A canção do exílio parte III
- Sayid!- Jack gritou mais uma vez ainda esperando alcançá-lo, mas seu amigo iraquiano possuía uma força incomum nas pernas enquanto corria velozmente pela floresta, enfrentando os arbustos e galhos do caminho em perseguição ao estranho homem que aparecera de repente diante deles.
Enquanto corria, Sayid pensava que aquele homem deveria estar morto. Lembrava-se muito bem de vê-lo estrebuchando ao chão depois de ter atravessado o campo elétrico do perímetro de segurança da vila dos Outros. Teria sido um ardil para enganá-los? O homem teria forjado sua própria morte apenas para se ver livre de ter que dar informações? Que tipo de truque tinha usado para fazer isso? Sayid precisava descobrir e para isso iria pegá-lo de qualquer jeito.
Mikail correu floresta adentro tentando se camuflar por entre as folhagens, mas o homem que o perseguia era muito esperto, apesar de não conhecer a ilha tão bem quanto ele. Ao chegar próximo de um despenhadeiro, Mikail achou que estivesse a salvo, porém foi surpreendido com a mão forte de Sayid em sua garganta que o arrastou para trás levando-o consigo ao dizer:
- Agora você vai me dizer exatamente como fez para nos fazer acreditar que estava morto!
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Jack parou arfando e se apoiou nos próprios joelhos resolvendo esperar. Não ia conseguir alcançar Sayid. Ao longe escutou a voz de Desmond o chamando:
- Hey, brotha! Para onde o Sayid foi?
- Eu não sei.- Jack gritou de volta. – Ele estava perseguindo alguém, mas não pude ver quem era.
Ele então caminhou de volta para onde estavam Desmond, Charlie e Hurley com a mulher doente. Eles trabalhavam na maca de bambu que já estava quase pronta para levá-la para o acampamento deles.
- Precisamos esperar pelo Sayid.- Jack anunciou.
- Acha que é uma boa idéia?- questionou Charlie. – Fico pensando se a moça resistirá muito tempo se não a levarmos para um lugar melhor.
- Não podemos voltar sem ele, dude. Você mesmo acabou de nos contar o que aconteceu com o Craig ontem à noite. È um risco andarmos por aí sozinhos...
Hurley mal terminou de dizer isso, Sayid apareceu diante deles arrastando consigo um homem amarrado com cordas de cipó.
- Foi ele!- gritou Charlie. – Foi esse homem quem atirou no Craig!
Jack fitou o sujeito e perguntou intimidante:
- Quem é você?
O homem não respondeu, apenas sorriu com deboche para Jack. Esse gesto deixou Sayid irritado e ele não hesitou em dar um golpe com o braço nas costas do homem fazendo-o gemer de dor.
- Pessoal, vocês conduzem a moça para o acampamento enquanto eu me ocuparei de levar este homem conosco para ser interrogado!
Jack assentiu, mas disse:
- Contanto que ele fique longe do nosso acampamento.
- Como se fosse difícil encontrar o acampamento de vocês... – Mikail comentou mantendo o ar de deboche.
Dessa vez Sayid apenas o segurou pelo colarinho do macacão sujo e surrado com o emblema da Dharma Initiative, dizendo:
- Vou guardar meus punhos para conversamos mais tarde.
O grupo então se preparou para voltar ao acampamento. Jack, Desmond, Hurley e Charlie ergueram a maca que carregava a mulher e seguiram na frente enquanto Sayid vinha logo atrás arrastando Mikail consigo.
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Kate balançou Lilly de um lado para o outro fazendo a menina sorrir mais uma vez depois de ter repetido o movimento por dezenas de vezes. Era só parar de fazer isso que a criança começava a chorar e ela já estava exausta. Lilly não dormira bem à noite por causa da partida repentina de Jack e a confusão com o intruso na tenda de Sawyer. A menina parecia pressentir os problemas.
Rose notou o ar de cansaço ao redor dos olhos de Kate e perguntou:
- Você não dormiu bem esta noite, não foi querida?
