O Mágico de Oz parte II

- Como isso é possível?- indagou Cassidy a Kate com o semblante transtornado.

Depois que Jack a salvara de morrer afogada e ela acordara na praia, Kate a levou para sua casa e depois de servir-lhe uma refeição simples composta de um prato de sopa e algumas mangas as duas foram se sentar em frente à casa e conversar.

- Eu também não faço idéia.- respondeu Kate à indagação dela de como seria possível que ela tivesse ido parar naquela ilha.

- Há quanto tempo está aqui?- Cassidy perguntou.

Kate respirou fundo, sabia o número exato de dias que já estava naquela ilha, mas limitou-se a responder: - 2 anos. Nosso avião caiu aqui e por um milagre ou sei lá o quê nós sobrevivemos e aprendemos a viver aqui, fundamos essa pequena comunidade e seguimos com nossas vidas, já não acreditamos mais na possibilidade de um resgate.

Cassidy balançou a cabeça negativamente:

- Isso não pode ser Kate!

- O que não pode ser?- indagou Kate.

- O vôo de que você fala, o 815 da Oceanic Airlines, caiu há dois anos mas foi encontrado próximo à costa da Austrália, todos morreram, inclusive o pai da minha filha que estava nesse vôo!

- Como é? Não, isso é impossível, estamos todos vivos vivendo aqui nessa ilha há dois anos!- ela parou de falar por um momento, em seguida continuou: - Eu me lembro quando você me contou que estava grávida de um homem que havia lhe aplicado um golpe. Esse homem estava no vôo 815?- perguntou temendo pela resposta, o único golpista de marca maior que havia conhecido naquela ilha era Sawyer, seria ele o pai da filha de Cassidy? Não, era coincidência demais.

- Sim, o pai de minha filha estava naquele vôo.- ela confirmou. – Assim como minha sobrinha, Deborah. Ela ligou para a mãe antes de pegar o vôo...e nesse mesmo dia, o pai da minha menina também ligou pra mim dizendo que tinha se envolvido em uma confusão em Sidney e que havia sido deportado do país. Fiquei feliz que ele estava voltando para mim, antes dele ir para a Austrália foi me ver, conheceu sua filha e prometeu que iríamos recomeçar juntos como uma família.

- Deus, é coisa demais pra minha cabeça! Cassidy, qual é o sobrenome da sua sobrinha?

- Philips, ela se chamava Deborah Philips!

- Oh meu Deus Cassie, sua sobrinha não está morta! Estou dizendo a você que somos os sobreviventes do vôo 815 da Oceanic, não podem ter encontrado nosso avião, porque nós estamos aqui, no início éramos 48, mas esse número diminuiu nos últimos dois anos.

Os olhos verdes de Cassidy se arregalaram em surpresa.

- Se minha sobrinha Debbie está viva, isso significa que o pai de Clementine...

- Exatamente, existe a possibilidade de que ele esteja aqui. Como ele se chama?

- James Ford.- respondeu Cassidy sem pestanejar. – Mas eu o conhecia como Sawyer.

Dessa vez foram os olhos de Kate que se arregalaram, então ela deduzira certo, Sawyer era o golpista que enganara Cassidy e pai da filha dela. Aquilo não podia ser mais absurdo.

- Você sabe onde eles estão Kate? Debbie e Sawyer?- indagou Cassidy, pálida de ansiedade, seria mesmo possível que seu grande amor e sua sobrinha estivessem ali?

- Cassie, me conte de novo como foi que você veio parar aqui.- pediu Kate, sem responder à pergunta dela.

- Eu já disse, estava dirigindo, com minha filha no banco de trás e de repente acordo aqui sem ela. Me diga Kate, Debbie e Sawyer estão aqui?- os olhos verdes dela imploravam por uma resposta.

Kate respirou fundo e respondeu:

- Debbie deve estar na casa da Rose, ela mora com ela e seu marido Bernard, eles a tratam como filha. Mas Sawyer, ele foi embora do acampamento há alguns dias.

- Embora? Como assim? Você acabou de me dizer que estamos em uma ilha e que vocês vivem todos juntos há dois anos nessa comunidade. Aonde ele poderia ter ido? Por que resolveria ir viver sozinho na floresta?- ela estava muito confusa e em seu íntimo indagava se tudo o que estava acontecendo não passava de um sonho bizarro e que logo ela acordaria em sua cama sem maiores conseqüências.

- Ele foi embora atrás da mulher e do filho dele.- Kate respondeu por fim.

- Mulher e filho?

- Sim Cassidy, estamos há muito tempo aqui e a vida continua, você sabe, eu estou vivendo com o Jack, o médico que cuidou de você e há pouco mais de uma semana tivemos uma filha, Lilly. O Sawyer, ele se envolveu com Ana-Lucia, uma policial que também fazia parte de nossa comunidade, eles tiveram um menino.

- Como assim ela fazia parte? Kate, estou ficando cada vez mais confusa. O que é isso? Um pesadelo?

- Oh Cassie, é uma longa história, mas no momento só posso lhe dizer que não somos os únicos nessa ilha.

Cassidy se levantou e começou a andar de um lado para o outro.

- Eu estava indo até Talahasee passar alguns dias com minha mãe, Clemen estava no banco de trás presa com o cinto de segurança, estávamos brincando de fazer adivinhações e de repente estou me afogando no mar? Onde está minha filha? Como é possível isso?- ela voltou a fazer a pergunta que dera início a toda àquela conversação.

De repente, a chegada de Jack com Lilly chorando em seus braços, acompanhado por uma mulher loira de semblante calmo e uma adolescente com olhar atordoado chamou a atenção de Cassidy.

- Debbie...- ela murmurou emocionada. – Pensei que estivesse morta.

- Tia Cassie.- gritou Debbie se atirando nos braços dela, chorando convulsivamente. – Eu pensei que nunca mais fosse ver você, não tem idéia das coisas horríveis que tenho passado nessa ilha.

Kate ergueu uma sobrancelha e por um momento sentiu vontade de contar à Cassidy que Debbie era a culpada por Sawyer não estar ali naquele momento, mas ficou calada, assistindo à cena impassível, assim como Juliet. As duas se entreolharam e Juliet lançou-lhe um olhar desafiador, as duas tinham se prometido fazer uma trégua pelo bem da comunidade e em prol de conseguirem ir embora daquela ilha.

- Kate, pegue a Lilly, acho que ela está com fome!- disse Jack.

- Oh mãezinha, vem aqui bebê!- disse Kate, tomando a filha nos braços e acalentando-a. – Está faminta não está? Mamãe vai te dar de mamar!

Kate entrou na casa e Debbie puxou Cassidy pela mão para levá-la até a casa de Rose com o intuito de apresentá-la à mulher que vinha cuidando dela nos últimos dois anos como se fosse sua mãe.

