Capitulo 10
A campainha não parava de soar. Thiago saiu do banheiro com uma toalha enrolada na cintura. Os cabelos loiros ainda estavam molhados enquanto ele esfregava uma toalha menor na cabeça. Seus pés molhados faziam poças de água pelo apartamento.
-Já vai! – gritou enquanto atravessava a sala.
Abriu a porta rapidamente, dando tempo apenas para ver o vulto castanho se jogar contra seu corpo. Sem entender, envolveu o que pode do corpo de Bella que soluçava, enquanto o abraçava.
-Ei! – Thiago exclamou acariciando os cabelos dela. – O que aconteceu?
Bella continuou agarrada ao seu peito molhado e quente. Sua respiração ainda estava cortada pelo pranto descontrolado enquanto ela continuava a apertar seus braços ao redor de Thiago.
-O que houve, Bella? – ele insistiu.
Bella fungou, soltando seus braços lentamente e passou a mão no rosto, limpando as lágrimas que ainda escorriam. Respirou fundo, e caminhou até a cozinha.
-Você não vai me falar nada? – ele já dizia preocupado.
Ela permaneceu em silêncio enquanto pegava um copo e despejava água dentro.
-Ok. – Thiago fitou-a. – O que está acontecendo naquele hospital, Isabella?
Bella virou o copo, bebendo toda a água até a última gota, antes de acalmar sua respiração. Suas mãos estavam apoiadas no balcão da cozinha enquanto Thiago permanecia inquieto atrás dela.
-Eu recebi duas propostas hoje no hospital. – sua voz saindo calma demais.
-Duas propostas, Bella? – Thiago perguntou animado.
-Sim. – Ela respondeu desanimada.
-Essa não era a oportunidade que você precisava?
-Não é bem assim, Thiago. – ela o fitou. – Me deixa explicar.
-Diga! – ele puxou uma cadeira, ansioso.
-Hoje eu falei com um dos diretores do centro de cardiologia e Aro me convidou para trabalhar com eles.
-Isso é ótimo, não?
-Sim, mas...
-Mas...? – ele perguntou, se inclinando na mesa em direção a ela.-Thiago, o filho do doutor Carlisle sofreu um acidente naquele dia que estávamos na casa dele e calhou de eu ser a médica dele. O que ele teve foi grave e praticamente fatal. E digamos que ele ficou apenas vinte dias em coma enquanto o tratamento agia em seu corpo. Carlisle ficou impressionado com o que eu fiz e me propôs que eu acompanhasse a sua recuperação e Aro concordou em me dar essa vaga, após essa recuperação.
-Até aí, eu não vejo nenhum problema, Bella.
-Eu terei que passar um mês, talvez dois, acompanhando Edward em uma casa que Carlisle disse que tem. – Bella gesticulou nervosa.
-Como é que é? – Thiago cerrou os olhos.
-O que? – Bella colocou o copo em cima da mesa.
-O que você disse? – ele balançou a cabeça, incrédulo.
-Eu recebi essa proposta, Thiago. – ela falou, indo até a pia e lavando o copo. – Tenho uma semana para pensar. – olhou por trás dos ombros.
-Você vai passar um mês ou dois com Edward Cullen? – ele perguntou após respirar fundo.
-Não vou passar com ninguém, Thiago. – Bella antecipou as palavras dele. – Irei acompanhar a recuperação de um paciente.
-Sozinhos? – ele já perguntou alterado.
-Não sei, Thiago. – ela falava calma. – Ainda não discuti detalhes com Carlisle.
-Quando você ia me dizer? – ele perguntou encostado na parede.
-Hoje! – ela falou indiferente. – Recebi a proposta hoje.
-Você o conhece, Bella? – ele perguntou coçando as têmporas.
Bella respirou fundo e apoiou o corpo na pia.
-Sim, Thiago. – ela confessou. – Conheço.
-E você conhece a fama que ele tem, Bella? – era visível o controle que Thiago gostaria de passar por sua voz. – Você imagina?
Bella não sabia o que fazer. Sua vontade era sair correndo, porém suas pernas não tinham força para isso. Ela maneou a cabeça esperando a resposta.
-E você tem certeza que irá ficar com ele numa casa durante um mês ou dois, Isabella? – ele aumentou seu tom de voz. – O que é isso, uma espécie de vingança? – ele perguntou desdenhoso.