- Oh não, Rose!- respondeu Kate. – Não preguei o olho. Depois que o Charlie foi nos acordar, a Lilly também acordou e dormiu muito pouco quando voltamos para a cama. E você sabe que quando ela não dorme, eu também não durmo.
Nesse momento, Kate tinha parado de balançá-la e a criança recomeçou a chorar novamente.
- Não tudo bem, meu amor. Mamãe balança a nenê de novo!- respondeu Kate com exasperação voltando a mover seus cansados braços para divertir a menina pequena. – Estou tão exausta, mas prometi aos rapazes que iria com eles nos arredores da floresta tentar descobrir mais sobre o intruso na tenda do Sawyer ontem à noite. O Andrew teve algumas idéias, mas eu gostaria tanto de poder dar uma volta e relaxar antes de ir encontrar com eles. Claire me prometeu que vai tomar conta da Lilly pra mim mais tarde, mas...
- Eu posso tomar conta dela um pouco pra você agora.
- Sério? Faria isso?- indagou Kate, feliz com a possibilidade.
- Sim, é claro, seria um prazer.
- Oh, Deus te abençoe Rose!- disse Kate entregando a menina que foi calmamente para o colo de Rose. – Eu amo a minha filha, mas Deus sabe como ela é geniosa!
- Creio que puxou à mãe.- Rose comentou com um risinho.
Kate sorriu também e beijou a cabecinha da filha, dizendo carinhosamente:
- Meu amorzinho, a mamãe vai dar uma volta. Comporte-se com a Tia Rose, está bem?
- Pode ir tranqüila, Kate.- assegurou Rose. – Eu e a Lilly vamos nos divertir muito!
Kate então se afastou caminhando pela praia. Uma leve brisa trazida pelo mar moveu seus cabelos e bateu em seu rosto. Ela sentiu vontade de molhar os pés na água e se aproximou das ondas espumantes deixando que seus pés afundassem na areia fofa como ela tanto gostava. Perguntava-se se estava tudo bem com Jack e os outros. Ele prometera voltar logo trazendo a mulher misteriosa para o acampamento deles. Se ela fosse um dos Outros, Juliet certamente saberia. E mesmo que ela tentasse negar, Kate convenceria Jack a fazer com que ela dissesse a verdade.
Ela ainda permaneceu algum tempo à beira mar relaxando, até que seus olhos verdes se voltaram para a imponente cruz de madeira no topo do teto da igreja. Kate tirou os pés da areia molhada e os lavou nas ondas antes de caminhar em direção à cabana religiosa. Sentiu uma vontade de súbita de entrar lá e meditar um pouco. Tanto tempo naquela ilha e ela ainda pensava em como estaria sua mãe. A pessoa que mais a odiava no mundo. A mulher que supostamente deveria amá-la.
Mas isso não importava mais porque agora Kate tinha a chance de fazer diferente. Jamais deixaria que ninguém, nem mesmo Jack se interpusesse entre o amor que ela tinha por Lilly.
Kate chegou até a igreja e encontrou a porta entreaberta. Lá dentro estava escuro. A única e enorme janela estava fechada e também não havia velas acesas. Eko era muito cuidadoso com a segurança do prédio quanto a possíveis incêndios. Se não havia velas acesas, significava que ele não estava lá. Kate então foi abrir a janela, mas ao tentar fazer isso tropeçou em um corpo no chão.
Alargando os olhos, ela viu que se tratava de uma mulher e olhando mais de perto a reconheceu.
- Tina... – murmurou.
A jovem deu um pequeno gemido quando Kate tocou-lhe os ombros, ela parecia dormir profundamente. Mas não havia sinais de qualquer tipo de agressão contra ela. Kate tentou acordá-la.
- Tina, você está me ouvindo? O que aconteceu?