Jack ficou sozinho com Juliet na porta da casa e indagou à médica:

- O que acha disso agora que viu com seus próprios olhos?

- Eu realmente não a conheço, jamais a vi na Vila ou em alguma das Estações Dharma.

- Kate diz que a conhece.

- Por isso mesmo preciso conversar com ela antes de te dar a minha posição, mas meu primeiro palpite é que a chegada misteriosa dessa mulher à comunidade não é outra coisa senão mais um dos jogos psicológicos de Benjamin Linus.

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- Eu juro que nunca os vi na minha vida.- respondeu Ana-Lucia depois de levar mais um tapa de Ben no rosto. A face ardia, mas o que mais lhe doía era a humilhação que aquele homem a fazia passar diante de toda a Vila e dos dois homens que ele capturara no quintal de sua casa.

Após ela negar mais uma vez que não conhecia John Locke e Sayid Jarrah, Benjamin Linus intuiu que ela realmente dizia a verdade, sua memória não havia voltado totalmente.

- Estou dizendo a verdade para você.- ela insistiu. – Eu nunca vi esses dois homens!

- Nunca pensei que você fosse se tornar uma traidora, Ana-Lucia!- disse Sayid com rispidez diante de mais uma negativa dela dizendo que não os conhecia.

Ryan acertou-lhe um soco em cheio no estômago e Ana-Lucia apertou os olhos ao ver tamanha violência. Apesar de não se lembrar por nome quem eram aqueles homens era óbvio que a fisionomia deles lhe era familiar, especialmente a do árabe, só não sabia o porquê disso. Mas não podia contar a Benjamin que de alguma forma os reconhecia, conhecia o temperamento ruim dele o suficiente e tinha medo que ele usasse James para atingi-la, ainda mais agora que tinha certeza de que seu bebê não era filho dele.

Nesse momento Cindy entrou na sala carregando seu bebê. O pequeno abriu o berreiro ao ver a mãe e Ana-Lucia estendeu os braços para pegá-lo.

- Cindy, me dá o meu bebê!

Mas Cindy não se mexeu do lugar, ficou ali impassível olhando para ela, segurando James no colo. O menino se debatia chamando pela mãe.

- Mamamama...

- O que você pretende Benjamin?- ela bradou, tomada por uma fúria que pensou não ser capaz de existir dentro dela.

- Eu pretendo que você seja honesta comigo Suzane, que você saiba me agradecer depois de tudo o que fiz por você. Quer a verdade? Seu nome não é Suzane, e James não é meu filho, mas eu menti pra você por uma boa razão. Te salvei da contaminação junto com seu filho, te livrei de viver entre os hostis, te dei um teto e comida e você só tem me decepcionado!

Ele chegou bem perto dela e tocou a face avermelhada pelos tapas dele. Ana-Lucia cuspiu nele e Tom que estava entre os presentes que assistia a cena ficou bestificado ao ver aquilo. Foi aí que Benjamin se deu conta que a despeito do que tinha acabado de lhe revelar, Ana-Lucia já havia se lembrado de quase tudo e que não importava o que ele fizesse, o Projeto 2342 fracassara. Benjamin ficou tão chocado ao se dar conta disso que por um momento permaneceu mudo diante dela fitando seus olhos raivosos. Pegou um enorme susto quando ela se atirou sobre ele e começou a esganá-lo.

- Façam alguma coisa...- ele balbuciou lutando com ela, tentando afastar as mãos dela de sua garganta.

Tom segurou Ana-Lucia com força para tirá-la de cima de Ben, mas ela estava possuída por uma força desconhecida que a impulsionava a investir contra Benjamin Linus e fazê-lo pagar por tudo que ele havia feito.

- Ana-Lucia!- gritou Richard chamando sua atenção.

Ela desvencilhou-se de Ben e Tom por alguns momentos. Sayid e Locke foram obrigados a assistir a cena sem poder fazer nada, pois estavam com os braços e pernas amarrados. O árabe estava confuso, pois algo muito sério acontecia ali, Ana-Lucia não era uma traidora, estava sendo pressionada a ficar do lado dos Outros por causa de seu filho. Teve certeza disso quando viu absurdamente o homem a quem chamavam de Richard apontar uma arma na direção de James que ainda chorando havia sido posto no cercadinho com seus brinquedos.

- Nãoooooooooooo!- ela gritou, histérica, descontrolada e correu para junto do filho pegando-o no colo sem se importar se Richard seria capaz de desferir-lhe um tiro ou não.

Benjamin se levantou do chão e se recompôs. Pigarreando em meio a toda aquela tensão ele limpou o suor da testa com as costas das mãos e disse:

- Podem trazê-lo!

Mais dois homens entraram na sala, arrastando Sawyer pelos braços. Ele estava muito ferido e uma grande quantidade de sangue jorrava de seus lábios estourados. Ao vê-lo, Ana-Lucia fez menção de correr para junto dele, mas Richard engatilhou a arma em sua direção. Ela parou.

- E quanto a esse homem, reconhece-o?- indagou Benjamin, triunfante.

- Eu...- balbuciou Ana-Lucia, mas Ben falou por ela.

- Estava escondendo o seu queridinho na casa de barco não é? Achou que eu fosse estúpido? Acabou Ana-Lucia, eu tentei cuidar de você, te ofereci o melhor, mas você não quis, agora pagará por isso, vocês todos!

Ele se aproximou de Sawyer e desferiu um soco certeiro em seu belo rosto. O homem gemeu de dor e seus olhos azuis lacrimejantes fitaram Ana-Lucia com amor apesar do desespero que sentia.

- Você ama esse homem?- indagou Benjamin.

Ana-Lucia nada disse, trêmula apertou o bebê em seus braços, lamentando que o menino estivesse assistindo a tudo aquilo. O bebê chorava em meio à toda aquela confusão, pressentindo que algo estava errado com sua mãe. Benjamin bateu em Sawyer mais uma vez, deu um chute em suas costelas. Ele soltou um ganido de dor e apertou os olhos.

- Diga Ana-Lucia, você ama esse homem?

Ela começou a soluçar, as lágrimas descendo sem parar pelo seu rosto.

- Por favor, não bata nele...

- Só se você me disser que o ama...

Ele deu mais um soco em Sawyer, fazendo jorrar mais sangue de seus lábios partidos.

- Não, pare, por favor, pare! Eu o amo, eu o amo!- ela gritou jogando-se aos pés de Sawyer com o filho no colo.

A cena era de uma crueldade infinita. Sawyer jazia com a cabeça no colo de Ana-Lucia todo ensangüentado, enquanto ela chorava desesperada segurando o filho nos braços. Sayid e Locke não estavam mais agüentando ver aquilo, mas nada podiam fazer. Sayid se debatia tentando se desamarrar, mas seus esforços eram em vão.

