Episódio 5- "Doces Sonhos"

Sinopse: O grupo de resgate foi bem sucedido em sua missão, porém seu líder foi gravemente ferido e apenas uma arriscada transfusão de sangue poderá salvá-lo. O acampamento foi completamente devastado por um misterioso ataque. Conseguirão os sobreviventes reerguer sua comunidade?

Censura: T.

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- Jack, fique comigo, por favor! Jack!

Kate chorava sob o corpo dele, suja de sangue, pressionando o ferimento à bala com ambas as mãos. Suava e tremia sem parar, seus lábios adquirindo uma coloração pálida. Jack tremia também, embora estivesse desacordado desde o momento em que levara o tiro. Ela e Juliet estavam sozinhas na cabine do barco tentando cuidar de Jack prostrado na cama, enquanto os outros permaneciam lá fora levando o barco de volta à outra ilha, e preparados caso houvesse algum tipo de retaliação imediata por parte dos inimigos.

- Ele está entrando em choque!- afirmou Juliet, examinando-o minuciosamente.

- Temos que tirar a bala!- falou Kate.

- Eu sei! Mas não sou cirurgiã, não posso fazer isso!- disse Juliet. – Além disso, mesmo que o façamos, ele já perdeu muito sangue e ainda vai perder muito mais se tirarmos a bala. Precisa de uma transfusão urgente!

Kate estendeu o braço a ela e disse, com muita seriedade:

- Então pegue, tire todo o meu sangue se for preciso!

Juliet balançou a cabeça negativamente:

- Kate, não posso usar o seu sangue! Em primeiro lugar porque você é A e o Jack é O-. Em segundo lugar, você não pesa nem 50 kg e ainda por cima está grávida!

Ela levou as mãos aos cabelos, e apertou os olhos em um gesto de desespero:

- Alguém deve ter o mesmo tipo de sangue que ele aqui nesse barco!- gritou se levantando da cama, e deixando a cabine.

Lá fora, Jin controlava o leme enquanto Sayid vigiava os arredores com o binóculo. Eko estava sentado em um canto, segurando seu cajado. Desmond, Charlie, Paulo e Locke com suas armas engatilhadas caso Sayd visse alguma embarcação suspeita se aproximando. Sawyer em um outro canto, sentado no chão do barco, pensativo, tão sujo com o sangue de Jack quanto Kate.

- Quiero hablar de ti, de lo que yo te ame...- ele cantarolava baixinho, o peito doendo enquanto apertava com força entre seus dedos o colar de dente de tigre de Ana-Lucia. Colar que misteriosamente fora parar em suas mãos depois de ter tido um sonho com ela. Levantou-se do chão e mordeu os lábios para segurar o choro desesperador que ameaçava tomar conta dele e arremessou o punho contra o mar, com a intenção de jogar o colar de Ana na água salgada.

- È tarde demais Ana...- ele disse baixinho. Mas não jogou o colar ao mar porque foi interrompido pela voz firme de Kate que surgiu de repente no convés.

- Hey!- ela gritou, fazendo as atenções de todos voltarem-se para si. – Jack precisa de sangue, algum de vocês é O negativo?

Os homens entreolharam-se. Jin não entendeu a pergunta, e deu de ombros. Sayid disse: - Desculpe Kate, mas eu sou A negativo.

- Eu também não sou!- admitiu Charlie com pesar.

Kate olhou para Paulo:

- Não olhe pra mim, eu nem sei o meu tipo de sangue!- afirmou Paulo, um tanto atordoado com o olhar incisivo de Kate sobre ele.

- E quanto a você, Eko?

- A .- o padre respondeu calmamente. – E mesmo que eu tivesse o mesmo sangue do doutor, provavelmente não seria o mais indicado a salvá-lo!

- John?- ela indagou, ficando sem esperanças.

- B negativo.- Locke respondeu.

Ela olhou para Desmond, e ia fazer a mesma pergunta a ele quando sentiu o estômago contorcer-se, seguido de uma intensa vertigem, o escocês arregalou os olhos vendo que o rosto dela mudara totalmente de cor, assumindo um tom além do pálido.

- Hey, irmãzinha!- ele chamou, correndo para ampará-la com seus braços.

Sawyer foi ajudar Desmond, tirou Kate dos braços do escocês prendendo o corpo fragilizado no seu.

