vida? Nunca passou fome, e nem as noites em claro temendo que sua família fosse assassinada. Você canta no coral da igreja, com uma voz celestial e acha que por isso pode mudar o mundo?
- Já me ouviu cantar?- perguntou, surpresa.
Eko se aproximou dela e tocou seus cabelos com delicadeza:
- Você parece Rapunzel cantando sozinha na torre, esperando pelo príncipe que vai escutar a sua voz e se apaixonar.
Tina irritou-se, e afastou as mãos dele de seus cabelos:
- Não me tome por uma simples garotinha mimada, você não sabe do que eu sou capaz!
- Nem você sabe do que eu sou capaz.- Eko completou, erguendo a mão na direção do rosto dela.
Tina estremeceu, mas não se mexeu do lugar. Nesse momento, estava imprensada entre a mesa do escritório e o corpo intimidante de Mr. Eko. A mão dele ficou erguida no ar alguns segundos, até pousar ternamente na face dela. O coração de Tina acelerou e seus olhos se encontraram. Os rostos se aproximaram e um beijo avassalador aconteceu. Eko empurrou-a com extrema facilidade para cima da mesa e ergueu seu vestido, tomando-a para si sem que ela pudesse dizer nada, e logo Tina suspirava de satisfação, envolta nos braços do terno e ameaçador Mr. Eko.
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(Fim do Flashback)
Kate sentiu uma forte vertigem tomar conta de si, e um enjôo incômodo no estômago. Apoiou-se em Jack que caminhava ao seu lado e apertou James em seus braços para que não o derrubasse ao chão. Jack notou de imediato que ela não se sentia bem e segurou-a. James começou a chorar pressentindo instintivamente que havia algo errado. Ao ouvir o choro do filho, Sawyer voltou-se para trás e Juliet também.
- O que houve?- perguntou, preocupado, enquanto pegava James dos braços bambos de Kate.
- Eu não sei...- ela murmurou. – Estou sentindo uma fraqueza.
Jack a tomou nos braços, já que ela não conseguia ficar de pé.
- È a gravidez!- disse Juliet. – o estresse intenso, as noites mal dormidas, a alimentação precária, as longas caminhadas, tudo isso está fazendo mal para o bebê.
- Esqueceu de mencionar, Julie, ter sido capturada por um bando de loucos.- provocou Sawyer, embalando James nos braços, tentando acalmá-lo.
Jack franziu o cenho, sentando-se no chão, acomodando a cabeça de Kate em seu colo.
- Ela precisa de água, está desidratada.
- Tem um cantil com água na bolsa do James. Vá pegar, Juliet!- exigiu Sawyer.
Ela prontamente o obedeceu, e vasculhou a pesada bolsa do bebê até encontrar o cantil. Entregou-o a Jack, que lhe deu um olhar desconfiado. Ainda não tinha conseguido "engolir" Juliet como aliada. Pegou o cantil, e o virou devagar na boca de Kate, sustentando o rosto dela com ambas as mãos:
- Bebe, princesa. Bem devagarzinho!
Kate tossiu um pouquinho, mas ingeriu a água, começando a voltar a si.
- Como se sente?- Jack perguntou, acariciando os cabelos dela.
- Muito fraca!- ela respondeu.
- Vamos parar um pouco então!- falou Sawyer. James estava mais calmo, quietinho no colo do pai. – Kate precisa descansar, e eu tenho que dar a mamadeira do James.
- Mas ficarmos aqui é muito arriscado!- protestou Juliet. – Provavelmente já estão nos procurando.
Jack balançou a cabeça negativamente, e disse:
- Temos armas, e Kate não tem como continuar nessas condições. Pode acabar sofrendo um aborto, e eu não vou pôr a vida dela e a do meu filho em risco. Mas se quiser ir em frente Juliet, para dizer onde estamos, fique à vontade!
Juliet fez cara de irritação e não respondeu nada indo sentar-se em um canto. Sawyer sentou-se também, abriu a bolsa de James e pegou a mamadeira do filho, que já estava pronta, cheia de leite.
- O bebê do papai está com fome, hã? Está aqui o leitinho!
Colocou o bico da mamadeira na boquinha de James, que fez várias caretas e chorou antes de finalmente começar a sugar avidamente, emitindo alguns barulhinhos. Sawyer ergueu uma sobrancelha:
- È meu filho, plástico não é a mesma coisa, né? Papai também acha, a mamãe faz muita falta!
Embalou-o e sem perceber, pôs-se a cantar:
- "Yo te llamo, yo que te llamo, donde estés, ven volando, a mi lado..."
Sua voz mansa, era doce e reconfortante para todos naquele lugar. Curiosa sobre a origem da canção, Juliet perguntou:
- È uma bela canção. Mas não sabia que você falava espanhol
- Foi Ana quem me ensinou essa música, ela cantava para o James, ainda na barriga, isso sempre o fazia ficar calmo quando ele estava agitado, chutando muito. Na verdade, essa costumava ser a nossa música.- ele confessou.
- Pelo jeito você acompanhou intensamente a gravidez dela.- observou Juliet.
Sawyer balançou a cabeça, assentindo, e respondeu:
- È verdade, pena ter sido privado do nascimento dele e da companhia dela pelo resto da minha vida.
E dizendo isso, Sawyer se afastou dela, indo sentar-se mais adiante. Jack estava deitado junto à Kate, aquecendo-a com seu corpo, os braços envolvidos em sua cintura até que a sentiu estremecer levemente.
- Oh!
- O que foi Kate?- ele questionou, assustado.
