2342 parte II

Suzane havia acabado de pôr seu bebê no berço. Ele dormia tranqüilamente e ela sorriu ao vê-lo aconchegado em seu bercinho de balanço. Acariciou a cabecinha dele e sussurrou: - Durma bem, meu anjinho!

Saiu do quarto dele se dirigindo para o seu. Não se sentia bem, o jantar havia sido tenso, Alex não queria sair de seu quarto para comer e seu pai a obrigou. Ela permaneceu à mesa de cabeça baixa e quase nem tocou na comida. Suzane não gostava de vê-la assim, se sentia muito mal, seu marido era muito rígido às vezes e isso a incomodava. Afinal qual era o problema em dizer aonde o namoradinho da menina estava? Era injusto fazer Alex sofrer daquele jeito.

Quando entrou no quarto, Ben estava no banheiro escovando os dentes. Aproveitou para trocar de roupa antes que ele saísse, não sabia por que, mas não se sentia bem quando tinha que se despir na frente dele e principalmente quando ele queria tocá-la. Deveria ter a ver com sua falta de memória e as coisas terríveis que passara antes do grande acidente, de acordo com Benjamin. Mesmo assim, ela se esforçava para ser uma boa esposa.

Não demorou muito e ele saiu do banheiro. Já estava usando o pijama, Suzane também já tinha colocado a comportada camisola branca que ele tanto gostava que ela usasse. Benjamin dizia que aquela camisola a fazia parecer um anjo, a mulher pura por quem ele se apaixonara. Mas essas palavras a faziam sentir-se tão estranha, como se o conceito dele de pureza a respeito dela fosse completamente abstrato.

- E o seu remédio?- ele indagou. Hoje é dia 23.

Suzane assentiu e ele deixou o quarto momentaneamente, voltando com uma seringa preparada. Suzane sentou-se na cama estendeu o braço a ele. Benjamin embebeu algodão em álcool e em seguida perfurou o braço dela com a fina e dolorida agulha. Suzane limitou-se a morder os lábios em meio à dor de sentir o líquido invasivo entrando em suas veias. Assim que ele terminou passou um chumaço de algodão embebido em álcool novamente no braço dela e foi até o banheiro descartar a seringa.

Suzane deitou-se na cama e se cobriu com o lençol dos pés à cabeça.Ele voltou e deitou-se ao lado dela.

- Alex está muito triste, estou muito preocupada com ela.- Suzane comentou.

- Não vejo por quê? A paixão dela por esse garoto é um sentimento infantil que logo deverá passar.

- Se é assim, porque não os deixa namorarem querido, mesmo que sob sua supervisão. Eu gosto tanto de Alex, não gosto de vê-la desse jeito. Por favor, Ben!

- Oh, está bem! Vou permitir que se vejam, mas será responsabilidade sua vigiá-los para que não façam bobagens!

Ele se aproximou mais dela na cama eafastou seus longos cabelos negros, beijando seu pescoço.

- Você é tão linda!

Ela estremeceu, e tentou afastá-lo gentilmente: - Querido, hoje não, eu estou com dor de cabeça e...

- Suzane, querida, nós já conversamos sobre isso. Somos marido e mulher, mesmo que você não se lembre, nós nos casamos e eu nunca parei de te desejar, preciso de você!

- Ben, por favor...não!

- Relaxe querida...

Ele ergueu o cobertor que a cobria e começou a acariciar as coxas dela, levantando o tecido da camisola. Suzane não o impediu, mas permaneceu quieta, sem esboçar nenhuma reação. Ben a virou de frente para ele e beijou seus lábios, ela não entreabriu a boca para permitir que ele aprofundasse o beijo. Ele ficou muito zangado com isso e deu-lhe um tapa na face, fazendo seu rosto arder. Lágrimas deslizaram por sua face.

- Por Deus, Suzane! Não me casei com uma geladeira! Você é minha esposa, trate de cumprir com suas obrigações.

Suzane apertou os olhos cheios de lágrimas, soluçando, mas nada disse. Ben voltou a beijá-la e dessa vez ela permitiu que ele aprofundasse o beijo, mas não o beijava de volta, sentia repulsa do próprio marido. Ele tocava todo o corpo de Suzane, ela, porém não sentia nenhum prazer, somente um vazio profundo em sua alma. Quando ele a possuiu ela abafou um grito de desespero e raiva. Aquilo era doloroso e humilhante. Fechava os olhos tentando se projetar em qualquer outro lugar que não fosse ali com ele.

