Salve-nos Charlie! Parte II

O ruído característico dos pássaros silvestres enchia o ambiente, enquanto uma brisa leve penetrava na floresta através das copas das árvores. A feliz expedição que deixara o acampamento com a nobre missão de encontrar morangos para saciar o desejo de Libby caminhava juntos. Empolgado, Charlie assobiava o "Danúbio Azul" com a ajuda de Hurley e Craig; o episódio de sonambulismo da noite anterior já havia sido esquecido. Desmond caminhava à frente abrindo caminho pela mata com um facão.

- Craig, você tá assobiando fora do compasso!- queixou-se Charlie. – Eu estou assobiando em ré maior e você em lá menor, não percebe?

Craig balançou a cabeça negativamente.

- Mas é claro que não, estou assobiando em fá maior! Você é que não tem ouvido musical!

- Mas é claro que tenho!- retrucou Charlie.

- Não tem não!- rebateu Craig.

- Hey dudes, querem parar de discutir e prestar atenção à música?- reclamou Hurley.

Desmond parou à frente deles de repente, fazendo com que um caísse por cima do outro causando um efeito dominó. Saindo de cima de Hurley, que estava esmagando Craig, Charlie perguntou a Desmond:

- O que foi, cara?

- Shiiii!- pediu Desmond, olhando muito atento por entre as árvores. – Tem algo vindo na nossa direção!

- O quê?- perguntou Craig, preocupado.

- Dude, por que será que isso sempre acontece por aqui?- questionou Hurley, um pouco exasperado.

Os quatro ficaram muito atentos ouvindo o som de algo cortando o ar.

- Se abaixem!- Desmond gritou e os três se jogaram no chão. Uma espécie de adaga passou zunindo por sob as cabeças deles até bater em uma árvore e cair no chão.

Desmond foi o primeiro a se erguer enquanto os outros permaneceram abaixados, ainda muito assustados. O escocês caminhou com cautela até onde a adaga tinha caído e juntou o objeto do chão. Era de fabricação caseira, mas muito eficiente. Se ele não tivesse gritado para que seus amigos se abaixassem, um deles estaria morto com a garganta cortada agora.

- O que é isso?- perguntou Hurley, o segundo a se levantar.

- È uma adaga. Uma arma de fabricação caseira.- respondeu Desmond.

- Mas da onde veio isso?- indagou Charlie. – Tem ninjas nessa floresta?

Desmond apontou o interior da floresta.

- Nossa!- exclamou Craig. – Sorte que você ouviu o barulho dessa coisa antes que chegasse perto demais da gente.

- Não foi sorte, brotha. Essa arma tinha endereço certo. A garganta de um de nós.

- Mas quem?- indagou Craig. – Porque é praticamente a primeira vez que eu venho em uma missão importante e ainda não fiz inimizade com ninguém e...

Desmond ficou calado e os outros souberam que ele sabia para quem aquela adaga estaria destinada.

- Para quem você acha que era essa adaga, Desmond?- perguntou Charlie.

- Sinto muito, brotha, mas tenho certeza de que era pra você.

xxxxxxxxxxxxxxx

Jack terminou de fechar o zíper da calça e olhou para Kate que estava tentando prender os longos cabelos cacheados em um coque no alto da cabeça. Quando ela notou que ele a estava observando, sorriu e Jack devolveu-lhe o sorriso, dizendo:

- Três vezes foram suficientes pra você?

Kate riu.

- Eu acho que sim, garanhão!

Jack se aproximou dela e a beijou. Kate envolveu os braços no pescoço dele e eles ficaram de chamego por alguns minutos até que ela se afastou, dizendo:

- Precisamos ir. Já está na hora da Lilly mamar!

Eles se deram as mãos e saíram caminhando em direção à praia.

- Sabe no que eu estava pensando?- Jack indagou.

- No quê?

