Longe é um lugar que não existe parte II

Altas horas da madrugada a febre do homem disparou. Suzane o sentia tremer quase convulsivamente debaixo de seu corpo e desesperou-se pensando no que fazer. Levantou-se do lado dele e procurou o balde onde tinha colocado água para lhe dar banho e encheu novamente. Molhou o pano no balde, espremeu e colocou na testa dele, tentando aliviar um pouco a febre ao mesmo tempo em que tentava segurar o corpo forte dele com o seu.

Ele se debatia e delirava, murmurando palavras sem sentido.

- A culpa disso tudo é sua...desgraçado...son of a bitch!

- Calma, fica quietinho! Vai passar!- disse Suzane, acalentando-o, mas não adiantava porque ele não parava de se mexer e praguejar. Deveria estar assim por causa do remédio injetável que aplicara nele, não havia se incomodado de perguntar a Alex se sabia quais eram os efeitos colaterais da injeção.

- Some da minha frente!- ele gritou de olhos fechados.- Son of a bitch, pra onde a levou? A minha Ana, minha Ana-Lucia…

- James, você está delirando!- falou Suzane tentando segurar seus braços.

De repente, ele a surpreendeu abrindo seus expressivos olhos azuis e fitando-a intensamente. Suzane também alargou os olhos para ele, fitando-o de volta. Entretanto, havia algo estranho, ele tinha os olhos abertos, mas parecia não enxergá-la realmente, não ali, talvez estivesse achando que estava em outro lugar, com outra pessoa.

Suzane ficou parada olhando para ele, sem mexer um músculo. As mãos febris dele deslizaram por seus cabelos negros e ele sussurrou:

- Ana-Lucia...

- Já disse a você que não me chamo...- ela começou a dizer, mas seus lábios foram silenciados por um beijo intenso dos lábios dele que calou qualquer pensamento coerente.

No momento seguinte, o belo estranho cobria seu corpo com o dele e sua língua invadia sem pedir licença a maciez dos lábios dela.

- Oh Ana, se isto é um sonho, não quero acordar nunca mais.- ele disse num murmúrio.

Suzane tentou dizer alguma coisa no instante em que sentiu sua boca liberta, mas não teve tempo porque ele voltou a cobrir os lábios dela, com desespero e violência. Suzane se viu envolta numa redoma deliciosa da qual não podia escapar ou será que não queria?

- Que saudade, baby!- ele dizia em meio ao seu delírio e suas mãos deslizaram despreocupadamente pelo corpo dela. Suzane tentou afastá-las ao senti-lo apalpando suas coxas, mas não tinha forças, ele era muito mais forte do que ela.

- Não, por favor!- ela pediu, nervosa, tentando se desvencilhar dele, estava muito confusa, o coração batia muito forte e sem que ela pudesse evitar começava a sentir uma grande quantidade de calor inundando seu corpo, provocando umidade em seu ponto sensível.

- Não Ana, não me deixe, eu te amo, te amo.- ele repetia beijando o pescoço dela, emaranhando os dedos em seus cabelos, como que possuído por alguma força desconhecida.

- Ai, meu Deus!- ela gemeu ao sentir a língua dele acariciando o lóbulo de sua orelha. – Me deixe por favor, eu só estou aqui pra cuidar de você, sou casada, não posso...- parecia uma grande ironia até pra ela mesma tentar se desvencilhar do enlace com o desconhecido por causa de sua condição de casada já que odiava o marido.

No entanto, nada do que ela dissesse adiantaria para conseguir se sair dele, ele ignorava completamente onde estava e com quem estava. O veneno do escorpião era muito forte e o antídoto mais forte ainda, portanto desde que havia sido picado nada parecia fazer muito sentido. E ele se via envolvido numa bruma de imagens e sensações desconexas, todas protagonizadas por Ana-Lucia a quem ele buscava incansavelmente em seus delírios.

Voltou a beijá-la na boca, avidamente. Sentindo arrepios deliciosos pelo corpo, Suzane instintivamente acabou por envolver os braços ao redor do pescoço do desconhecido. Diante da aparente entrega dela, ele desceu seus lábios para o decote molhado de suor dela e desceu as alças do vestido amarelo de tecido leve que usava, desnudando-lhe os seios arrepiados e doloridos de desejo.

As mãos dele envolveram-nos delicadamente e ele circundou uma auréola morena com sua língua antes de sugar o mamilo com vontade, saboreando a textura da pele dela e a doçura do alimento sublime que jorrou dele. Suzane começou a gemer baixinho diante da sensação prazerosa dos lábios dele lhe sugando o seio intumescido. Ele logo passou para o outro seio e deu a mesma atenção, acariciando e sugando o mamilo.

No entanto, quando percebeu que ele lhe erguia a bainha do vestido, Suzane voltou a se debater tentando se soltar, implorando para que ele a soltasse. Mas ele não tinha noção de nada, apenas seguia seu instinto e a vontade louca que se apoderara dele de fazer amor com a mulher que amava, a mulher de seus delírios.

- Me solta! Me solta! Sawyer!- Suzane gritou, conseguindo se soltar finalmente.

Ela saiu com dificuldade debaixo do corpo dele e ele pareceu voltar ao estado de inconsciência, sem se mexer do lugar. Suzane tremia, o rosto estava afogueado e a respiração entrecortada.Arrumou o vestido no corpo e sentou-se longe dele, abraçando os próprios joelhos tentando entender o momento intenso, assustador e maravilhoso que acabara de acontecer. E que nome foi aquele que escapou de seus lábios?

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O choro alto e desesperado de Lilly, se debatendo incansavelmente nos braços de Sun era de dar dó. A pequena estava com o rostinho todo vermelho e nada do que Sun fizesse parecia ajudar. Jin estava irritado, pois não conseguia dormir e logo o pequeno Jung se juntou a Lilly na mesma melodia escandalosa, igualmente exigindo a atenção dos adultos.

Sem ter escolha, Jin olhou para Sun com cara de poucos amigos e resmungou algumas palavras em coreano antes de tomar o filho nos braços e carregá-lo para a cama com ele. Dando de ombros, num gesto que dizia que ela não tinha culpa do escândalo que a pequena Lilly fazia, Sun deixou sua casa e foi dar uma volta com a menina no intuito de fazê-la se acalmar, mas sabia que seria em vão porque tudo o que a criança queria era o peito de sua mãe e o conforto dos braços dela.

