A Bailarina e o Soldado de Chumbo parte II
- Preciso de panos limpos, e água quente agora mesmo!- bradou Jack quando Charlie e Hurley colocaram Tina desacordada e ensangüentada em cima de uma maca na enfermaria da praia. – E alguém chame a Sun pra me ajudar!
Charlie saiu correndo da enfermaria em direção à cabana de Sun e Jin. Jack examinou o ferimento de Tina e mexeu no machucado, uma boa quantidade de sangue escorreu e Hurley fez cara de pânico.
- Hurley, se não vai me ajudar é melhor sair daqui!
- Eu quero ajudar!- disse Shannon que estava parada à porta da enfermaria.
- Tem certeza que tem estômago pra isso?- indagou Jack, que ainda via Shannon como uma mulher frágil que necessitasse de cuidados constantes embora ela tivesse mudado e amadurecido muito na ilha.
- Sim, eu tenho. Tenho estômago pra muitas coisas.- respondeu ela, entrando na enfermaria.
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(Flashback)
Ela sabia desde a primeira vez que olhara para Sabrina que aquela mulher a odiava e que jamais seria uma boa mãe para ela. Alimentou esse sentimento de raiva contra a madrasta por muitos anos ,embora tivesse aprendido a amar seu meio irmão Boone, a despeito da implicância que existia entre ambos.
Mas nada, absolutamente nada, a preparara para aquilo. Seu pai estava morto e não havia feito o testamento, Sabrina como sua esposa herdaria tudo e ela, mesmo sendo filha legítima de Adam Rutherford não herdaria nada. Estava na rua da amargura.
Boone oferecera dinheiro emprestado à ela, mas Shannon não aceitou. Ainda tinha seu orgulho próprio, ou pelo menos achava que tinha até aquela noite. As aulas de ballet não estavam rendendo o esperado, e ela tinha muitas contas a pagar, inclusive o aluguel do pequeno apartamento onde estava morando. Já estava chegando ao desespero quando recebeu aquela fatídica proposta.
Loreena Sutherland era uma de suas melhoras alunas da baby class de ballet, era uma garota alegre e adorável de sete anos. Tinha vindo há cerca de dois anos da Austrália, seu pai trabalhava em uma multinacional, era um homem até certo ponto atraente, mas que já estava beirando os cinqüenta anos.
Apesar de ser casado, desde o momento que vira Shannon na Academia de Ballet se interessara por ela e demonstrava isso sem o menor embaraço. Shannon não gostava das investidas dele, achava tudo muito irritante e fugia sempre que podia. Porém, tinha contas a pagar e não sabia mais o que fazer. Donald, esse era o nome dele, resolveu convidá-la para jantar uma tarde quando foi buscar Loreena no ballet.
Shannon sabia qual era o interesse dele, mesmo assim aceitou o convite. Tinha 19 anos, não era mais uma garota virgem e inocente, tivera três namorados desde os dezesseis, mas aquilo ia totalmente contra seus princípios, se é que ainda tinha algum.
Donald a levou a um restaurante caro no centro de Los Angeles, dentro de Hollywood e depois a convidou a ir à um hotel, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Shannon aceitou, mas quando eles adentraram o quarto do hotel estava em pânico, queria desistir de tudo naquele momento mesmo. Mas não tinha mais como voltar atrás.
Ele a jogou numa enorme e confortável cama de casal, embora o colchão fosse macia, a Shannon pareceu que se deitava em um chão frio de pedra. Depois disso, Donald se despiu sem a menor cerimônia e arrancou as roupas de Shannon. Ela tentou gritar quando sentiu as ásperas e frias mãos dele em seu corpo quase imaculado, mas ele não parou, nem mesmo quando ela gritou.
Foi possuída de forma violenta, contra sua vontade e ninguém viria salvá-la. Quando tudo terminou, Donald tirou uma boa soma de sua carteira e depositou sobre o criado mudo como se ela fosse uma prostituta.
Shannon ficou lá na cama, nua, abraçando o próprio corpo e chorou por mais de uma hora depois que ele foi embora. Mas quando se acalmou, contou a soma que ele tinha lhe deixado, era um bom dinheiro, pagaria o aluguel e outras emergências.
