Capitulo 7

Bella não sabia direito o motivo daquela promessa, se era por ver o desespero e culpa de um pai ou por sentir seu corpo se retorcer numa dor aguda por pensar que poderia ter perdido o garoto que sempre esteve ao seu lado nos momentos mais difíceis de sua infância.

Ela balançou a cabeça tentando afastar os pensamentos que a tiraram de Edward.

A separação repentina de Charlie e Renée e as brigas que se seguiam em sua casa quando o assunto era a guarda da menina, fizeram com que ela fosse morar em outra cidade junto com a mãe, deixando o pai e Edward totalmente desolados.

-Eu vou falar com Alice e avisá-la que você está cuidando dele. – um sorriso fraco surgiu nos lábios do médico.

-Peça para que dois enfermeiros venham aqui. Eu vou precisar levá-lo para meu consultório, lá eu tenho os aparelhos necessários para os exames e...

-Eu entendo, Bella. Você tem carta branca para fazer o que for para deixar o coração dele forte de novo.

-Obrigada pela confiança. – Bella assentiu corada.

Carlisle saiu cabisbaixo, sendo substituído logo em seguida por dois enfermeiros vestidos de azul. Os dois homens ergueram o corpo de Edward pelos lençóis, depositando-o na cama logo em seguida, com Bella intercedendo o máximo que conseguia.

-Obrigada. Eu assumo daqui. – ela sorriu.

Os dois olharam para ela com um sorriso malicioso e cochicharam alguma coisa enquanto ela levava a maca para fora do quarto.

À medida que seu salto batia no chão, ela olhava para o rosto pálido que estava próximo de seu ventre, a cabeça enfaixada tinha uma mancha vermelha que delatava a ferida que ele tinha, o olho esquerdo com um hematoma roxo mostrando o abatimento de Edward. Ela acompanhava cada contorno do rosto dele e parou ao chegar aos lábios cheios e observou os ferimentos em seu queixo largo. Ela entrou no elevador com a maca e suspirou ao voltar o olhar para o rosto dormente que estava ali.

Acariciou a mexa de cabelo que escapava pelas bandagens e sentiu seus olhos umedecerem. Ouviu um soluço alto quando sua mão passou pela barba crescida e repousou sobre o maxilar do homem inerte.

As lágrimas escorriam pela sua face descontroladamente enquanto o elevador subia até o andar dezessete.

Bella apoiou sua cabeça levemente no peito enfaixado de Edward enquanto aguardava. Inspirando fundo, ela deixava as gotas salgadas da saudade escorrerem enquanto ouvia o coração bater fracamente.

-Por favor, Edward. Não me deixe agora! – ela sussurrou.

A porta do elevador rangeu e Bella levantou num pulo, limpando novamente as lágrimas e empurrando a maca para o corredor.

-Por favor, Abigail, eu vou estar ocupada agora. Se alguém me procurar estarei em consulta. Sim?

-Claro, doutora! A senhora vai precisar de alguma coisa?

-Sim. Vou precisar que o levem para a sala de raios-X assim que fizer alguns exames. Você me ajuda?

-Claro! –Abigail sorriu.

Edward foi levado à sala de Bella aonde ela iniciou um eletrocardiograma¹.

Após conectar os adesivos em seu peito e em outros pontos precisos por seu corpo, o aparelho iniciou o relatório que detectava os sinais eletrônicos do coração de Edward que pulsava fracamente. Em dez minutos, o resultado do exame era impresso pela máquina. Bella analisou o papel com as ondas que indicavam o funcionamento do cardíaco.

-Abigail? – chamou a enfermeira.

-Sim?

-Você o leva? Eu preciso de uma radiografia torácica, está bem?

-Claro

-Traga-o de volta para cá após isso ser feito, preciso fazer mais alguns exames para ter certeza.

-Pode deixar. – ela deu um sorriso.

Abigail puxou a maca para fora da sala enquanto empurrava rumo à sala de raios-x. Bella suspirou enquanto observava o papel com o resultado do exame e fazia algumas anotações no prontuário.

Sua mente vagava no passado e voltava no presente. Varias ocasiões com Edward foram relembradas enquanto ela detectava grande aumento no movimento cardíaco e uma baixa brusca.

Ela ouviu leves batidas na porta.

-Pode entrar.

-Desculpa interromper, é o Thiago na linha dois!

-Thiago. – Bella repetiu lembrando-se do namorado. –Claro, pode transferir.

-Ok.