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O dia raiou e o grupo que havia partido em busca dos desaparecidos ainda não tinha voltado. Shannon estava amuada em sua barraca, arrependida por ter brigado com Sayid, estava com medo de que algo de ruim tivesse acontecido com ele. Desde o ataque que sofreram por aquele estranho grupo tão diferente dos Outros que conheceram antes, a explosão da escotilha "The Swan" e o desaparecimento de Tina, a maioria tinha medo de se embrenhar na floresta sozinha porque sabiam que poderiam não retornar nunca mais.

Hurley havia levantado cedo para preparar o café das crianças. Libby ultimamente, por causa da gravidez andava muito cansada e sobrara para ele cuidar dos pequenos. Arrumou cereal, leite e algumas frutas na mesa, colocando Emma e Zack para comerem. Walt apareceu e se juntou a eles no café. Vincent lambia a mão de Zack, pedindo comida, quando Hurley virava de costas o menino dava um generoso pedaço de fruta para o animal. Ao ver que o prato de frutas do garoto estava quase vazio, Hurley sorriu e fez um carinho nos cabelos loiros de Zack achando que ele tivesse comido tudo, normalmente ele dava trabalho para comer. Emma e Walt entreolharam-se, trocando risinhos cúmplices ao perceber que Zack enganava Hurley.

- Continue assim, dude! Coma direitinho!

Ele serviu leite em um copo para Libby e saiu caminhando para a casa que dividia com ela e as crianças.

- Amor, te trouxe um pouco de leite.- entrou dizendo isso, mas parou de repente ao ver que Juliet estava na casa aplicando algo com uma seringa no braço de Libby. – Mas o que é isso?- bradou deixando o copo de leite se estabacar no chão e derramar tudo.

- Hugo, querido...- começou a dizer Libby.

Mas Hurley não a ouviu, saiu furioso em direção à cabana de Jack para relatar-lhe o que acabara de presenciar.

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- Jack!Jack!- gritava Hurley entrando esbaforido na casa de Jack. O médico ainda dormia abraçado a Kate na cama. Lilly também dormia em seu bercinho, mas os gritos de Hurley inevitavelmente a acordaram e ela pôs-se a chorar desesperada.

Jack levantou-se de um salto, piscando os olhos, confuso ao ver Hurley em seu quarto. Kate apressou-se em acalmar a filha no berço, balançando-o.

- Shiiii, dorme amorzinho, está tudo bem, mamãe está aqui!

- O que houve Hurley?- indagou Jack.

- Dudes, desculpem acordar vocês assim, mas é aquela Juliet, ela está lá na minha casa aplicando uma injeção na Libby. Jack, você me garantiu que eu podia confiar nela. Então eu te pergunto, está sabendo alguma coisa sobre o que ela anda fazendo com a Libby?

Jack ficou sério ao ouvir aquilo, mas não parecia chocado.

- Bem, Hurley, se ela estava fazendo isso com a Libby deve ter algum motivo. Libby está grávida talvez sejam suplementos vitamínicos como os que ela aplicou na Kate durante toda a gravidez.

- Eu acho que você deve checar isso Jack!- censurou Kate, desistindo de balançar o berço porque Lilly não se acalmava, achou melhor pegá-la no colo. Uma vez nos braços de sua mãe a menina começou a procurar instintivamente pelo seio dela.

Jack assentiu às palavras de Kate e saiu de casa com Hurley. Kate acomodou-se na cama para amamentar a filha e ficou pensando que essa talvez fosse a oportunidade que estava esperando para desmascarar Juliet e fazer com que todos se voltassem contra ela e a expulsassem da comunidade. Daí, nem mesmo Jack iria poder protegê-la.

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- Tem certeza que é por aqui, Danielle?- questionou Sayid depois que eles passaram boa parte da madrugada seguindo a francesa floresta adentro. Ela havia contado a eles que sabia onde estavam as pessoas que eles procuravam.

- Sim.- ela respondeu monossilábica.

Locke e Desmond não faziam perguntas, apenas a seguiam pela floresta. E conforme ela havia dito, não demorou muito e chegaram a uma clareira onde havia uma pequena fazenda.

- Seus amigos estão lá dentro da casa principal!- disse Rosseau.

- Estão sendo mantidos reféns?- indagou Sayid já preparando sua arma.

- Eu não sei.- ela respondeu se afastando de volta para o interior da floresta.

- Aonde você vai, irmã?- perguntou Desmond.

- Já mostrei onde eles estão, agora é com vocês.- e dizendo isso ela partiu rumo aos seus esconderijos.

Sayid trocou olhares significativos com Locke e Desmond, e empunhando suas armas os três adentraram o terreno da fazenda em busca de seus amigos perdidos.