Balançava a menina despretensiosamente em frente à sua casa, caminhando de um lado a outro até que resolveu se sentar em um tronco perto de uma das tochas que faziam a iluminação pública da praia. Assustou-se levemente ao ouvir um pigarro masculino atrás de si. Voltou os olhos escuros e sorriu para Mr. Eko que se sentava ao seu lado segurando o seu cajado.

- Olá!- ele saudou, simpático.

- Olá!- saudou Sun de volta, ainda sacudindo Lilly junto ao peito.

- Qual é o problema com Lady Lilly?- Eko indagou segurando um dos pezinhos da menina, que não paravam de se debater.

- Simples.- respondeu Sun. – Ela quer sua mãe.

- E onde ela está?

Sun ponderou se deveria contar a Mr. Eko sobre o paradeiro de Kate, mas achou por bem falar a verdade já que a amiga se demorava muito e a coreana estava começando a ficar preocupada.

- A Kate foi atrás do Jack, ele saiu com a Juliet e isso a deixou maluca.

- Entendo.- respondeu Eko.

- Mr. Eko, posso lhe fazer uma pergunta?

O nigeriano assentiu com a cabeça.

- Você confia nessa mulher, Juliet?

- Sun, digamos que eu apenas tenho uma certa cautela em relação a ela, mas não acredito que seja realmente uma pessoa ruim. A palavra de Deus nos diz que não cabe a nós julgar.

- Kate acha que ela é uma espiã.

- Bem possível!- concordou Eko. – Mas até os espiões merecem uma segunda chance.- ele concluiu estendendo os braços para Sun. – Posso tentar?

- Quer tentar acalmá-la?- indagou Sun.

- Sim, se não se importa. A coitadinha já está ficando rouca.

Sun estendeu a nenê embrulhadinha na manta como um pacotinho para as enormes, porém delicadas mãos de Mr. Eko. Com uma sabedoria que Sun desconhecia, ele a embalou nos braços e pôs-se a cantar uma antiga canção de ninar nigeriana, a mesma que cantava para seu irmãozinho Yemi quando eram crianças e o medo era o sentimento que predominava em meio ao caos da guerra civil na Nigéria.

Para a surpresa e alívio de Sun, Lilly foi ficando quietinha aos poucos, se encolhendo na manta, sumindo nos braços fortes e avantajados de Eko. Em poucos minutos estava completamente adormecida.

- Oh, não sei nem como agradecer.- falou Sun quando retomou a menina de volta nos braços.

Eko sorriu e pegando novamente seu cajado se levantou e caminhou em direção à floresta escura. Continuaria com sua vigília silenciosa à espera dos amigos que haviam partido. Mal ele se afastou, Sun avistou três vultos saindo do meio das árvores, apenas um deles segurando uma tocha para iluminar o caminho. Reconheceu-os de imediato, Jack, Juliet e Kate. Caminhou na direção deles com Lilly adormecida nos braços.

Os três vinham em silêncio, Kate ainda segurando na mão de Jack. Quando viu Sun se aproximando com sua filhinha, largou a mão dele e foi em direção à coreana.

- Lilly!- exclamou.

Sun levou o dedo indicador aos lábios pedindo silêncio.

- Ela acabou de adormecer, estava chorando há horas, se não fosse pelo Mr. Eko...

- O Mr. Eko?- estranhou Kate pegando a nenê dos braços de Sun. A coreana olhou para Jack e Juliet, e depois de volta para Kate.

Kate entendeu a indagação silenciosa da amiga e disse, baixinho:

- Depois conversamos. Obrigada por ter cuidado da minha filha, espero que ela não tenha dado trabalho.

- Imagina!- respondeu Sun ironicamente, se afastando para sua casa.

- Boa noite, Juliet.- disse Jack.

- Boa noite.- respondeu Juliet se afastando.

Ele olhou para Kate e os dois seguiram para sua casa. Assim que acomodou Lilly no bercinho de madeira e vime, Kate cruzou os braços sobre o peito e fitou demoradamente Jack enquanto ele descalçava os sapatos e despia parte das roupas para dormir. Percebendo o olhar inquisidor dela, ele indagou:

- O que foi?

- Estou esperando.- Kate respondeu muito séria, ainda na mesma posição.

- Esperando o quê?- Jack se fez de desentendido, o que irritou Kate.

- Estou esperando Shephard, você me dizer o que a Juliet queria te mostrar no meio da noite na floresta.

- Ciumenta!- ele disse com ar divertido.

Kate arregalou os olhos verdes, indignada.

- Como é que é? Eu ouvi direito?

- Isso mesmo querida, você é ciumenta.- ele repetiu.

Ela não estava acreditando nas palavras dele. Sentou-se na cama e disse a ele.

- Jack, isso não tem nada a ver com ciúmes. Até parece que você já se esqueceu tudo o que a Juliet fez com a gente, ela é um "Deles", por que você não consegue ver isso?

- Kate, Juliet salvou minha vida.

- Não Jack, Sawyer salvou sua vida quando doou sangue a você e não o vejo preocupado em encontrá-lo tendo em vista que ele está desaparecido há quase quatro dias.

- Kate, o que eu quero que você entenda é que tudo o que Juliet fez conosco, ela fez porque foi obrigada a fazer, você não tem idéia do que aquelas pessoas são capazes.

- Tenho idéia sim, já que fui vítima dessas pessoas.- ela retrucou. – Em vez de você ficar fazendo passeios noturnos com a Juliet para te mostrar sabe-se lá o quê naquela gruta, deveríamos estar procurando por Sawyer, eu estou muito preocupada com ele.

- Kate, Sawyer vai ficar bem. Mandamos um grupo de busca atrás dele.

- Jack, se você não notou já faz mais de um dia que o grupo partiu e ainda não voltou. E se todos eles tiverem sido capturados?

- Eles foram capturados, mas conseguiram escapar.- afirmou Jack.

Kate ergueu uma sobrancelha:

- Como você sabe disso?

- Porque a Juliet me contou. Aliás, era isso o que ela queria me mostrar na gruta.

Nesse momento, o ciúme e a raiva de Kate deram lugar à curiosidade e ela passou a escutar Jack, muito atenta.

