Depois do jantar, o pessoal fez uma roda na fogueira, e cantaram músicas de acampamento, fizeram brincadeiras e tudo mais. Foi bem divertido, tenho que admitir, mas ainda estava com uma dúvida martelando na minha cabeça. O que será que aconteceu com a amiga do Luke? Será que ela morreu com algum monstro? Ou eles brigaram? Ou ela fez alguma coisa terrível que Luke nunca mais quis ver a cara dela? Hum...

Também tinha outra coisa. MINHA MÃE! Aaah! Eu preciso falar com ela, dizer onde estou e que está tudo bem e perguntar uma coisa importantíssima: quem é meu pai? Sim, quem é ele? Como ele é? Como se conheceram? As historias que ela me contava eram verdade? Ai...

Quando eu vi que algumas pessoas cansavam e iam embora, resolvi ir também, afinal, foi um dia bem maluco, e dias malucos me deixam com sono. Quando consegui escapar da roda, alguém me puxou pelo braço. Era bem forte.

- E ai Kat? - disse Carol.

- Ah! É você.

- Quem mais poderia ser? – disse ela com um sorriso sarcástico.

- Sei lá, o Luke? – falei dando de ombros.

- É, tem razão – disse pensativa – então, o que achou? – disse ela olhando ao redor.

-Que sonho... – eu disse num suspiro.

- Você tá falando do acampamento ou do Luke?

- Ah... Dos dois – falei com um sorrisinho.

- É talvez ele seja bonitinho e bem legal, mas eu tenho um mau pressentimento, quanto a ele.

- BONITINHO? BONITINHO? Tá louca?

- Ei, calma Kat... – disse Carol num tom mais baixo, colocando a mão no m eu ombro, tentando me acalmar.

- Você não vê Carol? Você não vê?

- Eu não vejo nada demais, ué.

- Humf. – Então ela virou e foi para o chalé de Apolo e eu o de Hermes. A gente brigou mais uma vez, pela coisa mais estúpida do mundo. É sempre assim. Já me acostumei, até.

A noite estava escura, como sempre, mas dessa vez se via as estrelas. Lá em New York eu não enxergava por causa das luzes, mas aqui, o céu tinha um manto de estrelas e a lua, que hoje estava crescente, quase cheia. Resolvi parar no meio do caminho para olhar. Era lindo. Perfeito, melhor dizendo.

Deitei na grama, úmida pelo sereno, mas não estava nem aí. Fiquei olhando, não sei por quanto tempo, o céu, até que vi um vulto se aproximar de mim. Não consegui ver ao certo quem era, pois estava muito escuro. Era alto, com os ombros largos, a pessoa hesitou e agachou-se no meu lado.

- Não vai ir para o chalé?- perguntou uma voz familiar. Luke, claro.

- Ahn, ok. Me ajuda a levantar aqui. – estendi os braços e ele me puxou. Fomos caminhando silenciosamente até o chalé.

Bom, silenciosamente só por fora, mas meus pensamentos gritavam sobre varias coisas. Eu pensava na velha amiga de Luke, no próprio Luke e nas estrelas.

- Quantos anos você tem, Katy? – disse ele quebrando o silêncio e minha linha de pensamento.

- ahn? 14 anos. E Você?

- 15 – então o silencio predominou novamente, até chegarmos na varanda do chalé. Lá tinha uma lâmpada acesa, bem fraca, mas iluminava o suficiente, a ponto de eu ver seu rosto. Então notei seu colar, com uma conta de argila colorida. Ele estava a um ano no acampamento.

Entramos dentro do chalé, estava uma bagunça. Tinha poucas pessoas dormindo e algumas acordadas, mas não estava nem ai. Peguei meu saco de dormir e deitei em algum lugar. Até esqueci de Luke, que por sinal foi dormir também. Assim que fechei os olhos dormi, de tão exausta e tive meus típicos sonhos sem sentido. Não, não é o que você está pensando. Normalmente não é um sonho profético, nem nada do tipo. Eu sonhava com coisas que tinham acontecido comigo durante toda minha vida, e os eventos se misturavam e formavam algo maluco. Às vezes sonhava com meu primeiro dia de aula, quando conheci Carol, ou das historias que minha mãe me contava sobre meu pai.