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Sawyer caminhava pela floresta extremamente cansado. Seus pés estavam cheios de bolhas devido à longa caminhada. O combustível da moto havia acabado no meio do caminho e ele fora obrigado a seguir adiante com suas próprias pernas, não podia desistir agora, não quando sentia que estava tão perto de encontrá-la.

Procurou pelo rascunho do mapa que havia feito na casa da fazenda, mas não o encontrou, seus bolsos estavam vazios. Exasperou-se, como poderia tê-lo perdido. Caminhou mais alguns metros e então deixou-se cair aos pés de uma árvore cujo tronco estava envelhecido e as folhas murchas. Sentia muita sede, mas não conseguia se lembrar onde fora parar sua mochila. Recostou a cabeça no tronco da árvore e um cheiro pútrido encheu-lhe as narinas.

Olhou para o chão aos seus pés e notou que um estranho odor exalava do solo úmido. Num instinto, começou a cavar o lugar com as próprias mãos e vermes saltaram sobre seus olhos, pareciam se alimentar de alguma coisa enterrada na areia. Horrorizado ele jogou o corpo para trás e seus lábios começaram a tremer ao se dar conta do que estava enterrado no solo.

- Não, não pode ser!- murmurou baixinho e concentrou-se no que via. Mas era verdade, e não havia nada que ele pudesse fazer para mudar isso. – Ana! Ana-Lucia! Não!- gritou num desespero latente, sua garganta se fechou, o ar faltou-lhe, o coração despedaçou. Aquele era o túmulo de sua amada, os Outros realmente a tinham assassinado.

Berrou como um louco, gritando e praguejando:

- Deus, onde você está? Por que me abandonou?

De repente, uma dor aguda em sua cabeça deixou-o confuso e ele remexeu-se no solo úmido. Levou as mãos ao ponto da dor e abriu os olhos marejados de lágrimas. Não havia árvore envelhecida, nem solo coberto de vermes e muito menos um corpo. Era dia e estava recostado a uma mangueira frondosa pendendo frutos. O solo ao redor estava intacto, estivera tendo um pesadelo. Agradeceu silenciosamente ao fato de ter batido a cabeça na árvore enquanto sonhava, caso contrário ainda estaria vivendo o mesmo devaneio.

Esfregou os olhos, aquilo havia sido muito real. A moto que ele pegara na fazenda estava estacionada próxima a ele e ainda possuía combustível razoável para levá-lo mais alguns quilômetros floresta adentro. Sua mochila a alguns metros dele apenas. Apanhou a garrafinha de água, tomou fôlego e voltou a pôr os pés na estrada. Ligou a moto e meteu a mão no bolso da calça jeans, o rascunho do mapa estava lá e aparentemente Sawyer estava no caminho certo. Se o que vira em seu pesadelo fosse uma realidade, ele tinha de descobrir, já não podia mais ficar vivendo de incertezas.

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Na comunidade, Hurley, Jack, Libby e Juliet conversavam na casa do primeiro, a médica tentava esclarecer a eles o que fazia com Libby. Disse que havia um tipo de magnetismo na ilha que prejudicava os bebês e que as injeções que aplicara em Kate e que agora aplicava em Libby eram para protegê-la e prevenir que o bebê nascesse bem e saudável. Hurley torceu o nariz para aquelas explicações e cobrou de Libby:

- E por que não me contou, Libby?

- Porque eu sabia que ficaria zangado desse jeito, não confia na Juliet e achei melhor omitir esse fato de você.

- Hugo, não sei por que alguns de vocês ainda pensam que quero lhes fazer mal.- disse Juliet. – Eu só teria a perder se estivesse fazendo isso.

- Eu não tô falando com você.- protestou Hurley. – E agora é melhor você sair da minha casa.

Juliet assentiu e retirou-se. Jack voltou-se para Hurley: - Acho que as coisas estão esclarecidas agora, não é Hurley?

E dizendo isso, ele saiu logo atrás de Juliet. Ainda a chamou antes que ela se afastasse muito da casa de Hurley. Ao ouvi-lo chamá-la, Juliet voltou-se para Jack e fitou longamente seus olhos castanho-esverdeados.

- Sei que não está fazendo mal a Libby, mas gostaria de ser informado caso você venha a realizar outro procedimento como esse na Libby ou em alguma outra mulher da comunidade.

- Como quiser, Jack.- respondeu ela, sem emoção.

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Suzane lavava a louça do café da manhã mecanicamente, lágrimas teimosas escorriam por seus olhos, relembrando a terrível noite que passara. Sentia-se violentada. Não conseguira comer nada desde a hora em que acordara. Dera banho no bebê, alimentara-o, prepara o café de Ben e Alex e depois fora para a pia cuidar da louça suja. Pensou no tapa que seu marido lhe dera quando não me mostrou receptiva a fazer sexo com ele. Geralmente Benjamin não era um homem agressivo, era até bastante paciente, mas de uns tempos pra cá ele vinha sendo um tanto ríspido com ela e Alex; notava hostilidade vinda da parte dele até com o bebê e achava isso estranho.

