Episódio 10- Sr. & Sra. Ford parte I
Sinopse: Chegou a hora de virar o jogo, foi o que pensou Ana-Lucia ao planejar com Sawyer sua vingança contra Benjamin Linus. Mas será que o plano dará certo? A comida na comunidade está acabando e Kate precisa colocar ordem no acampamento.
Censura: T.
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(Flashback)
- Você está espiando!
- Estou não!
- Está sim Ana! E eu já disse que não vale espiar.
Ana-Lucia sorriu apertando os olhos e colocando as mãos sobre o rosto.
- Pronto Danny, não estou vendo nada!
- E é exatamente assim que tem de ser!- afirmou Danny, balançando um objeto reluzente nas mãos. Ana-Lucia ouviu o tilintar, e indagou:
- O que está balançando nas mãos?
- Nada, dê mais dois passos.
- Danny, o que está acontecendo? Estou cansada desse jogo, me diz logo qual é a grande surpresa.
- Nada disso! Continue caminhando, venha!
- Hum, estou pisando em grama. Onde é que estamos?
- Dê só mais um passo e pode abrir os olhos!
Ana o obedeceu e logo em seguida tirou as mãos do rosto. Seus olhos negros se alargaram em surpresa e ela quase caiu para trás.
- Ai meu Deus, Danny, o que é isso?
- È uma casa!
- Eu sei que é uma casa, mas preciso saber o que achou dela já que será nosso novo endereço.
-A casa é maravilhosa, mas você ficou maluco? Não podemos pagar um negócio desses, você mal se mudou pra casa da minha mãe e já quer cometer uma extravagância dessas Danny!
- Bem, na verdade eu não comprei a casa, estou apenas alugando por tempo indeterminado. Se eu te contar você não vai acreditar no preço, muito barato!
Ana-Lucia balançou a cabeça negativamente: - Quanto?
- 200 dólares ao mês.
- O quê? Eu não acredito que uma casa dessas custe 200 dólares ao mês! Daniel Eric Lively, me diga a verdade. Quanto custa o aluguel dessa casa?
- 200 dólares.- ele repetiu. – Se não acredita posso te mostrar o contrato.- ele a puxou pela mão para junto de si e a abraçou pela cintura, falando carinhosamente no ouvido dela: - Lucita, precisamos ter o nosso cantinho. Eu adoro a Capitã Cortez, mas estou cansado da nossa falta de privacidade na casa da sua mãe. A gente nem pode se empolgar, você sabe!
Ana-Lucia riu e deu um tapinha no braço dele.
- E só porque vamos nos mudar você acha que eu vou me empolgar?
- Aham. Principalmente depois que conhecer os nossos aposentos, baby!
Danny colocou a chave prateada nas mãos dela e deixou que ela abrisse a porta da magnífica casa, de dois andares, padronizada de branco, com portas e janelas que pareciam com as de uma casinha de brinquedo que tivera quando menina. Por dentro, a casa ainda era mais suntuosa, toda mobiliada com sofás estofados com seda, tapetes felpudos, quadros famosos nas paredes. A cozinha era toda equipada com o que havia de melhor em eletrodomésticos.
Subiram as escadas e Ana deslumbrou-se com os quartos ricamente decorados, camas macias e convidativas, poltronas maravilhosas. Havia também uma saleta com um home theather completo. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi um quarto de bebê todo decorado de azul com motivos de patinhos nas paredes, um lindo bercinho no centro rodeado de brinquedos e um móbile de aviãozinho que pendia sobre ele.
- Está vendo só? Já tem até o quarto do nosso filho.
- Nosso filho?- ela riu. – Danny, gravidez não está nos meus planos, você sabe. Mas eu gostei da casa, e sinceramente não acredito que o aluguel seja apenas 200 dólares.
Danny revirou os olhos e tirou um papel dobrado do bolso, mostrando a ela. Era o contrato de locação da casa. Ana pegou o papel das mãos dele e o examinou atentamente.
- Dios, então é verdade!- exclamou.
- Acredita agora, Lucita?
- Yeah, eu acredito, mas porque esse tal de Hugo Reys iria alugar uma casa como essa por um valor tão baixo?
- Bom, confesso que quando li o anúncio no jornal também não acreditei muito, mas depois de ler o contrato e examinar a casa indaguei isso ao proprietário.
- E o que ele respondeu?
- Que a casa havia lhe trazido muito azar. Ele é um sujeito muito rico, disse que passaria uma longa temporada com sua mãe no México. Então eu comentei que para alguém como ele, alugar uma casa por esse preço não traria prejuízo e ele me respondeu, lógico que não, até porque não ligo para dinheiro, dinheiro só me traz azar.
- Estranho!- comentou Ana-Lucia.
Danny deu de ombros.
- Ah, deixa isso pra lá, esses ricos são excêntricos, por que não vamos examinar melhor o nosso quarto? Podemos mudar amanhã mesmo se você quiser.
- Temos que conversar com a mamãe primeiro e convencê-la sobre o preço do aluguel, daí depois...
Mas Danny não ligou para o que ela dizia, a carregou nos braços e a levou pro quarto.
- Danny, tenho que estar na polícia em quarenta minutos, homem!
- Tempo suficiente!- respondeu ele.
- Eu ainda estou armada.- ela gracejou apertando firmemente com a mão direita sua pistola presa ao coldre do uniforme de policial.
- Pode atirar em mim se quiser.
Ela riu. Ele entrou no quarto com ela ainda em seu colo e os dois caíram na cama. Ana sentou-se sobre ele e soltou os cabelos do coque apertado. Os cachos negros se espalharam por seu rosto.
- Eu te amo, você me faz feliz cada dia mais.
- Também te amo Ana-Lucia.
Beijaram-se e rolaram na cama, despindo as roupas e se amando ardentemente.
(Fim do Flashback)
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Já fazia meia-hora desde que Benjamin partira ameaçado por John Locke de arma em punho. A casa estava silenciosa e Ana-Lucia ousou sair do quarto. Sabia que se Ben não tivesse saído arrastado de casa teria enviado alguém para vigiá-la, mas ele não tivera tempo para fazer isso e ela precisava verificar se Sawyer estava bem. O deixara aos cuidados de Karl já que Alex tivera que retornar para casa para que seu pai não desconfiasse de nada. O plano era perfeito, portanto nada poderia dar errado. Esgueirou-se para fora do quarto, na ponta dos pés, olhando para os lados quando topou de frente com Cindy que segurava uma pistola carregada e não hesitou em apontar para ela.
- Onde você pensa que vai, Ana?
Ana-Lucia encarou Cindy e indagou sarcástica:
- Agora se lembrou do meu nome?