Dessa vez sonhei que estava andando em uma rua de Manhattan, mas estava deserta. Eu continuei andando e procurando as pessoas, cada vez mais desesperada, por não encontrar ninguém. Eu olhava para os lados, então comecei a correr. Comecei a correr como nunca havia corrido antes, até que tropecei, e cai de cara no chão. Botei a mão para tentar me apoiar, mas não deu certo, eu raspei minha bochecha esquerda, meus cotovelos e joelhos. Tentei levantar, mas não consegui. Tentei gritar por ajuda, mas não tinha ninguém lá. Então me deitei de barriga pra cima na calçada de concreto, e fiquei lá, sozinha. O dia estava ensolarado, e o sol ficava ardendo nas minhas costas, queimando no meu corpo. Fiquei lá, não sei por quanto tempo, estatelada no concreto. De repente, o sol foi tapado, então abri os olhos para ver o que era.

- Precisa de ajuda? – disse o garoto loiro de olhos azuis.

- Sim... – tentei dizer isso, mas saiu mais para um gemido de dor. Então ele ajudou-me a sentar, e tirou do bolso da calça um frasco com um líquido amarelado.

Ele passou o liquido nos meus ferimentos e eles cicatrizaram rapidinho.

- obrigada – disse eu.

- Vem cá – ele estendeu a mão e me ajudou a levantar – quero te mostrar uma coisa - Eu levantei e saímos correndo pelas ruas de Manhattan. Não corremos muito até chegar em um porto, com um único navio. Princesa de Andrômeda era o nome dele. Era bem grande e bonito. Provavelmente não era um navio de carga.

-Vamos! – disse o garoto me puxando pelo braço. Subimos no navio, e assim que entramos estava cheio de monstros de diversas espécies. Eu fiquei com medo. Muito medo.

- Calma, eles não fazem nada – disse Luke, agora com o braço em volta da minha cintura, quase me arrastando pelo navio.

Entramos em uma cabine escura, com um caixão dourado no centro. Chegamos mais perto do caixão e eu o abri. Uma aura dourado saiu do caixão, e a pessoa que estava dentro se levantou. Era outro Luke. Pera ai. Tinha um Luke do meu lado esquerdo, mas quando abri o caixão, apareceu outro Luke, indêntico ao que estava comigo. Dois Lukes. Dois.

O que estava dentro do caixão saiu de lá, e ficou em pé no meu outro lado. Espera, esse não podia ser Luke. Seus olhos não eram azuis, eram vermelhos, e seu cabelo não era loiro, era prata. Era um projeto de Luke. O Luke loiro fez uma cara de terror, ele estava apavorado. O Luke grisalho fez uma foice aparecer na sua mão direita e apontou a arma para o outro, esse estava sério, sem nenhum sentimento no rosto. Então ele fez Luke loiro virar pó.

O Luke grisalho me empurrou para o chão e apontou a foice para mim.

- O que está acontecendo? – Eu perguntei me levantando.

- Você não deveria estar aqui – vi seus olhos vermelhos reluzirem no azul que era antes, e voltando a ser vermelhos.

- Luke? Você está bem? – eu perguntei desesperada dando uns tapinhas na bochecha dele, mas ele bateu na minha mão, e eu parei.

-Não, Katy, nada está bem – ele disse aquilo, mas não era sua voz macia, aquela era uma voz rouca e demoníaca. Ele a foice ergueu na altura do meu pescoço.

- Desculpe – disse ele, mas não com aquela voz horrível, com sua voz ão encostou a foice no meu pescoço.

-Katy! Katy? – acordei super assustada com a voz de alguém, mas não abri os olhos. Sentei de susto, mas bati a testa em algo que me fez cair pra traz de novo.

- Ai! – eu disse levando a mão na testa. Sentei novamente, mas agora com mais calma e abri os olhos. A primeira coisa que vi foi Luke (por acaso esse garoto me persegue?) sentado ao lado do meu saco de dormir com a mão na testa também. Depois olhei para os lados e vi que o chalé estava vazio, a não ser pela estrema bagunça.

