Episódio 8- "Longe é um lugar que não existe"
Sinopse: Suzane encontrou um homem misterioso que lhe parece familiar, as dúvidas em relação ao seu passado só aumentam. Sayid e o grupo de busca que partiu para encontrar Sawyer foi capturado e agora estão à mercê dos Outros novamente. Conseguirão escapar?
Censura: M.
xxxxxxxxxxxxxxxx
--------------------------------
(Flashback)
- Vem, vamos correr! Anda Sayid!- dizia o pequeno Arquimed para seu melhor amigo. Os dois garotos corriam no bosque em frente à escola, suas mães observando-os brincarem pacientemente.
- E vamos correr até onde?- indagou Sayid arfando, não queria parar de correr.
- Até aquela árvore.- indicou Arquimed se esforçando para passar a frente do amigo.
- Não, você não vai me ganhar!- disse Sayid aumentando a velocidade.
Os dois começaram a rir e se apressaram até a árvore. Arquimed chegou primeiro e ficou se gabando.
- Eu ganhei! Eu ganhei!
Sayid se escorou no tronco seco da árvore. Fazia um sol muito forte e o menino suava sem parar. Quando levantou a vista, deu de cara com a menina que mais detestava na escola. Ela sorriu para ele, mas Sayid fechou a cara. Irritada, a menina empurrou-o diretamente para uma poça de lama que havia próximo à árvore. Sayid caiu de cara e seu rosto foi completamente tomado pela lama.
A mãe dele correu imediatamente até lá. Ajudou o filho a ergue-se e encarou a menina, balançando a cabeça negativamente: - Oh Nadia, por que você provoca tanto o pequeno Sayid?
Nadia deu de ombros e saiu correndo para longe dali.
-------------------------------------
(Fim do Flashback)
xxxxxxxxxxxxx
Um gosto inconfundível de sangue encheu sua boca, e instintivamente ele cuspiu o líquido amargo como fel. Tentou abrir os olhos, mas não conseguiu totalmente, eles estavam extremamente doloridos, como se tivessem sido socados por horas. Mas ele não conseguia se lembrar.
Puxou uma respiração profunda e forçou-os a se abrirem apesar da dor. Estava num lugar escuro, uma espécie de porão cheio de computadores. Era apertado e tinha cheiro de mofo. Ouviu passos se aproximando, vozes ao longe, mas nada fazia muito sentido. Tentou se mexer, mas se deu conta de que estava fortemente amarrado. De repente, deu com um par de olhos verdes belos e sombrios ao mesmo tempo, encarando-o. Não conseguiu conter um suspiro de susto.
- Onde é que eu estou? Quem é você?- forçou-se a dizer. Sua voz soou baixa, temerosa.
- Nos meus domínios, Sayid Jarrah!- respondeu uma voz feminina sedutora, a dona daqueles olhos verdes intensos.
- Onde estão meus amigos?
A mulher deu um sorriso maldoso e respondeu: - Você não tem amigos aqui, soldado. Mas pode ter aliados, tudo só depende de você!
Ela atirou na direção dele uma vasilha metálica redonda cheia de água. Sayid se abaixou e bebeu o líquido reconfortante como pôde. Quando ergueu a cabeça, a mulher de olhos verdes não estava mais lá, havia desaparecido como que por encanto. Ele pensou em gritar para ver se ela aparecia outra vez, mas sentia-se tão cansado e sua cabeça doía tanto que ele não conseguiu coordenar os pensamentos e acabou voltando a adormecer.
xxxxxxxxxxxxx
Suzane estava muito nervosa com a situação que se desenhava a sua frente. Um homem havia surgido do nada na horta e desmaiara aos seus pés pronunciando palavras sem sentido. Sua primeira reação foi ficar longe, observando-o de canto de olho enquanto a chuva terminava de encharcar a ambos. Depois, mesmo que temerosa, se aproximou dele e agachou-se ao seu lado. Queria saber quem ele era, nunca o tinha visto na vila. Levantou o cabelo molhado de seu rosto e sentiu uma pontada forte no peito. Olhar para o rosto dele foi tão intenso que ela caiu para trás, sentando-se no chão lamacento da horta.
Respirou fundo e tentou conter o tremor inexplicável que sentia pelo corpo todo só de olhar para ele. Voltou a fitá-lo, dessa vez mais de perto e se deu conta que sim, sabia quem ele era, pelo menos de vista. Era o homem da foto que ela encontrara no escritório de seu marido, o retrato que guardava consigo há meses, a sete chaves. Com certeza era ele. Estava sujo e barbado, mas ela o reconheceu.
Aquilo era absurdo demais para ser verdade, mas estava acontecendo. Tocou o rosto dele com cuidado. Por que ele desmaiara? Estaria com fome ou quem sabe doente? Deveria chamar alguém ou tentaria ajudá-lo sozinha? Sua mente estava cheia de questionamentos. Lembrou do que seu marido havia lhe dito uma vez sobre os "hostis". Homens e mulheres que habitavam os limites além das cercas eletrificadas da vila. Pessoas que haviam sido contaminadas em massa pelo acidente eletromagnético e que viviam de qualquer jeito, matando-se uns aos outros, lutando por comida e água num mundo sem leis. Ficara muito assustada com aquela história, mas ao ter um dos hostis diante de si não o achou tão ameaçador assim. E o fato de seu marido ter uma foto dele, junto com um arquivo detalhado contendo tudo sobre sua vida antes da contaminação tornava tudo mais estranho. Esse homem seria um funcionário da Dharma rebelado que deixara a vida na vila para viver entre os hostis?
Seus pensamentos foram interrompidos por um gemido de dor angustiante do homem, seguido de uma súplica: - Por favor, me ajuda...
Suzane olhou para um lado e depois para o outro, pensando no que fazer, até que decidiu num impulso: - Consegue andar?- guaguejou levemente.
- Acho que sim.- respondeu o homem com um murmúrio.
Ela tentou levantá-lo do chão lamacento, apoiando-o com seu corpo. A chuva começou a diminuir. Mesmo de olhos fechados, o homem acompanhou os passos de Suzane para fora da horta. Enquanto andava, ela ficava imaginando para onde iria levá-lo, algo em seu íntimo lhe dizia que não deveria contar a ninguém que ele estava ali. Lembrou-se de que há muito ninguém usava a asa de barco e não era muito longe dali. Com dificuldade, ela o arrastou até lá.
Sentou-o no chão enquanto forçava a porta de entrada feita de madeira do local. Voltou a arrastá-lo, até que estivessem lá dentro. Fechou a porta e agachou-se mais uma vez ao lado dele.
- De onde você vem? O que aconteceu com você?- perguntou.