- Já chega disso! Quero todos eles presos em lugares separados!- ordenou Benjamin. – Você vai se arrepender Ana-Lucia, ah se vai!

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O barulho irritante de uma porta de madeira rangendo despertou todos os sentidos de Locke. Ele estava sedento e faminto, já tinham se passado horas desde que fizera sua última refeição. Estava trancado em um grande salão escuro, sozinho, amarrado a uma cadeira sem saber para onde tinham levado Sayid, Sawyer e Ana-Lucia. Mas apesar do cansaço que o acometia, não havia cochilado sequer uma vez e prestou bastante atenção quando o vulto familiar de um homem adentrou o salão seguido do ranger da porta.

- Olá John!- disse o homem com sua voz de timbre tranqüilo.

- A que devo a honra, Henry Gale ou será que deveria chamá-lo de Benjamin Linus?

- Ben soa melhor!- respondeu Benjamin ficando de frente para Locke, fitando-o com seus olhos azuis esbugalhados e frios. – Mas não me diga que feri seus sentimentos quando usei o Michael para fugir da escotilha.

- Eu confiei em você, e me sinto um idiota por isso. Ana-Lucia e Libby poderiam ter sido mortas se eu não tivesse me dado conta do meu erro e...

- Para que falar do passado John se temos tanto em comum quanto ao futuro.

- Do que está falando?

- Eu sei tanto quanto você que não quer sair dessa ilha porque acredita que se sair voltará para sua cadeira de rodas.

Locke arregalou os olhos diante daquela afirmativa: - Como sabe que eu...

- Sei de muitas coisas, e embora o Jack ache que eu estou blefando quando a manter contato com o mundo exterior te digo que o doutor está completamente enganado.- ele parou de falar e puxou uma cadeira, ficando de frente para Locke, em seguida continuou. – Fico aqui imaginando como deve ter sido a sensação de ter caído nessa ilha e de repente voltar a andar. Você foi abençoado pela Ilha John, deveria se orgulhar disso.

- Por que acha que a Ilha me abençoou?- indagou Locke, muito interessado no que Benjamin lhe dizia. A Ilha era o seu maior interesse desde que caíra nela.

- Porque você é um dos bons, por isso a Ilha te concedeu um presente.

- Sou um dos bons?- Locke deu um pequeno sorriso. – E em qual critério a Ilha estaria se baseando para definir quem são os bons e quem são os maus?

- O critério de suas ações durante a vida inteira.- respondeu Ben com empolgação. – Por exemplo, pessoas como Sawyer, Kate e Ana-Lucia jamais receberiam presentes da Ilha. Sawyer é um maldito golpista que só pensa em se aproveitar das pessoas para obter benefícios para si, Kate assassinou o próprio pai e Ana-Lucia matou um homem a sangue frio em vez de permitir que ele fosse levado à justiça por seus crimes. Acho que isso já basta para Jacob decidir quem merece ou não seus benefícios.

- Quem é Jacob?- questionou Locke surpreso ao ouvir aquele nome.

- Jacob é o homem mais grandioso que existe nesse lugar.- respondeu Ben. – Vivo para cumprir a Obra dele.

- Ele poderia me dar respostas sobre a Ilha?

- Jacob pode te dar respostas sobre tudo, John.

- Leve-me até ele.- Locke pediu.

- Não posso fazer isso John, Jacob é como o Mágico de OZ, se lembra? O seu livro preferido na infância? Assim como o velho mágico, Jacob pode te dar tudo, mas também pode tirar. O Leão conseguiu a coragem e você a sensibilidade de suas pernas, creio que por ora isso está de bom tamanho.

- Se não veio para me dar respostas, para que veio afinal? Por que insiste em que sou um dos bons? Por que não me machucou como fez com os outros?

- Algumas dessas respostas você as terá em breve, desde que saiba de que lado está.- falou Benjamin enigmaticamente e deixou a sala, passando pela porta de madeira barulhenta e trancando-a atrás de si.

Locke ficou intrigado com a conversa que teve com Ben, afinal o que ele queria dizer ao fazer comparação entre Jacob e o Mágico de Oz?

Numa coisa ele estava certo, o Mágico de OZ fizera parte de sua infância como nenhum outro personagem havia feito, John buscava naquele livro as respostas para a sua existência.

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(Flashback)

Era o seu primeiro dia no novo emprego, John estava radiante. Depois de passar os últimos meses enfrentando filas em busca de um trabalho e chegando de madrugada à porta do Serviço Social para exigir seu seguro desemprego ele havia sido contratado. Era o mais novo funcionário dos Correios e nada era melhor do que isso.

Entrou no prédio onde funcionavam os Correios exibindo seu melhor sorriso, cumprimentando a todos que passavam a seu lado. Tomou seu lugar atrás do balcão e o dia transcorreu maravilhosamente bem. Sua função era simples, receber as cartas e encomendas, registrá-las, checar se os endereços estavam corretos e por fim selá-las para que fossem enviadas. Já estava quase no final de seu expediente quando um homem branco e corpulento, de estatura mediana entrou na agência.

Locke sorriu para ele.

- Em que posso ajudá-lo senhor?

- Preciso que essas encomendas sejam entregues com urgência.- disse o homem depositando três caixas de papelão lacradas sobre o balcão.

Locke leu o nome no remente: - Thomas Lee Welling. Sr. Welling, o horário para enviar encomendas desse porte já finalizou infelizmente, mas posso dar um jeito de enviar ainda hoje já que é tão urgente.

- Sim, obrigado, seria de grande ajuda.

- Do que se trata o conteúdo das encomendas para que eu possa registrá-las?

O homem balançou sob os dois pés, Locke notou que ele estava nervoso.

- Senhor, são apenas alguns objetos pessoais que estou enviando ao meu melhor amigo em Talahasee.

Locke olhou o nome do destinatário: - Thomas Sawyer. Certo Sr. Welling, mas porque essas encomendas são tão urgentes para o Sr. Sawyer? Lamento estar incomodando o senhor com essas perguntas, mas só estou fazendo o meu trabalho.

- Eu sei, senhor...

- Locke, John Locke.

- Certo Sr. Locke, eu sei que está fazendo o seu trabalho, mas eu realmente tenho pressa. Sou um homem muito honesto e lhe asseguro que o conteúdo dessas encomendas não é nada ilícito, apenas alguns documentos e outras coisas que meu amigo precisa para se casar e como eu não poderei estar presente ao casamento estou lhe enviando pelo correio.