- De que tipo de sangue a sardenta disse que o doutor precisa?- indagou, havia ouvido o que ela dissera mas queria ter certeza.

- O negativo.- respondeu Desmond.

- Dammit! Eu sou!- disse Sawyer, tocando o rosto dela, tentando fazê-la voltar a si.

- Mas eu sei disso, "brotha"!- afirmou Desmond.

- Sabe?- estranhou Sawyer.

- Sim, era exatamente isso que eu ia dizer a ela antes que desmaiasse.

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(Flashback)

Escócia, tempos atrás…

- Você é um bobalhão, Desmond, sai daqui! Não queremos brincar com você!

- Mas eu também quero jogar golfe!- o menino de dez anos, reclamou diante das negativas dos colegas em deixá-lo brincar. – Por favor!

- Você não passa de um bebê chorão!- bradou o outro garoto, bem mais alto que ele, empurrando-o na grama enlameada pelas chuvas do inverno.

Raymond Wildmore, mais velho que ele, tinha treze anos e era o mais rico dos garotos da vila, assistia à cena com um sorriso enigmático no rosto. A família de Desmond trabalhava para a dele há gerações. O garoto lagrimava jogado no chão, sujo de lama, quando Ray se aproximou.

- Você já está cansado disso não é?

Desmond olhou pra ele, mas nada disse.

- Se estiver mesmo cansado de ser um bebê chorão, e está disposto a se tornar um homem de verdade, vem comigo!

- Pra onde?- ele indagou.

- È um segredo!- respondeu Raymond.

Desmond resolveu segui-lo e eles correram por todo o gramado lamacento, passando pelos outros garotos que jogavam golfe até chegarem à suntuosa e silenciosa Mansão Wildmore.

- Por aqui!- disse Raymond quando eles passaram pela pesada porta da propriedade.

Desmond o acompanhou até uma velha escada empoeirada, em forma de caracol. Uma garotinha de cerca de dez anos de idade, cabelos loiros e cacheados, usando um vestidinho cor-de-rosa de babados, brincava com seu gatinho branco na sala quando os viu correndo em direção à velha escada em caracol.

- Ray!- ela chamou com sua voz doce.

- Volte pra sala, Penny! O que vamos fazer não é coisa de menina!

- Des, você não devia ir com ele até lá em cima, a vovó diz que nunca devemos ir pra lá!

- Cale a boca, Penny! Agora saia daí!- respondeu Raymond, grosseiro.

Desmond trocou um olhar com a garotinha, que sorriu para ele. Mesmo assim, não desistiu de subir até o último degrau da escada, estava muito curioso para saber o que Raymond queria lhe mostrar. No topo da escada, havia uma única porta. Raymond a destrancou, e disse:

- Se você ficar aí dentro cinco minutos, todos irão respeitar você!

- Isso é verdade?- indagou Desmond.

- Só vai saber se entrar.- provocou Raymond, maldosamente.

Desmond resolveu entrar, e quando deu dois passos para dentro do quarto escuro, Raymond trancou a porta pelo lado de fora. Dentro do quarto, Desmond sentiu um medo aterrador tomar conta de si, e gritou:

- Abre a porta Ray, por favor!

- Não Desmond, você tem que ficar aí dentro por cinco minutos, senão nunca será um homem de verdade.

- Raymond!- Desmond gritou de novo, espancando a porta.

- Ray, o que você tá fazendo com ele?- gritou Penny subindo as escadas correndo.

Desmond gritou lá de dentro, desesperado:

- Não! Nãooooooooooo!

Vários baques sucessivos foram ouvidos, como se alguém estivesse sendo chicoteado. Raymond arregalou os olhos, assustado, e disse:

- Desmond, pare de fazer isso! Está tentando nos assustar?

- Abra a porta!- ordenou Penny.

Mas mal ele tocou a maçaneta, bolhas abriram-se em suas mãos, o metal estava inexplicavelmente quente. Os gritos e o barulho do chicote continuaram. Eram tão altos e assustadores que vários empregados da mansão Wildmore puderam ouvir e correram até a escada.

- O que está acontecendo?- indagou Gertie, a cozinheira, às crianças.

- Desmond está aí dentro!- choramingou Penny.

Ela ia pegando na maçaneta da porta, quando Raymond chorando mostrou a ela seus dedos queimados: - Está quente! Está quente!- ele gritou.

