A bailarina e o soldado parte 4- final
Jack foi chamado logo cedo em sua casa com a notícia de que havia algo de muito errado com Tina. Correu à cabana de Aline e encontrou Mr. Eko tentando reanimá-la, ela estava acordada, mas tinha uma expressão muita estranha no olhar.
- Quando foi que isso começou?- indagou Jack, examinando-a.
- Há alguns minutos.- respondeu Eko. – Estávamos conversando e de repente ela ficou assim, como se estivesse em outro lugar.
Jack observou as pupilas dela. Estavam dilatadas.
- Ela está numa espécie de estado catatônico... – começou a dizer ele quando viu os olhos dela piscarem e a cor ir voltando aos poucos ao seu rosto. – Tina, pode me ouvir?
Ela fez cara de assustada e buscou Eko com os olhos de imediato, ao vê-lo, ela relaxou um pouco, porém parecia ainda mais confusa do que na noite anterior.
- Cristina, este é o médico que cuidou de você ontem, o Jack.- disse Eko, tocando seu ombro numa tentativa de acalmá-la. – Ela diz que não se lembra de nada, Jack.
- Sintoma de choque pós-traumático.- disse ele. – Tina, você não tem a menor idéia de onde esteve esse tempo todo?
- Eu estava na Nigéria.- ela finalmente disse. – Conversando com minha irmã Joana e de repente estou aqui, daí volto pra Nigéria de novo e retorno pra cá. Se você é um médico, será que pode me dizer o que está acontecendo comigo?
- As pessoas que a encontraram disseram que a acharam em um buraco na floresta. Você deve ter batido a cabeça quando caiu lá e suas lembranças estão confusas, coisas que aconteceram há muito tempo estão voltando à sua mente e parecem mais reais do que o que acontece ao seu redor agora. Você se lembra de quem é, se lembra de sua família, mas não se lembra do acidente de avião que nos trouxe até aqui.
- Se ela não se lembra do acidente.- disse Aline. – Então por que ela se lembra do Sr. Eko,? Afinal eles só se conheceram algum tempo depois do acidente quando o grupo que estava do outro lado da ilha chegou ao nosso acampamento.
Uma indagação silenciosa após a pergunta de Aline foi emitida por Jack à Eko e ele não hesitou em responder:
- Porque eu e Tina nos conhecemos há alguns anos na Nigéria e nos reencontramos aqui na ilha.
Jack e Aline ficaram bastante surpresos com aquela revelação, mas nenhum dos dois ousou perguntar porque eles esconderam que se conheciam durante todo aquele na tempo na ilha. Nesse momento, alguém se aproximou da entrada da cabana. Era Desmond, com uma expressão curiosa e ansiosa no rosto.
- Bom dia a todos.- disse ele. – Será que eu posso ver a Tina?
Aline sentiu o peito se contrair, não podia deixar de sentir ciúmes de Desmond, porque era com Tina que ele vivia antes dela desaparecer, mesmo assim não se opôs que ele a visse e deu passassem para que o escocês entrasse na cabana.
- My lovely, como você está?- ele indagou segurando as mãos dela carinhosamente. Gostava muito te Tina e lamentara bastante quando ela sumira, era um alívio ver que não estava morta.
Tina fitou os olhos castanhos de Desmond e algo neles lhe pareceu familiar.
- Eu estou bem, eu acho.- ela respondeu.
Jack, notando que por hora ela ficaria bem, despediu-se de todos e disse que voltaria se Tina precisasse de ajuda novamente. Instruiu Aline para que a ajudasse com o curativo na perna e se foi.
O clima na cabana ficou tenso com a presença de Desmond, ele parecia muito interessado em estar ao lado de Tina, e Aline muito preocupada com isso. Eko notou a tensão e achou melhor deixá-los sozinhos para que resolvessem seus problemas. Disse que estaria na igreja se precisassem dele.
Quando ele saiu, Desmond disse.
- Muito bem, é bom ter as duas aqui, porque precisamos ter uma conversa séria. Eu sei que para a Tina muita coisa não faz sentido agora, mas depois do que eu tenho pra dizer as coisas ficarão mais claras e eu posso ajudá-la, lovely, a entender o que aconteceu com você durante o tempo em que esteve desaparecida.
- E onde é que eu entro nessa história?- perguntou Aline, tendo um mau pressentimento.
- Você Aline, é uma mulher maravilhosa...foi muito bom estar com você durante todos esses cinco meses.
- Des, o que está dizendo? Que vai terminar comigo por que a Tina voltou?
Tina lançou um olhar de dúvida para eles, não estava entendendo nada.
- Não Aline, isso não tem a ver com Tina ou você. Eu gosto das duas, e não posso escolher. Não me peçam para fazer isso, seria muito difícil. E já que não é certo ter as duas, eu vou ficar sozinho porque vocês merecem alguém melhor do que eu.
Aline estava chocada com as palavras de Desmond, seu rosto tomado por lágrimas.
- Como pode fazer isso, comigo, Des? Depois de tudo o que aconteceu entre a gente você...
- Hey, não sei do que estão falando!- disse Tina, ficando irritada com aquela conversa. – Eko disse que sofremos um acidente de avião e viemos parar aqui, mas eu me pergunto, onde está minha família? Viajei com meus pais? Onde está minha irmã Joana?
Desmond e Aline se entreolharam. Ela não se lembrava que a irmã morrera afogada nos primeiros dias deles na ilha.
- Já que está aqui para ajudá-la Des, então acho que você deve explicar a ela o que aconteceu com a Joana, aliás, aproveita e conta sobre o Dylan porque eu acho que ela também já o esqueceu.
Aline saiu de sua cabana arrasada. Desmond sentia muito por ter despedaçado o coração dela, mas nada podia fazer. Durante as últimas aventuras que vivenciara ele pensara bastante sobre seu relacionamento com Aline e agora com a volta de Tina ele teve certeza de que não deveria mais se relacionar com nenhuma das duas, queria que elas fossem amigas e principalmente porque só havia uma mulher em seu coração e em seu íntimo Desmond tinha esperanças de que um dia a veria de novo.
- Você disse que ia me ajudar...- lembrou-o Tina ao vê-lo calado.
- Sim, e vou. Agora preste muita atenção no que eu vou dizer, porque é muito importante.
xxxxxxxxxxxxxx
- Vocês viram só? Peguei o peixe de primeira, eu sou o cara!- comentou Sawyer com Bernard e Jin quando eles estavam voltando da pescaria.