Estava arrasada com o que tinha feito, mas precisava do dinheiro ou não sobreviveria sozinha.
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(Fim do Flashback)
- Jin, senti tanto a sua falta!- murmurou Sun, beijando o marido, enquanto retirava a camisa dele.
- Eu também, querida, eu também.- ele murmurou de volta.
Jung dormia tranqüilo em seu bercinho, alheio aos acontecimentos ao seu redor. Sun empurrou Jin na cama e começou a beijar o pescoço dele. Mas uma voz desesperada vinda do lado de fora da cabana os parou antes que matassem sua fome de amor.
- Sun! Sun!- gritava Charlie do lado de fora da cabana.
Jin xingou em coreano e Sun ajeitou sua blusa que estava quase toda desabotoada para ir falar com Charlie. Abriu a cortina de entrada e o fitou com olhos interrogativos.
- O Jack precisa da sua ajuda lá na enfermaria. Nós encontramos a Tina, e ela está ferida porque você a acertou.
Sun alargou os olhos, e disse a Charlie:
- Estou indo agora mesmo, deixe-me só avisar ao Jin.
Entrou na cabana e falou com o marido em coreano.
- Encontraram a Tina, preciso ajudar o Jack na enfermaria, fui eu quem atirou nela.- sua voz soou pesarosa, com sentimento de culpa.
Mas Jin a abraçou pelos ombros.
- Não foi sua culpa, estava protegendo o acampamento.
- Cuide do Jung, volto assim que puder.
Jin assentiu. Sun saiu correndo de sua cabana rumo à enfermaria quando passou por Mr. Eko que acabava de vir da igreja e viu uma estranha movimentação ao redor da enfermaria.
- O que houve, Sun?- indagou.
- Encontraram a Tina e ela está ferida.
O coração dele bateu mais forte. Sua amada não estava morta então.
- Cristina...- murmurou e seguiu Sun até a enfermaria.
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Sawyer já estava caminhando pela floresta havia algum tempo, perdido em seus próprios pensamentos. Chegou até à queda d'água e inevitavelmente lembrou-se dos divertidos banhos de cachoeira com Ana-Lucia. Ela estava na sua vida há quase três anos, ocupando um lugar que nenhuma outra mulher jamais ocupara. Mas a chegada de Cassidy tornara tudo confuso.
Começou a tirar a roupa, decidiu que tomaria um banho antes de ir para sua cabana e tentar uma conversa de esclarecimento com Ana-Lucia. Despiu a camisa, a calça e tirou os sapatos, entrando na água de cueca. A água fria trouxe-lhe uma sensação de conforto enquanto nadava vagarosamente à beira do lago.
- Cassidy...Ana-Lucia...Ana-Lucia...Cassidy...Ana-Lucia...- pronunciava para si mesmo o nome das duas mulheres e percebeu que dizia o nome de Ana mais vezes do que o de Cassidy. Não tinha dúvidas quanto à amá-la, sua confusão era apenas devido à como ficaria a situação dele na praia agora com duas mulheres e dois filhos. E ele sequer conhecia Clementine. Renegou-a uma vez, embora tivesse doado todo o dinheiro do golpe que dera para escapar da cadeia.
Mas agora seria incapaz de renegá-la se a visse, principalmente porque conhecia a felicidade de ser pai com James, amava seu filho, por que não poderia amar sua filha? Cassidy não precisaria fazer parte disso se ele resolvesse se aproximar da menina e ser o pai dela. No entanto, havia Ana-Lucia, como ela reagiria a isso? Ele não pretendia se separar dela de jeito nenhum.
Estava tão distraído que não notou o barulho de passos se aproximando do lago, só percebeu que não estava só quando saiu da água e passou a mão pelo próprio corpo, retirando o excesso de pingos molhados que lhe cobriam.
Debbie lhe deu um olhar malicioso quando se aproximou, os olhos verdes lembravam os de uma pantera se acercando de sua presa.
- Deborah!- ele exclamou quando a viu, chamando-a pelo nome ao invés de inventar-lhe um apelido. A garota era tão irritante que ele não queria perder tempo provocando-a.
- Fico feliz que esteja a salvo!- ela disse, sua voz soando provocativa aos ouvidos dele.
- Nem chegue perto de mim, senão eu irei até nosso honorável líder e vou contar que você me violentou.