- Oh meu Deus, de novo!
Jack arregalou os olhos, tentando entender. Kate sentou-se com esforço, e pôs a mão de Jack em seu ventre. Estava muito magra, mas uma saliência bem visível já podia ser notada em seu corpo.
- Sentiu Jack?
Ele fez uma expressão surpresa, e disse:
- O bebê está mexendo!
- Mexendo?- divertiu-se Kate. – Ele está fazendo uma verdadeira revolução dentro de mim.
- Ele já fez isso antes?- indagou Jack.
- Não, é a primeira vez.- respondeu Kate.
Ambos mantinham as mãos pressionadas sobre o ventre dela, e a cada chute do bebê, riam, felizes porque sabiam que apesar de todas as provações, seu filho estava vivo e saudável. Trocaram vários beijos estalados. Sawyer sorriu, e gracejou fingindo irritação:
- Hey doutor, não vai cair numa rede com a sardenta uma hora dessas, temos uma criança aqui, deixem isso para depois!
- Cuide da sua vida, Sawyer!- respondeu Jack, rindo muito com Kate, enquanto voltava a beijá-la.
Juliet ficou observando a cumplicidade dos três, definitivamente não fazia parte daquilo, ainda. Quando Kate adormeceu tranqüila nos braços de Jack e tudo ficou tranqüilo ao redor deles, ele achou que era hora de contar o que vira para Sawyer.
Levantou-se do chão, tendo o cuidado para não acordar Kate e caminhou até ele. Juliet dormia um pouco mais afastada e Jack agachou-se ao lado de Sawyer que cochilava com o bebê junto de si.
- Sawyer! Sawyer!- ele chamou baixinho.
Sawyer assustou-se ligeiramente e Jack tocou-lhe o ombro para acalmá-lo.
- Hey cara, sou eu! Escuta, preciso te contar uma coisa.
- O quê?
- Acho que os Outros estão mentindo sobre Ana. Eu acho que ela não está morta.
O coração de Sawyer acelerou.
- Você a viu?
Jack assentiu.
- Então desembucha logo doutor! Onde ela está?
- Eu não sei. Quando fugi da minha cela eu a vi em um vídeo. Ela aparecia em uma sala, toda amarrada e...
Os olhos de Sawyer se alargaram.
- E o quê?
- Sawyer, aquele home, Benjamin Linus a estava tocando e ela chorava muito, tentava se soltar. Eu não podia ouvir o que estavam dizendo mas...
Sawyer começou a sentir uma dor insuportável no peito, uma raiva sem precedentes pelo que Jack estava lhe contando. Suas mãos tremeram e ele pegou um punhado de terra do chão e o amassou com suas mãos. Um gemido de angústia e ira escapou de sua garganta e seus olhos lagrimaram. Jack jamais o tinha visto assim.
- Maldito, "sono f a bitch", eu vou matá-lo!
- Fica calmo Sawyer!- pediu Jack, apontando Juliet perto deles. – Não quero que ela escute o que estamos dizendo, porque acho que ela sabe onde Ana está e vamos precisar que confesse para nós.
Sawyer assentiu:
- Sim, e ela irá confessar, nem que eu tenha que usar os métodos de tortura do meu amigo Sayid.
- Jack...- Kate chamou.
E Jack deu um tapinha no ombro de Sawyer voltando para junto de Kate. Sim, eles iriam pressionar Juliet para dizer onde estava Ana-Lucia, no tempo certo.
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Sob a intensa luz do luar eles o avistaram, majestoso, flutuando sob as ondas espumantes. As montanhas, estrategicamente o ocultavam dos olhos do inimigo. Sayid abriu um sorriso diante de tanta grandiosidade:
- Por Alá, vocês fizeram um excelente trabalho, o barco parece ainda melhor do que na última vez em que o vi.
- Modéstia à parte somos os melhores!- disse Charlie apertando a mão de Desmond e estufando o peito com orgulho.
- E o que estamos esperando, marujos? Vamos embarcar!- instigou Paulo, empolgado.
- Onde está o bote?- perguntou Locke.
- Só temos um "brotha"!- respondeu Desmond caminhando em direção a uma árvore, cujos galhos emaranhados escondiam alguma coisa. Charlie foi até ele e juntos afastaram os galhos, revelando o bote contendo dois salva-vidas e os remos.
- Teremos então que fazer duas viagens, com dois grupos.- disse Locke.
- Para nossa sorte, o mar está calmo.- observou Eko. – Esperemos que continue assim.
- Certo, então quem vai primeiro?- indagou Paulo, mais do que ansioso para embarcar.
- Eu posso fazer duas viagens, sem problema!- ofereceu-se Eko.
- Então vamos indo eu, Sayid e Desmond na frente para ajeitarmos tudo. O Eko volta com o bote e pega o resto do grupo, Charlie, Paulo e Jin.- falou Locke.
O coreano assentiu com a mochila nas costas. Algum tempo depois já estavam todos a bordo, rumo às águas desconhecidas levando consigo as esperanças da comunidade de recuperar seus companheiros capturados.
- Içar as velas, virar com toda a força para estibordo!- divertia-se Paulo, bancando o capitão do navio.
- Ele sabe que existe o risco de morrermos nessa missão, "brotha"?- perguntou Desmond a Charlie.
- Não, não!- respondeu ele, divertido. – Deixa o Paulo curtir, o cara tá achando que isso aqui é só diversão!
- "You're here, there's nothing I fear..."- cantarolava Paulo de braços abertos sobre o convés, a canção tema do filme Titanic.
