Episódio 14- A Canção do Exílio
Sinopse: Cumprir à risca as ordens de Benjamin Linus era o passaporte de Pedro para conseguir sair da ilha. Mas a chegada de alguém importante pode destruir seus planos.
Censura: M.
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Nos episódios anteriores:
...um homem apareceu do meio das árvores, muito ferido. Desmaiou aos pés de Locke antes de dizer qualquer palavra.
- Mas quem raios é esse sujeito?- questionou Sawyer iluminando o rosto do homem com uma tocha.
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- Water, moça, please!
- Como é o seu nome? De onde você veio? Consegue entender o que eu digo?
- Sim.- ele respondeu fracamente. – Meu nome é...Pedro.
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- Sou um prisioneiro? Acham que represento uma ameaça para vocês?
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- Eu sou um escritor. Nada mais. Alguém que vive de palavras, usando-as a seu próprio favor. Me alimento de fragmentos de vidas inexistentes. E esse lugar, é exatamente como meu último livro...Eu estava na Austrália, em Sidney quando resolvi visitar a ilha de Fiji e mergulhar nos recifes de corais.
- O mais estranho, John Locke, foi acordar nesse lugar e dar de cara com aquela mulher, a mulher que eu idealizei tantas vezes em inúmeros livros, a mulher cujo retrato mandei pintar baseado nas minhas descrições e que pus em meu quarto para sempre olhar pra ela. A personagem principal do meu livro, uma criminosa, mais vítima do que algoz que vai parar em uma ilha misteriosa ao sofrer um acidente de avião.
- E como é o nome do seu livro?
- "A Escotilha."
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- Disse a eles que era escritor? Pedro, por que mentiu?- perguntou Nikki.
- Nem tudo foi mentira. E eu só disse aquilo pro John acreditar em mim e me ajudar, porque eu sabia que o Jack seria muito mais difícil de ser convencido. E percebi também que havia uma espécie de rixa pela liderança entre eles no grupo, me aproveitei disso para sobreviver.
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- Nikki, você não vai contar ao Pedro que vamos partir?- perguntou Paulo a ela.
- Não devo satisfação nenhuma a ele.- respondeu seguindo Sawyer e Philip para dentro da mata.
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- Onde está?- Pedro perguntou, impaciente.
- Em um lugar onde você nunca vai encontrar.- respondeu Nikki.
- Ladrão que rouba ladrão...- Paulo citou o antigo ditado em português com uma risada sarcástica.
- Não pensem que isso vai ficar assim!- Pedro disse, furioso.
- Você é quem deve ter cuidado comigo.- avisou Paulo. – Se entrar na cabana da Nikki outra vez eu te arrebento e denuncio você! Todos na comunidade vão saber pra quem trabalha.
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...não entendo como pude ser tão estúpida, como pude ter acreditado nele.
- Já sabemos que ele é um excelente manipulador, ê não teve culpa de nada, estava apenas fazendo seu trabalho.
- Mas se eu soubesse que ele me usou para encontrar esta ilha desde o começo...oh, Paulo!
- Deveríamos contar a todos quem ele é!
- Ainda não Nikki, eu ainda penso que ele foi abandonado pelo chefe dele e agora está em maus lençóis, preso nessa ilha como a gente. Fiquemos de olho nele, qualquer movimento em falso e nós contaremos a todo mundo quem ele é.
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- Pedro...Pedro...- a mulher começou a murmurar de repente.
- Ela está chamando um nome!- disse Craig.
- Ela está dizendo Pedro.- acrescentou Hurley.
- Quem é Pedro, moça?- Desmond indagou.
- Ajudem-me...ajudem-me...- ela começou a pedir, cuspindo sangue.
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(Flashback)
"Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá. Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá."
A professora sorriu quando o menino franzino de voz trêmula terminou de ler o trecho do poema e fechou o livro empoeirado, colocando-o sobre a mesa de sua mestra.
- Muito bem, Pedro, leu muito bem.- ela elogiou passando a mão nos lisos cabelos do menino. – Pode se sentar. Agora a Maria irá ler para nós o poema da página 16, que foi escrito como uma paródia ao poema de Gonçalves Dias que Pedro acabou de ler para nós.
Pedro foi sentar-se em sua cadeira na sala de aula, prestando atenção à colega que iniciava sua leitura. Duas cadeiras atrás dele, um garoto jogou um aviãozinho de papel que o atingiu certeiro na cabeça.