Gertie envolveu as mãos em suas luvas de cozinha que estavam no bolso do avental e conseguiu destrancar a porta. Muita fumaça saiu de lá de dentro. Outros empregados que subiram mais atrás se benzeram ao ver aquela cena. Gertie retirou Desmond do quarto, o garoto estava muito pálido.

- Oh querido, o que aconteceu aí dentro?- ela perguntou, amedrontada.

Ela o abraçou, mas Desmond queixou-se de dor quando ela tocou-lhe as costas. Imediatamente Gertie retirou-lhe a camisa e não acreditou quando viu inúmeras marcas de chicote em suas costas.

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(Fim do Flashback)

Os resmungos e gemidos abafados de dor emitidos por Jack, que estava semi-consciente, faziam o coração de Juliet palpitar enquanto ela se concentrava na árdua tarefa de retirar a bala que havia se alojado na espinha do médico. Realizava esse trabalho apenas com o auxílio de uma pinça e um bisturi improvisado, sem anestesia nenhuma. Jack ouvia passos e vozes ao redor de si, mas era tudo muito confuso. Não conseguia entender o que estava acontecendo, só sentia uma dor fortíssima no corpo, que ele não conseguia definir a origem, uma dor lancinante que o fazia querer gritar a plenos pulmões.

Juliet escavou um pouco mais com o bisturi à procura da bala, provocando um grito alto e rouco de Jack. Ao ouvi-lo gritar, Sawyer levou as mãos ao rosto e se escorou na parede de madeira da cabine do barco, balançando a cabeça negativamente. Fazia idéia do tamanho da dor que ele estava sentindo, a mesma dor insuportável que ele sentira uma vez quando arrancou uma bala que estava alojada em seu ombro com as próprias mãos.

Jack se debatia mais e mais à medida que Juliet aprofundava o corte, ela não estava conseguindo segurá-lo, mesmo com a ajuda de Sayid que prendia os braços dele.

- Hey Sawyer, nos ajude aqui!- bradou Sayid.

Pálido, Sawyer se aproximou deles e ajudou a segurar Jack parado na cama, para que Juliet pudesse continuar procurando pela bala. Sayid observava tudo atentamente, Sawyer, porém mantinha seu rosto virado para o outro lado, não porque ver sangue em grande quantidade fosse um problema, mas porque não suportava ver a dor alheia. Enquanto eles três cuidavam de Jack dentro da cabine, lá fora o resto do grupo continuava vigiando para garantir que chegassem em segurança à ilha original. Jin velejava o barco, Locke, Eko, Paulo e Desmond conversavam a respeito do estranho fenômeno que ocorrera enquanto estavam no bote, e que transformara o céu azul em roxo e agitara o mar, haviam ficado muito intrigados com aquilo.

- Talvez tenha sido um sinal!- disse Locke.

- Não brotha! Isso tem a ver com a escotilha e todo o magnetismo que emana da ilha!- afirmou Desmond. – Tenho certeza que você se lembra, John, quando decidiu parar de apertar o botão e tudo começou a tremer. Jack nos contou depois que enquanto isso acontecia, e eles estavam sob o domínio dos Outros, uma luz roxa emanou seguida de um zumbido ensurdecedor. Eu acredito, que fosse lá o que fosse acontecer, eu consegui impedir quando acionei a chave eletromagnética.

- Então isso significa que mais alguém desistiu de apertar o botão?- deduziu Paulo.

- Ou significa que alguém foi impedido de apertar o botão!- concluiu Eko.

Locke balançou a cabeça afirmativamente, e completou: - E apesar disso, outro alguém conseguiu acionar a chave de emergência para cortar a força eletromagnética.

- Mas só uma pessoa além de John e eu sabe como fazer isso.- falou Desmond.

- Quem?- indagou Paulo.

- Cristina!- respondeu ele, com ar preocupado.

- Será que ela está bem?- perguntou Eko, um pouco nervoso.

Locke franziu o cenho, estranhando o rompante de preocupação do padre, mas nada disse. Do outro lado do barco, em uma cabine menor adjacente à maior, Kate começava a acordar de seu desmaio repentino. Abriu os olhos devagar, numa clara sensação de desconforto, e deparou-se com Charlie vigiando seu sono atentamente.

- Kate?- ele chamou quando a viu despertar.

- O que aconteceu?- ela perguntou num fio de voz.