- Sawyer você só pegou um peixe, o Jin pegou três e maiores que os seus.- falou Bernard, rindo.
- Bernie, não queira me comparar com o Sr. Miaguy, o cara já nasceu pra isso, esses olhos puxados dele possuem visão de longa distância, como aqueles binóculos militares, mas eu que era completamente zerado nesse negócio de pescaria consegui pegar um peixe de primeira. Estou completamente adaptado à essa vida na selva, só preciso aprender a saltar de um cipó para o outro.
Bernard e Jin riram. Este último não conseguia entender 70 do que Sawyer dizia, mas os 30 porcento que entendia lhe pareceram muito engraçados.
- Gente, muito bom pescar com vocês, mas agora eu vou me exibir pra patroa, vejo vocês depois.
Os dois se despediram dele e foram procurar suas esposas.
Satisfeito, Sawyer chegou à sua cabana segurando o peixe de tamanho médio que ele tinha conseguido pescar sozinho sem a ajuda de Bernard e Jin. O peixe daria um delicioso almoço e Ana ficaria feliz.
Pegou o pescado e ergueu à altura da janela, querendo mostrá-lo a Ana antes de assá-lo.
- Hey, cupcake, você está aí?
Ana-Lucia apareceu à janela com um sorriso. James brincava com seu patinho de borracha deitado na cama deles.
- Hey, cowboy!- disse ela. – Olha só James, papai voltou e com um peixe enorme. Nossa! Pescou esse sozinho?
- Meu bem, totalmente sozinho. Peguei ele de primeira!
- Estou vendo! E estou faminta!
- Ah, mas eu estou indo assar o peixe agora mesmo. Não demoro nada!
Ela jogou um beijo pra ele e foi se sentar na cama com James. Ainda estava um pouco atordoada por Cassidy ter entrado na cabana deles e tirado o bebê do berço, mas resolveu que não contaria nada à Sawyer, afinal o pequeno estava bem, fora só um susto e já tinha passado. Não gostou da intromissão da mulher, se ela queria algum tipo de aproximação pacífica com ela estava fazendo do modo errado.
Conforme prometera, Sawyer não demorou muito para voltar com o peixe assado para comerem na cabana. O cheiro estava delicioso e o estômago de Ana roncou quando ele colocou as postas de peixe em uma travessa feita com folha de bananeira. Trouxera também em outro recipiente, um pouco de arroz branco que Rose preparara, resquício dos alimentos industrializados Dharma que já estavam quase acabando.
- Hummm, parece delicioso!- disse Ana e Sawyer, com as mãos limpas, tirou um generoso pedaço de peixe, separando a espinha e levou direto à boca de sua amada. – Gostoso!- falou ela com a boca cheia e Sawyer sorriu, tirando um bocado de peixe para ele também.
Ele puxou um banquinho feito com um tronco de madeira e sentou-se, puxando Ana-Lucia para o seu colo. Ficaram se deliciando com o almoço por longos minutos até que James que estava tão quietinho brincando na cama começou a chorar alto, como se algo tivesse começado a incomodá-lo de repente.
Ana foi até ele de imediato, indagando:
- O que foi filhinho? O que aconteceu?
- Será que ele está com fome?- perguntou Sawyer. – Ele já pode comer peixe?
Ela balançou a cabeça negativamente.
- Não da forma que estamos comendo, estou pensando em começar a dar papinha pra ele.- ela tirou James da cama e o abraçou, balançando-o levemente para que se acalmasse.
- O que vai pôr na papinha?
- Pensei em colocar legumes e um pouco de peixe, depois amassar tudo, senão ele não vai conseguir comer. Os dentes dele ainda não nasceram, talvez quando ele fizer seis meses. – ela voltou a se dirigir ao bebê. – Oh, o que o meu filho tem? Fala pra mamãe!- Ana beijou-lhe a cabecinha e sentou-se na cama. – Fica calmo, mamãe vai cuidar de você...
Ela ergueu a blusa e puxou para baixo o sutiã que usava. Ajeitou James no colo e o guiou para o bico do seio cheio de leite.
- Pronto meu filho, tá tudo bem, mama...- ela disse carinhosa, mas James não quis acordo e continuou chorando. – Não quer mamar? Por que?
- Ele não quer mamar?- questionou Sawyer indo até ela na cama.
- Não, e ele nunca recusou antes. Isso é estranho!- Ana tocou no corpinho do filho. – Sawyer ele está quente.
- E me parece um pouco vermelho também.- ele observou.
- Sawyer, o bebê está doente! - Ana concluiu.
- Doente?- ele questionou de volta, tocando o corpo do menino. – Tem razão, ele está muito quente.
James não parava de chorar. Ana-Lucia ajeitou a blusa, cobrindo-se.
- Ele estava tão bem de manhã, eu dei banho nele, dei o alimentei e depois ele dormiu. O que pode ter acontecido?
- Eu não sei amor, crianças ficam doentes. Ele nunca ficou doente assim?
Ana-Lucia balançou a cabeça negativamente. Nos últimos cinco meses em que vivera com James na casa de Ben, seu filho nunca tinha ficado doente. E ele estava bem até Cassidy tirá-lo do berço pela manhã, Ana-Lucia lembrou-se. Isso era muito estranho.
- Baby? Ouviu o que eu disse?- perguntou Sawyer notando que ela pareceu distraída por alguns momentos. – Vamos levá-lo pro Jack.
- Sim.- ela concordou, mas seu coração já se enchera de fúria e se ela encontrasse Cassidy em sua frente certamente cometeria um desatino.
Pegou uma manta para envolver o bebê e o entregou a Sawyer, os dois saíram de sua cabana rumo à cabana de Jack.
xxxxxxxxxxxxxxxxx
Cassidy caminhava pela praia de mãos dadas com Clementine, a menina usava um dos vestidos de Emma que Rose cortara para que coubesse nela. Apesar de todas as coisas estranhas que tinham acontecido à ela e sua mãe, isso não parecia ter afetado à menina.
Emma brincava na praia com o irmãozinho Zack, Walt, o cachorro Vincent, e Aaron sob a supervisão de Claire. Ao ver a garotinha, Emma a chamou:
- Clemen, vem brincar com a gente!
A menina olhou para a mãe, pedindo permissão e Cassidy disse:
- Vá, mas tome cuidado!
Clemen correu até onde estavam as outras crianças. Seus pés gordinhos tropeçando na areia fofa, mas ela ria e acenava para os amiguinhos, parecendo muito feliz. Kate se aproximou de Cassidy segurando Lilly no colo.
