Episódio 7- "2342".

Sinopse: Ela não sabe quem é, sua vida é envolta em neblinas. Benjamin Linus diz que conhece seu passado, mas estaria dizendo a verdade? Sawyer não quer mais a companhia de seus amigos para continuar sua busca por Ana-Lucia porque esta é sua cruzada pessoal.

Censura: T.

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(Flashback)

O som do silêncio era uma constante intermitente nos ouvidos dela, o ruído de um sonar fino que lhe desafiava os tímpanos como se exigisse que ela despertasse daquele sono que a fazia prisioneira de si mesma há vários dias. E foi assim que ela despertou, com a sensação de que ressuscitara dos mortos.

Abriu os olhos de repente e fixou sua visão no teto de metal branco, que nenhuma informação adicional lhe trazia. Em seguida puxou o ar para os pulmões, com tanta força que lhe deu a impressão de que era a primeira vez que executava tal tarefa. Moveu a língua dentro da boca, e sentiu um estranho gosto metálico no paladar. Piscou duas vezes e tentou se mover, mas não conseguiu, aparentemente algo a prendia.

Passados alguns segundos, conseguiu mover as mãos e instintivamente tocou os próprios seios que estavam muito doloridos e inchados. Achou estranho quando ao tocá-los sentiu a roupa encharcada e grudenta. Levou a mão ao rosto e percebeu que estava ensopada de leite materno. Foi aí que se deu conta, ela era mãe e seu bebê estava com fome em algum lugar. Pânico tomou conta dela e tentou respirar forte mais uma vez, mas tudo o que conseguiu foi um grito rasgado de desespero do fundo da garganta, tão alto que quebrou de uma vez o som do silêncio que tanto perturbava seus tímpanos. E no momento em que gritou, foi o momento em que conseguiu mexer o próprio corpo.

Estava excessivamente dolorida, resultado óbvio de dias adormecida na mesma posição. Depois daquele primeiro grito, não conseguiu parar mais, gritou e gritou até sentir a garganta arder devido ao esforço, ao mesmo tempo em que sacudia o corpo tentando sair de uma vez daquele estágio letárgico em que se encontrava. De repente, o barulho inconfundível de uma porta se abrindo fez ela parar de gritar.

Apesar da visão embaçada, conseguiu vislumbrar o perfil de um homem de estatura média, olhos azuis frios e cabelo castanho com leves indícios de calvície. Balbuciou para ele:

- Cadê o meu bebê?

O homem se aproximou dela sem cerimônias e pôs a palma quente de sua mão na testa dela, dizendo:

- Bem-vinda de volta, Suzane!

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- O que foi Sawyer? Não vai me dizer que achou um parque de diversões por aqui!- debochou Paulo quando Sawyer apareceu esbaforido, dizendo que havia feito uma grande descoberta.

- Uma nova escotilha?- questionou Nikki. – Eu espero que sim, a última que tínhamos anda me fazendo falta.

- Escotilha?- reclamou Philip. – Eu quero é saber se finalmente encontrou o esconderijo dos Outros.

- Vejam por si mesmos!- disse Sawyer levando-os até a pequena fazenda que tinha encontrado.

Os olhos dos três brilharam diante da descoberta dele.

- Isso é muito melhor que encontrar uma nova escotilha! Nunca fiquei tão feliz em ver um boi.-afirmou Nikki, radiante.

- Um boi só não Nikki, ou estou com muita vontade de comer omelete ou aquilo ali me parece um galinheiro.- disse Paulo.

- Será que os Outros estão aí?- indagou Philip.

- Eu não sei!- disse Sawyer, preparando a arma que sempre carregava consigo. – Vamos dar uma olhada por aí!

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Jack chegou em casa e encontrou Kate embalando Lilly e cantando para ela, sentada no batente da entrada. Seu rosto estava mais corado, os longos cabelos castanho-avermelhados enfeitados com uma flor amarela. Sentiu uma felicidade tão grande dentro de si diante daquela visão que não cabia dentro do peito e por um minuto desejou que não estivessem naquela ilha, e sim morando em Los Angeles numa bela casa com jardim e cerca branca.

Kate deu um largo sorriso ao vê-lo e indagou: - Por que está me olhando assim?

Jack se aproximou dela, sentando-se ao seu lado no batente: - Porque você é linda!

Ela o beijou rapidamente nos lábios, e mostrou toda empolgada os sapatinhos de Lilly.