- O seu nome não importa, o que importa são as ordens do Ben e ele me mandou que a vigiasse. Agora me diga aonde vai!
- Não sabia que eu era uma prisioneira em minha própria casa. Por acaso esqueceu que sou a mulher do Ben? Estou indo dar uma olhada no meu filho, se não se importa. Ao invés de estar me vigiando deveria ir agora mesmo avisar que Benjamin foi levado por um dos hostis sob a ameaça de uma arma para a floresta.
- Isso não é assunto meu, Benjamin sabe o que está fazendo. Minhas ordens são para vigiar você enquanto ele estiver fora.
- Tudo bem.- respondeu Ana-Lucia. – Mas não vai entrar com essa arma no quarto do meu filho. Espere na porta!- ordenou sem se deixar intimidar pela arma. Passou por Cindy e entrou no quarto de James, ele mexia as perninhas inquieto no bercinho, tinha acabado de acordar e estava molhado, já ia começar a abrir o berreiro quando sua mãe se aproximou, fitando-o de maneira carinhosa.
- O que é que o meu filho quer, hã? Mamãe está aqui, não chore.- Ao ouvir a voz melódica da mãe, James ficou ainda mais inquieto, mas não chorou. Ao invés disso abriu um sorriso banguela e começou a emitir barulhinhos de alegria. Ana o retirou do bercinho e abraçou o corpo fofinho do menino, cheirando o cabelinho loiro dele.
Cindy fez menção de entrar no quarto, mas Ana-Lucia apontou o dedo para ela balançado-o negativamente.
- Saia agora do quarto e a partir de hoje fique bem longe do meu filho!
- Não me interessa o que você quer!- bradou Cindy. – Benjamin ordenou que vigiasse você até que ele estivesse de volta.
- Isso não inclui que você entre no quarto do meu filho e aponte uma arma para mim enquanto cuido dele ou pretende apontar uma arma para ele como Richard fez ontem à tarde?
Cindy olhou para o rosto inocente do bebê com a cabeça apoiada no seio da mãe e negou veemente com a cabeça.
- Eu jamais apontaria uma arma para uma criança, mesmo se Ben me ordenasse!
- Òtimo, então saia daqui!- disse Ana-Lucia intimidadora.
Bufando, Cindy deu meia volta e saiu do quarto, encostando a porta atrás de si. Ana-Lucia ergueu James levemente no ar, brincando com ele. Deitou-o no trocador e começou a fazer gracinhas para o bebê que dava risadinhas para a mãe.
- Lindo da mamãe! Nós vamos sair daqui cowboyzinho, eu prometo. Mamãe está se lembrando de tudo e nós vamos fugir daqui com o papai. O papai nos ama e vai nos tirar daqui!
O plano que ela, Sawyer e Alex tinham bolado estava dando certo até aquele momento. Benjamin Linus com certeza acreditava que tinha acabado com Sawyer e que Ana-Lucia estava rendida e conformada em ficar confinada na casa dele servindo às suas vontades por tempo indeterminado. Pois ele estava completamente enganado, o jogo breve iria mudar e ela iria assistir à sua vingança de camarote.
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Há meses que Jack não fazia uma caminhada pela floresta. Aquela missão de resgate de última hora que bolara com Michael, Jin, Mr. Eko e Juliet trouxe-lhe aquela familiar sensação de adrenalina nas veias novamente e ele sentira falta disso. Não queria admitir, mas ultimamente vinha se sentindo entediado com a vida calma que vinham levando no acampamento, à exceção do dia do nascimento de sua filha e a facada que Steve dera por acidente em Bernard tudo por lá permanecia calmo, sem grandes acontecimentos.
Sentia-se até culpado pelo tédio porque ele não tinha do que reclamar. Em pouco tempo sua vida mudara completamente. Conheceu a mulher de sua vida e ganhou uma filha. Então o que estava faltando para ele? Voltar para a civilização, claro, mas não para viver a vida de antes, vazia e cheia de incertezas. O que ele queria era levar Kate e Lilly para morar em uma bela casa em Los Angeles, perto de um parquinho onde poderiam passear com filha, depois jantar juntos e terminarem à noite fazendo amor apaixonadamente no aconchego do seu quarto. Sem perceber estava sorrindo como bobo ao fantasiar tal coisa. Michael notou a expressão estranha no rosto dele e bateu levemente em seu ombro.
- Que foi Jack?
- Nada.- Jack sorriu, abandonando seus devaneios. – Estava só pensando em como seria a minha vida se pudéssemos sair daqui.
- Está começando a pensar mais nisso agora não é?
- Por que você diz isso?
- Porque você tem uma família. Nossas vidas mudam por completo quando chegam os filhos, eles se tornam mais importantes do que tudo.- ele pausou, deu um suspiro profundo e continuou: - Foi por isso que fiz tudo aquilo, por isso que ajudei aquele homem, pelo meu filho sou capaz de morrer e de matar!
Jack fitou os olhos negros dele e assentiu balançando a cabeça, realmente entendia o que ele queria dizer, já que faria a mesma coisa por sua filha. Os dois continuaram a caminhar pela floresta até que Mr. Eko, que ia à frente, parou de súbito, pousando seu cajado no chão.
- Esse lugar é amaldiçoado.- disse com sua voz grave e serena.
Jack franziu o cenho, sem entender o que ele queria dizer e se colocou ao lado dele. Seus olhos castanho-esverdeados se alargaram. Juliet, Jin e Michael pararam ao lado dele, igualmente perplexos.
- Oh, meu Deus, quem será que fez isso?- indagou Juliet levando as mãos à boca.
Estavam diante de uma vala, uma cova conjunta cavada na terra, profunda e mal-cheirosa com corpos empilhados até em cima. Homens, mulheres e crianças. A maioria esqueletos, mas também havia corpos em decomposição indicando que algumas daquelas pessoas não haviam morrido há muito tempo. Juliet era médica, e já tinha visto coisas ruins, mas nada a preparara para a visão horrenda de duas crianças mortas no topo da cova, suas belas feições ainda visíveis. Sentindo o estômago embrulhar, ela correu para longe da cova. Jack correu atrás dela.
- Juliet!
Ela parou um pouco mais adiante e apoiou-se nos joelhos, vomitando. Jack a segurou, solidariamente e lhe estendeu uma garrafinha de água que tirou de sua mochila assim que ela se recompôs um pouco.
- Obrigada.- Juliet agradeceu com um soluço e começou a tomar a água.
Mr. Eko se aproximou deles e com um olhar sério e compenetrado, disse:
- A ilha os matou, se ficarmos mais tempo neste lugar, isso acontecerá com todos nós.