- No nosso problema com a escassez de comida na ilha. Se não fosse pela pesca e a pequena plantação da Sun, estaríamos com problemas ainda maiores. Não recebemos mais nenhum carregamento de alimentos e não sabemos mais por quanto vamos ficar aqui. Já estamos nessa ilha há três anos, Kate.

- Sim, você tem razão. O porco anda escasso também e eu me pergunto como será que os Outros conseguem comida? Carregamentos entregues por um helicóptero como faziam com a gente antes? Certamente eles sabem um jeito de entrar e sair desta ilha Jack, apenas não estão interessados que a gente descubra.

- Pode ser que você esteja certa Kate, mas eu estive na vila deles e do jeito que o lugar foi destruído acho que agora os sobreviventes dos Outros não estão melhor do que nós.

- Acho que devíamos perguntar a Juliet sobre os meios de subsistência deles, afinal ela pertencia aos Outros.

- Não creio que Juliet saiba mais do que nós sabemos agora.

Kate resolveu não discutir com ele, quando se tratava de Juliet eles sempre acabavam brigando.

- Eu disse que estava preocupado sobre essa questão da comida...- Jack continuou. – Porque nossa comunidade está aumentando, temos muitas crianças no acampamento. Eu penso que se o controle de natalidade na ilha continuar subindo teremos sérios problemas. Além da falta de comida, teremos que lidar com o fato de que não podemos vacinar as crianças contra as doenças comuns da infância, isso sem falar sobre os partos de risco. Você e Ana-Lucia tiveram problemas no parto, eu espero que o mesmo não aconteça com Libby. Você entende o que eu estou dizendo, princesa?

- Entendo, mas o que você pretende fazer? Não temos preservativos nem anticoncepcionais na ilha, então você vai baixar um decreto que proíbe a prática do sexo na comunidade? Amor, nós não somos o melhor exemplo e você sabe disso.- Kate comentou com um sorriso maroto.

Jack riu do jeito dela.

- Não, é claro que não posso proibir ninguém de fazer sexo, mas existem algumas medidas que podem ajudar.

- Tabelinha?- Kate indagou.

- È, tabelinha seria uma boa ajuda. Não é cem porcento eficaz, mas acho que evitaria que mais crianças nascessem por ora.

- Certo, eu gostei da sua idéia, mas como poderíamos conscientizar as pessoas?

- Eu pensei em você pra isso, é tão comunicativa!

- Eu?- Kate colocou a mão no peito. – Ah Jack, não sei se vou me sentir à vontade para falar de assunto tão delicado com os casais da ilha.

- Bom, a Libby como psicóloga pode te ajudar, além do mais, se vocês conseguirem conscientizar pelo menos as mulheres já seria um bom caminho andado.

- È, eu posso falar com a Libby sobre isso.

Jack assentiu. Eles já estavam quase chegando à praia. Mas antes que eles chegassem, Kate perguntou a ele:

- Jack, será que um dia vamos realmente sair dessa ilha?

Ele parou de andar e fitou o horizonte.

- Algo me diz que sim Kate, talvez muito antes do que estamos esperando.

xxxxxxxxxxxxx

Nikki sacudiu os cabelos molhados à luz forte do sol e caminhou em direção à sua cabana, sorrindo para algumas pessoas que encontrou no caminho. Tinha acabado de dar um gostoso mergulho no mar, mas esquecera sua toalha na cabana e teve que voltar molhada para casa.

Quando chegou, entrou rapidamente na cabana buscando sua toalha, mas parou ainda no primeiro compartimento da casa, pois ouviu um barulho vindo do único quarto que a cabana possuía.

- Paulo é você?- indagou. Mas ninguém respondeu. Nikki insistiu: - Paulo!

Ela resolveu ir até o quarto e encontrou Pedro revistando suas coisas.

- O que você está fazendo?

- Onde está?- ele perguntou, impaciente.

- Em um lugar onde você nunca vai encontrar. Quem você pensa que é pra revirar minhas coisas assim?