- Naquela gruta existe mais uma das Estações Dharma, conhecida como "A Caverna". Foi inutilizada não faz muito tempo.

- Então quer dizer que na noite da tempestade, quando estivemos lá essa estação ainda funcionava?

- Sim. Eu desconfiei que deveria ter algo de importante naquela gruta quando voltei para pegar minhas roupas depois que fomos atacados pelo urso polar. Vi os números que existiam na porta da Escotilha gravados na parede de pedra. A partir do desenho desses números é possível acionar uma porta secreta que leva à Estação de fato e era isso o que Juliet queria me mostrar. Ela já havia levado o Sayid, Locke e Desmond lá no dia em que chegou ao nosso acampamento para buscar alimentos, remédios e outras coisas.

- Sim, tudo bem, eu entendi.- afirmou Kate.- Mas isso não explica como você sabe que o Sayid foi capturado junto com os outros e conseguiram escapar.

- Bem, as câmeras da Caverna não funcionam mais, mas existe um aparelho de rádio que se comunica com o acampamento dos Outros nessa ilha. Isso Juliet não contou ao Sayid porque ele não confia nela. Desde que ela chegou à nossa comunidade meses atrás, ela vem mantendo contato com uma pessoa mais importante do que Ben na Dharma. Ele acredita que Juliet os traiu, não faz a menor idéia de que ainda trabalha para a corporação.

- Mas se ela se comunica com alguém da Dharma significa que é uma espiã em nossa comunidade.

- Exato!- concordou Jack. – Mas uma espiã a nosso favor. Ela passa informações falsas a tal pessoa cujo nome não pode revelar e repassa para mim informações verdadeiras sobre tudo o que está acontecendo na comunidade dos Outros. O Sayid conseguiu encontrar o grupo que havia partido, mas Sawyer não estava com eles e todo mundo foi capturado. Mas agora à noite, eu mesmo escutei no rádio um homem dizendo que os prisioneiros haviam se rebelado e fugido.

- Isso é ótimo Jack, mas e o Sawyer, onde ele está?

- Ele foi atrás da Ana-Lucia na comunidade dos Outros, Juliet revelou-me que ela está viva, fazendo parte de uma experiência presidida por Benjamin Linus. Um projeto conhecido como 2342. Esse projeto consiste em modificar a personalidade de uma pessoa através de drogas injetáveis e lavagem cerebral. Juliet não sabe exatamente qual o lugar de Ana na experiência, mas o contato dela afirmou que fora o fato de não saber quem é, Ana-Lucia está muito bem e com o James.

- Com o James?- Kate abriu um largo sorriso. Finalmente a culpa por ter permitido mesmo que à força que o bebê James fosse levado sairia de suas costas.

- Sim.- Jack afirmou. – E o mais provável é que o Sawyer tenha conseguido encontrá-la. Eu só espero que Benjamin Linus não estivesse com ela quando isso aconteceu, porque aí sim Sawyer estaria encrencado.

Depois de tantas revelações, Kate começou a balançar a cabeça negativamente:

- Jack, me desculpe, não é que eu não queira acreditar em você, mas não acha que é coisa demais. E se a Juliet estiver mentindo? Usando o seu poder de liderança em nossa comunidade para nos destruir?

- Eu confio na Juliet , Kate. Ela não seria capaz de fazer isso.

- Como pode ter tanta certeza assim?- ela retorquiu.

- Porque tudo o que Juliet mais quer na vida é deixar esta ilha e se continuar trabalhando para a Dharma jamais conseguirá isso. A união com nosso grupo é sua única esperança de voltar para seus filhos. Kate, amor, você agora é mãe também, tente entendê-la, não vê os filhos há anos.

Kate deu um longo suspiro, queria muito acreditar em Jack. Mas apesar de algumas de suas dúvidas prevalecerem, estava feliz porque ele havia contado tudo o que sabia a ela e se sentiu mais segura de seu amor. Sorrindo, ela descalçou as botas, retirou a calça jeans e abriu seus braços convidando-o a se aconchegar entre eles. Jack aceitou o convite silencioso, estava exausto e só queria dormir, deitou-se com Kate na cama e aninhou a cabeça nos seios dela enquanto ela lhe fazia carinhos nos cabelos castanhos que tinham crescido muito durante todo o tempo em que estavam na ilha.

- Sabe no que eu estou pensando agora?- ele indagou em tom de segredo.

- Não faço idéia.- Kate gracejou.

- Estava pensando no quanto eu quero que o tempo passe bem rápido e você se recupere logo do parto e tudo o mais para ficarmos juntinhos na cama, fazendo amor a noite inteira.

- Oh!- Kate exclamou dando um tapinha de brincadeira no braço musculoso e tatuado dele. – Jack Shephard, pode esquecer, não vamos fazer amor tão cedo.

- Como é?- ele ergueu a cabeça do seio dela momentaneamente. – Você não pode estar falando sério.

- Eu estou sim.- ela respondeu ainda gracejando. – Não vai fazer outro filho em mim tão rápido.

Ele curvou o lábio num sorriso divertido e em seguida beijou-a delicadamente na boca para depois voltar a deitar a cabeça nos seios macios despontando sobre a camiseta branca.

- Vamos dormir amor.- murmurou. – Em momento mais oportuno vamos ver se você vai resistir ao meu charme.

Kate riu baixinho e fechou os olhos tentando adormecer antes que Lilly resolvesse acordar faminta, abrindo o berreiro.

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- Agora vai ficar assim calado, brotha?- esbravejou Desmond cutucando as costas de Mikail com o cano da arma enquanto o grupo caminhava com dificuldade pela floresta escura.

- Só falo na presença do meu advogado.- debochou Mikail o que lhe rendeu um safanão de Paulo.

- Seu idiota, acha que estamos com pena de você?- o brasileiro indagou vendo Mikail equilibrando-se para não se estabacar no chão depois do empurrão que levara. – Lógico que não, você é um sádico, matou a sangue frio aquela mulher que fazia parte do seu grupo.

Dessa vez Mikail ficou calado limitando-se em seguir em frente com o único pensamento de que a arma de Desmond poderia matá-lo caso ele cometesse algum deslize. Sayid também estava quieto perdido em seus próprios pensamentos, recordando o passado.