- Hey, Cassie! Como você está hoje?
- Depois de acordar mais um dia nessa ilha?- ela retrucou, irônica. – Não sei, ainda estou me decidindo, mas minha filha está feliz e isso é o que importa. Eu tinha medo
que quando a encontrasse ela estivesse machucada ou traumatizada. A garota que vocês dizem que estava com Clementine, como ela está?
- O Jack disse que ela está com uma espécie de amnésia pós-traumática, ela não se lembra de nada depois do acidente de avião, então não deve se lembrar de que estava com sua filha. Aliás, sua filha é muito linda.
- Obrigada.- respondeu Cassidy, gentil. – A sua também é uma graça. È impressão minha ou os olhos dela são de cores diferentes? Porque eu achei isso lindo.
- Não, um olho é mais esverdeado do que o outro.- disse Kate, erguendo a filha e fitando seus olhinhos. A menina deu um bocejo e chupou o dedinho.
Cassidy sorriu, observando os belos olhos de Lilly com curiosidade, não viu Sawyer e Ana-Lucia se aproximando atrás dela.
- Você já falou com o Sawyer, Cassie?- indagou Kate ao vê-lo caminhando pela praia com Ana-Lucia na direção delas.
- Ainda não. Eu fui à casa dele ontem à noite, mas não quis chamá-lo porque imaginei que estivesse dormindo, era bem tarde.- ela mentiu sobre não ter percebido o que Sawyer e Ana estavam fazendo durante a noite. – E hoje pela manhã tentei falar com ele, mas não tinha ninguém em casa, apenas o bebê dormia no berço. Ele é tão lindo, se parece muito com o James e eu senti vontade de segurá-lo, mas a mãe dele quase me matou quando viu que eu o tinha tirado do berço.
- Eu disse a você ontem à noite, se quer resolver as coisas com o Sawyer não deve bater de frente com a Ana desse jeito, essa situação é difícil pra ela também.
Ana-Lucia e Sawyer se aproximaram nesse momento.
- Kate!- Ana chamou com uma expressão preocupada enquanto Sawyer carregava o bebê que chorava, envolto numa manta.
- O que aconteceu?- Kate indagou.
- O bebê está doente. - respondeu Sawyer. – Onde está o Jack?
- Não sei ao certo, parece que ele foi fazer alguma coisa com o Hurley. O que o James tem?
- Ele está com febre, a pele avermelhada, irritado, não quer mamar, eu não sei mais o que fazer!- disse Ana.
Cassidy olhou para Ana, sua expressão dizia que sentia pelo bebê, mas não foi o que ela entendeu. Para Ana-Lucia aquilo era mais uma provocação.
- O que você fez com o meu bebê?
- Como é?- Cassidy indagou.
- O que você fez com o meu bebê, desgraçada?- Ana gritou.
- Ana!- exclamou Sawyer, sem entender.
Ao ouvirem o grito de Ana, várias pessoas se aproximaram para ver a confusão que se formava. Cassidy deu um passo atrás quando percebeu que Ana pretendia agredi-la.
- Eu não sei do que você está falando!- Cassidy defendeu-se, mas Ana-Lucia não quis saber, tinha certeza que aquela mulher tinha feito algo para o seu bebê e por isso partiu para cima dela, estapeando-lhe o rosto e empurrando-a na areia.
- Alguém faz alguma coisa!- gritou Kate e Lilly começou a chorar.
Mas ninguém se mexia do lugar enquanto Ana agredia Cassidy e esta apenas se defendia. Sawyer apenas gritava para que Ana parasse já que estava com James em seu colo. De repente, Shannon e Amanda apareceram para intervir.
Amanda era forte, por isso segurou Ana e Shannon tratou de ajudar Cassidy. Ana-Lucia estava incontrolável. Ao longe, Clementine viu sua mãe ser agredida e correu gritando:
- Mamãe! Mamãe!
Quando Ana-Lucia ouviu a voz da criança, parou imediatamente de bater em Cassidy. Era uma menina linda, loira, de penetrantes olhos azuis que olhava assustada para a mulher que machucava sua mãe.
- Tente se acalmar Ana!- pediu Kate. – Vamos atrás do Jack para que ele dê uma olhada no bebê.
Ana-Lucia se livrou dos braços de Amanda, que a seguravam e bateu a areia das calças. Seus olhos estavam escurecidos pela raiva e ela disse à Sawyer:
- Deixa que eu carrego ele.
Sawyer hesitou em entregar o bebê para ela, pois Ana parecia muito alterada, ele não a via tão zangada assim desde o dia em que se encontraram à primeira vez, do outro lado da ilha.
- Você está bem?- ele indagou.
- Droga Sawyer! Me dá o meu filho!- ela exigiu e Sawyer entregou o bebê a ela.
Quando tomou o filho nos braços, sua expressão raivosa se suavizou e ela pediu a Kate que a levasse até Jack. Kate o fez e as duas saíram caminhando para o outro lado da praia. Sawyer se agachou ao lado de Cassidy e perguntou:
- Você está bem?
Cassidy limpava o sangue dos lábios, tentando se recompor enquanto Clementine chorava em pé, ao lado de sua mãe. Shannon ajudou Cassidy a se levantar.
- Como pode me perguntar se eu estou bem depois de ter sido agredida desse jeito, James? Então essa é a mulher que você ama? Essa desequilibrada?
- Não fale assim dela!- Sawyer advertiu.
Ela ignorou o que ele disse e abraçando Clementine, falou:
- A propósito, esta é sua filha!
Os olhos de Sawyer pousaram na criança loira, com os olhos cheios de lágrimas assustadas que se aconchegava à mãe. Sorriu para a menina, mas ela se agarrou à Cassidy, com medo. Sem saber o que fazer, Sawyer apenas se afastou.
No entanto, antes que ele fosse atrás de Kate e Ana-Lucia, Amanda disse a ele:
- Você precisa conter a sua mulher, Sawyer!
- È! Ela não pode agredir as pessoas dessa maneira não!- acrescentou a Sra. Lewis. – Essa mulher sempre teve o temperamento incontrolável.
- Quando o Jin agrediu o Michael sem motivo, a primeira coisa que fizeram com ele foi algemá-lo no sol quente. - lembrou Richard Guert, o hipocondríaco da ilha que vivia atrás de Jack dizendo estar doente.