Perguntava-se por que havia se casado com ele, o que a atraíra nele afinal? Pedira várias vezes a ele que contasse como eram suas vidas antes do acidente. Mas ele sempre se esquivava das perguntas, ficava visivelmente zangado quando ela começava a questionar demais, limitava-se a dizer que agora estavam bem e que ela precisaria tomar aquelas injeções de descontaminação até o fim da vida para evitar que algum efeito colateral da exposição ao magnetismo a levasse à morte.

Mas ela não ficava satisfeita com aquelas respostas evasivas e a cada dia que passava sentia uma necessidade pungente de saber mais sobre o que acontecera com ela antes do acidente.

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(Flashback)

Pela primeira vez desde que chegara àquela casa Suzane estava sozinha. Benjamin havia partido com Tom e outros homens para a Hydra e Alex estava perambulando pela floresta ao redor da vila. Uma estranha sensação de liberdade atingiu Suzane e ela sentiu uma imensa vontade de vasculhar tudo o que pudesse no escritório particular do marido e tentar descobrir alguma coisa sobre seu passado que não conseguia se lembrar.

Ele mantinha a chave do escritório presa num cordão no pescoço, mas Suzane fora esperta e enquanto ele tomava banho para sair ela deu um jeito de sumir com a chave e Benjamin não se deu conta disso, pois não precisou mais ir ao escritório naquele dia. Assim que se viu sozinha, Suzane colocou o bebê pra dormir e destrancou o escritório. Começou a vasculhar as gavetas, mas só encontrou toda uma papelada sem sentindo com o logotipo da Dharma Initiative nas capas. Já estava quase desistindo quando uma pasta vermelha escondida propositadamente entre outras lhe chamou a atenção. Ávida, ela puxou uma cadeira e examinou o conteúdo da pasta. Era uma ficha pessoal bastante detalhada sobre um homem chamado James Ford.

- James Ford!- ela repetiu para si mesma, o nome martelando em sua cabeça insistentemente de modo familiar.

Examinou a ficha rapidamente com os olhos, não podia se demorar muito, certamente seu marido mandaria um de seus cães de guarda visitá-la para saber o que ela estava fazendo, era sempre assim, Suzane se sentia vigiada 24 horas por dia. Já ia fechando a pasta quando uma foto caiu no chão sob seus pés. Ela a recolheu e ficou observando a foto durante vários minutos. James Ford, o homem no retrato parecia ser alguém que ela conhecia de longa data, só não sabia de onde, talvez fosse um funcionário da Hydra que tivesse passado por ela no dia em que fora levada à Vila.

Tocou o belo rosto dele na foto e sentiu uma ternura inexplicável tomar conta de seu ser. Colocou a foto junto ao peito e decidiu guardá-la consigo. Devolveu a pasta e os outros papéis para o mesmo lugar.

- Suzane!- alguém a chamou a porta da casa.

Ela engoliu em seco ao ouvir a voz de Bryan, um dos assistentes de seu marido e apressou-se em deixar o escritório depressa.

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(Fim do flashback)

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Final de tarde, Sawyer já havia percorrido boa parte do caminho que levava até a uma espécie de divisa com a tal área ocupacional que constava no mapa. Como a impressão do mapa estava um tanto apagada ele não teve como discernir direito o que aquele intervalo entre a floresta e a área ocupacional significava para que pudesse desenhá-lo. O combustível da moto já estava no fim e não demorou muito para que ela parasse de funcionar de vez.

Aborrecido Sawyer jogou a motocicleta num canto e seguiu a pé. Já estava praticamente decidido a encontrar um lugar para acampar para voltar à busca de manhã quando avistou a divisa apontada pelo mapa. Ficou abismado com o tamanho da instalação, era uma enorme cerca elétrica de última geração que circundava um perímetro grande da ilha.

- Bastardos!- xingou, jogando um graveto que apanhou no chão contra a cerca para ver se a mesma era eletrificada.

Uma espécie de raio laser foi disparado pela cerca dizimando o galho em segundos. Sawyer balançou a cabeça negativamente, como faria para atravessá-la?

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Há muito tempo, John Locke deixara de ser um homem facilmente enganável, por isso se mantinha em estado de alerta enquanto ele, Sayid e Desmond vasculhavam a pequena fazenda em busca de seus amigos saídos da comunidade.

