Salve-nos Charlie parte IV
Os galhos da árvore balançaram quando Desmond subiu pelo tronco, esgueirando-se até o topo, agarrado a algumas folhas. Sim, era um pára-quedas, agora ele tinha certeza. Preso nele estava um corpo, a face escondida por um capacete. Não tinha como saber ainda de quem se tratava.
- Tudo bem aí, Des?- gritou Charlie.
- Sim.- ele respondeu. – Eu vou cortar as cordas do pára-quedas. Vocês irão precisar segurar o corpo.
Craig estendeu os dois braços para aparar o corpo que cairia assim que Desmond cortasse os fios, mas Hurley o empurrou, dizendo:
- Você é um fracote! Não vai conseguir agüentar o corpo!
- È claro que vou!- ele retrucou. – E não sou fracote, você é que é gordo!
- Como é que é, dude?
- Hey, vocês dois, parem com isso! O Desmond vai cortar a corda agora.
Desmond tirou uma faca do bolso e pôs-se a cortar as cordas, o corpo cambaleou para frente e começou a cair, esbarrando nos galhos.
- Cuidado aí, embaixo!- advertiu Desmond.
Hurley apressou-se em acolher o corpo, mas a queda foi tão violenta que ele tombou para trás com o corpo nos braços. Desmond desceu logo em seguida, escorregando pelo tronco da árvore. Charlie ajudou Hurley a estender o corpo sob o solo. Desmond apressou-se em tirar o capacete. O rosto de uma mulher revelou-se a eles. Charlie quase caiu para trás.
- È ela, a mulher que eu vi no meu sonho! A que me disse que eu tinha que salvar a todos.- ele gritou, exaltado.
- Ela está ferida!- disse Desmond, observando um ferimento grande ocasionado pelo impacto da queda que ela sofreu.
- Dude, eu não vi, nem ouvi nenhum helicóptero pelas redondezas, como será que ela caiu aqui na ilha?
- E de que outro jeito ela poderia ter caído, Hurley?- perguntou Craig com incredulidade.
Desmond rasgou um pedaço da camiseta dela para ver melhor o ferimento. Charlie colocou a mão na boca.
- Isso está muito feio!- comentou.
- A gente tem que levar ela pro Jack.- sugeriu Hurley.
- E como faremos isso, brotha?- retorquiu Desmond. – Corremos o risco do ferimento abrir mais no caminho e mesmo se pudéssemos ir correndo, só chegaríamos à praia a noite.
- Mas a gente não pode deixar ela morrer!- disse Charlie.
- Pedro...Pedro...- a mulher começou a murmurar de repente.
- Ela está chamando um nome!- disse Craig.
- Ela está dizendo Pedro.- acrescentou Hurley.
- Quem é Pedro, moça?- Desmond indagou.
- Ajudem-me...ajudem-me...- ela começou a pedir, cuspindo sangue.
- Precisamos levá-la até o Jack, ou trazer o Jack até ela!- sugeriu Hurley.
- Acho que a segunda opção é a melhor, brotha.- disse Desmond. – Charlie, vá com o Craig até o nosso acampamento e traga o Jack até aqui. Ficarei aqui com o Hurley, vou tentar estancar o sangue enquanto esperamos.
Charlie concordou de pronto.
- Iremos o mais rápido possível. Você vai ficar bem, moça.- ele disse, se agachando ao lado da mulher. Em seguida, levantou-se, seguido por Craig, mas antes que se afastasse muito dela, ainda a ouviu dizer:
- Salve-nos, Charlie...
- O quê?- ele retrucou, surpreso. – Como sabe o meu nome?
- Ela está delirando, Charlie! Vá logo!- exigiu Desmond.
- Tomem, levem os morangos para Libby.- disse Hurley, estendendo sua mochila cheia de morangos para Craig.
- Vamos!- disse Charlie e os dois seguiram, se embrenhando na floresta de volta ao acampamento.
xxxxxxxxxxxxxx
O comentário na comunidade era geral. Todos só falavam sobre o controle de natalidade idealizado por Jack e repassado às mulheres através de Kate e Juliet. As opiniões eram controversas. Alguns concordavam que o controle de natalidade era um procedimento necessário à sobrevivência deles na ilha, outros já achavam que era uma
completa perda de tempo. Que já que eles não tinham televisão, precisavam se divertir de outra forma.
Alguns conservadores mais ferrenhos, como Dana Lewis, acreditavam mesmo era na abstinência sexual enquanto o resgate não chegava. Afinal, para que pôr mais crianças naquela ilha se não teriam como alimentá-las? Ela, pessoalmente, temia pela virtude da filha Isadora naquela terra sem lei. Mas o que ela não sabia era que Isadora, há muito tempo vinha mantendo um romance com Neil, então se Dana ainda temia pela virgindade da filha, já estava muito atrasada nesse quesito.
Depois de uma rápida inspeção nas casas, a fim de ver se todos estavam bem, Jack encontrou Kate na despensa com Lilly, naquela tarde ensolarada e preguiçosa. Havia cinco pessoas discutindo ao redor dela sobre o controle de natalidade. Dentre elas, a Sra. Lewis, Rose, Amanda e o Sr. Symmon, hipocondríaco de carteirinha da ilha. O único que se mantinha calado, além de Kate, era Mr. Eko que apenas observava a discussão.
- Eu digo que se pudéssemos esterilizar todo mundo enquanto estivermos nessa ilha, seria o melhor para todos nós, aí não teríamos que nos preocupar tanto com o racionamento de alimentos.- dizia o Sr. Symmons.
- Esterilizar, Richard? Isso é termo que se use?- repreendeu Rose. – Estamos falando de pessoas.