A enfermeira saiu pela porta e logo o telefone da mesa de Bella tocou.

-Alo? – a voz de Bella pareceu baixa até para ela.

-Olá. – o namorado falou do outro lado da linha animado. –Está tudo bem?

-Sim. – respondeu somente.

-Entendi. Algum problema?

-Um paciente...

-Ah sim. Não tá podendo falar?

-Ele foi levado para um exame, daqui a pouco terei que continuar a analisá-lo. - sua voz desanimada preocupava o namorado.

-Tem certeza que você está bem? Sua voz...

-Estou sim. Olha. Mais tarde conversamos ok? Vou precisar desligar.

-Tchau. – Thiago respondeu confuso.

Bella colocou o telefone no gancho e deitou a cabeça sobre os braços cruzados na mesa. Ela tentava analisar e compreender a angustia que a envolvera, porém não chegou a nenhum resultado. Bufou irritada, passando a mão pelos longos cabelos cor mogno.

-Doutora... –Abigail chamou da porta, assustando Bella que olhava perdida pela janela de seu consultório. – O raio-x está pronto.

-Isso não é bom. – ela comentou enquanto observava o músculo pulsando fraco no monitor.

Bella levantou rapidamente e seguiu até o consultorio do médico loiro.

-Dr. Carlisle. – Bella bateu na porta da sala do neurologista. – O diagnostico de Edward está pronto.

-Ah sim, entre.

-Obrigada.

-E então?

-O que eu posso adiantar para o senhor é que o problema de Edward foi anterior ao acidente, poderia até afirmar que as mudanças de humor são decorrentes desse problema que foi constatado através do eletrocardiograma.

-O que?

-Sim, pelos exames que eu fiz, Edward sofria de Insuficiência Cardíaca Congestiva Aguda³ e já sofria dos sintomas antes de bater o carro.

-Meu Deus. E como ele está?

-O coração, apesar de fraco, está resistindo bem. Irei adicionar os medicamentos necessários ao prontuário dele. Isso deve prolongar o coma induzido, porém ele tem grandes chances de recuperação. – o tom profissional de Bella escondia a esperança e a preocupação de sua voz. – Isto é, se o acidente não causou nenhuma outra lesão grave, seria só o tratamento cardíaco o processo mais complicado em seu quadro clínico.

-Compreendo, doutora. Obrigado, Bella.

-Que isso! Não fiz nada mais do que meu trabalho. – ela sorriu. – Bom, eu preciso ir! Qualquer coisa, está aqui meu número. – ela entregou um cartão. – Mande um abraço para Alice e Esme, ok? Diga a elas para ficarem despreocupadas, o que tiver no meu alcance eu farei.

-Obrigado de novo, Bella. Tenha um bom dia.

Bella assentiu e saiu da sala.

Seu peito ainda estava angustiado e ela se lembrava disso toda vez que o ar entrava em seu pulmão e ela sentia a pressão agonizante entre os seios. Ela sentiu algo vibrar no bolso de sua calça branca, e sua vida atual tornou a cobrar sua atenção.

-Droga, quem é agora? – murmurou baixo quando viu a chamada no visor. - Alo? – sua voz adquiriu um tom seco.

-Oi Bella, desculpa ta ligando outra vez, mas...

-O que?

-Você vem para casa hoje?

-Não, eu estou muito cansada, Thiago. E eu não apareço no meu apartamento faz dois dias.

-Ah, então tá. Tava querendo fazer algo especial hoje. – sua voz manhosa.

-Desculpa. – Bella se arrependeu de ter feito o pedido.

O tom de voz a denunciava claramente e ela estranhou o namorado não ter questionado o porquê do tom de culpa.

-Então até amanhã, Bells. – ele disse desanimado e a linha se desligou.

Bella guardou o celular no bolso e andou até o balcão onde as enfermeiras ficavam.

-Estou indo.

-Boa noite, doutora. – Abigail disse.

-Bom serviço, meninas. – ela respondeu com um sorriso fraco.

De cabeça baixa, Bella foi até o quarto de Edward que ficava no caminho.

-Fica bem, tá? – ela sussurrou enquanto passava o polegar na mão engessada de Edward. –Eu preciso de você inteiro. Pra sempre, lembra? – sua voz já embargada.

-Eu sinto muito. – uma voz quase infantil soou no quarto escuro.

Bella se virou assustada rapidamente para ver quem era, e sentiu seus olhos se arregalarem quando percebeu dois braços pequenos a envolverem num abraço.