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(Flashback)

Sayid já estava se encontrando com Samira há cerca de três semanas, estava completamente envolvido, intoxicado pela bela mulher do comerciante. Já não pensava em mais nada, apenas na candura do olhar dela, no corpo luxuriante, nos momentos roubados de prazer no quarto dela todas as tardes.

Arquimed o estava odiando por isso e os dois mal se falavam. A mãe de Sayid notara uma certa animosidade entre os dois amigos, mas ambos juravam que nada de errado estava acontecendo. O romance entre Sayid e Samira mudara completamente a vida do jovem de 15 anos. De uma hora para outra, ele passou a ser muito solicitado em todos os lugares e passou a ser o queridinho das mulheres, ganhando olhares fortuitos mesmo debaixo dos véus cada vez que passava diante de uma delas. Arquimed passou a sentir ódio e inveja de Sayid e certa vez quando o vira pulando o muro mais uma tarde para se encontrar com Samira ele resolveu fazer uma coisa que poria fim ao romance dos dois mas que poria a vida de Sayid em perigo.

Entretanto, sua raiva era tanta que ele não raciocinou dessa forma e sem pensar duas vezes correu para o comércio do velho Mustafah e denunciou o amigo. A coisa que Mustafah mais temia na vida era ser traído, por isso mantilha a mulher trancada em casa a sete chaves. Assim que ouviu todo o relato de Arquimed correu à sua casa e flagrou os dois tomando banho juntos na fonte. Cego pela cólera o velho esbravejou tomando os dois de susto:

- Infames, em nome de Alá que desfrute é esse?

Tremendo, Samira apressou-se em sair da fonte e sua criada correu a levar-lhe o robe de seda. Chorando ela começou a gritar:

- Oh Mustafah, que bom que está aqui! Esse ser vil me seduziu e me obrigou a fazer isso. Eu não queria porque te amo demais.

Sayid não estava acreditando nas palavras dela e sentindo-se humilhado por ter sido pego em flagrante e por estar quase nu dentro da fonte sendo acusado injustamente ousou dizer:

- Senhor Mustafah, sua esposa está mentindo. Ela quis isso tanto quanto eu!- afirmou.

Mas isso apenas serviu para aumentar ainda mais a raiva do velho comerciante, que bradou a plenos pulmões:

- Que a ira de Alá recaia sobre você, e persiga sua alma até a eternidade, queimando no mármore do inferno.

Ele fez um sinal para que dois empregados seus pegassem Sayid e o algemassem.

- Levem esse salafrário para a prisão, será enforcado em três dias.

Foi nesse momento que Arquimed se deu conta do que fez, mas não podia mudar as coisas, havia traído o próprio amigo e agora Sayid seria enforcado. Existiria um jeito de mudar essa situação a tempo?

(Fim do Flashback)

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Uma única nesga de luz entrando por uma fresta entre as tábuas da velha casa de barco era o único sinal que denunciava o alvorecer de um novo dia. Suzane esfregou os olhos se espreguiçando, depois de ser agarrada e acariciada pelo desconhecido de quem cuidava havia adormecido pensando na loucura que fizera. O nome Sawyer ainda ecoava em sua mente, evocando sensações familiares.

Levantou-se do chão e viu que ele ainda dormia pesadamente, provavelmente exausto do esforço que fizera para agarrá-la. Um arrepio involuntário transpassou-lhe o corpo ao se lembrar do que quase tinha acontecido e um pequeno sorriso escapou do canto de seus lábios. Havia gostado muito de ser tocada pelo estranho, de sentir o corpo dele sobre o dela e das carícias que ele havia feito. Pegou-se imaginando se ele a tocaria outra vez quando fossem viver no acampamento dele. Mas logo em seguida repreendeu a si mesma por tal pensamento indecoroso, afinal, o mais provável era que o desconhecido estivesse sonhando e a agarrara pensando estar com outra mulher, Ana-Lucia. Quem seria ela? A mulher capaz de despertar tanto desejo nesse homem fazendo com que agarrasse uma desconhecida imaginando ser ela.

Estava com muita sede, por isso bebeu um pouco de água da garrafinha que Alex trouxera. Fazia isso quando o viu remexer-se na cama e esfregar os olhos. Seu coração saltou dentro do peito, teria acordado finalmente?

Temerosa, Suzane se aproximou do homem que abriu os olhos azuis no instante em que ela se sentara ao lado dele.

- Como se sente?- ela arriscou indagar.

- Ana!- ele exclamou estupefato. – Então não foi um sonho afinal, você está aqui.- seu corpo tremia de emoção e seus olhos marejaram de lágrimas. Sua amada não estava morta, nem tudo estava perdido.

Nos últimos cinco meses a única coisa que dominou os pensamentos de Sawyer era como seria se pudesse ter Ana-Lucia de novo diante de si, viva. Passava horas fantasiando sozinho em sua cama tal reencontro. Ele a veria de longe, e ela correria de imediato para os braços dele, sorrindo. Jamais imaginou que seria daquela forma. Ana-Lucia, o seu amor, olhava para ele agora como se fosse um completo estranho. Sentindo o coração mortificado, Sawyer indagou:

- Ana, o que há com você, por que está me olhando assim?- estava muito fraco e tentou levantar-se, mas não conseguiu.

- Você ainda está muito fraco, James.- ela forçou-se a dizer, tentando ignorar os olhares angustiados dele junto com a insistência em chamá-la de Ana. – Precisa descansar, por favor! Olha, aqui tem sopa se estiver com fome.

- Onde é que eu estou e onde estão as minhas roupas?- ele indagou percebendo que já não estava com as roupas que usava antes.

- As que você estava usando estão muito sujas, então as troquei por outras.- ela estendeu a ele as roupas dobradas.

Sawyer aproveitou que ela se aproximava para entregar as roupas a ele, juntou todas as forças que ainda tinha e puxou-a pelo braço num movimento rápido, jogando-a no chão e pressionando o corpo dela com seu corpo. Ana-Lucia gritou e se debateu como na noite anterior, mas dessa vez Sawyer não estava num transe e tomá-la a força nem passava por sua cabeça, apenas queria que ela parasse, olhasse para ele e dissesse o que raios estava acontecendo.

- Ana-Lucia Cortez.- ele pronunciou cada palavra do nome dela pausadamente. – O que fizeram com você? Eu passei os últimos cinco terríveis meses pensando que estivesse morta e agora que te encontro você simplesmente age como se não me conhecesse.

