Sr. e Sra. Ford parte II
- Essa é a coisa mais estranha que eu já vi!- maravilhou-se Michael quando o grupo chegou até a cerca que protegia os limites da Vila dos Outros com a floresta. – Nossa, se um dia eu conseguir sair dessa ilha e lançar um negócio desses no mercado da construção, eu vou ficar rico!
Jin estendeu sua mão direita para tocar o vão entre os pilares quando foi impedido por um grito histérico de Juliet.
- Não faça isso! Você vai morrer! Não posso nem calcular a voltagem da eletricidade que corre entre esses vãos.
Mr. Eko não parecia impressionado, e Jack estava mais preocupado em atravessarem logo a cerca, por isso disse:
- Qual é o código, Juliet?
Ela assentiu e agachou-se ao lado de um dos pilares. Abriu uma pequena tampa, debaixo dela havia alguns botões numéricos, apertou-os e nada aconteceu.
- Está liberada?- inquiriu Jack.
Mas antes que ela pudesse responder, Eko atirou um enorme galho no vão da cerca. Faíscas saltaram e o grupo recuou pra trás.
- Caramba!- exclamou Michael.
- Acho melhor você tentar outro código.- pediu Jack.
Juliet tentou novamente, digitando outro código e Eko lançou outro galho a fim de ver se a cerca estava liberada. Dessa vez nada aconteceu, nenhuma faísca à vista.
- Acho que dessa vez acertei.- disse Juliet.
- È bom que tenha acertado!- falou Michael.
- Só tem um jeito de saber.- afirmou Jack e já ia se dirigindo para o vão quando foi parado por Mr. Eko.
- Eu irei, doutor. Você tem uma família que precisa de você.
E dizendo isso, Eko se colocou no vão entre os pilares, a tensão entre o resto do grupo cresceu, mas ao ver o padre do outro lado da cerca totalmente ileso, os ânimos se acalmaram e o resto do grupo atravessou a cerca sem problemas. Quando já estavam todos do outro lado, Juliet digitou novamente o código, lacrando a cerca outra vez.
- Por que fez isso?- perguntou Michael. – Ainda pretendo voltar pro acampamento e ficar com o meu filho.
- Nunca se sabe o que pode tentar entrar.- ela respondeu com seriedade.
O grupo seguiu e ao entardecer chegaram à Vila. Se esconderam entre os arbustos observando a movimentação do lugar.
- Cara, vocês tem uma cidade dentro da floresta? Vocês são loucos!
Jin balançou a cabeça, admirado.
- Será que o Sawyer, Sayid e Locke estão aqui?- inquiriu Jack.
- Só saberemos ao anoitecer quando todos estiverem dormindo e pudermos entrar sem sermos vistos.- disse Eko.
Nesse momento, a visão de uma mulher caminhando pelo o que parecia ser uma pracinha chamou a atenção de Jack. Ela trazia um bebê no colo, sorria e cumprimentava as pessoas.
- Não, eu não acredito, é a Ana-Lucia! – ele exclamou.
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- Ela passou pro lado deles?- inquiriu Michael, tão chocado quanto Jack ao ver Ana-Lucia vivendo entre os Outros.
Mr. Eko lançou-lhe um olhar sério, e disse: - Está se baseando em seu próprio comportamento tempos atrás para dizer isso?
Michael ia responder quando Jack pôs a mão no ombro dele, dizendo:
- Temos coisas mais importantes para nos preocupar agora, cara.
Michael assentiu e esquivou-se de responder à Mr. Eko, afinal de contas ele errara muito no passado com Ana-Lucia e Libby. Jack perguntou a Juliet:
- A que horas as pessoas costumam se recolher às suas casas?
- Por volta das sete da noite. Mas Ben sempre deixa vigias de prontidão em locais estratégicos. Sei exatamente onde ficam, portanto podemos burlá-los.
- Certo.- concordou Jack, ainda observando Ana-Lucia que agora se afastava, ele gostaria de falar com ela, mas aquele não era o momento. – Vamos esperar pelo anoitecer!
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Ana-Lucia estava com uma estranha sensação de que estava sendo observada desde que pôs os pés para fora de casa. Mas sabia que isso deveria ser paranóia sua, o plano estava dando certo, mesmo assim ela estava com medo que Benjamin Linus descobrisse que estavam tentando enlouquecê-lo.
Procurava ser simpática com todo mundo para que ninguém desconfiasse de nada, dessa forma poderia dar seguimento ao plano sem interrupções. Naquela manhã depois do almoço, ela fingiu estar limpando a cozinha enquanto Benjamin e Tom conversavam na sala de jantar, ouviu-os dizer que o iraquiano estava preso na estufa e que pretendiam dar um fim nele à noite porque o homem era uma ameaça ao grupo deles e um dos mais fortes do acampamento de sobreviventes do desastre aéreo.