O menino voltou-se para trás e indagou com o olhar o que o colega queria. O outro garoto retirou de dentro do estojo uma quantia em dinheiro e a mostrou discretamente para Pedro antes de cochichar:
- Preciso daquele trabalho para amanhã. Vai conseguir terminar?
Pedro balançou a cabeça afirmando e o outro sorriu passando o dinheiro que tinha nas mãos para o colega da frente que passou para o outro e finalmente entregou a ele.
- Terá seu trabalho ainda hoje.- cochichou Pedro de volta, guardando o dinheiro em seu bolso.
A professora notou os cochichos e indagou zangada:
- Posso saber o que é mais interessante do que os poemas que estamos estudando?
- Desculpe, professora.- disseram Pedro e seu colega em uníssono.
Mas o fato é que Pedro não se importava que a professora estivesse zangada por ele não estar mais prestando atenção à aula. Tudo o que importava era o dinheiro que o colega acabara de lhe pagar para que ele fizesse o seu trabalho de casa. Pedro só queria lucrar. Estudava para se dar bem à custa dos que não suportavam os livros. Um dia seria muito rico e poderoso e ninguém poderia detê-lo.
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(Fim do flashback)
Pedro assustou-se quando Shannon se mexeu na cama e soltou um som confuso, como se estivesse acordando naquele exato momento para flagrá-lo. Por um instante ele ficou petrificado, imaginando que ela acordaria e o veria tirando seu sangue, então gritaria o nome de Sayid que não estava muito longe dali, terminando de cuidar de algumas coisas antes de ir se deitar.
Mas para o alívio dele, Shannon não acordou. O tranqüilizante para cavalos que ele discretamente acrescentara em seu suco de manga durante o jantar aparentemente surtira o efeito desejado. Ele encontrou o remédio em sua última e recente visita à estação médica na floresta, quando foi deixar o gravador com as informações para Benjamin Linus. Pedro deveria usar o tranqüilizante em todas as mulheres supostamente grávidas na comunidade para retirar-lhes o sangue e enviá-lo para análise, a fim de descobrir quais delas poderiam estar grávidas. Era tudo o que Linus exigia saber.
Pedro não se importava com os motivos de Benjamin Linus para estar querendo isso, como jamais se importara com os motivos excusos de qualquer um. Desde criança aprendera a se dar bem à custa dos interesses e fraquezas dos outros. Era um oportunista assumido. Ter sido contratado por Charles Widmore e tê-lo traído quando chegara à ilha não lhe trazia nenhum tipo de remorso. Widmore e Benjamin Linus não eram muito diferentes um do outro. Eram dois homens que desejavam o poder acima de tudo. Pedro estava apenas entre eles recolhendo as migalhas, como uma hiena faminta.
Ele conseguiu terminar de recolher o sangue de Shannon e deixou a barraca se esgueirando pelos recantos escuros da comunidade, onde as luzes das tochas de fogo não alcançavam. Esperou encontrar tudo calmo como estivera antes dele iniciar sua missão de coleta de sangue das mulheres, mas algo importante parecia estar acontecendo naquele momento.
Pedro viu Jack e Sayid carregando um homem desmaiado para a enfermaria. Charlie e Eko os seguiam. Mais alguém parecia ter se machucado. Mas Pedro não se importava com isso, aquela não era sua guerra. Tudo o que ele precisava era cuidar das tarefas que Benjamin Linus lhe dera, isso seria seu passaporte para fora daquela ilha. Além disso, só tinha que encontrar seus diamantes que Paulo e Nikki tinham roubado. Não podia partir da ilha sem eles, iria precisar de muito dinheiro para se manter escondido de Charles Widmore, pois sabia que o homem o caçaria até no inferno quando descobrisse que tinha sido traído.
Apesar de toda aquela movimentação, Pedro queria aproveitar a noite para recolher mais uma amostra de sangue. Começou a imaginar se Sawyer não estava envolvido naquela confusão na enfermaria. Se estivesse ele poderia colher o sangue de Ana-Lucia para análise. Ele soubera que ela quase se afogara durante a tarde tentando salvar a filha de Sawyer. Deveria estar profundamente adormecida, não seria difícil recolher o sangue dela, embora ela não tivesse tomado a dose de tranqüilizante no jantar, como Shannon.
