Capitulo 1
Os nós dos dedos de Edward estavam esbranquiçados, mostrando com quanta força ele segurava o volante de seu carro. O ponteiro de seu velocímetro mostrava a velocidade exagerada em que ele se encontrava, porém a estrada livre lhe instigava a pisar mais fundo no acelerador.
A via expressa estava vazia naquele horário. E ele agradecia profundamente por isso.
Em quinze minutos, Edward já tinha seu veículo estacionado na garagem e se dirigia, a passos largos, pelo saguão do edifício New York. Seu corpo completamente ereto intimidava as pessoas que cruzavam seu caminho.
Seu olhar era fixo em algum ponto adiante. Entrou pelas portas metálicas na cabine do elevador sem se dar conta. Olhou ao seu redor pelas lentes escuras de seus óculos, inclinando seu corpo sobre uma mulher miúda, apertando o botão do vigésimo quinto e a fazendo respirar fundo próximo de seu pescoço.
Ela estremeceu.
Após alguns segundo, a porta se abriu a sua frente. Ele caminhou para fora com pressa. Jasper o esperava de braços cruzados próximo a porta de seu escritório.
-Bom dia, Edward. – O cumprimentou.
Sua voz era mais controlada, comparada ao desespero expressado pelo aparelho celular momentos anteriores. Jasper, além de ser noivo da irmã de Edward, era amigo particular e seu assessor de negócios no que cabia aos investimentos lucrativos de suas obras literárias.
-Bom dia, Jasper. – respondeu somente, se dirigindo a sala de reuniões.
Os dois entraram na sala calados, lado a lado.
-Desculpem o atraso. – Jasper comentou antes de se sentar.
-Que não se repita. – Mike Newton, diretor financeiro da editora, declarou antes de começar seu discurso.
Esse sim, era do tipo que se podia considerar como inconveniente. Um problema.
Edward não prestava atenção a nada, sempre tão alheio a esses assuntos. Nessas ocasiões, ele costumava às vezes a cochilar. Dessa vez, ele apenas se distraiu com as linhas delicadas que traçava em uma folha de papel a sua frente.
Poucos minutos depois, os sombreados lhe indicaram um olhar familiar. Porém, nenhum rosto conhecido veio à mente.
-O que você acha, senhor Cullen? – Mike o questionou.
Edward levantou os olhos encarando a figura prepotente que estava em direção contrária a sua. O jovem Mike tinha o cabelo empastado por gel e espinhas por todo o rosto. Os olhos azuis o olhavam debilmente. Antes de desviar o olhar, bufou. Se seu pai não fosse o dono daquela empresa, ele nunca sairia do posto do garoto da fotocópia. Edward voltou seu olhar para Jasper, que o encarava esperando sua hora para agir.
-Creio que a melhor opção para ele seja aumentar a renda e ... – a voz grave de Jasper se perdeu enquanto ele voltava ao torpor causado por seu singelo desenho.
Novamente, Edward se ausentou da conversa e voltou a se dedicar ao olhar sedutor que o fitava do papel. Os traços firmes e certeiros moldavam o rosto da jovem que o admirava. Com lábios cheios, rosto arredondado e nariz fino.
À medida que a fotografia se moldava, os profundos olhos adquiriam um aspecto triste e distante. Ao perceber que desenhara uma lágrima escorrendo pelo papel, Edward levantou da cadeira de couro. Amassou o papel, colocou no bolso e saiu.
Ninguém atreveria a se colocar de frente a Edward naquele acesso de fúria.
Seus passos firmes pelo salão mostrava o quanto sua mente estava longe, seus olhos verdes já ocultos pelas lentes escuras de seus óculos. Tirou um cigarro mentolado do maço que trazia em seu bolso e o tragou, sentindo a fumaça entrar em seu corpo. Após a segunda tragada, o cigarro já era mantido longe dos lábios e preso aos dedos. Sua mente parecia vazia e o seu corpo um projétil rápido e certeiro pronto para derrubar o que se colocasse em seu caminho.
E foi o que aconteceu.
Um corpo macio parou seu passo e quando ele se deu conta, derrubara uma moça de cabelos castanho claros no chão. Ajoelhou-se ao seu lado, retirando os óculos recém colocados, cerrou os olhos enquanto buscava algo no rosto arredondado a sua frente.
-Desculpe-me senhorita, você está bem?
-Estou bem. – a garota respondeu ainda afetada. – Estava distraída, não vi o senhor.
-Chame-me de Edward. – ele disse sorrindo e estendendo a mão para ajudá-la a levantar.
-Sou Micaela. – ela o olhou da cabeça aos pés.
-Aceita tomar um café ou algo assim? – Edward passou os dedos pelos fios desalinhados de seu cabelo. - Como um pedido de desculpas,claro. - reforçou, sorrindo novamente.