- Me ajuda Ana...- disse ele começando a tremer. – Um escorpião, foi um escorpião...
- Oh meu Deus, você foi picado por um escorpião?
- Ana-Lucia...
- Você está delirando!- disse ela. – Eu não sou Ana-Lucia, esse não é o meu nome...
Ela tocou a testa dele, estava com muita febre. Não tinha outra alternativa senão ajudá-lo, o veneno de escorpião agia rápido ela sabia e não o deixaria morrer sozinho, ao relento, nem o entregaria para alguém da sua comunidade.
- Não se preocupe, eu vou cuidar de você!- disse por fim, tocando o rosto dele ternamente.
xxxxxxxxxxxxx
Charlie dedilhava no violão em volta da fogueira. Uma chuva intensa tinha acabado de cair e a areia estava molhada. As crianças brincavam de cabra-cega correndo de um lado para o outro. Walt tinha uma venda amarrada nos olhos e tentava pegar Zack e Emma. Vincent corria junto com eles e latia sem parar. Aaron dava gargalhadas vendo a brincadeira, sentado na coxa de sua mãe enquanto ela degustava uma fruta.
Hurley estava sentado ao lado de Charlie, o rosto amuado por causa do que acontecera de manhã em sua barraca. Charlie tentava animá-lo:
- Ei cara, para com isso! Não acha que está sendo muito duro com a Libby? Ela te ama!
- Não, ela não me ama, dude! Se me amasse não mentiria pra mim, você sabe que eu odeio mentira!
- Ele ainda não tá falando com você?- indagou Claire quando Libby se sentou ao seu lado em volta da fogueira crepitante.
- Não está não, o Hugo é muito cabeça dura.
- Mas você não devia ter mentido pra ele.
- E você queria que eu fizesse o quê? Juliet só tem me ajudado. Tenho medo que algo de ruim aconteça com o meu bebê.- ela acariciou a barriga e olhou para Hurley.
Ele virou a cara para ela. Libby chamou Emma. A menina veio correndo.
- Querida, pode fazer um favor pra mim?
- Sim.
- Diga ao Hurley que está agindo como um idiota.
- Tá bom.- concordou ela e correu até Hurley. – Hurley, a Libby disse que você está agindo como um idiota.
- Ah é?- retorquiu ele.- Então diga para a Libby que ela é a culpada disso tudo.
- Libby, o Hurley disse que você é a culpada disso tudo!
- Diz pra ele que estou fazendo isso pelo bem do bebê!
- Ela disse que está fazendo isso pelo bem do bebê!
- Diga a ela que deveria se envergonhar de usar o bebê como desculpa!
Emma revirou os olhos, enfadada e disse:
- Ele disse que você deveria...
- Eu ouvi isso Hugo!- ela bradou caminhando na direção dele.
- Pois não devia, porque eu não estou falando com você.- rebateu ele. – Porque se eu estivesse falando com você, diria na sua cara o quanto você está errada!
- E se eu estivesse falando com você.- reiterou ela. – Diria que você deveria pensar melhor antes de sair dizendo certas coisas.
- Hey gente, calma aí!- pediu Charlie, se colocando entre os dois.
- Pois bem, Charlie, diga a ele que acabou, que não existe mais nada entre nós!
- Diz pra ela Charlie, que por mim tudo bem, que eu nunca gostei dela mesmo!
- Eu não vou dizer nada, vocês que se resolvam!- falou Charlie, desistindo de se meter.
- Òtimo! Procure outra casa pra morar!- avisou Libby se retirando.
- Por mim!- gritou Hurley para que ela escutasse. Em seguida ele se virou para Charlie: - Dude, será que posso dormir na sua casa hoje?
Charlie olhou para Claire. Ela deu de ombros.
xxxxxxxxxxx
Lilly havia acabado de dormir e Kate estava exausta, sua filha não lhe dava folga um minuto sequer. Aproveitou que finalmente a pequena havia adormecido para tomar um longo e relaxante banho. Tinha enchido uma tina com água potável desviada de um riacho que havia a alguns metros dentro da floresta. Projeto assinado por Michael e Sayid. Despiu as roupas calmamente e mergulhou o corpo na água, soltando um suspiro ao sentir o corpo dolorido pelo cansaço sendo levemente massageado pela água fria.
Jack entrou em casa nesse momento e sorriu ao vê-la se banhando. Ela sorriu de volta e ergueu a perna pra cima, provocante. Ele tirou os sapatos e se abaixou atrás dela na tina, segurando uma escova de cabelo. Soltou os cachos castanho-avermelhados do coque improvisado que os prendia e pôs-se a penteá-los com delicadeza. Kate arqueou a cabeça para trás e deixou que ele a penteasse, adorava quando ele fazia isso.
- Alguma notícia do grupo de busca?- indagou a ele.
- Eu estava na igreja, falando com Eko, Andrew, Jin e Bernard. Se Sayid, Locke e Desmond não voltarem com eles até o nascer do sol, terei que ir atrás deles. Sei que não é o que você quer, mas estou preocupado.
Kate balançou a cabeça, assentindo. Jack parou de penteá-la, afastou seus cabelos e deslizou os lábios por seu pescoço. Kate fechou os olhos ao sentir a carícia e gemeu baixinho, incentivando-o a continuar.
- Eu estava com saudade da sua boca no meu corpo!- confessou.
- E eu com saudade de beijar você todinha.- respondeu ele, mordiscando o ombro dela.
- Mas você sabe que não podemos ainda.- Kate sussurrou.
- Mas podemos fazer outras coisas...
Kate deu uma risadinha maliciosa. Jack tirou a camisa e jogou-a de lado. Puxou Kate pela nuca e deu um beijo estalado em seus lábios. Ela estendeu-lhe uma esponja de banho improvisada, confeccionada por Sun. Ele então molhou a esponja na água e começou a deslizar devagar pelas costas dela. Kate ergueu os cabelos para ajudá-lo na tarefa. Das costas, ele passou a esponja com delicadeza pelos seios dela.
Beijando-o mais uma vez, Kate pegou a mão dele que estava livre e colocou sobre seu seio. Ele deixou a esponja de lado e tocou-a com ambas as mãos, acariciando os seios dela com delicadeza.
- Vem Jack...- ela sussurrou, oferecendo os seios a ele para que os provasse.
Jack abaixou a cabeça sobre o corpo dela e sugou seus seios levemente, o que provocou pequenos suspiros de Kate. Em seguida, a mão dele desceu atrevida pela barriga dela, mergulhando na água e alcançando-lhe o ponto sensível entre as pernas. Kate deixou escapar um gemido ao senti-lo tocando-a e entreabriu as coxas deixando que ele aprofundasse as carícias.