- Olha só papai, sua filha ganhou sapatos novos.

Jack riu segurando o pezinho de Lilly.

- Quem fez pra ela?

- Foi a Claire.- respondeu Kate.

- E falando em presentes.- disse Jack. – Por onde anda o Sawyer? Ele ainda não veio aqui com você?

- Não Jack, não vejo o Sawyer desde ontem à noite.

Jack estendeu os braços para pegar Lilly no colo, Kate entregou a menina para ele, com muito cuidado.

- Vou levar a Lilly pra dar um passeio e fazer uma visitinha pro Sawyer. O que me diz princesinha?- ele falou com Lilly, fazendo gracinha para a filha. – Quer conhecer o tio Sawyer?

Kate riu: - Ele provavelmente deve estar em casa dormindo.

- Nós vamos indo dar uma volta mamãe, aproveita pra descansar.

- Descansar? Não Jack, eu estou bem. Vou aproveitar pra lavar roupa.

- Ok, mas não se exceda.- disse Jack dando-lhe um beijo no rosto. – Bye, mommy.- ele falou balançando a mãozinha fechada de Lilly levemente para a mãe.

- Tchau meu amor, divirta-se com o papai.

Jack caminhou todo contente pela praia, se sentindo o "próprio" com a filha no colo. As pessoas sorriam e paravam para olhar Lilly à medida que ele caminhava. Logo chegou à casa de Sawyer, a última casa da praia com várias plaquinhas de "Não entre!", "Área restrita"! Chamou na entrada da cerca, gracejando:

- Ô Sawyer, você tá aí? Sou eu, Jackass!

Nenhuma resposta.

- Esse desgraçado deve estar dormindo!- falou consigo mesmo, embalando Lilly junto ao peito.

Entreabriu o portão de madeira e entrou. Diferente das outras casas, cujas portas de entrada eram todas de lona, a porta da casa de Sawyer também era de madeira, tinha até tranca.

- Sawyer!- Jack chamou mais uma vez e continuou sem obter resposta.

Deu a volta na casa, ao contrário da porta, as janelas eram de lona. Puxou a lona e observou dentro da casa, estava vazia e bagunçada. Jack ficou intrigado e já estava deixando a casa quando foi abordado por Hurley.

- Dude!

- O que houve Hurley?- indagou.

- Reclamações lá na delegacia.

- Que tipo de reclamações?

- Desaparecimentos, dude. Aline diz que o Paulo sumiu, o Pedro diz que a Nikki sumiu e a Amanda diz que o Philip sumiu.

- O Sawyer não está em casa também.- falou Jack. – Isso é muito estranho, todos conhecem as regras, depois do último ataque que sofremos há cinco meses, ficou estabelecido que ninguém deveria deixar a comunidade sem dizer nada.

- Então...

- Eu vou deixar minha filha com a Kate, chame o Sayid e o Locke. Diga que quero falar com eles lá em casa.

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Ninguém em casa, pelo menos à primeira vista. Mesmo assim, Sawyer sabia que deveria manter cautela enquanto adentrava aquele domínio desconhecido. Ao contrário dele, Paulo, Nikki e Philip não estavam dando a mínima para o cuidado, estavam era muito empolgados com a nova descoberta e com a certeza de que enriqueceriam o cardápio da comunidade. Depois de quase dois anos naquele lugar descobrir uma fazenda cheia de carne, leite e ovos era melhor do que qualquer outra coisa. Mas Sawyer definitivamente não estava pensando em comida, tinha preocupações maiores consigo, como descobrir o paradeiro de sua família.

A fazenda não era muito extensa, alguns hectares cobertos de grama, com cerca de dez ou quinze bois pastando, duas vacas leiteiras, três bezerros, cabritos, um pequeno celeiro com alguns cavalos e um galinheiro repleto de galinhas. O celeiro era conjugado à uma residência razoavelmente grande, construída com madeira. O excesso de chuvas na ilha provavelmente envelheceu as tábuas e causou ferrugem na armação das portas.

- Tá legal, eu vou checar a casa principal e vocês o resto.- disse Sawyer.

- E por que?- questionou Paulo. – Está na cara que só vamos encontrar animais aqui fora, não que eu não esteja interessado, mas deve ter algo de mais interessante dentro dessa casa.

- Eu imagino que sim.- respondeu Sawyer. – E por isso, eu sou o mais indicado para entrar.