O grupo trocou olhares amedrontados, mas nada disseram naquele momento. A atmosfera daquele lugar e todos aqueles corpos enterrados naquela cova conjunta mereciam um minuto de silêncio. Sentindo-se fragilizada, Juliet começou a chorar, Jack a abraçou amigavelmente consolando-a.
- Eu não sabia de nada disso, nunca tinha visto...- ela tentou se justificar quando os olhares de todos recaíram sobre ela à exceção de Jack.
- Nós sabemos.- Jack respondeu por todos eles, confiando nas palavras dela. – Não fique assim, vai ficar tudo bem, você vai ver!
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- Por que será que estou com a sensação de que você pretende me fazer de tolo, Ben?- disse Locke a Benjamin depois de mais de uma hora de caminhada pela mata escura. – Duvido muito que um submarino possa estar enterrado na floresta.
- Existem muitas coisas enterradas nessa ilha John, e confesso achei até providencial você ter invadido o meu quarto armado esta noite, forçando-me a vir até aqui.
- E por quê?
- Por que tem coisas que desejo te mostrar, John. Se lembra sobre a nossa última conversa em que citei O Mágico de Oz?
Locke assentiu, intrigado.
- Então, estou te levando pela estrada de tijolos amarelos até ele.
Os dois continuaram a caminhada e Locke continha sua curiosidade para não fazer mais perguntas, já não apontava mais sua arma para Benjamin, estava mais interessado nas respostas que ele poderia lhe dar sobre a Ilha. Depois de um tempo que lhe pareceu eterno, Benjamin Linus finalmente parou à soleira de uma velha cabana em pedaços. Parecia uma cabana construída por um caçador.
- O que há aí dentro?
- Veja você mesmo e encontre as respostas que procura.
Hesitante, Locke abaixou um pouco a tocha que segurava para iluminar o caminho e caminhou em direção à porta de madeira. Deu um último olhar para Ben antes de entrar, indagando:
- Você não vem?
- Não.- respondeu ele. – Jacob quer ter uma conversa particular com você desde que chegou à ilha.
- Jacob está aqui dentro?
- Está John, eu não mentiria para você outra vez, agora entre!
John Locke finalmente adentrou a casa de madeira e assim que fechou a porta atrás de si uma luz muito forte emanou de dentro da casa escapando pelas frestas de madeira puída, Ben deu vários passos para trás e pensou consigo: "Agora é só esperar"!
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Depois de algum tempo examinando a cova conjunta que tinham encontrado no meio da floresta, o grupo liderado por Jack seguiu seu caminho rumo à Vila dos Outros. Enquanto caminhavam, Mr. Eko remoia várias coisas em sua mente, intrigado. Juliet um dia vivera na Vila dos Outros e por certo conhecia muito bem o caminho para se chegar até lá, porém alegou jamais ter visto aquela cova, que apesar de ter corpos recentes dentro dela, possuía também pilhas de esqueletos antigos, portanto era quase impossível que ela nunca tivesse visto aquela cova em sua vida. Estaria Juliet os levando para uma armadilha?
Aquilo não era impossível tendo em vista que ela se juntara ao acampamento dos sobreviventes havia poucos meses e antes disso seguira à risca todas as ordens de seu líder contra eles. Entretanto, antes de tomar qualquer medida com relação à médica ele deveria ter certeza se ela estava ou não do lado deles, e dependendo do que descobrisse, não importava o que Jack pensasse a respeito, ele iria desmascará-la diante de todos e proteger a integridade da comunidade.
Grossos pingos de chuva começaram a cair de repente, como já era noite, o grupo havia acendido tochas para iluminar o caminho, porém com a chegada da chuva ficou impossível mantê-las acesas.
- Precisamos de um lugar para nos abrigar.- disse Michael tentando se proteger da chuva colocando a mochila sobre sua cabeça, mas o aguaceiro desabou de vez e de nada adiantou seu gesto.
Jack começou a procurar com os olhos em meio à escuridão um lugar onde pudessem ficar, mas não havia nenhum abrigo visível. A chuva caía muito forte, e o frio começou a apoderar-se deles. Como bichinhos aturdidos encolheram-se defronte para uma árvore e começaram a esquentar-se uns nos outros como pintinhos. Estranhamente aquela noite, de repente havia se tornado a noite mais fria que eles enfrentavam naquela ilha.
- Eu disse que esse lugar era amaldiçoado!- insistiu Eko, limpando a água da chuva que caía por seu rosto em abundância.
Tiritando de frio e com os lábios assumindo uma coloração arroxeada, Juliet encostou seu corpo no de Jack, buscando calor. Ele não a afastou, mas de alguma maneira se sentiu desconfortável por ela estar tão perto dele.
- Acha que um dia vamos sair daqui e nossas vidas serão normais?- cochichou ela.
- Eu não sei Juliet.- ele limitou-se em responder, sentindo tanto frio quanto ela. Batendo os dentes, pensou em Kate, aquela ilha era estranha, estava chovendo no lugar em que estavam, mas talvez não estivesse chovendo no acampamento.
- Em que está pensando?- Juliet inquiriu. Jin tremia ao seu lado, praguejando em coreano por causa do frio.
- Em Kate.- Jack respondeu, e tentou sorrir para ela, mesmo com o frio. – Disco arranhado não é?- gracejou. – Mas não posso evitar, eu a amo.
- Eu sei.- respondeu Juliet, ela realmente sabia disso, mas não deixou de se sentir frustrada.
No acampamento, apesar do que Jack pensava chovia como onde ele estava, e fazia um frio tão terrível quanto. Envolta em dois cobertores dentro da cabana e aquecendo a pequena Lilly com seu corpo, Kate também pensava em Jack. Será que ele estaria bem? Ela gostaria muito de ter podido ir com ele para ajudá-lo e garantir que nada lhe acontecesse. Fechou os olhos e fantasiou por alguns momentos que ele estava ali, sorrindo para ela e tocando-lhe os cabelos com carinho, roçando a barba mal-feita em seu pescoço como ela tanto gostava e fazendo carinhos descarados embaixo do lençol.
A relação entre eles andava meio tensa e rotineira, mas isso não queria dizer que tinha parado de amá-lo, ela apenas estava confusa com as grandes mudanças que haviam se operado em sua vida, ou melhor, na maior de todas: aquele corpinho pequeno que ela protegia com todo zelo naquela noite fria, sua filha. Por ela seria capaz de qualquer coisa, coisas que jamais imaginou que faria.