- Estou te machucando?- ele indagou, preocupado, o parto ainda estava muito recente.
- Não, está tudo bem.- respondeu ela com a respiração ofegante. – È só você continuar sendo delicado.
Olharam-se profundamente nos olhos e beijaram-se. Jack a acariciava no mesmo ritmo em que a beijava, sua língua fazendo movimentos de vai e vem na boca de Kate, abafando os gemidos de prazer dela.
A cada segundo que passava, ele intensificava ainda mais os movimentos fazendo com que ela se segurasse com força na beirada da tina.
- O banho está gostoso, amor?- ele provocou ante os lábios dela.
- Oh sim, Jack.- ela respondeu com um gemido, mordendo os lábios de prazer.
Ela estava próxima do ápice, ele podia sentir, por isso continuou provocando:
- O que você está sentindo?
- Jack, não...
- Me diz, sabe que eu gosto que você me diga...
- Eu sinto que vou explodir se continuar me tocando desse jeito.- ela respondeu envolvendo seus braços em volta do corpo dele, sentindo os seios tocarem seu peito.
- Quer que eu pare?
- Não...não para...Jack...!
Ele a puxou para um último beijo, abafando um grito dela, sentindo os músculos dela se apertarem, as coxas prendendo deliciosamente seus braços. Quando ele se afastou dela, estava arfando tanto quanto ela. Kate abriu os olhos, os tinha fechado durante a sensação vertiginosa que a atingira. Sorriu para ele, com ar divertido e disse:
- Agora é a minha vez de te dar banho!
Jack sorriu de volta para ela e fez menção de despir a calça quando ouviu a voz inconfundível de Juliet o chamando do lado de fora:
- Jack!
Ele olhou para Kate e disse:
- Eu vou ver o que ela quer!
Kate suspirou frustrada. Desde que tinham voltado ao acampamento era quase impossível terem um momento de intimidade. Irritada, levantou-se da tina e deu por encerrado o banho, buscando um pano para enxugar-se. Enrolou-se nele e voltou a prender os longos cabelos. Jack entrou em casa e pegou sua camisa do chão, vestindo-a.
- Posso saber aonde você vai?- ela perguntou, já imaginando a resposta.
- Juliet precisa me mostrar uma coisa importante. Eu vou demorar, então não me espere para dormir.
Ele se aproximou dela e deu-lhe um beijo carinhoso nos lábios. Kate nada disse. Jack entrou no quarto deu uma olhada na pequena Lilly que dormia e depois saiu sem dizer mais nada. Kate estava muito zangada com aquilo, não só zangada, mas também enciumada. Toda vez que Juliet aparecia e chamava por Jack, ele largava qualquer coisa que estivesse fazendo para segui-la. Tinha que começar a pôr seu plano de espionagem em ação.
Andou até o quarto, vestiu uma camiseta branca, calça jeans e o seu casaco fino listrado, calçou os sapatos e pegou Lilly com cuidado no colo. A menina choramingou levemente, e Kate a acalmou embalando-a nos braços.
- Shiiii, não chora mãezinha! Está tudo bem! Mamãe vai deixar você um pouquinho com a tia Sun e descobrir aonde o papai foi!
xxxxxxxxxxxxxx
- Sun! Sun!
A coreana se espantou ao ouvir a voz de Kate atrás da lona que cobria a janela de sua casa. Deu uma olhada para Jin que dormia profundamente ao seu lado e levantou-se indo até a janela.
- Kate? O que foi?
- Eu preciso que tome conta da Lilly pra mim um pouco.
- Por mim tudo bem, mas aconteceu alguma coisa?
- Vem aqui fora!- pediu Kate.
Sun saiu da casa e encontrou-a do lado de fora, pronta para sair com uma mochila nas costas e Lilly nos braços.
- Pra onde você vai?- indagou Sun.
- Eu ainda não sei.- respondeu Kate. – Eu vou seguir o Jack.
- Seguir o Jack? Mas pra onde?- Sun estava confusa.
- Juliet esteve lá em casa ainda a pouco e o Jack se arrumou e saiu dizendo que ela queria lhe mostrar uma coisa e que iria demorar. Preciso saber o que é!
Sun ergueu uma sobrancelha:
- Kate, não acha que está exagerando? Deveria confiar no Jack. Talvez essa sua animosidade pela Juliet seja ciúmes dele.
- Sun, minha animosidade com a Juliet não tem nada a ver com o Jack. È que simplesmente não consigo esquecer o que ela e seu grupinho fizeram com a gente na outra ilha, nos trancando em jaulas, fazendo testes como se fôssemos cobaias. Não importa o que ela faça, sempre vou me lembrar disso e jamais confiarei nela.
Kate estendeu Lilly para que Sun a pegasse no colo. A coreana tomou a menina com cuidado nos braços e sorriu ao vê-la aninhando-se em seu peito, chupando o dedinho.
- Preciso ir ou então não os alcanço, obrigada por cuidar dela.
- Faço isso com o maior prazer Kate, mas peço que não demore muito. E se ela quiser mamar?
- Confesso que não gosto de deixá-la Sun, mas é preciso. Prometo não demorar muito, ela mamou a pouco, não irá sentir fome agora.
Sun assentiu com a cabeça: - Está bem, tome cuidado!
- Vou tomar!- respondeu Kate caminhando em direção a floresta.
xxxxxxxxxxxxx
Suzane estava inquieta à mesa, brincava com a comida no prato pensando no homem que encontrara àquela tarde na horta. Infelizmente tivera que deixá-lo na casa de barco sozinho enquanto voltava para casa e preparava o jantar de seu marido. Se ficasse mais tempo lá com ele, Benjamin iria procurá-la e ela não queria nem pensar o que seu marido e os homens da comunidade fariam se encontrassem um hostil na Vila. Mesmo assim não parava de se preocupar com ele, temia que quando pudesse voltar o veneno de escorpião já o tivesse matado. Mas ela tinha prometido a ele que voltaria para cuidar dele custe o que custasse.
- Não está com fome, querida?- indagou Benjamin notando que Suzane não tinha comido quase nada de seu prato.
- Pois é, estou meio sem apetite hoje.- respondeu ela enrolando o macarrão no garfo.
- Será que não pegou um resfriado colhendo tomates na chuva?
- Talvez!- disse ela.
Alex comia calada em seu canto, mas havia notado que a madrasta estava inquieta com algo, só não sabia o que era. De repente, James começou a chorar no quarto. Suzane largou o prato imediatamente para ir vê-lo.
- Suzane, você não acabou de comer!- reclamou Ben quando ela se levantou da mesa.
- O James está chorando!
- Deixe-o chorar um pouco, e termine de comer, eu já disse a você que ele está ficando muito mimado.