- Por que não o conheço.- ela respondeu arfante. – Ou pelo menos acho que não, minha cabeça está uma confusão só desde que perdi a memória. Talvez eu conheça o senhor, embora não possa me lembrar. Mas se deseja esclarecer isso comigo, por favor, me solte, está me assustando desse jeito.

Sawyer piscou os olhos, incrédulo com a resposta dela. Que linguagem culta e delicada era aquela que Ana falava, definitivamente não combinava nada com ela. Sua Ana parecia um coelhinho assustado em seus braços, com medo de ser devorada por um predador, nem de longe lembrava a Ana-Lucia confiante, incisiva e marrenta que conhecera, que fora capaz de espancá-lo muitas vezes só porque ele ousou desobedecer suas ordens.

- Me solte, por favor!- ela voltou a pedir.

Ele o fez, ainda que a contragosto. Ana-Lucia saiu de perto dele e agora além do olhar duvidoso o encarava com receio.

- Deus Ana, o que há com você? Que história é essa de perda de memória?

- Pare de me chamar assim! Meu nome não é Ana.- ela bradou. – Eu me chamo Suzane Linus.

Sawyer balançou a cabeça negativamente.

- Mas nem que você tivesse uma irmã gêmea. Que história é essa de Suzane Linus? Você é Ana-Lucia Cortez, mãe do meu filho.

- Seu filho?- ela arqueou a sobrancelha, assustada. – Isso é impossível, é absurdo!

- Por que seria absurdo se você alega estar sem memória? O que foi que te contaram?

- Que houve uma contaminação em massa nessa ilha, e que por isso nós ficamos presos. Muitos morreram, mas eu escapei e perdi a memória. O meu marido disse que...

- Seu marido?- Sawyer bradou. – Mesmo não tendo me casado com você pelos canais oficiais, eu sou o seu marido nessa droga de ilha desde que nós resolvemos juntar os trapinhos há mais de um ano. Você ficou grávida do nosso filho e me seqüestraram, esses que mentem para você. Depois que você deu à luz pegaram você e o James...

- Como sabe sobre o James? Por acaso é inimigo de meu marido e quer me confundir?

- Eu sou o pai do James, Ana-Lucia e você é o meu amor, minha amiga, amante e companheira nesta ilha, por favor, pare de me torturar dizendo que não se lembra de mim porque eu passei o diabo esses últimos meses longe de você.- uma lágrima rolou dos olhos dele e Suzane sentiu o peito apertar. Estaria aquele homem lhe dizendo a verdade e ela teria vivido os últimos meses mergulhada em mentiras?

- Eu, eu preciso de espaço, preciso pensar, se tudo é verdade como diz...

Sawyer passou as mãos pelos cabelos loiros, visivelmente nervoso e murmurou sem saber mais o que dizer para convencê-la.

- Eu te amo baby, senti tanto a sua falta, você tem que se lembrar...

Ele parecia muito sincero, e ela resolveu baixar a guarda embora ainda tivesse muitas dúvidas. Aproximou-se devagar, temerosa. Sentou-se ao lado dele e deixou que ele a abraçasse bem forte.

- Eu ficava imaginando isso todos os dias, como seria tê-la de volta em meus braços, ouvir o som da sua respiração, sentir o seu cheiro...

A cabeça de Suzane estava rodando, e ela sentia náuseas na boca do estômago. O coração batia tão forte que Sawyer podia ouvir os ruídos em meio ao silêncio que se fez no ambiente misturando com as batidas do seu próprio coração, saltando dentro do peito. Ele emaranhou os dedos nos caracóis negros dos cabelos dela e aspirou o perfume das madeixas. Uma sensação de felicidade percorreu seu corpo inteiro, como se uma droga viciante tivesse acabado de ser injetada em suas veias.

- Meu amor, você irá voltar comigo pro acampamento.- ele disse. – Nós vamos encontrar o James e...

- O James está comigo.- ela respondeu, ainda confusa porque não conseguia se lembrar de nada, embora o cheiro do corpo dele e o calor de seus braços trouxessem a ela uma sensação de segurança, confiança e paz que jamais sentira com seu marido.

- Nosso bebê está com você?- Sawyer indagou com um sorriso. – Deus, como ele está? Deve ter crescido, eu queria vê-lo, chica, queria muito vê-lo.

Ela se afastou dele.

- Eu queria tanto acreditar em você. Minha vida tem sido tão nebulosa desde a contaminação.

- Ana, não existiu contaminação nenhuma! Ouça o que está dizendo. Você disse se chamar Suzane Linus, não foi?

Suzane assentiu.

- Eu só conheço um ser desprezível com esse sobrenome: Benjamin Linus! Esse desgraçado "son of a bitch" roubou você e o meu filho de mim, e criou toda essa história pra que você não fugisse dele para ir atrás de mim, mas eu tenho certeza que no fundo você sabe que estou falando a verdade, Rambina.

- Rambina?- ela repetiu para si mesma, a palavra trazendo uma sensação de familiaridade muito forte.

Sawyer acariciou o queixo dela. Seus olhos azuis brilhando de saudade. Suzane ficou quieta e deixou que ele a abraçasse novamente. Mas não passou disso, sabia o quanto ela deveria estar confusa pois se realmente soubesse quem era não estaria agindo assim com ele, com tanto receio.

- Ontem...- ela começou a dizer e Sawyer prestou muita atenção. – ...você...me beijou enquanto dormia, estava num estado de semi-consciência.

Ele alargou os olhos: - O quê?

Suzane mordeu o lábio inferior: - Você me agarrou, me beijou e por pouco não me tomou à força.

Sawyer ficou assustado com as palavras dela, não acreditou que tivesse feito isso.

- Me desculpe...- ele começou a dizer, mas Ana o calou com um dedo em seus lábios.

- Não sei se tudo o que está me dizendo é verdade, mas...minha vida é um inferno, não amo o meu marido e meu maior desejo é ir embora deste lugar. Se me ajudar, farei o que quiser, serei sua mulher...

Sawyer podia sentir o desespero nas palavras dela ao fazer tal proposta. O que Benjamin Linus teria feito com sua Ana para deixá-la tão sem forças. Isso aumentou ainda mais o ódio que ele sentia pelos Outros e seu desprezível líder.

