Capítulo 2 – Selvagem

Aquela-que-não-deve-ser-nomeada estava sentada à mesa dos Lestrange, usando algumas roupas antigas de Belatriz. Estava parada observando Rodolfo e Belatriz comerem, o prato intacto à sua frente.

- Não gosta de sopa de cebola? – perguntou Belatriz, parando de comer e descansando a colher no prato. Ter que conviver com a pirralha já seria ruim, mais ainda se ela fosse cheia de manias.

- Gosto muito – respondeu Aquela. – Mas não sei comer com isso... – ela apontou para a colher que descansava em seu prato, olhando-se curiosamente.

- Como assim? – a voz de Belatriz saiu esganiçada. A pirralha só podia estar brincando!

- Nunca me ensinaram a usar... Talheres. Acho que é esse o nome. – resmungou ela observando sua colher. – Acho melhor eu contar minha história a vocês. Só assim entenderão.

- Pois conte! – exclamou Belatriz, desconfiada.

- Minha mãe morreu ao que eu nasci. Meu pai, eu acho, me abandonou em uma floresta. Uma jovem senhora que morava ali me encontrou e cuidou de mim até os meus três anos. Então ela morreu de uma doença trouxa chamada câncer. Não tem cura.

Rodolfo parou de comer e pousou os olhos curiosamente em Aquela. Belatriz não gostou do olhar que o marido lançou a garota. Aquela continuou:

- Depois disso quem cuidou de mim foi um homem chamado Brutus. Cuidar não é exatamente a palavra. Ele me encontrou na casa em que eu morava com Anne alguns meses depois da morte dela. Eu estava machucada, desnutrida... – Aquela faz uma curta pausa, suspirando.

"Levou-me para o bordel de que era dono e me criou para a prostituição. Todas as prostitutas dele eram tratadas como animais. Cada uma tinha uma espécie de jaula em uma cabana, a luz entrava apenas por um buraco no teto, bem no meio da cabana. Passávamos o dia inteiro trancadas ali, sem água ou comida, coisa que só ganhávamos de noite, depois de trabalharmos. Brutus dava para cada uma um prato com carne, pão e uma fruta. Comíamos com as mãos. Só podíamos beber água na hora do banho, a água do chuveiro mesmo. Nós devíamos ser umas quarenta, para apenas quatro chuveiros. No início do ano passado eu consegui fugir. Fugi pelo buraco no teto, na hora do banho, não saberia dizer como há alguns meses atrás, mas eles não me encontraram. Hoje sei que foi a manifestação de meus poderes."

No rosto da garota passou uma expressão selvagem, logo substituída por um sorriso desdenhoso.

"Eu era a prostituta que ele tratava com mais selvageria. Ele tinha medo de mim, porque, obviamente, aos onze anos recebi a carta de Hogwarts. Brutus tinha medo do que eu poderia fazer, então me mantinha acorrentada dentro de minha jaula, coisa que não fazia com as outras. Perdeu o medo depois de uns anos, vendo que eu jamais tinha conseguido fazer coisa alguma contra ele, mesmo quando ele me batia. Afinal, dizia ele, eu não havia ido para aquela escola de bruxos idiotas, então devia ser por isso que eu jamais conseguiria fazer bruxarias."

- E o que você fez quando fugiu? – perguntou Belatriz, que mantivera no rosto um olhar desdenhoso, diferente do marido, que mantinha um olhar assombrado.

- Fui para Little Hangletton, onde eu sabia, havia nascido. Procurei por uma possível família, mas ninguém sabia dizer nada sobre meus avós ou meu pai. Foi quando eu conheci Bartô.

Flashback

A garota andava pelo cemitério de Little Hangletton, procurando nas lápides, alguém que pudesse ser de sua família. Parou na frente da lápide de Tom Riddle. Seus dedos machucados alisaram a pedra escura da lápide, ela lançou um breve olhar para a estranha estátua que fora construída ao lado da lápide e seguiu em frente. Ainda usava a roupa com que conseguira fugir: aquela camiseta velha cinza, com o cheiro de Brutus, que pertencera a Brutus. Achou que podia vomitar, se tivesse alguma coisa no estômago. Então percebeu que estava morrendo de fome. Sentou-se embaixo de uma velha árvore, na extremidade oeste do cemitério. Dali podia enxergar o túmulo da família Riddle. Ouviu o barulho distante do pio de corujas, um vento leve soprava por ali, fazendo uma fina areia roçar em suas pernas já muito sujas. Em algum lugar perto dali devia haver um rio, pois ela ouvia o barulho de água corrente. Pensou em levantar e procurar o tal rio, estava com sede também. Mas então tudo silenciou.

O vento parou de soprar, toda a vida pareceu se extinguir do cemitério. Ela não pode conter uma risada irônica. Nem mesmo o barulho da água era audível, a escuridão tornou-se profunda. Mas não do jeito que ela estava acostumada. Era profunda de um jeito simbólico, como se seus olhos pudessem se aprofundar nela tão intensamente que Aquela jamais retornaria. Era quase como mergulhar nos olhos da morte. Pela primeira vez em anos ela sentiu medo.

O medo sobreveio em uma onde de choque, como se a acordasse de um sonho feliz, a recolocando em uma realidade temível. Percebeu um movimento um pouco a sua frente. Mais precisamente em frente ao túmulo dos Riddle. Apertou os olhos, tentando enxergar. Mas não foi preciso mais esforço algum. Com um movimento rápido, alguém acendeu alguns antigos archotes.

Um homem pequeno, com aspecto sujo e algo que lembrava ligeiramente roedores, se aproximou do túmulo dos Riddle, trazendo em seus braços, envolto em panos sujos, algo como um pequeno bebê. Aquela nunca sentiu tanto nojo em sua vida inteira. O bebê não parecia estar vivo, no entanto, estava, porque Aquela podia ouvir a batida de seu fraco coração naquele silêncio todo. A pele dele era acinzentada, como se estivesse tão esticada sobre os ossos que pudesse se romper a qualquer toque mais brusco. Seu coração deu um pulo quando uma voz rouca, vinda, aparentemente do bebê, ordenou:

- Rabicho, mate quem quer que seja que esteja ali – ela sabia que estava se referindo a ela, então se preparou. Não sabia como, mas tinha noção do que tinha que fazer. Concentrou-se.

- Avada Kedavra! – ouviu a voz de Rabicho, uma voz esganiçada, dizer. Da ponta da varinha que Rabicho apontava para ela, saiu uma luz verde. Aquela esticou os braços em sua frente, as mãos protegendo o rosto. Então algo estranho aconteceu. O feitiço se chocou contra as suas mãos e morreu ali. Os olhos de Rabicho se arregalaram perante o feito da menina.

Então uma outra voz foi escutada por ela, uma voz que chamou a atenção de Aquela mais do que as outras, mais do que o fato do bebê que falava e dava ordens, mais do que o fato do cemitério ter submergido em tal escuridão e silêncio – que ela agora percebia, era obra daqueles homens:

- Levante-se! – era uma ordem.

Aquela se levantou calmamente e disse:

- Não precisamos ser inimigos – Aquela desejou profundamente que ele confiasse nela.