- Não!- discordou Suzane.
Irado, Benjamin se levantou da cadeira e encheu Suzane de tapas, derrubando-a ao chão. Alex interveio: - Pai, você enlouqueceu? Para com isso agora!- gritou.
Ben olhou para a filha com o rosto corado de raiva e se retirou da casa dizendo:
- Vou dormir no trabalho hoje!
Assim que ele saiu, Suzane começou a chorar desesperadamente, abraçando os próprios joelhos. Alex apiedou-se dela e sentou-se ao seu lado confortando-a.
- Oh Suzane, eu sinto muito!- ela ergueu o rosto da madrasta, a marca da mão de Ben se fazia visível em sua face morena.
James começou a chorar ainda mais alto no quarto. Suzane engoliu o choro e levantou-se mesmo com o corpo dolorido, correndo para lá.
- Calma filhinho, mamãe está aqui bebê!- ela tomou o menino nos braços e agarrou-se a ele, chorando descontrolada.
Alex começou a chorar também, sentindo muita pena dela. Sabia quem ela era de verdade, e qual era o propósito de estar naquela casa como esposa de seu pai. Se o projeto 2342 não desse certo, Ben se livraria dela sem nenhum escrúpulo, como costumava fazer com tudo que lhe irritava ou dava errado. Suzane era apenas uma cobaia. Resolveu que não podia ficar vendo aquela situação de braços cruzados e resolveu ajudá-la, como tinha feito com outras pessoas vítimas da ambição de seu pai.
- Suzane, você tem que ir embora daqui!
- O quê?- indagou Suzane, surpresa e assustada com o que ela estava dizendo.
- Ir embora? Mas pra onde? Do que está falando?
- Existe um lugar além das cercas da Vila para onde você poderia ir.
- No mundo dos hostis?
- Eles não são tão hostis assim. Vê o modo como papai trata você. Lá tenho certeza que você não seria tratada assim.
Suzane sentou-se na cama, começando a ficar muito confusa.
- Mas e quanto à contaminação? Eu e o bebê estaríamos seguros disso lá?
- Não existe lugar seguro da contaminação. Meu pai mente pra você. Pra começar, pare de tomar essas injeções. Elas mantém você sob o controle dele.
- Como assim?
- Suzane, é difícil de explicar. Mas confie em mim, você precisa fugir daqui enquanto há tempo. Eu vou sentir muito a sua falta, mas não posso ficar vendo meu pai bater em você e não fazer nada em relação a isso.
Ela respirou fundo, tentando absorver tudo o que Alex lhe dizia. Por fim, disse:
- Tudo bem. Suponhamos que eu fosse para esse lugar, você tem certeza que essas pessoas me aceitariam, a mim e ao meu filho?
- Certeza absoluta!
- Mas e Ben? Ele jamais vai me deixar tirar o James daqui, ele é filho dele.
Alex não queria revelar detalhes demais para ela, porque temia que essas revelações pudessem lhe causar transtornos emocionais. Não sabia até que ponto reativar a memória adormecida dela assim de qualquer jeito traria benefícios.
- Mesmo assim, você tem que tentar! Não vai querer ficar o resto da sua vida vivendo desse jeito.
- Mas e quanto a você? Tem que vir comigo!
- Eu não posso, não ainda. Tenho que descobrir onde está o Karl. Mas chega de conversar, meu pai está zangado, não voltará esta noite. Você tem que aproveitar para partir. Vamos preparar uma mochila com cobertores, água e comida. Quando chegarmos à cerca, eu te explico como fazer para chegar ao acampamento deles.
- Mas Alex, como passarei pela cerca?
- Eu posso conseguir o código!- respondeu ela, determinada.
- Só tem mais uma coisa...- aquela altura, Suzane se sentia compelida a partir. – Eu ainda não posso ir, não agora. Tem uma coisa que não te contei.
- O quê?
- Hoje à tarde, eu encontrei um homem na horta quando fui colher tomates. Ele foi picado por um escorpião e está muito mal. Eu o escondi na casa de barco.
Alex arregalou os olhos azuis.
- Quando o vi, logo pensei que se tratava de um dos hostis, mas ao olhar bem para o rosto dele eu soube quem ele era.
Ela caminhou pelo quarto até a cômoda onde ficavam guardadas as fraldas de James. Apoiou-o de lado na cintura e abriu a gaveta, procurando algo. O bebê estava mais calmo e recostou a cabecinha no ombro da mãe. Tirou de lá a foto que roubara do escritório de Benjamin e mostrou a Alex.
- Esse é o homem que estou escondendo na casa de barco.
- Ai, meu Deus!- exclamou Alex, reconhecendo-o de imediato.
- Você sabe quem ele é?
- Sei.- respondeu Alex, chocada em saber que ele estava na Vila.
- E quem ele é?- questionou Suzane.
- James Ford.- respondeu Alex.
- Eu sei o nome dele, vi na ficha onde encontrei essa foto. Mas ele é um dos hostis?
- Não posso te explicar isso agora. Você disse que ele foi picado por um escorpião, então precisamos fazer alguma coisa depressa. Vá para o depósito de ferramentas, leve o bebê com você. Eu logo estarei lá, vou pegar remédios, cobertores, água e comida.
Suzane assentiu.
- Agora vá Suzane, não percamos mais tempo!
xxxxxxxxxxxxx
- Talvez devêssemos contar a ela.- dizia Juliet a Jack enquanto eles caminhavam pela floresta escura munidos com tochas para iluminar o caminho.
- Eu não sei, acho melhor não dizermos nada a ninguém ainda. Precisamos ter certeza dos planos dele.
- Mas é como eu estou dizendo pra você, Benjamin não irá ficar nessa de dar trégua por muito tempo. Ele é muito vingativo!
Jack parou nesse momento e segurou as mãos dela ternamente.
- Você me disse que tudo o que mais queria era deixar essa ilha.
Juliet assentiu.
- Então, nós vamos fazer isso juntos, eu prometo.
Kate os seguia a uma curta distância, mas esperta como era acompanhava os passos deles sem se fazer notada. Não conseguia entender o que diziam, mas estava cada vez mais curiosa sobre para onde Juliet estava levando Jack.
- Ainda está muito longe?- Jack questionou quando voltaram a caminhar.
- Não está não.- respondeu Juliet.