- Ela só cometeu desatinos na comunidade desde o início, inclusive já me agrediu. - disse Debbie, surgindo em meio à multidão, se aproveitando do ataque de Ana à Cassidy para destilar seu veneno. – Alguém se lembra qual foi a primeira coisa que ela fez quando chegou aqui? Atirou na Shannon!
Todos os olhares se voltaram para Shannon. Sawyer ficou muito irritado com os comentários das pessoas, especialmente o de Debbie e bradou:
- Metam-se com a vida de vocês!- dizendo isso, ele foi embora.
Quando ele se afastou, as pessoas começaram a tecer ainda mais comentários sobre a agressividade de Ana-Lucia, afirmando que a convivência com os Outros durante aqueles cinco meses a deixara louca ou até pior, ela teria passado para o lado deles e agora era uma espiã na comunidade.
Cassidy resolveu não fazer parte daquela discussão e pondo a filha no colo foi para a cabana de Rose e Bernard. Shannon ouvia toda aquela maledicência e sua mente foi invadida por lembranças.
(Flashback)
--
- Eu amo você e acredito em você!- a voz de Sayid soou suave aos ouvidos de Shannon, aplacando o desespero que ela sentia naquele momento
Ele tomou-lhe as mãos geladas e a segurou com firmeza. A chuva caía forte e eles estavam ensopados. Shannon não conseguia parar de soluçar. Era muito importante para ela que Sayid acreditasse nela, mas mais importante do que isso era encontrar Walt, tinha certeza que o vira na floresta.
Sayid acariciou seu rosto, dizendo mais algumas palavras e a partir daí tudo aconteceu muito rápido. Shannon viu Walt outra vez e correu ao encontro dele. Sayid foi atrás dela e no momento seguinte estava feito.
Shannon sentiu um zumbido fino nos ouvidos e uma dor tão insuportável na barriga que seu raciocínio se foi por completo. Viu os olhos assustados de Sayid, seus lábios tremendo. Queria gritar e tentou desesperadamente com o restante de consciência
que ainda tinha, mas não conseguiu, suas palavras perderam-se. Sayid a segurou e ela desfaleceu nos braços dele. A última imagem gravada em sua íris foi a de uma mulher de olhos negros profundos e semblante atordoado.
Não precisou quanto tempo se passou desde esse terrível acontecimento, só soube que acordou viva em uma cama com os olhos atentos de Jack sobre ela. Mas seu primeiro impulso foi chamar por Sayid.
- Sayid! Sayid!- gritou e sentiu a mão terna de Jack em seu braço.
- Ele foi buscar frutas pra você. Foi a única maneira que encontrei de tirá-lo daqui por alguns minutos. Sayid não dorme há dias, sempre na cabeceira de sua cama.
Shannon sentiu uma estranha ardência no abdômen e o tocou instintivamente.
- Ainda está muito inflamado.- Jack explicou. – Mas você vai ficar bem Shannon, é um milagre que ainda esteja viva.
Ela estava muita confusa, não se lembrava de nada além de correr na chuva e procurar por Walt. - O Walt...
- O Michael está de volta, mas diz que os Outros estão com Walt.
- Eu o vi na floresta! E então eu...- novamente a lembrança de correr na chuva.
- Aconteceu um acidente.- explicou Jack, medindo suas palavras. – Outro grupo de pessoas sobreviveu à queda do nosso avião e a líder deles, Ana-Lucia atirou em você por engano. Eles estavam sendo perseguidos pelos Outros e achou que você se tratasse de uma ameaça.
Os olhos verdes de Shannon arregalaram-se.
- O quê?
- Mas você está salva agora! Não tem com o que se preocupar.
Sayid voltou com as frutas nesse exato momento e quase deixou tudo o que tinha trazido cair no chão ao ver Shannon acordada.
- Shannon!- exclamou, se aproximando da cama.
- Vou deixá-los sozinhos.- disse Jack, se afastando em direção à sala do computador na Escotilha.
- Não acredito que está bem, meu amor, pedi tanto à Alá por você!
Ele sentou-se de frente para a cama e segurou a mão dela. Shannon ficou feliz em vê-lo, mas sua cabeça doía bastante e tudo ainda parecia muito confuso.
- Sayid, onde estamos?- ela perguntoou observando o cenário ao seu redor.
- Dentro daquela Escotilha que o Locke e o seu irmão encontraram. È como um antigo abrigo militar anti-bombas.
- Jack disse que uma mulher atirou em mim.
Sayid ainda estava muito sentido pelo que acontecera e evitava o máximo que podia cruzar com a mulher que atirara em Shannon, mas não podia ignorar o fato de que tinha sido um acidente e foi exatamente isso o que disse à Shannon.
- Foi um acidente! Ela estava tentando proteger seu grupo e jamais poderia imaginar que você surgiria na frente dela no meio da floresta.
- Eu estava procurando o Walt! Você acreditou em mim, Sayid. – ela recordou-se.
- E ainda acredito, agora mais do que nunca depois do que o Michael nos contou.
Ela mexeu-se na cama e as dores em seu abdômen aumentaram.
- Sayid, odeio essa mulher que atirou em mim!
- Shannon, eu disse que foi um acidente!
- Não importa! Eu a odeio assim mesmo!- Shannon soluçou. – Ela atirou em mim!
Sayid a abraçou.
- Você está viva Shannon, é tudo o que importa! Ficaria perdido sem você, eu te amo!
--
(Fim do flashback)
Findas as lembranças, Shannon sentiu que já não havia motivos para odiar Ana-Lucia. O tiro que levara fora realmente acidental, e as conseqüências deste, como o fato de não poder conceber uma criança uma fatalidade do destino. Mudara muito naqueles últimos três anos na ilha, já não era mais a mesma.
Fez ouvir sua voz perante a multidão, não achava justo o que estavam dizendo sobre Ana-Lucia, mesmo que não concordasse com a atitude dela de ter batido em Cassidy.
- È verdade, ela atirou em mim. Mas não fez isso por loucura ou maldade. Ela estava tentando proteger o seu grupo, eu estava correndo pela mata na chuva, Ana pensou tratar-se de uma ameaça, foi um acidente e eu sobrevivi e a perdoei. Estamos todos juntos nessa droga de ilha! Não deveríamos agir como se fôssemos inimigos uns dos outros.
