Capitulo 16

Narrativa

Ele entrou no escritório vestindo a camisa cinza que tanto gostava e a calça social escura. Seus sapatos escuros batiam firmes contra o assoalho.

-Desculpa o atraso, Jasper. – ele comunicou olhando o relógio.

-Tudo bem, Edward. – Jasper sorriu enquanto andava com alguns papeis na mão. – A
noticia da cirurgia deve ter pego você de surpresa. Ainda mais depois da briga de ontem.

-Cirurgia? – ele perguntou confuso.

-Sim. – Jasper respondeu. – Carlisle ligou aqui no escritório hoje pela manhã pedindo umas duas semanas livres no mês que vem para sua operação.

-Eu não estou sabendo de nada. - Edward comentou um pouco espantado. – Alguma coisa pra hoje?

-Tivemos a reunião com o a tesouraria da editora hoje pela manhã. – ele comentou com um sorriso no rosto. – Mas deu tudo certo! Aliás, como anda o livro?

-Digitei mais algumas folhas hoje. – Edward falou com indiferença. – Ele disse mais alguma coisa, Jasper?

-Não. – ele comentou olhando a face pasma de Edward. – Algum problema? – perguntou preocupado. – Você já sabia, não é?

-Claro! – disse maneando a cabeça. – Alguma outra coisa pra hoje? – perguntou caminhando pra dentro do escritório.

-Não. – ele respondeu empolgado. – Era só mesmo a reunião e o negocio fechado de 100 mil cópias! – Jasper sorria feliz.

-Wow! – foi o que Edward conseguiu dizer. – Parabéns, Jasper! – sorriu triste.

-O que aconteceu? – Jasper perguntou de costas pra Edward, enquanto mexia em alguns papéis.

-Hã?

-Você não está legal! – ele afirmou. – O que te aconteceu?

-Jessica! – Edward soltou respirando fundo, enquanto se apoiava na parede.

-O que tem ela? – Jasper virou o rosto, olhando-o sobre o ombro.

-Deixou-me um monte de mensagens e varias ligações.

-O que ela queria?

-Não sei!

-Não sei? – Jasper se sentou na cadeira atrás da mesa.

-Yep! – Edward confirmou pondo-se de pé.

Jasper coçou a cabeça, bagunçando os fios ondulados e dourados.

Edward colocou os óculos escuros e saiu do escritório. Enquanto andava pelo saguão do prédio, viu Jessica vindo em sua direção. Seus olhos se cerraram e sua mão começou a formigar.

-Ed! – ela gritou correndo em sua direção.

O rosto de Edward contorceu-se em uma careta e ele a fitou rancoroso.

-O que você quer, Jessica? – sua voz saiu carregada de veneno, enquanto ele segurava os pulsos dela no ar, os mesmos que iriam se amarrar em seu pescoço. Ela olhava Edward um pouco surpresa, soltou-se do aperto de suas mãos e ajeitou o decote que quase deixava os seios a mostra.

-Precisamos conversar. – ela ergueu uma sobrancelha e sorriu maliciosa para Edward.

Ele apenas riu e coçou a nuca. O que ela queria agora? Dinheiro, certamente. Jessica tinha um ótimo faro para o dinheiro, já que James tinha acabado de ser nomeado diretor da empresa onde trabalhava e que seu salário teve um ótimo acréscimo.

-Precisamos? – ele perguntou. – Na verdade, eu não preciso. – ele a olhava diretamente nos olhos claros. – Então, se você puder me dar licença.

Edward colocou os óculos novamente no rosto e ia saindo quando a mão de Jessica lhe segurou o ombro.

-Por favor, Edward! – ela já tinha uma voz chorosa. – Não me abandone agora que preciso de você! – ela o segurava. – Por tudo que passamos...

-Espera ai. – ele se virou em sua direção. – Jessica, cadê seu amor próprio?

Ela estava confusa.

-Onde já se viu? Vir pedir dinheiro pro cara que você colocou um belo par de chifres e ainda por cima na carroceria do carro dele?

-Edward, por favor. Esqueça isso. Eu já esqueci... – falou como se aquilo não tivesse importância.

-Claro que esqueceu, mas infelizmente eu tenho um compromisso agora. – mentiu.

-Ed...

-Tenha uma boa tarde.

-Ed...! – ela gritou batendo o pé.

-Ah me esqueci. – ele parou antes de sair do saguão e voltou até onde Jessica fazia
birra. – Não me ligue mais, certo? Realmente, eu não quero mais saber de você, Jessica.