- Eu acho que a sugestão do Jack está condizente com nossa atual situação.- argumentou Amanda.
Dana Lewis balançou a cabeça.
- Pode até ser, mas eu repito pra vocês, se todos aqui na ilha se preocupassem com o resgate ao invés de ficar fazendo...- ela franziu o cenho, como que dando por entendido o que estava falando. – Poderíamos sair logo dessa ilha! O Bernard foi a única pessoa que teve uma boa idéia há algum tempo atrás e ninguém se dignou a ajudá-lo!
- Nem você, Dana!- retrucou Rose. – E isso já faz mais de dois anos!
- Boa tarde!- cumprimentou Jack, entrando na despensa e sorrindo aos comentários das pessoas.
- O papai chegou, Lilly.- Kate disse com a voz doce para a filha, erguendo a menina para que Jack a pegasse.
Ele pegou a filha no colo e disse:
- Fico feliz com a repercussão das minhas idéias na comunidade.
- Não nos leve a mal, doutor.- disse a Sra. Lewis. – Mas acho que poderíamos ocupar nossas mentes com coisas mais importantes do que isso. Quanto ao controle de natalidade, se você instaurasse uma lei de abstinência...
Kate quase deu uma gargalhada, mas conteve-se. Era certamente perigoso provocar o mau-humor da beata.
- Não posso fazer isso, Sra. Lewis. Eu sou uma pessoa democrática. Estou apenas chamando a atenção das pessoas para uma situação real. Estamos há três anos nessa ilha e precisamos pensar em nossa sobrevivência. O resgate, pelo menos pra mim, no momento, parece uma coisa muito longínqua.
- Bem, o padre Eko é um homem de Deus, ele certamente poderia criar essa lei, não poderia, padre?
- Não creio ser o homem mais indicado para isso, Sra. Lewis.- disse Eko. – Mas prometo que rezarei uma missa pelo bem-estar de nossa comunidade.- ele colocou uma caixa de cereal debaixo do braço e já ia deixando a despensa quando Richard Symmons perguntou:
- Onde conseguiu essa caixa de cereal, padre?
- Encontrei um carregamento fechado de cereais aqui na despensa.
As pessoas se entreolharam e felizes foram procurar pelos cereais, esquecendo-se daquela discussão por ora.
- Gosto da segurança com que você fala, baby. Mas algo me diz que não conseguiremos convencer as pessoas a colaborar tão fácil com a nossa causa.- disse Kate.
Jack sorria e balançava Lilly nos braços.
- Estou pensando a longo prazo, Kate. Se nunca conseguirmos sair dessa ilha, temos que estar preparados.
- Acha mesmo que nunca sairemos?
Jack deu de ombros, era difícil dizer. O mundo lá fora era uma incógnita para ele há muito tempo.
xxxxxxxxxxxxxxxx
Ana-Lucia precisava lavar algumas roupas e pediu a Libby que ficasse com James enquanto ela cuidava disso. Libby não se importou em tomar conta dele, e Emma gostou de poder brincar com o bebê.
- Você vai morar com a gente agora, Ana?- a menina indagou enquanto Ana organizava as fraldas que precisava lavar.
- Por enquanto sim, querida.- Ana respondeu.
- Você brigou com o Sawyer?- indagou Zack, chutando a areia acumulada em seus pequenos pés.
- Tivemos uma discussão, só isso.- ela tentou explicar para a criança, prendendo os cabelos com um elástico, estava muito quente.
- Mas você não vai embora de novo, vai?- Emma indagou, insegura.
Ana agachou-se no nível das crianças e disse:
- Não, eu não irei a lugar nenhum.- ela respondeu com um sorriso. Desde que tinha voltado à praia, uma das melhores lembranças que tivera foi poder recordar-se das crianças que cuidara do outro lado da ilha e que tanto lutara para trazer de volta ao acampamento quando elas foram levadas pelos Outros.
- Emma, Zack, venham brincar com o James!- chamou Libby com o bebê no colo. – Deixem a Ana ir cuidar da roupa.
As crianças correram até ela.
- Obrigada por lavar a minha roupa, Ana.- agradeceu Libby. – È difícil pra mim nesse estágio da gravidez.
- De nada, Libby. Obrigada a você por cuidar de James e me deixar ficar na sua cabana.- Ana ergueu o cesto de roupas, feito de palha, por uma das mulheres da comunidade. Aos poucos, eles vinham aprendendo a fabricar seus próprios utensílios.
Ana-Lucia caminhou até um dos reservatórios de água e com um pedaço de sabão e uma vasilha feita com casca de coco, começou a ensaboar e enxaguar as roupas.
- Posso ajudá-la?- indagou uma voz masculina grave e agradável.
Ela ergueu o rosto e sorriu para o homem, mas ao mesmo tempo seu rosto demonstrava estranheza porque não se lembrava dele.
- È, me disseram que você anda desmemoriada.- disse ele, retribuindo o sorriso dela. – De qualquer maneira, nós nunca conversamos muito. È engraçado como mesmo nossa comunidade sendo formada por quarenta e poucas pessoas existam círculos sociais tão distintos.
Ana-Lucia parou para observá-lo melhor. Ele aparentava ter pouco mais de quarenta anos, alto, rosto bonito, físico em forma e cabelos lisos começando a ficarem grisalhos, o que lhe conferia um charme especial.
- Eu sou Luke Andersen, radialista.- ele estendeu sua mão para ela. – Você não se lembra, mas eu fiz parte do exército que você e Sayid treinaram para defender a comunidade contra os Outros.
Ana-Lucia enxugou as mãos molhadas na blusa e apertou a mão dele.