Mas a moça não respondeu. Era como se estivesse sedada, Kate percebeu de pronto. Ela sabia bem como era o estado de uma pessoa que havia sido drogada. Ela mesma fizera isso inúmeras vezes com pessoas que precisava tirar do seu caminho quando era uma fugitiva. Por sorte, ela sabia também como trazê-las de volta a si. Por isso, ela correu para a porta da igreja e gritou para que alguém chamasse Juliet com urgência.
Isadora, a filha de Dana Lewis ouviu o seu chamado e correu para a enfermaria onde Juliet examinava Craig a fim de saber como ele tinha passado a noite. Ao ouvir o recado de Kate, Juliet apressou-se até a igreja com o kit médico de Jack. Ao chegar lá se pôs a examinar Tina.
- O que aconteceu com ela?
- Eu entrei na igreja e a encontrei assim.- explicou Kate. – Acredito que ela foi sedada com um remédio muito forte.
Juliet colocou um pano debaixo da cabeça de Tina para erguer-lhe o pescoço e examinou-lhe as pupilas atentamente.
- Creio que você está certa.- Juliet concluiu. – Como sabe disso?
Kate ergueu o queixo em desafio e respondeu:
- Você tem seus segredos, Juliet. Eu tenho os meus.
- Como se alguma coisa que dissesse respeito a você fosse segredo para mim.- respondeu Juliet com aquele ar debochado e tranqüilo ao mesmo tempo que Kate tanto odiava. Ela sentiu vontade de responder à altura, mas a verdade é que não sabia o que dizer.
Juliet abriu o kit médico de Jack e tirou de lá uma seringa, enchendo-a com um frasco de líquido transparente.
- Em breve ficaremos sem seringas.- comentou. – Teremos que pegá-las na estação médica.
Ela esfregou o braço de Tina com um algodão embebido em álcool e em seguida injetou-lhe o líquido na veia. Tina ficou imóvel por alguns segundos até finalmente se mover e abrir os largos olhos verdes no rosto pálido.
- Você está bem?- Juliet quis saber.
- Eu...acho que sim.- Tina conseguiu responder sentindo a língua pesada por causa da droga.
- Se lembra do que aconteceu?- Kate perguntou.
- Eu vim procurar o Eko na igreja, mas não o encontrei. Depois disso...
- Não se lembra mais de nada?- Juliet concluiu por ela.
- Sim.- Tina respondeu.
- Essa confusão mental é comum depois de uma dose alta de tranqüilizante.- disse Juliet. – Mas a sua memória pode voltar a qualquer momento.
Juliet ajudou Tina a se levantar e se sentar por algum tempo em um dos bancos de madeira corridos da igreja. Kate mordeu o lábio inferior. Sua mente começando a raciocinar depressa.
- No que está pensando?- Juliet indagou.
- Estou pensando que o que aconteceu com ela pode ter a ver com a invasão ao nosso acampamento ontem à noite.
Juliet franziu o cenho e disse:
- Talvez. Mas precisaríamos de informações para termos certeza e a Tina, além de ainda estar sob o efeito da droga teve problemas com memória há pouco tempo.
- Por isso mesmo eu estava pensando que a Libby pode ajudar.
- Libby?- retrucou Tina tentando se lembrar de quem era ela até que a lembrança de que ela era a namorada de Hurley e ex-psicóloga veio a sua mente. – Sei quem ela é!- completou.
- Libby pode tentar fazer uma regressão e fazer você se lembrar do que aconteceu. Você aceitaria falar com ela?- perguntou Kate. – Ela ajudou a Claire uma vez e pode ajudar você também.
Tina pensou por alguns instantes. Aline tinha lhe sugerido isso logo que ela voltou ao acampamento, mas ela não aceitara por temer se lembrar do que tinha lhe acontecido enquanto estivera fora do acampamento. Mas agora não via outra saída para descobrir o que acontecera com ela na igreja.
- Sim, eu falarei com a Libby.