Pedro não respondeu e continuou remexendo tudo, jogando roupas e outros pertences para tudo quanto era lado.

- Pare agora com isso!- Nikki gritou. Paulo chegou nesse exato momento.

- Mas o que está acontecendo aqui?

- Eu quero saber onde vocês dois desgraçados esconderam! Vocês são ladrões, roubaram da minha cabana quando eu não estava lá!

- Ladrão que rouba ladrão...- Paulo citou o antigo ditado em português com uma risada sarcástica.

- Não pensem que isso vai ficar assim!- Pedro disse, furioso.

- Você é quem deve ter cuidado comigo.- avisou Paulo. – Se entrar na cabana da Nikki outra vez eu te arrebento e denuncio você! Todos na comunidade vão saber pra quem trabalha.

Pedro não disse mais nada e deixou a cabana.

- Você está bem? Ele fez alguma coisa com você?- indagou Paulo a Nikki, abraçando-a.

- Eu estou bem Paulo. Só não entendo como pude ser tão estúpida, como pude ter acreditado nele.

- Já sabemos que ele é um excelente manipulador, Nikki.Você não teve culpa de nada, estava apenas fazendo seu trabalho.

- Mas se eu soubesse que ele me usou para encontrar esta ilha desde o começo...oh, Paulo!

Ele beijou-lhe a testa num gesto de conforto.

- Deveríamos contar a todos quem ele é!

- Ainda não Nikki, eu ainda penso que ele foi abandonado pelo chefe dele e agora está em maus lençóis, preso nessa ilha como a gente. Fiquemos de olho nele, qualquer movimento em falso e nós contaremos a todo mundo quem ele é.

xxxxxxxxxx

- Hey Kate!- cumprimentou Ana-Lucia quando Kate apareceu à porta da cabana dela.

- Oi, Ana.- respondeu Kate. – A minha bonequinha deu muito trabalho?

- Trabalho nenhum.- respondeu Ana. – Entra!

Kate adentrou a cabana de Sawyer e Ana e encontrou sua filhinha quietinha, dormindo dentro do cestinho em cima da mesa.

- Nossa, pensei que fosse encontrá-la chorando porque já está na hora dela mamar.- comentou Kate.

- Ah não, ela está dormindo como um anjinho...

- Ao contrário do James!- disse Kate, observando o menino rodeado de brinquedos em cima da cama, fazendo bagunça.

- O James quase não dorme mais durante o dia, parece que quanto mais ele cresce, menos ele dorme. A única coisa boa disso é que ele não acorda mais durante a noite e eu e o Sawyer podemos ter um tempo pra nós.- Ana acrescentou, maliciosa.

Kate sorriu.

- Obrigada por ter cuidado da Lilly pra mim. Ela costuma acordar bastante durante à noite e eu e o Jack não tínhamos um momento a sós há tempos.

- Eu posso cuidar dela sempre que precisar.

- Obrigada Ana, eu também posso cuidar do James quando você precisar.

Ana-Lucia sorriu.

- E onde está o Sawyer?- Kate perguntou.

Ana revirou os olhos:

- Ele foi fazer um conserto na cabana da Cassidy.

- Outra vez?

- È, todo dia ela inventa uma desculpa e o Sawyer corre para atendê-la por causa da filha dele. Estou odiando isso, Kate, mas não vou falar nada porque a menina não tem culpa do que a mãe dela faz.

Kate concordou com Ana, mas disse:

- Ana, eu sei o quanto isso é difícil pra você, mas é difícil pra Cassidy também. Eu a conheci há muito tempo, muito antes de cair nessa ilha.

Ana-Lucia ficou surpresa, mas nada disse, deixou que Kate falasse.

- Quando nos conhecemos a Cassie me ajudou muito e me contou que estava grávida de um golpista por quem era muito apaixonada. Eu jamais podia imaginar que era o Sawyer, fiquei muito surpresa quando descobri a ligação entre eles.