Ele resolveu arriscar e se aproveitando de que todos estavam muito ocupados na enfermaria, Pedro se dirigiu para a cabana de Sawyer no outro extremo da praia.
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- Eu preciso de panos limpos!- pediu Jack, cortando a camisa de Craig com uma tesoura.
Sayid acendeu o fogão à lenha e colocou água para ferver em uma cumbuca. Eko ajudou Jack a colocar Craig na cama. Charlie trouxe os panos limpos, cortados e dobrados por Rose. A boa mulher mantinha a enfermaria sempre limpa e os instrumentos cirúrgicos ainda que improvisados, esterilizados.
- Charlie, me conte como isso aconteceu?- disse Jack usando os panos limpos que Charlie lhe entregou para enxugar o ferimento de Craig no ombro.
- Nós estávamos voltando para encontrá-lo.- explicou Charlie. – Encontramos uma mulher na selva, ela caiu de pára-quedas e está muito ferida. Desmond e Hurley ficaram lá com ela. Nós não estávamos muito longe da comunidade quando paramos um pouco para descansar. Quando decidimos continuar, nos perdemos na floresta, fomos parar numa espécie de cemitério e um homem surgiu do nada com uma arma. Então eu me lembrei do aviso que Amanda tinha me dado sobre meu sangue espirrando em uma cruz branca e me abaixei, mas a bala atingiu o Craig.
- Cruz branca?- retrucou Jack.
- È, lá no cemitério. Mas era estranho. Depois que eu fui ajudar o Craig e me voltei para trás, o cemitério tinha desaparecido.
- Como era esse homem?- indagou Sayid.
- Era alto, careca, usava um tapa-olho.- Charlie descreveu.
- Impossível!- exclamou Sayid. – Esse homem morreu quando estávamos tentando atravessar para a Vila dos Outros. A cerca elétrica o matou.
- A não ser que existam dois homens carecas que usem tapa-olho nesta ilha, foi o próprio quem atirou no Craig.- disse Charlie. – Jack, a mulher na floresta realmente precisa de ajuda...
Jack examinou com cuidado o ferimento de Craig, a bala não tinha atravessado, mas estava presa em uma junção de músculos. Mesmo assim, não seria difícil descartá-la e estancar o sangue do ferimento de Craig.
- Consegue me levar até o local?- Jack indagou a Charlie.
- Sim.- respondeu ele. – Se partirmos em alguns minutos podemos chegar lá pouco antes do amanhecer.
- Eko, por favor, traga Juliet até aqui e explique a situação a ela no caminho. Ela irá cuidar do ferimento de Craig para que eu possa ir socorrer a mulher na floresta.
- Eu irei partir com você, Jack.- anunciou Sayid.
- Eu sabia que viria.
Eko foi chamar Juliet para cuidar de Craig, enquanto Sayid permanecia na enfermaria cuidado dele até que ela chegasse. Jack apressou-se em arrumar o kit de primeiros socorros e ir avisar a Kate para onde iria. Encontrou-a no meio do caminho, ela estava indo encontrá-lo na enfermaria. Trazia Lilly nos braços, adormecida, envolta em uma manta branca.
- Jack!
- Kate!
- O que está acontecendo?
- O Craig foi ferido a bala, mas não é grave, ele ficará bem.
- Já cuidou do ferimento dele?
- Eu dei uma olhada, mas Juliet irá extrair a bala e fazer o curativo. Tem uma mulher ferida na floresta que precisa da minha ajuda.
- Que mulher? Uma dos Outros?
- Não sabemos. Charlie disse que ela caiu de pára-quedas e se feriu. Só saberemos quem ela é e da onde veio se sobreviver.
- Então você deve ir logo!
Jack a beijou e depois beijou Lilly.
- Tome cuidado, amor.- disse Kate.
- Eu tomarei cuidado.- ele respondeu e a beijou mais uma vez antes de ir encontrar Charlie que tinha ido trocar de roupa e reorganizar sua mochila.
Claire acordou quando Charlie começou a remexer as coisas dentro da cabana.
- Charlie?
- Hey, baby.
- Vocês voltaram agora?- ela indagou se levantando e o abraçando. Foi quando sentiu o sangue seco na camisa de Charlie passando os dedos sob a superfície do tecido. – Oh, meu Deus, Charlie! Você se machucou?
- Não, eu estou bem. Foi o Craig quem se machucou. Ele levou um tiro.
- Mas como foi isso? Foi um dos Outros?