- Radialista? Isso explica a voz.
- Bem, pelo menos eu costumava ser radialista. Talvez eu deva tentar criar uma rádio aqui na ilha, estamos precisando de uma, já temos igreja, despensa, controle de natalidade...
Ana riu da piada dele.
- Me desculpe por não me lembrar de você, mal consigo me lembrar do exército que eu treinei aqui na ilha. Minha vida desde que caí aqui tem sido uma incógnita por causa da falta de memória, só consigo me lembrar com nitidez da minha vida de antes...
- Engraçada essa sua definição de antes e depois. Eu também costumo me sentir assim em relação à atualidade e antes do acidente. È como se eu estivesse vivendo uma realidade paralela.
- Realidade paralela?- ela riu levemente. – Puxa, você tem pensado bastante.
- Mesmo assim, confesso que estou completamente entediado, ficar pensando sobre essas coisas não me satisfazem a maior parte do tempo, então será que eu não posso ajudá-la mesmo?
- Se não se importar em lavar fraldas?- Ana sorriu.
- Oh, não, eu adoro fraldas.- ele respondeu bem-humorado e pôs-se a ajudá-la.
Ana riu outra vez. De longe, Sawyer que estava indo para a despensa, viu Ana-Lucia conversando com Luke e não gostou nada do jeito que o homem estava se inclinando sobre ela, enquanto Ana ria. Viu ele espremer uma fralda de seu filho para pôr no varal e ficou aborrecido. Ele conhecia a fama de paquerador daquele sujeito e não ia deixar ele ficar se insinuando pra cima da sua mulher daquele jeito.
- Hey, não sabia que além de conhecer o Top 100 da Billboard, você entendia de roupa suja- comentou Sawyer aparecendo de repente por trás de Ana, abraçando-a pela cintura.
- Acho que mais do que você.- respondeu Luke, olhando desafiadoramente para Sawyer.
- O que você quer, Sawyer?- Ana indagou, ríspida, sem se importar que Luke presenciasse sua discussão.
- Nada, eu só vim te ajudar com a roupa...
Ela deu um sorriso suspeito, se desvencilhando dos braços dele.
- Òtimo. Então por que não começa a esfregar as fraldas sujas?- ela entregou toda a roupa na mão dele e disse a Luke.
- Gostaria de dar uma volta?
- Claro.- ele respondeu.
- Dar uma volta? Como assim?- indagou ele, olhando a pilha de roupas a sua frente.
- Eu volto daqui a pouco, James. E quero as roupas bem limpinhas!
Sawyer praguejou pegando o sabão. Era melhor fazer o que ela dizia se quisesse fazer as pazes logo. Não podia acusá-la de nada, afinal ela e aquele sujeito não estavam fazendo nada demais, o desmoralizado ali era ele que havia sido pego beijando outra mulher.
- Mas que droga!- ele resmungou começando a esfregar a primeira fralda.
xxxxxxxxxxxxxx
Ela queria rir da cara de Sawyer quando entregou as fraldas para que ele as lavasse. Ainda estava zangada com ele e não perdera a chance de provocá-lo. O fato dele ter se aproximado dela só porque ela estava conversando com outro homem era ridículo. Sawyer queria mostrar ao outro que ela lhe pertencia, mas Ana não pertencia a ninguém. Se ele pretendia fazer as pazes com ela agindo daquele jeito, estava indo pelo caminho errado.
Ana-Lucia caminhou com Luke ao longo da praia conversando amenidades. Até que ele era um sujeito divertido e interessante. Não entedia porque nunca tinham conversado antes. Se tivessem se conhecido do outro lado da ilha, provavelmente ele lhe teria sido de grande ajuda na travessia das pessoas, pensou à medida que iam conversando. Luke revelou a ela que também foi policial antes de ser radialista e fora dentro da polícia que descobrira sua vocação para ser locutor.
- Então foi por isso que saiu da polícia? Por que descobriu que tinha uma outra vocação?- ela indagou parando à beira da água para molhar os pés.
- Foi sim. Surgiu uma oportunidade de trabalho e eu não pensei duas vezes, aceitei. E quanto a você?- ele perguntou com um sorriso sedutor. – Por que saiu da polícia?
Ana olhou para o horizonte. Aquela era uma pergunta muito pessoal, ela tinha dividido há pouco tempo a história com Sawyer e não sentia vontade nenhuma de contar àquele homem o motivo pelo qual deixara a polícia. Percebendo a hesitação dela, Luke disse:
- Tudo bem, estou sendo indiscreto, não devia ter perguntado. Talvez se eu tivesse ido naquela jangada no lugar do Sawyer e conhecido você primeiro, eu tivesse a chance de saber.
Ana sorriu.
- Acredite, Sawyer e eu passamos por muitas coisas...
- Eu imagino que sim, mas como não sou um membro VIP da comunidade, nunca pude participar das grandes missões.
- Membro VIP?- ela riu da expressão.
Luke riu também e nesse momento, Ana voltou seus olhos para as pedras e franziu o cenho. Viu a pequena Clementine escalando nas pedras lisas, tentando chegar ao topo. Como ela tinha ido parar lá? Indagou-se.
- O que foi?- Luke perguntou, ainda não tinha enxergado a menina.
- Tem uma criança nas pedras.- Ana respondeu.
Luke olhou na direção das pedras e viu a menina pequena quase escorregando.
- Ela vai cair de lá!- disse Ana, aflita, já tirando as botas para entrar na água. Luke fez o mesmo e os dois dispararam para dentro da água.
Sawyer estendeu três fraldas no varal e enxugou as mãos na calça jeans quando viu Ana-Lucia e Luke correrem para dentro da água.