Desmond, Charlie e até mesmo Locke e Sayid riram dele, exceto Eko que estava muito compenetrado na missão e Jin porque não entendeu a piada.
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O som dos pássaros cantando anunciando a chegada de mais um dia despertou Kate, e delicadamente ela afastou o braço de Jack que prendia sua cintura. Passou as mãos pelos cabelos tentando tirar algumas folhinhas que haviam ficado presas nos cachos.
- Jack!- chamou-o num sussurro.
Ele acordou de imediato, piscando os olhos, tentando se acostumar à claridade. Kate se levantou do lado dele e foi acordar Sawyer que dormia um pouco mais adiante com o bebê James sobre seu peito, embrulhado na manta, chupando o dedinho.
- Sawyer, acorde!
Sawyer espantou-se ao ouvir a voz dela e abriu os olhos. Fez menção de levantar-se, mas foi impedido por Kate:
- Cuidado Sawyer, o bebê!
Ela o pegou no colo e Sawyer levantou-se.
- Está melhor, sardenta?
Kate afirmou que sim com a cabeça, e pôs-se a fazer gracinhas para o bebê que sorria no colo dela.
- Cadê o nenê mais fofo da tia Kate? Cadê?
Jack olhou ao redor, procurando Juliet com os olhos, apreensivo.
- Gente, cadê a...
- Estão com fome?- ela surgiu de repente, do meio das árvores carregando algumas frutas.
Os três entreolharam-se desconfiados, mas resolveram aceitar as frutas, estavam famintos. Jack pegou uma manga e começou a rasgar com as mãos para dar à Kate. Ela sugou a fruta com vontade, e sorriu:
- Hum, eu acho que o James precisa trocar a fralda! Está muito vermelho e com a cara suspeita.
Jack e Sawyer riram. Ele disse ao filho:
- Meu filho não me envergonhe na frente das pessoas! Kate, você pode me ajudar com isso? È que nunca troquei uma fralda antes.
- Vai ter que aprender papai!- Kate respondeu com um sorriso.
Juliet disse:
- Quando eu estava pegando as frutas vi um córrego aqui próximo, você pode trocá-lo lá! Vem, eu te levo, podemos encher os cantis de água também.
Ela colocou uma mão no braço de Kate, mas Jack e Sawyer se posicionaram ao lado dela, como guarda-costas.
- Se vai levá-la ao córrego, nós iremos também. Estamos com sede.- disse Jack, muito sério. Jamais deixaria Kate sumir de sua vista, ainda mais com Juliet. Sawyer, apesar de tê-la trazido consigo, também não confiava totalmente nela.
- Está bem, eu não vejo problema nenhum.- ela disse, fazendo um gesto para que a seguissem até o córrego.
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- Emma, venha tomar café da manhã, querida.- chamou Libby diante da mesa posta na despensa improvisada da praia.
A maior parte dos sobreviventes já estava reunida ali para a primeira refeição do dia, porém ao contrário das outras vezes estavam muito calados, todos preocupados em seu íntimo com a partida do grupo da noite anterior, tinham muito medo que eles não voltassem, e como conseqüência desse desfalque a comunidade estaria dizimada.
- Emma!- insistiu Libby, servindo um pouco de leite no pratinho de cereal de Zack.
A menina se aproximou da mesa emburrada e sentou-se no banco comunitário de madeira, deitando a cabeça na mesa, seus cabelos loiros estavam desgrenhados.
- Posso saber por que todo esse mal-humor?- questionou Libby. – E por que não penteou os cabelos?
- Porque não senti vontade.- ela respondeu mal-criada. – E também não quero tomar café!
Libby sentou-se ao lado dela:
- Hey boneca, o que está acontecendo?
- Cadê a Ana, por que ela não voltou mais? Ela sempre fazia tranças nos meus cabelos, sinto falta dela. E os outros, por que sumiram também? Todo mundo some nessa ilha!
- Querida, ontem o Locke e o Sayid partiram com várias pessoas para trazê-los de volta!
- E se eles não conseguirem? Debbie disse que a Ana morreu, assim como o bebê que ela ia ter também.
- Não ligue para o que a Debbie diz!- disse Libby lançando um olhar de reprovação para Debbie, que fingiu não se importar, continuando a chupar uma laranja. – Agora deixe de bobagens e tome logo o seu café, não vai querer estar doente quando a Ana voltar né?
De repente, Libby sentiu uma pequena vertigem e fechou os olhos segurando na mesa.
- Libby, o que você tem?- perguntou Emma percebendo que ela passara mal.
- Não é nada, querida, eu estou bem.- respondeu Libby, incerta do que dizia.
- Bom dia!- saudou Tina ao sentar-se à mesa para tomar café.
- Bom dia!- responderam alguns, inclusive Libby.
- Está tudo bem, Libby? Você está me parecendo tão pálida!
- Não é nada demais.- ela respondeu. – Apenas não dormi direito essa noite, você sabe, todos nós não dormimos por causa da partida do nosso grupo de pretensos heróis.
- Pode ser pretensão, mas eu acredito neles!- disse Bernard, entrando na conversa.
- Tina!- chamou Shannon que vinha chegando. Tina voltou seus olhos para ela. – Philip e Andrew estão terminando o turno da escotilha agora, vamos substituí-los?
- Eu quero ir também!- falou Debbie, se levantando da mesa.
Shannon não gostou muito da idéia, mas não se opôs e as três saíram em direção à escotilha.
- Eu estou preocupada com a Libby.- disse Tina.
- Por que?- indagou Debbie.