- Acredito que sim. Eu o trouxe de volta para a comunidade, mas agora preciso ir!
- Ir pra onde?
- Nós encontramos uma mulher na floresta, ela caiu de pára-quedas aqui, está ferida. Eu só voltei porque precisávamos do Jack, agora eu vou levá-lo até onde ela está. Desmond e Hurley ficaram lá com ela.- ele tirou sua mochila das costas e entregou um pacote cheio de morangos. – Isso é pra Libby, o Hurley mandou para ela.
- Charlie, não acha que é perigoso voltar para lá?
- Eu vou ficar bem, Claire, não se preocupe. Cuide do Aaron. Voltarei logo.
Ele a abraçou e a beijou. Depois colocou a mochila de volta nas costas e deixou a cabana, indo encontrar Jack.
- Vamos!- disse o médico quando o viu. – Sayid foi falar com Shannon e nos encontrará no caminho.
Na barraca de Sayid, ele terminou de arrumar sua mochila e foi acordar Shannon para se despedir quando viu uma mancha avermelhada no travesseiro dela, sob a luz das velas. Ele tocou o ombro dela suavemente, acordando-a, mas ela não se mexeu, estava em sono profundo.
- Shannon...Shannon...
Ela soltou um suspiro e murmurou com voz grogue:
- Estou com tanto sono...
- Querida, que sangue é esse no seu travesseiro?- ele começou a examinar o braço dela, mas estava tudo normal, não havia nenhum ferimento.
- Com sono...estou com sono...
Sayid resolveu deixá-la dormir, beijou-a carinhosamente na testa e escreveu um bilhete dizendo para onde estava indo. Depois disso ele se apresou para alcançar Charlie e Jack no caminho.
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Sawyer ouviu um barulho estranho dentro de sua cabana e por um momento achou que Ana-Lucia tinha se levantado da cama. Mas ela permanecia adormecida, ressonando suavemente ao seu lado, abraçando o bebê que também dormia.
Ele se levantou da cama e andou pela cabana. Estava com uma sensação estranha de que havia alguém lá dentro. Mas quem poderia ser? Todo mundo sabia que não tinha permissão para entrar na cabana dele a não ser que fosse convidado.
- Quem está aí?- ele indagou no escuro, desconfiado.
Pedro sentiu o sangue gelar nas veias. A única coisa que precisava era de um confronto com Sawyer naquele momento. Apesar de tudo, o bad boy era uma das pessoas mais populares na comunidade, se ele contasse aos outros que o encontrara em sua cabana no meio da noite, todos passariam a desconfiar dele. E como ele poderia explicar o que estava fazendo ali de madrugada?
Ele tinha cometido um erro imaginando que Sawyer poderia não estar na cabana com Ana-Lucia. È claro que estaria lá depois do que acontecera com ela. Pelo que se lembrava os dois estavam sempre brigando, mas no final sempre faziam as pazes. Pedro ainda precisava do sangue dela, mas teria que conseguir em outro momento usando o mesmo tranqüilizante que usara em Shannon. Agora ele tinha que se preocupar em sair da cabana de Sawyer sem ser visto.
- Eu sei que está aí, vamos apareça!- disse Sawyer já procurando por sua arma dentro da cabana.
Ana-Lucia ouviu a voz dele e sentou-se na cama, chamando-o:
- Sawyer!
- Shiiii... – ele fez para que ela ficasse quieta e Ana ficou em estado de alerta, assim como ele, também sentindo que havia alguém na cabana. Ela tratou de pegar o bebê no colo e protegê-lo.
Suando frio, Pedro engatinhou pela cabana escura tentando chegar do outro lado, mas acabou derrubando alguma coisa no caminho. Sawyer encontrou sua arma e tentou enxergar na escuridão. Viu um vulto e engatilhou a pistola.
- Ana, fique atrás de mim!- ele ordenou e Ana-Lucia ergueu-se da cama com James no colo se guiando através da voz dele e indo postar-se atrás de Sawyer.
- Quem é você?- Sawyer indagou ameaçador. – È melhor dizer se não quiser morrer.
Respirando fundo, Pedro ergueu-se do chão e pedindo ajuda aos céus correu em disparada para fora da cabana se embrenhando na floresta. Sawyer pôde ver com a ajuda da luz do luar que se tratava de um homem, mas não pôde identificar quem era. Mesmo assim, correu atrás dele e atirou, mas o tiro perdeu-se entre as árvores.