Nikki revirou os olhos: - Ah sim, claro. Você quer entrar primeiro para saquear as melhores coisas pra melhorar o conforto da sua casa. Já conheço sua fama, Sawyer!

- Pouco me importa se você conhece a minha fama ou não, ascendente ao silicone, o que estou tentando dizer a vocês é que eu sou o líder dessa expedição, portanto, eu entro primeiro e sozinho nessa casa. Se eu não voltar em dez minutos, vocês podem chamar a Swat pelo rádio.

Os três entreolharam-se.

- Ok, como quiser Tutancâmon! Nós vamos ficar aqui fora"bonitinhos", esperando pelo grande líder!- debochou Paulo.

- Sabe o que eu mais odeio em você?- indagou Sawyer a Paulo.

O brasileiro deu de ombros.

- Essa mania que você tem de querer ser mais engraçado do que eu! Agora fiquem aqui e me deixem trabalhar!

E dizendo isso, Sawyer subiu os três degraus da escadinha de madeira que levava à porta de entrada da casa. Girou a maçaneta e abriu a porta bem devagar, pisando pé ante pé. Assim que ele sumiu dentro da casa, Paulo olhou para Nikki e Philip e fez sinal para que eles o seguissem até o celeiro.

Dentro da casa, Sawyer caminhava a passos lentos, olhando em todas as direções, apontando cuidadosamente sua arma para cada canto, caso fosse surpreendido por alguém. Por dentro, a casa não tinha nada de extraordinário, pelo contrário, moldava-se com perfeição ao cenário rancheiro do lado de fora.

- Bem que eu sempre acreditei que o rancho Kent deveria existir em algum lugar.- murmurou Sawyer consigo mesmo se referindo ao rancho fictício onde vivia a família do Super-homem.

Lembrava a ele o rancho de seus avós maternos onde costumava passar as férias na adolescência. O chão feito de tábuas de madeira corrida, sofá felpudo e estampado, um gato malhado descansando no batente de uma das janelas, um relógio cuco na parede, uma mesa de quatro cadeiras ornamentada com um vaso de girassóis ao centro. Caminhou até a cozinha e não encontrou nada mais do que uma velha geladeira, uma despensa de alimentos industrializados Dharma e um fogão à lenha.

Saiu da cozinha e checou os outros aposentos. Uma suíte, dois quartos e um banheiro. Nada demais, beliches cobertos com colchas de retalhos, travesseiros de penas de ganso e guarda-roupa com algumas camisas masculinas de algodão cuidadosamente engomadas nas cruzetas.

- Se a minha avó aparecesse agora, eu não estranharia.

Depois de toda essa exploração e sem encontrar nenhuma alma na casa ou algo que pudesse ser útil em sua busca, Sawyer já estava desanimado. Olhou pela janela e viu Nikki carregando um cabritinho nos braços, como se o animal fosse um brinquedinho. Paulo e Philip riam de alguma coisa que ele não conseguia entender ali de dentro. Balançou a cabeça negativamente e deu um sorriso triste pensando consigo que a felicidade estava nas mínimas coisas e que quando estavam vivendo na chamada "civilização" não se davam conta disso.

Voltou para a cozinha, abriu a geladeira e deu uma gargalhada ao vê-la abarrotada de cerveja Dharma, aparentemente bem gelada. Pegou uma latinha e abriu com avidez, entornando-a em seguida garganta abaixo. Deu um suspiro de satisfação e limpou o bigode de espuma que havia se formado em sua boca com as costas das mãos. Foi nesse momento que sentiu que pisava em uma tábua de madeira em falso. Intrigado, agachou-se e observou melhor a tábua. Estava mesmo solta. Sawyer pôs sua cerveja de lado no balcão da pia e ergueu a tábua, arregalando os olhos azuis quando viu que uma escadinha íngreme de metal embaixo daquela tábua que levava a algum lugar.

Desceu sem pensar duas vezes. Era uma espécie de porão, escuro, com cheiro forte de bolor e muito apertado. Mas definitivamente foi o que fez a missão de Sawyer valer a pena. Dentro daquele cubículo, ele encontrou vários monitores de computador interligados a uma enorme caixa estabilizadora de energia. Checou cada monitor, as telas exibiam diversas seqüências numéricas, aparentemente sem nenhum sentido. Porém, foi em um desses monitores que Sawyer encontrou o seu Santo Graal, algo que parecia ser um mapa detalhado da ilha.