Isso a fazia pensar em sua mãe, Diane, que lhe virou as costas nos momentos em que mais precisou, mas isso não aconteceria com Lilly, Kate estaria sempre ali por ela, pro que precisasse, o amor de mãe era o sentimento mais forte que já havia experimentado e a fazia sentir-se plena. Mas também sabia que isso tinha a ver com o fato de que Jack era o pai dela, isso deixava as coisas ainda melhores.
Ergueu levemente o cobertor para olhar para o rostinho expressivo da menina, dormindo e chupando o dedinho. Kate acariciou-lhe o cabelinho com ternura e começou a chorar baixinho.
- Ah Jack, você partiu daqui hoje, mas já não agüento de saudades, volte para mim meu amor...- sussurrou e voltou a deitar-se na cama, tentando adormecer.
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Os grossos pingos de chuva faziam barulho ao bater na janela, enquanto uma grande quantidade de água descia pela cale do telhado embaçando a visão do lado de fora. Estava muito frio, mas Ana-Lucia não conseguia ficar na cama. Havia trazido James para junto de si e vestido uma roupinha bem quente nele, além de enrolá-lo em um cobertor felpudo. O bebê dormia tranqüilamente depois de ouvir sua mãe cantar a canção que ele mais gostava.
Ela andava de um lado para o outro do quarto, enrolada em um roupão. Vez por outra verificava seu filho. Seu coração estava contrito, pois se preocupava com Sawyer lá fora com aquela chuva toda. Alex lhe garantira que Karl cuidaria dele, mas ela não conseguia relaxar. Precisava vê-lo nem que fosse por alguns minutos, mas como se livrar de Cindy que a vigiava do lado de fora.
Pensou, pensou, até que teve uma boa idéia. Deu uma última olhada em seu filho, reforçou a parede de almofadas que o protegiam para que ele não rolasse da cama e saiu do quarto. Cindy se levantou do sofá com a arma apontada para ela assim que a viu. Ana-Lucia balançou a cabeça negativamente.
- Não precisa apontar essa arma para mim. Acha que eu seria capaz de fugir com essa chuva e esse frio lá fora? Pôxa Cindy, pensei que fôssemos amigas.
Cindy abaixou a arma.
- Eu gosto de você Ana, não sei nem porque, mas gosto. Mas não pense que isso me fará desobedecer ordens diretas de Ben.
- E quem foi que falou que você teria que desobedecer a ordens dele? Eu não estou conseguindo dormir, sabe. Vou te confessar uma coisa, estou muito preocupada com o Ben. Aquele homem o levou e agora ele está lá fora na chuva e no frio...- Ana baixou a cabeça, fingindo estar desconsolada.
Cindy se aproximou dela com a arma abaixada e tocou seu ombro, tentando confortá-la.
- Não fique assim, Benjamin sabe o que faz.
- Eu sei, mas é que não consigo parar de pensar nisso. Ouça, porque não vamos até a cozinha tomar um chá pra ver se eu me acalmo.
- Acho que é uma boa idéia, eu também estou com muito frio e o chá vai me esquentar.- Cindy sorriu, assentindo.
As duas foram para a cozinha e Ana-Lucia fez questão de preparar o chá, mas não estava com boas intenções. Preparou chá de canela para as duas, mas no de Cindy colocou uma boa dose do mesmo sonífero que tinha usado em Benjamin. A mulher dormiria o tempo suficiente para ela verificar se Sawyer estava bem.
E foi exatamente o que aconteceu, depois do chá, as duas foram se sentar na sala e conversaram amenidades até que Cindy dormiu de repente, profundamente. Satisfeita, Ana foi até o quarto de Alex e pediu que ela tomasse conta do bebê James até que voltasse.
- Mas Ana, você não pode sair por aí nessa chuva, o frio está insuportável lá fora, você pode ficar doente.
- Eu preciso vê-lo Alex, preciso muito! Por favor, me diga onde o Karl está?
- Está bem, eu digo, mas se agasalhe bem e leve uma garrafa de conhaque com você, beba um gole quando sentir que não irá mais agüentar o frio. Ana assentiu e agasalhou-se bem com uma camisa quente, mais um pulôver por cima, colocou calças jeans e botas também. Pegou o conhaque no carrinho de bebidas de Benjamin e guardou-o consigo como Alex instruíra. Quando estava pronta, Alex disse a ela:
- Karl escondeu Sawyer numa gruta que fica além da horta, cerca de um quilômetro. Está oculta pela vegetação, mas procure com cuidado que a encontrará.
Ela lhe entregou um embrulho.
- Isso é para o Karl, roupas quentes e uma sopa.
Ana-Lucia sorriu, também estava levando o mesmo para Sawyer. Despediu-se de Alex e deixou a casa com um guarda-chuva, tendo o cuidado de não ser vista por nenhum vigilante de Benjamin. Roubou a arma de Cindy só para garantir sua segurança e a de Sawyer caso fosse pega. Seguiu pelo caminho enlameado até a horta, caminhou um quilômetro além dela e encontrou um ponto encoberto por extensa vegetação. Afastou com as próprias mãos os galhos e o mato e descobriu a gruta.
Karl ficou surpreso ao vê-la, estava tremendo de frio, encostado em um canto.
- Alex mandou essas coisas para você.- entregou o embrulho a ele e já ia perguntar por Sawyer quando ouviu a voz dele ao fundo da gruta, dizendo:
- È você, Analulu?
O som da voz dele enviou um choque elétrico por seu corpo, trazendo muito calor apesar do frio. Analulu! Era claro que ela se lembrava, costumava ficar muito zangada tempos atrás, quando ele a chamava assim.
- Sim, sou eu, cowboy!
Dessa vez foi o coração de Sawyer que disparou. Mais uma vez ela o chamara de cowboy, simples e espontânea como costumava fazer antes. Sua Ana estava de volta!
- Eu vim aqui, meu dengo, pra te aquecer do frio e cuidar de você...- ela sussurrou, roçando o nariz na ponta do dele.
Sawyer ainda estava bastante machucado da surra que levara de Benjamim e seus comparsas, mas nenhum ferimento doía mais desde que ela estivesse com ele.
- Amanhã teremos que pôr o plano em ação, se quiserem mesmo fugir daqui.
Ana e Sawyer sorriram cúmplices, o calvário de Benjamin Linus estava para começar, a vingança deles seria doce.
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No dia seguinte o sol estava alto no céu, brilhando, nem parecia que uma tempestade fria caíra à noite. Mas Aline ainda mantinha seu corpo enroscado ao de Desmond, passaram a noite inteira assim por causa do frio. A posição era confortável e nenhum dos dois estava reclamando.