Desastre aéreo. Aquelas palavras causaram-lhe arrepios e uma torrente de lembranças invadiu sua mente. Sim,ela era sobrevivente de um desastre aéreo, o vôo 815 da Oceanic, que partira de Sidney com destino à Los Angeles. Jamais foi casada com Benjamin Linus. Era incrível como desde que começara a enganar Ben, fingindo que tomava o medicamento injetável, sua memória começou a voltar rapidamente e uma das coisas que se lembrara a respeito de si mesma, foi que ela era uma pessoa extremamente vingativa e que Benjamin Linus iria pagar por tudo o que vinha fazendo com ela.
Por volta das quatro da tarde deixou a casa com o pretexto de que levaria James para dar uma volta. Benjamin estava preocupado com algo e não demonstrou interesse em acompanhá-la, como havia sugerido de manhã. Mesmo assim, Ana-Lucia tomou precauções, sabia que praticamente todos daquela comunidade tinham ordens para vigiar-lhe os passos. Caminhou pela pracinha, cumprimentou as pessoas com educação e fingido entusiasmo. Foi quando começou a ter a sensação de que era observada. No entanto, deixou isso de lado e continuou seu "passeio" com James, desviando-se propositadamente para a estufa.
Chegando lá, começou a conversar com o jardineiro animadamente, fingindo interesse nas roseiras. Sayid deveria estar em algum lugar ali dentro e ela iria encontrá-lo.
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(Flashback)
- Ana, Ana onde você está?- indagava Danny vagando pela casa em busca da esposa. Acordara no meio da noite e ela não estava ao seu lado na cama, outra vez.
Fora da casa caía uma chuva torrencial, o vento era tão forte que sacudia as vidraças das janelas, mesmo estas estando muito bem trancadas.
- Ana!- ele gritou novamente.
A casa estava escura, algum fusível deveria ter queimado. Naquele momento Danny amaldiçoou-se por ter alugado uma casa tão grande para duas pessoas. Grande o bastante para que ele tivesse que procurar por Ana-Lucia todas as noites. Sua mulher estava enlouquecendo desde que levara quatro tiros em serviço, quase morrera, mas os médicos a salvaram. Infelizmente para eles ela perdera o bebê que esperava e tornara-se estéril. Desde então, ela começou a agir estranhamente, passava horas trancada no quarto que seria do bebê, ou então esquecia-se das coisas com facilidade, não se alimentava direito e era um custo convencê-la a sair de casa.
Levantava no meio da noite e vagava pela casa como um fantasma. No início, Danny tinha muita paciência, pois a amava. Mas com o tempo ele começou a se cansar, sentia falta da esposa em todos os sentidos. Ela já não o beijava mais, fazer amor então estava fora de cogitação. Ana-Lucia tornara-se uma morta-viva dentro de sua casa.
- Ana!- sua voz ecoou no silêncio do corredor e ele viu a porta do quarto do bebê entreaberta, Ana-Lucia estava outra vez lá.
Balançando a cabeça negativamente, ele adentrou o quarto. Ela estava sentada em uma cadeira de balanço segurando uma manta. Ninava a manta como se tivesse um bebê nos braços.
- O bebê estava chorando, Danny.- ela disse. – Você não o ouviu?
Danny balançou a cabeça assentindo.
- Certo, mas ele está dormindo agora, querida?
- Está.- ela respondeu com um sorriso. A aparência dela era deplorável, Ana vestia uma camiseta velha dele, os cabelos cacheados bagunçados como se não os penteasse há dias, o rosto tinha uma expressão distante e seu sorriso, perturbador.
- Se ele está dormindo, coloque-o no berço e vamos voltar pra cama.
Ana-Lucia lançou o olhar para o vazio a sua frente, o único móvel que havia no quarto era a cadeira de balanço.
- Mas o berço não está aqui, Daniel! Para onde você o levou?
Danny ajoelhou-se aos pés dela e disse:
- O berço não está aqui porque nós nunca chegamos a comprá-lo. Você estava grávida de poucas semanas, Ana...
- Nãooooooooooo!- ela gritou, histérica. – O meu filho está chorando? Você não consegue escutá-lo Danny, por que?
Ela voltou a ninar a manta, e Danny afastou-se dela. Tomara uma importante decisão, internaria sua esposa em uma clínica no dia seguinte. Falaria com sua sogra, Raquel Cortez, não podia esperar mais, Ana-Lucia estava doente.
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(Fim do Flashback)
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- Pois é, eu gostaria de um ou dois galhos dessa roseira para ver se pegava na leira do meu jardim. Não tenho rosas e acho que ficaria mais bonito.- dizia Ana-Lucia para o jardineiro da estufa. James estava irrequieto em seu colo e esfregava o rostinho em seu ombro.