Já tinham olhado quase tudo e nenhum sinal deles. Nem de seus amigos, nem dos Outros. O lugar estava completamente vazio. Mesmo assim, aquela sensação ruim que costumava acometer Desmond sempre que algo impossível de ser evitado estava para acontecer começou a perturbá-lo.

- Não tem nada aqui John!- observou Sayid varrendo a propriedade com seus olhos treinados de soldado.

- Aparentemente sim!- disse Locke. – Vamos dar mais uma olhada na casa principal.

- Não, brothas!- gritou Desmond de repente, sobressaltado.

- Mas por que não?- indagou Sayid sem entender, de pé sobre o último degrau da escadinha que levava à porta de entrada da casa, girando a maçaneta.

Uma explosão se fez nesse exato momento fazendo Sayid voar longe. Desmond refugiou-se no próprio chão. Locke que estava próximo a Sayid também foi jogado para trás, caindo com o rosto virado para o chão de terra batida aos pés de um par de botas do exército. Ergueu os olhos e seguiu aquelas botas, passando pelo par de pernas um pouco tortas e desajeitadas até a face ameaçadora. O homem aparentava ter bem mais de cinqüenta anos, cabelos grisalhos ralos e um tapa olho do lado esquerdo que o fazia parecer um pirata. Seu sotaque, provavelmente oriundo de algum ponto remoto da ex-União Soviética completava o quadro:

- O que pensa que está fazendo, John Locke?

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- Pensa Sawyer, há muito tempo o homem se distanciou do macaco, deve ter alguma coisa nessa sua cabeça que sirva para resolver o dilema de como atravessar essa cerca!- Sawyer dizia a si mesmo imaginando mil e uma maneiras de passar pela cerca elétrica que o separava da Vila dos Outros.

Andava de um lado para o outro agoniado, sem saber o que fazer.

- Deve ter uma senha pra acessar a porcaria dessa cerca, mas qual seria? "Não confie em ninguém"?- disse ele, citando uma memorável frase de Arquivo X. - Fala sério!

Ele começou a esfregar insistentemente o dedo indicador na testa como se com esse gesto uma idéia fosse brotar e resolver seu problema. Estava tão distraído que não notou quando uma pessoa surgiu por trás dele.

- Ficar aí parado não vai te ajudar a atravessar!- disse uma voz feminina com sotaque francês.

- Òtimo, a madame esquisita tentando me dar um conselho, como se você soubesse um jeito de atravessar essa cerca.

- Na verdade eu sei.- respondeu Rosseau com muita certeza. – Descobri essa cerca algum tempo depois de ter sido amarrada no meio da floresta durante a missão de resgatar você.

Sawyer ergueu uma sobrancelha, de repente estava muito interessado no que Rosseau tinha a dizer.

- Certo, eu estou ouvindo...

- Fiquei vários dias imaginando um jeito de atravessar essa cerca até que o óbvio surgiu em minha mente.- ela continuou. – O único jeito de atravessá-la sem ser consumido pela eletricidade seria passando por cima da cerca.

- Ah claro, e você mede mais de dois metros de altura, por isso conseguiu essa façanha.- debochou Sawyer.

Ela ignorou o gracejo dele, definitivamente Danielle Rosseau não se atinha à piadas.

- Na verdade.- ela explicou. – Eu cortei o tronco de uma árvore e usei para escalar até o topo da cerca. A madeira não conduz energia.Depois me pendurei na ponta do tronco e me joguei na grama.

- Mas isso é muito arriscado.- retorquiu Sawyer.

- Mas valerá a pena se arriscar se deseja encontrar seu amor.

- Você sabe onde a Ana-Lucia está?- ele indagou, o coração começando a bater muito forte.

- Logo atrás daquela cerca.- respondeu ela voltando para o interior da floresta.

- Peraí, e como você conseguiu entrar e sair de lá sem ser vista? Ô francesa, volta aqui!

Mas ela já tinha desaparecido, tão rápido quando aparecera.

- Sei não, mas algo me diz que essa mulher possui a capacidade de desaparatar!

Ele buscou com os olhos o provável tronco que ela teria usado para atravessar a cerca e para sua surpresa não foi difícil encontrá-lo escondido no meio de algumas folhagens. Se atravessasse a cerca, não sabia como voltaria para o seu lado da ilha, o risco de ser pego pelos Outros era grande, mas naquele momento isso não importava, Ana-Lucia estava perto, ele podia sentir e apenas aquela cerca o mantinha longe dela.