- Você apagou de repente quando estava consultando todo mundo sobre o tipo sanguíneo para ajudar o...

- Jack!- ela exclamou, tentando sentar-se na cama, embora ainda estivesse muito zonza. – Eu tenho que ver o Jack!

- Hey, calma aí Kate!-advertiu Charlie, fazendo-a deitar-se de novo na cama. O Jack vai ficar bem, aquela mulher que veio com a gente é médica, e está nesse momento tentando tirar a bala que está alojada nele. Quanto ao sangue, o Sawyer é O negativo, e vai doar sangue pra ele assim que chegarmos na nossa ilha.

- O Sawyer?- Kate sorriu, esperançosa. – Mesmo assim, eu tenho que ver o Jack!

Ela tentou se levantar mais uma vez, mas Charlie a impediu novamente.

- Nada disso, mulher! Você não pode levantar não! A Dra. Sei-lá-o-quê, examinou você quando desmaiou, disse que é médica de bebês.- ele fez uma pausa tentando se lembrar a palavra correta para a especialidade médica de Juliet. – Hum...Obstetra, especialista em fertilidade, acho que é isso! Ela disse que você está com um pequeno sangramento.- Charlie disse com certo embaraço. – E que você deve ficar bem quietinha até chegarmos à ilha quando ela irá medicar você!

- Sangramento?- questionou Kate, preocupada com seu bebê. Resolveu acatar o que Charlie dizia e permaneceu na cama. Num instinto, ergueu a camiseta, acariciando o ventre grávido.

Charlie sorriu ao vislumbrar a barriga tufada e redondinha dela.

- Com quantos meses cê tá?

- Quase quatro meses.- Kate respondeu sorrindo.

- Você acha que vai ser menino ou menina?- Charlie indagou.

Kate ergueu a sobrancelha, e seu rosto assumiu uma expressão meiga:

- Eu sinto que vou ter uma menininha!

- Já pensou em um nome?

- Yeah!- ela afirmou. – Lilly!

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Uma nuvem de fumaça pairava sobre os destroços da escotilha. Tudo estava em ruínas, dezenas de objetos e pedaços do metal que a revestia espalhados por quilômetros dentro da floresta. Depois da explosão, amedrontada, Shannon não se atreveu a procurar por Tina em meio à fumaça e seguiu uma das trilhas que levavam de volta ao acampamento. O grupo que estava com Libby também já tinha retornado e naquele momento observavam com olhos assustados e tristes o resultado do confronto no acampamento. No total, quatro baixas, três homens e uma mulher.

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- Aqui, retirei a bala!- falou Juliet removendo o objeto destrutivo da espinha de Jack, em meio aos seus murmúrios de sofrimento.

Uma grande quantidade de sangue espirrou nas mãos de Sawyer quando ela fez isso, e o texano fez uma careta antes de exclamar, sacudindo as mãos: - Dammit!

- Agora preciso suturar o ferimento, e vamos torcer pra que ele agüente firme até chegarmos ao acampamento, onde faremos a transfusão de sangue.

- Kate...Kate...- Jack começou a murmurar, enquanto vários tremores transpassavam seu corpo.

Juliet tocou a testa dele: - Deus, ele está ardendo em febre! Precisamos segurá-lo senão terá uma convulsão.

Sayid e Juliet começaram então a segurá-lo com força na cama, Jack tremia sem parar e dizia o nome de Kate repetidamente: - Kate...Kate...Kate!

- Doutor, fica calmo, vai ficar tudo bem!- disse Sawyer tocando o ombro dele num gesto amigável. – Você não pode morrer não, você é o meu grilo falante doutor, quem vai me chamar de volta à razão quando eu fizer alguma besteira, hã?

Aos poucos os tremores foram passando, e assim que ele lhe pareceu mais calmo, Juliet pegou álcool, agulha e linha e pôs-se a suturar o ferimento de Jack. Lá fora, Jin abriu um largo sorriso quando finalmente avistaram a ilha.

- Terra à vista, capitão!- gritou Paulo, empolgado.

E de repente uma estranha felicidade tomou conta de todos, porque estavam em casa outra vez.

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- Tem um barco! Tem um barco vindo pra cá!- gritou o pequeno Zack, a plenos pulmões, tentando se fazer ouvir em meio ao caos que havia se instalado na praia depois do intenso combate com o estranho grupo que surgira de repente no acampamento.