- Sim, eu posso lhe arranjar.- respondeu o jardineiro. – Mas o que o pequeno tem?
- Ele está com sede!- respondeu Ana-Lucia. – E eu acabei me esquecendo de trazer a mamadeira dele.
James fez biquinho e começou a chorar.
- Calma meu amor, mamãe já vai levar você pra casa, tudo bem? Ah, está tão quente hoje, não está?- Ana comentou balançando James para que ele se acalmasse.
- Se eu trouxer água num copo consegue dar pra ele?- indagou o jardineiro, com pena do bebê.
- Sim, é claro.
- Eu volto logo então.
Quando o homem se afastou para buscar água para James, Ana-Lucia riu levemente e beijou o filho.
- Pequeno golpista! Sei que não está com sede, está só fazendo manha pra mamãe não é?
James deu um sorriso sem dente e enterrou a cabeça no pescoço da mãe, como se a tivesse entendido.
- Certo, vamos usar o seu golpe e procurar o Sayid antes que ele volte.
Ela adentrou a estufa e saiu procurando em todos os cantos até encontrar um espelho nos fundos. Seu instinto dizia que não era um simples espelho e ao examiná-lo teve certeza, era uma porta falsa. Abriu e se deparou com uma saleta apertada onde Sayid estava algemado.
- Sayid!- ela chamou.
O iraquiano ergueu o rosto para ela.
- Me perdoe por não tê-lo ajudado antes, é que há dois dias atrás eu nem me lembrava de você e não estava em posição de fazer nada, ainda não descobri o que fizeram comigo, mas...
- Do que você se lembra exatamente?- perguntou Sayid.
- Eu lembro de como vim parar nesta ilha e da comunidade que criamos aqui.
- Pra mim é o bastante! Onde estão o Locke e o Sawyer?
- O Locke eu não sei, ontem ele foi com o Benjamin pra floresta, e apenas o Ben voltou, me preocupei a princípio se Locke estaria bem, mas depois me veio a lembrança de que John Locke sabe se virar muito bem na floresta, talvez ele tenha fugido.
- E o Sawyer?
- Ele está bem, mas precisamos fugir daqui o quanto antes. Embora eu tenha me lembrado sobre o acidente de avião e o acampamento, não tenho a menor idéia em que direção devo seguir para chegar até lá.
- Se me soltar, eu a levo de volta.
- Eu vou te soltar, mas não posso fazer isso agora. Daria muito na vista, voltarei à noite!
- Dona Suzane, onde a senhora está?- indagava o jardineiro à procura dela pela estufa.
- Preciso ir!
Ela saiu rapidamente da saleta, passando pela porta falsa e a trancando atrás de si. James ficara bem quietinho durante toda a conversa que sua mãe tivera com Sayid, mas quando Ana-Lucia caminhou na direção do jardineiro, o menino pôs-se a chorar novamente.
- Está aqui a água, tadinho, o garoto está morto de sede!
Ana-Lucia acariciou os cabelos do filho: - Sim, ele está! Obrigada!- ela pegou o copo e virou com cuidado na boquinha do bebê.
Depois devolveu o copo, pegou os dois galinhos de roseira que pedira ao jardineiro e deixou a estufa, pensando em como iria fazer para retornar lá à noite e libertar Sayid.
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Kate sorriu satisfeita quando foi chamada ao entardecer para falar com o grupo que seria voluntário para procurar alimentos para a comunidade na floresta. Seu sermão não havia sido em vão, afinal.
- Muito bem, pessoal!- disse ela. – Eu desejo boa sorte a todos e espero que tragam muita comida para nós ao retornarem. Ma peço que tenham cuidado e evitem o território sombrio.
- Dude, eu não passo perto daquele lugar por nada nesse mundo!- comentou Hurley que era o líder do grupo formado por ele, Paulo, Steve, Dionna, aparentemente os dois estavam tentando se entender, Amanda, Andrew e Neil.
Todos os sobreviventes estavam reunidos próximo à despensa para ver o grupo partir. Hurley ergueu uma bandeira que havia confeccionado para a missão. Na bandeira havia os seguintes dizeres: " Tudo pela nossa pátria"!
Kate riu, sim, três anos naquela ilha era o suficiente para que começassem a considerá-la sua pátria.
- Bem, vocês já tem a minha benção, agora vão em paz e voltem logo!- disse ela, o grupo começou a se despedir de seus entes queridos.
- Você não vem mesmo com a gente?- indagou Paulo ao se despedir de Nikki.
- Não, eu vou ficar aqui.
- Você vai ficar bem? E se ele...