Com um certo esforço conseguiu colocar sozinho o tronco no alto da cerca e benzendo-se, gesto que não fazia desde o High School começou a se esgueirar pelo tronco com a mochila nas costas. A travessia tensa durou cerca de cinco minutos quando então ele finalmente chegou ao outro lado, são e salvo. Não perderia mais nenhum minuto de sua busca por Ana-Lucia e o pequeno James.

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Shannon olhou para um lado e depois para o outro, tentando ver se não havia sido seguida. Constatando que estava sozinha seguiu seu caminho. Mais adiante, antes que pudesse chegar às cavernas, ouviu um barulho familiar atrás de si e franziu o cenho antes de dizer:

- Vincent, por que me seguiu?

O cachorro deu um latido alegre e abanou o rabo. Shannon acariciou a cabeça do cão.

- A Kate disse que eu não podia trazer ninguém, como vou explicar isso a ela?- gracejou.

- Shannon é você?- indagou uma voz feminina vinda do meio das árvores.

- Yeah!

Aline surgiu diante dela, com o semblante sério:

- Estamos te esperando, só falta você. A Kate já vai começar!

Shannon assentiu e seguiu Aline até as cavernas. Ficou surpresa ao notar que boa parte das mulheres da comunidade estavam presentes à reunião sugerida por Kate. Apenas o tema ainda era um mistério. Shannon tomou um lugar ao lado de Amanda e preparou-se para ouvir o que Kate tinha a dizer:

- Em primeiro lugar, eu queria agradecer a todas vocês por terem atendido ao meu pedido mesmo sem saberem do que se tratava.

As mulheres tinham os seus olhares atentos a Kate, caminhando de um lado a outro enquanto balançava levemente a pequena Lilly nos braços. Assim como Jack, Kate também era muito respeitada dentro da comunidade. Todos conheciam seu passado de fugitiva da polícia, mas não se importavam com isso, porque Kate dera inúmeras vezes prova de sua lealdade para com eles.

- Pedi a vocês que viessem até aqui, porque tem algo acontecendo dentro da nossa comunidade que me preocupa, ou melhor, alguém.

- Está falando de Juliet?- questionou Libby. – Me desculpe, Kate, mas não acho que ela seja uma ameaça para nós dentro das atuais circunstâncias.

Kate franziu o cenho, e respondeu: - Tudo bem Libby, eu entendo que esteja querendo confiar nela, afinal ela é muito persuasiva e deve ter dito muitas coisas a você que te fizeram crer que ela está do nosso lado, mas tem muito mais coisa aí.

- Não sou tão facilmente manipulável assim, Katherine.- falou Libby, ofendida.

- Mas a Kate tem razão em sentir desconfiança em relação à Juliet.- disse Amanda. – Essa mulher, pelo que eu sei, trancou ela, Jack e Sawyer em jaulas. Desapareceu com a Ana-Lucia e o bebê dela. Então mesmo que ela esteja há cinco meses em nossa comunidade, esse fatos me impede de confiar nela.

Kate deu um sorriso, finalmente alguém a seu favor.

- Eu também não vou muito com a cara dela!- garantiu Rose.

- Uma vez...- começou a dizer Anabeth Silas, uma jovem de 26 anos, jeito tímido, calmo e reservado, a beleza escondida atrás de grandes óculos de armação dourada que a faziam lembrar uma nerd caricatural de filmes adolescentes. – Ela ficou me fazendo algumas perguntas estranhas e muito pessoais durante o jantar.

- Que tipo de perguntas?- indagou Kate.

- Se eu estava namorando alguém da comunidade e se...- o rosto dela corou levemente.- Se já tínhamos dormido juntos.

Debbie deu uma risadinha debochada e cochichou com Dionna: - Como se algum dos homens do acampamento fosse louco em dormir com uma baranga que nem a Anabeth.

- Para com isso Debbie!- ralhou Dionna.

- Certo Kate, eu concordo com você que existe algo de errado com a Juliet.- se pronunciou Sun. – Talvez ela esteja mesmo nos escondendo alguma coisa, mas o que poderíamos fazer para descobrir isso?

- Espioná-la?- sugeriu Claire que apertava Aaron junto de si, o garotinho estava louco para sair do lado dela e ir mexer com Vincent.

- Quer o Au-Au, mamãe!

- Fica quietinho meu amor, por favor.- pediu ela ao filho.

- Exatamente Claire!- se empolgou Kate. – Vamos fazer o feitiço virar contra o feiticeiro. Vamos espioná-la, entrar no jogo dela, fazer de conta que a presença dela entre nós não nos incomoda de jeito nenhum.

- Eu estou dentro.- disse Melissa Donald, a escritora de folhetins românticos, cabelos muito ruivos e mais sardas no rosto do que Kate.