Ele saiu com um sorriso vitorioso no rosto. Não que isso realmente mudasse alguma coisa em sua vida agora, mas algo dentro dele se sentia feliz em humilhar Jessica. E ele não se sentia nem um pouco preocupado com isso.

Seu volvo prateado o aguardava reluzente na portaria.

-Não acredito! – Bella exclamou ao perceber que se sentara no banco que ficava exatamente na praça em frente sua antiga casa. O sobrado branco, que agora refletia em suas janelas o sol alaranjado que se punha no horizonte, tinha um alto cercado em seu torno.

Seu olhar ficou baixo ao perceber que a casa onde viveu na infância tinha sido comprada por qualquer um. Logo a imagem de Edward áspero a deixando em casa veio em sua mente.

-Tudo por minha culpa. – repetiu mais uma vez.

-Ainda bem que te encontrei, Bella. – uma voz aveludada soou atrás dela esbaforida.

Ela ficou paralisada.

Ele está me seguindo? – pensou por um minuto.

-Você me deixou preocupado, sabia? – Laurent disse sentando-se ao seu lado no banco. – Não é comum ver uma moça bonita assim aos prantos na rua.

Bella corou e ficou um pouco irritada. Respirou fundo e limpando as lágrimas que escorriam por seus olhos, encarou os brilhantes olhos azuis.

-Olha...

-Shhh! – ele colocou o dedo indicador em seus lábios. – Só aceito que você diga alguma coisa, se for pra me explicar o que aconteceu. – um sorriso brincou no rosto de Laurent.

Bella ergueu uma sobrancelha e o encarou nervosa.

-Ei, espera! – ele gritou enquanto ela se levantava e marchava até o ponto de ônibus próximo. – Onde vai?

-Laurent, por favor! – ela respirou fundo. – Eu não sou a pessoa certa pra você se interessar.

Laurent começou a dar risada. Sua face pálida aos poucos tomava um tom avermelhado, passando para o roxo sem ar. Sua gargalhada era alta e escandalosa.

-Do que você está rindo? – ela perguntou em um misto de nervoso e vergonha.

-Bella! – ele falou tentando recuperar o fôlego. – Você acha mesmo...?

Os pneus gritaram assim que Edward pisou no freio na porta do hospital. Eram quatro e meia quando ele entrou, batendo os pés firmes no corredor. A sala de seu pai estava se aproximando, porém seu coração pulsava rápido enquanto ele passava pela sala vazia da cardiologista do hospital. Ele desviou o olhar rapidamente, sentindo seu peito fisgar. Retomou a caminhada, rumo à sala de Carlisle.

-Pai. – chamou, após fechar a porta atrás de si.

-Edward. – Carlisle pronunciou friamente.

-Posso entender o porquê de meu cunhado saber que estou com uma operação marcada e eu não ter conhecimento disso?

-Se você fosse um pouco responsável e atendesse ao telefone, talvez não precisasse envolver Jasper nisso.

-O que está acontecendo com você, Carlisle? – Edward perguntou sério. – Isso tudo não pode ser por conta deu ter transado com sua cardiologista, pode?

-Edward... – ele falou puxando o ar com força, se controlando. – Você não é capaz de entender, filho.

-Com um ou dois murros, talvez eu possa acompanhar. – Edward respondeu irônico, sentando-se de frente para Carlisle.

O tempo passou e ele fuzilava as costas do pai. Enquanto o mesmo pensava no que dizer, os minutos passavam.

-E então... – Edward quebrou o silencio. – O que vai ser?

-Ela não pode se envolver com você, filho. – ele respondeu finalmente.

-Há! – Edward riu sarcasticamente. – Conta outra, doutor.

-Edward, isso é arriscado demais pra você filho...

-Carlisle, quando você vai perceber que eu sou um homem agora? Pai, eu não venho mais chorando para seus braços caso eu tenha levado um tombo. Eu me remôo por quatorze anos, para quando finalmente eu possa ser feliz, você me impedir? – Edward perdera sua mascara de ironia enquanto desabafava com ele. – E tudo isso para que? Pra você ficar com a mulher que eu amo? – perguntou incrédulo. – Eu sinceramente achei que você e Esme estivessem na fase mais estável de seu casamento...

Carlisle rangeu os dentes e encarando Edward, rosnou.

-Eu não seria capaz de trair sua mãe! – ele disse apontando para Edward. – Nunca! Entendeu?

-Então me diga, pai. Por favor, me fale! – ele pediu. – Por que essa de 'imoralidade', sendo que você e Esme se conheceram dessa mesma forma?

-Sua mãe e eu não tínhamos nenhuma forma de obstáculos em nosso caminho... – ele sussurrou mais pra ele do que pra Edward.