- Mas o que ela está fazendo agora?- indagou a si mesmo, largando tudo e correndo em direção à beira da praia.
Clementine não tinha menor noção do perigo e continuou caminhando sobre as pedras lisas, tentando escalá-las. Sem pensar duas vezes, Ana-Lucia entrou na água, seguida por Luke.
Cassidy apareceu nesse exato momento e viu a filha sobre as pedras.
- Clementine!- gritou, histérica.
- O que houve?- Sawyer perguntou e Cassidy mostrou a menina. Ele alargou os olhos azuis e entendeu porque Ana-Lucia se jogou na água.
Um pequeno amontoado de pessoas se juntou na beira da praia. Ana lutava contra a correnteza para chegar até as pedras e resgatar a menina. Não fazia a menor idéia de como ela fora parar ali. No entanto, uma onda mais forte bateu nas pedras e derrubou Clementine lá de cima, fazendo com que ela sumisse na água.
Cassidy correu para as ondas, mas Debbie a segurou.
- Não, tia Cassidy! Você não sabe nadar! Eles a trarão de volta.
Sawyer também tinha entrado na água e tentava alcançar Ana-Lucia e Luke. Mas Ana-Lucia estava bem mais à frente deles e seus braços doíam com o esforço que ela estava fazendo para nadar até as pedras. Não podia ver Clementine na água e isso a estava deixando assustada.
Uma onda forte bateu contra seu rosto e ela engoliu um pouco de água, mas manteve-se firme até que avistou o pequeno corpo sendo tragado pelo mar. Respirou fundo e forçou mais os braços, chegando até a menina.
Ana-Lucia segurou Clementine nos braços e percebeu que estava sem fôlego. Puxou o ar para os pulmões, mas não foi capaz de manter-se erguida e afundou.
- Ana!- Luke gritou, arremessando os braços com força para frente e conseguiu chegar até onde ela estava antes. Mergulhou os braços na espuma branca do mar e conseguiu pegar Clementine. A menina estava desmaiada e nenhum sinal de Ana-Lucia.
Da beira da praia, as pessoas assistiam à cena, aflitas. Jack tinha sido chamado e correra para o local, seguido por Kate. Cassidy estava desesperada, as mãos segurando firmemente as mãos de Debbie.
Sawyer finalmente conseguiu chegar até Luke. Quando o viu, ele disse:
- Segure a menina!
Ele pegou o corpinho pequeno nos braços e afastou os cabelos loiros que se colavam ao rosto da menina, ao mesmo tempo em que lutava para não ser levado pela correnteza. Seus olhos buscaram Ana nas águas, mas não a encontraram.
- Leve a menina de volta para a praia! Ainda tenho bastante fôlego e posso encontrar Ana!
- Mas...- Sawyer protestou.
- Vá, Sawyer! A menina precisa sair da água!
Sawyer assentiu e nadou de volta para a praia, mesmo com o coração na mão por não encontrar Ana. Mas sua filhinha precisava de ajuda ou poderia morrer com toda a água que deveria estar em seus pulmões naquele momento.
Chegou à beira da praia puxando o fôlego e correu com a menina para a areia. Jack se aproximou para prestar socorro á garotinha. As pessoas rodearam Sawyer e Clementine, mas o médico pediu para que se afastassem.
Sawyer pousou o corpinho inerte de Clementine na areia molhada e Cassidy se jogou ao lado da filha, em prantos. O rostinho da menina estava arroxeado e isso preocupou Jack.
- Hey, princesa!- disse Jack fazendo pressão no peito da criança, antes de aplicar a respiração boca a boca. – Vamos, por favor!
- A minha filha...- Cassidy murmurava, Sawyer abraçou-a em um gesto de conforto.
Jack forçou bastante suas mãos sobre o peito da menina e enviou ar para dentro dos pequenos pulmões até que a criança voltou a si.
- Isso, lindinha!- disse Jack, feliz por mais uma vez ter feito um bom trabalho.
Sawyer respirou aliviado ao saber que sua filha estava fora de perigo.
- Cassidy, leve-a para a enfermaria para que eu possa examiná-la melhor.- Jack pediu e Cassidy ergueu a filha nos braços indo para a enfermaria seguida por Sawyer.
Sawyer então, voltou seus olhos para a água. Luke ainda não tinha voltado com Ana e ele resolveu que tinha de voltar à água e procurá-los.
- Sawyer!- chamou Jack.
- Ana ainda está na água com o radialista! Preciso trazê-la de volta.
- Aí vem ele!- disse Kate vendo Luke se arrastar pela areia com dificuldade, com Ana-Lucia nos braços, desmaiada.
Sawyer correu até eles e pegou Ana-Lucia nos braços. Ao se ver livre do corpo que carregava, os joelhos de Luke cederam, ele estava exausto, pois a correnteza arrastara Ana-Lucia para longe e ele tivera que se esforçar muito para trazê-la de volta.
- Ana-Lucia...- Sawyer murmurou, colocando-a na areia como havia feito com Clementine.
O rosto dela estava muito pálido, os lábios completamente arroxeados.
- Jack, ela...- começou a dizer Sawyer, muito preocupado.
- Calma, Sawyer!- Jack pediu, levantando a camiseta de Ana e fazendo pressão em seu peito sob o tecido do sutiã.
No primeiro momento, nenhuma reação. O coração de Sawyer apertou-se. Jack fez respiração boca a boca, e Sawyer assumiu o lugar dele, massageando o peito dela com intensidade. Kate e outras pessoas estavam de pé diante deles, esperando que Ana-Lucia torna-se a si. Luke também, ele não sairia de lá até que visse Ana respirando novamente. Emma, que tinha assistido toda a movimentação deles na água, estava chorando, com medo que Ana morresse.