Kate sorriu sentindo-se vitoriosa, pois algo lhe dizia que estavam perto de descobrir o mistério sobre o invasor do acampamento. Quanto à Juliet, esta ficou calada com seus próprios pensamentos. Kate não sabia, mas ela e Eko estavam muito à frente em suas investigações sobre os últimos acontecimentos.
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Depois de conseguir o sangue de Cristina Macphee, Pedro refugiou-se em sua cabana e pegou a lista que lhe foi deixada na estação médica por Benjamin Linus ou por alguma das pessoas que trabalhavam para ele. Na lista, a maioria dos nomes já estava riscada e as amostras de sangue armazenadas em um recipiente refrigerado específico para material humano.
Ele leu mentalmente todos os nomes na lista até chegar aos três últimos que restavam: Kate Austen, Sun Kwon e Ana-Lucia Cortez. Pedro deu um suspiro. Não seria nada fácil conseguir uma amostra de Kate e com Ana-Lucia ele não tinha tido sucesso na noite anterior. Conseguir a amostra de sangue de Sun parecia mais fácil, mas ele tinha que descobrir se Jin estava fora e se a deixara sozinha com o menino.
Pensando nisso, Pedro pegou o restante do tranqüilizante que guardara consigo e foi até a despensa. Cumprimentou Anabeth e Debbie que estavam lá preparando um lanche e tratou de pegar algumas mangas de uma pilha de frutas que tinha sido colocada sobre a mesa. Com essas mangas ele preparou o suco e encheu um copo antes de esfarelar dois comprimidos de tranqüilizante e colocar lá dentro.
Voltou para sua tenda com o copo de suco na mão fingindo que ia bebê-lo, mas lá dentro deixou o copo de lado e preparou sua seringa para retirar a amostra de sangue. Saiu de sua tenda imaginando quem seria sua primeira vítima naquela manhã quando viu Sawyer conversando com Jin, Michael e Andrew.
- Acho que devemos fazer isso logo antes que aquelas duas resolvam participar de tudo. Elas são muito teimosas e eu não quero que elas se arrisquem!- dizia Sawyer.
Jin balançou a cabeça concordando.
- E então o que decidiram fazer?- indagou Michael.
- Vamos verificar os arredores e nos certificar de que não tem nenhum espião nos rondando.- respondeu Sawyer. – Se o cara conseguiu entrar na minha cabana no meio da noite é porque eles estão acampados em algum lugar, portanto vamos começar...
Pedro ouviu as palavras de Sawyer e sorriu maleficamente. Os homens mais fortes da ilha estariam deixando o acampamento por algumas horas e ele poderia agir livremente para conseguir as amostras de sangue que ainda precisava e então poderia de uma vez por todas ir embora daquela ilha. Benjamin Linus lhe prometera isso e Pedro não via a hora de deixar aquele maldito lugar. Exceto que ainda precisava recuperar os diamantes que Paulo e Nikki tinham roubado. Mas isso era só uma questão de tempo.
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(Flashback)
Pedro sentiu seu corpo inteiro estremecer de prazer quando puxou Naomi forte contra si alcançando o alívio sexual que tanto buscava. Ela sorriu para ele e o beijou na boca antes de levantar de cima dos quadris dele e deitar de lado na cama puxando o lençol sobre seu corpo nu.
- Me desculpe se fui muito dominadora... – ela disse com a voz debochada.
Pedro deu uma risada.
- Gosto de mulheres dominadoras, embora, confesso, não estava esperando por isso. Você disse que ia me levar a um lugar para eu entender como as coisas funcionavam. Sinto desapontá-la gatinha, mas o que nós acabamos de fazer aqui eu já conhecia, apesar de apreciar sempre aprender mais um pouco.
Naomi acariciou os lisos e escuros cabelos dele.
- Eu te trouxe aqui para que você relaxasse antes de se confrontar com a verdadeira natureza da sua missão. Não tem idéia no que está se metendo não é?
- Princesa, eu não tenho medo de desafios.- respondeu ele.
- È bom saber disso.- disse ela se levantando da cama e procurando suas roupas.
- Aonde você vai?- ele quis saber.