–Cl-claro. – a moça gaguejou.
Certamente estaria cancelando um compromisso qualquer que tivesse em algum andar daquele prédio para aceitar o convite de Edward.
Os dois caminharam até a cafeteria do lado de fora do edifício e conversavam como se conhecessem há anos.
-O que vai querer? – Edward perguntou com um toque de malícia, apoiando-se no balcão e olhando para o decote exposto pelo terninho.
-Café preto. – ela respondeu anestesiada com o sorriso do rapaz.
-Por favor, um café preto e um cappuccino. – ele pediu para a garçonete.
-Então, você é uma advogada? – Edward perguntou sedutoramente. – Há quanto tempo na profissão?
-Acabei de me formar. – o sorriso que Micaela trazia no rosto era sedutoramente orgulhoso.
-Isso é bom.
A conversa dos dois não se resumiu apenas a trabalho. De forma curiosa, Edward conseguiu absorver muitas informações sobre a jovem advogada que agora corava com as investidas diretas dele.
-Já estou atrasada. – disse olhando no relógio de pulso. – Está aqui meu telefone. –deslizou um cartão até a mão de Edward e continuou. – Se precisar de alguma coisa...
-Pode deixar. – ele sorriu e largou uma nota em cima da tabua de madeira.
Micaela acenou lentamente sobre os ombros, antes de virar as costas rumo ao saguão. Seus quadris rebolavam sensualmente, enquanto suas panturrilhas torneadas eram sustentadas pelos saltos.
Antes de virar as costas rumo à garagem, Edward sorriu torto, maneando a cabeça. Gostava da influência que tinha sobre as mulheres e seu jeito galanteador mostrava o quanto seu ego agradecia a essa capacidade de deslumbrar, porém algo o impedia de agir completamente como um conquistador.
Seu passado.
Edward agora acelerava rumo ao seu apartamento, seu esconderijo.
***
Próximo do apartamento de Edward, o dia que começara a algumas horas, chegava ao fim para a plantonista de emergência, Isabella Swan.
-Você vem para casa? – Thiago perguntava manhoso no celular.
-Não, amor, eu vou para o meu apartamento. O plantão hoje foi cansativo demais.
-Você vai ao coquetel hoje à noite, né?
-Claro! Esse evento será importante para minha carreira.
-Você quer que eu vá te buscar agora, Bells?
-Não precisa, eu já estou no trânsito.
-Então passo na sua casa as seis, está bem?
-Pode ser.
Isabella Swan ou Bella, como gostava de ser chamada, era uma cardiologista que acabara de sair da residência e começava a ser reconhecida por seu trabalho. Bella namorava Thiago há três anos e meio.
O namoro dos dois era um relacionamento invejável. Equilibrado com muito sexo, carinho e principalmente amizade. A beleza do casal era estonteante. Bella tinha seus cabelos compridos e ondulados até o quadril moldurado, do mesmo tom chocolate de seus olhos. Seus lábios vermelhos e volumosos eram em formato de coração enquanto sua pele pálida fazia o contraste exato com todo o conjunto. Thiago tinha os olhos azuis celestes. O rosto másculo emoldurado pelas mechas douradas. A barba por fazer constantemente pinicando seu maxilar. Porém como qualquer relacionamento existia um segredo entre os dois.
-Então tá bom, amor. – Thiago disse finalizando a curta conversa. – Até mais tarde.
-Até. – Bella disse por fim.
O sinal ficou verde e logo ela acelerou. Seu carro, uma Chevy alaranjada, rangeu sob seu corpo e correu pela rua iluminada pelo sol em seus constantes 70km/h. Em minutos já estacionava na garagem subterrânea de seu prédio e seguia para o elevador. Encostou a cabeça na parede espelhada após apertar o botão do quinto andar, repassando a noite turbulenta na emergência do hospital.
Se questionou quantos acidentados poderiam entrar por aquela porta vai-e-vem a cada noite daquela cidade. Parou de contar quando o número atravessou a casa dos 20.
Após girar a chave na fechadura, entrou no que deveria ser sua sala. Deixou a chave na mesa de entrada e seguiu para o quarto retirando suas roupas no caminho. O quanto não faria por uma ducha relaxante nesse exato momento?
Entrou no jato de água morna gemendo longamente. Suas costas e pescoço agradeciam por todo cansaço rolar por seu corpo rumo ao ralo. Desligou a torneira, secando-se rapidamente e vestindo sua camisola. Antes de se jogar na cama, ajustou seu relógio para despertar as 6 p.m, confiando que seu corpo não acordaria espontaneamente nem sob decreto. Ainda não sabia que mesmo se quisesse, não perderia esse evento.