Bernard, todo ensangüentado, tentando ajudar Andrew que estava muito ferido, foi o primeiro a prestar atenção ao garoto.

- O que você disse, Zack?

- Eu disse que tem um barco vindo para a praia!- insistiu o menino, apontando o dedo indicador para o horizonte.

Bernard arregalou os olhos azuis, Zack tinha razão. Um enorme veleiro se aproximava. Libby o reconheceu de imediato:

- È o Elizabeth! Nossos amigos estão voltando!

- Sayid!- Shannon gritou, desesperada por saber se o marido voltava para o acampamento são e salvo.

- Shannon, onde está a Tina?- indagou Aline, muito preocupada. Apesar de a amizade delas nunca mais ter sido a mesma desde que Tina se envolvera com Desmond, a brasileira estava muito preocupada com sua antiga amiga.

- Eu não sei...- respondeu Shannon com pesar, balançando a cabeça negativamente. – A escotilha explodiu, Tina ficou lá, disse que sabia o que fazer!

Aline levou as mãos ao rosto num gesto de medo e desespero, imaginando o que teria acontecido com Tina. Pedro e Hurley correram até a beira da praia para recepcionar os amigos que retornavam, ambos ansiando que a missão tivesse sido bem sucedida. Michael os acompanhou apesar da perna ainda estar muito machucada, Vincent o seguiu de perto, preparado para ajudar seu dono em qualquer eventualidade.

Do barco, Sayid observava a praia com o binóculo. Ficou horrorizado ao ver que o acampamento estava devastado. Tendas destruídas, a cozinha saqueada, pessoas feridas e o que era pior, corpos inertes no chão.

- Aconteceu algo muito grave em nosso acampamento!- disse o iraquiano.

- Sun e Jung!- exclamou Jin, muito preocupado com sua família.

- Então devemos ir logo pra lá!- falou Charlie, fazendo menção de se jogar na água, disposto a ir nadando para a praia e encontrar logo Claire e Aaron.

- Hey, Charlie, calma aí!- advertiu Locke. – Já vamos descer o bote!

- Gente, será que é mesmo seguro irmos para lá? E se fizeram uma emboscada em nosso acampamento, e agora estão só esperando desembarcarmos?- indagou Paulo, temeroso.

- E o que você sugere, Paulinho?- ironizou Charlie. – Que a gente fique aqui esperando o pessoal da praia hastear uma bandeira branca avisando que devemos nos aproximar?

- Não, não é isso...

- Então cala a boca e cai na real!- bradou Charlie, empurrando Paulo.

- Hey, parem com isso brothas!- pediu Desmond. – Temos coisas muito importantes a resolver agora, não é o momento de conflitos internos.

- È isso aí, falou o embaixador da Onu!- disse Sawyer, fazendo uma de suas piadinhas só para não perder o costume.

- Vamos descer o bote!- avisou Locke. – Eko, vá buscar o Jack, vamos acomodá-lo primeiro.

Eko assentiu silenciosamente e se dirigiu à cabine do barco para buscar Jack. Dentro da cabine, avisou a Juliet, que já havia terminado de suturar o ferimento de Jack, que ele iria levá-lo para o bote.

- Tudo bem, pode levá-lo, eu já terminei! Mas tem uma coisa, alguém deve carregar a Kate também, estou preocupada com o estado de saúde dela, não quero que ela faça nenhum tipo de esforço.

- Está bem, pedirei ao Sawyer que faça isso!- falou Eko, pondo-se a levantar Jack da cama, com muito cuidado.

Antes de sair da cabine com Jack em suas costas, o padre disse a ela com muita seriedade:

- Não importa quem fomos no passado, o importante é o que estamos fazendo pelo futuro!

Juliet sorriu, havia entendido o recado.

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Kate havia adormecido na cama depois de sua conversa com Charlie. Espantou-se quando sentiu alguém pegá-la nos braços de repente.

- O quê está...?

- Hora de acordar Bela Adormecida!- gracejou Sawyer. – Apenas sinto dizer que não sou o seu príncipe encantado!

- Pra onde está me levando, Sawyer?- ela questionou, um pouco zonza, relaxando nos braços dele.

- Já chegamos à praia, vamos todos desembarcar enquanto nosso brotha Desmond leva o barco de volta para a batcaverna!

- E o Jack?