-Vingança, Thiago?
-Sim, você aguardou esse tempo inteiro para se vingar de mim, não é isso, Bella? – ele a fuzilava.
-Você acha mesmo que eu sou assim, Thiago? – ela cruzou os braços no peito e virou-se, encarando-o. – Você tem certeza que você tá dizendo isso? – ela perguntou venenosa. -Você pensa que eu vou querer fazer o mesmo que você me fez com aquela vagabunda da Victoria? – sibilou.
-E não irá? – ele perguntou. – Ele é o maior galinha da cidade, Isabella!
Bella respirou fundo, como chegaram naquele assunto?
-Eu só queria saber sua opinião. – ela comentou baixo. – Mas eu já sei o que eu vou fazer. – ela caminhou até o sofá e pegando a bolsa, virou para olhá-lo. – Eu tinha te pedido para nunca mais tocar nesse assunto e eu sinceramente já tinha esquecido. Eu irei viajar na sexta-feira, Thiago. Até lá nos falamos! – ela se dirigiu até a porta. – E desculpe pela ingratidão. – olhou para os olhos azuis novamente. – Obrigada pelo abraço. – disse antes de sair.
Esvaziando sua mente no caminho de casa, permitiu que o torpor dominasse seu corpo.
Dois dias se passaram...
Batidas na porta.
Parecia que Bella tinha acabado de deitar, quando ouviu forte pancadas em sua porta. A noite tinha passado sem nenhum problema, ela conseguira dormir sem sonhos, o que era uma boa coisa. Coçando os olhos e murmurando, ela foi até a porta.
-Não tem mais o que fazer num domingo de manhã... – sua voz travou ao ver o rosto que surgiu em sua frente.
-Thiago? – ela perguntou nervosa. – Olhe para você! – apontou.
-Bella. – a garganta anestesiada de Thiago tentou pronunciar meio enrolado. – Posso entrar? – ele perguntou impulsionando seu corpo para frente.
-Pode. – Bella falou trancando a porta atrás de si. – O que você fez? – ela perguntou o sentando no sofá.
-Eu não consigo dormir desde que você saiu do meu apartamento.
-E pelo seu cheiro, não conseguiu parar de beber também!
-Não vá, Bells. – ele falou agarrando a cintura dela que estava em pé a sua frente.
-Thiago, eu já tomei minha decisão. – ela disse séria e o soltando de seu corpo. – Agora venha, você precisa de um banho frio. – ela puxou seus braços. – Me solta! – falou alto enquanto ele a abraçava.
Bella o deixou embaixo do chuveiro frio enquanto foi para a cozinha preparar um café.
-Bêbado! – murmurou mais desanimada. – Não dá mais pra mim! – admitiu pra si mesma.
-Bella! – Thiago gritou do banheiro. – Tá muito fria. – sua voz tremendo por conta do frio.
-Já estou indo! – ela gritou da cozinha. – Desligue o chuveiro e vá se enxugando, eu não vou fazer isso por você.
-Você bem que podia vir me enxugar né, Belzinha? – sua voz era uma tentativa broxante de malicia.
-Fica quieto! – ela disse entrando no quarto com a xícara. – Se vista logo para poder tomar isso e dormir um pouco. – ela falou colocando a xícara no criado mudo. – Assim que você acordar, iremos conversar sério.
Thiago resmungou alguma coisa antes de virar o café amargo de uma vez só.
-Se cuspir no meu tapete vai limpar!
Ele deitou na cama de Bella e se embolando com seus cobertores, logo estava dormindo.
Bella olhava a imagem de Thiago só de cueca, abraçado em seu cobertor, adormecido, encostada na cômoda em frente à cama. Como, de uma hora para outra, ela deixou seu namoro se perturbar tanto? Por que, por uma simples discussão, já pensa em terminar? O medo e a ansiedade da viagem que se aproximava já corroíam seus nervos, deixando-a agitada. Ela iria para a tal casa com ou sem a aceitação de Thiago e que se pra isso tivesse que pedir um tempo ao namorado, faria. Uma ferida reaberta estava gritando naquele momento, o que ela poderia fazer?
Edward já estava impaciente enquanto a papelada de sua alta não saia, já passara do meio dia e ele queria seu apartamento, sua cama, sua paz.
A pergunta que saiu de seus lábios há cinco dias ainda ecoava em sua mente sem resposta.