As palavras de Shannon foram suficientes para calar todo mundo, e as pessoas retomaram suas tarefas. Sayid que assistira a tudo calado, sorriu quando ouviu Shannon falar, era muito bom saber que ela não guardava ódio no coração em relação à Ana. Ele gostaria de ter a mesma nobreza de espírito. Beijou-a quando ela se aproximou, e abraçados, eles caminharam juntos para a beira da praia.
xxxxxxxxxxxxxx
- O que ele tem, Jack?- perguntou Ana, aflita, andando de um lado para o outro.
Jack examinava o bebê minuciosamente diante de Ana-Lucia e Kate. Sawyer não demorou muito a chegar à enfermaria. Após alguns minutos examinando o menino, o médico sorriu.
- Jack?- Ana chamou outra vez, o coração estava disparado.
- O que ele tem, doc?- dessa vez foi Sawyer quem perguntou e Jack pôs-se a explicar.
- Não se preocupem, não é nada grave. Ele está com uma pequena infecção na garganta que ocasionou a febre. Lembra-se Ana, quando estávamos na Vila dos Outros e eu disse a você que a garganta dele me parecia um pouco inflamada?
Ela assentiu.
- Com certeza a dor o deixa irritado e isso o incomoda, essa é a razão pela qual ele também não quer mamar. Se alimentar com a garganta inflamada é sempre difícil, mesmo com alimentos líquidos. Mas além da garganta, os dentes dele estão nascendo. Venham ver!
Sawyer, Ana e Kate se aproximaram e Jack mostrou a gengiva inchada e sensível do bebê.
- Quando os dentes começam a nascer isso causa um grande incômodo à criança, mas deve passar logo. Vocês devem ter paciência. E Ana, tome cuidado quando os dentes aparecerem e você o estiver amamentando, ele pode querer testar a novidade.
- E quanto à vermelhidão na pele dele?- ela perguntou.
- Uma alergia natural à mudança climática. Aqui na praia a temperatura é mais quente do que na Vila dentro da floresta onde ele vivia antes. Também deve passar logo assim que ele se habituar ao clima da praia.
Ela sorriu, aliviada e acariciou o rosto do filho que tinha parado de chorar e estava bem quietinho.
- Tem alguma coisa que a gente possa dar pra ele pra melhorar todo esse incômodo?
- Em relação à garganta, um chá bem fraco de limão com mel ajudaria, ele com certeza vai estranhar porque está habituado ao leite materno mas vocês podem insistir. Quanto à questão da dentição, só resta esperar, isso é um processo natural, todo bebê passa por isso, daqui a alguns meses será Lilly.
- Obrigada Jack.- agradeceu Ana, pegando James no colo.
- Obrigado, doc.- agradeceu Sawyer.
Eles deixaram a enfermaria. Quando saíram, Jack estendeu os braços para pegar Lilly e Kate o abraçou, sorrindo.
- È por isso que eu te amo. Você sempre sabe o que fazer!
- È verdade, eu sempre sei o que fazer, amor. Mas se não tivesse você pra me ajudar, o que seria de mim?
Kate o enlaçou pela nuca e eles trocaram um beijo apaixonado.
Do lado de fora da cabana, Ana e Sawyer discutiam enquanto caminhavam.
- Por que você agrediu a Cassidy daquele jeito, Ana? Não vai me dizer que foi por ciúmes.- ele perguntou. – Por Deus, a menina ficou assustada e esse não foi um bom começo pra mim e pra minha filha. Tem idéia das conseqüências do que fez?
- Eu estava preocupada com o James!- ela se justificou. – E aquela mulher entrou em nossa cabana e o tirou do berço, eu fiquei tão assustada...
- Isso não era motivo para agredi-la. Cassidy pode ter errado ao entrar na cabana sem permissão e pegar o bebê, mas você não tinha o direto de bater nela! Achou o que, que o James estava doente porque Cassie tinha feito alguma coisa a ele? Ela seria incapaz!
- Você não entende!- ela esbravejou. – Eu não confio em ninguém, entendeu? Ninguém!
- Não, não confia, nem mesmo em mim! Foi por isso que me jogou naquele buraco não foi? E me encheu de porrada toda a vez que teve oportunidade! Por que você não controla esse seu gênio e não sei se eu posso viver com isso!
Ana-Lucia sentiu que ia desfalecer ao ouvir aquelas últimas palavras, porém foi incapaz de retrucá-las, seu coração estava ferido. Simplesmente virou-se dando as costas à ele carregando o bebê e afastou-se.
xxxxxxxxxxxxxxx
Hurley tinha acabado de comer algumas mangas maduras para Libby. Ele e Jack estavam fazendo mais uma vez o levantamento de provisões para a comunidade quando Kate e Ana apareceram na cozinha da praia esbaforidas dizendo que o filho de Sawyer estava doente.
Depois disso, ele foi pegar mangas para a namorada, mas fico muito aborrecido ao encontrá-la em companhia de Juliet, conversando muito à vontade.
- Ah, então você está aqui, né?
- Oi, meu querido.- Libby respondeu. – Trouxe mangas para mim?
- Não sei ainda.- respondeu ele, lançando olhares duros para Juliet.
- Bem, eu vou indo, não quero atrapalhar. Depois nos falamos, Elizabeth.
- Tudo bem. Até mais, doutora, quero dizer, Juliet.
- Isso, nada de doutora!- falou Juliet se afastando.
- Hugo, por que está com essa cara zangada pra mim?- perguntou Libby, pegando as mangas das mãos dele.
- Porque você estava sozinha conversando com a Juliet outra vez, como naquele dia em que ela te deu aquela injeção e você ainda não me contou a verdade sobre ela. De onde a conhece, afinal?
- Eu era terapeuta dela em Miami.- Libby respondeu, tirando uma faquinha do bolso da calça e se sentando na areia com dificuldade devido ao estado adiantado de gravidez.
- Terapeuta?
- Sim, a Juliet era uma importante médica do centro de fertilidade humana de Miami. A filhinha dela de 12 anos, na época teve leucemia e a Juliet passou a se consultar comigo, só isso!
- Tudo bem, então vocês se conhecem, ótimo! Mas isso não explica as injeções.
- Hurley eram apenas vitaminas para o bebê. Juliet disse que me fariam bem. Eu confio nela, além de pesquisadora ela é obstetra e já que não tenho como fazer um pré-natal nessa ilha, estou aceitando a ajuda dela. Eu te expliquei naquele dia.
- Por que demorou tanto a me falar sobre isso?
- Porque você é um cabeça dura, Hugo! Pra você a Juliet é somente uma dos Outros, mas eu a conheci muito antes de cair nessa ilha, e digo que ela é uma boa pessoa. Você tem que confiar no meu julgamento, querido, por favor! Só quero o que é melhor pro nosso bebê!