- A Dra. Queen conseguiu tirar a bala dele, mas o doutor ainda precisa da transfusão, por isso temos que desembarcar logo!

- Tá legal, eu estou bem, me põe no chão, eu preciso vê-lo!- ela pediu.

- Nada disso, sardenta, nossa amiga doutora acha que você não está em condições, verá o doutor no bote!

E dizendo isso, ele a levou até o convés onde Locke e os demais os esperavam. Eko já havia descido para o bote com Jack, que se encontrava desacordado. Sawyer desceu com cuidado, levando Kate consigo. Paulo, Charlie, Jin, Juliet e Sayid se juntaram a eles. Apenas Desmond e Locke ficaram no barco.

O bote rumou para a praia sem problemas, a maré estava muito calma ao contrário do ânimo dos habitantes do acampamento. Quando o bote já estava quase na beira, Hurley, Michael e Pedro se aproximaram para ajudá-los no desembarque.

- Michael! Michael!- gritou Jin, descendo do barco e abraçando o amigo.

Kate vinha apertando a mão de Jack, não queria deixá-lo, e protestou quando Sawyer a pegou no colo novamente para levá-la até a praia:

- Me deixa Sawyer, eu quero ficar com o Jack!

Sawyer ia dizer alguma coisa em relação a isso quando Juliet o interrompeu:

- Kate, você deve descansar agora! Eu vou cuidar do Jack e não a quero por perto! Sei que é muito teimosa, mas dessa vez vai me ouvir, seu bebê está correndo risco de vida, tudo o que tem passado tem sido muito estressante pra ele, então acho melhor você fazer o que eu mando, como médica!

Kate não teve outro remédio senão assentir, com muito pesar. Fez um gesto para que Sawyer a aproximasse de Jack, e sussurrou próximo de seu ouvido:

- Você vai ficar bem, Jack! Eu preciso ir, mas meu coração estará com você! Te amo!

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- Malditos Outros!- exclamou Sawyer ao chegar com Kate em sua barraca e vê-la toda devastada, suas coisas espalhadas por todos os cantos. Roupas, comida, bebida e até as revistas pornô que ele havia escondido a sete chaves de Ana-Lucia. – Não importa o quanto esses caras gostem de destruir, a barraca mais fumada é sempre a minha!- queixou-se.

Kate, apesar de toda a tensão que a rodeava não conseguiu conter uma risada diante do olhar furioso de Sawyer ao vislumbrar a destruição de sua barraca.

- Você acha isso muito engraçado, sardenta?- ele indagou, fingindo estar zangado com ela.

- Me desculpe!- ela respondeu, parando de rir.

Sawyer a deitou numa almofada que estava quase intacta, e voltou a ficar sério outra vez. Sentida, Kate disse a ele:

- Sawyer, eu te prometo que assim que eu estiver bem, vou fazer de tudo para ajudá-lo a trazer seu filho de volta.

Ele balançou a cabeça negativamente:

- E como vai fazer isso, sardenta? Tem que cuidar do seu filho, garantir que ele consiga nascer. E depois? Vai ter que ficar cuidando dele, pra evitar que os Outros ponham as mãos nele como fizeram com o meu filho.

- Mas Sawyer...- Kate insistiu.

- Melhor não falarmos sobre isso agora, Kate. Tem muita coisa pra ser consertada por aqui. Eu preciso ir ajudar o doutor, vou pedir a Sunshine que venha fazer companhia a você.

Kate assentiu, sem saber mais o que dizer. Sawyer caminhou até o outro lado da praia, onde Michael e Sayid haviam acabado de reerguer a tenda médica, local em que Libby cuidara das pessoas nas últimas semanas. Era lá que fariam a transfusão de sangue da qual dependia a vida de Jack.

- Beba isso!- Juliet pediu entregando um copo de leite a Sawyer, o qual Rose acabara de preparar. Felizmente, a despensa da praia havia sido o lugar menos atacado e destruído pelos invasores.

Sawyer balançou a cabeça negativamente, mas Juliet insistiu para que ele tomasse o leite: - Como pretende doar sangue com o estômago totalmente vazio? Você precisa agüentar tudo até o final, então acho bom tomar o leite!

Diante desse argumento, ele cedeu e bebeu o leite rapidamente, entregando o copo de volta a ela.