-Agora só falta a médica vir lhe dar uma última olhada para que ela possa assinar sua alta. – Alice entrou falando no quarto.
-E onde ela está? – Edward perguntou com os braços cruzados. – Eu quero ir embora! – falou birrento.
-Edward, você parece um garotinho com esse bico! – Alice disse brincando. –Vou arrumar suas coisas, logo Be... ela estará aí. – Alice andava pelo quarto colocando as roupas e coisas de Edward numa mala.
Edward soltou um suspiro longo enquanto olhava a irmã andar de um lado para o outro.
-Com licença. – Bella entrou com o prontuário de Edward em mãos.
-Olá doutora! – Alice a abraçou. – Vai liberar meu irmãozinho? – ela riu.
-Veremos o que será possível, Alice! – Bella se aproximou da maca. – Abigail já tirou seu soro né? – perguntou colocando o aparelho de pressão em seu braço.
-Uhum. – Edward respondeu olhando novamente a face de Bella.
-Sua pressão está estável, Edward. – Bella sorriu. – Como se sente?
-Entediado. – ele comentou fazendo o mesmo bico. – Eu quero ir embora!
-Pare de choramingar! – Alice deu um tapa em seu ombro.
Bella riu e maneou a cabeça enquanto ouvia o seu peito.
-Seu pulmão também está melhor, porém você terá que parar de fumar. – ela comentou enquanto anotava. – Você consegue?
Antes dele responder, Alice se adiantou.
-Claro que consegue! Aliás, seu maço já esta no lixo, Edward!
-O que? – ele perguntou pasmo. – Você jogou meu maço de cigarros no lixo? – sua face tomando um tom avermelhado de raiva. – Alice, aquele cigarro...
-Só estava te matando mais. – Alice encerrou a conversa. – E então, doutora?
-Ele já está pronto para sair. Parabéns, Edward. – seu corpo se arrepiou ao mirar aqueles olhos verdes fitando-a intensamente. – Sua recuperação foi impressionante!
-Vazo ruim não quebra! – Alice comentou rindo.
Edward observava todas as reações de Bella em silêncio. O desejo de abraçá-la era intenso e a vontade de contornar sua face corada com seus dedos era devastadora.
-Você pode levantar? – Bella perguntou abaixando a cerca da cama.
-Sim. – ele jogou suas pernas para fora da maca e se colocou de pé num pulo, o que fez sua cabeça rodar rápido.
-É normal! – ela disse enquanto segurava sua cintura. – Os medicamentos eram fortes e você passou grande parte do tempo deitado. – ela olhou para cima e se deparou com a face de Edward atônita. - Desculpe. – sussurrou baixo enquanto soltava sua cintura. – Você já pode sair.
-Obrigado por tudo, Bella. – ele disse próximo ao seu ouvido, fazendo Bella se arrepiar.
-Por nada. – ela disse sem fôlego.
Edward foi até o banheiro e Bella aproveitou para sair do quarto.
Ela saiu rápido para o corredor, respirando fundo, tentando, em vão, tirar o perfume de Edward que entrara em seu organismo.
Dois meses.
Dois fucking meses.
-Bella! – ouviu seu nome ser pronunciado próximo. – Você está bem?
-Estou, Carlisle. – sorriu, abrindo os olhos e fitando o medico loiro a sua frente. – Que bom que eu te encontrei, precisava mesmo falar contigo.
-Ótimo! – Carlisle assentiu com a cabeça, fitando sério os olhos castanhos. – Você prefere ir até a minha sala ou...
-Não precisa! – ela cortou, estralando os dedos, nervosa. - Carlisle, eu pensei durante esse final de semana e eu aceito sua proposta!
-Que ótimo, Bella.
-Onde fica essa casa?
-Fique tranqüila, nos te levaremos.
Bella assentiu.
-Ele já recebeu alta, Carlisle!
-Obrigado!
-Já disse que é meu trabalho. – Bella sorriu. – Você pode me fazer um favor? – ela se mexia no lugar, trocando o peso das pernas impacientemente.
-Claro, pode dizer!
-Você poderia ligar para Aro e avisá-lo de minha decisão?
-Ligo sim. – Carlisle sorriu. – Você merece, Bella!
-Obrigada.
-Não por isso! Agora eu vou olhá-lo. – apontou para a porta que estava nas costas de Bella.
-Claro. – sorriu, se afastando.
