Flores de papel parte II

Jack sorriu feliz ao ver Kate e a recebeu em seus braços levantando-a do chão enquanto ela se enroscava no corpo dele, usando as pernas como apoio. Eles começaram a se beijar e por alguns momentos se esqueceram das outras pessoas que estavam ali.

Ana-Lucia olhou para Kate e a reconheceu de imediato.

- Kate!- disse ela e Sawyer a beijou de leve na face.

- Então você se lembra da sardenta, cupcake?

Quando Jack e Kate finalmente se separaram, ela viu Ana-Lucia sentada no chão com o bebê James. Ficou emocionada em vê-los e correu até eles, abraçando Ana sem cerimônias.

- Você está viva, minha amiga. Nem acredito! E o James? Como ele cresceu.

- Eu me lembro de você.- disse Ana-Lucia em meio ao abraço. – Pedi a você que tomasse conta do James se algo acontecesse comigo.

- Pena que não pude cumprir minha promessa.- lamentou Kate, acariciando a cabecinha do bebê. – Vocês estão bem?

- Agora estamos.- ela deitou a cabeça no ombro de Sawyer, que sorriu para Kate.

- Hey, sardenta!

- Sawyer!- ela o abraçou.

- Você já teve o bebê? O doutor não nos contou nada.

- Você também estava grávida.- Ana se lembrou.

- Sim, eu tive uma menina e mal posso esperar para voltar para ela. Mas precisava achar meu médico teimoso e fujão!

Jack abraçou Kate por trás e beijou seu pescoço.

- Onde estão os outros, brotha?- indagou Desmond.

- Ainda não sabemos.- respondeu ele. – Mas agora, tendo encontrado vocês minhas esperanças se renovam em encontrar Juliet, Michael, Sayid e Locke.

- Seguimos em frente então.- disse Sawyer, ajudando Ana a se levantar do chão com o bebê. – Pelo jeito, encontraremos o resto do grupo no caminho.

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- Vamos parar um pouco, preciso ir ao banheiro.- disse Juliet, embaraçada.

Sayid olhou para ela e concordou.

- Está bem, mas não mais que dois minutos.



Eles caminharam até a copa de algumas árvores.

- Vire de costas, não quero ser observada!

- Por certo!- respondeu ele, dando as costas a ela.

Ficou olhando para o horizonte até que viu uma nuvem negra se aproximar.

- Você já terminou?- ele perguntou.

- Sim, estou me vestindo. Você disse dois minutos e ainda não passou nem um, por que está me apressando?

- Porque tem algo vindo na nossa direção.

Juliet fechou o botão da calça e olhou para onde Sayid estava olhando.

- Corra!- foi tudo o que o ouviu dizer antes dos dois dispararem por entre as árvores, ainda algemados.

Juliet corria o máximo que suas pernas podiam agüentar, mas sentia que seu fôlego falharia a qualquer momento. Sayid, que puxava seu braço esquerdo sem piedade, motivado pelo medo do desconhecido e correndo com a habilidade mecânica de um soldado a arrastava para um caminho que parecia sem fim enquanto a perseguição implacável do monstro de fumaça seguia sem trégua.

- Não posso mais...- ela murmurou tentando respirar, mas Sayid não ouviu ou fingiu não ouvi-la, apenas deu mais um puxão em seu braço, o que fez Juliet urrar de dor.

Ainda correndo, Sayid avistou algo parecido com uma toca no meio do mato alto, atirou-se lá levando o corpo esguio de Juliet consigo. Ficaram lá quietos, enquanto a fumaça negra passava acima de suas cabeças como uma onda.

Quando restou apenas a poeira deixada para trás, Sayid suspirou de alívio e voltou-se para Juliet. Ela soluçava baixinho e parecia sentir muita dor.

- O que houve?- ele perguntou.

- O meu braço!- ela chorou mais alto. – Acho que o desloquei enquanto fugíamos, está doendo tanto!

Sayid observou o braço dela e viu que ela tinha razão, ele parecia mal-colocado. Sentiu-se culpado por tê-la puxado com tanta força. Com a mão que não estava presa à dela, examinou o braço de Juliet com cuidado.

- Que está fazendo?- perguntou Juliet, ainda em lágrimas.

- Seu braço não parece fraturado, creio que será necessário apenas colocá-lo no lugar.

- Como é que é?

- Farei isso.- ele segurou o braço dela. – Vou contar até cinco!

- Sayid, não!



- 1, 2, 3...

- Sayid!

- 5!- disse ele e o que se ouviu a seguir foi o medonho som de osso sendo estalado e o grito de dor desesperado de Juliet ecoando pela floresta.