E eles seguiram seu caminho.
xxxxxxxxxxxx
Em toda sua vida, o máximo que Paulo tinha estado sob a mira de uma arma foi quando foi assaltado saindo de uma boate no Rio de Janeiro. Levaram seu relógio e celular, fora isso jamais tinha estado numa situação terrível quanto aquela. Um homem de aparência peculiar, com um dos olhos tapados mantinha uma pistola carregada firmemente em sua nuca. Tudo acontecera tão depressa que ele nem tivera tempo de processar a informação. Só se lembrava de estar dormindo e ser acordado por Nikki, muito zangada dizendo que Sawyer havia partido para a floresta sozinho, de moto. Depois disso, cerca de quatro pessoas entraram na casa e do nada, os arrastaram para o celeiro da fazenda e os algemaram, colocando-os sob a mira de armas. Algum tempo depois, ouviu-os dizer que havia mais deles invadindo a propriedade. Sentiu um alívio repentino, imaginando que uma comitiva vinda do acampamento havia sido enviada para buscá-los.
Porém, a sensação de alívio durou pouco quando ele viu a casa principal da fazenda explodir. Ficou imaginando se algum de seus amigos teria morrido lá dentro. Logo depois, viu Sayid sendo arrastado para dentro do celeiro desacordado, seguido por Desmond e Locke. Desmond foi algemado junto com eles na sala. Locke foi levado para outro lugar, assim como Sayid. Naquele momento, o brasileiro trocava olhares furtivos de medo com Nikki e Philip, imaginando como iriam sair daquela situação. Estavam todos amordaçados, com exceção de Desmond. Em dado momento, uma mulher muito bonita e bem vestida adentrou o celeiro e logo depois sumiu. Paulo ficou imaginando se não havia uma espécie de passagem secreta dentro do celeiro. Foi aí, que eles baixaram a guarda.
Dos três homens que vigiavam o grupo na sala, apenas um, o que usava tapa-olho permaneceu. Desmond começou a fazer sinais para Paulo, mostrando que iria agir. O brasileiro balançou a cabeça negativamente, com medo, mas Desmond estava decidido. Esgueirou uma das pernas em direção a corda que prendia seus pés e discretamente conseguiu soltar-se. Nikki percebeu o plano dele e tentou distrair o homem que os vigiava fingindo estar tendo algum tipo de ataque. O homem voltou-se para ela e Desmond aproveitou para dar uma chave de coxa no inimigo. Philip arregalou os olhos azuis ao ver aquilo. Pronto, o circo estava armado, restava saber como terminaria tudo aquilo.
xxxxxxxxxxxxxxxxxx
Foi tudo muito rápido como num filme de ação de Quentin Tarantino, concluiu Philip depois que Paulo e Desmond amarraram o homem do tapa-olho numa cadeira. Nikki apontava a pistola carregada que antes estivera apontada para eles para a cabeça do homem. Ele tremia ligeiramente, parecia assustado, mas não foi o que deu a entender quando abriu a boca para falar: - Me matem se quiser.- disse simplesmente. – Se fizerem isso estarão me fazendo um favor.
Paulo franziu o cenho: - E você acha que vamos cair nesse truque velho, companheiro?
- Shiii!- fez Desmond para ele colocando o dedo indicador sob a boca. – Fala baixo brotha, os amiguinhos dele não devem estar muito longe daqui. – Me diga, meu caro.- disse o escocês, dessa vez falando com o homem do tapa-olho. – Como você se chama?
- Mikail Bakunin.- respondeu ele sem enrolações.
- E por que você acha que se o matarmos estaremos te fazendo um favor, brotha?
- Porque ironicamente seria o único jeito de deixar esta ilha amaldiçoada!- ele respondeu.
De repente eles ouviram o barulho de passos se aproximando na entrada do celeiro. Segundo as instruções de Desmond, Philip tinha apagado os lampiões deixando apenas um aceso iluminando parcialmente o ambiente, por causa disso não puderam ver quem se aproximava.
- Será que o Sawyer voltou?- cochichou Philip.
- Eu acho difícil.- disse Nikki.
- Aqui, Bea, eu estou aqui!- gritou Mikail de repente, se aproveitando da distração deles.
- Desgraçado!- gritou Nikki dando um soco bem dado no rosto do homem que quase o fez cair para trás junto com a cadeira.
Desmond apontou a arma na direção dos passos, pelo som concluiu que era apenas uma pessoa que se aproximava temerosamente. Quando o vulto estava de frente para eles, Philip iluminou o corpo da pessoa com o lampião. Era uma mulher negra, esguia, usando roupas exageradamente estampadas e um lenço amarrado na cabeça.
- Peraí, eu conheço você!- bradou Nikki. – Foi você quem me trancou naquele quarto de hospital quando eu e Pedro fomos capturados.
- Olá Nikki!- respondeu Bea com um meio sorriso.
- Mãos ao alto, irmã!- ordenou Desmond.
Bea obedeceu. Olhou para Mikail amarrado na cadeira, ele piscava os olhos confuso por causa do soco que levara.
- Como pôde deixar eles assumirem o controle?- ela perguntou em uma língua completamente desconhecida aos ouvidos dos quatro que estavam lá.
- Eu me distraí!- ele respondeu na mesma língua. – Já estou cansado de tudo isso aqui.
- Hey, calem a boca vocês dois!- esbravejou Desmond ou estouro seus miolos, brothas!
- È isso mesmo! Parem de falar em javanês e digam logo onde estão o Sayid e o Locke!- completou Paulo.
- Eu acho que não temos escolha.- falou Bea, ainda na língua desconhecida.
Mikail assentiu: - Farei o que vocês querem, mas me desamarrem primeiro para que eu possa mostrar a vocês onde estão o Locke e o iraquiano.
Os quatro se entreolharam.
- È bom que esteja dizendo a verdade sobre nos ajudar.- falou Nikki. – Caso contrário eu mesma vou enfiar esse revólver que está nas mãos do brotha no seu...
- Nikki!- pediu Paulo. – Contenha-se!
- Desamarrem esse salafrário e amarrem a mulher!- falou Desmond. – E é bom não tentarem nenhuma gracinha brothas, estou com os dois na mira.
xxxxxxxxxxxxx
Suzane estava com medo de abrir a porta quando chegou à casa de barco empurrando o carrinho do filho. Estava com medo porque temia que o homem que estava lá dentro já estivesse morto por causa do veneno do escorpião. Mesmo assim, encheu-se de coragem e entrou. James dormia profundamente no carrinho, a cabeça repousada na manta, usando chupeta. Suzane colocou o carrinho dele no canto do depósito e trancou a porta, indo se agachar ao lado do homem desfalecido para constatar se ainda estava vivo.
Tomou seu pulso e sorriu ao perceber que embora fraco, ainda pulsava, ele estava vivo. Sentiu uma vontade irresistível de tocar seu belo rosto e acariciou-o ternamente. Sim, ele era muito bonito apesar de estar tão mal cuidado, a barba por fazer e os cabelos loiros ensopados de suor e cheios de pontas duplas.