- Ele não vai fazer nada, sei me cuidar, Paulo.
- Deveríamos desmascará-lo!
- Não até eu compreender os motivos dele.- retrucou Nikki.
Paulo assentiu e a abraçou.
- Vambora Paulo!- chamou Andrew, impaciente.
O grupo já estava partindo quando Libby venceu seu orgulho e gritou por Hurley:
- Hurley!
Ele voltou-se e caminhou na direção dela.
- Me perdoe por não ter contado a você sobre a Juliet, mas eu prometo que quando você voltar, eu te explico tudo o que você quiser saber.
Hurley sorriu e a beijou diante de todos. O casal foi aplaudido com entusiasmo. Ele acariciou a barriga de Libby e voltou para junto do grupo. Rose se aproximou de Kate ninando Lilly e comentou com ela:
- Com mais um grupo partindo, nossa comunidade está ficando cada vez mais desprotegida.
- Não Rose, ainda estamos aqui e somos duronas!- respondeu Kate piscando para Rose e pegando Lilly dos braços dela.
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Quando veio a noite, Jack e seu grupo prepararam-se para entrar na Vila e resgatar seus amigos. Conforme prometera, Juliet mostrou quais eram os pontos estratégicos aonde haveria pessoas vigiando. O grupo dividiu-se para vasculhar a vila e encontrar Locke, Sayid e Sawyer. Juliet foi com Michael, e Eko com Jin. Jack foi sozinho para a casa de Benjamin, onde viu Ana-Lucia entrar com o bebê James.
Deu a volta pelos fundos e descobriu que a porta da cozinha estava destrancada. Entrou e se escondeu na primeira porta que encontrou no corredor. Na sala de jantar, Ana-Lucia havia acabado de servir a comida para Benjamin, estava pensando seriamente em fugir naquela noite mesmo. Libertaria Sayid, e partiria com Sawyer e seu filho. Sentou-se à mesa com Ben e começou a comer em silêncio, maquinando sua fuga.
- A carne está ótima hoje, Su...
Ana-Lucia dirigiu um olhar sério a ele.
- Ana-Lucia.- ele disse por fim.
- Obrigada.- ela respondeu mecanicamente.
Ele tomou um gole de sua taça de vinho.
- Está quente.- queixou-se.
- Quer que eu vá buscar gelo?- Ana se ofereceu.
- Pode deixar que eu vou.- disse Ben, levantando-se da cadeira e indo para a cozinha.
Enquanto procurava gelo no congelador da geladeira, Benjamin sentiu alguém passando atrás de si, como um vulto. A sensação foi tão forte que ele deixou cair a cuba de gelo no chão. Ia chamar Ana-Lucia na sala de jantar mas escorregou nos cubos de gelo e caiu sentado. As luzes se apagaram de repente e ele ouviu uma voz dizer, bem próximo dele:
- Isso vai ter volta!
- Ana!- Benjamin chamou, mas ela não respondeu.
De repente, as luzes se acenderam de novo e ele viu Alex, de pé diante dele.
- Está tudo bem, pai?
Ela estendeu a mão para ajudá-lo a levantar-se.
- Onde está a Ana-Lucia?- ele caminhou até a sala de jantar, o prato dela estava largado na mesa.
- Eu não sei.- respondeu Alex. – Eu entrei aqui e o encontrei gritando no escuro.
Ana-Lucia estava no quarto de James, contendo-se para não rir do olhar de pânico estampado na cara de Benjamin Linus. Estava indo checar o filho que dormia no bercinho quando foi agarrada por trás e uma mão grande e forte tapou sua boca. Ela arregalou os olhos, assustada, o braço que a prendia era musculoso e tatuado. Isso lhe pareceu familiar.
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Jack encarou os olhos negros de Ana-Lucia e ainda com a mão direita tapando sua boca, levou o dedo indicador da mão esquerda aos lábios pedindo silêncio. Ela assentiu com um movimento da cabeça e ele retirou a mão que cobria os lábios dela. No entanto, antes que pudessem trocar qualquer palavra escutaram a voz de Benjamin chamando por Ana. Ela indicou a Jack um pequeno closet que havia no quarto, o médico correu para lá e se trancou dentro do armário.
Ben entrou logo em seguida com uma cara raivosa e indagou a Ana-Lucia em voz alta sem se preocupar se isso acordaria ou não o bebê.
- Foi você quem desligou as luzes?
- Shiiiii! Fale baixo!- ela pediu. – Vai acordar o bebê!
- Estou pouco me importando, mulher dos diabos! Me responda, foi você quem apagou as luzes?
Como era previsto, James começou a chorar escandalosamente dentro do berço, mexendo os bracinhos e as perninhas, muito irritado por ter sido acordado.
