Capítulo 1 – A Nova Serva do Lorde das Trevas
Tudo estava silencioso. Morto. Como se não houvesse nada ali. Mas havia. O céu era negro, muito negro. Não havia estrelas e nem lua. O vento parara de soprar de repente. O silêncio era tal que comprimia os tímpanos. Nem uma folha se movia, nem uma coruja piava, nem um passo era escutado. Mas todos eles se moviam, em perfeita sincronia. Respirações agitadas. Elas não eram ouvidas. Mas podiam ser sentidas.
A cerimônia começara. Todos os Comensais da Morte estavam reunidos envolta de uma fogueira, formando uma espécie de sinistro círculo, os capuzes cobrindo o rosto, o manto negro os confundindo com a compressora escuridão do cemitério. No centro do círculo, ao lado da fogueira, apenas o Lorde das Trevas – que não passava de um corpo, estranhamente parecido com um bebê, sinistramente Voldemort, carregado por Rabicho, e uma garota. Uma garota de longos cabelos ondulados e castanho-escuros. Ela suava, a franja estava grudada na testa, o rosto cheio de marcas. Um feio corte na boca sangrava. Vestia apenas uma camiseta cinza, que era várias vezes maior do que ela, e que já colava ao seu corpo por causa do suor. Os olhos mantinham um brilho eloqüente, por vezes se arregalavam e por vezes se fechavam com força. As pernas estavam expostas e sujas, os pés cobertos de terra. Ela parecia não saber exatamente o que fazia ali, não confiava na multidão que a observava. Mas, ao mesmo tempo, parecia saber exatamente porque estava ali.
- Irás sempre ser leal ao Lorde das Trevas – sibilou Voldemort.
- Devoto toda a minha lealdade ao Lorde das Trevas – sussurrou ela de volta, confiante de suas palavras. Sua voz era rouca e fraca. Ela estremeceu levemente, os braços cruzados, a cabeça baixa. Não deveria ter mais do que dezesseis anos. Estendeu o braço esquerdo com receio e sem realmente olhar o que fazia.
Walden MacNair se destacou do grupo de Comensais da Morte reunidos no cemitério, um sorriso de satisfação se espalhando pelo rosto. Segurou com força o braço esquerdo da garota, olhando maliciosamente para ela. Tatuou a Marca Negra a fogo no braço esquerdo da garota, que fechou os olhos com força e mordeu o lábio inferior, aumentando o machucado e o fazendo sangrar mais ainda. Ela lambeu o corte lentamente, depois deixou que o sangue escorresse. Não gritou, não chorou. Não fez nenhuma das coisas que o estranho público esperava que ela fizesse. Apenas manteve o braço esquerdo esticado à sua frente, como se quisesse manter a Marca Negra – que certamente queimava em seu braço – a maior distância possível.
- Belatriz – ordenou Lord Voldemort. -, leve ela para a sua casa. Deixe que tome um banho e lhe dê roupas.
- Sim, milorde. – respondeu Belatriz, um olhar de puro fascínio e veneração passando em seu rosto. – Mas quem é ela?
- Já disse que não posso contar quem é ela. Para o meu plano, ninguém pode saber quem ela é – Voldemort fez uma pausa, claramente dividido entre contar seus motivos e escondê-los para si, para sempre. – São fracos – disse por fim, decidindo contar a verdade. – Não posso confiar em vocês. Não mais – parou por alguns segundos, tomando fôlego. Quem diria que o grande Lord estaria tão acabado por causa de um menino... - Entre nós, ela será chamada de "Aquela-que-não-deve-ser-nomeada", uma clara alusão ao meu... Apelido.
- Sim, milorde. Vou levar Aquela-que-não-deve-ser-nomeada para minha casa e irei fazer o que o milorde mandou. E tudo que ele mandar.
- Muito bom, Bela. Agora, Bartô. Como está nosso outro plano?
- Está indo muito bem, milorde. Amanhã mesmo estou indo para Hogwarts lecionar Defesa Contra as Artes das Trevas como Olho-Tonto Moody.
- Ótimo. Bartô, realmente muito bom! Mas por hoje chega de esforços, leve-me de volta aos meus aposentos, Rabicho.