Puxou uma cadeira de palhinha empoeirada e sentou de frente para esse monitor. Começou a mexer no mouse checando as localizações no mapa. Uma lhe chamou a atenção, uma área grande definida no mapa como "área ocupacional". Sawyer vasculhou algumas gavetas empoeiradas até encontrar lápis e papel. Fez um rabisco acerca da localização daquele lugar e deixou o porão da casa, satisfeito.

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- Já faz cinco meses Ben e eu simplesmente não consigo acreditar que Juliet nos traiu. E o mais estranho é que a Karen não vê nada demais nisso.- dizia Tom para Benjamin Linus, ambos sentados no confortável sofá da residência dele na ilha.

- Concordo com você Tom, tem algo de muito estranho nessa fuga da Juliet. Pra mim tem alguém querendo me sabotar dentro do projeto. Andei pensando em conversar com Jacob sobre isso.

- Vai mesmo fazer isso?- questionou Tom, incrédulo.

- O quê? Acha que eu não tenho autoridade suficiente?- indagou ele, ofendido com a pergunta de Tom.

- Não, eu não quis dizer isso, eu só...- Tom começou a se explicar quando foi interrompido pela entrada repentina de uma mulher carregando uma bandeja na sala.

- Aqui está o café.- disse a mulher, sorrindo educadamente. – Desculpem a demora, mas o bebê não está me dando sossego hoje.

- Tudo bem, querida, pode deixar a bandeja na mesinha.- falou Ben

Ela pousou cuidadosamente a bandeja com o café na mesinha. Tom ficou olhando para ela com ar de admiração e disse:

- Está cada dia mais bonita, Suzane.

- Para com isso Tom.- ela pediu, sem graça com o elogio.

Um choro de bebê ecoou alto na sala, vindo do quarto. Suzane sorriu.

- Me dêem licença, ele está tão zangado hoje, eu não sei por quê.

Assim que ela deixou a sala, Tom comentou com Benjamin:

- Não importa se a Juliet está tramando alguma coisa contra você, tenho certeza que a Karen não vai poder dar as costas a tudo de bom que você tem feito por aqui, principalmente no que se refere ao seu sucesso no projeto 2342. Durante todo o tempo que Juliet esteve aqui, ela jamais conseguiu algo parecido, nem de longe. Suzane é uma excelente esposa pra você.

- Sim, Suzane foi a melhor coisa que já me aconteceu. Sempre tão eficiente e obediente. È o que eu te dizia Tom, que eu ainda ia conquistar meu espaço mais do que merecido nessa organização e agora estou conseguindo isso, em parte graças a Juliet, mas o que isso importa agora?

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(Flashback)

Suzane não agüentava mais ficar trancafiada dentro daquele quarto de paredes tão brancas que lhe causavam claustrofobia. Benjamin, seu dedicado e amoroso marido, lhe prometera que traria seu filho de volta, e foi o que fez. Ela agora podia embalá-lo junto ao peito com a certeza de que ninguém o tiraria dela, mesmo assim não queria mais ficar ali dentro, ela e o bebê precisavam ver o sol outra vez. Não importava o que Benjamin dissesse sobre contaminação e radiação existente do lado de fora, assim que ele entrasse naquele quarto aprisionador, ela o faria tirá-los de lá.

Pensava nisso com todas as forças de seu ser quando Benjamin entrou no quarto todo sorridente, um brilho de felicidade inundando seus olhos azuis.

- Suzane, querida, finalmente chegou o dia!

Ela ajeitou o bebê no colo e indagou a ele com olhares esperançosos: - Dia de quê?

- Dia de tirar você e o nosso filho daqui, meu amor!

Suzane deu um enorme sorriso. Benjamin abraçou-a e a beijou intensamente nos lábios.

- Chega de ficar aqui trancada! O processo de descontaminação do ambiente foi um sucesso, nós vamos ficar bem.

- E pra onde vamos, Benjamin?

- Pra casa querida, pra casa. Um lar maravilhoso que encontrei pra nós, como nossa antiga casa em Los Angeles. Teremos vizinhos e você poderá fazer amizade com as esposas dos outros cientistas.

- Elas tem filhos também?

- Oh não, meu amor. Elas não tem filhos. O acidente radioativo foi muito cruel, algumas perderam seus bebês, outras sequer podem engravidar. Mas você meu amor, é abençoada. Me deu um filho e quem sabe poderemos ter outros.