- Bem, Sr. Welling, eu não pensei que estivesse enviando nada ilícito.- respondeu Locke. – Eu apenas...oh, deixe pra lá. – ele estendeu um recibo ao homem. – Vou pesar as encomendas enquanto o senhor assina o recibo.

- Muito obrigado Sr. Locke, não sabe como está me ajudando.- o homem sorriu amigavelmente e assim que Locke lhe repassou o valor das encomendas, ele pagou e saiu.

Alguns minutos depois, Locke fechava o seu caixa e se despedia das pessoas sentindo uma sensação muito boa de dever cumprido, o trabalho nos correios seria tranqüilo e proveitoso. Colocou as encomendas do Sr. Welling no banco de trás de seu cadillac e rumou para a agência central dos Correios onde as despacharia.

Adorava sua vida e amava seu velho carro. Agora com um emprego não precisava de mais nada. Assobiando uma canção de Little Richard que tocava no rádio ele logo chegou ao seu destino. Desceu do carro tranqüilamente e não notou que uma jovem policial o fitava com extremo interesse. Entrou na agência dos Correios e foi seguido de perto por ela. Assim que colocou os três pesados pacotes sobre a mesa ouviu uma voz feminina firme e agressiva atrás de si que assustou a atendente da agência central dos correios.

- Largue imediatamente esses pacotes e coloque as mãos aonde eu possa ver, senhor.

Locke voltou-se para ela e com o semblante assustado se deu conta de que tinha uma arma apontada diretamente para si.

- O que está acontecendo senhorita? Eu não entendo!

- Fique parado e com as mãos para cima.- ela limitou-se a dizer com o olhar ameaçador. Retirou um walk-talk do bolso e disse: - Aqui fala a policial Raquel Cortez, número de registro 481516, suspeito acaba de chegar com os pacotes à agência dos correios conforme denúncia anônima.

- Suspeito?- Locke se ouviu dizendo e alguns minutos depois três policiais homens entraram e o algemaram enquanto a jovem policial que o ameaçara abria o conteúdo das encomendas deixadas por Thomas Welling na agência de correio que ele trabalhava.

Inexplicavelmente uma grande quantidade de heroína saltou sobre os olhos dele e Locke sentiu o pânico tomar conta de si. A policial deu um sorriso de triunfo e começou a dizer: - John Locke, você está preso por porte de drogas, tem o direito de permanecer calado, tudo o que disser pode e será ser usado contra você no tribunal...

(Fim do Flashback)

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O dia amanheceu nublado na comunidade, uma garoa fina caía sobre a praia, trazendo um vento frio para dentro das casas. Charlie tremeu quando suspendeu a cortina de lona que protegia o interior de sua casa.

- O tempo está estranho hoje, pensei que estávamos em uma ilha tropical.

- Sequer sabemos onde estamos.- comentou Claire tentando vestir Aaron com uma roupa mais quente, mas o menino não parava de se mexer.

Bocejando, Charlie se dirigiu até o varal improvisado para pegar uma camisa, pedaços de corda presos á sustentação de bambu da casa, porém no caminho tropeçou em um corpo muito grande que dormia esparramado no cômodo principal.

- Au!- queixou-se Hurley quando sentiu Charlie tropeçando e quase caindo em cima dele. – Dude, não está vendo que eu estou aqui?

- Desculpa cara, mas é que eu ainda não acordei direito.

Claire balançou a cabeça negativamente pondo Aaron no colo.

- Hurley, quando é que você e a Libby vão pôr um fim nessa briga ridícula de vocês dois?

- Nunca!- ele respondeu com veemência. – Não posso mais confiar na Libby! Eu achava que podia, mas eu devia saber que todas as loiras são iguais, umas falsas.

Claire franziu o cenho.

- Quer dizer, todas as loiras menos você, Claire.- ele consertou erguendo-se com dificuldade do chão. Ao fazer esse movimento trombou outra vez com Charlie que dessa vez se estabacou, caindo no chão.

Aaron começou a rir.

- Papai caiu! Dude!

Dessa vez Claire, Charlie e Hurley estavam rindo.

- Hurley, você tem que voltar logo para a sua casa ou então o Aaron começará a falar exatamente igual a você.

Na praia, apesar do mau tempo as pessoas se forçavam a levantar e começar o dia. Aline, Amanda e Shannon lavavam roupas em uma tina quando avistaram quatro pessoas entrando na comunidade. Os olhos da brasileira se encheram de lágrimas ao reconhecer quem vinha à frente.

- Desmond!- ela gritou e largou as roupas ensaboadas, correndo na direção dele.

Desmond estava exausto da longa caminhada, mas ao ver Aline correndo na direção dele largou sua mochila e a tomou nos braços, beijando-a. Amanda também largou tudo para ir ao encontro do cunhado que seu coração temia já estivesse morto.

- Oh meu Deus, Philip, por onde andou?

Logo uma grande confusão se formou na praia, todos queriam saber aonde eles haviam estado e onde estavam os outros que partiram com eles.

- Onde está o Sayid?- perguntou Shannon exasperada ao perceber que ele não fazia parte do grupo.

Paulo tomou fôlego.

- Gente, eu respondo qualquer pergunta que quiserem, mas por favor, me dêem um pouco de água e um prato de comida.

A Sra. Lewis se compadeceu dele e deu-lhe tapinhas nas costas dizendo que lhe prepararia uma boa refeição. Nikki fez menção de segui-lo quando Pedro a segurou pelo braço, delicadamente:

- Nikki, pensei que nunca mais fosse vê-la.

- Teria sido melhor assim.- ela respondeu com rispidez e seguiu Paulo e a Sra. Lewis para a cozinha.

- Onde está o Jack?- Desmond perguntou aos presentes que indicaram que ele estava em casa. – Preciso falar com ele.- disse o escocês e saiu caminhando em direção à casa do médico de mãos dadas com Aline.

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- Vamos, está na hora!- disse Tom a Ana-Lucia libertando os pulsos dela das algemas que a machucaram a noite toda.

- Hora do que?- indagou ela ainda com os olhos marcados pelas lágrimas, passara a noite inteira algemada em uma cadeira dentro do quarto que costumava dividir com Benjamin.

- Você vai saber.- Tom limitou-se a responder.

- E o meu filho?

- Ele está bem, Alex está com ele.- Tom garantiu sentindo pena dela. Não conseguiu impedir tal sentimento, durante todos aqueles meses ela havia sido a simpática e prestativa esposa de seu chefe que sempre era gentil com ele, muito mais do que Ben. Não queria que ela estivesse tendo de passar por aquilo, mas jamais questionaria as ordens de Benjamin Linus.

Levou-a para o quintal. Benjamin estava lá com Richard e Ryan. Ana levou as mãos machucadas á boca quando viu Sawyer amarrado a uma árvore, seus ferimentos à luz do dia pareciam ainda piores.