Hurley finalmente sorriu e eles se abraçaram.
- Não vamos mais brigar, está bem?- ela pediu.
- Tudo bem.- ele assentiu e a beijou com ternura nos lábios.
xxxxxxxxxxxx
Chegou a noite, e com ela um vento frio que foi aplacado pela enorme fogueira acesa no meio da praia. Paulo tinha vestido duas camisas para aplacar o frio, estava se dirigindo à despensa para providenciar algo quente para jantar com Nikki quando viu Aline sentada em um tronco de árvore, chorando.
- Aline, o que foi?- ele indagou, se abaixando para ficar no nível dela.
- Eu quero morrer, Paulo!- ela disse, soluçando.
- Quer morrer? Que história é essa?
- O Desmond, ele me deixou agora que a Tina voltou.
- Ele voltou com ela? Mas me disseram que ela está sem memória, que está com um comportamento esquisito!
- Não, ele também não voltou com ela. Disse que precisa ficar sozinho, que não pode escolher entre nós duas e que não quer nos magoar.
- Então talvez ele tenha tomado a decisão mais sábia!
- Não Paulo! Você não entende? Eu o amo, eu o amo demais! O que eu vou fazer da minha vida, sozinha nessa ilha?
- Mas você não está sozinha, você tem a mim, somos amigos, conterrâneos! Não fique desse jeito, um dia vamos voltar pro Brasil. Não vamos viver nessa ilha pra sempre!
- Paulo, já estamos aqui há 3 anos, praticamente 3 anos!
- Eu sei, mas não podemos deixar de acreditar. Aline, somos brasileiros e não desistimos nunca!
- Você e suas piadas sem graça!
- Não foi uma piada dessa vez! Vem cá!
Aline permitiu-se ser abraçada e confortada pelo amigo, estava sofrendo demais e não conseguia vislumbrar esperanças no futuro, mas a amizade de Paulo lhe dava forças.
- Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem... – ele repetia para confortá-la.
xxxxxxxxxxxxxxxx
Sayid estava preparando um pouco de carne de porco assada para ele e Shannon em uma pequena fogueira próxima à sua cabana quando Juliet se aproximou dele, sorrindo. Sayid fitou os olhos claros dela, era estranho vê-la sorrindo para ele.
- Boa noite.- Juliet saudou.
- Boa noite. – ele respondeu.
- O marido dedicado está preparando o jantar da esposa? Espera que ela esteja menos zangada com você, ela me pareceu furiosa ao nos ver algemados juntos.
- O que quer, Juliet?- ele indagou, objetivo.
- Eu quero agradecer por não ter dito ao Michael a verdade sobre estarmos algemados.
- Não contei à ninguém, nem mesmo a minha esposa.- ele assegurou.
- E por que fez isso?- ela indagou. – Por que não contou à sua esposa?
Sayid nada respondeu, apenas encarou Juliet. Ela se aproximou dele, sentindo um súbito desejo de beijá-lo, e foi o que fez, unindo seus lábios aos dele. O beijo o pegou de surpresa, mas ele não a beijou de volta, ficou parado como se não entendesse o que estava acontecendo.
Shannon apareceu nesse exato momento e não pôde acreditar no que seus olhos viam. Sayid empurrou Juliet delicadamente e já ia indagar por que ela o estava beijando quando viu os olhos assustados e chorosos de Shannon.
- Shannon!- gritou.
Ela balançou a cabeça negativamente e deu-lhe as costas. Sayid foi atrás dela.
- Shannon, me escuta!- ele segurou o braço dela quando a alcançou.
- O que você tem pra me dizer, Sayid? Que não era nada do que eu estava pensando? Me poupe dessa desculpa furada!
Ela saiu caminhando depressa em direção à cabana deles e Sayid ficou lá parado, amargando a própria tristeza. Juliet se aproximou com o olhar pesaroso.
- Sayid, sinto muito!
- Eu é quem sinto, por ter confiado em você!- respondeu ele, irritado, deixando-a sozinha.
Sentindo-se péssima por ter provocado aquela nova briga entre Sayid e Shannon, Juliet caminhou cabisbaixa pela praia. Jack que estava perto da fogueira comunitária, a chamou assim que a viu:
- Hey, Juliet!
- Agora não, Jack!- ela respondeu mal-humorada.
Jack estranhou a atitude dela, mas nada disse indo sentar-se ao lado de Sawyer na areia que acabara de testemunhar a resposta torta de Juliet para ele.
- Problemas no paraíso, doutor?
- È o que parece!- respondeu Jack.
- Ah, fica assim não! Vai ver ela está de TPM.- comentou Sawyer com cinismo.
- Talvez, mas a sua TPM parece pior que a dela. – Jack devolveu com um sorriso e Sawyer deu de ombros, estava amuado desde sua briga com Ana-Lucia àquela tarde.
- Kate me contou sobre o que aconteceu hoje à tarde entre Ana e Cassidy, e as razões pela qual o confronto entre as duas aconteceu também.
- Aparentemente Ana-Lucia não consegue controlar seus nervos.
- Não me parece essa a razão.- disse Jack e Sawyer ergueu uma sobrancelha, atento ao que ele ia dizer.
- Sawyer você se lembra do que eu te contei sobre ter visto em uma tela naquela prisão onde me colocaram, o Benjamin Linus molestando Ana-Lucia?
A lembrança veio direto à mente dele.
- Sim, eu me lembro, e senti tanto ódio quando me contou isso.
- Desconfio que talvez Ana-Lucia tenha passado por coisa ainda piores do que imaginamos e está escondendo isso de você. Isso pode tê-la marcado e muito!
Jack ficou calado alguns segundos, até que começou a dizer:
- Eu conheci a Ana-Lucia no aeroporto, antes de pegarmos o avião.
Sawyer fez cara de surpresa e Jack continuou.
- Eu estava no bar, bebendo sozinho e ela apareceu de repente, linda e sedutora. Não tinha nada de agressiva, pelo contrário. Nós combinamos de tomar outro drink no avião.
- E tomaram o drink?- perguntou Sawyer.
- Sim, nós tomamos. Quando embarquei no avião eu a procurei. Ela tinha me dito que estava na poltrona 42 F, bem acima da roda. Nós tomamos o drink, conversamos algumas amenidades e rimos um pouco. Conversar com ela me fez bem, eu estava me sentindo péssimo.