- Aonde nós vamos!- ela corrigiu. – Vista-se Pedro! Depois da comida chinesa e da cama, agora sim nós iremos falar verdadeiramente da sua missão.
Cerca de meia hora depois, Naomi estacionava o carro em frente a uma igreja.
- Nossa!- Pedro exclamou. – Depois de tudo o que fizemos você me traz até uma igreja para eu me confessar e pagar todos os meus pecados, amorzinho?
- Nem tudo é o que parece, aposto que já ouviu essa frase.- disse ela conduzindo-o para fora do carro.
Eles entraram na igreja e seguiram por uma porta de madeira que levava a um corredor iluminado por velas. Então chegaram à outra porta, esta era decorada com desenhos de vidro de motivos religiosos.
- Boa noite, Sra. Hawkins.- disse Naomi em tom formal.
- Boa noite.- respondeu uma mulher idosa saindo das sombras. Ela usava uma capa preta por cima do vestido, de estatura baixa, rosto bonito e conservado, e vibrantes olhos azuis a mulher se aproximou deles dois.
- Este é Pedro Brito, o homem do qual lhe falei.
A mulher limitou-se em assentir com a cabeça.
- Já explicou a ele tudo o que é necessário?- ela quis saber após alguns segundos de silêncio.
- Achei que seria mais prático trazê-lo até aqui.- respondeu Naomi.
- Pois bem.- concordou a mulher fazendo um gesto para que Pedro a seguisse.
De repente ele se deu conta da magia do lugar onde estava. Era uma sala semi-iluminada com paredes descoradas com quadros negros repletos de equações escritas em giz, uma estante com dúzias de livros e uma mesa no centro da onde pendia uma espécie de compasso gigante que fazia desenhos também em giz na superfície. Desenhos que se pareciam com coordenadas para algum lugar.
- O que é isto?- Pedro perguntou.
- A única maneira de se chegar até a ilha. – a senhora Hawkins respondeu. – Apenas aqui é possível encontrar as coordenadas corretas para se chegar ao lugar.
- E você deve seguir essas coordenadas a risca.- afirmou Naomi e retirou de sua bolsa um passaporte, documentos, uma pasta, dinheiro e um pacote de veludo pequeno entregando tudo nas mãos dele. – Você parte esta noite mesmo para a Oceania. Quando chegar às ilhas Fiji você deve procurar uma instrutora de mergulho chamada Nikki Fernandez. Ela é muito conhecida no lugar. Você irá se passar por um escritor entediado que deseja mergulhar nos recifes de corais a fim de se inspirar para seu novo livro. O nome de seu suposto livro e algumas outras informações pertinentes aos passageiros do Oceanic 815 que você deve encontrar estão dentro desse material que acabei de lhe entregar.
- Só isso?- Pedro perguntou em desafio.
- Quando você chegar à ilha, a primeira coisa que deve fazer é descobrir onde fica a torre de rádio e passar informações ao Sr. Widmore. Depois disso, nós enviaremos a você as coordenadas para que você saia da ilha no mesmo barco em que chegar lá.
- E quanto a tal Nikki Fernandez? O que direi a ela depois que chegarmos à ilha?
- Até lá eu imagino que você já tenha dado um jeito de se livrar dela.
- Uou! Já vi que vocês todos são bem objetivos em relação ao que querem, mas não se preocupem, estarei de volta em tempo recorde com todas as informações que o Sr. Widmore precisa.
- E então você receberá o restante do seu pagamento.- Naomi garantiu.
Pedro sorriu consigo mesmo, depois que terminasse essa missão poderia voltar ao Brasil e se aposentar para sempre da sua vida de crimes.
(Fim do flashback)
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Ele viu Ana-Lucia do lado de fora da cabana, ocupada em colocar algumas roupas ao sol com o pequeno escarranchado em sua cintura. Aproveitou-se disso para entrar sorrateiro na cabana e deixar o copo de suco com tranqüilizante sobre a mesa. O sol estava muito quente e ele tinha certeza de que assim que ela voltasse para dentro e visse o suco, Ana o beberia sem pensar duas vezes.