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Um grupo formado por seis pessoas revirava a floresta que cercava a praia onde vivia a comunidade de sobreviventes do vôo 815, Sun tinha uma intuição forte de que havia alguém escondido por ali e Cassidy, Craig, Charlie, Paulo e Shannon juntaram-se à ela na busca pelo intruso que poderia saber algo sobre o paradeiro da pequena Clementine.

Depois de uma busca de meia-hora, o grupo resolveu dividir-se em dois pequenos grupos de três pessoas para vasculhar melhor o lugar. Sun, Cassidy e Paulo foram na direção da queda d'água e Shannon, Craig e Charlie seguiram para o antigo acampamento nas cavernas.

- Vocês olham os antigos chuveiros, enquanto eu procuro entre as cavernas que desabaram. Lá seria um excelente esconderijo por causa das pedras soltas.- disse Shannon quando ela e seus companheiros chegaram às cavernas.

- Então devemos ir com você.- falou Charlie. – E se você encontrar o intruso primeiro e estiver sozinha? Pode ser perigoso!

- Não estou sozinha.- disse Shannon levantando a pistola que trazia nas mãos. Quase três anos naquela ilha e ela guardava poucos resquícios em sua personalidade da menina tola e indefesa que fora um dia. Viver naquela ilha a tinha transformado em uma mulher forte, que sabia muito bem como enfrentar as adversidades, além disso, com Sayid aprendera a se defender muito bem sozinha e a manejar armas para sua proteção.

- O Sayid não vai gostar de saber que a deixamos correr algum risco quando ele voltar.- comentou Craig.

- Eu não me importo se ele irá gostar ou não.- respondeu ela. – Além disso, nem sei se ele irá voltar.- o tom de voz saiu frio, mas em seu íntimo, Shannon sofria a incerteza de não saber se veria seu marido outra vez. – E parem de me olhar como dois idiotas, procurem onde eu falei!

- Sim, chefe!- respondeu Craig, com ironia.

- Quando foi que ela ficou tão agressiva assim?- indagou Charlie a Craig enquanto se afastavam.



Craig deu de ombros. Shannon caminhou para o outro lado, para a parte das cavernas que desabaram quando Jack descobriu o lugar e quase foi vítima do desabamento se não fosse por Charlie ter se oferecido para salvá-lo. Andou com cuidado por entre as pedras, checando a entrada das cavernas.

Inevitavelmente, ao olhar para o local onde funcionava a antiga enfermaria de Jack lembrou-se do irmão, Boone. Ficou alguns segundos olhando para o lugar, já fazia muito tempo que ele se fora, mas ela ainda lamentava isso a cada dia, pois ele era sua única família e agora não tinha mais ninguém, a não ser Sayid. Mas o tinha realmente ao seu lado ou seu casamento era uma ilusão?

Seus pensamentos foram interrompidos por um estranho som. Shannon apurou os ouvidos, não podia ser, mas parecia um choro. Um choro de criança.

- Charlie! Craig!- ela gritou, se esquecendo de que não podia gritar perto das cavernas, não era seguro. Algumas pedras desabaram na direção dela e ela se afastou de um salto. – Charlie! Craig!- gritou de novo quando já estava em segurança e os dois homens apareceram correndo.

- O que foi?- perguntou Charlie.

- Eu ouvi um choro de criança, aqui perto. Vamos vasculhar!

Os três seguiram na direção onde Shannon tinha escutado o choro e começaram a retirar pedras e olhar tudo no local.

- Eu ainda não ouvi nada, Shannon.- disse Craig.

- Mas eu tenho certeza que ouvi, tenho certeza!

- Mamãe! Mamãe!- disse uma vozinha chorosa, vinda de perto.

O coração de Shannon acelerou, ela não estava errada, a filha de Cassidy estava ali e ela precisava encontrar aquela criança.

- Vocês ouviram isso?- indagou ela.

- Dessa vez eu ouvi!- afirmou Craig.

- Eu também!- disse Charlie.

- Ela está aqui em algum lugar!

Eles começaram a retirar pedras sem parar e o choro da criança foi ficando cada vez mais audível, até que Charlie fez um esforço e retirou uma pedra grande que os estava impedindo de passar e eles ficaram abismados com o que viram.

- Oh Deus, é uma garotinha!- exclamou Charlie.

Ao ver os três, a menina ficou assustada e chorou mais alto abraçando um ursinho de pelúcia encardido. Estava suja, com manchas escuras visíveis em seu rostinho 

redondo, os finos cabelos loiros oleosos, quase grudados em seu pequeno rosto. Os olhos eram de um tom de azul profundo, e pelo seu tamanho, não deveria ter mais do que três anos.