Entretanto, de repente, Desmond se remexeu inquieto na cama e levantou-se de súbito. Aline se cobriu com o cobertor e ao ver os olhos vidrados dele, perguntou:
- Des, o que houve?
Ele não respondeu, pegou as calças e vestiu às pressas. Saiu correndo da cabana sem vestir a camisa e nem calçar os sapatos.
- Desmond! Desmond!- Aline gritou da porta da cabana dele com o cobertor enrolado em volta do corpo nu.
Mas Desmond sequer a olhou, continuou correndo pela areia ainda úmida da praia por causa da chuva na noite anterior. Emma, Walt e Zack construíam castelos de areia e gritaram quando Desmond passou por cima deles. O escocês saiu cortando todo mundo na praia até chegar à água e se atirar nela sem nenhuma explicação. A comunidade inteira parou para olhar. A Sra. Lewis gritou:
- Gente, tem alguém se afogando!
- È mesmo!- concordou Rose que estendia algumas peças de roupa no varal. – Será outra pessoa surgida do nada?
Os olhares se voltaram para Cassidy, que assim como os demais observava Desmond tentar salvar uma pessoa da água.
- Quem está na água?- questionou Sun com Jung no colo e segurando Aaron pela mão.
- Não sabemos!- disse a Sra. Lewis com ares de preocupação.
Desmond logo retornou com Claire no colo, ambos encharcados. Ela tossia e esperneava dizendo: - O Charlie, o Charlie...
- Mamãe!- disse Aaron querendo largar a mão de Sun para ir até sua mãe, mas a coreana segurou-o forte para que ele não corresse.
As pessoas se aglomeraram ao redor de Desmond e Claire. Ela continuava insistindo:
- Desmond, o Charlie está lá!
O escocês assentiu e retomando o fôlego voltou pra água. Mas dessa vez não foi sozinho, Paulo o seguiu deixando a camisa e os sapatos pelo caminho. Claire tentava respirar e foi ajudada por Shannon.
- O Charlie está lá Claire?- inquiriu Rose. – Como foi isso?
- Nós saímos pra dar um mergulho no mar, eu queria mostrar uma coisa a ele, mas a correnteza nos arrastou.- Claire respondeu com dificuldade.
Dentro da água, Desmond e Paulo enfrentavam as ondas à procura de Charlie. O mar ainda estava agitado por causa da tempestade que caíra na noite anterior. Finalmente o avistaram desacordado próximo à umas pedras. Com esforço, tentando vencer a correnteza, eles chegaram até ele. A água perto dele estava avermelhada, e eles temeram que Charlie estivesse muito ferido. Apressaram-se em tirá-lo da água e logo surgiram novamente na praia.
Claire já tinha se recuperado e correu até eles. Desmond depositou Charlie na areia, sangue escorria de um ferimento em sua testa, ele deveria ter batido a cabeça nas pedras.
- Oh Charlie!- gritou Claire, prostando-se ao lado dele. Sun havia levado Aaron para sua cabana, o menino era louco pelo pai e se o visse daquele jeito ficaria desesperado. – È tudo culpa minha, não deveria ter tido aquela idéia idiota, mas você sempre faz tudo o que eu quero...- murmurou ela acariciando os cabelos loiros ensopados dele.
- Todo mundo pra trás!- pediu Desmond. As pessoas se afastaram e ele começou a examinar o ferimento de Charlie. – Não está tão mal assim, brotha!- disse ele, apertando o ferimento com os dedos. Charlie deu um gemido de dor e disse, numa voz abafada:
- Só se for pra você, seu escocês imbecil!
Desmond sorriu e Claire levou às mãos à boca num gesto de felicidade.
- Ele está vivo!- anunciou Desmond.
Charlie sentou-se na areia, ajudado por Claire e Desmond.
- Dude, dude, você tá bem?- indagou Hurley que veio correndo esbaforido quando Philip contou-lhe que Charlie estava se afogando.
Libby veio correndo também, pois Nikki comentara com ela a caminho do chuveiro nas cavernas sobre o que estava acontecendo na praia. Ao vê-la, Desmond pediu a ajuda dela para cuidar do ferimento de Charlie já que Jack não estava presente. Hurley abaixou-se momentaneamente ao lado de Charlie para ver como ele estava e seu olhar cruzou com o de Libby. Estavam brigados há muito tempo, mas ele sentia falta dela, só não sabia como se reaproximar.
- Eu volto logo com os curativos, Des.- disse Libby, sem encarar os olhos de Hurley, aparentemente ainda estava muito zangada com ele.
- Eu vou ajudá-la!- avisou Hurley, se levantando e indo atrás dela.
- Vamos levar ele pra sombra.- falou Desmond segurando no braço esquerdo de Charlie enquanto Paulo pegava no braço direito.
Quando o recostaram a uma árvore, Claire sentou-se ao lado dele e disse:
- Foi minha culpa.
Desmond e Paulo se afastaram para dar-lhes privacidade.
- Sua culpa? Por quê?- inquiriu Charlie esfregando as têmporas, estava com dor de cabeça por causa do ferimento na testa, e ao fazer esse movimento seus dedos encharcaram-se de sangue.
- Porque fui eu quem teve a idéia estúpida de ir atrás daquele pássaro!
- Mas e se o pássaro possuir realmente um rastreador?- questionou Charlie. – Algo me diz que você tem razão Claire, isso poderia nos tirar dessa ilha! Ouça, nós vamos procurar pelo pássaro de novo, não vamos desistir!
Claire sorriu, assentindo antes de beijá-lo delicadamente nos lábios.
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Com a ajuda de Hurley, Libby encontrou logo as bandagens e o anti-séptico que precisava para fazer o curativo de Charlie. Pegou também uma agulha de ouriço e esterilizou com uma garrafinha de vodka, caso o corte precisasse de pontos.
Enquanto separavam o material na cabana que servia de enfermaria para Jack, eles não conversaram, mas assim que encontraram tudo e estavam voltando para junto de Charlie, Hurley puxou conversa:
- E como você está?
- Não estou falando com você, se lembra?
- Dude, você vai continuar com o jogo duro? Então tá bom!- disse ele, beijando-a nos lábios, surpreendendo-a.
Libby não correspondeu propriamente ao beijo, mas também não o repeliu. Hurley beijou-a por alguns segundos e depois se afastou correndo, como se ela estivesse preparada para atacá-lo. Ela, porém, apenas sorriu e o seguiu para a árvore aonde Charlie ainda conversava com Claire.
Depois que o ferimento de Charlie já estava devidamente cuidado, Desmond foi para a cozinha da praia e encontrou Aline picando algumas mangas. Ela lhe deu um olhar inquisidor, mas ele fingiu não percebeu e pegou alguns cubos de manga do pratinho onde ela estava cortando a fruta.