- Oras Deborah!- reclamou Tina. – Você não viu ela passar mal à mesa do café da manhã?
- O que aconteceu?- perguntou Shannon.
- Eu não sei, quando cheguei para tomar café eu a achei tão pálida.
- Tina, você não ouviu ela dizer que não dormiu direito, caramba, está fazendo tempestade em copo d'água. Eu estou mais preocupada com o nosso acampamento, tem cada vez menos homens e os bonitos estão morrendo primeiro.
Tina não agüentou aquele comentário estúpido de Debbie e partiu pra cima dela com violência, imprensando-a contra uma árvore. Shannon ficou muito surpresa com a atitude dela, mas não interveio, apenas ficou observando.
- O que há de errado com você, Tina?- questionou Debbie, assustada.
- E o que há de errado com você?- rebateu Tina. – Já parou pra pensar que se você morresse não faria falta nessa ilha? Só sabe distribuir o seu veneno por onde passa, e se existem menos homens em nosso acampamento, a culpa é toda sua, porque se você não tivesse inventado aquelas coisas horríveis sobre o Sawyer ele não teria sido capturado, daí o primeiro grupo não teria partido e conseqüentemente estariam todos aqui e bem.
- Você não tem idéia do que eu passei!- bradou Debbie. – Eu fui obrigada a fazer aquilo!
- Mas você não sente nenhum remorso!- gritou Tina.
- Hey, o que está acontecendo aqui?- indagou Steve, surgindo do nada, do meio da floresta.
- Chegou o seu guarda-costas, queridinha!- debochou Shannon.
Tina soltou Debbie, e as duas ficaram se fuzilando com os olhos.
- Apronte uma próxima vez, e verá do que eu sou capaz!- disse Tina à Debbie, que pegou na mão de Steve e saiu mata adentro com ele, de volta à praia.
- Gostei de ver Tina! Você disse à Debbie o que ela merecia ouvir!
- Eu não sei Shannon, uma vez me disseram que eu não tenho o direito de julgar. Mas é que a Deborah é tão estúpida, que me deixa muito irritada.
- È verdade, mas não vamos pensar mais nisso. Vamos pra escotilha! Adivinha o que eu trouxe nessa bolsa?- indagou Shannon, empolgada.
Tina olhou para a bolsinha que Shannon trazia nas mãos.
- Não faço idéia!
- Todo o meu material de manicure e até a minha chapinha de cabelo, vamos nos divertir!
Tina sorriu e as duas saíram empolgadas para a escotilha. Estavam tão distraídas que não perceberam que estavam sendo seguidas desde a praia.
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(Flashback)
O barulho de pedras sendo atiradas na janela do quarto despertou-a do cochilo repentino que estava tirando em cima dos livros de álgebra, Tina levantou-se de imediato para ver quem era. Seus olhos se alargaram ao ver Eko lá embaixo, com a batina toda ensangüentada e uma expressão austera no rosto.
- O que aconteceu?- ela sussurrou, assustada.
Eko leu os lábios dela lá debaixo e fez um sinal para que ela descesse. Tina indicou com a mão que ele a esperasse, e apressou-se em calçar o tênis e pegar a mochila. Desceu as escadas correndo e antes que pudesse sair, sua mãe a chamou:
- Aonde vai Cristina, debaixo de todo esse sol?
- Vou estudar na casa da Mirna. Temos prova de álgebra amanhã.
- Está certo, mas não chegue muito tarde.
Quando saiu, Eko a esperava dentro de um carro, Tina entrou e ele saiu arrancando, levantando poeira. Estava muito nervoso.
- O que aconteceu, Eko? De quem é esse sangue? Você está ferido?
Ele nada dizia, só dirigia. Tina estava ficando desesperada.
- Eko, eu odeio quando você inventa de não falar. Foi assim quando o padre Yemi levou um tiro e foi enfiado naquele avião, você passou dez dias sem pronunciar uma palavra. Tem idéia do quanto isso me atordoa?
Mas ele continuou em silêncio, só dirigindo. Até que chegaram a casa dele, que antes pertencera à Yemi. Desceram do carro e Eko saiu puxando Tina para dentro como se temesse que algo acontecesse com eles enquanto estavam lá fora. Assim que entraram na casa, ele disparou:
- Eu matei alguns homens hoje! Traficantes que queriam roubar as vacinas do posto médico.
- Você o quê?
- Isso o que você ouviu Cristina, esse sangue, pertence a eles.- sentou no chão e levou as duas mãos ao rosto, deixando lágrimas caírem sobre a pele escura de seu rosto. – Que espécie de padre eu sou? Eu sei que um dia vou queimar no fogo do inferno por tudo que eu já fiz!
- Não!- bradou Tina. – Deus irá entender, você estava salvando as vacinas dos traficantes, consertando seus próprios erros.
- Não é tão simples assim.- ele retorquiu. – Preciso ir embora daqui, agora estou jurado de morte. Yemi ia para Londres, irei no lugar dele.
- E o que vou fazer sem você?- ela disse, também chorando, enquanto se jogava nos braços dele, manchando sua camiseta com o sangue dos traficantes que ele havia matado.
- Cristina, você é uma mulher pura de coração, não queira ir para o inferno junto comigo!
- Eu já estou nele Eko, desde que o conheci. Eu te amo!
Beijaram-se.
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(Fim do Flashback)
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Era tão boa a sensação da água fria nos pés calejados de Kate que ela não queria mais ir embora do córrego. Tinha acabado de trocar James, e o havia devolvido ao seu pai. Agora descansava sentada à beira do pequeno lago, sentindo a refrescante brisa da floresta enquanto Jack jogava água em sua nunca.