- Aqui está, doutora., foi o melhor que eu consegui!- disse Libby entregando a Juliet um fio de silicone oco que encontrara entre os destroços da escotilha. – Acha que serve para bombear o sangue?

- Vai ter de servir!- respondeu Juliet. – E as agulhas de ouriço?

- Aqui!- disse Jin, entregando a agulha feita com espinho de ouriço para ela, já devidamente esterilizada.

- Ok, então acho que podemos começar. Jack não vai agüentar mais muito tempo!

- Libby, precisamos cuidar dos feridos, reorganizar o acampamento e enterrar os mortos!- falou Sayid, como sempre buscando o lado prático das coisas.

- Sim, Sayid. Vamos dividir os grupos para cuidarmos disso agora mesmo.

- Yd, vem cá!- chamou Shannon, puxando Sayid pelo braço.

O iraquiano a seguiu.

- Vai precisar de mim para alguma coisa ainda, Dra. Burke?- indagou Libby a Juliet.

- Não, Elizabeth, daqui pra frente eu assumo.- respondeu Juliet, limpando o braço de Sawyer com álcool, preparando-o para a transfusão.

Hurley, que estava ao lado de Libby, estranhou o jeito como a namorada conversava com aquela mulher recém-chegada ao acampamento, pareciam se conhecer de longa data.

- Libby!- ele a chamou enquanto caminhavam até o meio da praia onde as pessoas já estavam se organizando para executar as tarefas mencionadas por Sayid.

Ela voltou-se para ele.

- Da onde você conhece essa mulher?

- Eu não a conheço.- respondeu Libby.

- Como não a conhece? Você a chamou de Dra. Burke e ela te chamou de Elizabeth. Dude, metade do povo desse acampamento não sabe que o seu nome é Elizabeth, assim como não sabem que o meu nome verdadeiro é Hugo.

- Por que essas perguntas todas, Hurley? Não estou entendendo, estamos com sérios problemas aqui e você...- ela começou a se exaltar, claramente demonstrando que aquele assunto a desagradava quando sentiu uma vertigem.

Hurley a segurou com força para que não caísse no chão.

- Libby, você está bem?

- Eu estou, é só todo esse estresse que não anda me fazendo bem!- ela respondeu se recompondo.

- Libby!- chamou Sayid, do centro da praia.

- È melhor irmos!

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- Não vai doer?- gracejou Sawyer ao ver Juliet preparando a agulha para perfurar a pele de seu braço.

- Que nada!- ela respondeu com um sorriso sereno. – Vai ser como uma picadinha de mosquito! Quer segurar a minha mão, James?

- Só a mão?

Juliet ergueu uma sobrancelha e nada respondeu, apenas posicionou a agulha sobre o braço de Sawyer. Jack já estava preparado para receber a transfusão, Juliet colocara a agulha nele primeiro. Ao ver que ela finalmente o furaria, Sawyer virou o rosto para o lado, nunca gostara de agulhas.

Apertou os olhos e mordeu os lábios ao sentir a agulha improvisada perfurando-lhe a pele.

- Au! Son of a...- exclamou fazendo uma careta, mas Juliet já tinha conseguido a veia, e aos poucos o sangue começou a ser transportado para Jack através do fio de silicone.

- Mexe a mão!- pediu Juliet. – Assim, abrindo e fechando!

Sawyer a obedeceu e depois fechou os olhos acomodando-se no colchão improvisado.

- Por que está fazendo isso por ele, James?- indagou Juliet, sentando-se no colchão ao lado de Sawyer.

- Porque se um dia formos resgatados, sou eu quem vai estar nas capas das revistas como o herói que salvou o líder da ilha!

Juliet sorriu.

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- Tudo pronto, brotha!- avisou Desmond quando ele e Locke terminaram de esconder o bote debaixo da vegetação da ilha. O barco também já estava ancorado em seu devido lugar.

- Certo! Agora vamos voltar depressa ao acampamento.- disse Locke. – Devem estar precisando de nós!

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(Flashback)

No batente da janela de seu quarto, Penélope Widmore estava tão entediada quanto Julieta na noite do baile de máscaras. Mas estranhamente, foi naquela noite tediosa que Julieta conhecera Romeu e sua vida mudou para sempre. Ora, pois Penélope ansiava pelo mesmo, pelo seu Romeu, enquanto observava as plantações da propriedade de sua família que se faziam perder de vista no horizonte até onde começavam as luzes da Vila. Sabia que não iria conhecê-lo naquela festa porque já o tinha conhecido, ainda assim esperava que como Romeu, ele desse um jeito de entrar na festa mais badalada do momento mesmo sem o convite.