Feito isso, ele deixou a cabana ,tão sorrateiro quanto entrou. Distraída com o bebê e sua tarefa, Ana-Lucia não se apercebeu de nada e voltou para dentro da cabana. Colocou James sobre a cama e disse ao filho com a voz carinhosa:
- Você quer os seus bichinhos agora, James?
Ela pegou os três bonecos de borracha que tinha trazido da casa de Linus e colocou sobre a cama para que o bebê brincasse. O menino sorriu feliz e bateu palminhas quando viu seus adorados brinquedos. Começou a conversar com eles em sua linguagem de bebê e Ana aproveitou para arrumar algumas roupas que tinha deixado largadas sobre um canto da cabana.
Enquanto fazia isso, ela conversava com o filho:
- E onde está o patinho?
James ria mostrando seus dentinhos e sacudia o brinquedo como se estivesse muito orgulhoso de si mesmo por saber de qual brinquedo sua mãe estava falando.
- E o gatinho?
- Ba?- ele indagou mostrando o gatinho de borracha.
- Isso! Muito bem!- Ana aplaudiu o filho.
De repente, ela se voltou para a mesa de madeira e viu um copo de suco de manga sobre ela. Estava com muita sede depois de estender as fraldas de James ao sol. Provavelmente tinha sido Sawyer quem deixara o suco lá em cima para ela. Ele sabia ser carinhoso quando queria, ela pensou e ingeriu o suco de uma vez só.
Depois disso, ela se sentou na cama para brincar com James, mas logo foi tomada por uma súbita sonolência. Suas pálpebras ficaram pesadas e sem perceber ela se deitou na cama sentindo o sono tomá-la.
- Mama! Mama!- James a chamou notando que sua mãe estava ficando muito quieta.
- Mamãe...está...com...sono!- foi tudo o que ela conseguiu dizer pausadamente antes de cair em sono profundo.
- Mama!- James chamou mais uma vez, agitando o patinho no ar. Sua mente infantil tentando entender porque agora sua mãe estava imóvel.
Poucos minutos depois, Pedro entrou confiante na cabana e sorriu para James.
- Olá, bebezinho. Não fique preocupado que sua mamãe só irá dormir um pouco, está bem?
James olhou para ele sem entender. Pedro agachou-se ao lado de Ana e calmamente retirou-lhe o sangue. James assistiu tudo, mas obviamente não assimilou nada.
- Muito obrigado, meu anjo.- Pedro disse ironicamente a Ana-Lucia quando terminou. – Sabe que gosto mais de você adormecida?- disse ele. – Parece menos ameaçadora.
E dizendo isso ele deu as costas a Ana e seu bebê deixando a cabana para trás. Mais um nome que poderia riscar de sua lista.
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O grupo que transportava a moça ferida para o acampamento dos sobreviventes marchava a passos rápidos pela floresta, porém, depois de algumas horas de caminhada o entusiasmo mostrou sinais de arrefecer e Jack decidiu que deveriam fazer uma parada antes de seguirem caminho.
A maca com a garota foi colocada no chão e os homens se sentaram à sombra das árvores para descansar os pés. Garrafas de água foram distribuídas entre eles. Apenas Sayid ficou de pé vigiando o prisioneiro.
De repente, a moça gemeu de dor na maca e Jack largou a água que estava bebendo para examiná-la.
- Hey, você está bem? Está acordada?- ele indagou.
Ela murmurou algumas palavras em um idioma estranho a eles e Mikail deu um risinho de deboche.
- Posso saber o que é tão engraçado?- Sayid perguntou apontando uma arma para ele.
- Ela vai morrer logo!- disse Mikail sem tirar o sorriso do rosto.
- Como sabe que ela vai morrer?- indagou Jack olhando seriamente para o prisioneiro. – Por acaso você sabe quem ela é e está fingindo que não a conhece?