Shannon afastou os dois homens, sussurrando:

- Deixem que eu resolva isso, sou muito boa com crianças.

Eles se afastaram e ela agachou-se ao lado da menina.

- Olá princesa, meu nome é Shannon. O seu é Clementine não é?

A menina olhou para ela com expressão confusa, piscando os olhinhos azuis.

- Está tudo bem, vou cuidar de você, vou te levar pra sua mãe.

- A mulher disse isso também.- disse a menina, surpreendendo Shannon.

- Que mulher, baby?- indagou Shannon, tentando ser natural para não assustar ainda mais a criança.

Clementine olhou para Shannon ainda abraçada ao ursinho e respondeu:

- Tina.

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- Estou feliz em ver você, mas sabe que não deveria ter vindo atrás de mim.- disse Jack para Kate em voz baixa.

Ela ergueu uma sobrancelha:

- Qual é Jack? Não acredito que vai me passar sermão agora.

- Você deixou a Lilly, ela é sua responsabilidade! Você é a mãe dela!

- E você é o pai!- completou ela, irritada. Odiava quando Jack bancava seu protetor, como se ela não pudesse resolver as coisas sozinha.

Eles deram mais alguns passos, um ao lado do outro enquanto o resto do grupo vinha caminhando logo atrás.

- Se quer saber estamos tendo sérios problemas com a falta de comida no acampamento e isso porque você não deu atenção devida ao Hurley quando ele te falou sobre isso. Mas eu fiz o que era preciso a respeito.

- O que você fez, Kate?- ele indagou, divertido.

- Conversei com as pessoas, e ficou decidido que um grupo partiria para caçar. Eu disse a eles que precisávamos nos unir pela nossa sobrevivência ao invés de ficar brigando. Fui prática, só isso!

Jack a beijou no rosto.

- Pois você se saiu muito bem, princesa. Com você lá, ninguém mais vai precisar de mim.



- Não fala bobagem, Jack!- repreendeu ela, buscando o abraço dele. Ele envolveu um de seus braços na cintura dela e eles continuaram o caminho, abraçados.

Logo atrás do casal vinham Jin e Sr. Eko. O padre observava Ana-Lucia com o canto do olho, aparentemente ela ainda parecia não se lembrar dele, mesmo assim, estava feliz por vê-la sã e salva com o filho que tanto quis nos braços.

Jin também observava Ana-Lucia com seu filho e Sawyer ao lado dela, com cara de bobo, pronto a fazer-lhe todas as vontades. Observava também Jack e Kate vez por outra discutindo, vez por outra trocando um beijo. Sentiu saudades de Sun e seu filho, pensando no quão frágil era o ser humano e em como a vida de alguém poderia mudar por causa de uma única decisão.

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(Flashback)

Não importavam quantos banhos tomasse Jin não se sentia limpo, suas mãos e seu corpo estavam sujos de sangue para sempre. O horror estampado na face de sua doce Sun quando o vira chegar em casa daquele jeito não o deixava.

- O que você fez?- ela indagara com a face lívida, as mãos trêmulas.

- Faço o que seu pai me manda fazer.- foi sua resposta. Mas Jin sabia que fora uma resposta tola, porque nunca fora dono de seu próprio destino.

Desnorteado, ele deixou sua casa depois da briga com Sun, pegou o carro e saiu sem destino.

- Sinto cheiro de peixe em você!- dissera um de seus primeiros patrões durante uma entrevista. Jamais se livraria desse estigma da pobreza, de ser considerado um sub-homem. Não merecia Sun, não merecia ninguém. Sequer merecia aquele carro importado que dirigia.

Rodou por muitas avenidas até ir parar num dos bairros mais pobres de Seoul, onde a criminalidade reinava e ele poderia fazer o quiser entre a classe que pertencia, a dos sub-homens.

Estacionou o carro em uma rua movimentada pelo intenso comércio de comida e outros produtos, pagando a um garoto para que tomasse conta de seu carro, embora sem ter certeza de que o veículo estaria lá quando ele voltasse.

Caminhou pela calçada se desviando dos transeuntes e finalmente viu as luzes vermelhas piscando. Há quanto tempo não ia até ali? Suspirou e adentrou mal afamado lugar. Na sala de entrada vários homens divertiam-se com belas mulheres, utilizando drogas lícitas e ilícitas, mas Jin não estava interessado em nenhuma delas. Apenas uma.



Quando viu Jin adentrar o local, uma mulher gorda fumando numa piteira se aproximou dele.

- Há muito não o vejo por aqui.

- Onde ela está?- Jin indagou.

- Na Tailândia.- respondeu a mulher, soltando uma grande quantidade de fumaça no rosto dele.