- Quem é você? Por que está aqui? Sei seu nome, mas nada faz sentido.- ela murmurou.
- Ana-Lucia...Ana-Lucia...- ele gemeu delirante.- Não me deixe, eu te...amo!
Preocupada com o delírio dele, Suzane tocou sua testa, estava encharcada de suor, o homem estava com muita febre. Nesse momento, Alex chegou e deu duas batidinhas na porta do depósito. Suzane levantou-se e abriu a porta para ela. Alex entrou de imediato munida com uma sacola cheia de coisas. Mostrou-as a Suzane.
- Veja, eu trouxe um antídoto para o veneno do escorpião. Roubei do ambulatório, existem muitos escorpiões nessa região e eles estão sempre preparando esse remédio para alguma emergência.- ela estendeu uma seringa preparada para Suzane. – Além disso, eu trouxe cobertores e roupas limpas para você deixá-lo mais confortável. O veneno do escorpião é terrível, mesmo com o antídoto ele irá demorar a se recuperar, será aos poucos, por isso não poderão partir hoje, mas podemos mantê-lo escondido aqui até que se recupere e possa levar você e o James para o acampamento dele.
- Alex, você acha que isso é o melhor?- indagou Suzane duvidosa.
- Nunca tive tanta certeza de uma coisa.- ela respondeu. – Ah sim, e eu trouxe também dentro dessa vasilha sopa para que você possa alimentá-lo e uma garrafa de água para a sede. Aplique o remédio, limpe-o, faça com que ele beba água e espere que acorde totalmente para que possa comer. Volte ao amanhecer para que o papai não desconfie, eu cuidarei do James essa noite, não se preocupe.
- Certo.- Suzane assentiu, não tinha muita escolha.
- Boa sorte!- disse Alex abraçando Suzane e deixando o depósito de ferramentas com o carrinho de James. Assim que ouviu Suzane trancando a porta do depósito pelo lado de dentro, disse consigo mesma:
- Eu espero que você se lembre logo, Ana-Lucia.
Dentro do depósito, a primeira coisa que Suzane fez foi desinfetar com o álcool trazido por Alex o braço do homem, em seguida aplicou com cuidado a seringa. Ele não esboçou nenhuma reação. Ela respirou fundo, ele estava imundo e ela precisava limpá-lo. Mas seria muito difícil transportá-lo dali, por isso pegou um velho balde que havia no depósito levou até uma torneira lá dentro que ainda funcionava e encheu de água. Pegou um pedaço de pano e encharcou no balde, espremendo-o. Começou a passar o pano pelo rosto dele, bem devagar. Desceu o pano pelo pescoço, limpando tudo cuidadosamente.
Mergulhou o pano novamente na água e espremeu mais uma vez. Tinha que limpar o corpo dele também. Começou pelos sapatos, retirando-os. Observou a palma do pé calejada dele, tinha sido ali que o escorpião ferrara. Tocou o ferimento cuidadosamente e limpou os pés dele com o pano. Em seguida se esgueirou sobre ele e começou a desabotoar-lhe a camisa desnudando-lhe o peito forte. Passou as mãos por ele, acariciando-o e sentiu um arrepio pelo corpo. Afastou-se dele, ralhando consigo mesma em pensamento: "Suzane, o que está fazendo? Está se aproveitando de um homem moribundo? Enlouqueceu?"
Aproximou-se dele novamente e passou o pano por seu peito contendo-se. Era estranho, mas a visão do corpo dele, o cheiro masculino que exalava lhe era incrivelmente familiar e a inebriava. Era como se sentisse saudade daquele corpo, mesmo que jamais o tivesse tocado. Tentou se concentrar em sua tarefa e soltou o botão da calça dele, abrindo o zíper e tirando-a com esforço devido ao peso do desfalecimento dele. Respirou fundo mais uma vez ao tê-lo quase nu na sua frente e terminou de despi-lo. Não conteve um suspiro de admiração quando retirou a última peça que o cobria.
Passou o pano com cuidado pela barriga dele, e desceu para as coxas, evitando tocar sua intimidade, embora uma súbita vontade de fazer isso tivesse lhe acometido. Afastou-se dele resolvendo que já estava limpo. Pegou as roupas que Alex trouxera e vestiu-o rapidamente, depois o embrulhou no cobertor, mantendo-o aquecido.
Sentou-se longe dele e ficou imaginando o porquê de estar se sentindo tão atraída por aquele homem. Pensou em seu casamento com Benjamin. Não se lembrava de nada antes da contaminação, mas a única certeza que tinha era de que o marido não a satisfazia. Ele era bruto, não lhe fazia carinhos, apenas a tomava como se ela fosse uma égua. Odiava aquilo, e até minutos antes de despir o desconhecido acreditava odiar sexo. Mas a visão da nudez dele, seu total desamparo em seus braços, o fato de precisar dela para sobreviver despertaram em Suzane sentimentos fortes que ela não conseguia definir a origem.
Lembrou-se de que esquecera de dar-lhe água como Alex dissera e procurou a garrafinha. Destampou e tentou dar a ele, mas tudo o que conseguiu foi molhar o cobertor. Resolveu então colocar um pouco de água nas próprias mãos pondo-as em forma de concha e levou aos lábios dele para que bebesse.
- James!- sussurrou. – Tome, beba, você precisa de água!
Ele aceitou instintivamente o líquido reconfortante que lhe era oferecido pelas mãos dela e bebeu rapidamente. Suzane passou os dedos molhados sobre os lábios dele e Sawyer os sugou levemente, buscando mais água. Começou a tossir de repente, seu corpo sendo sacudido.
- Calma, James.- disse ela tentando deitá-lo novamente no chão. – Você bebeu muito rápido, beba mais devagar. Ela voltou a colocar água nas mãos e ele bebeu o restante.
- Ana, fica comigo!- disse Sawyer de olhos fechados segurando a mão dela.
Suzane não sabia se ele tinha plena consciência do que dizia, provavelmente ainda deveria estar delirando. Mas por que ele a chamava de Ana? Talvez estivesse achando que estava com outra pessoa ali, isso seria perfeitamente justificável já que o veneno do escorpião era capaz de causar alucinações. No entanto, por que quando ele a chamava assim ela sentia como se esse fosse o seu nome. Ou será que ela queria que aquele fosse seu nome? Ana deveria ser a amada de James Ford, e Suzane pegou-se desejando ser aquela mulher. Permitiu-se fantasiar a respeito quando ele a chamou mais uma vez:
- Ana-Lucia...
- Eu estou aqui!- respondeu e puxou o cobertor que o cobria deitando-se ao lado dele e repousando a cabeça em seu peito e acomodando o cobertor sobre ele. Sentindo-se muito segura, adormeceu.
xxxxxxxxxxxx
- Eu já estive aqui há um tempo!- observou Jack quando Juliet disse a ele que haviam finalmente chegado ao seu destino.