- Como sabia que havia gente se afogando? Escutou algum grito?- ela perguntou, sem fazer rodeios, encarando-o nos olhos.
Desmond não respondeu. Aline balançou a cabeça negativamente e recolheu o seu prato de manga, se afastando dele:
- Às vezes você me assusta!
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Depois de dormir ao relento numa noite terrivelmente fria, o grupo liderado por Jack prosseguia sua jornada. Caminhavam há cerca de três horas quando ele sugeriu que deveriam parar para comer e beber um pouco. Estavam próximos a um riacho límpido e a água era convidativa para que relaxassem nem que fosse por dez minutos. Havia também algumas mangueiras, onde eles colheram saborosas mangas.
Como o riacho ficava escondido atrás de algumas árvores, Juliet resolveu lavar-se. Não se lembrava mais quando fora a última vez em que tomara um banho decente. Talvez tivesse ficado mal-acostumada com o aconchegante chuveiro elétrico que tinha em sua casa na Vila.
Olhou para trás a fim de ver se os homens estavam bastante ocupados comendo e descansando, e então começou a despir-se. Retirou a camiseta verde escura desbotada, que ainda estava úmida da tempestade da noite anterior, tirou o tênis, a calça jeans e finalmente o sutiã entrando na água só de calcinha.
A temperatura da água estava agradável e ela sentiu vontade de mergulhar o corpo inteiro, mas não o fez porque não queria molhar sua peça de roupa íntima e não teria tempo de tirá-la para tomar um banho completo, pois o grupo logo partiria. Concentrou-se em lavar seu rosto, coxas, barriga, ombros. Soltou seus cabelos e deixou que eles cascateassem por suas costas. Tocou nos fios loiros encaracolados e ressecados pelo sol, podia parecer futilidade, mas sentia saudades de sua chapinha. Estava tão distraída que não ouviu passos se aproximando e continuou tomando seu banho improvisado, derramando água fresca debaixo dos cabelos, na nuca.
De repente, ouviu barulho de alguém caminhando dentro da água. Pensando ser um dos homens do grupo, ela cobriu os seios instintivamente com as mãos e se virou para ver quem era. Seus olhos alargaram-se ao constatar que não era nenhum dos seus companheiros de viagem. Gritou quando o homem avançou sobre ela, seguido do barulho inconfundível de três tiros e no momento seguinte o sujeito estava morto e sangrando em cima dela. Dentro da água e Juliet se debatia tentando respirar com água penetrando-lhe as narinas.
Jack enfiou a arma na calça jeans e correu para dentro da água. Os outros homens correram para o riacho ao ouvir o barulho dos tiros e chegaram a tempo de ver Jack retirar um homem morto de cima de Juliet que tremia dentro da água.
- Você está bem, Juliet?- indagou Jack.
Ela assentiu, ainda assustada. Jack tirou a própria camisa e deu para ela vestir enquanto Michael e Jin examinavam o homem morto na água. Mr. Eko permaneceu de pé à beira do riacho com seu cajado, observando.
- Amigo seu?- perguntou Michael a Juliet com o olhar sério.
Ela nada respondeu, e saiu da água segurando no braço de Jack.
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Benjamin havia voltado quando o sol raiou no horizonte, Ana-Lucia o viu chegar e deitar-se ao lado dela na cama, abraçando-a. Pensou no que acontecera, se John Locke ainda estaria vivo. Não queria que ele a abraçasse, tinha nojo dele, mas precisava ser forte, pois todo esse sofrimento logo acabaria e ela voltaria a ser abraçada pelo único homem a quem amava, James Ford. Fechou os olhos tentando esquecer onde estava e acabou perdendo-se em lembranças dolorosas de sua vida. Se aquela temporada ao lado de Benjamin Linus era um castigo por seus pecados, Ana-Lucia estava pagando um preço muito alto.
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(Flashback)
O barulho da música eletrônica era excessivamente alto e perturbava os ouvidos de Ana-Lucia, mas ela seguia altiva com sua arma em punho. Olhou para Derek Manning, seu parceiro, ele estava há alguns metros dela, também de arma em punho. Há pouco mais de vinte minutos haviam recebido uma chamada através do rádio do carro patrulha sobre aquela festa clandestina. Entretanto, talvez alguém tivesse avisado aos participantes da festa que a polícia estava chegando, por isso o local estava praticamente deserto, apenas com alguns viciados largados pelos cantos da casa.
Derek resolveu checar o andar de cima, enquanto Ana-Lucia checava o de baixo. Ela apressou-se em desligar o aparelho de som que tanto a incomodava. Foi nesse momento que viu um homem engatinhando para trás de um sofá e disse com firmeza, mas sem gritar:
- Parado agora mesmo! È a polícia!
O homem saiu detrás do sofá e ergueu as mãos para o alto, era praticamente um garoto e parecia muito nervoso, chorando e tremendo.
- Me desculpe dona policial, mas eu...- ele soluçou. – Por favor, não atire em mim, meu amigo me trouxe para esta festa, mas eu não sabia que seria assim.
Ana-Lucia deu um passo à frente na direção dele.
- Por favor dona policial!- ele parecia cada vez mais assustado. – Eu sou estudante, vou mostrar minha identidade...eu vou...
Ana abaixou a arma e no momento seguinte o barulho de um tiro doeu em seus tímpanos. Ela caiu para trás sem entender o que havia acontecido e sua mão apalpou o ventre onde uma dor lancinante se instalara. Mais três tiros. Sua mão encharcou-se de sangue, e ela começou a respirar pesadamente, tudo estava escurecendo.
- Derek, eu...- ela murmurou quando viu as botas do parceiro se aproximando dela.
- Seu desgraçado!
Foram as últimas palavras que ela ouviu antes de ficar inconsciente. Abriu os olhos no momento seguinte, pelo menos foi o que lhe pareceu. Mas não estava mais na casa onde ocorrera a festa clandestina. Estava em uma cama de hospital, fraca e dolorida. Tentou levantar por instinto e foi segurada por Danny. Viu sua mãe, de pé diante deles, com os olhos marejados.
- O que aconteceu? O que...- Ana começou a indagar transtornada.
- Você foi baleada, baby, mas vai ficar tudo bem- Danny assegurou, beijando-lhe as mãos.
- Não, não, mas...- ela continuou a dizer, se remexendo na cama.
- Ana, fique calma!- pediu a Capitã Cortez.
- Mamãe, o meu bebê, ele está bem? Me diga que ele está bem!