- É mentira! Onde ela está?

- A mulher deu uma gargalhada e fez um sinal com a cabeça para que um homem fosse buscar a quem Jin procurava.

Alguns minutos depois ela descia as escadas para o primeiro andar, usando uma capa preta, com seu ar misterioso de sempre.

- Achara!- murmurou Jin.

- Olá Jin!- respondeu ela.

(Fim do Flashback)

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- Socorro, alguém me ajude! Alguém me ajude!

Kate apurou os ouvidos.

- Jack, ouviu isso?

- O quê?

Eko ficou sério, também tinha ouvido.

- Socorro!- a voz repetiu.

Os outros ficaram atentos, também tinham escutado.

- Michael!- disse Jin. Tinha reconhecido a voz dele. – Michael!

- Socorro!

- È o Michael!- concordou Kate e o grupo seguiu na direção dos gritos.

Ana-Lucia se manteve a uma certa distância com James no colo, apenas observando. Jack, Eko e Desmond socorreram Michael que parecia ter caído em uma espécie de poço. Alguns minutos depois, ele estava a salvo e juntou-se ao grupo. Jack ficou feliz por ter recuperado mais um de seus companheiros de missão.

O grupo seguiu viagem, mais animado, esperançosos de encontrarem Sayid no caminho. Apenas Jack parecia preocupado em encontrar Juliet. Michael não soube explicar como fora parar ali depois da confusão na casa de Benjamin Linus. Só sabia que tinha acordado na floresta e se perdera, indo parar naquele poço de onde fora resgatado.



Todos ouviam a história dele com atenção, apenas Ana-Lucia parecia apreensiva. Sawyer se aproximou dela e colocou o queixo em sua cabeça, carinhoso, dizendo:

- O que foi meu dengo?

- Não confio nesse homem.

- Você tem suas razões, baby.- Sawyer beijou a cabeça dela. – Mas não se preocupe, não importa o que aconteça estamos juntos, e eu vou proteger vocês.

James começou a conversar com seus pais, fazendo barulhinhos divertidos com a boca. Eles sorriram.

- Me deixe levá-lo um pouco, você está cansada.

Ana assentiu e entregou o bebê para ele.

- Hey, garotão, vem com o papai!- Sawyer levantou James no ar, brincando com ele e o menino deu uma gostosa risada. – Ah, você gosta disso, não gosta?- ele balançou o filho um pouco mais e o menino soltou outra risadinha.

Ana-Lucia assistia à cena emocionada, era maravilhoso ver pai e filho juntos, brincando. Isso sem falar na semelhança entre eles, impossível negar a paternidade de Sawyer.

- Hey, vocês dois!- chamou Jack. – Vamos!

- Vamos!- disse Ana, dando um beijo rápido nos lábios de Sawyer, e outro na bochecha de James. Pegou a bolsa com os pertences de James, colocou nas costas e o grupo seguiu.

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Cassidy estava desolada, sentada à soleira da casa de Rose e Bernard. Lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto enquanto ela se pensava em seus sonhos desfeitos. Tudo o que sempre quis na vida foi ter uma família e ser feliz. Achou que tivesse encontrado isso quando se casou com Bryan Philips, mas estava enganada. Conheceu Sawyer e achou que dessa vez tinha encontrado a felicidade. Mas tudo deu errado outra vez.

Sawyer era um maldito golpista e não hesitou em roubar todo seu dinheiro. Denunciou-o à justiça, era verdade, mas nem por isso deixou de amá-lo e quando descobriu estar grávida, esse amor só aumentou. O procurou na prisão para falar sobre a filha, e ele a rejeitou. Porém, algum tipo de milagre aconteceu e ele foi atrás dela conhecer a filha e dizer que estava disposto a reatar, a ter uma família de verdade com ela.



No entanto, mais uma vez foi privada disso quando Sawyer foi dado como morto em um terrível acidente de avião, seu corpo enterrado para sempre no fundo do mar. Essa fatídica notícia a deixou louca, em completo desespero e a única coisa que a mantinha sã era sua pequena Clementine, sua filha querida, um pedacinho do único homem que amou em toda a sua vida. Agora, até a filha tinham tirado dela, quando a levaram para esta ilha. Cassidy se sentia vivendo um pesadelo real e tinha desistido de tentar descobrir se estava acordada ou dormindo.

Enterrou o rosto entre as mãos e começou a chorar convulsivamente. Porém, seu pranto sofrido foi interrompido pela voz de Debbie vinda da praia, soando com um certo tom de urgência.

- Tia Cassie! Tia Cassie!- dizia ela.