- Olha só o que você fez!- reclamou Ana-Lucia indo até o filho. – Oh bebê, não chora, aqui está a mamãe! Oh, meu Deus para que tantas lágrimas?
- Cale já a boca desse menino que eu quero falar com você!- Benjamin bradou.
Ana-Lucia revirou os olhos enquanto sacudia James junto ao corpo, dando tapinhas nas costas do bebê.
- Com você gritando desse jeito é impossível que ele fique quieto. Oh amorzinho, não chora, não chora!
- Faça qualquer coisa, coloque o bico do peito na boca dele que ele se cala!- disse Ben, fazendo pouco caso do bebê, isso irritou Ana-Lucia e ela desferiu um olhar mortal para Linus.
- Saia agora mesmo daqui se não quiser que eu tire você à força, está perturbando o meu filho!
O fogo da ira que viu nos olhos cor de ébano foi suficiente para que Benjamin Linus deixasse o quarto. Preocupado com a agressividade de sua "esposa", ele resolveu mentalmente que a dosagem das drogas deveria ser aumentada, pois Ana-Lucia estava voltando a ser exatamente do jeito que era, e isso não o agradava. Além disso, ainda havia o fato dos estranhos acontecimentos que estavam ocorrendo com ele em sua casa desde a manhã quando se cortara com a navalha de barbear. Estaria ficando louco ou alguém estaria tentando enlouquecê-lo? Precisava descobrir isso o quanto antes, pegou um walk-talk e se trancou em seu quarto, precisava falar com Richard.
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Quando parou de ouvir a voz de Benjamin Linus dentro do quarto, Jack deixou o armário e foi até Ana-Lucia que ainda tentava acalmar seu bebê, sem sucesso, o menino estava mesmo irritado.
- Eu posso?- sugeriu Jack, estendendo os braços para pegá-lo.
Ana assentiu, conhecia aquele homem, ele lhe inspirava muita confiança. Jack pegou o bebê que esperneava nos braços da mãe e começou a embalá-lo levemente, conversando com o menino:
- Hey garotão, que saudade de você! Cresceu muito, hein?- o bebê começou a fitar Jack com curiosidade, mas ainda soluçava, emitindo gritinhos roucos.
Jack sentou-se com ele em uma cama de solteiro que havia no quarto e começou a examiná-lo, tocando-lhe com interesse a garganta.
- O que está fazendo?- inquiriu Ana.
- A garganta dele me parece inflamada.- comentou Jack.
Ana-Lucia fitou os olhos dele e de repente viu-se deitada no chão sentindo muita dor, uma mulher de olhos claros apertava sua barriga e esse mesmo homem segurava suas pernas e dizia: - Ana, o seu filho está nascendo! Você vai conseguir!
Zonza com essa lembrança, ela se apoiou no berço de James. Jack viu a mudança de semblante dela.
- Você está bem?
- Jack!- ela pronunciou o nome dele, sabia exatamente quem ele era.
- Está com amnésia?- Jack inquiriu, James havia se calado e agora chupava o dedo polegar de Jack com muito interesse.
- Sim. Mas uma amnésia provocada.- Ana-Lucia explicou. – Estou sendo drogada há um bom tempo por esse homem que se dizia meu marido, mas desde que parei de tomar as injeções, as lembranças estão voltando.
- Do que se lembra?
- Eu me lembro do acidente, lembro de algumas pessoas, acabei de me lembrar de você.
- E o Sawyer?- Jack perguntou, em dúvida se ela se lembrava do pai de seu filho.
- Caipira dos infernos!- ela disse com um sorriso, que fez Jack sorrir também.
- Ele veio atrás de você, não conseguia acreditar que estava morta.
- Eu sei, ele me encontrou.
- Você sabe onde ele está agora?
- Yeah, ele está aqui nesta casa agora mesmo!
- Precisamos sair daqui!
- Sim, precisamos.- concordou Ana-Lucia. – Mas não antes que eu me vingue de Benjamin Linus!
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- Quieto, Hurley!- reclamou Paulo quando ele deu mais um passo fora do perímetro demarcado pelo brasileiro. – Desse jeito o porco vai saber a milhas de distância que o estamos caçando.
- Como se você fosse o grande caçador!- retrucou Hurley.
- Silêncio vocês dois, eu acho que ouvi alguma coisa!- falou Neil, que vinha atrás de Steve e Dionna.
- O quê?- perguntou Amanda.
- Vocês são patéticos!- reclamou Andrew. – Não podemos só ficar espreitando onde a gente acha que tem porco, temos que criar armadilhas como o Locke fazia.
- O Locke faz falta.- comentou Dionna, prendendo os cabelos loiros com uma caneta mastigada. – Por onde será que ele anda?