- Isso está tão bom!- ela murmurou. - Nunca pensei que fosse dizer isso, mas que saudade da tranqüilidade da nossa praia, das noites em volta da fogueira e dos banhos de cachoeira...
Jack sorriu amargo: - Eu sinto falta até de apertar o botão!
- Qual botão?- ela cochichou no ouvido dele, maliciosa.
Ele se pôs a rir, balançando a cabeça levemente e cochichou algo de volta no ouvido dela que fez seu rosto corar, e em seguida dar um tapinha divertido no ombro dele. Sawyer se aproximou deles com uma expressão séria:
- Vocês acham que podemos mesmo confiar na Xuxa?- ele indagou, olhando para Juliet discretamente, sentada em uma pedra não muito longe deles.
- Eu não sei, Sawyer.- sussurrou Kate. – Foi com você que ela fez o trato, mas eu pessoalmente não consigo concebê-la como nossa aliada. Pensem comigo, desde que fomos capturados ela nos tratou como cobaias e agora de repente é nossa amiga, e está nos ajudando a sair daqui em troca de um teto no nosso acampamento. Tem mais coisa nessa história, e eu só não sei o que é!
- A Kate tem razão!- concordou Jack. – Temos que ficar alertas, isso pode ser uma grande armadilha para capturar nosso acampamento inteiro.
- Certo, então talvez seja hora de confrontá-la. Quero saber aonde está a Ana!
Estavam tão compenetrados conversando entre si que nem perceberam a própria se aproximar.
- Não precisam ficar cochichando, sei que estão falando de mim!- disse Juliet, com sua típica tranqüilidade.
Os três olharam para ela, e Jack deu um passo à frente, com seu jeito natural de líder:
- Se sabe então, poderia começar a tirar a máscara e nos dizer o que realmente está acontecendo aqui, por que está nos ajudando? E onde está a Ana-Lucia? Sei que ela não está morta assisti um vídeo onde ela aparecia sendo machucada por Ben Linus.
- Uma pergunta de cada vez Jack.- respondeu Juliet. – Estou ajudando vocês porque descobri muito tarde que a Dharma Initiative é uma mentira, somos escravos dela, presos aqui nessa ilha tanto quanto vocês! Os propósitos da Dharma são excusos e eu não quero mais fazer parte disso. Quanto à Ana-Lucia, eu não sei onde ela está, se você viu um vídeo Jack, então sabe mais do que eu. Concordo que talvez não esteja morta.- confessou. – Mas ainda não consegui compreender qual o propósito de Benjamin com ela, eu estava investigando isso antes de fugirmos e sei que tem algo a ver com o projeto 2342.
- Projeto 2342? Que droga é essa?- indagou Sawyer.
- È um dos projetos mais importantes da Dharma Initiative, mas é tão secreto que nem eu sei do que se trata, só sei que o projeto existe. Eu estava blefando com o Benjamin a respeito de estar mantendo conversas com uma das líderes da Organização, supervisionando Ben, dessa forma eu esperava descobrir o paradeiro de Ana-Lucia, mas não descobri muita coisa a não ser que existe a possibilidade de ela estar viva.
- Benjamin me disse que vocês possuem contato com o mundo exterior, porque as palavras dele são tão contraditórias às suas?- indagou Jack.
- È complicado Jack, não tem como eu te explicar tudo assim. Houve um acidente um ano atrás que cortou nossa comunicação com o mundo exterior, é tudo o que eu sei. O céu ficou roxo de repente e ninguém pôde mais sair daqui.
- Se antes vocês tinham contato com o mundo exterior, por que você não foi embora daqui já que não aprova os métodos da Organização?
- Porque sou prisioneira Jack, prisioneira deste lugar.- Juliet disse com a voz embargada, estava com vontade de chorar.
- Hey, falem mais baixo!- avisou Kate. – Acabei de ouvir alguma coisa.
- O quê?- cochichou Sawyer acalentando James para que o bebê não começasse a chorar.
- Shiii!- fez Kate, levando o dedo indicador à boca.
Os outros três ficaram tensos. Sawyer comentou baixinho:
- Ainda não consegui me acostumar com a sua super audição, sardenta!
Logo o barulho que Kate ouvira pôde ser ouvido pelos outros também, aumentando a preocupação deles. Eram muitos passos, seguidos de latidos.
- Eu estou ficando louco ou isso foi um cachorro?- questionou Sawyer.
- Mais de um cachorro.- completou Juliet. – São eles, estão nos caçando e não terão piedade. Precisamos nos esconder!
- Então quando os encontrarmos, também não teremos!- disse Jack, tirando a trava de segurança de seu rifle.
- Kate, cuide do James!- pediu Sawyer, entregando o bebê a ela. Em seguida armou-se também, assim como Juliet.
Separaram-se, cada um se escondendo em um canto próximo ao córrego.
- Que venham, estamos preparados!- falou Jack, consigo.
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- Mas o que diabos é aquilo?- indagou Paulo, ao ver uma enorme estátua de um pé com quatro dedos.
- Paganismo, brotha!- disse Desmond. – Nossos inimigos são pagãos!
Sayid pegou seu binóculo, observou a terra se aproximando e comentou com Locke, que estava abismado ao ver que realmente existia outra ilha.
- Essa ilha é relativamente menor que a outra que habitamos, da outra vez não foi tão difícil encurralá-los. Mesmo assim, não podemos ficar tão confiantes, os Outros são espertos, devem estar imaginando que viríamos, devemos nos antecipar a isso!