Cassidy ergueu os olhos chorosos e não acreditou quando viu uma criança nos braços da sobrinha, sua filha Clementine.

- Clemen! Oh Deus!- ela exclamou levantando-se do chão e correndo até Debbie.

- Mamãe!- gritou Clementine ao reconhecer a mãe e pulou do colo de Debbie para correr na direção de Cassidy.

Cassidy finalmente alcançou a filha e a pegou no colo antes que ela tropeçasse na areia fofa da praia e caísse. Soluçando, apertou a filha junto de si e chorou até não poder mais. A comunidade inteira correu para assistir ao reencontro

- Então ela estava mesmo falando a verdade?- disse a Sra. Lewis, surpresa ao ver Cassidy acalentando a filha em seu colo.

- Eu nunca duvidei disso.- afirmou Amanda, que desde o princípio sentira que a filha de Cassidy não estava muito longe, sua intuição psíquica lhe dissera isso.

- Quero só ver quando o Sawyer voltar.- comentou Neil.

- Por que?- indagou Aline.

- Ora por que!- retrucou ele. – O Sawyer foi pra floresta procurar a Ana-Lucia e trazê-la de volta junto com o filho deles, mas agora apareceu uma outra mulher dele aqui na ilha e com uma filha, como será que o cara vai se atar com duas famílias?

- Eu não queria estar no lugar dele.- disse Steve.

Shannon assistia à cena do reencontro entre Cassidy e Clementine de uma certa distância, estava feliz por ter encontrado a menina e a trazido de volta para sua mãe, mas também estava intrigada com o que a criança lhe contara sobre Tina estar com ela e ter lhe prometido levá-la até a mãe. Tina estava desaparecida há cinco meses, desde a explosão da escotilha e Shannon fora testemunha de seu desaparecimento. Clementine 

ter mencionado o nome dela não fazia nenhum sentido, estaria a menina falando da mesma Tina? Cristina Macphee, passageira do vôo 815 da Oceanic Airlines?

- Ainda está pensando no que a menina disse não é?- indagou Charlie, se aproximando de Shannon.

- Estou sim.- respondeu ela.

- Mas a Tina explodiu junto com a escotilha, todo mundo sabe disso, você disse que ela ficou lá dentro enquanto você fugia.

- Ela me disse para ir embora!- lembrou Shannon com pesar. – Disse que me veria em outra vida. Preciso encontrá-la!

- Mas você nem sabe onde procurar.- disse Charlie.

Sun se aproximou deles, vinha carregando Jung no colo.

- O Hurley me contou o que a criança disse sobre Tina.

Shannon franziu o cenho:

- Mas eu não contei nada pro Hurley.

Charlie deu de ombros.

- Ah claro, você contou!

- Shannon, eu não acho uma boa idéia você se embrenhar na floresta e procurar pela Tina, isso pode ser uma armadilha, ela sumiu há tanto tempo, não deve estar viva.

- Ana-Lucia também sumiu há muito tempo, mas o Sawyer não desistiu de procurar por ela.

- Mas pelo que eu saiba, Ana-Lucia não foi vista à última vez dentro de uma escotilha em chamas. Shannon, a possibilidade dela estar viva é muito remota. Vai ser muito arriscado se você for.

- Eu posso ir com ela.- disse Charlie. – Foi divertido procurar a garotinha esta tarde e olha só, nós a encontramos.

- Eu também vou.- disse Hurley, se aproximando. Trazia nas mãos um generoso pedaço de porco assado e estava de muito bom humor por estar se alimentando bem outra vez.

- Vão pra onde?- indagou Claire, trazendo Aaron pela mão.

- Ajudar a Shannon a encontrar a Tina.- respondeu Hurley.

- Encontrar a Tina? Que história é essa, Charlie?- indagou Claire.

- Shannon acredita que a Tina possa estar viva e nós vamos tentar encontrá-la.

- Sun, você atirou em alguém hoje à tarde. E se atirou na Tina?- questionou Shannon. – Ela pode estar ferida em algum lugar, precisando de ajuda.

- Shannon, se fosse a Tina por que ela fugiria?- retrucou Sun.



- Eu não sei, mas eu vou encontrá-la.- Shannon pegou sua pistola que estava presa ao cós da calça e verificou as balas.

- Já está escurecendo, por que não começam a procurá-la de manhã bem cedo?

- Sun, você não entende? Eu devo isso a ela. Seja lá o que Tina fez na escotilha para nos salvar funcionou e não podemos negar ajuda a ela agora.

- Eu concordo.- disse Aline que escutara a conversa. – Apesar de tudo, Tina era minha amiga e eu quero encontrá-la.

- Então não esperemos mais!- falou Shannon.

