Nova oneshot, que foi terminada ontem, em uma noite de insônia. Diabéticos, um aviso: Contém altas quantidades de açúcar – depois não digam que eu não avisei! Título estúpido, eu sei, mas não pude pensar em nada melhor... Se achar outro, eu troco, depois.
Carta
"It's got my name on it
And it's just waiting there for me"
(James Morrison – The letter)
Ele estava ali. Sentado, me olhando... Lindo, de um jeito que só ele sabia ser. Meu, de um jeito que só ele podia ser. E eu tinha toda a sua atenção.
- Quer que eu comece?
Minhas mãos estavam tão suadas que eu tinha medo que a folha de papel se desfizesse por entre meus dedos. Oh, e as minhas pernas tremiam como se fossem duas canas, estaqueadas, no meio de um temporal. Timidez; um grande defeito.
- Por favor.
Ele quase sorria, com tanto charme que talvez fosse possível de se colocar em uma garrafa. Uma voz ligeiramente insegura escapou de algum lugar do meu subconsciente, pra me dizer que ele ria de mim, e o quão ridícula eu era por me prestar àquilo.
- Você, ahn... – A folha foi da minha direita para a esquerda e para a direita de novo; mãos trêmulas, papel amassado, e uma sensação horrível no meu estômago. – Não prefere, bem, não prefere ler isso aqui você mesmo? É que eu acho melhor, sabe?, mais rápido, e eu sou tão atrapalhada, meu Deus... Posso começar a tossir, ou gaguejar ou, sei lá!, engolir minha própria língua...
Eu ri de nervoso, me sentindo um pouco mais estúpida a cada palavra que dizia. Ele esticou as pernas e abriu os braços, respirando profundamente. Era uma maneira de me mostrar o quanto ele se sentia à vontade no meu sofá, e também que não pretendia mudar nem de posição, nem de situação.
- Eu gosto do som da sua voz. É uma excelente oradora – Ele sorriu, e eu estremeci. Como alguém podia ser tão assustador e reconfortante ao mesmo tempo?! – Além do que, foi você quem escreveu, é justo que você leia.
Dei um suspiro resignado e ajeitei atrás da orelha a mesma mecha teimosa de cabelo, três vezes. Sesshoumaru inclinou a cabeça para o lado, ainda sorrindo. Ele não costuma sorrir com muita freqüência, mas acho que a minha timidez lhe parecia engraçada. "Bonitinha".
- Tá bom, mas, olha... – Eu parei, tentando organizar minhas idéias e soar com um pouco de coerência – Quando eu escrevi isso eu nem te conhecia ainda, sequer imaginava que nós íamos... Enfim, que você algum dia ia ler essas coisas, então...
- Tudo bem, Rin – Ele disse em tom conciliador, como quem não quer contrariar uma psicopata. Fiquei imaginando o quão histérica eu não devia ter soado.
Respirei profundamente, como se meus pulmões esperassem encontrar algum tipo poderoso de calmante espalhado pelo ar da sala.. Agora já era tarde demais pra fugir; Sesshoumaru era teimoso, e nunca voltava atrás, depois de pôr uma idéia naquela cabeça dura e linda. Comecei a ler a bendita carta antes que acabasse falando alguma idiotice na tentativa de me justificar.
- "Sinto a tua falta
Bem, na verdade, não. Porque 'sentir falta' não é nada. 'Sentir falta' é superficial demais, pouco demais, incompleto e inadequado. 'Sentir falta' não significa nada além do que perceber que algo não está no lugar em que deveria – no seu lugar de sempre. Viu só? Tudo errado.
Porque 'perceber' é automático, instintivo, cognitivo. Porque 'algo' pode ser qualquer coisa, banal, sem importância. Porque o teu 'lugar de sempre' nunca foi aqui comigo.
Assim sendo, acho que padeço da tua ausência; como uma doença, a tua ausência me cerca, me debilita, me derruba. Me lembra a todo o instante que tu não estás comigo, que ninguém nos associa um ao outro, que eu não posso, simplesmente, correr pra te encontrar, se eu sentir vontade – e, Deus!, como eu sinto.
Padecer que lembra martírio, tortura, mal; sofrer de dor insuportável. Ausência que é bem mais que a não-presença. Ausência é vácuo, um buraco vazio no espaço. Tua ausência é precipício.