- Eu não sei...- ela murmurou incerta. – Eu sei que tudo o que você me diz é verdade, mas eu tenho medo Ben, porque me esforço e não consigo me lembrar de nossa antiga vida, quisera poder lembrar.

- Oh não Suzane, não se torture. È normal você não se lembrar de nada, melhor assim, eu mesmo queria pode esquecer todo o horror que passamos. Mas agora não é hora para tristezas, fiquemos felizes, vamos recomeçar nossas vidas. Alex!- ele chamou e uma adolescente magrinha de cabelos castanhos, cacheados e profundos olhos azuis adentrou o quarto. – Você se lembra da Alex, não se lembra, querida?

Suzane ergueu uma sobrancelha, tinha um olhar confuso ao observar a menina: - Desculpe, eu não...

- Não se preocupe, você vai se lembrar.- Benjamin tranqüilizou-a .- Esta é minha filha Alex, do meu primeiro casamento, sua enteada. A mãe dela morreu há muito tempo e você tem sido uma mãe pra ela desde então. Alex irá levar você e o bebê para nossa casa nova, eu irei para lá em dois ou três dias, assim que terminar alguns assuntos burocráticos por aqui.

- Certo.- concordou Suzane, mecanicamente.

Alex sorriu para ela e acariciou a cabecinha do bebê adormecido em seus braços: - Você finalmente irá para casa, Suzane!

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(Fim do Flashback)

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- Jack, você acha prudente nos ausentarmos da comunidade depois de tudo o que aconteceu aqui meses atrás? Isso sem falar da presença daquela Juliet. Não tem medo dela perto de sua filha?- indagou Sayid com irritação latente.

Estavam todos reunidos na casa de Jack, conversando acerca do sumiço de Sawyer, Paulo, Nikki e Philip.

- Sayid, eu acho que você está exagerando.- retorquiu Jack. – Juliet só tem nos ajudado todos esses meses. O que acha, John?

Locke deu um sorriso enigmático: - Jack, eu até entendo sua lealdade para com essa mulher, afinal ela salvou sua vida, a da Kate e trouxe sua filha ao mundo, mas o Sayid tem sua parcela de razão, cuidado nunca é demais. Além disso, nós fazemos idéia para onde o Sawyer tenha ido.

- Sim.- concordou Charlie. – Ele deve ter ido atrás da Ana-Lucia e do filho dele, não acredita que ela esteja morta.

- E exatamente por isso é que temos de ter cautela. Eu, mais do que ninguém, sei do que um pai é capaz para resgatar sua família. Aqueles desgraçados usaram isso contra mim, e podem usar contra o Sawyer também.- falou Michael.

- Michael, está nos dizendo que o Sawyer saiu da comunidade para procurar os Outros e nos trair em troca de recuperar a família como você fez?- questionou Jack.

- Sim, eu estou dizendo isso.- afirmou ele.

- Eu acho que a coisa mais sensata a ser feita aqui, brothas, se me permitem.- acrescentou Desmond. – Seria três de nós apenas irem atrás dos desaparecidos, o restante fica aqui e continua seguindo o sistema de vigilância do Sayid para proteger nossa comunidade. O que nós não podemos é deixar que os Outros os peguem e os corrompam, seja lá por qual motivo for, isso enfraquece a comunidade.

- Sábias palavras, Desmond.- disse Eko com um leve sorriso mostrando os dentes muito brancos.

- Então ficamos assim.- falou Sayid, assumindo a missão. – Eu, John e Desmond iremos procurá-los. E se não voltarmos em três dias, um novo grupo deve vir nos procurar.

- Eu quero ir!- disse Jack, com determinação.

- Você não vai!- falou uma voz feminina ainda mais determinada do que ele.

- Como é?

- Isso o que você ouviu Jack, você não vai.- repetiu Kate, com muita seriedade, segurando Lilly nos braços. – Você agora além de líder dessa comunidade, é pai, e eu preciso de você aqui pra me ajudar. Deixe a ação para os outros.

Jack fez cara de chateação, mas não ousou discutir. Sayid trocou olhares divertidos com Locke e Desmond, mas nada disse. Os homens começaram a dispersar da casa de Jack e Kate. Assim que ficaram sozinhos, ela disse:

- Eu te disse há muito tempo que não queria ser a Eva, mas já que você fez questão de ser o Adão, agora agüente!

Ela entregou Lilly com cuidado para Jack que estava com o olhar incrédulo às palavras dela: - Agora, seja um bom marido, e tome conta da nossa filha enquanto eu vou almoçar. E não ouse me contrariar Shephard, ou então vai dormir sob a soleira da porta esta noite já que não temos um sofá pra eu te expulsar pra lá.