- Vocês estavam juntos quando o avião caiu? Não, porque seria muito estranho que você tivesse vindo parar desse lado da ilha e ela do outro.- comentou Sawyer.
- Não, eu a deixei depois do drink e voltei pro meu lugar. Nós trocamos telefons, eu realmente fiquei interessado na companhia dela. Mas quando voltei pro meu lugar, um pouco depois o avião entrou em pane e o resto você já sabe.
- Por que está me contando isso, doutor?
- Porque você está deprimido.- respondeu Jack. – Sei que está imaginando se fez a escolha certa continuando com Ana-Lucia, agora que reencontrou a mãe da sua filha, alguém do seu passado. Só estou te dizendo que não deixe uma atitude desesperada mudar sua opinião, apenas pense no que viveu com as duas, pese os prós e contras e descubra por qual delas seu coração bate mais forte!
- Achei que eu soubesse, Jacko! Quando olho pra Ana o meu coração e todas as outras partes do meu corpo ficam em estado de alerta.
Jack riu.
- Acha mesmo que eu deveria conversar com ela? Perguntar a respeito do que aconteceu durante os últimos cinco meses além do que ela me contou?
- Pra te falar a verdade, eu sou a pior pessoa do mundo pra dar conselhos a alguém, principalmente amorosos, mas, acho que seria melhor que não deixasse Ana ir dormir zangada com você.
- Boa noite, Sawyer.
- Boa noite, doc!- Sawyer respondeu, pensativo. – E obrigado pela conversa.
Jack saiu caminhando pela praia iluminada por tochas, a maior parte das pessoas já tinha se recolhido às suas cabanas. Pensou em Juliet, se perguntando por que ela estava tão zangada? Resolveu que poderia perguntar isso a ela depois, agora tudo o que queria era uma boa noite de sono nos braços de Kate.
A cabana estava escura quando entrou. Tudo muito quieto. As duas mulheres de sua vida dormiam, tranqüilas. Checou Lilly no bercinho, adormecida entre os cobertores e sorriu. Tirou toda a roupa permanecendo apenas com a cueca boxer e foi deitar-se na cama ao lado de Kate. Quando seu corpo tocou o dela, Kate se mexeu na cama e sonolenta, indagou:
- Onde você estava?
- Apenas salvando o mundo.- Jack respondeu, envolvendo os braços em sua cintura e beijando-lhe o pescoço.
Kate riu levemente e voltou a adormecer, dessa vez na segurança dos braços de Jack.
xxxxxxxxxxxxxx
Já era tarde da noite e Ana-Lucia sabia que deveria voltar para a cabana e pôr o filho para dormir, mas não sentia vontade de encarar Sawyer ainda. Como o pequeno James estava bem quieto no colo dela, sem febre e com a barriga cheia, pois ela finalmente conseguira alimentá-lo resolveu ir até a igreja.
Viu um pouco de luz escapando da rústica construção e deduziu que seu amigo Mr. Eko deveria estar lá. Tinha se lembrado dele completamente depois da confusão com Cassidy e sentiu muito vontade de conversar com ele. Sentia que ele a compreenderia.
Caminhou até lá e o encontrou sentado em um dos bancos de correr, com as mãos unidas, estava rezando. Ao ouvir passos atrás de si, ele voltou-se e deu um largo sorriso.
- Ana! Que bom vê-la aqui!
- Eko!- ela respondeu, também sorrindo, antes de se sentar ao lado dele. – Imagino que já saiba o que eu fiz esta tarde.- disse ela, envergonhada.
- Sim.- ele respondeu. – As notícias por aqui correm muito depressa.
- Eu não queria machucá-la. – Ana-Lucia justificou-se. – Principalmente na frente da filha dela, mas quando vi meu filho doente eu senti tanto medo, Eko, eu pensei que fosse perdê-lo como perdi tudo na minha vida.
- Você precisa chorar Ana.- disse Eko. – Da primeira vez você esperou 40 dias para chorar, agora esperou cinco meses. Sei que deve ter sofrido muito durante o tempo em que esteve com os Outros.
Ela lembrou-se da primeira vez em que se mostrou vulnerável a ele na ilha, no dia em que matou um homem, um dos Outros, Goodwin. A vontade de chorar e desabafar fora insuportável naquela tarde, e Eko estava lá para ajudá-la. Depois disso, só voltou a se permitir chorar dessa maneira nos braços de Sawyer, na floresta, na noite em que quase morreu soterrada por lama dentro de um buraco.
- Mas agora não acho que precise do meu conforto. Você precisa do conforto do pai do seu filho, é a ele que você quer.
- Não.- ela balançou a cabeça. – Ele vai me deixar, agora que a mulher que ele amava está aqui na ilha!
- A mulher que ele amava!- disse bem. – Você agora é a mulher que ele ama. Não deve se preocupar se ele irá deixar de amá-la, apenas dê-lhe seu amor, Ana.
Ana-Lucia sentia os olhos arderem, porque as lágrimas ameaçavam tomá-la, mas controlou-se.
- Obrigada, Eko. Eu vou pra minha cabana, já é tarde!
Eko assentiu. Beijou-lhe carinhosamente na testa e em seguida acariciou a cabecinha de Aaron.
- Me procure quando quiser batizá-lo!
Ela agradeceu mais uma vez e deixou à igreja rumo à cabana de Sawyer.
xxxxxxxxxxxxxxxx
- Shannon! Shannon!- Juliet chamou à porta da cabana de Shannon e Sayid, mas ele não se encontrava lá, tinha ido dormir sozinho ao relento, perto da fogueira, esperando que Shannon se acalmasse e acreditasse que não fora ele quem beijara Juliet. Estava odiando a médica agora.
- O que você quer?- indagou Shannon da janela da cabana, os olhos molhados mostravam que ela tinha chorado. – Veio buscar as coisas do Sayid, pra levar pra sua cabana?
- Olha Shannon, não vou perder meu tempo me desfazendo em monólogos pra te explicar o que aconteceu, vou direto ao ponto. Fui eu quem beijou o Sayid. Nem sei porque fiz isso, mas acho que estou me sentindo muito carente de afeto aqui nessa ilha.