- Quem mais está comigo?- perguntou Kate, erguendo uma sobrancelha.

Logo uma a uma, as mulheres da comunidade começaram a erguer as mãos concordando com o plano de Kate. Libby hesitou um pouco, mas acabou erguendo sua mão para o ar também, pensando que não deveria de maneira alguma se interpor sobre a decisão da maioria das mulheres.

Kate estava radiante, pois estava perto de expulsar Juliet da comunidade para sempre.

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As nuvens no céu começaram a ficar perigosamente escuras, anunciando uma tempestade. Suzane as observava através da janela de vidro do quarto, deitada na cama com o semblante deprimido. Apoiava seu bebê com a mão direita, ele brincava com vários brinquedos, sentadinho ao seu lado, parecia conversar com eles:

- Bababababa!- fazia sua boquinha, emitindo sons ininteligíveis enquanto arremessava os bichinhos de borracha de um lado para o outro.

Suzane ouviu passos ecoando na sala, ergueu uma sobrancelha e indagou:

- Alex, é você querida?

- Não, sou eu Suzane.

Suzane sorriu ao reconhecer o timbre doce da voz de sua melhor amiga Cindy.

- Eu estou aqui no quarto com o James!

Cindy entrou no quarto e sentou na cama, cumprimentando-a:

- Oi amiga, como está?

- Não muito bem.- respondeu Suzane.

- Por quê? O que aconteceu?

- Antes que eu te responda, você sabe da Alex? Aquela garota não para um segundo.

- Sei sim, eu a vi há pouco jogando cartas na casa do Ryan. Mas agora me diz, o que aconteceu? Por que está com essa carinha tão triste?

Suzane fitou os olhos castanhos de Cindy, sentindo-se encorajada a continuar. Era incrível como se sentia bem quando Cindy estava com ela. Talvez fosse porque de todos com quem convivia ali naquela comunidade, Cindy fosse a que lhe parecia mais familiar. Acreditava até que durante o acidente, Cindy era uma das pessoas que estava com ela.

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(Flashback)

- Suzane, venha até aqui!- gritou Ben do jardim. Tem alguém aqui fora que deseja muito vê-la.

- Só um minuto, estou terminando de colocar o bolo no forno.

Ela ajustou o timer no fogão e limpou as mãos no avental. Jogou um beijo para o filho que brincava no colo de Alex e se dirigiu até o jardim. Uma mulher de cabelos curtos e olhos profundamente castanhos lhe sorria. Suzane ficou um pouco perturbada com aquela visão e apoiou-se momentaneamente no batente da casa. Um flash muito rápido passou diante de seus olhos. Estava chovendo muito e ela sentia muito medo, queria saber onde estava Cindy, mas não a encontrava e chamava por seu nome. Um homem alto e corpulento dizia que devia deixar Cindy para trás. Balbuciou, emocionada: - Cin-dy!

A mulher começou a sorrir-lhe ainda mais e correu até ela, dizendo:

- Sim, sou eu minha amiga, Cindy.

- Pensei que estava morta, não me deixaram voltar para te buscar...

- Mas eu estou bem, e não vou a lugar nenhum.- as duas se abraçaram enquanto Benjamin assistia a cena com um sorriso triunfante nos lábios.

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(Fim do Flashback)

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- Cindy, por favor, o que eu vou lhe contar é muito sério e preciso que jamais comente isso com ninguém.- Suzane pediu.

- Está bem Suzane, você sabe que pode confiar em mim.

- Mamamamama...- fez o bebê, mostrando um patinho de borracha para a mãe.

- Sim meu amor, é o patinho.- respondeu Suzane acariciando a cabecinha do filho.

- Oh, James!- se derreteu Cindy para o bebê. – Que garotinho mais fofinho!

Suzane respirou fundo e continuou a conversar com Cindy:

- Cindy, você não tem idéia do que tenho passado. As coisas tem sido cada dia piores, eu acho que...- ela hesitou, mas completou em seguida: - Deixei de amar meu marido.

- Oh, Suzane! Por que está dizendo isso, amiga?- alarmou-se Cindy.

- Porque é a verdade. Eu não consigo me lembrar de nada do que aconteceu antes do acidente. Talvez eu o amasse antes, mas agora eu o repudio, Cindy!- ela se exaltou. – Ontem à noite, ele me obrigou a fazer sexo com ele, foi horrível, Deus, eu o odeio! Não quero que ele me toque nunca mais!

As lágrimas começaram a deslizar pela face dela sem controle. James começou a fitar os olhos lacrimejantes da mãe espontaneamente e suas mãozinhas tocaram o rosto molhado, deslizando até os lábios dela. Suzane beijou a mão do filho e tentou se recompor. Cindy colocou uma mão em seu ombro tentando reconfortá-la.