- Fica calmo, cowboy, não vou fazer nada!- ela retrucou.
- Por que está aqui, então? Tem sorte que Ana ainda não se lembrou do que você fez, mas quando ela se lembrar e quiser te dar uns sopapos, saiba que eu não vou me opor e vou assistir você apanhar de camarote.
- È, me contaram que sua preciosa Ana está desmemoriada, pra mim ela continua arrogante como sempre. Mas não foi por causa dela que vim falar com você.
- E pra que veio?
- Sei que está confuso porque encontrou Cassidy na praia e eu vim aqui para ajudar a clarear suas idéias.
- Como?- ele indagou, vestindo as calças e procurando pela camisa.
- Cassidy é minha tia, sei que vai parecer uma coincidência bizarra, mas é verdade. E eu sei sobre tudo o que houve entre vocês e que você prometeu a ela voltar para Albuquerque e viverem como uma família. Mas não pôde cumprir sua promessa porque caímos nessa ilha.
- Como é? Você é sobrinha da Cassie?
- Isso mesmo.
Sawyer balançou a cabeça, incrédulo.
- E acha que por isso eu vou escolher ficar com sua tia e deixar Ana?
- Vocês tem uma filha!
- Também tenho um filho com Ana.
- Mas Clementine nasceu primeiro e você a negligenciou.
- O que eu fiz ou deixei de fazer não é da sua conta, garota! E se insistir nisso, contarei à sua tia o tipo de mulher que você é. Vou contar que tentou me seduzir, mesmo sabendo quem eu era ou vai me dizer que não sabia desde que caímos nessa ilha?
- Sim, eu sabia. E fui uma tola por ter me apaixonado por você e ter te seguido até Sidney. Mas muita coisa mudou nos últimos meses e agora que minha tia está aqui...
- Quer saber? Não me importo se sua tia está aqui, as coisas mudaram como você mesma disse, e eu estou com Ana e ficarei com ela.
Dizendo isso, Sawyer calçou os sapatos, já tinha terminado de vestir a camisa. Deu uma última olhada para Debbie e disse:
- Cuidado com os estupradores, menina!
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Cassidy não parava de chorar e Kate tentava acalmá-la como uma boa amiga, ao mesmo tempo em que amamentava a filha.
- Eu disse a você Kate, não é justo! Eu amo o James!
- Sei que o ama.- disse Kate. – Mas eu quero que você compreenda um pouco o Sawyer também, nós nos tornamos amigos desde que caímos nessa ilha. Kate achou melhor omitir dela seu ligeiro affair com ele. – Ele e Ana se amam, muito. As coisas entre eles não começaram da forma convencional, mas eles aprenderem a se amar e a viver juntos, então...
- Acha que não tenho o direito de me interpor entre eles? E quanto à mim Kate? Vim parar nessa ilha e terei de passar o resto dos meus dias vendo o homem que eu amo com outra mulher sem lutar por ele?
- Cassie, não posso te dizer o que fazer, mas Ana também é minha amiga e eu a conheço o suficiente para saber que se você escolher lutar pelo Sawyer, terá uma adversária à altura.
- Não me importa, Kate! Estamos na selva, não estamos? Pois eu tenho o direito de lutar pelo James e é o que eu vou fazer.
Kate soltou um ligeiro gemido de desconforto e Cassidy perguntou o que houve.
- È Lilly, ela está mamando com muita vontade!- respondeu Kate. – Acho que tem medo que eu a deixe de novo.
Cassidy sorriu e olhou para a menina pequena, mamando, colada ao seio de sua mãe.
- Tem certeza que deseja travar uma batalha com Ana?
- Certeza absoluta. Ana não perde por esperar!
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- E então, o que achou da cabana?- perguntou Libby a Ana se sentando em uma das antigas poltronas da Oceanic que Sawyer ainda conservava consigo. O peso de sua barriga estava cada dia maior e era um custo conseguir se sentar sozinha.
Ana-Lucia respondeu à pergunta dela com um sorriso de satisfação. A cabana era grande, maior que as outras que ela vira na praia. Estava muito bem organizada e havia uma confortável cama para dois feita com palha, almofadas e lençóis do avião, além de um lindo bercinho de balanço feito de madeira para James.