- Oh Deus!- soluçou. – Solte-o Benjamin, deixe-o ir, eu prometo que ficarei aqui com você, farei tudo o que quiser, mas não o machuque mais.

- Não Ana, não prometa isso a ele.- bradou Sawyer com ódio em sua voz.

Benjamin acertou-lhe um soco no maxilar, mas Sawyer não gritou, agüentou a dor como pôde, mas as lágrimas que escorreram de seus olhos denunciaram o quanto aquilo estava sendo difícil. Ana-Lucia correu até ele e ninguém a impediu. Abraçou-se ao seu corpo e acariciou seu rosto ferido.

- Despeça-se dele. –disse Benjamin por fim.

- O quê?

- Isso o que você ouviu, despeça-se dele. Eu não a machucarei, poderá continuar morando comigo como minha esposa, seu filho também é bem-vindo, mas Sawyer não. Nós vamos executá-lo e você não pensará nele nunca mais. Ou você aceita isso ou o executaremos, você e o bebê.

O peito de Ana-Lucia se contraiu ao escutar aquela sentença terrível. Não tinha escolha, tinha que desistir de seu amor para sempre ou então perderia seu bebê e isso ela não poderia suportar.

- Eu sinto muito.- sussurrou no ouvido dele.

- Eu sei, chica.- ele respondeu.

- Queria poder me lembrar totalmente de você, cada detalhe do que vivemos juntos...

- Pra mim já é suficiente que seu coração se recorde.

- Eu te amo, Adeus.- disse ela beijando-lhe os lábios feridos delicadamente, apertando os olhos ao sentir o gosto do sangue derramado neles.

Sawyer sentiu uma sensação desesperadora de frio quando ela se afastou e sem perceber estava tremendo. Ana-Lucia lutou para controlar as lágrimas, mas não conseguiu, elas deslizavam infinitamente por seus olhos. Ryan se aproximou de Sawyer com uma agulha enorme, a seringa estrategicamente apontada para seu peito. Mas ele não iria implorar por sua vida, tinha seu orgulho, estava tudo acabado.

Sem demonstrar nenhum receio, o homem perfurou o peito de Sawyer com aquela seringa e ele começou a sentir seu corpo ir parando aos poucos, uma sensação inquietante de paralisia. Vislumbrou pela última vez os olhos negros e chorosos de Ana-Lucia e desfaleceu.

- Nãooooooo! Nãoooooooo!- ela gritou em desespero quando soltaram o corpo amolecido dele da árvore. Jogou-se sobre ele e chorou até não poder mais.

Benjamin e os outros homens se afastaram deixando que ela chorasse sua dor por mais alguns minutos antes de enterrá-lo.

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- Isso está ficando cada vez mais estranho.- disse Jack quando Desmond terminou de contar-lhe tudo o que acontecera durante o período em que esteve na floresta.

- E esse lugar que vocês encontraram foi explodido?- indagou Kate.

- Sim, irmã, só restaram as ruínas. Mas isso foi antes de nos capturarem.

- Não posso acreditar que esse tal Mikail matou a companheira de seu próprio grupo.- comentou Kate, assustada. – Isso é surreal, tudo nesse lugar é surreal!

Juliet que acompanhava toda a conversa ergueu uma sobrancelha e disse:

- Não sei por que se assusta com esse tipo de coisa tendo em vista o que você foi capaz de fazer!

Kate ficou zangada e respondeu a Juliet: - Quem é você pra me julgar? Você é um Deles!

Juliet ia responder, mas Jack se interpôs entre as duas.

- Parem com isso! Temos coisas mais importantes para se preocupar do que com seus problemas pessoais. Desmond, nós ficamos sabendo que vocês foram capturados. Lembra-se da estação escondida na gruta?

- È claro que me lembro, brotha.

- Os Outros acreditam que Juliet é uma espiã em nosso acampamento, com exceção de Benjamin que pensa que ela traiu seu grupo. Ela ainda mantém contato com Eles através da estação da Caverna e consegue informações para nós.

Desmond deu um olhar desconfiado para Juliet.

- Isso não significa que devemos confiar 100 nela.

Kate sentiu uma vontade enorme de sorrir ao ouvir as palavras de Desmond, mas manteve-se impassível.

- E o Locke e o Sayid? Será que eles conseguiram encontrar o Sawyer?

- Eu não recebi nenhum comunicado da Vila alertando sobre a presença deles.

- Talvez eles não confiem mais em você também.- comentou Desmond e dessa vez Kate se permitiu sorrir, triunfante.

- Precisamos saber se eles estão na Vila e se estão em segurança.

- Sim.- concordou Kate. – Mas não podemos esquecer de nosso outro problema, a chegada de Cassidy.

- Ainda estou estupefato com isso!- afirmou Desmond que acabara de saber da chegada milagrosa da ex-amante de Sawyer à ilha.

- Eu disse a vocês que tudo isso faz parte do jogo psicológico que Benjamin pretende fazer com todos vocês. Esta mulher, Cassidy, além de ser a mãe da filha do Sawyer que nós não fazemos a mínima idéia de onde esteja é também tia de Debbie que esteve envolvida em toda a confusão que ocasionou o aprisionamento de vocês, o desaparecimento de Ana-Lucia, a fuga do Sawyer para encontrar a Vila, tudo isso! Estamos lidando com algo muito grande.- falou Juliet.

- Se tudo faz parte de um jogo psicológico de Ben para nos atingir, qual seria o propósito de tudo isso? E se estamos isolados em uma ilha como ele conseguiu trazer a Cassidy pra cá?- questionou Kate.

- No submarino.- respondeu Juliet.

Desmond, Jack e Kate se entreolharam.

- Submarino!- o médico exclamou. – Por que nunca me falou sobre isso?

- Foi a forma como eu cheguei até aqui. Num submarino! Eu não sei se ele ainda funciona depois da explosão do Cisne. Era uma estação muito importante e as comunicações da ilha com o mundo exterior foram afetadas, mas não consigo ver outra maneira da Cassidy ter chegado até aqui senão no submarino.

- Se nós a encontramos em nossa praia é provável que o submarino esteja escondido em algum lugar por aqui.- afirmou Jack.

- Não necessariamente.- replicou Juliet.

- Precisamos descobrir onde está esse submarino, brotha!- disse Desmond. – Talvez seja nossa única esperança de deixarmos essa ilha.

Um choro desesperado de bebê interrompeu a reunião deles e revirando os olhos Kate disse: - O dever me chama! Já vou nenê!