- Oh Charlie, será que você não consegue mais ficar quieto aqui na praia? Sempre tem que estar procurando confusão?- reclamou Claire.

- Eu voltar logo minha princesa.- disse ele, beijando-a e abraçando-a. Sentiu um puxão em sua calça jeans e olhou para o pequeno Aaron que tentava chamar sua atenção.

- Pai!- disse o menino, com o semblante sério.

Charlie afagou os cabelos loiros e cacheados do menino.

- Papai tem que sair, mas vai voltar logo e trazer um presente pra você, hã?- Charlie abaixou-se e beijou a cabeça do filho. – È melhor eu ir andando.

Claire revirou os olhos.

- Eu te amo, Claire.- disse Charlie afastando-se.

Hurley voltou-se para ela:

- Claire, diz pra Libby que eu dei uma saída pra ajudar a Shannon a resolver um galho. Eu mesmo diria a ela, mas ela está dormindo agora e vai ficar zangada quando acordar e não me encontrar em casa. Sabe como é, acabamos de fazer as pazes.

Claire sorriu, assentindo.

- Eu espero que não aconteça nada com eles.- falou Sun.

- Vai ficar tudo bem.- disse Amanda, com segurança, colocando-se entre as duas.

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- Já está escurecendo.- disse Juliet olhando para o céu que começava a adquirir um brilho azul escuro e pequenas estrelas despontavam entre as nuvens. O braço dela ainda latejava de dor do momento em que Sayid resolvera pôr o osso deslocado no lugar, mas tinha que admitir que tinha sido a melhor coisa a ser feita. – Ainda acha que é uma boa idéia voltarmos à Vila?

Sayid parou de andar. Seu braço também doía devido ao esforço de arrastar outra pessoa com ele para andar conforme o seu ritmo.



- Algo me diz que Jack e os outros não estão mais na Vila, não depois de toda aquela confusão que aconteceu.- continuou Juliet.

- Como pode ter tanta certeza?- questionou Sayid. – Continuo achando que você sabe mais do que está disposta a dizer. – O que foi que aconteceu na Vila? Eu me lembro de estar acorrentado em uma espécie de estufa. Ana-Lucia tinha ido falar comigo para dizer que me ajudaria a fugir e de repente eu acordo no meio da selva algemado à você. Creio que está faltando uma peça do quebra-cabeças.

- Eu salvei sua vida.- disse Juliet.

- Salvou minha vida?

- Eu sabia que Ben faria isso. Se as coisas se complicassem ele usaria o gás contra vocês.

- Gás? Que tipo de gás?

- Existe uma usina de energia nessa ilha.- revelou Juliet. – É de lá que vem a energia elétrica que abastece a ilha e é também onde são produzidos dois tipos de gás, uma dessas substâncias é mortal, e Benjamin já a usou uma vez, matando muitas pessoas. Como estamos vivos, acredito que ele usou o outro gás e apenas nos deixou desacordados por algum tempo.

- Você disse que me salvou, como fez isso? Por acaso você é imune ao tal gás?

- Não.- respondeu ela. – Quando percebi o que Benjamin pretendia fazer, fugi, encontrei máscaras anti-gás na estufa e peguei uma. Vi você lá também, já estava desmaiado. Então eu te arrastei para a floresta e nos algemei.

- O quê?

- Isso o que você ouviu. Eu tinha guardado a chave no meu bolso, mas na hora em que você me arrastou pela selva creio que a perdi.

- Por que fez isso? Por que se algemou comigo?

- Porque eu queria ter algum tipo de cumplicidade com você, queria que confiasse em mim. Já estou há cinco meses em seu acampamento, algumas pessoas ainda demonstram desconfiança em relação a mim, inclusive a Kate e acho que isso é perfeitamente compreensível, mas você Sayid, é o pior de todos. Você não sabe nada ao meu respeito e me condena.

- Não acredito que criou todo esse teatrinho só para conseguir minha confiança.

- E deu certo?

Sayid não respondeu à pergunta dela, apenas disse:

- Vamos voltar para o acampamento.



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Quando a noite caiu, Jack decidiu que eles deveriam fazer uma última parada antes de prosseguirem. Já estavam perto e provavelmente nas primeiras horas da manhã chegariam ao acampamento. Kate estava muito ansiosa para voltar e ter sua filha nos braços outra vez, estava preocupada com a alimentação da criança, mas sabia que Rose não deixaria faltar nada à menina.

Enquanto Jack, Sawyer, Desmond, Michael e Jin saíam para procurar frutas ali por perto, Kate foi sentar-se ao lado de Ana-Lucia e ficou observando-a alimentar seu bebê.