A agonia das pessoas durou mais de cinco minutos, até que Ana-Lucia finalmente tornou a si, arregalando os olhos, puxando o ar e cuspindo a água que estava em seus pulmões.
- Isso, Ana, muito bem!- exclamou Jack, satisfeito. Emma sorriu e enxugou as lágrimas. Kate respirou aliviada, assim como Luke.
- Chica, você está bem?- Sawyer indagou, carinhoso, dando-lhe tapinhas nas costas e ajudando-a sentar-se na areia.
Ana tossiu um pouco mais e Sawyer pegou-a nos braços.
- Vou levá-la para a tenda.
- Eu te ajudo!- ofereceu-se Luke.
- Não precisa!- disse Sawyer. – Eu cuido dela!
- A menina...- ela tentou perguntar.
- Ela vai ficar bem.- ele respondeu com um sorriso de agradecimento para Jack.
Sawyer começou a se afastar com Ana-Lucia nos braços que ainda parecia desorientada, mas antes de ir pra muito longe, gritou para Luke:
- Hey, radialista! Obrigada por cuidar das minhas meninas!
Luke apenas assentiu. Jack foi para a enfermaria verificar Clementine e Kate o seguiu ainda carregando Lilly. Quando chegaram lá, Cassidy tinha deitado Clementine na maca, que estava bem quietinha.
- Cassidy, como ela foi parar nas pedras?- indagou Kate.
Cassidy balançou a cabeça negativamente, dizendo:
- Eu não sei, ela estava brincando perto de mim e de repente sumiu...
- Me deixe examiná-la!- pediu Jack. Cassidy concordou e ficou observando-o cuidar de sua filha, junto com Debbie.
- Hey, princesa!- Jack disse com voz doce. – Está doendo aqui?- ele perguntou, tocando a cabecinha da menina.
- Não.- ela respondeu com sua voz infantil.
- Bom!- disse Jack, sorrindo.
Kate ajeitou Lilly no colo e beijou-lhe a cabecinha dando graças a Deus por Ana-Lucia e Clementine estarem vivas e não ter acontecido outra tragédia naquela ilha.
xxxxxxxxxxxxxxx
Estar em um ilha perdida no pacífico há quase três anos, esperando por um resgate que nunca chegava, significava ter tempo de sobra para qualquer coisa que se quisesse fazer, exceto quando o tempo e a distância se tornavam inimigos mortais.
Charlie pensava sobre isso enquanto corria com Craig pela floresta tentando chegar o mais depressa possível à comunidade para encontrar Jack e levá-lo até o local onde Desmond e Hurley aguardavam junto à mulher misteriosa, a mulher que Charlie vira em seus sonhos e que agora estava muito ferida para explicar como fora parar naquela ilha e por que dissera a ele que tinha de salvar a todos.
A plantação de morangos da Dharma Initiative ficava à um dia de caminhada, ao sul da comunidade. Charlie esperava vencer aquela distância em menos tempo para que a mulher tivesse alguma chance.
- Ah, eu não agüento mais, Charlie!- queixou-se Craig, parando abruptamente diante de um tronco de árvore e escorando-se.
Charlie parou também, puxando o fôlego.
- Não podemos parar agora não, cara! Precisamos encontrar o Jack e levá-lo até onde Desmond e Hurley estão.
Craig balançou a cabeça negativamente.
- Sinto muito, Charlie. Agora sei por que nunca parti em missão com vocês. Não tenho fôlego pra isso, cara!
- Mas você já está aqui, Craig! Não dá pra desistir agora!
- Vamos descansar pelo menos uns quinze minutos, é tudo o que peço!- insistiu Craig.
- Craig, se descansarmos quinze minutos, quando voltarmos lá, podemos encontrar aquela mulher morta! Não entende? Se ela veio parar aqui, pode nos dar respostas sobre como sair daqui!
- Se não descansarmos, poderemos morrer antes dela.- argumentou Craig. – Nós não paramos de correr o dia inteiro. Por favor, quinze minutos!- ele já tinha jogado sua mochila no chão.
Charlie pensou em continuar seguindo sozinho para a comunidade. Olhou para o horizonte e viu que faltava pouco para escurecer. Mesmo assim podiam se dar ao luxo de descansar quinze minutos. Craig tinha razão, se sucumbissem pelo caminho seria muito pior.
- Tudo bem, só quinze minutos e iremos partir antes que escureça, para nos mantermos na trilha!
Mas Craig já não escutava mais, já estava dormindo. A única resposta que Charlie obteve dele foi um sonoro ronco.
- Ah, tá bom!- exclamou ele, procurando um lugar para se aconchegar e cochilar também.
xxxxxxxxxxxxx
O som de uma voz familiar parecia longínquo e Ana-Lucia aguçou os ouvidos inconscientemente para ouvir melhor. Os olhos se abriram em seguida, mas logo ficaram semicerrados, as pálpebras estavam pesadas e ela não podia fixar os olhos no cenário a sua frente.
Tentou mexer o corpo, mas estava estranhamente cansada. Enterrou o rosto em uma superfície macia que parecia ser o seu travesseiro e esperou que aquela sensação de fraqueza passasse. A voz que ouvira antes tornou-se mais nítida.
- Isso, agora só mais uma colherada pro papai, só mais uma garotão!- dizia Sawyer enfiando delicadamente uma colher pequena cheia de papinha de batata e cenoura na boquinha do filho. O menino comia uma parte e lambuzava-se todo com o restante.