- Sabe Deus!- falou Steve, caminhando pausadamente para trás de Dionna. Acabou esbarrando em Amanda, que praguejou e disse:
- Cuidado Steve, não quero levar uma facada!
Hurley, Neil e Andrew riram. Steve fechou a cara e Dionna se manteve neutra. Paulo estava mais concentrado na grande caçada.
- Gente, eu acho que deveríamos levantar acampamento, montar armadilhas e...- começou a dizer Hurley quando uma luz muito forte vinda do céu cegou a todos.
Instintivamente eles cobriram os rostos com as mãos. Seguido às luzes um barulho ensurdecedor tomou conta do ambiente e o grupo inteiro jogou-se no chão tentando se proteger de algo que sequer podiam enxergar.
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Tom entrou alvoroçado na casa de Benjamin, sem nem ao menos bater na porta. Ben estava vendo TV e sobressaltou-se ao ver Tom na sala, altas horas da noite.
- O que houve? Cadê o Richard?
Richard entrou logo em seguida com mais dois homens arrastando Jin e Michael pelos colarinhos.
- O quê? Como eles entraram aqui?- bradou Benjamin.
- Juliet está nos traindo Ben.- disse Tom. – Ela deve ter entregado a eles o código da cerca elétrica!
- Juliet está com vocês?- Benjamin indagou com voz calma, mas os olhos estavam mais esbugalhados do que de costume.
Os dois permaneceram calados, ele se irritou:
- Respondam-me!
- Talvez ela não tenha vindo, tenha apenas dado o código a eles!- disse Ana-Lucia entrando na sala com uma arma apontada para Jack que mantinha os braços para o alto. – Encontrei esse intruso na cozinha.- disse ela. – Alguém pode me dizer quem são essas pessoas?
Não estava sendo difícil manter o teatrinho, pois afora Jack, Ana-Lucia não se recordava de Jin e Michael, embora seus rostos não lhe parecessem estranhos, especialmente o segundo. Olhar para ele de alguma forma a fazia sentir-se incomodada, ela só não sabia o porquê.
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(Flashback)
Sentia-se sozinha, terrivelmente desamparada. E era a primeira vez na vida que se abria diante de um estranho e já não dava a mínima. Não conseguira matar Henry Gale, embora ele o merecesse depois de tudo o que fez a ela e àquelas pessoas assustadas que teve de proteger por mais de quarenta dias. Mas estava cansada, ao invés de proteger queria ser protegida.
Michael pediu-lhe a arma que roubara de Sawyer alegando que mataria aquele homem vil sem pensar duas vezes e que faria isso em nome de seu filho seqüestrado. Entregou a arma à ele sem pensar duas vezes e escorou-se na parede, ainda sentada no sofá puído e mofento da escotilha, semicerrou os olhos e ouviu-o dizer, quase num murmúrio:
- Me desculpe.
- Desculpar pelo quê?- inquiriu abrindo os olhos, mas mal pronunciou essas palavras e sentiu fogo queimando suas entranhas. Não, aquilo não podia estar acontecendo novamente, olhou para baixo e viu sangue molhando sua blusa preta. Estava fraca muito fraca.
Eis que então, mais alguém entrou na escotilha. Era Libby, pôde discernir mesmo com a visão embaçada, ela carregava alguns cobertores.
- Michael!- disse ela com os olhos verdes esbugalhados, mas foi atingida com um tiro certeiro da mesma arma que atingira Ana-Lucia segundos antes. Sua boca se abriu em horror.
"Não, Libby!"- sua voz gritou dentro da mente. Por que Michael estava fazendo aquilo? Ela tentava raciocinar em meio à dor e um instinto inexplicável de sobrevivência se apoderou dela. Ana-Lucia fechou seus olhos e fingiu estar morta.
Michael se aproximou dela, sua mão tremendo ainda segurando a arma. A viu ensangüentada de olhos fechados e teve medo de tomar-lhe o pulso para ver se ainda vivia, deveria estar morta, tinha que estar morta. Deu continuidade ao plano, entrou no depósito de armas e libertou Henry Gale, dando um tiro no próprio braço em seguida.
Alguns minutos mais tarde, Jack, Sawyer, Kate e Locke chegaram à escotilha. Jack foi acudir Michael que parecia confuso e ferido enquanto Locke correu a apertar o botão, Sawyer se abaixou ao lado de Libby em meio à poça de sangue para saber se ela estava viva e Kate se aproximou de Ana, tomando-lhe o pulso.
- Ela está viva!- gritou.
O coração de Michael deu um pulo dentro do peito e começou a bater muito apressado quando Libby começou a tossir sangue no rosto de Sawyer, as duas estavam vivas, as duas o delatariam, ele estava perdido.