James começou a chorar com o barulho do tiro e Ana balançou-o, tentando acalmá-lo.
- Desgraçado!- Sawyer xingou.
- Conseguiu ver quem era?- Ana indagou.
- Não! Só pude ver uma silhueta, era um homem!
- Acha que era Benjamin Linus?- ela perguntou com olhos assustados antes mesmo que pudesse segurar a pergunta.
- Eu não sei.- respondeu Sawyer. – Mas por que o Linus se arriscaria a vir ao nosso acampamento? E por que justo na nossa barraca?
- Foi só um pensamento.- ela respondeu voltando para a cama com James que ainda chorava.
- Acha que ele viria atrás de você porque viveram juntos durante cinco meses?- Sawyer perguntou, dessa vez sua voz soou enciumada.
- Não vivemos juntos durante cinco meses.- ela respondeu, magoada. – Eu passei cinco meses como prisioneira dele.
Sawyer sentou-se na cama ao lado dela.
- Só como prisioneira?- ele retrucou. – Antes de recuperar sua memória você pensava que ele era seu marido.
- Isso era o que ele dizia e eu não queria acreditar naquilo.- Ana disse, recostando James em seu peito, beijando-lhe os cabelos loiros.
Sawyer levantou-se da cama novamente e foi olhar ao redor da cabana para saber se agora estavam seguros. Ana-Lucia ficou quieta na cama atormentada pelas lembranças que queria esquecer e pelo medo de que Benjamin Linus tivesse sido o invasor da cabana naquela noite.
Do lado de fora, Sawyer encontrou Luke e outras pessoas olhando para ele com curiosidade, querendo saber a origem do tiro cujo ruído apontava para a cabana dele.
- Está tudo bem?- perguntou Luke. – Ouvimos um tiro.
- Tinha um homem dentro da minha cabana. – explicou Sawyer. – Não pude ver quem era porque o filho da mãe fugiu. Mas é bom que ele não volte, ou vai se arrepender disso.
- Acho que deveríamos fazer uma ronda na praia.- sugeriu Andrew.
- Eu concordo.- disse Luke.
- Se o encontrarem podem vir aqui me chamar! Quero olhar na cara desse son of a bitch e saber o que ele queria na minha cabana.
Os homens se afastaram e Sawyer voltou para dentro da cabana. Sawyer deitou-se ao lado de Ana e disse:
- Um dia vai me contar sobre como foi passar cinco meses à mercê daquele homem?
Ana não respondeu, mas Sawyer sabia que ela estava acordada.
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Pedro podia ouvir o barulho dos homens da comunidade fazendo uma busca pela praia inteira atrás do homem que tinha invadido a cabana de Sawyer. Isso era péssimo, ele não queria ter chamado atenção para isso. Agora a vigilância seria redobrada e ele não conseguiria as amostras de sangue que precisava para enviar à Benjamin Linus.
Ele ficou escondido perto da enfermaria esperando que os homens desistissem da busca. Já tinha se metido em muitas encrencas e saído vitorioso.
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(Flashback)
Pedro escutou o barulho das sirenes dos carros de polícia e jogou o cigarro que estava fumando no chão, apagando a bagana com a ponta do tênis. Se não saísse dali agora mesmo as coisas ficariam complicadas para ele. Provavelmente Dale, seu parceiro idiota o tinha entregado para os tiras. Agora ele tinha de arrumar um jeito de chegar ao aeroporto e tomar o primeiro vôo para o Brasil. Ficar nos Estados Unidos, principalmente em Talahassee não parecia uma boa idéia.
Ele correu para o estacionamento do restaurante onde estava e viu os carros dos ricaços enfileirados um ao lado do outro. Sorrindo, ele tirou um arame muito fino do bolso do casaco e respirou fundo, torcendo para que algum dos ricaços idiotas tivesse esquecido de desligar o alarme do carro.
Para a sorte dele, um dos carros estava sequer trancado. Pedro entrou no carro e usando o arame, ele fez ligação direta no veículo, arrancando com o carro do estacionamento. Era uma Mercedes preta, luxuosa. Pedro indagou a si mesmo como alguém poderia ser tão descuidado com um carro como aquele.