- Não James, assim não, tem que comer toda a comidinha!- o menino melou os dedos na cuia cheia de papinha e riu batendo as mãozinhas. – Sim, claro que isso é muito divertido!- Sawyer resmungou, mas não estava zangado de fato. Estava apenas um pouco enrolado para cuidar do filho porque nunca fizera isso completamente sozinho.
Desde o acidente na água com Clementine aquela tarde, no qual Ana entrara no mar bravamente para salvar a menina, que ela dormia, parecendo muito fraca. Sawyer a levou para a cabana deles assim que Jack conseguiu fazer com que ela respirasse novamente e teve o cuidado de despir-lhe toda a roupa, secá-la e colocá-la confortavelmente na cama, debaixo do cobertor.
A princípio ficou preocupado com aquela súbita fraqueza dela, mas Jack foi até a cabana e a examinou, garantindo que ela ficaria bem, que só precisava dormir um pouco, pois o esforço na água tinha sido grande demais até mesmo para ela que tinha preparo físico.
Menos preocupado, Sawyer resolveu aproveitar que ela estava dormindo e foi buscar James e as coisas dela na tenda de Libby. Agora já não fazia sentido algum continuarem brigados. Mas quando trouxe o menino para casa, ele estava faminto e com sua mãe adormecida e fraca demais para amamentá-lo, ele resolveu improvisar uma papinha como já tinha visto ela fazer antes.
Apesar de James estar melecado de papinha até o cabelos, Sawyer estava obtendo sucesso em cuidar do filho. O bebê parecia feliz com ele.
- Parece tão fácil quando sua mãe faz isso... – ele comentou, desistindo de dar mais papinha à James e começando a limpá-lo com um pano úmido. – Sua mãe sempre sabe quando você está com fome, com sono ou doente... – Sawyer divagou. – Aliás, ela sempre sabe o que fazer em qualquer ocasião. Tá, tudo bem que ela quis se livrar de mim quando nos conhecemos, eu estava ferido e atrasando o grupo, mas ela não resistiu ao meu charme.
Ana segurou o riso. Já estava mais consciente do ambiente ao seu redor, estava em casa e podia ouvir cada palavra de Sawyer. Porém, resolveu fingir que estava dormindo para que ele continuasse falando.
- Humpf!- Sawyer resmungou mais uma vez quando percebeu que tentar limpar James com um pano úmido não tinha sido uma boa idéia. – Só um banho resolve o seu problema, meu filho. Espera só um pouquinho que o papai já vai esquentar a água.
Ana-Lucia sorriu. A noite estava um pouco fria e Sawyer lembrou que deveria mornar a água caso James precisasse de um banho. Ele não era um pai tão desligado assim, afinal. Enquanto esquentava a água, Sawyer continuou conversando com James.
- Sua mãe está muito zangada comigo, sabia? Ela acredita que eu a estou traindo, mas eu jamais faria isso porque ela é a mulher da minha vida! E eu estou te contando isso de homem para homem. Bem, você é muito novo para entender isso ainda, mas James, o mundo é cheio de tentações e é muito difícil resistir a elas, no entanto, um dia vai aparecer aquela mulher por quem você faria tudo. E eu me enganei duas vezes na vida achando que tinha encontrado a mulher certa, Cassidy, Kate...mas aí, apareceu a sua mãe e virou completamente a minha cabeça.- Sawyer pegou James no colo e o colocou na tina de água morna, a qual já tinha provado a temperatura e começou a limpá-lo delicadamente.
- Abauuubeeea?- indagou James, em seu linguajar de bebê quando Sawyer molhou os cabelos loiros dele.
- È, moleque, sua mãe é uma garota muito difícil, nós sempre discordamos em muitas coisas, mas quando a vejo, meu coração acelera, a minha garganta fica seca e tudo o que eu quero é tê-la nos meus braços, porque sua mãe é insubstituível, pequeno James Ford.
Ana-Lucia respirou fundo ao ouvir aquela declaração de amor, tão sincera, tão espontânea. Sawyer a amava e dizia isso com todas as letras. Não havia dúvidas em sua voz. Ela sentiu vontade de se levantar da cama e dizer a ele que o perdoava porque o amava demais, mas estava tão fraca e cansada que o sono a rondava novamente.
Sawyer terminou de dar banho em James e depois de várias tentativas conseguiu colocar a fralda de James direitinho.
- Pronto, agora o meu bebê está limpo e cheiroso!- ele cheirou os cabelos do filho e o beijou no topo da cabeça. Em seguida, colocou-o sentando na cama, perto de Ana enquanto ele despia a camisa e as calças para se deitar.
James, que já estava começando a querer engatinhar, se debruçou sobre a mãe adormecida e tocou seus cabelos. Sawyer ralhou em voz baixa:
- James, deixe sua mãe dormir!
O menino voltou sua atenção para ele e Sawyer sentou-se na cama, usando apenas a cueca boxer, puxando o pequeno para si.
- È o papai quem está dizendo! O papai, diga papai!
- Mama!- repetiu James, voltando a colocar a mãozinha no cabelo de Ana.
- Tá certo!- resmungou Sawyer e deitou-se na cama, ajeitando James no peito dele, entre ele e Ana. – Hoje você vai dormir com o papai e a mamãe, mas só hoje.
O bebê ficou bem quietinho e começou a chupar o dedinho. Sawyer recostou sua cabeça a de Ana e fechou os olhos, também estava cansado. Ana-Lucia sentiu o corpo dele junto ao seu e relaxou ainda mais, mergulhando em um sono profundo.
xxxxxxxxxxxxx
Desmond colocou mais lenha na fogueira e Hurley esfregou as mãos para esquentá-las, a noite estava muito fria. O escocês então retirou um pequeno frasco de bebida alcoólica da mochila e entregou a ele, dizendo:
- Beba um gole disso, vai esquentá-lo, brotha!