- O Sawyer me contou tudo sobre ele e Cassidy, e eu a entendo até certo ponto. Mas penso que as coisas são diferentes agora, o Sawyer se envolveu comigo e estamos juntos, Kate, eu não posso aceitar o comportamento dela, mesmo que seja justificável.

Kate assentiu.

- Estou tentando ter paciência com tudo isso, Kate. Estava só esperando você vir buscar a Lilly para ir procurá-lo, ele está demorando muito e já está quase na hora do almoço.

- O Jack foi falar com o Michael, então vou indo com você assim o encontro no caminho.

Kate foi buscar o cesto onde dormia sua filha e Ana-Lucia pegou James no colo.

xxxxxxxxxxxxxxx

- Pronto Cassie, o problema está resolvido!- disse Sawyer quando terminou de consertar a palha da cabana.

- Obrigada, James. Eu sei que sempre posso contar com você.

- Sim, pode.- respondeu ele, ansioso para ir almoçar com Ana.

Cassidy se aproximou dele de um jeito insinuante, eles estavam praticamente sozinhos à porta da cabana, pois Clementine brincava distraída.

- O que está fazendo, Cassie?- ele indagou, desconfiado.

- Dois meses nessa ilha e desde que nos vimos você ainda não me deu nenhum beijo.

- Cassie...

- James, depois de tudo o que você me fez passar e todas as promessas que fez a mim como tem coragem de me desprezar desse jeito? Eu não consigo aceitar que você esteja vivendo com ela!

- As coisas mudaram Cassidy, eu e ela passamos por muita coisa juntos...

Mas Cassidy não quis saber, estava perto o suficiente de Sawyer para beijá-lo e foi o que fez. Surpreso com a ousadia dela, ele tentou se afastar, mas já era tarde demais. Ana-Lucia olhava para ele segurando o filho no colo com um olhar cheio de decepção e raiva.

- Ana!- Sawyer a chamou, mas dessa vez ela não brigou, não bateu em ninguém e também não gritou, apenas virou-lhe as costas. Isso para Sawyer era pior que uma reação violenta dela. – Ana!

Ana-Lucia o ouvia e sabia que ele estava vindo atrás dela, mas dessa vez ela não queria conversar, só queria ficar bem longe dele. Ao ver Sawyer correr atrás dela e Ana-Lucia dar-lhe as costas, Cassidy comemorou internamente sua vitória, tinha finalmente conseguido semear a semente da discórdia. Agora era só esperar o momento em que Sawyer viria buscar seu consolo.

xxxxxxxxxxxxx

--

(Flashback)

A piscina já não era ameaçadora. Charlie mergulhava e retornava batendo água nos braços de seu pai, feliz da vida por ter finalmente superado seu medo de mergulhar. Podia fazer isso de olhos fechados, e foi o que fez quando o pai mais uma vez o mergulhou na piscina funda, mantendo seus braços firmes ao redor do garoto.

O pequeno Charlie começou a contar mentalmente quanto tempo agüentaria debaixo d´água até que resolveu abrir os olhos. Mas a água da piscina não estava mais clara e sim escura, esverdeada. Assustado, Charlie tentou retornar para a superfície, mas algo o impedia.

"Salve-nos Charlie"..."Salve-nos Charlie"...

"Você tem que nos salvar, Charlie"

Vozes misturadas repetiam essas palavras e Charlie continuava lutando para voltar à superfície. Mas estava cada vez mais difícil, aos poucos o ar estava se esvaindo de seus pulmões. De repente, as vozes antes sussurradas ficaram mais nítidas e Charlie ouviu alguém dizer:

- Charlie, agüenta firme, brotha!

Charlie abriu os olhos, a água continuava escura, mas ele não era mais um garoto. Era um homem adulto que se afogava em um lago escuro enquanto seus companheiros tentavam salvá-lo.

- Charlie!- ele ouviu a voz de Hurley em tom desesperado. Precisava se salvar, mas algo o puxava cada vez mais para o fundo. Estava perdido.

Continua...