Ela se dirigiu para o quarto e pegou a filha que berrava no bercinho. Balançou a pequena nos braços e pensou consigo que estava cada vez mais difícil conciliar a tarefa de aventureira e mãe. Sentia-se muito cansada e magoada com Jack porque ele incluíra Juliet na vaga que lhe pertencia no clube dos aventureiros da ilha. Mas as dificuldades iriam passar e logo já estaria com mais prática na árdua tarefa de cuidar de sua filhinha e poderia se impor mais como fazia antes. Juliet que não se empolgasse muito, pois seu reinado não iria durar.

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- Nikki, você está aí?- indagou Pedro à porta da casa de Paulo, a namorada não voltara para a casa que costumavam dividir.

Foi Paulo quem apareceu. Pedro sorriu para ele amigavelmente e perguntou por Nikki. O brasileiro não lhe devolveu o sorriso.

- Depois de tudo o que a Nikki descobriu sobre você, ainda tem a cara de pau de vir falar com ela? Deveria agradecer-lhe por ela não ter te entregado.

Pedro arregalou os olhos e disse:

- Você não sabe de nada! Agora chame a Nikki pra mim, por favor!

- Vá embora!- Nikki disse lá de dentro. – Não quero falar com você!

- Mais cedo ou mais tarde vai ter que falar!- ele bradou e deu meia volta em direção à sua própria casa.

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Ana-Lucia acordou de súbito, jurara que não ia dormir, mas o cansaço físico e emocional a venceu fazendo com que ela cochilasse sem perceber. Sentou-se na cama e olhou para o homem odioso com quem era obrigada a dormir. Sentiu vontade de pegar o travesseiro e asfixiá-lo, mas conteve-se, não podia estragar tudo agora, tinha coisas mais importantes que resolver.

Checou o relógio, faltavam poucos minutos e seu coração acelerou. Tinha sido tudo tão repentino, mas ela tinha esperanças de que desse certo, caso contrário, não agüentaria a culpa. Sem perder mais tempo, levantou-se e vestiu apenas o robe por cima da camisola branca. Olhou mais uma vez para o homem que dormia na cama, esperava que dessa vez o efeito do sonífero durasse mais.

Saiu da casa e o ar frio da noite enregelou-lhe o corpo. Ana-Lucia apertou os braços em volta do roupão de seda que a cobria. Esperou pelo sinal e um assobio lento foi ouvido na calada da escuridão. Ana-Lucia dirigiu-se até o som e sorriu ao ver Alex e Karl vindo em sua direção cada um carregando uma pá.

- Precisamos tirá-lo logo de lá, eu tenho medo que..- ela começou a dizer, mas Karl a interrompeu.

- Não se preocupe, ele vai ficar bem.

- Obrigada por estarem fazendo isso!

- Isso não é nada pelo que fez por nós!- falou Alex. – Se não fosse por você Karl teria sido levado para um dos laboratórios de teste do meu pai.

- Não foi nada.- disse Ana-Lucia. – Agora por favor, vamos tirá-lo de lá!

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(Flashback especial)

Noite anterior

- Você está bem, lábios quentes?- Sawyer indagou, afundando o nariz no pescoço de Ana-Lucia, os corpos abraçados um ao outro.

Ana assentiu com um sorriso e puxou o rosto dele para beijá-lo mais uma vez, com vontade, dando pequenas lambidas nos lábios masculinos.

- Hum, você está insaciável, baby e eu esgotado.

Ela deu uma pequena risada, sentindo-se muito bem, como não se sentia há tempos.

- Está bem, vou deixar você descansar, por enquanto...

Sawyer sorriu e deu-lhe um rápido beijo na boca antes de se levantar do chão.

- Onde você vai?- ela perguntou, se erguendo sob os cotovelos.

Ele procurou por algo no bolso da calça jeans que estava usando quando chegou à Vila. Depois voltou para junto dela com algo escondido na mão.

- O que é isso?

Sawyer abriu a mão e Ana-Lucia reconheceu o objeto de imediato.

- Meu colar!

- Eu o guardei para devolver a você quando a encontrasse. Me deixe colocá-lo no seu pescoço.

Ana-Lucia suspendeu os cabelos e Sawyer colocou o colar. Ela se sentiu tão viva naquele momento, tudo parecia fazer sentido ao redor dela. Virou de frente para ele e indagou:

- Como ficou?

- Lindo!- ele respondeu, admirando o contraste da peça com a pele nua dela e os seios tentadores.

- Eu também tenho uma coisa pra te mostrar.- disse ela, procurando por algo no meio das coisas que tinha trazido.

- Um walk-talk?

- Eu roubei do Benjamin, Alex ficou com outro para se comunicar comigo esta noite.

- Quem é Alex?

- A filha de Benjamin. Ela tem me ajudado muito, foi ela quem conseguiu o antídoto para o veneno do escorpião. E eu trouxe esse walk-talk para cá hoje porque precisamos falar, planejar um jeito de fugirmos daqui e eu...quero me vingar.- ela admitiu.

Sawyer a ouvia atentamente.

- Li em uma ficha sobre você no escritório do meu mari...digo, do Benjamin, que você era um golpista, o melhor. Precisamos de um bom plano!

Ele ergueu uma sobrancelha, entendo o que ela queria dizer.

- Pode falar agora mesmo com a guria?

Ana assentiu. Eles se vestiram e ela ligou o walk-talk, chamando Alex.

- Ana?- disse a voz do outro lado.

- Alex, eu e o Sawyer precisamos de um bom plano de emergência caso as coisas dêem errado. O que poderíamos fazer?

- O único jeito de meu pai parar de perseguir o Sawyer se descobrir que ele está na Vila é pensando que ele está morto. Poderíamos forjar a morte dele.

- Como?- perguntou Sawyer, muito interessado.

- Tenho acesso ao laboratório de pesquisa da Vila, existe um veneno poderoso o bastante para derrubar um ser humano em segundos. Ele é extraído de uma espécie rara de aranha que existe nessa ilha. Se meu pai descobrir onde Sawyer está e resolver matá-lo, não vai atirar nele, mas sim usar de algum tipo de veneno letal. O veneno dessa aranha não é letal, deixa a pessoa desacorda por oito horas como se estivesse morta, é quase impossível perceber que está viva, só alguém que conhece o processo.

- E seu pai não conhece?- dessa vez foi Ana-Lucia quem perguntou.

- Não. O responsável por essas pesquisas foi morto, mas eu sei aonde o veneno está e posso assegurar que se algo for injetado em Sawyer visando sua morte será esse veneno.

- È arriscado...- começou a dizer Ana.

- Me parece uma idéia brilhante.

Ana pediu à Alex alguns minutos para conversar com Sawyer e desligou o walk-talk.

- Sawyer...

- Baby, vamos fazer isso, se algo der errado e o esbugalhado vier pra cima de mim, deixe que ele me mate, saberá que estou vivo e poderemos ter nossa vingança.- ele beijou as mãos dela.