- Não tenho a menor idéia da onde ela veio. – afirmou Mikail. – Mas sei que ela foi envenenada.
- Como assim envenenada, brotha? Ela se feriu quando caiu aqui na ilha. Eu mesma a tirei de cima de uma árvore!- disse Desmond.
- Por acaso você não tem idéia de quantas árvores venenosas existem por aqui não é? Os sintomas dela indicam que ela se feriu em uma planta envenenada e o veneno está intoxicando o sangue em suas veias agora mesmo.- falou Mikail.
- Como pode ter idéia de quais são os sintomas dela?- Jack perguntou, muito interessado.
- Porque eu sou médico.- Mikail respondeu tranquilamente. – E vivendo tanto tempo nessa ilha, eu sei onde existe uma planta que pode ajudar a anular o efeito dessa planta venenosa onde a moça se feriu.
- Médico?- Sayid ergueu uma sobrancelha, incrédulo.
- E onde exatamente podemos encontrar essa planta?- Jack perguntou.
- Jack, não compra a história dele. Ele atirou no Craig!- advertiu Charlie.
- Eu estava apenas cumprindo as ordens de Jacob.- Mikail justificou-se.
- Dude, e quem é Jacob?- perguntou Hurley.
- Jacob é o Jacob!- Mikail respondeu evasivo.
Sayid pressionou a arma nas costas dele e disse:
- Agora já chega dessa história! Não adianta vir com essa conversa que não vai conseguir nos enganar.
A moça gemeu outra vez e Jack ficou preocupado. Ele pôs-se a examinar com mais cuidado o ferimento dela e notou uma estranha secreção manchando o curativo que ele tinha feito.
- Talvez ele tenha razão sobre o veneno, Sayid.- Jack comentou.
- Jack, não está falando sério... – Sayid contestou.
- Sim, eu estou falando sério, Sayid. Se o veneno se espalhar por toda a corrente sanguínea dela, esta mulher irá morrer e ficaremos com a morte dela em nossas consciências, isso sem falar do fato de que não teremos as respostas de que precisamos.
- E o que você sugere?- indagou Sayid. – Que deixemos o sujeito ir procurar o remédio para ela somente para ficarmos aqui com cara de tolos enquanto ele foge e não volta nunca mais?
- Eu posso ir com ele.- sugeriu Desmond. – Para garantir que ele traga o remédio para a moça.
Sayid olhou para Desmond e entregou-lhe a arma, dizendo:
- È bom você tomar cuidado, irmão!
- Qual a distância daqui até o local onde você pegará essa planta?- perguntou Jack a Mikail.
- Cerca de cinco quilômetros.- Mikail respondeu.
- Voltaremos o mais rápido possível!- anunciou Desmond.
Sayid esperou que eles se embrenhassem na selva antes de pegar a arma que estava com Charlie e dizer a Jack:
- Não confio nem um pouco nesse homem. Ele vai tentar alguma coisa contra o Desmond, tenho certeza! Eu vou segui-los e se essa história de remédio for verdade estaremos de volta antes do anoitecer. Cuidem da moça!
Jack assentiu. Não duvidou nem por um momento que Sayid fosse junto com eles para proteger Desmond e trazer o prisioneiro de volta juntamente com o antídoto que curaria a ferida da mulher misteriosa.
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- Certo,Tina, preciso que você respire fundo e se concentre.- Libby pediu.
Tina fechou os olhos e fez o que Libby pedira. As duas estavam sentadas dentro da tenda da psicóloga. Kate conversara com ela e colocara o que estava acontecendo e o que precisavam descobrir. Como era uma lembrança recente, Libby achou que não seria difícil apesar dos problemas de memória de Tina.
Enquanto as duas davam início à sessão de regressão. Juliet e Kate esperavam pelo resultado disso do lado de fora da cabana.
- Acredita que isso vai dar certo?- indagou Juliet a Kate.