Kate saiu da casa segurando o riso, enquanto Jack embalava Lilly desajeitadamente, a menina chorava irritada.

- Eu dou conta disso!- comentou consigo mesmo. – Já passei por situações piores. Vamos filhinha pare de chorar, papai vai acalmar você!

- E aí? Deu certo?- indagou Claire quando Kate chegou à cozinha na praia.

- Com certeza.- respondeu ela, sorrindo.

- E eu não te disse? Temos que ser duras com os homens às vezes, senão eles abusam, só querem saber de caçar e fazer amor, deixam a roupa suja e o cuidado com os bebês só pra gente, mas eu não dou mole pro Charlie não, ele vai passar a tarde inteira tomando conta do Aaron.

Kate riu: - E o Jack vai passar pelo menos umas duas horas tomando conta da Lilly. Daí vamos encontrar com a Sun na horta e nos divertir um pouco, ela vai deixar o Jung com o Jin.

As duas sorriram cúmplices, não era porque viviam em uma ilha que iriam deixar a hierarquia machista de seus antepassados assumir o poder efetivamente.

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- Suzane? Eu posso entrar?- pediu Alex, à porta do quarto de sua madrasta. Suas faces estavam coradas de raiva e os olhos cheios de lágrimas.

- Entre, querida!- respondeu Suzane de dentro do quarto, havia acabado de dar banho no bebê e o estava enxugando em cima do trocador.

- Eu quero conversar com você um minuto.- disse Alex, sentando-se na beirada da cama de casal.

- Pode falar, Alex.- disse Suzane de costas para Alex, começando a colocar uma fralda no bebê e fazendo gracinhas para ele que sorria para sua mãe, um único dentinho brotando de sua gengiva rosada.

Alex enxugou uma lágrima teimosa que lhe escorria pela face, e começou a dizer: - È que eu...

- Diga, querida!- pediu Suzane se virando de frente com o bebê roliço nos braços. – Oh, você está chorando. O que aconteceu?

- Sinto falta do Karl.- ela desabafou. – E não sei mais o que fazer, acabei de discutir com o papai, ele não quer me dizer onde ele está, diz que Karl não é uma boa influência pra mim. Meu pai é inacreditável às vezes!

- Meu amor não fique assim.- pediu Suzane com a voz doce. – Você quer que eu fale com ele?

- Como se isso fosse adiantar, meu pai é tão egocêntrico!

- Eu posso tentar mesmo assim!- falou Suzane, com um sorriso bondoso nos lábios.

- Suzane, você é tão maravilhosa. As coisas mudaram totalmente desde que você e o bebê vieram viver conosco.- confessou Alex, acariciando o cabelo loiro e muito liso do bebê.

Suzane ergueu uma sobrancelha, um pouco intrigada com as palavras da enteada.

- Do que está falando, querida? Sempre estivemos juntas, desde que você tinha sete anos, quando me casei com seu pai. O bebê nasceu muitos anos depois porque eu não podia engravidar, ele foi um milagre.- ela beijou a cabecinha loira do filho.

Alex ficou um pouco apreensiva com a observação dela, mesmo assim concordou.

- Yeah, eu sei! Mas me refiro ao tempo em que você esteve doente por causa da contaminação, e ficamos todos separados.

- Ah querida, embora eu não me lembre, deve ser efeito colateral dessa maldita contaminação que nos assolou, tenho certeza que em meu íntimo senti muito a sua falta.

Alex deu um beijo carinhoso na face da madrasta e deu um sorriso triste. Nesse momento, Benjamin entrou no quarto. Ao vê-lo Alex fechou a cara e saiu. Ele ignorou o comportamento rebelde da filha e mexeu com o bebê nos braços de Suzane.

- Cadê o lindinho do papai?

Ao ouvir a voz dele, o bebê caiu no choro. Suzane tentou acalmá-lo.

- Oh meu amor, por que está chorando? È o papai, querido.

Ben fez uma expressão zangada vendo que o bebê não parava de chorar, e disse: - Você o está mimando demais Suzane, por isso ele age desse jeito quando outra pessoa que não você tenta agradá-lo.

- Ele não chora quando Alex o pega no colo.- respondeu ela, balançando-o junto ao peito. – Calma querido, mamãe está aqui!