- Tem certeza?

- Tenho. Chame a garota no walk-talk novamente.

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( Fim do Flashback Especial)

Os três caminharam silenciosamente pela Vila, guiados por lanternas de baixa luminosidade para não serem vistos por algum vigilante. Ao chegarem no pequeno cemitério que ficava nos fundos da Vila, Ana hesitou alguns segundos antes de adentrar o portão.

- Ele está bem Ana!- garantiu Alex tranqüilizando-a e puxando-a pela mão.

Karl foi o primeiro a chegar ao túmulo recém-cavado. Sem nenhuma hesitação começou a tirar a areia com a ajuda da pá, a cova era funda e eles tinham muito trabalho pela frente. Alex começou a cavar também, mas Ana logo a substituiu na tarefa, cavando cada vez mais rápido. Quando estavam se aproximando do corpo Ana-Lucia largou a pá e começou a cavar com as próprias mãos, forçando as unhas, algumas se partiram durante a árdua tarefa, mas ela não iria desistir.

O frio havia passado e agora ela estava suada e completamente suja de terra, dos dedos dos pés até os fios dos cabelos. Mas todo o barro inoportuno havia sido removido e ela finalmente viu o corpo dele, embrulhado em um saco de estopa. Mordeu os lábios, temerosa e apertou os olhos.

Karl tirou uma pequena faca do bolso e com destreza rasgou o tecido que cobria o rosto dele. Ana o vislumbrou:

- Sawyer!

Alex consultou seu relógio.

- Ele vai acordar em alguns minutos, rápido, vamos tirá-lo daí!

Com dificuldade, Alex e Karl ergueram Sawyer de dentro da cova e Ana-Lucia o puxou para cima, rasgando o resto do pano que o recobria com as próprias mãos, e quase não acreditou quando sentiu que ele movia os dedos das mãos. Recostou o rosto em seu pescoço e sentiu que ele respirava. As lágrimas tomaram-lhe os olhos.

- Sawyer...-murmurou.

Ele arregalou os olhos azuis de repente e puxou o ar com força para dentro dos pulmões. Olhou para as três pessoas ao seu redor e exclamou:

- Son of a bitch!

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- Como é que é Jack? Eu acho que não entendi.- disse Kate, muito séria com as mãos na cintura fitando Jack que arrumava sua mochila com água e suprimentos.

- Precisamos encontrar Sayid, Locke, o Sawyer e quem sabe a Ana. Não podemos mais ficar esperando aqui de braços cruzados.

- E só agora você me diz isso?- Kate o recriminou. – Há tempos que venho lhe falando que devíamos estar fazendo alguma coisa e não só esperando o Sayid voltar, e como você pode ver ele não voltou. Não agüento olhar pra cara de tristeza da Shannon em não saber se o marido dela está vivo.

- Então, por isso mesmo eu vou partir com Juliet, Mr. Eko, Jin e Michael.

- E quanto a mim?

- Você sabe que não pode vir Kate, as coisas são diferentes agora, você tem que cuidar da Lilly.

- Pois eu não aceito isso, sou mãe agora, mas ainda sou a mesma pessoa.

- Kate...- Jack tentou ser paciente. – Não estou dizendo que não é capaz, só estou dizendo que agora você tem outra prioridade, a Lilly. E não adianta me olhar com essa cara de quem está perguntando o porquê de eu não ficar com ela. Você bem sabe que eu não tenho leite no peito, e, além disso, ainda sou o líder dessa comunidade, é minha função fazer alguma coisa.

Kate ia dizer mais alguma coisa quando foi interrompida por Juliet que entrou na casa.

- O Jack tem razão Kate, Lilly precisa muito de você.

Kate balançou a cabeça negativamente.

- Eu não sei que direitos você acha que tem para entrar na minha casa e me dizer isso.

- Mas...- começou a dizer Juliet, mas Kate balançou o dedo na cara dela.

- Se quer falar com o Jack, espere lá fora porque agora nós estamos brigando e queremos privacidade!

Juliet olhou para Jack que nada disse, e deixou a casa.

- Kate...

Ela fez um gesto com a mão para que ele a deixasse falar.

- Sei que está certo, Lilly precisa de mim, e eu preciso aprender a ser a mãe dela. Mas ela também precisa de você, eu preciso de você...

Jack abriu os braços para ela:

- Venha cá!

Kate se aconchegou nos braços dele.

- Por favor tome cuidado! Eu odeio ter que ficar aqui tentando imaginar se você vai ficar bem.

- Eu sei disso. Mas também não quero que se arrisque, eu não poderia cuidar de nossa filha sem você.

Kate ergueu os olhos para ele e o beijou. Jack envolveu os braços ao redor da cintura dela e a beijou de volta. Lilly acordou e se pôs a berrar. Os dois se separaram rindo.

- Essa garota tem uma garganta, a quem será que ela puxou?

Jack sorriu.

- Só pode ter sido pra você, que nunca esconde o que quer!

- Yeah!- Kate concordou. – E nesse momento ela quer mamar e provavelmente está molhada!

- Deixe que eu a troco!- disse Jack apressando-se na frente de Kate para o segundo cômodo da pequena casa. – O que foi bonequinha do papai? Por que está chorando, hã? – ele falou com a voz muito doce, fazendo Kate sorrir. – Vem aqui meu anjinho!

Jack a carregou do berço e a colocou na cama, tirando a fralda molhada. Kate estendeu-lhe um pano úmido e ele encarregou-se de limpar todas as dobrinhas da pequena antes de colocar-lhe uma fralda seca. Fez isso com rapidez e destreza.

- Você é bom nisso, papai!

- Digamos que andei treinando no berçário do hospital onde eu trabalhava.

- Sério?

- Hum, hum!- Jack assentiu, debruçando-se sobre Lilly e beijando-lhe a barriguinha fofinha. – Coisa mais linda do papai!- beijou o pezinho dela e a envolveu na manta, entregando-a a Kate.

- Eu logo estarei de volta, princesa.

Beijaram-se demoradamente até Lilly expressar sua indignação porque queria desesperadamente mamar.

- Tá bom gatinha, eu já entendi!- falou Kate para a filha, mansamente.

Balançando a pequena em seu colo, ela seguiu Jack até lá fora e o observou dar algumas instruções à Charlie e Hurley.

- Como estaremos fora, encarrego vocês de cuidar de tudo. Podem contar com a ajuda do Desmond também. Desejem-nos sorte!

- Boa sorte, dude!- falou Hurley.

- Vai nessa, cara!- disse Charlie.

E o grupo partiu floresta adentro, mais uma vez mergulhando os que ficavam para trás num mar de incertezas.