O bebê estava adormecido em seus braços e Ana o acomodou no bercinho, balançando-o quando o pequeno resmungou em seu sono.
- Shiiii...duerme mi niño...duerme...- Ana sussurrou suavemente. Quando notou que ele voltara a adormecer, sentou-se na cama e descalçou os sapatos.
- Nós não vivíamos juntos, eu e Sawyer, não é?
- Oh não, você tinha sua própria cabana embora Sawyer costumasse dormir com você todas as noites, era engraçado vê-lo se esgueirando pela praia até a sua cabana de madrugada. Mas depois que você sumiu, ele se empenhou em construir essa cabana para viver com você e o bebê. Jamais acreditou que estivesse morta.
Ana ficou em silêncio por alguns segundos, antes de perguntar:
- Essa mulher, Cassidy está falando a verdade sobre ela e Sawyer? Eles tem mesmo uma filha?
- Eu acho que sim, uma garotinha de três anos. Não temos a menor idéia como Cassidy veio parar aqui, um dia ela simplesmente apareceu se afogando no mar e Jack a salvou. Hoje de manhã, Shannon encontrou a filha dela, na floresta.
- Shannon?- Ana-Lucia pronunciou o nome porque lhe soou muito familiar.
- Sim, Shannon. Não se lembra dela também?
- Eu não sei.- respondeu Ana. – Libby, você disse que somos melhoras amiga, portanto acho que você deve saber muito sobre o Sawyer e eu.
- Sim, você me confidenciou algumas coisas, mas não muitas porque você sempre foi muito reservada, Ana.
- Você acha que o Sawyer seria capaz de me deixar por essa mulher?
- Amiga, não creio nisso.- respondeu Libby com sinceridade. – O Sawyer foi capaz de mover montanhas para encontrar você mesmo quando todos acreditavam que estava morta. Ele a ama, tenho certeza.
Ana assentiu, apesar da afirmativa de Libby sentia-se insegura e se Sawyer não a procurasse ainda àquela noite, se sentiria mais ainda.
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Sun adentrou a enfermaria seguida por Mr. Eko e viu Jack debruçado sobre o corpo de Tina coberto apenas com um lençol, apenas as pernas estavam expostas enquanto ele mexia no ferimento com a ajuda de um bisturi, pretendia remover a bala que estava incrustada na perna esquerda de Tina.
Ela começou a recobrar a consciência quando Jack fez o primeiro corte em sua perna e gemeu de dor, suas mãos tateando em busca de apoio. Ao vê-la desse jeito, ferida e vulnerável, Eko se aproximou dela e segurou-lhe a mão dando o apoio que ela precisava.
- Eu estou aqui, Cristina...- disse ele.
Jack estranhou o interesse a intimidade do padre para com a moça, mas nada disse a Eko, apenas falou a Sun:
- Me ajude, Sun! Segure-a porque isto vai doer!
Sun fez o que ele disse enquanto Shannon foi providenciar mais panos limpos e água quente para Jack. Quando ela saiu da enfermaria e foi até a fogueira onde iria esquentar a água ouviu um farfalhar de mato às suas costas.
Instintivamente virou-se na direção do barulho, havia uma faca escondida no bolso de seu jeans e ela não hesitaria usá-la. Preparou-se para o que viria, mas seus olhos se encheram de lágrimas quando viu Sayid surgir da floresta algemado à Juliet.
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Ana virou de bruços na cama e não viu quando Sawyer entrou na cabana, estava cochilando. Uma chuvinha fina começou a cair e Sawyer parou diante da cama, observando-a. Ela havia tirado o jeans para ficar mais confortável e dormia sem lençol, só com uma camiseta. A cena era tentadora, suas curvas expostas á luz do luar que entrava pela janela.
Não havia dúvidas sobre seus sentimentos, ela era tudo o que ele precisava. Sem poder resistir debruçou-se sobre o corpo dela e ergueu-lhe a camiseta um pouco dando um beijo na linha da coluna.
Ana estremeceu levemente e ergueu a cabeça do travesseiro, seu longo cabelo cobriu-lhe as costas e ela virou-se de frente fitando os olhos azuis de Sawyer.
- Precisamos conversar, cariño.
Continua...