Ele pegou as ruas da pequena cidade e tentou ficar longe dos carros de polícia, mas era quase impossível porque eles pareciam estar em toda parte. Pedro não se lembrava de ser um criminoso tão procurado assim. Estava pensando sobre isso quando percebeu que não era atrás dele que a polícia estava e sim atrás de uma mulher que fugia dos tiras usando as próprias pernas. Era uma coisa incrível de se ver.
Pedro a observou de longe dentro do carro. Ela era pequena e corria como uma gazela. Seus longos cabelos castanho-avermelhados flutuavam despenteados ao redor de seu rosto. Pedro deu a volta e aproximou o carro dela, parando com o barulho alto dos pneus cantando no asfalto quando conseguiu chegar perto dela.
- Hey, entra aqui!- ele gritou.
Ela olhou para ele com o semblante desconfiado, mas entrou no carro já que não parecia ter escolha.
- Me deixa em qualquer lugar longe daqui!- ela pediu sem tirar os olhos da estrada.
- Do que está fugindo, moça?- ele indagou vendo que uma das mãos dela estava suja de sangue.
- Vai me ajudar ou não?- ela perguntou ainda sem olhar para ele.
- Sim, posso deixá-la em qualquer lugar que quiser.
- Então me leve para longe dos tiras.
Pedro dobrou uma rua com poucas casas e seguiu para a saída da cidade. De soslaio ele observava a mulher ao seu lado. Apesar do olhar assustado ela era muito bonita, com suas faces coradas, nariz afilado e pequeno, lábios estreitos e convidativos. Mas o que mais lhe impressionou foram os olhos verdes, tão expressivos que ela parecia falar com o olhar.
Quando finalmente os policiais ficaram para trás e eles estavam em um ponto adiantado da estrada, a mulher disse, colocando óculos escuros no rosto.
- Obrigada por me ajudar. Pode parar aqui.
Pedro parou o carro no meio da estrada.
- Tem certeza? Aqui não tem nada?
- Adeus.- foi tudo o que ela disse e voltou a correr desaparecendo entre o mato alto e castigado pelo sol que havia na beira da estrada.
Pedro ainda ficou um tempo parado a fim de ver se ela retornava, mas ela não voltou. E ele só pôde ficar com a lembrança dela em seus pensamentos. Ele ligou o motor novamente se preparando para sair, mas quando tocou o volante para dar a volta, um carro que ele nem tinha ouvido se aproximar bateu de encontro ao carro em que estava.
- Mas que diabos!- Pedro praguejou e desceu do carro disposto a discutir com o outro motorista que batera na traseira, mas não disse nada quando viu um homem quase careca, alto e usando terno preto descer do outro carro acompanhado de mais dois homens que mais pareciam dois gorilas de tão grandes.
- Devolva o meu carro que você roubou!- foi tudo o que o homem disse antes que um de seus guarda-costas agarrassem Pedro pela gola da camisa.
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(Fim do flashback)
Quando os homens voltaram a se recolher depois de não terem encontrado nada, Pedro pôde finalmente sair de seu esconderijo e ir para sua cabana. No dia seguinte decidiria como faria para recolher as amostras de sangue das outras mulheres que faltavam.
Já estava fazendo o trajeto para sua cabana quando deu de cara com Mr. Eko parado de pé em frente à enfermaria. Ele havia ajudado Juliet a cuidar de Craig e agora ela estava apenas terminando de suturar o ferimento dele.
- Boa noite, Pedro. - disse Eko ao vê-lo.
- Boa noite, Mr. Eko.
- Parece que alguém entrou na cabana do Sawyer esta noite, alguns homens estavam fazendo uma busca, mas não encontraram nada.
- Eu não sabia disso.- respondeu Pedro. – Eu estava dando uma volta na praia, estou sem sono.
- Não devia andar por aí sozinho à noite, nunca se sabe quem podemos encontrar e quais são as intenções das pessoas, mesmo as que vivem entre nós.
- Acho que está certo, padre. Vou indo para minha cabana agora mesmo.
Depois que ele se afastou, Juliet apareceu à porta da enfermaria e indagou:
- Tinha alguém aí com você?
- Sim, Pedro. Craig está bem?
- Sim, eu dei um calmante a ele para que dormisse. Vai precisar de muito repouso, mas vai ficar bem.
Eko ficou calado com seus pensamentos por alguns momentos e Juliet não resistiu perguntar:
- Acho que já conheço esse seu olhar, Eko. No que está pensando?
- Tem algo errado acontecendo em nossa comunidade, Juliet. E eu vou descobrir o que é.
Continua...