Há duas semanas, ela e Danny não se continham de felicidade, pois Ana-Lucia estava grávida do primeiro filho do casal, justo no momento em que se mudaram para sua casa nova.
- Mi hija...- murmurou a mãe e Ana já estava soluçando descontrolada. Ser mãe era o seu grande sonho. – Você levou um tiro no ventre, e começou a sangrar sem parar e o bebê não resistiu.
- Não, não, não!- Ana-Lucia gritou e Danny a abraçava tentando acalmá-la porque sabia que o pior ainda estava por vir. – Mas ainda podemos ter outro bebê, Danny, não podemos?
- Ana, o médico disse que o dano no seu útero foi irreversível e mesmo que você venha a conceber novamente...
Ana-Lucia caiu num choro convulsivo agarrada à seu marido, seu sonho de ser mãe estava destruído para sempre.
- Nós vamos superar isso, baby, nós vamos, eu prometo...
Raquel Cortez deixou o quarto, não agüentava ver a filha sofrendo assim. Ana estava desesperada, e em sua cabeça só passava uma coisa: vingança, vingança, vingança!
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(Fim do flashback)
O chorinho de James no quarto dele foi providencial para que Ana-Lucia pudesse se livrar dos braços indesejáveis de Ben. Quando ela se levantou da cama para ir ver o filho, Benjamin Linus levantou-se também. Tinha tido uma noite péssima, mas pelo menos havia se livrado de John Locke. Entrou no banheiro e pegou sua navalha para barbear-se. Fechou o armário do banheiro para mirar-se no espelho, ensaboou o rosto com espuma de barbear e começou a passar a navalha com precisão. Porém, uma visão atrás de si fez com que cortasse o próprio rosto com a navalha.
James Ford, o homem a quem assassinara covardemente com uma injeção letal estava atrás dele de pé, vestido com roupas esfarrapadas, sangrando e cheio de ferimentos pelo corpo numa visão fantasmagórica.
Benjamin Linus piscou os olhos azuis esbugalhados várias vezes para ver se não estava sonhando, e numa dessas vezes a imagem de Sawyer atrás dele desapareceu como que por encanto e ao invés de vê-lo, quando se voltou para trás deparou-se com os olhos negros inquisidores de Ana-Lucia segurando seu bebê.
- Você está bem?- ela inquiriu sem muito interesse. – Pensei ter ouvido você gritar.
- Então está ouvindo coisas, meu bem.- respondeu ele recuperando-se do susto, assumindo sua expressão cínica novamente. Aproximou-se dela e acariciou a cabecinha loira de James, o bebê fez carranca e biquinho de choro, mas Ben fingiu não notar isso. – O que acha de darmos um passeio hoje, Suzane? Só nos três!
Ana-Lucia encarou os olhos dele profundamente e disse:
- Meu nome é Ana-Lucia! E você está sangrando.
Sem dizer mais nenhuma palavra ela saiu do banheiro com o filho, deixando-o sozinho. Benjamin tocou o rosto ensangüentado, onde se cortara com a navalha e lançou mais um olhar para onde teria visto Sawyer. Balançando a cabeça negativamente ele resolveu ir cuidar do corte no rosto e esquecer o assunto.
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Mr. Eko e Michael examinavam o homem que Jack acabara de matar dentro do lago para salvar Juliet. Ele definitivamente não se parecia com ninguém do grupo o qual Juliet pertencera, e sim lembrava mais um dos membros do estranho grupo que atacou o acampamento meses atrás. Sua aparência era rústica e suas roupas esfarrapadas e sem etiquetas.
- Truque!- balbuciou Jin.
- Como?- indagou Michael.
- Truque!- repetiu Jin. – Outros!
- Você está achando que esse cara era um dos Outros disfarçado? Como daquela vez em que fomos perseguidos na floresta do outro lado da ilha?
- Yeah!- respondeu Jin.
Mr. Eko deu um olhar desconfiado ao corpo sem vida do homem e olhou para Juliet que estava encolhida num canto ao lado de Jack, o médico a examinava minuciosamente a fim de ver se ela chegou a ser ferida pelo homem.
- O que sabe sobre essas pessoas?- perguntou o nigeriano a ela, sem delongas.
- Não sei muita coisa.- Juliet respondeu com sinceridade. – Meu grupo os chamava de hostis, uma vez alguém me disse que eles habitavam essa ilha antes de nós, mas nunca achei que fossem nativos, apesar deles não falarem a nossa língua.
- Do jeito que ele tentou atacar você, com certeza seu grupo e o deles não tinham uma boa relação.- apostou Michael.
- Com certeza não, e isso desde antes de eu vir parar nessa ilha. Nossa comunidade sempre foi afastada da deles, aliás, eu não faço a menor idéia de onde seja a comunidade deles. Nossa Vila que fica uns cinco quilômetros naquela direção, para onde os estou levando.- ela apontou adiante. – È totalmente protegida por cercas elétricas que só podem ser ultrapassadas com o código.
- Você possui o código?- Jack perguntou.
- Eu sei de alguns, mas não posso garantir que eles não tenham mudado o código durante todo esse tempo em que estive afastada.
- Bem, se não conseguirmos entrar com o código, arranjaremos outro meio. Agora é melhor partirmos, antes que algum outro hostil resolva vir nos fazer uma visitinha.- disse Jack limpando o barro da calça jeans.
O grupo concordou e antes de partirem, cavaram uma cova profunda e enterraram o corpo do homem desconhecido. Eko fez questão de marcar o lugar com algumas pedrinhas e ainda fez uma breve oração pelo morto. Feito isso, o grupo seguiu seu caminho.
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- Kate! Kate!- chamou Hurley ao ver Kate caminhando para o varal improvisado em frente à sua cabana carregando um balde com uma porção de fraldas molhadas para estender.
- O que houve Hurley?- ela largou o balde na areia de uma vez só ao ver Hurley vindo na direção dela. – O Jack voltou?- os olhos dela cintilaram, um sorriso discreto começou a aparecer nos lábios.
- Antes fosse.- respondeu Hurley quando chegou bem perto dela.
- E o que aconteceu então?- o pequeno sorriso foi substituído por uma cara de frustração, esperava que Jack já tivesse voltado.
- O povo tá se matando lá na despensa, a comida tá acabando e ninguém quer dividir com ninguém o que sobrou, dude. A Dharma não tá mandando mais comida. Se continuar desse jeito...
Kate olhou na direção da despensa, havia um aglomerado de pessoas com rostos zangados, uma enorme discussão parecia ter se formado ali.