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Benjamin Linus despertou com o barulho incessante de água caindo no chuveiro do banheiro. Tocou o espaço ao seu lado na cama e viu que Ana-Lucia não estava deitada. Levantou-se e entrou no banheiro, abrindo a cortina que dava para o chuveiro.

Ana-Lucia deu um grito abafado de susto e instintivamente cobriu os seios com uma mão e suas partes íntimas com a outra.

- Por que está tomando banho agora?- Ben inquiriu deixando olhos maliciosos correrem pelo corpo dela.

Ana mordeu o lábio inferior e disse:

- Eu não estava conseguindo dormir, estava com muito calor. Desculpe se o barulho da água o acordou.

Ele se aproximou de Ana dentro do espaço do chuveiro e inalou o frescor de sabonete que exalava da pele morena dela.

- Não me importo de ser acordado assim e ter o prazer de poder admirar o seu belo corpo. Goodwin tinha razão quando fazia sinceros elogios a você.

Ana-Lucia estremeceu.

- Não, por favor, não me force a fazer nada agora. Eu não vou conseguir. Eu perdi...

- Não me fale sobre ele, sequer quero ouvi-la tocando no nome dele dentro desta casa, entendeu Ana-Lucia?

- Yeah!- ela assentiu. – Eu não vou falar nada, mas, por favor, me dê um tempo para aceitar tudo e eu prometo que farei o que puder para agradá-lo!

- Tudo bem, não sou um crápula Ana. Não irei tocar você esta noite, mas deixe-me pelo menos vê-la.

Odiando ter que fazer isso, Ana-Lucia retirou as mãos que cobriam seu corpo e deixou que Benjamin olhasse para ela. Estava gritando por dentro, mas conteve-se. Nesse momento, bateram com força na porta do quarto. E irritado, Ben saiu do banheiro para ver quem era. Ana-Lucia aproveitou para cobrir-se rapidamente com uma toalha.

- Você?- Ben espantou-se ao dar de cara com Locke do outro lado da porta apontando-lhe uma arma.

- Pensou que fosse quem?- Locke debochou com um sorriso. – O que está esperando para me mostrar algo de realmente interessante sobre essa ilha?

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(Flashback)

Locke carimbava papéis despreocupadamente em sua mesa quando uma das funcionárias dos Correios o chamou avisando que alguém queria vê-lo. Ele ficou tenso imaginando quem poderia ser. Sua vida nas últimas duas semanas tinha sido muito difícil, fora preso e acusado de contrabandear heroína através do serviço postal e teve muita dificuldade em provar sua inocência. Haviam feito uma armadilha muito bem engendrada para ele.

Estava tenso quando chegou à recepção, mas seu corpo relaxou ao reconhecer quem queria vê-lo. Raquel Cortez, a policial que o prendera e também sua principal defensora durante o processo de acusação. Sorriu amigavelmente para ela e notou que ela trazia uma criança de uns cinco anos no colo.

- È a sua filha?- indagou.

- È sim. Esta é Ana-Lucia. Diga olá para o senhor Locke, Ana.

- Olá, senhor Locke.- a menina respondeu mecanicamente.

- Venha comigo Raquel, podemos tomar um café na minha mesa.

Raquel sorriu e o acompanhou. Puxou uma cadeira e sentou a menina na mesa. A pequena começou a brincar com alguns carimbos que estavam sob a mesa e Raquel a advertiu.

- Cariño, não mexa nisso, o senhor Locke vai ficar zangado.

Locke fitou os olhos escuros da menina e tocou um cachinho do cabelo dela docemente.

- Sua filha é muito bonita, Raquel.

- È sim. Ela é a coisa mais importante da minha vida. Por isso eu peço mais uma vez que me desculpe John por ter te prendido naquele dia.

- Não Raquel, não tenho que desculpá-la. Você só estava fazendo o seu trabalho, nada mais. Eu é que fui bobo em cair em um golpe como aquele.

- Você não foi um bobo, John, esse homem, Sawyer, ele é o melhor golpista que já conheci. Ele conseguiu enganar até a mim.

- Como?- Locke não entendeu.

- Tom Sawyer, esse golpista miserável.- ela sussurrou. – Ele é o pai da minha filha. Me enganou, fingiu me amar, me engravidou e depois roubou todas as minhas economias. Foi por causa dele que me tornei policial, para pegar o desgraçado que fez isso comigo!

- E você vai conseguir Raquel, tenho certeza que vai!- falou Locke, tocando de leve o ombro dela num gesto solidário.

- Mama!- Ana-Lucia fez cara de choro . – Eu quero sorvete!

- Agora não mi hija, mama está conversando.

- Mas eu quero!- a menina insistiu ficando zangada.

- Oh, me desculpe John, quando Ana quer alguma coisa, esta niña não me deixa em paz, espero que ela mude quando crescer. Raquel levantou-se, agradeceu o café e pegou a filha no colo.

- Espere só um pouco, Raquel.- ele pediu, abrindo uma gaveta e retirando de lá um livro. Estendeu para Ana-Lucia e perguntou: - Já sabe ler, boneca?

- Un poquito.- ela respondeu em espanhol.

- Ela disse que sabe um pouquinho. –disse Raquel, traduzindo o que a filha dissera. – É que ela passa muito tempo na companhia dos avós e acaba falando mais espanhol do que inglês.

- Entendo. Mas tome, querida, para você, quando souber ler bastante.

Ana-Lucia pegou o livro das mãos dele e sorriu ao ver as figuras de uma menina, um cãozinho, um espantalho, um leão e outro ser que ela não soube identificar.

- Que livro é esse, senhor Locke?

- O mágico de Oz. È um livro muito bom, você vai aprender muita coisa com ele.

- Oh John, não precisava- falou Raquel. –Agradeça hija!

- Gracias, señor Locke.

Locke beijou a face morena da garotinha e despediu-se de Raquel. Voltou a carimbar seus papéis com um sorriso no rosto, mais um trauma em sua vida que havia sido superado.

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(Fim do Flashback)

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- Não precisa ficar apontando essa arma pra mim John, vou te mostrar algo que você irá apreciar muito.- falou Benjamin quando ele e Locke deixaram a casa.

Ana-Lucia viu que era Locke quem ameaçava Ben, mas preferiu não intervir, pedindo consigo mesma que ele desse cabo de uma vez por todas de Benjamin Linus.

- O que você vai me mostrar?- indagou Locke sem abaixar a arma.

- O submarino.- respondeu Ben triunfante.

- Submarino?- espantou-se Locke sem poder acreditar.

- Sim, venha comigo.- sorriu Benjamin e John Locke finalmente abaixou a arma se embrenhando com o inimigo para dentro da floresta.

LOST

Continua no próximo episódio...