- Mesmo assim, acho que você passa tempo demais com ele no colo, deveria deixá-lo no carrinho, no berço ou no cercadinho. Ele está ficando muito mal acostumado.

- Por Deus, Ben!- ela queixou-se, sentando com ele na cama outra vez. – Ele só tem cinco meses!- vendo que ele não se acalmava de jeito nenhum, Suzane acalentou-o junto ao corpo e desabotoou a blusa, oferecendo-lhe o seio. O menino começou a mamar e foi ficando bem quietinho nos braços da mãe.

Ben reclamou mais uma vez: - Outra coisa, já disse a você que é hora dele largar o peito, não falta leite em pó nesta casa e se precisarmos um dia deixá-lo com alguém vai ser complicado porque ele ainda mama.

Suzane ergueu os olhos negros para ele, num gesto desafiador, e disse:

- Não farei isso! Ele ainda é muito pequeno, precisa de mim, não o deixarei com ninguém!

Ben a encarou de volta, com aqueles olhos azuis esbugalhados e frios, e indagou: - Está me desafiando Suzane?

Um flash de memória correu pelos olhos dela naquele momento, e ela se viu encarando os olhos do marido daquele mesmo jeito tenso, num lugar escuro, sentia muita raiva, seu corpo inteiro tremia. Ficou perturbada e piscou os olhos, confusa antes de dizer:

- Não, não estou te desafiando, me desculpe.

Ele parou de encará-la e falou com a voz calma e firme ao mesmo tempo:

- Òtimo! Quando o menino terminar de mamar, por favor, peça a Alex que tome conta dele e prepare o meu jantar, estou com fome!

Ela assentiu e ele saiu do quarto. Beijou o filho e o apertou mais fortemente junto de si pensando na estranha lembrança que acabara de ter tido. Desde que acordara naquele quarto sinistro de paredes brancas sua vida era um tormento, seu marido jurava que a amava e que ficaria tudo bem, mas ela não conseguia se lembrar de nada antes daquilo e isso a atordoava. Tentou não pensar mais no assunto, lembrando a si mesma que não falara com ele sobre Alex. Falaria à noite quando fossem dormir.

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O sol havia acabado de se pôr, e uma leve brisa substituía o intenso calor que fizera o dia inteiro na floresta. O pequeno grupo de três pessoas que partira com Sawyer da comunidade de sobreviventes se divertia na casa da pequena fazenda que haviam encontrado no meio da floresta. Paulo preparava um delicioso jantar na cozinha, enquanto Philip jogava xadrez num velho computador empoeirado no canto da sala. Nikki dançava uma música ritmada, havia encontrado um aparelho de som e uma caixa de papelão cheia de cd's. Sawyer bebia uma cerveja Dharma, sentado nos degraus da escadinha da varanda.

Exploraram o lugar o dia inteiro e encontraram muitas coisas que seriam úteis na comunidade. Já estavam satisfeitos com sua descoberta e resolveram que retornariam no dia seguinte para contar a novidade a todos. Sawyer, porém havia encontrado uma provável rota que o levaria até o acampamento dos Outros. Degustava sua cerveja pensando que logo teria de partir, mas não queria levar os três com ele. Queria ir sozinho. Não contou a ninguém sobre o porão cheio de computadores. Já tinha até um plano de como sairia dali sem que eles percebessem. Sabia que era irresponsabilidade deixá-los por sua conta, mas tinha coisas mais importantes com o que se preocupar. Provavelmente um grupo de busca já deveria ter sido mandado por Jack atrás deles.

- Hey Sawyer, vem comer, cara! Não vou te chamar duas vezes!- gritou Paulo de dentro da casa.

Um delicioso aroma de frango assado encheu as narinas de Sawyer, e ele sorriu sorvendo mais um gole de sua cerveja.

- Eu já vou!- respondeu. Jantaria e depois quando os três estivessem distraídos, fugiria deles.

Adentrou a sala e puxou Nikki que dançava sozinha para dançar com ele. Começaram a rodopiar pela sala fazendo todo o tipo de passos. Philip parou de jogar xadrez e juntou-se a eles dançando. Logo em seguida Paulo apareceu segurando uma bandeja com um frango assado suculento feito para eles. Os três bateram palmas e foram sentar-se à mesa de madeira para comer. Comeram, riram e jogaram conversa fora se permitindo serem felizes naquele dia de intensas descobertas.