Eu tenho medo. Tenho medo que essa dor me mate, mas não por medo da morte. Meu medo é morrer sem ver – sem realmente ver – meu rosto refletido nos teus olhos luminosos."*
Continuei olhando fixamente para o papel, quando terminei de ler. Eu tinha medo de erguer os olhos para ele e ver alguma coisa que pudesse me machucar, como desdém ou divertimento. Foi preciso reunir toda a coragem que eu tinha, e creio que um pouco da que estava guardada pro futuro, pra que eu pudesse dizer alguma coisa, e mais precisamente, alguma coisa que me expusesse por completo.
Mas, quando eu o olhei, só o que vi foi admiração. Ou mais, um certo deslumbramento que por pouco, por bem pouco mesmo, não me fez esquecer o discurso que se formava na minha cabeça. Ele me olhava como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo.
- Eu escrevia essas cartas porque, desde sempre, acho, eu me sentia apaixonada por alguém. Só que, por mais que eu olhasse à minha volta, eu nunca achava esse alguém pra quem as escrevia.
Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso.
- "Cartas"?! Tem mais?
Eu ri, me sentindo meio boba mas, por incrível que pareça, não envergonhada. Acho que sempre me sentiria boba, ao olhar para ele.
- Muitas. Essa aqui é a minha favorita, mas não a única. Algumas são patéticas, outras são deprimentes, e tem umas bem bonitinhas... E algumas delas têm o seu nome no destinatário.
Então ele sorriu. O sorriso tão raro que eu amava, com uma mistura de surpresa, convencimento e charme, dando um resultado irresistível que eu tinha o privilégio de ser uma das poucas pessoas a presenciar.
- O meu nome?
Eu assenti levemente, me sentindo um pouco dona-da-situação, mas nem por isso menos exposta. É que o jeito "convencido" dele me deixava muito lisonjeada.
- Eu me sentia apaixonada e, embora não soubesse por quem, eu tinha certeza absoluta de que iria encontrá-lo e, se não encontrasse, ele me encontraria. Dificilmente eu me envolvia com algum garoto porque, por mais doido que possa parecer, eu me sentia meio que... comprometida com "ele" – Eu ri, e senti minhas bochechas queimando por antecipação – E, quando te vi pela primeira vez, no aniversário do seu irmão, eu soube que "ele" era você. Todas as cartas eram pra você. – Passei a mexer no meu cabelo e passear os olhos pela sala, quebrando o feitiço que me prendi àqueles olhos dourados – Sei que você deve estar me achando boba e infantil, mas eu tinha que...
Então ele me puxou pelo pulso, me fazendo cair em seu colo. Me ajeitou entre os braços, acariciou meu cabelo e disse, olhando nos meus olhos, as coisas que esperei a minha vida inteira pra escutar.
- Eu gosto de você justamente porque é sonhadora e avoadinha. Não há nada nesse mundo que pague o brilho que eu vejo no seu rosto, quando fala as coisas que sente. Nada disso parece bobagem pra mim, e esteja muito certa de que, se você não tivesse me encontrado, eu encontraria você, de qualquer jeito.
Então ele me beijou, uma, duas, incontáveis vezes, e nós passamos a tarde inteira juntos, conversando frivolidades, rindo e nos beijando.
Foi nesse dia que eu comecei a compreender algumas coisas. Quando eu era mais nova, enquanto as outras meninas saíam pra se divertir e "colecionar" garotos, eu ficava escrevendo as minhas cartas bobas e sonhando com alguém que – a razão gritava pra mim – possivelmente nem existia.
Mas, sabe de uma coisa?, eu acho que às vezes vale a pena sonhar como uma garotinha bobona e sonhadora. Por quê? Bem, porque o cara mais incrível que eu já vi na vida escolheu uma garotinha boba e sonhadora, e justo a mais sem-graça das garotinhas bobas: eu. Porque eu já tenho vinte e três anos, e ele é meu primeiro namorado. Porque eu só tenho vinte e três anos, e sei que ele vai ser meu único namorado.
É. Coisas boas acontecem com as garotas que sabem esperar por elas.
Fim
* Essa carta é minha, e foi escrita para alguém especial. Podem imaginar o quanto significa pra mim compartilhar algo tão pessoal? Fiz isso porque amo vocês, amo escrever, e porque temos um laço de amizade estranho e incomum.
Não pude evitar de por um pequeno trecho de uma música do Jamie Morrison. A tradução aproximada é: "Ela (a carta) tem o meu nome escrito, e está lá, esperando por mim".
Reviews me fazem feliz!!!
XOXO