- Eu não sei o que fazer!- disse Hurley. – Tentei conversar com o povo, mas eles não me escutam! E o Jack não tá aqui pra resolver, nem o Locke, nem o Sayid, nem o Mr. Eko. Procurei o Desmond pra me ajudar, mas ele sumiu depois que salvou o Charlie e a Claire.
- Salvou o Charlie e a Claire, como assim?
- Longa história, eles quase se afogaram no mar, mas estão bem. O problema agora é outro! Como eu não sabia mais o que fazer, saí de perto e vim pedir sua ajuda, fiquei com medo de levar uma facada. Lembra o que aconteceu com o Bernard?
Kate franziu o cenho: - E o que você acha que eu posso fazer pra resolver isso, Hurley?
- Sei lá, dude! Vai lá e mostra a sua autoridade! O Jack não tá aqui, mas você está, é a mulher dele, vão te escutar!
Ela respirou fundo: - Tá bem, tá bem! Olha, vá pra minha casa e cuide da Lilly, ela deve estar quase acordando. Eu volto logo, vou tentar resolver isso!
- Sim, senhora!- Hurley bateu continência para Kate e correu para a cabana para ficar com a nenê.
Kate se dirigiu para a despensa e à medida que chegava mais perto podia ouvir as vozes alteradas de várias pessoas, discutindo. Libby era uma delas.
- Pois eu acho que temos de racionar a comida, as crianças devem comer melhor!
- E as grávidas também né?- vociferou Craig. – Ah, fala sério! Vou comer menos porque não tenho um filho na barriga, eu tenho um estômago, oras!
- Um estômago não, Craig!- gritou Debbie. – Você tem dois, come mais que todo mundo e não se importa se o resto vai ficar com fome.
- Gente, podemos pescar mais!- Sun tentava amenizar as coisas.
- E quando acabarem os peixes?- questionou Neil, muito negativo.
- Acabar os peixes? Você enlouqueceu, cara! Pra isso levaria muito tempo e...- dizia Pedro quando Kate passou no meio de todos e subiu na mesa.
- Calem-se todos vocês agora mesmo!- ela falou bem alto para ser ouvida.
As pessoas ficaram completamente em silêncio, olhos fixos em Kate.
- O que diabos está acontecendo aqui?- ela perguntou com seriedade. Todo mundo começou a falar ao mesmo tempo e Kate ergueu a mão para que se calassem novamente. – Um porta voz, por favor.- ela pediu.
Pedro deu um passo à frente e explicou a situação a ela:
- A comida está no fim, e a Dharma não manda mais nada há meses. Se não começarmos a racionar a comida e pensarmos em novas alternativas para nos alimentarmos, todos iremos morrer de fome.
- O problema, é que a maioria das pessoas aqui é muito egoísta para querer dividir o que restou da comida e também não estão preocupados em como vamos conseguir comida quando esta acabar.- disse outra pessoa.
- E por isso estão discutindo?- Kate pôs as mãos na cintura. Ninguém disse nada. Ela continuou: - Deveriam se envergonhar, já estamos aqui nessa ilha há quase três anos, ainda não aprenderam que devemos compartilhar, conviver da melhor maneira possível? Foi vergonhoso o que Steve fez com Bernard acidentalmente, ele e Dionna estavam brigando por comida ao invés de dividir. O que estamos nos tornando? Selvagens? Vamos virar canibais e devorar uns aos outros ao invés de buscarmos soluções para resolver nossos problemas?
- È fácil falar agora, Kate!- disse Paulo. – Mas quando toda a comida acabar de verdade, ninguém vai lembrar que somos civilizados. Eu, a Nikki, o Philip e o Sawyer encontramos uma fazenda na floresta, tinha comida lá, mas o lugar foi todo implodido, talvez existam outras fazendas como aquela, essa ilha é enorme, temos que procurar!
- Gostei da idéia, Paulo. Mas o lance aqui não é só ter idéias, temos que pô-las em prática.
- Sim, mas cadê o doutor?- perguntou Isadora, a filha da Sra. Lewis.
- E precisamos esperar por ele para tomarmos providências?- indagou Kate. – È claro que não. O Jack faz o melhor que pode, mas quando ele não está aqui para nos ajudar a decidir, temos que fazer a nossa parte.
- E se ele não voltar mais?- questionou a Sra. Lewis.
- Por que ele não voltaria? È claro que ele vai voltar! E logo!- falou Kate, com convicção.
- È, mas ele se embrenhou na floresta com aquela Juliet!- disse Aline. – Ela é um "deles", e se ela levou o grupo inteiro para uma armadilha?
- Não tem armadilha nenhuma!- bradou Kate. – Juliet agora faz parte da nossa comunidade e devemos confiar nela como o Jack confia. "Não acredito que estou dizendo isso", pensou Kate. – E vamos parar de ficar falando sobre o Jack, o que precisamos fazer agora é racionar o resto da comida. Depois que fizermos isso eu quero que formem um grupo para buscarmos novas fontes de alimentos e quero esse grupo formado até o entardecer. Só não irei participar do grupo porque todos vocês aqui sabem que tenho um bebê para tomar conta.
As pessoas assentiram e começaram a conversar entre si sobre quem iria se embrenhar na floresta atrás de comida. Kate desceu da mesa e começou a caminhar de volta para sua casa, pensando consigo no quanto queria que Jack voltasse logo. Hurley veio andando na direção dela com Lilly no colo, a menina chorava muito e ele cantava "I feel good" para ela, embora não estivesse funcionando.
- Oh! O que a minha princesinha tem?- indagou Kate quando pegou a pequena no colo.
- Acho que ela se aborreceu quando a peguei no colo, ela tentou mamar e se deu conta de que não era você.- ele respondeu embaraçado.
Kate deu um sorriso divertido e ninou Lilly nos braços, a menina parou de chorar imediatamente, ela havia pegado o jeito, sentiu-se orgulhosa de si mesma.
- Resolveu a parada lá na despensa?
- Eu acho que sim.- respondeu Kate. – Posso contar com você pra ajudar na racionalização da comida?
Hurleu sorriu: - Deixa comigo! Eu vou chamar a Rose pra me ajudar!
Kate assentiu e saiu caminhando com a filha de volta para a cabana, conversando com ela: - Já está com fome, bebê? Mamãe vai cuidar disso...linda da mamãe!
Lilly focou os olhinhos nela e deu seu primeiro sorriso.
- Oh, meu Deus! Você está sorrindo pra mamãe? O sol bateu no rostinho pequeno e Kate emocionou-se mais uma vez: -Seus olhos são como os do papai, tão lindos quanto os dele! Queria que ele estivesse aqui pra ver você sorrir! Mas ele vai voltar logo, eu sei que vai!
Continua...