- Vamos virar o barco a estibordo, brotha, do outro lado existe um lugar onde podemos escondê-lo e sair de lá no bote.- disse Desmond a Sayid.
- E como você sabe disso?- perguntou Charlie. – Já esteve aqui antes?
- Que nada, brotha. È só intuição!
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O cheiro de suor excessivo devido à tensão, somado com o odor acre do terreno úmido estavam provocando náuseas em Kate. Ela apertava James junto do corpo e trocava olhares com Jack a todo momento, não estavam muito longe um do outro, mas Kate sentia como se quilômetros os separassem, tal o medo que a assolava naquele instante.
O barulho de passos e o latido dos cachorros se aproximava cada vez mais, o coração de Sawyer batia forte e seu dedo tremia no gatilho preparado do rifle. Não ia se render sem lutar, já tinha chegado até ali, poderia ir mais longe. Olhou para Juliet que estava escondida um pouco mais adiante, aparentemente tão amedrontada quanto ele e trocou um olhar silencioso de indagação com ela. Perguntava se tudo aquilo não fazia parte de uma armadilha e se ela não estava apenas esperando os Outros se aproximarem para retornar à sua gente e entregá-los de bandeja. No entanto, o olhar dela nada respondeu, permanecendo taciturno e assustado.
Jack contava internamente até cinco, como era de se esperar, mas sabia que dessa vez nem que contasse até mil o medo iria embora e os seus problemas estariam resolvidos. Mesmo assim tinha que se apegar a algo, para não sucumbir. Queria concentrar sua atenção nos inimigos que se aproximavam, mas seus olhos não conseguiam se desvencilhar da imagem de Kate acuada a poucos metros dele com o pequeno James em seus braços. Pareciam tão desprotegidos ali e Jack ficava buscando em sua mente alternativas para tirá-los daquela ilha, todos eles, não conseguia pensar em outra coisa.
- Procurem-nos, eles devem estar aqui em algum lugar, não podem ter evaporado!- Benjamin bradou enérgico ao grupo de Outros que caçavam Jack , Sawyer, Kate e por mais surpreso que ele estivesse, Juliet. Não a perdoaria jamais por sua traição.
Vários homens e mulheres, armados com rifles, espingardas e pistolas e ainda por cima trazendo cães de caça, procuravam-nos ao longo de todo o córrego. Ao vê-los se aproximarem, Sawyer sabia que era só uma questão de tempo para eles serem encontrados e capturados, e ele não permitiria isso, não sem lutar. Olhou para Jack. O médico indagou com os olhos o que ele iria fazer e Sawyer mostrou seu rifle. Jack balançou a cabeça negativamente, avisando que ainda não era hora, mas Sawyer estava determinado e fazendo um sinal para que todos corressem, começou a atirar e acertou um homem que estava bem próximo à Juliet, com um cachorro. O homem caiu ao chão e o animal se assustou com o tiro, começando a correr de um lado para o outro, confuso.
- Eles estão ali!- gritou uma mulher, mostrando para os outros a localização do grupo.
- Corra Kate, corra!- gritou Jack, atirando também.
Uma troca incessante de tiros começou. Juliet também sacou sua pistola e se juntou à Sawyer e Jack na defesa. Kate começou a correr sem olhar pra trás, não sabia para onde ia e seu coração doía em não poder ficar ao lado de Jack, pois precisava proteger James e seu próprio bebê, não podia se arriscar a levar um tiro. Correu até não poder mais, escutando o barulho de tiros ao longe, no córrego. Sem fôlego, parou atrás de uma árvore e começou a chorar convulsivamente, de medo, de angústia e de raiva. James chorava também, percebendo a inquietação que se fazia ao seu redor.
Ao vê-lo berrando sem parar, Kate tentou acalmar-se para poder acalmá-lo, o choro dele poderia atrair os inimigos até eles.
- Shiii! Shiii!- ela fez, sacudindo o pequeno nos braços. – Não chora, bebê! Vai ficar tudo bem! Vai ficar tudo bem! Oh Deus, como é aquela música que seu pai canta pra você?- sussurrou. – A tia Kate não sabe!
O menino não parava de chorar, estava muito assustado com o barulho dos tiros e toda aquela movimentação. Mesmo assim, Kate resolveu prosseguir até encontrar um abrigo seguro onde pudesse esperar por Jack e Sawyer, tinha fé que eles conseguiriam sair dali com vida.
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Jin e Charlie permaneceram no barco, como time de reserva, caso eles demorassem muito para voltar. Os outros já tinham desembarcado na ilha, e nesse momento, caminhavam com cautela pela praia, procurando se camuflar entre a vegetação, buscando o esconderijo de seus inimigos.
- Onde vocês acham que eles possam estar?- indagou Locke ao grupo.
- Eles devem ter uma estação de pesquisa por aqui em algum lugar, brotha!- disse Desmond.
- Sim.- concordou Sayid. – Como aquela que vimos na outra ilha, John, a Pandora.
- Havia outra escotilha além do Cisne na outra ilha?- perguntou Paulo, cada vez mais intrigado com as coisas que estava descobrindo, e que antes não dava a menor atenção.
- Mais de uma Paulo!- respondeu Locke, dando seu sorriso enigmático para o brasileiro.
- Vejam isso!- falou Eko, apontando para uma nuvem de fumaça no horizonte.
- Fumaça!- exclamou Sayid.
- Acho que devíamos ir até lá!- disse Paulo.
- Nada disso, pode ser uma armadilha!- comentou Locke.