- Ele é tão saudável.- disse ela. – Você tem cuidado muito bem dele.

Ana-Lucia sorriu e disse: - Meu filho é a coisa mais importante do mundo pra mim.

- Eu tenho me esforçado.- falou Kate. – Mas não sei se tenho sido uma boa mãe pra Lilly e se as coisas vão melhorar no futuro, eu me sinto tão perdida com essa nova responsabilidade.

Ana balançou o bebê em seus braços e beijou-lhe levemente na testa.

- Você seria capaz de fazer qualquer coisa por sua filha?- indagou.

- Sim.- Kate respondeu. – Tudo o que eu quero é que ela seja feliz.

- Então você será uma boa mãe.- disse Ana-Lucia.

James fechou os olhinhos, havia acabado de adormecer e Ana-Lucia o afastou gentilmente para ajeitar a blusa. Kate a ajudou pegando James dos braços dela com cuidado e Ana aproveitou para fechar os botões da blusa.

Kate ficou balançando James em seu colo por alguns momentos e Ana pediu a ela:

- Pode segurá-lo mais um pouco pra mim? Eu vou providenciar uma cama pra ele.

Ela assentiu e continuou acalentando o bebê.

- Você é tão lindo, pequeno Sawyer!

Ana começou a juntar algumas roupas dela tentando improvisar uma cama quando Eko apareceu com um pequeno cesto feito de palha trançada e o estendeu para ela.

- Acho que o pequeno ficará confortável aqui.- disse a voz grave.

- Obrigada.- agradeceu Ana. A presença daquele homem ao lado dela a fazia sentir-se estranhamente segura, como se ele fosse um bom e confiável amigo. – O seu nome é...

- Eko.- respondeu ele, se afastando para outro canto.

Ana-Lucia colocou as roupas dentro do cesto e a caminha de James estava pronta. Voltou até Kate e o pegou dos braços dela, depositando-o na caminha. Jack, Sawyer, Desmond, Michael e Jin voltaram naquele momento com as mãos carregadas de mamão e mangas.



- Jantar!- exclamou Kate.

- Você quer manga?- indagou Michael a Ana-Lucia e instintivamente ela puxou o cesto onde o filho dormia para mais perto de si.

- Pode deixar que eu cuido dela, Mike.- falou Sawyer indo sentar-se ao lado de Ana.

Michael assentiu e se afastou com Jin.

- Baby, ele não te fará nada.- disse Sawyer, destrinchando uma manga para dar a ela. – Não fique preocupada, você só está confusa ainda porque não se lembrou de tudo.

- È uma intuição estranha que tenho a respeito dele, Sawyer.

- Me dá um beijo.- disse ele e Ana-Lucia o beijou nos lábios. – Tenho uma surpresa pra você quando voltarmos ao acampamento. Você se lembra como eram as barracas onde vivíamos?

Alguns flashes passaram pela mente de Ana, rapidamente e ela assentiu, lembrando-se.

- Pois o lugar que vamos morar agora é muito melhor do que aquele, você vai adorar o que eu construí pra nós três.

- Mal posso esperar.- respondeu ela, abraçando-o. Sussurrou em seu ouvido: - Especialmente porque estou louca pra ficar a sós com você outra vez.

Kate sorriu ao ver a cumplicidade de Sawyer e Ana. Ela havia se servido de uma generosa quantidade de mamão e estava sentada entre as pernas de Jack, com a cabeça apoiada no peito forte dele.

- Eles parecem ainda mais apaixonados agora.- comentou ela.

- Não tenho dúvidas!- disse Jack, comendo um pedaço de manga.

- Oh Jack, você já pensou como isso vai ser difícil para Cassidy? Eu sinto tanto por ela. Como será que o Sawyer vai reagir? Você contou alguma coisa a ele?

- Não contei absolutamente nada. Acho melhor que ele a veja com seus próprios olhos. Não tenho a menor idéia de como ele irá reagir.

Kate beijou Jack nos lábios e perguntou:

- O que aconteceu com vocês na Vila dos Outros?

- Eu ainda não consegui entender.- respondeu ele. – Só sei que Benjamin Linus é um homem cruel o suficiente para matar até pessoas de seu próprio grupo em nome do que ele quer. Eu vi Kate, os cadáveres que ele deixou para trás na Vila antes de ir embora sabe-se lá para onde, assim como a vi a cova funda cheia de corpos no meio da floresta.

- Cova?



- Sim, nós encontramos na floresta antes de chegarmos à vila, foi uma das piores coisas que eu já vi.

- Acha que Locke, Sayid e Juliet estão vivos?

- Eu não sei, mas espero que sim.