- O que me diz?- ela indagou esperançosa. – Vai me ajudar a fugir daqui com o meu filho?

Ele assentiu e acariciou o rosto dela com adoração.

- Posso beijá-la?

- Sim.- respondeu ela. – Eu disse que faria o que você quiser.- ela fez menção de baixar a alça do vestido, mas Sawyer segurou a alça no lugar e beijou o ombro dela com carinho.

- Não. Eu só quero te beijar. Faremos amor quando você se lembrar de tudo, de quem eu sou, de quem você é! De que sou seu e você é minha!

Tomou o rosto dela entre as mãos e beijou-a, perdendo-se na umidade e maciez dos lábios que lhe pertenciam, até que o ar lhes faltasse, até que sufocassem de tanto ardor e paixão.

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- "Eu vi um sapo-po, na beira do rio, rio-rio...tomando banho-nho, com muito frio, frio-frio...não era sapo-po, nem perereca-ca, era o James só de cueca!"- cantarolava Alex, brincando com o pequeno James enquanto dava banho nele em uma bacia. O bebê ria e batia as mãozinhas na água, fazendo a maior bagunça. – Oh sim, seu pequeno bagunceiro, você gosta disso, não gosta?

- Babababababa!- balbuciava James mordendo o patinho de borracha.

Ben entrou em casa com uma expressão mal-humorada, seguido por Tom e Richard. Ao ver Alex dando banho em James no quintal, foi até lá, indagando sem muita paciência:

- Onde está a Suzane?

- Ela foi até o estábulo ordenhar a vaca.- respondeu Alex, sem pensar duas vezes.

- E porque ela não mandou Maryanne ou a Cindy fazer isso? Ela sabe que não gosto que ela saia de casa sem motivo, como minha esposa ela está autorizada a dar ordens para as outras mulheres.

Alex deu de ombros.

- Eu não sei, ela me disse que precisava respirar ar puro.

- E não levou o garoto? Isso é muito estranho!

- Oh James, esqueci a sua toalha!- disse Alex, tirando o menino da água. – Pai, você pode segurá-lo enquanto eu vou buscar a toalha, por favor?

- È claro.- respondeu Ben pegando o bebê dos braços dela. O menino arregalou seus olhos azuis para ele e fez cara de choro.

- È chefe, parece que o filho do Ford não gosta mesmo de você.- falou Tom, debochando.

Irritado, Benjamin respondeu: - Ora Tom, não seja idiota, ele é só um bebê, não entende nada ainda.

Como se estivesse disposto a contrariar Benjamin, o pequeno James lançou um jato de xixi rumo à camisa dele.

- Ora, seu fedelhozinho!- bradou Ben quando Alex vinha chegando com a toalha.

- Mas o que foi, pai?

- Esse moleque fez xixi em mim.

Alex e Tom não contiveram o riso: - Desculpe, papai. Esqueci de lhe dizer para tomar cuidado com isso.

Benjamin entregou o bebê de volta para Alex e disse a Richard e Tom:

- Eu vou trocar de camisa e depois vamos atrás da Suzane.

- E a reunião?- indagou Richard.

- Só mais tarde, depois que eu "lavar a roupa suja" aqui de casa.

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- Dionna, pode me passar o cereal, por favor?- pediu Steve, educadamente à mesa do café da manhã na comunidade.

Ela franziu o cenho e negou:

- Infelizmente não posso, essa é a última caixa de cereal e só tem um restinho.

- Então divida comigo.- ele pediu.

- Não mesmo.- ela enfatizou.

Mas Steve não estava com paciência para o egoísmo de Dionna.

- Acho melhor você me dar logo isso.

- Nem pensar! Sem chance!- Dionna afirmou despejando todo o restante do cereal em sua tigela de leite.

Irritado, Steve partiu pra cima dela e os dois começaram a brigar e se estapear. Assustadas, as crianças que também comiam na mesa se afastaram.

- Vocês enlouqueceram?- bradou a Sra. Lewis com a colher de pau na mão.

- Hey, parem com isso!- ordenou Libby se aproximando da confusão.

- Larga ele Dionna!- gritou Debbie se metendo na briga e puxando os cabelos loiros de Dionna, que praticamente se engalfinhava com Steve.

A coisa foi ficando cada vez mais séria e ninguém conseguia separar os dois. Aflita, Libby indagou: - Onde está o Mr. Eko?

- Eu não o vejo desde ontem à noite.- comentou Sun. – E eu não sei onde o Jin está, ele saiu muito cedo dizendo que ia pescar na outra praia com o Charlie, Hurley e o Craig.

- Parem, parem com isso agora mesmo!- ordenou Bernard, mas nesse exato momento, em meio à sua fúria desmedida, Steve sacou uma faca da bainha da calça jeans para ferir Dionna e quando Bernard se meteu entre os dois para intervir acabou levando uma facada e caiu no chão, cuspindo sangue.

Desesperada, Rose gritou e se abaixou sobre o corpo ensangüentado do marido. Steve largou a faca no chão parecendo se dar conta do que tinha feito. Sun entregou Jung para Libby e saiu correndo para a casa de Jack. Ele brincava com a filha, sentado na areia à porta de sua casa quando a coreana chegou gritando:

- Jack, Jack!

- O que houve?- indagou ele diante da expressão alarmada dela.

- O Steve esfaqueou o Bernard, você precisa vir logo!

- Kate!- Jack gritou.

Ela veio correndo, estava estendendo fraldas no varal improvisado ao lado da casa.

- Pegue a Lilly! Eu preciso ir ver o Bernard!

- O que aconteceu com ele?- questionou ela pegando a filha no colo.

- Ele foi esfaqueado.- respondeu Jack entrando na casa para pegar sua maleta de primeiros socorros e seguiu Sun para a cozinha da praia em seguida.

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Benjamin Linus caminhava pela vila soltando chispas de ódio, estava procurando Suzane há cerca de meia hora desde que deixara sua casa e nada dela aparecer. Perguntava-se internamente se ela não teria se lembrado de tudo e fugido da vila, isso significaria o fim do projeto 2342.