- Exatamente, brotha! E algo me diz que devemos seguir na direção oposta de onde vem essa fumaça, é lá que estão os nossos amigos.
Todos encararam Desmond com olhares desconfiados.
- Como sabe disso, Desmond?- Sayid perguntou, inquisidor.
- Eu não sei, apenas sinto!- disse o escocês com o olhar fixo na direção da fumaça.
Eko saiu andando na frente, e Locke perguntou:
- Mr. Eko, aonde você vai?
- Seguir o palpite do brotha!- respondeu o padre e todos puseram-se a segui-lo, empunhando suas armas.
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- Eu não gosto desta cor, prefiro rosa bebê a rosa pálido!- disse Tina comparando duas cores de esmalte nas mãos, enquanto Shannon pintava as unhas de seus pés.
As duas conversavam animadamente na sala da escotilha, fazendo as unhas e ouvindo música na antiga vitrola, quando de repente as luzes se apagaram.
- Droga!- esbravejou Shannon. – Devo ter borrado todo o esmalte vermelho nos meus pés.
- O que aconteceu com as luzes?- indagou Tina tentando ver algo no escuro.
- Eu não sei, essas fiações são muito velhas. Yd ficava admirado de que ainda funcionassem depois de tanto tempo. Será que resolveram pifar de vez?
- Sei lá, Shannon! Mas eu estou com uma sensação ruim, amiga.
- Que bobagem, Tina! Vamos procurar as lanternas, o Jack costumava deixá-las embaixo do balcão da pia.
- Ok, vamos procurar lá então!- concordou Tina.
Shannon deu um passo para frente tateando no escuro, tentando se situar, quando tropeçou em alguma coisa.
- Ai não!
- O que foi Shannon?
- O meu pé prendeu, não sei no quê! Mas peraí que já encontro a pia!
Tina tentou seguir na direção de Shannon, mas foi impedida por um braço que a agarrou no meio da escuridão. Seu grito estridente ecoou por toda a escotilha, fazendo Shannon gritar também.
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(Flashback)
Já era quase pôr do sol, e Tina caminhava calmamente de volta da cachoeira, onde passara toda a tarde, em direção à praia, já estava em frente à sua barraca quando ouviu um furdunço por todo o acampamento. As pessoas corriam em direção à floresta, exasperadas para ver algo que estava acontecendo naquele momento. O coração de Tina deu pulos dentro do peito, quando as pessoas começavam a agir assim não era um bom sinal. A última vez que os vira desse jeito foi quando Rosseau, a francesa, apareceu de repente no acampamento avisando que os Outros estavam vindo e que a única coisa a ser feita era arranjar um bom esconderijo, caso contrário logo estariam todos mortos.
Seu instinto dizia para sair correndo e se esconder até que as coisas se acalmassem, porém a curiosidade foi mais forte e Tina correu atrás de sua amiga Aline, que também estava indo para a floresta.
- Aline! Aline!- chamou.
A brasileira voltou seus olhos castanho-escuros para ela.
- O que está acontecendo? Por que todo mundo está indo pra floresta?
- Então você não sabe?- questionou Aline. – Onde esteve a tarde toda?
- Fui à cachoeira nadar.- Tina respondeu.
- Então, enquanto você estava nadando, um grupo de sobreviventes da cauda do nosso avião chegou ao acampamento, foram trazidos pelo pessoal que partiu na jangada, parece que o plano não deu certo. E isso não é tudo, uma dessas pessoas atirou na Shannon.
- O quê? Como é que é?- indagou Tina, confusa. – Mas ela ainda está viva? Que história é essa de sobreviventes da cauda? Onde estiveram esse tempo todo?
- Talvez devêssemos perguntar a eles!- bradou Aline, agoniada para ver com seus próprios olhos o tal grupo que havia chegado.
Várias pessoas se aglomeravam à entrada da floresta quando Jack gritou para que se afastassem. Tina ficou observando a multidão se abrir, formando um vácuo para que eles passassem. Logo atrás de Jack, vinha Sayid apertando o corpo desfalecido e ensangüentado de Shannon nos braços.
- Oh meu Deus! Shannon!- gritou Tina, chocada, lágrimas tomando-lhe os olhos ao ver a amiga naquele estado.
Sayid tinha o olhar entristecido e compenetrado, apertava o corpo de Shannon como se ela pudesse escapar de suas mãos a qualquer momento. Atrás do iraquiano vinha uma mulher, de estatura mediana, cabelos negros, andar intimidante e olhos tristes. Tina fitou os olhos dela, assim como todas as pessoas ao redor, todos surpresos e chocados com a chegada daquelas pessoas.
- E onde está o resto do grupo? Só vi essa mulher que acabou de passar! – Tina perguntou a Steve que estava do seu lado.
- Ainda tem mais três, pelo menos que eu tenha visto.- ele respondeu. – Um senhor de cabelos grisalhos, o marido da Rose, você acredita? Uma moça loira, alta, essa outra moça morena que atirou na Shannon e um sujeito enorme, negro, alto e forte, com um cajado que trouxe o Sawyer desacordado nas costas, aparentemente ele também foi baleado.
Os olhos de Tina se alargaram ao ouvir aquela última discrição.
- E você faz idéia de como seja o nome dele?- questionou, ansiosa.
- Ah, isso eu sei sim.- Steve respondeu. – È um nome estranho, parece que se chama Mr. Eko, pelo menos foi o que escutei aquele senhor, o marido da Rose dizer.
- E você sabe onde ele está agora, Steve?
- Na escotilha, ué! Foi pra lá que ele levou o Sawyer e é pra lá também que o Sayid está levando a Shannon.