-Os obstáculos que temos, foi você que colocou em nosso caminho.

-Isso não depende de mim, Edward. – ele disse doloroso.

-Então por que está fazendo isso? – Edward perguntou pela ultima vez. – Por quem está fazendo isso?

Edward bufou, e nesse mesmo instante levantou da cadeira e saiu, rumo a porta.

-Eu vou falar com Bella agora, se eu vou ser operado ela tem que saber de algumas coisas...

-Edward. – ele o impediu. – Você não precisa deixar nenhum testamento, ou algo do tipo. E Bella não esta mais cuidando de você e muito menos nesse hospital.

Edward congelou na porta do consultório de Carlisle.

-Como?

-Eu tive que mandá-la embora.

-Você tirou ela do hospital, Carlisle?

-Não tive outra escolha, ou...

-Ou? – Edward perguntou vermelho de raiva.

-Ou ela não poderia receber a promoção que ela ganhou de Aro.

Ele não conseguia permanecer nenhum minuto ali, já ouvira demais para suportar a dor pulsante em seu peito. Saiu batendo a porta como um adolescente rebelde. Caminhou até o carro imponente que brilhava no estacionamento do hospital e novamente cantando pneu, acelerou rumo a lugar nenhum.

Assim, como os olhos de Edward estavam embaçados, o seu raciocínio não era dos mais claros. O pé fundo no acelerador não diminuía a pressão que fazia o carro ronronar e se impulsionar cada vez mais rápido pra frente. Aos poucos, cada momento ao lado de Bella dava as caras em sua mente, provocando-o ainda mais.

Seu peito chiava por conta da falta de ar. Com um movimento rápido, Edward abriu o teto solar de seu volvo pra que ar entrasse e ajudasse seus pulmões a trabalhar. Falhou, devido a garoa. Porém ele não se importou, deixando o teto solar ainda escancarado. A chuva fina entrava no carro molhando seu rosto e todo o banco de couro. Aos poucos, as gotas de água concentradas em seus cabelos desgrenhados escorriam pelo rosto feito lágrimas.

Ele tirou o pé do acelerador de forma violenta, pisando imediatamente nos freios quando o sobrado branco lhe surgiu a vista.

As imagens borradas se focalizaram quando ele deslizou o punho pelos olhos, limpando-os. A imagem do sobrado piorou o aperto de seu peito, mas ele não conseguia desviar o olhar. A casa estava intocada, assim como ele comprara. Gastara alguns milhões de seu primeiro recebimento por conta de seu livro naquele pequeno sobrado.

O olhar ficou perdido nas janelas por minutos, até que um som alto de gargalhadas incomodou Edward, chamando sua atenção.

Ele já estava no meio da praça, seguindo o som estridente quando viu a cena que ele mais temia.

O verde dos arbustos a sua volta rodou diante de seus olhos e ele sentiu o seu estomago se revirar, junto com um pulsar débil de seu coração.

-Bella... – seus lábios tentaram chamar, mas era tarde.

Sua vista escureceu no mesmo momento e ele ainda pode ouvir o baque oco de seu joelho batendo no chão após as gargalhadas se estancarem.

POV. B.

-Para de rir, Laurent! – falei séria. – É serio!

-Bella. – ele finalmente recuperou o fôlego. – Eu não estou te paquerando, eu só fiquei preocupado. Apenas um mal entendido. Eu sou psicólogo e eu vi você daquele jeito, só quis ajudar.

-Você pode mesmo fazer consultas assim?

-Eu decido o que eu faço. – ele deu de ombros. – Meu consultório fica ao lado daquele hospital... não me recordo o nome.

-Eu sou cardiologista, trabalho no hospital que fica no centro da cidade. – disse surpresa.

-Esse mesmo, te vi saindo de lá... E Bella... – ele começou a rir novamente. – Eu sou, hmmm, comprometido!

-Ah! – comecei a rir também da minha bobeira. Claro que ele era comprometido.

Limpei as lágrimas que escorriam de meus olhos e o esmurrei no ombro.

-Desculpa. – pedi envergonhada.

-Que isso Bella, não foi nada.

-Bella... – ouvi meu nome e me virei rapidamente.

Apenas pude ver Edward caindo de joelhos com uma face contorcida.

-Edward! – gritei me afastando de Laurent e correndo em sua direção.

Ajoelhei-me próximo de seu corpo, ele chorava feito uma criança. Os soluços eram cortados e eu podia ouvir meu nome saindo de forma dolorosa de sua boca.