Hurley aceitou a bebida e bebeu o gole de uma só vez, sentindo seu corpo inteiro aquecer-se. Desmond sentou-se ao lado dele e juntos eles observaram a mulher que caíra de pára-quedas na ilha.
- Da onde você acha que ela veio?- indagou Hurley.
- Não faço a menor idéia, brotha.
- Acha que ela pode nos tirar daqui?
Desmond deu de ombros. Eles não tinham encontrado nada com ela, sequer um documento.
- Primeiro precisamos descobrir quem ela é! Espero que o Charlie consiga trazer o Jack a tempo. Eu consegui fazer com que ela bebesse água e estanquei a hemorragia temporariamente, mas o ferimento dela precisa ser suturado, e com certeza ela vai precisar de antibióticos.
Hurley assentiu.
- Sabe, quando eu subi na árvore para retirá-la de lá, tive esperanças de que ela fosse outra pessoa.
- Quem?- Hurley perguntou com curiosidade.
- Penélope.- ele respondeu. – A única mulher que eu amei de verdade. Um dia ela me disse que com persistência e dinheiro poderia conseguir o que quisesse. Então eu pensei que de repente, ela...
- Ela tivesse pulado de pára-quedas na ilha atrás de você, dude?
Desmond riu amargamente.
- Então foi por isso que você não ficou nem com a Tina, nem com a Aline né?
O escocês olhou para ele.
- Desculpa, dude, mas o povo não tem muito o que fazer lá na praia e...
Desmond assentiu.
- Não seria justo ficar com nenhuma das duas se ainda amo a Penélope.- e pensando nisso, Desmond levantou-se e mais uma vez foi checar se conseguia dar mais um pouco de água à mulher, torcendo para que Charlie voltasse com Jack a tempo.
xxxxxxxxxxxxxx
--
(Flashback)
O pó branco de textura consistente era ameaçador e tentador ao mesmo tempo. Charlie olhou para a penteadeira onde Liam tinha deixado vários saquinhos de heroína e começou a tremer. Seu irmão estava louco, nada poderia detê-lo e se continuasse se mantendo à sombra do vício jamais poderia acompanhá-lo e eles iriam sucumbir juntos.
Irmãos precisam ficar unidos, pensou e seus dedos trêmulos tocaram o pó esparramado sob a madeira. Uma pequena quantidade grudou-se em seus dedos e Charlie levou-os à ponta da língua, sorvendo aquele gosto inigualável e amargo do prazer advindo do vício.
Ele tombou para trás, no sofá e as paredes do camarim começaram a se aproximar dele numa ordem crescente. Charlie encolheu-se nas almofadas, tudo girava ao seu redor, as paredes se tornavam mais e mais próximas e ele começou a sufocar.
De repente, a porta se rachou até quebrar-se por completo, uma grande quantidade de água salgada, surgida do nada invadiu o camarim e começou a inundar tudo. Charie tentou nadar, mas não conseguia chegar à superfície porque estava em um lugar fechado. O desespero bateu e suas narinas foram se fechando, sua garganta enchendo de água.
Ele viu vultos nadando ao redor dele, vultos fantasmagóricos que tinham o rosto de pessoas conhecidas. Sua mãe, Claire, a mulher do pára-quedas, Liam. Todos diziam:
- Salve-nos, Charlie, salve-nos Charlie!
- Como faço isso?- sua mente gritou a pergunta, mas as vozes continuavam repetindo o mantra.
Em meio a todo aquele caos, ele escutou uma voz abafada, dizendo:
- Seu sangue espirra na cruz branca, seu sangue espirra na cruz branca...
- Charlie, nós precisamos ir!- a voz de Craig interpôs-se a todas as outras e Charlie acordou, encostado à árvore que escolhera para descansar. Tudo estava escuro ao redor deles. – Acho que dormimos demais.
Charlie levantou-se do chão e deu um safanão em Craig.
- A culpa é sua, não deveríamos ter parado. Agora está tudo escuro, como encontraremos a trilha?
Craig o empurrou de volta, com raiva.
- Vamos acender uma tocha e procurar a trilha!
Charlie não teve outra escolha senão concordar. Dez minutos depois eles procuravam a trilha, munidos cada um com uma tocha, mas estava muito difícil encontrá-la.
- Charlie, acho que estamos perdidos!- comentou Craig, depois de meia hora de caminhada no escuro.
Charlie balançou a cabeça negativamente, cansado. Ao redor deles tudo era escuridão, não tinham a menor idéia de que caminho seguir. Resolveram virar à esquerda e seguir por uma trilha de pequenas árvores quando Craig avistou no final delas um cemitério todo de lápides brancas com cruzes enormes de pedra em cima. As lápides rodeavam uma sinistra cabana de madeira que tinha um único lampião iluminando sua frente.
- Que lugar é esse?- Craig indagou.
- È bizarro!- disse Charlie.
- Será que tem alguém dentro daquela cabana?- indagou Craig.
- Vamos descobrir.- Charlie adiantou-se e Craig o seguiu.
Os dois davam passos temerosos em direção à cabana, passando pelas lápides. Craig leu uma delas:
- Emily Ann Linus, mãe amada e esposa devotada...
- Vamos mais rápido!- disse Charlie, aquele cemitério lhe dava arrepios.
Craig leu outra lápide:
- Horace...
- Craig!