- Eu sei!- ela respondeu caminhando em direção à entrada estreita da caverna onde Jack se abrigara com Kate de uma tempestade há mais de um ano.
- Sabe?
- Essa caverna já foi uma estação importante da Dharma.- ela explicou. – Foi aqui que eu trouxe Sayid, Locke e Desmond para pegarmos remédios e suprimentos quando cheguei ao acampamento.
Quando chegaram à entrada estreita, Jack fez um sinal para que Juliet entrasse primeiro. Assim que eles sumiram pela abertura Kate saiu detrás de uma árvore, imaginando o que ela queria mostrar a Jack dentro da caverna. Uma idéia absurda passou por sua cabeça. Aquela era a caverna onde ela estivera com Jack, a caverna onde foram atacados pelo urso polar, tudo o que existia lá dentro era apenas rocha, estalactites e um lago azul maravilhoso. Se Juliet o estava levando para lá provavelmente não deveria ter nada a ver com o acampamento. Enciumada, Kate decidiu confrontá-los e correu para a entrada da caverna. Porém,não conseguiu chegar lá, pois um enorme urso polar colocou-se na sua frente, surgido da escuridão.
De pé o animal era três vezes mais alto do que ela. Kate recuou, dando um passo para trás.
- Ai, meu Deus!
xxxxxxxxxxxxxx
Sayid acordou novamente. Piscou os olhos, confuso e notou que ainda estava no mesmo lugar. Seu corpo inteiro ainda doía. Respirou fundo e um súbito ataque de riso o acometeu. Que ironia! Já era a milionésima vez que se encontrava naquela situação. Lembrou-se de como fora a primeira vez que fizera uma coisa realmente errada que o colocara em apuros dos quais ele pensou que jamais fosse escapar.
----------------------------------
(Flashback)
- Olha, lá vem ela! Sayid!
O iraquiano deu um sorriso divertido e se ajeitou atrás dos arbustos que ocultavam ele e seu amigo Arquimed. Tinham quinze anos e tudo em suas vidas era motivo para farra. Observavam a jovem esposa do comerciante mais rico da cidade. Ela nunca saía de casa sem véu, mas quando estava na privacidade de seu quintal permitia-se banhar-se quase nua na fonte natural.
Arquimed e Sayid não se cansavam de observar a bela Samira, ocultos pelas plantas do jardim. O velho Mustafah costumava contratar Sayid e Arquimed para manter o jardim limpo, a grama bem aparada e as plantas florescendo. Tudo para agradar Samira.
Entretanto, naquela tarde sucedeu-se um fato que nunca tinha ocorrido. Samira olhou na direção deles nos arbustos e começou a rir, seus olhos verde-esmeralda brilhando divertidos. Arquimed olhou para Sayid sem entender. Samira saiu de dentro da fonte usando apenas a parte de baixo do traje de banho e chamou sua criada para que lhe trouxesse o robe de seda. Cobriu-se e caminhou até eles.
Embaraçados, os dois cobriram os olhos para não vê-la e começaram a se desculpar desesperados.
- Dona Samira, nos desculpe.- começou Arquimed, estávamos podando os arbustos e não vimos a senhora aqui.
- È verdade.- reforçou Sayid.
Samira deu uma sonora gargalhada e indagou: - Ah é mesmo? E posso saber aonde estão as tesouras?
- È...- começou a dizer Sayid quando ela se aproximou e tocou seu rosto, erguendo-lhe o queixo. – Você é um rapaz muito bonito. Como se chama?
- Sayid Jarrah, senhora. – respondeu ele gaguejando um pouco.
- E você?- ela indagou ao outro.
- Arquimed. –respondeu petrificado.
- Certo. Bem, eu gostaria de poder oferecer chá aos dois, mas infelizmente só recebo uma visita de cada vez. Então hoje oferecerei chá ao Sayid.
Sayid arregalou os olhos sem entender. Ela o puxou pela mão e disse a Arquimed: - Continue podando os arbustos, quero tudo impecável, quando terminar lhe darei uma gratificação extra.
Dizendo isso ela saiu puxando Sayid pela mão para dentro da casa, Arquimed não conseguia acreditar no que via. Depois que eles entraram na casa, se pendurou numa árvore e pôs-se a observar tudo da janela. Dentro de seu quarto, Samira beijava Sayid e se despia para ele.
- Senhora, eu nunca fiz isso.- disse ele, inocente. – Alá não permite que...
Ela franziu o cenho e Sayid observou que nem isso conseguia deixar-lhe feia.
- Acha que eu faria alguma coisa que Alá não permitisse rapaz? Está me insultando?
- Não senhora!
- Então fica quietinho que eu vou te mostrar como se faz!
------------------------------
(Fim do Flashback)
xxxxxxxxxxxx
Um barulho familiar o tirou de suas lembranças, seguido por um cheiro de pólvora fresca. Franziu as sobrancelhas e instintivamente voltou a tentar se soltar. Viu faíscas pipocando na escuridão e teve muito medo. Será que dessa vez não escaparia?
Sayid fechou os olhos temendo o inevitável quando viu as faíscas aumentarem começando a tomar grande parte do ambiente onde estava. Mas o espetáculo não durou muito quando as faíscas se transformaram em uma enorme labareda de fogo e a porta trancada que o escondia explodiu com grande estrondo e de repente o iraquiano se viu envolto em uma grossa nuvem de poeira, fumaça e destroços. Uma voz familiar soou em meio ao caos.
- Pelos poderes de Greaskcall! Eu tenho a força!- Paulo gracejou quando a porta do lugar onde mantinham Sayid explodiu em um milhão de pedacinhos.
Sayid piscou os olhos e sorriu para Paulo, o rosto coberto de fuligem:
- Obrigado, amigo.
- Ah não agradeça a mim não, agradeça ao brotha, a idéia de explodir esse pardieiro foi dele.
A nuvem se dissipou um pouco e Sayid pôde vislumbrar melhor Paulo, Nikki, Philip e Desmond. O escocês trazia como refém um homem careca usando tapa-olho e uma mulher negra com um lenço na cabeça. Da mulher Sayid parecia se recordar, mas o homem lhe era totalmente desconhecido. Instintivamente buscou com os olhos pela figura da bela mulher que o ameaçara antes de ser salvo, mas nem sinal dela. Paulo correu para desamarrá-lo e eles deixaram os destroços da saleta apertada conjugada ao celeiro onde Sayid estivera preso.
- Onde está o John?- indagou Sayid massageando os pulsos machucados pelas cordas que antes o prendiam.