-Nós vamos nos atrasar para esgrima – disse Luke levantando – se arrume rápido. Eu vou esperar lá fora – ele virou de costas e foi saindo do chalé.

- Por que você não foi treinar, então? – eu perguntei quando ele estava abrindo a porta.

- Por que alguém precisava acordar você – disse ele dando um sorriso com os incríveis dentes brancos, Então se virou de novo e sai fechando a porta.

Assim que ele saiu, examinei o local, pensando na primeira coisa que deveria fazer. Troquei de roupa pelas que tinha pego na lojinha do acampamento, penteei o cabelo com uma escova que encontrei no chalé. Fiquei com um pouco de nojo, pois nem sabia de quem era, mas é melhor pentear o cabelo com a escova de alguém, do que não pentear.

Abri a porta do chalé, olhei para o céu e respirei fundo. Estava louca pra começar o treino. Olhei um pouco mais pra baixo e vi na escada da varanda Luke e uma garotinha bem menor que ele sentada ao lado. De costas, pelo menos, ela parecia ter seis ou sete anos. Tinha os cabelos loiros e cacheados presos em um rabo.

Luke percebeu que eu tinha saído e levantou.

-Vamos? – ele disse olhando pra mim e eu assenti. A menina também se levantou e virou-se para mim. Ela tinha incríveis olhos cinza tempestuosos. Por acaso era a...?

-Oi – eu disse tentando ser simpática, afinal, preciso fazer amigos no acampamento, né?

-Quem é ela? – disse a garotinha apontando pra mim.

- Ah, essa é Katy, é nova aqui – explicou para ela - Katy essa é Annabeth, minha amiga.

- Ann.. Anna... – eu fiquei muito surpresa por estar conhecendo ela! Puxa, será que o Percy também esta por ai? Haha.

-Annabeth – disse me corrigindo – Annabeth Chase.

- Que nome lindo – eu disse caprichando no sorriso.

-Vamos indo Katy? – nossa, tinha até esquecido que Luke estava ali...

- Ahn? Tá – disse - Agente se vê Annie – abanei pra ela, então eu e Luke seguimos para a Arena.

- Até – disse ela, e saiu correndo para os campos de morango.

- Luke, depois eu quero, aliás, - disse me virando para ele- eu preciso falar com minha mãe – encarei-o no fundo dos olhos, mas ele não abriu mão do sorrisinho de anjo.

- Ok, depois do treino vamos na casa Grande, acho que lá tem telefone, ou você pode pedir emprestado para um campista, acho que a Carol tem – disse dando de ombros – mas agora vamos, já estamos atrasados – ele se virou e começou a correr. Eu o acompanhei, mesmo estando muito atrás dele. É, ele é bem rápido.

Chegamos na arena, eu arfando, e ele como se não tivesse feito nada.

-Ok, – ele se virou para mim novamente – acho que essa armadura serve em você – ele me alcançou o negócio e colocou a dele – Pegue essa espada e fale com o instrutor, eu vou lá – Luke pegou uma espada no chão e foi para fora daquela salinha. Eu fiquei tentando achar onde é que eu tinha que enfiar a cabeça naquele troço.

- Isso! – exclamei – achei o fim. Tá, agora vamos com essa espada, hã! Sim, sim Katy, chegou a hora de lutar – peguei a espada da mesinha, mas deixei-a cair no chão – Ai! Como é que querem que eu lute com esse treco? É muito pesado! – segurei a espada com a mão direita e sai de lá, pelo mesmo lugar que Luke havia saído, arrastando-a.

Abri a porta com a mão esquerda, cuidando para não deixar a espada escapar. Olhei em volta, agora a luz irradiava-me, então segui arrastando a espada. Lá tinha todos os campistas que estavam alojados na cabana de Hermes, lutando juntos. Tinha uma garota, que nunca tinha visto antes, que não estava lutando. Ela só observava, e às vezes dizia alguma ordem a eles. Acho que é o instrutor. Ela tinha a pele branca e os cabelos castanhos claros. Uma coisa me assustou muito. Um dos campistas estava caindo no chão, ela simplesmente levantou um pouco o braço, e uma trepadeira se ergueu, servindo de apoio para o garoto, e não permitindo ele cair no chão.