- Tá bom, já parei! Mas não está curioso para saber quem são essas pessoas? Esse aqui, por exemplo, Richard Alpert...
Um barulho de passos chamou a atenção dos dois.
- Você ouviu isso?- Charlie indagou.
- A menos que um dos mortos esteja se levantando do túmulo, acho que ouvi alguém.
Charlie ficou assustado, não tinha nenhuma arma para se defender.
- Precisamos chegar logo à cabana!
De repente, a voz de Amanda, como um presságio mórbido surgiu em sua mente:
Na cruz branca seu sangue espirra e você morre...na cruz branca seu sangue espirra e você morre...na cruz branca seu sangue espirra e você morre...
Charlie ergueu os olhos e viu a cruz branca, a maior de todas. De trás dela surgiu um homem com uma pistola. Ele era alto, calvo e usava um tapa olho. O homem não pensou duas vezes para atirar, mas o aviso de Amanda estava vívido em sua mente e Charlie se jogou no chão, com tudo. Craig, porém, não teve a mesma sorte e o tiro atingiu o ombro dele em cheio, fazendo-o urrar de dor.
- Charlie...Charlie... – ele murmurou, tremendo, a mão segurando o ferimento no ombro.
Charlie se arrastou até ele e disse:
- Eu vou ajudá-lo, meu amigo!
Com esforço, ele apoiou Craig com seu próprio corpo e olhou na direção da cabana, mas esta tinha desaparecido, assim como o cemitério.
xxxxxxxxxxxxx
Pedro caminhava pela floresta naquela noite fria. Não tinha sido nada fácil despistar Anabeth e Dionna que não queriam deixá-lo em paz com toda aquela tagarelice, mas ele finalmente conseguira se livrar deles e deixou a comunidade na calada da noite.
Ele sabia que Paulo e Nikki estavam de olho nele desde que descobriram os diamantes que recebera de Charles Widmore como pagamento para que encontrasse a ilha. Mas os dois idiotas não sabiam mais nada, além disso, e Pedro precisava sobreviver. A aliança com Benjamin Linus quando foi capturado estava mantendo-o vivo até agora, desde que o mantivesse informado.
Nikki não tinha a menor idéia de que ele fizera um acordo com Ben Linus para sair da outra ilha antes dela. Não tinha sido libertado de graça. Benjamin lhe passara informações preciosas sobre a ilha, a escotilha de Desmond e os sobreviventes do vôo 815. E até aquele momento ele vinha fingindo para todos que era apenas uma vítima. Chegara a gostar de Nikki, mas sua paixão platônica sempre fora por Katherine Austen, a fugitiva, que um dia vira em um retrato de "Procurada" e jamais a esqueceu. Benjamin prometera a ele que se fizesse tudo o que ele mandasse, sairia daquele lugar e levaria Kate consigo, e então, ela seria sua finalmente. È claro que antes daria um jeito em Paulo e Nikki e recuperaria os diamantes.
Depois de caminhar por mais de uma hora, ele chegou até a estação médica encravada na floresta. Desceu as escadas e ligou as luzes. Atrás de um armário havia um gravador com uma fita cassete. Ele ligou o record e começou a dizer:
- Jack está baixando a guarda, em breve o plano poderá ser executado. Não confie em Juliet. Quanto às mulheres grávidas, passarei todos os nomes em minha próxima gravação.
xxxxxxxxxxxxxx
Jack sentiu o cabelo macio de Kate roçando seu peito nu e gemeu baixinho. Era de madrugada e tudo estava no mais completo silêncio. Ela começou a acariciar-lhe o peito e sua mão foi descendo para a barriga, até invadir-lhe as calças de moleton, tocando-o e arrancando outro gemido dele.
- E a tabelinha?- Jack perguntou, de olhos fechados.
- Ah, isso não é romântico!- Kate ralhou, mas sem parar de acariciá-lo. – Mas para sua sorte, hoje nós podemos!
Jack riu e virou-se de lado, antes de ficar por cima dela e beijá-la.
- Você está tão quente, Katie...
- Hummmm, eu quero você, Shephard!
A mão dele a tocou por baixo da camiseta e ele sorriu quando sentiu que ela não usava nada da cintura para baixo.
- Assim que eu gosto...
Kate ergueu o quadril, provocando-o, ansiando ser possuída e Jack a tomou, indo bem fundo, arrancando-lhe um suspiro de satisfação.
- Ai, amor, não para!- ela gemeu e ele começou a mover-se contra ela.
xxxxxxxxxxxxxxxx
Charlie não soube como, mas de repente encontrou a trilha para a praia e meia hora depois estava na comunidade, com Craig sangrando em suas costas. Não havia uma alma acordada na comunidade e Charlie não hesitou em gritar por ajuda:
- Alguém me ajude, por favor! Alguém me ajude!
Kate deu um longo gemido quando o clímax a tomou, seguido pelo poderoso clímax de Jack que deixou o corpo cair sobre o dela.
- Foi muito rápido!- ela fingiu zanga.
Jack riu e beijou-lhe a ponta do nariz.
- Será que posso compensá-la agora, madame?
Alguém me ajude, alguém me ajude!
Jack ouviu a voz ecoando na praia e levantou-se de cima do corpo de Kate de imediato.
- Ouviu isso?
- Ouvi sim.- ela respondeu, assustada. – Parece o Charlie.
Jack vestiu-se depressa e deixou a cabana. Várias pessoas também ouviram e saíram de suas casas.
- Charlie, o que aconteceu?- Jack gritou, correndo até ele.
Charlie, exausto, colocou o corpo de Craig no chão.
- Amanda estava certa, precisamos de ajuda!
LOST
Continua no próximo episódio