- Não encontramos o Locke, porém ainda me resta um pouco de paciência para interrogar esses dois para que me digam onde ele está.- disse Desmond lançando um olhar ameaçador aos seus reféns.
Sayid limpou um pouco de sangue que escorria de um ferimento em sua testa e encarou os reféns, indagando:
- Me digam onde está o Locke agora mesmo porque eu não disponho de paciência escocesa!
- Mikail não diga mais nada a ele!- falou Bea no mesmo idioma ininteligível de antes.
- Não tenho escolha, se não contar a eles onde está o Locke seremos torturados por esse maldito iraquiano!- ele respondeu no mesmo idioma.
- Ah não, já vão começar a falar javanês de novo.- queixou-se Paulo.
Bea balançou a cabeça negativamente, atormentada.
- Então é melhor você me matar, não vou trair Jacob e não existe mais nada aqui pra mim. Benjamin mentiu para todos nós e Juliet nos traiu!
- Eu não vou matar você, eu te amo!
- Se isso é verdade Mikail, me mate agora!
- Não!- ele gritou.
- Hey, parem com isso!- ordenou Desmond.
- Faça Mikail!- gritou Bea ignorando Desmond.
No momento seguinte ela estava regurgitando sangue, os olhos arregalados. Mikail tinha tirado uma faca dos bolsos e enfiado sem pensar duas vezes no estômago dela. Os cinco que assistiram à cena estavam atônitos. Sayid puxou Mikail pelos braços e disse:
- Algum de vocês me arranje um pedaço de corda! Vou amarrá-lo!
Nikki correu para procurar um enquanto Paulo e Philip continuavam estupefatos com aquela situação. O corpo de Bea cambaleou desfalecido para trás e Desmond recuou com os olhos vidrados. Voltou-se para Mikail:
- Você é completamente insano brotha, blood hell!
Nikki voltou logo com um pedaço de corda que Sayid usou para amarrar as mãos de Mikail. Em seguida revistou todos os bolsos do homem para ver se ele não escondia mais alguma outra faca, no entanto, não encontrou nada.
- E agora brotha, o que faremos?- indagou Desmond a Sayid.
- Vamos encontrar o John, e esse sujeito vai nos ajudar!- respondeu ele levantando Mikail do chão com rispidez.
xxxxxxxxxxxx
- Kate? Kate?
Ela entreabriu os olhos, confusa e foi vislumbrando aos poucos a imagem familiar de um rosto preocupado fitando o seu.
- Jack? O que aconteceu? Cadê o urso?- ela tentou se sentar mas ainda estava muito tonta. Jack a ajudou.
- Urso? Do que você está falando?- indagou Juliet de pé, observando os dois.
Kate franziu o cenho, irritada:
- O que tentou me matar ainda há pouco.
- Kate, não havia urso nenhum aqui! Deus se houvesse um você teria sido estraçalhada! Eu apenas saí da caverna com a Juliet e encontrei você aqui caída.
- Não é possível!- ela bradou angustiada limpando as mãos sujas de terra na calça jeans. – Mas eu vi Jack, um urso polar enorme caminhando sobre as duas patas na minha direção.
Juliet deu um ar de riso e Kate irritou-se ainda mais, levantando-se do chão. Jack a acompanhou.
- Não faça essa cara pra mim Juliet, você sabe que existem ursos polares nessa ilha. Essa caverna é o habitat deles.- apontou para a fenda incrustada na rocha. – Além disso, aquelas jaulas onde vocês nos prenderam na outra ilha eram destinadas aos ursos.
- Não estou questionando a existência dos ursos Kate, apenas o que você diz no momento. Não te parece óbvio?
- O quê?- Kate retrucou sem paciência.
- Kate, você está física e emocionalmente cansada. Teve um bebê há poucos dias, tem cuidado de sua filha direto e eu sei o quanto crianças recém-nascidas dão trabalho, além disso fica fantasiando 24 horas sobre eu e Jack estarmos fazendo uma conspiração contra o acampamento. Não está respeitando seus limites por isso delirou imaginando ter sido atacada por um urso e desmaiou.
Kate cruzou os braços sobre o peito e fitou Jack.
- Não vai dizer nada?
- Dizer o quê?- ele replicou. – Você foi irresponsável me seguindo, não devia ter feito isso, se lembra o que aconteceu da última vez que me seguiu sem permissão?
- Lembro sim, eu fui capturada por gente como a Juliet e se quer saber, não preciso de sua permissão pra nada, nunca precisei. Você não manda em mim!
Jack passou as mãos pela cabeça, zangado e replicou:
- Tem razão, não mando em você. Mas ainda sou o pai da Lilly. Onde ela está agora?
- Com a Sun.- Kate respondeu com tranqüilidade.
- Não devia tê-la deixado, ela é muito pequena, precisa de você!
- Concordo com o Jack!- disse Juliet, metendo mais lenha na fogueira.
- Cala a boca sua desclassificada!- bradou Kate, nervosa. – Agora estou entendendo tudo, você me deixou sozinha no acampamento com nossa filha pequena para vir dar um passeio noturno na floresta com Juliet! Tudo bem, eu devia saber que tipo de homem é você, Jack Shephard. E ainda tem a coragem de criticar o Sawyer. Ele sim é um homem de verdade, agora está por aí na selva procurando a mulher e o filho dele enquanto você...
- Eu o quê Kate? Anda, pode dizer!
Ela virou as costas para ele e saiu caminhando de volta para o acampamento. Jack a seguiu.
- Kate, vem aqui! Não dê as costas pra mim!
- Não me diga o que eu não posso fazer!- ela gritou apressando o passo para ficar longe dele.
Juliet deu um sorriso maldoso e os seguiu. Porém, quando se aproximou outra vez dos dois viu que Jack tinha conseguido alcançá-la e a segurava pelo braço. Franzindo a testa, entregou a Juliet a tocha que tinha nas mãos para iluminar o caminho e disse:
- Juliet, será que você pode ir andando a nossa frente, estaremos logo atrás. Eu preciso de um momento a sós com Kate.
A loira deu de ombros e aceitou a tocha das mãos dele, passando a caminhar na frente.
- Me solta!- disse Kate quando Juliet se afastou.
Mas Jack ignorou as palavras ríspidas dela e a puxou para si, beijando-a. Kate se debateu um pouco, mas logo aceitou o beijo e deixou-se ser conduzida por Jack.
- Vamos pra casa, querida. Lá eu conto pra você tudo o que deseja saber sobre o que Juliet queria me mostrar essa noite, eu prometo. Mais calma Kate assentiu e estendeu sua mão a ele, entrelaçando seus dedos com os dele e seguiram seu caminho.
Continua...