- Eu não sei.- respondeu Kate. – Me diz você. Está preocupada se vai dar certo ou não? Preocupada que a gente descubra que isso faz parte de algum plano do seu povo e que você está aqui há tanto tempo apenas para garantir que eles tenham todas as informações que precisam?
Juliet revirou os olhos. Já estava há meses naquele acampamento, mas Kate ainda não tinha mudado sua opinião sobre ela, nem mesmo depois de ter feito o parto da filha e deixado as duas em segurança.
- Não Kate, eu não estou preocupada que dê certo. Eu quero que dê certo porque tenho minhas próprias conclusões sobre o que está acontecendo nessa comunidade e quem sabe depois que eu as apresentar a você e os outros, sua opinião mude um pouquinho sobre mim.
- Veremos.- disse Kate, implicante. – Veremos...
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Sawyer avistou sua cabana entre tantas outras e sentiu como se estivesse diante de um oásis. Finalmente voltava para casa depois de toda a busca infrutífera nos arredores do acampamento em busca de invasores. O calor estava insuportável e antes de adentrar sua cabana ele tirou a camisa. Foi quando ouviu o choro desesperado de James vindo lá de dentro. O choro era tão sentido que o menino parecia estar ferido ou algo assim.
- Ana, o que há de errado com o garoto?- Sawyer gritou. Mas ela não respondeu.
Assim que ele entrou na casa, descobriu o que havia de errado. James chorava desesperado diante do corpo inerte da mãe. Os olhos de Sawyer se arregalaram e ele correu até os dois tocando o corpo de Ana.
- Ana-Lucia! Ana-Lucia! O que houve?
Rapidamente ele checou o pulso dela, estava batendo, mas ela não acordava de jeito nenhum.
- Meu filho, o que aconteceu aqui?- ele indagou ao pequeno como se ele pudesse responder.
- Papa! Papa!- James disse de repente, surpreendendo-o.
- Caramba!- Sawyer exclamou. – Há tanto tempo que quero ouvir você dizer isso e você resolve dizer logo agora, hã?- ele voltou sua atenção para Ana-Lucia e acariciou-lhe os cabelos. – Dengo, acorde! Você tem que ouvir o que o James acabou de dizer.
Mas não importava o quanto ele insistisse. Ana-Lucia não acordava. Desesperado, Sawyer pegou James no colo e deixou a cabana em busca de ajuda.
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- Consegue se lembrar Tina? Você agora está no momento anterior ao seu desmaio na igreja... – dizia Libby para Tina tentando fazer com que a memória da moça voltasse.
- Sim, eu estava procurando por Eko...mas ele não estava na igreja e eu...
Ela parou por um momento. Falava de olhos fechados.
- E você o quê?- instigou Libby.
- Eu estava com sede...e ele tinha um copo de suco e eu...
Tina abriu os olhos nesse exato momento, estava arfante. Libby pegou um copo de água para ela.
- Foi o Pedro!- ela exclamou depois de tomar um gole da água. – Ele me ofereceu o suco de manga, eu tomei e senti muito sono...
Libby chamou Kate e Juliet. Tina contou a elas do que se lembrava e Juliet sorriu triunfante. O mistério estava começando a ser resolvido. Nesse momento, elas ouviram Sawyer chamar por Juliet na praia.
A médica foi até ele e Sawyer contou-lhe que Ana estava adormecida e não acordava. Imediatamente Juliet ligou uma coisa à outra e assim como fez com Tina conseguiu reanimar Ana-Lucia rapidamente.
Quando a latina acordou, ela apenas se lembrava de estar com James na cama e de ter bebido um copo de suco de manga que estava sobre a mesa dentro da cabana. Juliet então chamou todos da comunidade para uma reunião na praia. Eko apareceu vindo da selva, trazia um embrulho nas mãos.
- Esteve na Estação Médica?- Juliet perguntou a ele. – Seus pensamentos tinham fundamento?
- Sim.- o padre respondeu. – Esta noite contaremos a todos que temos um espião entre nós.
Continua...