O que ela não sabia, era que o seu pobre Romeu já estava fazia cerca de meia-hora tentando pular o imenso muro da propriedade dos Widmore, sem sucesso. Porém, na quinta tentativa, o perseverante Desmond Hume conseguiu enfim passar para o outro lado, por pouco a costura de suas calças não rasgou bem no meio.

- Obrigado, Senhor!- ele exclamou erguendo as mãos para o céu assim que se viu dentro da propriedade.

Saiu pisando pé ante pé pelo jardim para não despertar a atenção de nenhum dos seguranças e graças ao seu conhecimento da propriedade, logo chegou ao patamar onde se localizava a janela do quarto de Penélope. Olhou ao seu redor e arrancou um jasmim branco de uma das leiras do jardim e já ia chamar a atenção de sua amada quando um dos enormes cães de guarda da mansão apareceu diante dele, ameaçador.

- Hey Charlie, amigão, como vai você?

Imediatamente ao ouvir a voz de Desmond, o cão pôs-se a abanar o rabo para ele, pois o reconhecia. Foi nesse momento que Penélope se apercebeu da presença de seu amado e sorrindo, acenou para ele, eufórica. Trocaram olhares apaixonados e Desmond sorrindo ofereceu-lhe o jasmim, e ela lhe dirigiu uma pergunta silenciosa:

- Por que demorou tanto?

Fez um sinal com a mão esquerda para que ele a esperasse e saiu rapidamente do quarto. Avisou a uma das empregadas que não iria mais descer para a festa porque estava com muita dor de cabeça. Voltou para o quarto e com destreza saiu pela janela do segundo andar, escalando uma enorme árvore que havia do lado de fora para chegar ao chão.

- Penny, você está linda!- sussurrou Desmond ao pegar a mão dela e beijá-la em um gesto carinhoso.

Ela lhe deu um belo sorriso e rodopiou momentaneamente, fazendo charme, exibindo seu lindo vestido verde, a cor preferida de Desmond.

- E como está a festa, my dear?

- Chata!- ela respondeu com uma careta.

- Então estaria disposta a ir a uma festa de verdade?

Momentos depois estavam em uma típica festa escocesa da Vila, tomando muito uísque e dançando alegremente ao som das gaitas. Eram adolescentes e a vida não podia ser mais perfeita. Rodopiavam incansavelmente sob a luz do luar e o crepitar da fogueira. De repente, Desmond sentiu que Penny o puxava para um canto mais afastado de todos. Ele ergueu uma sobrancelha, divertido, observando o gesto dela.

- Pra onde você quer ir, Penny?

Ela nada respondeu e começou a correr dele para o meio das plantações mal iluminadas, ele a seguiu correndo também. Os dois riam muito, até que ele a pegou caindo com ela no meio do milharal. Ao longe as gaitas continuavam soando, alegres e convidativas. Penny deu um olhar avassalador a Desmond, como nunca havia feito, e ele achou que suas pernas estavam ficando bambas. Então ela o beijou, intensamente, apaixonadamente arrancando suspiros imensuráveis de Desmond.

- Penny...- ele murmurou em meio aos beijos.

Penélope levantou-se do chão e começou a se despir sob a luz do luar e o olhar fascinado de seu amado. Amaram-se ali pela primeira vez, sem medos, culpas ou reservas, sentindo a amplitude do primeiro amor. Ao final, estavam exaustos e felizes, sorrindo para o mundo. Porém, a felicidade deles foi de súbito interrompida quando Desmond sentiu um estranho espasmo dentro de si, seguido de uma visão aterradora. Suando frio, murmurou:

- Gertie, Gertie vai morrer esta noite!

- O quê?

- Gertie vai morrer esta noite!- repetiu com os olhos vidrados.

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(Fim do Flashback)

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- Onde é que eu estou?- indagou Jack, sentindo o corpo todo moído. Piscava os olhos com dificuldade, tentando se situar quando se deparou com Sawyer ao seu lado. Um tubo cheio de sangue os unia.

Sawyer ao notar que ele havia acordado, exclamou, alegre:

- Doutor, você voltou!

Continua...