Rabicho aparatou com Voldemort, o leve estalido abafado pelo barulho da fogueira. A garota continuou parada ao lado da fogueira, o sangue ainda escorrendo para seu pescoço, o suor ainda colando a franja em sua testa e a camiseta em seu corpo. Rodolfo se aproximou da garota, tirou sua capa e colocou-a nela. Ela olhava assustada para todos, mas, principalmente, para MacNair, cujo sorriso desaparecera do rosto agora. Bartô Crouch Jr. se aproximou lentamente dela, esperando qualquer tipo de reação, mas ela apenas esticou a mão para ele, como se esperasse que ele a segurasse e assim ele o fez.
- Aquela-que-não-deve-ser-nomeada é um nome muito comprido, Bartô. Me chame apenas de Aquela. Como se fosse realmente o meu nome. Prefiro assim.
Logo, apenas Rodolfo, Belatriz, Bartô Crouch Jr. e Aquela continuavam em volta da fogueira, que com leves estalidos ia apagando, deixando-os submersos na escuridão do cemitério de Little Hangletton.
- Farei tudo o que quiser Aquela – respondeu Bartô, depois de um longo tempo.
Belatriz soltou uma risada histérica.
- Bartôzinho apaixonado? Por Aquela-que-não-deve-ser-nomeada?
- Você a subestima Belatriz, porque não a conhece. Afinal, não foi você que ensinou magia a ela, não foi você que viu o que ela faz, não foi você que a viu aprender anos de magia em menos de um, porque ela nem ler sabia! Ela é incrível Belatriz, e muito melhor do que você!
Belatriz gargalhou desdenhosamente.
- Uma fedelha que nem ler sabia melhor do que eu, Belatriz Black Lestrange?
- Sim. Você não sabe do que ela é capaz, Bela.
- Mas aposto que seus poderes não ultrapassam os meus. E mesmo que ultrapassem a fedelha não teria a coragem que eu teria de usá-los, muito menos a minha devoção ao Lorde das Trevas!
- Com certeza a devoção que você tem ela não teria. Aquela não iria se apaixonar pelo seu lorde...
- Você ousa Bartô! – gritou ela, apontando a varinha para Bartô.
- Bela, por favor... Apenas vamos para casa – murmurou Rodolfo, puxando Belatriz pelo braço.
Esta se desvencilhou e berrou:
- Bartô não vai simplesmente falar assim comigo! Rodolfo, você ouviu o que ele disse?
- Ouvi Bela, vamos! Aquela deve ir com a gente!
- Aquela... Aquela... Até você aderiu ao apelido, Roddy? – ironizou Belatriz loucamente.
Percebendo que um feitiço saía da ponta da varinha de Bartô, Aquela estendeu a mão e "capturou" o feitiço, segurando-o entre suas duas mãos, uma bola de luz. Belatriz e Rodolfo olharam assustados para ela, enquanto ela comprimia a bola entre suas mãos, fazendo o feitiço desaparecer.
- Como você fez isso? – sibilou Belatriz.
- É uma das coisas que ela fez, Bela – sussurrou Bartô. – Consegue controlar o feitiço com as próprias mãos, não precisa de varinha para executar feitiços. Pode projetar um feitiço-escudo com a mente.
- E dementadores não me afetam – disse Aquela. -, porque não há felicidade em meu passado para que eles se alimentem, então não preciso de Patronos. Mas posso transformar qualquer fonte de luz em um. Além de conseguir produzir um com a varinha.
- Se você não tem felicidade em seu passado como é possível que execute um Patrono? - perguntou Rodolfo, um ar de curiosidade e admiração em volta dele.
- Porque eu consigo projetar emoções. Posso fazer as pessoas sentirem qualquer emoção.
- Agora entendo porque o Lorde das Trevas a considera tão importante...
- Ele não a considera importante, Rodolfo! – berrou Belatriz, exasperada. Não aceitava o fato de que a fedelha selvagem fosse poderosa e importante. E também tão bonita.
- Tudo bem Bela, vamos embora? Acho que já chega. – murmurou Rodolfo, cansado.
- Vamos. Aquela; venha conosco. Já sabe aparatar ou é nova demais para tanto?
- Sim, receio que eu seja nova demais para aparatar.
