Capítulo 4 – De Volta ao Fim do Mundo

A porta da cabine fora aberta, pelo que ela calculava, pela décima vez. Mas dessa vez não era Zabini querendo enchê-la de indiretas ou Pansy Parkinson, a vadia do quarto ano. Era quem ela menos queria ver; Draco Malfoy.

- O que você quer, Malfoy?

- Trouxe o que eu pedi?

- Não – respondeu ela simplesmente.

- Savage, eu não te avisei o que acontece com quem me contraria? – um sorriso malicioso formou-se nos lábios finos e frios de Draco Malfoy.

- Avisou – ela também sorriu maliciosamente. -, mas ao contrário de todos; eu não tenho medo de você!

- Pois deveria! – exclamou ele, sentando-se em frente a ela. – Você é a única que tem algum tipo de contato com a ralé...

- Eu não tenho contato algum com a ralé, Malfoy!

- Não minta para mim – ele riu debochadamente. – Eu sei que você fuma.

- O que não significa que eu tenha qualquer tipo de contato com a ralé.

- Ah, não? E como você consegue seus cigarros?

- Não vou te contar meus segredos – ela sorriu, sem olhar para ele.

- Não esqueça que eu sei alguns... Muitos... Segredos sobre você, Kyria.

- Não esqueça que eu sei mais ainda sobre você, Draco.

- Então empatamos? É isso?

- É. Então me faça o grande favor de sair da minha cabine e me deixar em paz, está bem?

- Não brinque comigo, Kyria.

- Vá se foder!

Então foi tudo muito rápido. Só pode ser ouvido o barulho do tapa de Draco atingindo o rosto de Kyria, o barulho de um feitiço e de um corpo caindo ao chão. O rosto de Kyria ficara vermelho e ardia com a força do tapa, mas ela ignorou isso. Abaixou-se ao lado de Draco e disse rindo:

- Filho da puta!

- Acha que me ofende assim? Não ofende. Não dói ouvir isso. Não depois de anos escutando isso de ti.

- Que pena que não te ofende – ela sussurrou. – Mas eu não me abalo, continuo tentando. Pode ir embora agora?

Com um último olhar raivoso a Kyria, ele saiu da cabine e bateu a porta.

Kyria sentou-se, olhando pela janela a paisagem. Algumas lágrimas escorreram de seu rosto. Sentia-se tão perdida naquele mundo de bruxos adolescentes sem maturidade alguma. Era o fim do mundo para ela. E o pior: Kyria era apaixonada por Draco Malfoy e ela sabia disso. Por isso nunca saberia como agir perto dele. Sabia bem o perigo que representava Draco Malfoy, para qualquer garota. Mas especialmente para ela. Tentou pensar em outra coisa, desviou os olhos verdes para as mãos e ficou observando as unhas sujas. Depois prendeu o cabelo loiro em um rabo-de-cavalo frouxo e fechou os olhos, procurando dormir e não pensar em mais nada.

Acordou já em Hogwarts, vestiu-se apressada e saiu correndo pelos corredores já com poucos alunos, puxando atrás de si o pesado malão.

- Kyria? – ela ouviu uma voz masculina chamar. Virou-se e deu de cara com Theodore Nott.

- Nott – murmurou secamente.

- Soube que você e Malfoy brigaram... E que dessa vez ele passou dos limites.

- Na verdade, ele não fez nada que me surpreendesse. Tudo da natureza dele.

- Mas você está bem?

- Estou ótima.

- Acho que... Eu preciso te pedir desculpas, não?

- Pelo que? – ela revirou os olhos.

- Não finja que não sabe. Camilla.

Ela arregalou os olhos, respirou fundo e engoliu em seco. As mãos gelaram e começar a suar, o lábio inferior tremeu levemente. Olhou para os olhos negros de Theodore uma última vez e então lhe deu as costas, indo à direção de uma carruagem em passos largos.

De início os testrálios a assustaram. Quase ninguém os via. Mas depois ela descobriu-se orgulhosa de poder vê-los. Era mais uma coisa que a diferia de todos os outros. Obrigou-se a não chorar, precisava ser forte. Obrigou-se a simplesmente respirar o ar da noite, como se não pudesse lembrar de nada.

Somente quando entrou no Salão Principal percebeu o quanto estava sozinha. Sentou-se em um canto da mesa da Sonserina, o mais longe possível de Draco Malfoy e seus amigos. E o mais longe possível de Theodore.

Sua cabeça doía agora, todas as conversas paralelas, Dumbledore discursando, um trovão, gritos... Ia explodir. Algo estava errado com ela. Porque ela não sentia mais nada, não via mais nada a não ser o chão frio. Mãos fortes a puxaram para cima enquanto ela caia desmaiada.