Kate virou de lado e deu um beijinho no peito dele antes de fechar os olhos e tentar descansar.

- Ela fica olhando desconfiada pra mim toda hora! Eu não agüento isso não, cara.- queixou-se Michael para Jin, falando a respeito de Ana-Lucia.

- Medo!- disse o coreano. – Ana tem medo você. Tiro.

- È, eu atirei nela, mas você sabe porque eu fiz isso. Me arrependo muito e jamais faria isso de novo. Eu atirei na Libby também, mas ela me perdoou cara, ela não me olha do jeito que Ana me olha.

Jin compreendia perfeitamente o que Michael queria dizer. O medo era o sentimento que movia as pessoas e Ana-Lucia tinha razões de sobra para não confiar em Michael, no entanto, ele acreditava em seu íntimo que todos mereciam uma segunda chance desde que fizessem a coisa certa.

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(Flashback)

Achara caminhou por entre vários corredores, passando por cortinas coloridas enfeitadas com infinitas contas de plástico que faziam um barulho característico quando passava por elas. Jin a seguia a uma distância respeitosa até que entrassem em um quarto semi-escuro.

Ela fechou a porta atrás de si e fez sinal para que Jin se sentasse na cama. Ele o fez, embora um tanto desconfortável quando seu corpo afundou no colchão, amassando os lençóis de seda.

Achara se aproximou dele e começou a despir a blusa. Jin fez um gesto com a mão direita para que ela parasse e indagou:

- O que está fazendo?

- Vou lhe dar o que você quer e você deixará o meu irmão a salvo.

- Não vim aqui para isso.

- E pro que veio então?



- Vim para dizer que volte com seu irmão para a Tailândia, quem se envolve com o Sr. Paik jamais consegue sair vivo, mas eu quero ajudá-los, dei o recado ao seu irmão ontem e vocês devem partir ainda hoje.

- Tem certeza que não deseja nada em troca por tamanha bondade? Eu posso agradá-lo!- ela ofereceu mais uma vez.

- Não, eu não preciso disso. Eu tenho uma esposa. Só quero que você fuja com seu irmão porque não quero ter minhas mãos manchadas com o sangue de sua família e será isso o que acontecerá se vocês não partirem.

Achara se curvou diante dele em uma respeitosa reverência.

- Você é um homem bom Jin, haverá de ser recompensado um dia.

Jin assentiu e deixou o quarto. A culpa que sentia ficaria ali naquele lugar e ele voltaria para Sun, para sua amada esposa, com a certeza de que tinha feito a coisa certa.

(Fim do Flashback)

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- Pessoal, eu tô sem fôlego!- reclamou Hurley, tentando acompanhar os passos rápidos de Shannon e Charlie dentro da mata escura. – Por que precisamos procurar pela Tina correndo desse jeito?

Mas Charlie e Shannon o ignoraram, porque ela tinha visto uma trilha de sangue um pouco antes e agora sentia uma louca excitação por encontrar a amiga, que provavelmente deveria estar muito ferida.

De tão entusiasmada que estava com sua descoberta, Shannon não viu o buraco à sua frente e tropeçou, caindo de cara no chão.

- Shannon, você está bem?- indagou Charlie, tentando iluminar a escuridão com uma tocha. Hurley fez o mesmo.

- Eu a encontrei.- berrou Shannon de dentro do buraco.

Charlie e Hurley iluminaram lá dentro com as tochas, não era muito fundo. Ficaram boquiabertos ao verem Tina aos pés de Shannon, nua e ferida, desmaiada dentro do buraco.

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Com os primeiros raios de sol da manhã, o grupo de Jack retornou ao acampamento, exaustos mas felizes por retornarem ao lar. E como já era de praxe, as pessoas que já haviam acordado correram para cumprimentar seus entes queridos que retornavam.



Sun correu para abraçar Jin com o filho no colo. Walt e Vincent foram até Michael. Kate correu até Rose e pegou sua filhinha nos braços. Jack abraçou as duas, emocionado por ver sua filha novamente.

- Oh Lilly, mamãe sentiu tantas saudades.- dizia Kate, enchendo a menina de beijos.

Ana-Lucia sentiu uma imensa felicidade ao rever o acampamento e sua mente inundou-se de lembranças. As pessoas olhavam para ela com semblantes curiosos, surpresas por estarem vendo-a outra vez com vida, carregando o filho nos braços.

Sawyer queria levá-la imediatamente para sua nova cabana e mostrar tudo à ela, mas seu olhar deteve-se em uma mulher que lavava roupas à beira da praia.

- Não pode ser...- murmurou estupefato.

- James!- a mulher gritou, antes de correr em direção a ele.

LOST

Continua no próximo episódio...