Shannon fez expressão de pouco caso, e já estava fechando a cortina da janela de sua cabana quando Juliet insistiu:
- Eu ainda não terminei!- de alguma forma o tom firme das palavras de Juliet fizeram com que Shannon a ouvisse. – Eu estou nessa ilha a mais tempo do que gostaria. Sou mãe de dois filhos que deixei para trás, o meu filho Julian ainda nem me conhece porque quando fui embora ele era só um bebê. O único homem que eu amei neste lugar e que me amou de volta, está morto. A maior parte das pessoas dessa comunidade não confia em mim, especialmente a mulher do chefe, que irônico e terrível pra mim, não é?
Shannon permaneceu calada, deixando que ela falasse.
- O Sayid, está na lista das pessoas que não gosta de mim, posso dizer assim. Mas apesar disso ele me deu uma segunda chance, confiou em mim mesmo quando eu menti sobre o motivo de estarmos algemados.
Ela redobrou sua atenção às palavras de Juliet.
- Quando Ben acionou o gás lá na Vila, eu não tinha idéia se isso nos mataria ou não, saí correndo, apenas tentando sobreviver e por acaso encontrei o Sayid preso na estufa. Tive um pensamento completamente egoísta quando o vi, imaginei que se o ajudasse e o fizesse confiar em mim eu cairia nas graças de todos aqui da comunidade, pois todos confiam nele. Dei um jeito de soltá-lo das algemas e me algemei com ele, arrastando-o comigo para longe. Quando ele acordou, eu disse a ele que não sabia como tínhamos ido parar naquela situação. Mas no decorrer do nosso caminho aconteceram coisas e eu tive que confessar a verdade, mas mesmo assim, o Sayid não me abandonou, me trouxe de volta até aqui e eu o beijei por ser grata a ele, por não ter contado às outras pessoas o que eu fiz para conseguir a confiança dele, sei que ele mentiu sobre isso até pra você. Portanto, eu só queria te contar a verdade, agora faça o que quiser com ela.
Juliet deu as costas à Shannon, e ela fechou a cortina voltando para o interior da cabana. Recomeçou a chorar, tentando decidir se o que Juliet dizia era verdade ou não. Sem
saber o que fazer, saiu correndo da cabana rumo ao túmulo de Boone. Quando chegou lá, sentou-se em um tronco e chorou convulsivamente, pensando quando seu sofrimento iria acabar.
De repente sentiu braços fortes ao redor de si e ao notar que era Sayid, afundou o rosto no peito dele. Sayid beijou-lhe os cabelos loiros, mas nada disse.
- Yd, sinto tanta falta dele. Me sinto tão sozinha aqui sem o meu irmão.
- Eu sei.- ele respondeu compreensivo, mas você não está sozinha. Eu disse que nunca mais ia te deixar, o que a Juliet fez...
Shannon o calou com um dedo nos lábios.
- Vamos esquecer a Juliet. Só me leve pra casa!
Sayid assentiu e a carregou nos braços de volta para a cabana.
xxxxxxxxxxxxxx
Ana-Lucia colocou James adormecido no bercinho e quando se virou deu de frente com Sawyer e tomou um grande susto.
- Me desculpe.- disse ele. – Não queria assustá-la.
Ao olhar para os olhos azuis que brilhavam no escuro, a vontade de chorar quis voltar com força total, e Ana disse, com um soluço:
- Eu perdi um bebê, uma vez. Quando eu levei aquele tiro que achei que tivesse me deixado estéril.
Sawyer acariciou os cabelos dela, apenas a escutando.
- E eu não consegui suportar a dor dessa perda e o meu marido, Danny, ele me deixou, ele me deixou sozinha!- outro soluço escapou da garganta dela e Sawyer a abraçou junto ao peito. – Eu tenho medo Sawyer, tenho medo que você me deixe também...você e o James são tudo o que eu tenho aqui nessa ilha!
- Shiiiii...- ele disse carinhoso, beijando-lhe as lágrimas. Conduziu-a para a cama, devagar, deitando-a. Tirou-lhe os sapatos e em seguida tirou os seus próprios, passando a camisa pela cabeça em seguida. Deitou-se ao lado dela na cama, em posição de concha, abraçando-a por trás e Ana começou a chorar forte.
Sawyer ficou quieto, apenas abraçando-a, deixando que ela chorasse tudo o que precisasse. As palavras de Jack sobre coisas ruins terem acontecido à ela durante os meses em que esteve com Ben não saíam de sua cabeça, mas não iria interrogá-la naquele momento, deixaria apenas que seu amor desabafasse o quanto precisasse.
- Quiero hablar de ti, de lo que yo te ame, me dueles tanto...tanto...que solo soy, viento! Viento llegou, viento pasó y como me acuerdo(...) Ah, yo the llamo, yo que te llamo, donde estes, vem volando a mi lado...voy a buscarte por donde estes para que venga y así nos volamos a namorar...- ele cantarolou suave no ouvido dela, até que o choro diminuísse e ela por fim adormecesse.
xxxxxxxxxxxxxxxxx
Eko estava fechando a igreja quando encontrou Tina do lado de fora, caminhando pela areia da praia em direção a ele, com uma certa dificuldade devido à perna machucada. Mesmo assim ele a achou mais linda do que nunca. O vento despenteava-lhe os loiros e finos cabelos.
- È tarde Cristina, o que está fazendo aqui?
Ela tomou as mãos dele entre as suas.
- Você me disse a mesma coisa ontem, Eko.- ela respondeu. – Quando eu pulei a janela para ir ver você tarde da noite perto da igreja.
- Ontem?- ele retrucou. – Isso aconteceu há muito tempo.
- Talvez tenha sido mais uma das minhas viagens no tempo.- disse ela. – Pelo menos foi isso o que o Desmond me disse. Me falou sobre viagens no tempo, fenômeno ocasionado por eu ter girado a chave da Escotilha e salvado a ilha de explodir.
- Acredita mesmo que isso é verdade?
- Bom, eu acho que o Desmond é um maluco se quer saber. Mas acho que ele merece um pouco de crédito, afinal estou numa ilha e não na Nigéria, minha irmã Joana está morta e a única pessoa que me lembro de conhecer nesse lugar é você. Ele me falou também sobre uma criança que estava comigo, embora eu não me lembre de nada.
- O que você concluiu com isso tudo?
- Desmond me disse que a única forma de eu me lembrar de tudo e compreender o que está acontecendo à minha volta é buscar à minha constante. E a minha constante entre a Nigéria e esta ilha é você Eko.
Ela se aproximou dele e espalmou as mãos em seu peito largo. Os rostos se aproximaram e eles se beijaram intensamente tendo como testemunha apenas a luz do lua.
LOST
Continua no próximo episódio...