Depois do jantar, sentiram-se muito cansados e acomodaram-se no sofá estofado para descansar. Paulo começou a contar piadas e eles conversaram por mais duas horas. Sawyer já estava ficando agoniado porque eles não dormiam logo para que ele pudesse sair dali. Finalmente, depois de uma espera que pareceu eterna a ele, os três dormiram amontoados no sofá. Sawyer levantou-se e procurou pela mochila de mantimentos que já tinha arrumado. Olhou para os três uma última vez, e disse:

- Desculpem amigos, espero que fiquem bem!

Deixou a casa na ponta dos pés para não acordá-los e correu para o celeiro na calada da noite. Sorriu ao vislumbrar o meio de transporte que o faria percorrer muito mais rápido a floresta íngreme. Num canto do celeiro, coberta com uma lona preta estava uma velha motocicleta. Inacreditavelmente, o grupo não tinha percebido a moto ali, tão preocupados que estavam em procurar outras coisas. Retirou a lona e encheu o tanque da moto com combustível que encontrara num galão guardado em um velho armário na cozinha.

- Aí vou eu!- disse ele todo contente ao montar na motocicleta.

Deu partida rezando para que aquela velharia funcionasse e uma gargalhada escapou de sua garganta ao ouvir o barulho irritante do motor. Saiu ziguezagueando pela fazenda em direção a selva. Nikki despertou com o barulho da motocicleta e assustada procurou por Sawyer com os olhos pela sala. Mas ele não estava lá. Correu para a varanda, a tempo de vê-lo partindo, e gritou:

- Sawyer!

- Adios, Nikki!- foi a única coisa que ele respondeu adentrando a selva com a moto.

Ela limitou-se a balançar a cabeça e exclamar: - Son of a bitch!

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- Quer um pouco de café, brotha?- indagou Desmond a Locke segurando uma caneca de metal cheia de café quente que ele havia acabado de preparar na fogueira.

Locke sorriu em agradecimento e pegou a caneca das mãos dele. Estavam acampando no meio da floresta, haviam caminhado o dia inteiro em busca de Sawyer, Paulo, Nikki e Philip, mas até agora nem sinal deles. Seguiram suas pegadas até boa parte da floresta, mas depois as perderam de vista, o que tornou complicado continuar a busca. Anoiteceu e resolveram acampar, retomariam a missão no dia seguinte.

Sayid estava quieto em seu canto, degustando uma manga, pensando na discussão que tivera com Shannon quando anunciara a ela que sairia em mais uma missão de resgate. Ela gritara com ele, muito zangada, dizendo que já estava cansada de ser a mulher do soldado que era deixada para trás e insistira muito para ir com ele. Mas Sayid a proibira terminantemente e ela acabou dizendo que quando ele voltasse que tratasse de arranjar outra casa para morar porque estava tudo acabado entre eles.

Desmond sentou-se ao lado dele na fogueira, Locke mais a frente. Perguntou ao iraquiano: - Pensando na amada?

Sayid deu de ombros: - Talvez!

- Ela me pareceu muito zangada quando saímos.

- E estava!- ele respondeu cortando mais um pedaço da manga.

- Minha noiva costumava ficar muito zangada comigo também às vezes, chegou até a me chamar de covarde.

- E o que você respondeu a ela quando fez isso?

- Nada, eu estava sendo um covarde mesmo, o que eu poderia dizer.

- E o que aconteceu com ela?

- Eu a deixei para entrar naquela maldita maratona de barcos que me trouxe até esse lugar. Fico me perguntando se um dia ainda a verei.

- Ultimamente não tenho tido mais certeza de nada.- disse Sayid. – A vida fora desse lugar me parece tão irreal, como se nunca tivesse existido.

- Eu também me sinto assim, já estou aqui há quase cinco anos.

Um farfalhar de folhas interrompeu a conversa deles. Locke ficou em estado de alerta e instintivamente sua mão foi parar no bolso de trás da calça apalpando a faca que trazia escondida.

- Ouviram isso, brothas?- indagou Desmond.

- Shiiii!- pediu Sayid, acompanhando Locke. Desmond ficou sentado próximo à fogueira, mas atento a tudo.

O barulho continuou, Locke e Sayid entreolharam-se enviando mensagens silenciosas dizendo que cada um deveria ir por um lado. Sayid se embrenhou na mata por entre as árvores e uma mulher surgiu do meio delas com o mesmo semblante atordoado de sempre.

- Danielle!- exclamou o iraquiano, surpreso ao vê-la.

Continua...