Resolvi me aproximar, para começar a aprender uns truques e sei lá mais o que, ou pelo menos conseguir segurar uma espada. A garota notou minha presença e se aproximou, dando um sorriso amigável.

- oi. Você deve ser Katy, não é? – disse ela estendendo a mão direita na minha direção – Prazer, Nicole – eu apertei a mão dela.

- Prazer.

- Então, Katy, sabe alguma coisa? – disse, dirigindo o olhar para minha mão que estava segurando a espada.

- Hã... Não – disse dando um sorriso amarelo – essas espadas são muito pesadas.

- Por enquanto, pois você provavelmente não está em forma, – ela pegou uma espada da armadura e estendeu para mim – aqui, essa é mais leve. Vamos treinar juntas até semana que vem, daí você já vai ter uma ideia de como é, e vai começar a lutar com eles, ok? – disse Nicole e eu assenti.

Então ela me ensinou várias coisas. Eu aprendi, finalmente, como segurar uma espada, aprendi algumas maneiras de me defender também. Eu gostei da Nicole, ela é bem ativa, não para um minuto de falar. Agora já sabia metade da vida dela, sendo que a conheço há meia hora e pouco. Ela tem 16 anos, está a cinco anos no acampamento, mas está pensando em retomar os estudos ano que vem, ela saiu da escola no meio do primeiro ano do ensino médio, mas o resto eu não prestei muita atenção. Notei que os olhos dela são castanho claro, cor de mel, e pelas coisas estranhas que ela fazia, como fazer as plantas surgirem do chão, deduzi que ela é filha de Deméter.

O treino deve ter durado em média de uma hora. Quando acabou, me despedi de Nicole e andei até a salinha com armaduras e espadas e coisas assim. Abri a porta e a peça estava cheia de gente tirando as armaduras e largando as espadas. Eca!Tinha um monte de gente suada e fedida, que até tranquei a respiração, mas não durou por muito tempo. Aos poucos o local foi se esvaziando, até que só fiquei eu. Tirei a armadura com calma, e depois larguei a espada na mesinha que ficava no canto. Saí de lá suada e grudenta, louca para um banho. Já que Luke me abandonara, resolvi procurar o banheiro sozinha. Dei uns dois passos e cai no chão. Não vi o que me acertou, só senti algo em cima de mim.

- Oi Katy! - #%*#~!

- Oi Carol – disse azeda.

- Como tá indo seu primeiro dia? – falou minha querida amiga, saindo de cima de mim.

- Legal – eu disse enquanto tentava sentar, mas desisti por que estava muito cansada.

- O que tava fazendo agora? Arco e flecha? Canoagem? O que? – ela se levantou e estendeu a mão para me ajudar a levantar, mas fingi não ter percebido e levantei sozinha.

- Ai, calma. Primeiro você se atira em cima de mim, depois fica me fazendo um questionário! Eu estava na esgrima, ok? Agora vou tomar banho – disse me virando de costas pra ela e andando.

- O vestiário é pro outro lado – ela apontou pro seu lado esquerdo.

- É eu sabia – me virei de novo, mas dessa vez saí correndo. Eu não estava a fim de falar com ela. Precisava urgente de um banho e falar com minha mãe. Ok, eu fui meio grossa. Só um pouquinho. É.

Tomei banho e me troquei, já que Luke ainda não tinha reaparecido para me "guiar", resolvi cuidar eu mesma da minha vida. Fui para a casa grande telefonar para minha mãe, que por sinal estava muito assustada.

- Alô? – disse minha mãe atendendo o telefone.

- Mãe? Ah, mamãe! Que saudade! Eu tenho tanto que falar! E você tem muito que me explicar, não é?

- Katy? Querida, é você?

- Sim, mãe, so...

- Onde você está? – disse me interrompendo.

- Calma, estou b...

- Está bem? Com quem está? Katarina Days! Responda!

-Mãe, calma... Só vou conseguir falar se você parar de perguntar.

- Tá, tá, parei – mesmo ela tendo parado de falar, eu sentia a euforia dela por traz do telefone.