- Ana, pode me ouvir?- indagou Kate, próximo ao ouvido dela.
Ana-Lucia gemeu e com esforço, balbuciou:
- Bastardo! Bastardo...
(Fim do Flashback)
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- Bastardo!- Ana-Lucia gritou de repente, apontando a arma de Jack para Michael.
Ele se assustou e deu um passo para trás colidindo com Jin. Ana-Lucia estava trêmula, seus olhos cheios de fúria.
- Você atirou em mim.- ela despejou as palavras encarando Michael.
Benjamin Linus deu um sorriso de triunfo, ela estava confusa. Ele tinha certeza que ela acabara de se recordar de quando Michael atirou nela a pedido deles para libertá-lo da Escotilha em troca da liberdade do filho, acordo que nunca foi cumprido por parte dos Outros, mas isso era só um pequeno detalhe.
- Você se lembrou querida do que esse homem fez a você?- ele indagou tocando os ombros trêmulos de Ana-Lucia delicadamente.
Jack preocupou-se percebendo a confusão no olhar dela.
- Ana-Lucia se você se lembra disso, então sabe porque Michael o fez e você o perdoou.
- Não!- ela gritou. – Esse desgraçado atirou em mim, eu podia estar morta agora. Ele não é confiável, você não é confiável!
Ela agora estava apontando a arma para Jack que mais uma vez colocou seus braços para o alto.
- Ana, você tem que confiar em mim!- ele pediu. – Nós nos conhecemos antes do acidente. Você não se lembra? Conversamos no aeroporto, você se queixou que te colocaram para sentar em cima das rodas do avião, na poltrona 42 F.
- Eu não quero saber!- Ana bradou. – Você está tentando me confundir, isso sim!
- Me dê a arma Ana.- pediu Ben – Eu vou trancar esses visitantes indesejados na antiga escola, depois decidimos o que faremos com eles.
- Eu não sei!- ela balançou a cabeça negativamente. – Eu quero matar esse homem!- ela gritou, puxando o gatilho em direção a Michael.
O estômago dele se contraiu de medo e Jin gritou o nome de Ana acrescentado de várias palavras em coreano, incompreensíveis aos presentes. Ela não atirou, mas continuou tentada. Tom e Richard permaneciam imóveis observando, apontando seus aparelhos de choque para Jin e Michael.
Ben fez um sinal discreto para que Richard que estava mais perto de Ana-Lucia desse um choque nela por trás, mas nesse exato momento as luzes se apagaram.
- Outra vez?- queixou-se Benjamin, mas sentiu um soco certeiro em seu rosto fazendo-o cair para trás, se contorcendo de dor.
Apertou os olhos, mas pôde ver alguns vultos correndo de um lado para o outro em meio à escuridão e ouviu socos e gritos. Um tiro foi dado e ele engatinhou para trás do sofá no intuito de se proteger. De repente, completamente acuado, ele sentiu uma presença diante dele, e um fósforo foi aceso. Olhos azuis brilharam perigosos para ele.
Benjamin deixou escapar um grito abafado.
- Não! Você está morto! Como pode isso?
Sawyer deu uma gargalhada de deboche e as luzes se acenderam.
- Ah Benny, foi tão divertido assustar você! Mas cansei de bancar o fantasma!
- Como conseguiu isso? Quem te ajudou?
- Isso agora não interessa! O que interessa Magneto é que agora os X-Men estão assumindo.
Ele olhou ao seu redor, Tom e Richard estavam acuados em um canto com armas apontadas para suas cabeças por Juliet e Sayid.
- Juliet, sua desgraçada!
Juliet riu e jogou um beijinho para Ben debochando dele.
- Eu te disse para não se colocar no meu caminho Linus, você não presta! Eu jamais deveria ter aceitado vir para essa ilha!
De Juliet, Benjamin olhou para Ana-Lucia. A confusão que estava estampada nos olhos dela momentos antes havia se desfeito por completo, ela sorria ao lado de Jin e Michael. Triunfante, ela caminhou na direção dele apontando sua arma com fúria.
- Finalmente chegou a hora de eu me vingar de você. Vai pagar por tudo o que me fez, por ter me obrigado a ficar com você todos esses meses, nunca mais vai encostar um dedo sujo em mim!- ela cuspiu nele e preparou o gatilho.
Sawyer segurou em seu braço:
- Lulu, eu o odeio tanto quanto você por ter te levado pra longe de mim com o nosso filho, mas não vamos matá-lo! Morrer é muito pouco pro que ele merece.
- Não Sawyer, dessa vez eu vou matá-lo, como devia ter feito antes do Michael atirar em mim!- ela gritou partindo para cima dele com a arma, mas estranhamente as luzes voltaram a se apagar.
- Dessa vez não fui eu!- avisou Sawyer.