Bella estava atônita, seu coração batia rápido e ela tentava afastar as lágrimas que ainda insistiam em rolar por seu rosto. Ela sentiu os braços apertarem mais seu corpo, esvaziando seu peito do pouco oxigênio que seu pranto permitia circular.

-Eu não... consigo... respirar.

-Oh desculpe. – a voz falou embargada.

Bella sentiu os braços afrouxarem até se soltarem totalmente, ela esticou seu braço até o abajur de cabeceira e o acendeu. A luz clareou o quarto escuro e mostrou a pequena Alice com os olhos vermelhos e desconcertada.

-Sente pelo que, Alice? – a voz de Bella voltava ao normal.

-Ele fez algum tempo de terapia com Emmett e eu tinha certeza que ele sabia o que acontecia com Edward, mas depois do acidente que eu fui perguntar o porquê dele estar tão triste daquela forma pra tentar entender, ele disse que não poderia falar. Que não podia contar nada por se tratar de um paciente. – ela falou num fôlego só. – Eu tive que descobrir pelos meus próprios métodos. – ela disse constrangia. – Bella, eu sinto tanto. – Alice olhou Bella de forma triste. – Eu não deveria ter mexido nas coisas dele, isso era entre vocês dois, eu sei. Mas, por favor, me entenda! Me entenda!- ela segurava a mão de Bella forte. – Era a dor dele, a sua dor. Eu não tinha o direito, só me perdoe, por favor! – as lágrimas escorriam pelo rosto delicado de Alice.

-Alice, espere. – Bella falou apertando as mãos tremulas de Alice. – Do que você tá
falando? – a voz de Bella parecia anestesiada.

-Do que vocês passaram, Bella. Do que o Edward sofreu, pelo menos. – ela dizia gesticulando.

Bella respirava fundo tentando absorver o máximo de entendimento que seu cérebro conseguia após um dia conturbado como aquele.

-Ele sofreu muito, Alice? – a voz falhada pela respiração forte. –Por mim, ele sofreu? – o medo em seu corpo era evidente.

-Bella, não o culpe. – Alice estava desesperada. – E nem se culpe, vocês eram tão pequenos. – Alice falava rápido. - Meu Deus, Bella?
Antes que Alice pudesse fazer alguma coisa, os joelhos de Bella cederam fazendo seu corpo desabar no chão

-Bella! – ela abraçou quando viu que a moça soluçava. – Calma, Bella! Eu não devia ter falado nada, eu não deveria nem estar aqui agora, me perdoa.

-Foi minha culpa, Alice, eu que simplesmente fui embora, levando toda a alegria dele junto, todo o amor.

-Não fale assim, venha. Levante! – ela colocou a médica que chorava forte ainda, em pé e abraçou sua cintura. – Vou te levar para casa!

Bella nada respondia, apenas colocou a mão no rosto enquanto tentava engolir os soluços que ecoavam pelo corredor vazio e branco. Como chegou em casa? Ela não saberia explicar. E muito menos como a pequena Alice sabia onde ela morava.

-Bella, chegamos. – ela disse enquanto a retirava do carro. –Vou te levar lá pra cima, você quer que eu fique com você? – ela perguntou baixo. – Ou o Thiago está te esperando lá em cima?

-Fique, Alice. – foi o que ela conseguiu dizer antes de continuar chorando.

Alice incrivelmente conseguiu guiar Bella até o apartamento.

-Deite um pouco, Bella, eu vou preparar um chá para você e depois te colocar no banho. – Alice sorria um pouco enquanto afofava a cama de Bella.

O pranto dela aumentou de maneira rápida assim que ela ouviu a porta bater e puxando as roupas de cama para perto de si, trouxe uma camiseta de Thiago. Bella não se perdoava por ter deixado o sentimento que ela nutria por Edward na infância dominá-la de forma tão arrebatadora sendo que ela amava Thiago, não amava? É o que ela achava, talvez.
Quando Alice voltou no quarto, Bella já estava dormindo. A cama a sua volta estava totalmente bagunçada.

-Bella? – Alice tocou o braço de Bella. – Posso passar a noite aqui? – perguntou constrangida. – Eu nem percebi a hora e eu deixei meu carro no hospital.

-Claro, deite ai. – Bella gesticulou meio dormindo.

Alice antes de pegar no sono, se questionava como tudo aquilo aconteceu. O destino agiu depois de tanto tempo, por quê? As perguntas se misturavam com as imagens borradas de um sonho em sua mente até que ela adormeceu totalmente.