Steve ia dizer mais alguma coisa, mas Tina não deixou que ele falasse, ao invés disso, saiu em disparada para a escotilha, não estava acreditando, Eko vivo? Quando chegou à escotilha, completamente atordoada, buscando Eko com os olhos, primeiramente encontrou Jack, debruçado em um colchão no meio da cozinha, tirando a bala que havia atingido Shannon no estômago. Havia sangue por todo lado e Sayid rezava em sua língua nativa, aos pés de sua amada, pedindo a Alá pela recuperação dela. Kate estava mais adiante, tentando dar água para Sawyer, que pareceu a Tina muito pálido, jogado no beliche.
Locke também estava lá, tentando ajudar. Ninguém se apercebeu da presença dela, estavam todos muito ocupados tentando salvar as vidas de Shannon e Sawyer. Tina sentiu-se angustiada, não só pela situação que estava acontecendo ali, mas porque ainda não vira Eko, Steve se enganara?
O cheiro de álcool e sangue a estavam fazendo sentir-se mal, por isso ela deixou a cozinha e foi se refugiar na sala do computador. Foi quando o viu, curioso, examinando cada parte do computador. Eko ergueu os olhos e vislumbrou-a. Tina deu-lhe um sorriso emocionado e se atirou nos braços dele, chorando de alegria. Eko apertou-a nos braços e beijou o topo de sua cabeça, estava tomado pela mesma intensa emoção que ela sentia.
- Cristina!- ele murmurou.
Os dias passaram-se no acampamento. Shannon recuperou-se aos poucos, mantendo distância de Ana-Lucia, a mulher que atirara nela por acidente. Sawyer também se recuperou e o grupo logo estava integrado aos demais sobreviventes. Apenas Eko permanecia um mistério para todos, sempre caminhando sozinho, escrevendo sentenças bíblicas em seu cajado. Depois do reencontro na escotilha, eles não se falaram mais, Eko mantinha uma certa distância dela, e Tina preferiu não contar a ninguém sobre seu antigo envolvimento com o padre. Sim, ele havia se declarado padre na ilha também, professando aos quatro ventos palavras de salvação. Havia inclusive batizado Claire e o pequeno Aaron, e ainda por cima curado Charlie de seu vício de heroína. Juntos os dois construíram uma igreja e agora não havia ninguém que negasse a suposta santidade de Eko.
Tina tinha muita coisa a dizer a ele, sobre como se sentira durante o tempo em que passaram separados e como agora era pior ainda, pois o via e não podia estar com ele. Depois da traição de Michael e da missão de salvamento das crianças, mais especificamente na noite de comemoração da volta do grupo, Tina resolveu procurá-lo e ter uma conversa com ele a sós. Saiu de sua barraca, no meio da noite, depois que todos tinham ido dormir e saiu caminhando sozinha pela praia em direção à tenda de Eko. Escondeu-se atrás de uma árvore quando viu Sawyer entrando sorrateiro na barraca de Ana-Lucia. Achou estranho e ficou observando, ouviu as vozes deles discutindo, mas não conseguia entender o que diziam. Depois de alguns minutos ouvindo-os brigarem, a lona que recobria a barraca balançou ligeiramente, e ela escutou barulhos abafados, seguidos de gemidos altos, inconfundíveis de prazer, Tina havia entendido tudo. Balançou a cabeça e murmurou consigo, rindo: - Por essa eu não esperava, quem diria!
Seguiu seu caminho, e tão sorrateira quanto Sawyer havia sido adentrou a barraca de Eko. O nigeriano estava acordado e pareceu surpreso ao vê-la.
- O que está fazendo aqui, Cristina? È tarde!
- Eko! Pare de me tratar com toda essa formalidade. Meu amor, senti tanto a sua falta, não faz idéia...
- È melhor você voltar para a sua barraca.- ele pediu. – Preciso dormir, amanhã quero fazer alguns ajustes na igreja.
- Não! Isso não está certo!- ela quase gritou. – Estávamos juntos naquele vôo pra Los Angeles, íamos começar uma vida nova nos Estados Unidos. Não é justo, tivemos que sentar em cadeiras separadas porque eu estava viajando com a minha irmã Joana, que morreu afogada nessa ilha, daí você volta e eu penso que não estou mais sozinha e foge de mim desse jeito, por Deus, Eko!
- Sim, Cristina, é por Deus! Por ele é que estou fazendo isso, amo você, mas preciso pagar por meus pecados, servi-lo incondicionalmente, entende?
Tina desceu as duas alças do vestido, desnudando os seios, e disse, sensualmente:
- Você não costumava pensar assim. O que aconteceu com você?
- Por favor, vista-se!- ele ordenou, ríspido. – Não vou cometer o pecado da carne com você outra vez, devo pagar por ter te envolvido na minha vida, por ter desonrado você! Agora vá e nunca mais venha até a minha barraca no meio da noite!
Tina arrumou o vestido, e saiu da barraca arrasada. Amava Eko mais do que tudo e saber que teria de conviver com ele naquela ilha como se nada tivesse acontecido era terrível. Caminhou de volta para sua barraca quando encontrou com Dylan, o violinista, seu vizinho do lado, bebendo água do lado de fora de sua barraca.
- Hey, Tina, você está bem?- ele perguntou, preocupado ao vê-la tão abalada.
Ela nada disse, apenas começou a chorar, Dylan a acalentou em seus braços.
- Não chore, eu estou aqui e vou cuidar de você.
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(Fim do Flashback)
Continua...