Mas não fazia sentido, Ana-Lucia não iria embora sem seu filho, disso ele tinha certeza, por isso continuava procurando, ela tinha que estar em algum lugar. Havia se separado de Tom e Richard para que cada um procurasse num canto, porém, ao final de meia hora os três se encontraram na praça principal, sem nenhuma notícia dela. Furioso, Ben esbravejou:

- Assim que eu encontrá-la irei matá-la, não terei piedade.

- Chefe.- disse Tom.

- O que é?- indagou Benjamin sem paciência.

- Só tem um lugar onde a gente ainda não procurou.

- E que lugar seria esse?

- A casa de barco.

- E por que ela estaria lá?

- Não custa nada olhar.- disse Richard e os três se dirigiram para lá.

Já iam abrir a porta quando Suzane surgiu atrás deles.

- O que estão procurando aí?

- Você!- Benjamin reclamou, dando as costas para a casa de barco.- Por onde esteve?- ele segurou o braço dela com força.

Sawyer observava tudo de dentro do depósito por uma fresta na madeira. Queria sair de lá e esmurrar a cara de Benjamin até ele se desfazer em sangue, no entanto não podia ser descoberto, ainda estava fraco, se recuperando do veneno do escorpião, se fosse descoberto agora, estaria em grande perigo. Respirou fundo tentando conter a própria raiva enquanto assistia seu inimigo machucando o braço de sua mulher.

- Eu estava dando uma volta.- ela se justificou.

- Nunca mais saia sem dizer aonde vai.- ele gritou. – Ou vai se arrepender, vamos pra casa!- Ben saiu arrastando-a pelo braço seguido por Tom e Richard. Este último ainda sentiu uma ligeira vontade de checar a pequena casa de madeir, mas ao ver que Ben já ia mais a frente com Tom, desistiu da idéia e seguiu em frente.

Quando chegaram a casa, ele a arrastou para o quarto e ordenou a Tom e Richard que o esperassem na sala. Alex estava na cozinha com James, e o bebê ao ver sua mãe bateu palminhas e deu risadinhas chamando-a.

- Mamamamama...

- Oi meu amor.- ela disse doce.

- Depois!- disse Benjamin com firmeza.

- Eu preciso cuidar do meu filho, ele ainda não mamou hoje.

- Se quisesse mesmo cuidar dele não deveria ter saído, agora cale a boca e vamos para o quarto.

James fez beicinho ao ver que a mãe se afastava e sentido encostou o rostinho no peito de Alex e começou a chorar.

- Sinto muito querido, eu sinto muito.- ela sussurrou baixinho para o bebê. – Mas não se preocupe, seu papai vai tirar você e a sua mamãe daqui.

Dentro do quarto, Benjamin jogou Suzane na cama e tirou uma caixinha comprida do bolso da calça.

- Está vendo isso?- ele abriu a caixinha, era um lindo colar de pérolas. – Como eu sou um bom marido encomendei esse colar pra você enquanto ainda estava na descontaminação. Pérola por pérola foi tirada de dentro do mar. Eu estou sempre pensando em você querida, mas você é sempre tão ingrata.

Ele sentou ao lado dela e Suzane achou que fosse apanhar, mas ao invés disso, ele tirou o colar da caixinha e mandou que ela suspendesse os longos cabelos negros. Pôs o colar no pescoço dela e começou a distribuir beijinhos por seus ombros. Suzane fechou os olhos, não queria que ele a tocasse, mas o que podia fazer. A mão dele deslizou para dentro do vestido dela e apalpou seus seios. Ele reclamou ao sentir a pele grudenta por causa do leite.

- È por isso que acho que já é hora do James parar de mamar e o seu corpo voltar a ser só meu!

- Desgraçado!- Suzane gritou sem conseguir conter seu ódio. – Você é nojento! Odeio você! Odeio quando me toca! Prefiro morrer do que fazer sexo com você outra vez.

- Cuidado com o que deseja!- disse ele friamente antes de estapeá-la com força, forçando-a deitar na cama.

- Não! Não! Não!- ela gritou.

Alex podia ouvir os gritos dela, mas sabia que nada podia fazer para impedir aquela violência, não naquele momento. Ana-Lucia tinha que fugir com Sawyer assim que ele estivesse recuperado ou seu pai a mataria.

Dentro do quarto, Ana-Lucia estava rouca de tanto gritar. Ninguém se importava com ela naquele lugar, nas coisas terríveis que tinha de passar. Enquanto aquele homem perverso e vil que dizia ser seu marido a estuprava ela pensava em James Ford, ele tinha que salvá-la daquele inferno. De qualquer jeito!

Quando tudo terminou, ela soluçava e tremia na cama. Benjamin vestiu-se e antes de sair, acariciou o rosto cheio de lágrimas dela e nada disse deixando o quarto.

Ana sentou na cama ainda tremendo descontroladamente e ouviu Benjamin conversando com Tom na sala.

- Ben, chegou uma mensagem urgente do Espelho. È melhor você vir!

Ben voltou ao quarto novamente e Suzane se cobriu depressa, com medo de ser violentada de novo, seu corpo estava dolorido, porém mais do que o corpo, sua alma se encontrava debilitada.

- Ainda está chorando? Pare com isso! As coisas aconteceram dessa maneira porque você quis, se não tentasse me desafiar o tempo todo! Mais tarde quando eu voltar é bom que esteja em casa, limpa e perfumada pra mim.- ele deu um cheiro no pescoço dela e Suzane se encolheu. – Se eu não confiasse tanto na sua fidelidade diria que passou a noite com outro homem, está com um cheiro diferente, vá tomar um banho Ana-Lucia.

Ao ouvi-lo chamá-la daquele jeito o coração de Suzane diminuiu uma batida.

- Do que você me chamou?

- Me desculpe, eu ando com a cabeça meio embaralhada por causa do trabalho e das coisas que você tem feito pra mim, é melhor se comportar essa noite, Suzane.

Ele deixou o quarto e as lágrimas dela aumentaram porque acabara de se lembrar de que esse era realmente o seu nome: Ana-Lucia! Saboreou as letras e uma doce lembrança veio à sua cabeça. Viu sua mãe arrumando seu vestido para a festa de formatura do segundo grau, diante do espelho, enquanto ela nervosa esperava por seu par.

- Está linda Ana-Lucia, linda hija!