Ana-Lucia sentiu um soco na boca do estômago e gritou. Começou um novo corre-corre. Benjamin aproveitou para fugir. Objetos começaram a voar pela sala como que estivessem sendo atraídos por algum tipo de magnetismo. Sawyer jogou-se ao lado de Ana.
- Você está bem?
- O James...- ela murmurou.
A casa virou um pandemônio. Facas começaram a ser arremessadas das gavetas da cozinha na direção deles, uma delas feriu o braço de Juliet e ela gritou, sendo amparada por Jin que coincidentemente estava ao seu lado.
- Mas o que está acontecendo aqui?- bradou Jack.
O piano começou a tocar sozinho. Sawyer apertou Ana-Lucia junto de si.
- Venha Jacob, venha até mim!- gritou Benjamin de algum lugar que eles não podiam identificar.
Um choro alto de bebê foi ouvido. Ana se desesperou:
- O meu bebê!
Objetos continuavam a voar de um lado para o outro. Michael teve que abaixar a cabeça para não ser acertado por um quadro da parede. Com esforço, Ana-Lucia e Sawyer conseguiram chegar até a porta do quarto de James. Ela o havia deixado no quarto.Tentou girar a maçaneta, mas a porta não abria, James continuava a berrar. Isso fazia o coração de Ana doer.
- Meu amor, já vou pegar você, eu já vou filhinho!
Sawyer tentava arrombar a porta. As luzes se acenderam. Ana olhou para a sala, não havia mais ninguém dentro da casa além deles, todos haviam corrido para fora. Gritos podiam ser ouvidos do lado de fora também, parecia que todo mundo havia ficado louco. Sawyer deu mais alguns chutes na porta e finalmente esta se abriu. Eles correram para dentro e Ana praticamente se atirou sobre o berço pegando o filho nos braços. O menino estava vermelho de tanto chorar.
- Calma, mamãe pegou você, pegou você mi amor.
Sawyer abriu uma gaveta e pegou uma grande quantidade de pertences de seu filho jogando em uma sacola. Entregou uma manta a Ana que cobriu James de imediato.
- Vamos sair daqui, Ana!
Ela assentiu, mas quando eles iam tentar passar pela porta, esta começou a abrir e fechar sem parar. Sawyer não tentou entender o que era aquilo, apenas segurou a mão de Ana e correu para a janela.
- Me dê o bebê e pule! Eu o entregarei para você.
Ana fez isso de imediato passando as pernas pro lado de fora da janela, Sawyer entregou James a ela e passou também. Eles saíram correndo pelo gramado da vila e ficaram horrorizados com o que viram. Pessoas caíam ao chão e tremiam sem parar até a morte.
- Meu Deus!- exclamou Sawyer. – Onde estão o Jack e os outros?
- Eu não sei, eles sumiram.- afirmou Ana apertando James nos braços.
Um cheiro estranho tomava conta do ambiente, um odor tão forte que os deixava zonzos.
- Hey!- gritou Jack da porta da antiga escola, acenando para eles.
- È o Jack!- falou Ana-Lucia.
Eles correram para lá e Jack disse a eles:
- Não sei o que está acontecendo, mas uma grande quantidade de gás tóxico foi liberada, tomem isso!
Ele estendeu uma máscara na direção de Ana-Lucia.
- È para o bebê! O nível tóxico só está aumentando, logo não iremos agüentar.
- Esse gás pode nos matar?- inquiriu Sawyer.
- Eu não sei.- respondeu Jack com dificuldade, tão zonzo que mal se agüentava em pé.
Ana-Lucia apressou-se em colocar a máscara em James, ele ainda chorava e se debateu quando ela fez isso. Uma vez que o bebê estava protegido, ela e Sawyer também começaram a sentir os efeitos do gás venenoso. Jack já havia caído no chão.
- Eu te amo...- Ana murmurou para Sawyer sentando-se com James no chão.
Ele segurou a mão dela e aproximou seus rostos, fechou os olhos e beijou-a na boca e foi dessa maneira que eles sucumbiram, caindo um ao lado do outro, desacordados.
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Desmond tomava um pouco de sopa servida em uma tigela feita de casca de coco ao lado de Aline na despensa quando teve uma estranha visão, tão atordoante que fez com ele deixasse a tigela cair na areia. Aline espantou-se.
- O que foi Des? Está tendo pesadelos acordado, agora?
Kate que também jantava com eles também estranhou o jeito de Desmond e balançando suavemente o cestinho de vime onde Lilly tinha adormecido a pouco, disse logo após a indagação de Aline.
- Você parece que viu alguma coisa.
- E vi irmã.- respondeu ele. – Vi pessoas morrendo!
LOST
Continua no próximo episódio...