- Não fique assim amiga, tenho certeza que isso é só uma crise, que vai passar.

- Não vai passar, porque tenho pensado outro homem, é só o que faço todos os dias- ela revelou.

Cindy alargou os olhos castanhos:

- Como? Quem?

- Eu não sei quem ele é! Eu vi seu retrato uma vez, talvez já o tenha visto, não sei!- Suzane achou melhor não revelar a amiga que guardava um retrato do homem consigo.

- Meu Deus Suzane, então esqueça-o! Seu marido é um homem maravilhoso, você só precisa ter paciência que as coisas vão melhorar! Um dia você irá se lembrar de tudo, se lembrar do quanto eram felizes juntos antes do acidente. Todos os casais queriam ser iguais a vocês dois, escuta o que eu estou te dizendo.

O telefone do quarto soou alto cortando a conversa das duas. Suzane esticou o braço para atender o aparelho.

- Aababibuba...- dizia James, dessa vez mostrando os bichinhos para Cindy.

- Que lindo! São os seus amiguinhos?- ela indagou, brincando com o bebê.

- Alô? Olá querido.- saudou Suzane falsamente ao escutar a voz de seu marido do outro lado da linha. – Você já está vindo?

Cindy ficou atenta à conversa dela.

- Sim, claro. Está certo, estará tudo pronto quando você chegar. Também te amo.

Suzane pousou o aparelho de volta no gancho e disse a Cindy:

- Amiga, Benjamin já está vindo pra casa e deseja que eu faça uma macarronada com molho de tomates frescos para o jantar. Terei que ir até a horta, você pode olhar o James pra mim um pouco?

- Mas é claro Suzane!- respondeu Cindy.

- Então já vou, depois conversamos mais!

Ela ia saindo do quarto quando James notou e caiu no choro, balbuciando com sua vozinha rouca: - Mamamama!

- Oh meu amor, mamãe já volta, tá bom? Fica com a tia Cindy!

- Hey James, não chora, gatinho. Vamos brincar com os bichinhos, que tal?- disse Cindy tentando confortá-lo.

Suzane passou correndo pela porta da casa, queria ir e voltar logo, Ben não se demoraria.

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Sawyer estava muito cansado, já havia caminhado muito. Parou em uma árvore para beber água, tirou a garrafinha da mochila que havia enchido em um riacho próximo e tomou em grandes goles. Algo incomodava dentro de seu sapato. Sentou-se e retirou a bota. Seus olhos azuis se alargaram quando virou a bota ao contrário e um enorme escorpião venenoso caiu de lá de dentro. Olhou para a palma do pé, havia sido picado.

Ficou preocupado com isso, não sabia quanto tempo o veneno de um escorpião demorava para agir, mesmo assim continuou andando. Logo avistou o que tanto esperava, uma praça com coreto, cercada de casas de madeira que pareciam de bonecas, de tão arrumadinhas e bem-feitas. Um sorriso iluminou seu rosto, mas foi nesse momento que sentiu as pernas fraquejarem, o veneno do escorpião estava começando a agir.

Apoiou-se em outra árvore, escondido, observando o movimento das pessoas na vila. Não podia aparecer assim, senão provavelmente seria morto. Tinha duas opções ficar e morrer ali por causa do veneno do escorpião ou se mostrar e levar um tiro dos Outros. Optou por se esconder em uma horta de tamanho razoável que avistou, não muito longe dali até que conseguisse resolver o que fazer.

A chuva desabou naquele momento. Suzane apertou o passo em direção à horta, já estava praticamente correndo. O vestido branco de algodão cru colando no corpo, tirou as sandálias rasteiras e começou a correr descalça com elas nas mãos até que chegou a horta. Avistou os tomates vermelhos reluzentes e pegou um dos cestos de palha que havia encostado na cerca de madeira da horta e pôs-se a colhê-los.

As pernas de Sawyer já não o obedeciam mais, mas ele continuava se forçando a ficar em pé. Seu coração saltou do peito ao ver que não estava sozinho na horta, havia uma mulher de vestido branco e cabelos muito negros e cacheados. Arrastou-se até ela.

Suzane já havia recolhido tomates suficientes e já estava indo embora quando deu de cara com um homem loiro, alto, forte e musculoso, barbado, sujo de lama e com o semblante pálido. Abafou um grito com as mãos e deixou cair o cesto de tomates ao chão. Ao fitar os olhos negros dela, o homem balbuciou com um pequeno sorriso antes de desmaiar aos pés dela:

- Te encontrei, Ana-Lucia!

LOST

Continua no próximo episódio