- Mama, que saudade!- murmurou chorando enquanto em sua mente ecoava a voz de sua mãe repetindo: Ana-Lucia...Ana-Lucia...

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O sangue não parava de jorrar do ferimento no abdômen de Bernard. Rose segurava um terço, rezando silenciosamente enquanto Jack tentava conter o sangramento. Estavam na enfermaria da praia, Kate não pôde ajudar Jack a cuidar de Bernard porque tinha de ficar com Lilly, a menina apesar de só ter alguns dias de nascida mostrara-se muito geniosa, recusando-se através de berros a sair do colo de sua mãe.

Enquanto Jack trabalhava na enfermaria, Eko levara Steve e Dionna para a igreja disposto a passar-lhes um bom sermão para repensarem suas ações.

- Será que ele vai ficar bem?- indagou Sun a Kate com Jung no colo, olhando para a enfermaria.

Kate ajeitou Lilly em seus braços, encostando a cabecinha da menina em seu ombro, segurando-a pelo bumbum coberto com uma fralda improvisada.

- Eu espero que sim Sun, não entendo o que deu no Steve.

- Foi um acidente.- acrescentou Claire se aproximando das duas. – As pessoas andam estressadas por aqui com medo que falte comida, não recebemos mais os carregamentos.

- Mesmo assim isso não é motivo para ninguém se esfaquear.- disse a Sra. Lewis com as mãos no peito.

- Eu não questiono os motivos de ninguém.- disse Kate olhando para Juliet à porta de sua casa.- Com licença.- pediu se afastando em direção à casa da médica.

- Olá Kate!- disse Juliet ao vê-la. – Algo em que eu possa te ajudar?

- Precisamos ter uma boa conversa, de mulher para mulher.- disse Kate com determinação.

- Mas é claro, entre por favor.- falou Juliet, dando espaço para que Kate entrasse em sua casa.

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A tarde caía outra vez na floresta, e o grupo liderado por Sayid caminhava pela mata de volta ao acampamento. No meio do caminho, o iraquiano parou fazendo com que seus prisioneiros parassem também.

- O que foi, brotha?- questionou Desmond.

- Acho que esse é o ponto onde nos separamos.

- Como assim?- indagou Desmond sem entender.

- Precisamos encontrar o Locke e o Sawyer, não quero chegar ao nosso acampamento faltando dois dos nossos. Você deve voltar com o grupo, enquanto eu sigo com o prisioneiro para o acampamento "Deles".

- Mas vai sozinho com ele? Sinceramente não confio, brotha!

- Não confia em mim?- retorquiu Sayid.

- Não irmão, eu não confio nele!- afirmou Desmond.

- Eu posso levar o grupo de volta.- ofereceu-se Paulo.

- Acha que consegue encontrar o caminho?- indagou Sayid.

- Bom, essa ilha é o nosso lar agora não é? Não deve ser tão difícil assim!- falou o brasileiro.

Desmond e Sayid assentiram e o grupo se despediu, afastando-se. Porém, antes que Paulo estivesse muito longe, Sayid gritou:

- Paulo, diga a Shannon que a amo e logo voltarei para ela!

Paulo assentiu com um sorriso e junto com Nikki e Philip tomou o rumo do acampamento. Sayid e Desmond seguiram em frente. Uns quarenta minutos de caminhada depois foram surpreendidos por John Locke saindo do meio das árvores com Danielle Rosseau.

- John!- exclamou Sayid. – Como conseguiu escapar?

- È uma longa história.- respondeu ele com um sorriso de orelha a orelha. – Conto pra vocês depois, agora eu e a Rosseau temos uma coisa para mostrar-lhes.

Desmond e Sayid os seguiram arrastando Mikail Bakunin consigo e chegaram até um enorme perímetro todo demarcado com um estranho tipo de cerca elétrica.

- O que é isso, brotha?- indagou Desmond.

- Isto é a passagem para descobrirmos finalmente todos os segredos dessa ilha.- os olhos de Locke brilharam ao dizer aquilo e os olhos de Sayid perderam-se no horizonte imaginando se aquele finalmente era o caminho para serem resgatados daquele lugar. Inevitavelmente, lembranças invadiram seus pensamentos para a resolução de como se viu livre da forca por ter se envolvido com a bela esposa de Mustafah quando ainda era um adolescente.

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(Flashback)

O cheiro da prisão era pútrido e ele sentia muita fome e sede, mas não iria chorar, aceitaria seu destino com bravura como seus pais lhe ensinaram. Só lamentava ter sido traído por seu melhor amigo. Estava quieto de olhos fechados, conformado com seu destino quando ouviu passos vindo em direção à sua cela. Seria o seu algoz? Instintivamente tremeu nas bases.

Mas não era o seu algoz e sim Arquimed e seu tio, que Sayid havia se esquecido era um dos carcereiros da prisão.

- Sayid, meu filho, venha agora mesmo!- pediu o homem de meia idade destrancando a cela.

Muito fraco, Sayid deixou o cubículo e seguiu o homem sem trocar nenhuma palavra com Arquimed. Ao se ver livre, Sayid recebeu das mãos do tio de Arquimed um cavalo e disse.

- Agora vá garoto e cumpra seu destino.

Sayid subiu no cavalo, mas naquele momento ao olhar para o horizonte que o esperava, choramingou de medo, era só um garoto de quinze anos e não queria se separar de sua família.

- Não quero ir embora senhor, não quero ir para longe.

- Sayid, longe é um lugar que não existe. Vivemos no mesmo planeta e fica impossível se perder, lembre-se sempre disso aonde quer que esteja por mais longe e ermo que possa parecer. Agora vá, siga o horizonte até o sol baixar e quando chegar ao fim da estrada fale com um homem chamado Abdul e se aliste na Guarda Republicana do Iraque.

- Está bem.- respondeu ele, triste. – Adeus e obrigado por tudo.

- Adeus não Sayid, até logo!

- Até logo!- respondeu ele e partiu a galope dando um último olhar para Arquimed.

(Fim do Flashback)

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- Longe é um lugar que não existe!- Sayid murmurou consigo.

- O que você disse, brotha?- indagou Desmond.

- Que não existe um lugar totalmente desconhecido do mundo, deve haver algo na vila dos Outros que possa conseguir comunicação com o mundo exterior. Hora de deixarmos esse lugar, irmão!

LOST

Continua no próximo episódio