-Edward, o que foi? – passei a mão em seu cabelo esquecendo a dor que latejava em meu peito enquanto eu corria do hospital. – O que está acontecendo?

-Be... lla. – ele continuava soluçando. – Minha Bella!

Eu não entendia nada. Seus cabelos estavam molhados e sua roupa também estava úmida. Sua pele pálida estava um pouco amarelada e eu podia ver algumas gotas de suor escorrendo por sua testa. Apesar da fina chuva que caia agora sobre a praça, ele continuava ali sem me dizer nada.

-Vamos, Edward! – falei um pouco mais alto. – O que foi?

Ele não me olhava, apenas escondia seu rosto com as mãos másculas enquanto seu corpo se balançava em pranto.

-Olhe pra mim! – pedi segurando seu rosto e afastando-lhe as mãos.

Quando os olhos verdes cheios de lágrima cruzaram com os meus, senti-me extremamente arrependida. Claro que algo estava errado, era errada a forma como ficávamos longe do outro. Nossos corpos e sentimentos se encaixavam demais para serem errados. Como eu fui besta.

-Bella... – sua voz saiu em um sussurro e por algum motivo que eu desconhecia, ele se jogou em meu corpo, nos lançando para a grama molhada.

-Edward? – eu o chamei enquanto ele me beijava por toda a face. – O que foi?

Ele ergueu a cabeça por um momento, fitando-me intensamente. Não disse nada, porém a urgência de seus lábios macios nos meus responderam qualquer pergunta que eu poderia fazer. Uma de suas mãos deslizava pela lateral de meu corpo enquanto a outra ficava espalmada no final de minha coluna, puxando meu ventre de encontro ao seu. Seus beijos eram suaves, apesar de estarem fazendo meu corpo ferver. A chuva continuava a cair fina sobre nossos corpos jogados no gramado.

Isso realmente não me importava. Era como se tudo acontecesse em câmera lenta com seu corpo quente sobre o meu. Ele alisava suavemente minhas bochechas coradas enquanto sua língua travava uma guerra sensual com a minha. Seu gosto doce em minha boca estava me deixando zonza enquanto nossos corpos se apertavam. Errada estava eu quando pensei que poderia ficar longe dele...

Aos poucos senti o peso que ele exercia sobre mim desaparecer. Abri meus olhos, exasperada e o vi de pé em minha frente, com seus olhos verdes iluminados fixos em minha face. O sorriso torto também estava naquele rosto másculo. Sua mão esticada em minha direção era um pedido silencioso. Segurei-me em sua mão e com um puxão ele me colocou de pé, colada a seu corpo. Nossos lábios novamente juntos, delicadamente. Apaixonadamente.

Nesse momento, eu me esqueci de tudo ao meu redor. Da chuva gelada que esfriava nossos corpos quentes e de Laurent próximo de nós que, se não me falhava a memória, saiu rindo baixo enquanto essa cena aparentemente de filme ocorria. Ele separou nossos lábios e aos poucos me guiou até o volvo que estava estacionado do outro lado da praça. Ele abriu a porta do passageiro e quando fui entrar, ele me impediu.

-O que foi? – perguntei surpresa.

Ele apenas sorriu pra mim. Seus lábios retorcidos deixavam seus olhos pequenos e as suas covinhas escondidas sob a barba loira por fazer evidentes. Ele sentou no banco do passageiro, e abrindo o porta-luvas tirou de lá um molho de chaves. Fiquei sem entender absolutamente nada. Edward estava misterioso. Seus olhos verdes me mostravam o tamanho de sua felicidade e sentimento. Ele pegou minha mão e atravessou a rua junto comigo. Só desgrudei meus olhos de seu rosto, quando ele rodou a chave no portão branco e estendeu a mão, me dando passagem. E o que eu vi, adicionado a tudo que acontecera nos últimos dez minutos, fez meu coração parar de bater por alguns segundos.

Meus olhos se embaçaram e eu olhei novamente para seu rosto. O sorriso torto continuava ali enquanto seus dedos finos massageavam minha mão. Dei o primeiro passo para dentro da cerca com minhas pernas tremulas. O jardim com a árvore que costumávamos brincar logo em frente. A realidade veio pra mim como uma bomba.

Bambeei e dei um passo para trás, encontrando o corpo dele. Seus braços envolveram minha cintura e seus lábios o lóbulo de minha orelha.

-Vamos entrar. – ele sussurrou animado.

As informações chegam até mim um pouco conturbadas. Eu não acreditava como, no dia anterior, eu pude falar algo daquela forma. Pra ele, pro homem da minha vida!

FIM DO POV DA BELLA.