- Ok, não surte.

- Prometo – Será que ela não vai parar de me interromper?

- Tá. Ontem, eu e Carol fomos atacadas por um mino...

- MINOTAURO? Querida, você está bem?

- Lembra-se mamãe, não surtar... – disse eu na mais calma voz possível.

- Ok, ok, desculpe. Continue, por favor.

- Tá, daí ela me levou pro acampamento meio-sangue, e só agora...

- Que você se lembrou de ligar para sua mãe?

- Não, mãe, não é isso. Nós chegamos ontem de noite aqui, então eu só comi e fui dormir, pois estava muito cansada...

- E o seu celular? Eu não te dei um celular?

- Eu... A Carol quebrou... M-mas foi sem querer! – disse tentando não sujar o nome da amiga – e mesmo antes, eu não poderia ligar para você, atrai monstros.

- Ok, ok. Mas você está bem, né?

- Ótima.

- Então tá. Você vai voltar para a escola?

- Ah mamãe... Qual é? Estamos na última semana. Aqueles dias em que a escola dá a mais pra completar o ano letivo. As provas finais já passaram, uma hora ou outra eu viria para cá...

- Ok, mas depois das férias de verão você volta a estudar?

-Sim, sim, claro. Agora vou desligar. Meu próximo treino é arco e flecha. Vamos ver se eu me dou bem nesse...

- Tenho certeza que vai!Tchau querida, te amo.

- Tchau, também te amo! – então desliguei o telefone.

Quando estava saindo da casa, resolvi olhar a hora, pra ver se dava tempo de ver o resto do acampamento.

- Hmm... O treino começa depois do almoço. Ok. Tenho meia hora. – sai correndo porta a fora, fui direto na direção da colina do pinheiro. A vista de lá era linda, e agora eu teria tempo de apreciar.

Fui atravessando os campos de morangos, cuidando para não pisar em nada. Vi Nicole e suas meias irmãs fazendo as plantas crescerem e os moranguinhos brotarem. Será que eu era filha de Deméter? Talvez eu pudesse fazer essas coisas. Ué, não custas tentar...

Parei de correr no meio dos morangos e me agachei. Estendi uma das mãos e fechei os olhos, concentrando toda minha atenção naquilo. Fiquei assim por algum tempinho e abri os olhos. Nada tinha acontecido. Tentei de novo, mas não deu certo também, então desisti. Levantei e voltei a correr para a colina.

Passei na frente do bosque e da praia, ainda correndo. Depois que casasse de ficar iria pra praia, se sobrasse tempo.

Cheguei na colina e me apoiei nos meus joelhos para respirar. Estava exausta, mesmo não sendo tão longe assim de onde eu vim. Eu estava fora de forma, só isso.

Assim que tomei fôlego, fiquei ereta e comecei a olhar a vista. Vi as plantações de morangos, as cabanas, a fogueira apagada, a praia, a floresta, os campistas treinando e voando nos pégasos. Era tão hipnotizante que nem notei quando sentei na grama e encostei-me na árvore. Olhei tanto tudo aquilo que cheguei a cochilar, debaixo da sombra do pinheiro.

Dessa vez meu sonho não foi nada que me aconteceu até agora, aliás, as únicas coisas que reconheci nele foram Annabeth e Luke. Eles, uma garota punk e um sátiro estavam subindo uma das colinas que ficavam na frente da do acampamento. O sátiro carregava Annabeth, que estava dormindo, na frente de Luke e da garota. Ela estava com uma camisetona do Linkin Park e um short jeans até o joelho com um all star preto e maquiagem bem pesada. Ela estava segurando um escudo, com a figura da Medusa, e uma espada de bronze celestial. Eu juro que nunca havia visto ela na minha vida.

Eles estavam subindo a colina, pareciam bem cansados, com alguns cortes visíveis no corpo, sujos e suados. Luke arrastava uma mochila que provavelmente já foi cinza, mas agora estava enlameada, e na outra mão uma espada.

O sátiro começou a olhar ao redor assustado, cheirando o ar.

- Annabeth, acorde – a menina acordou e levantou a cabeça para o animal que a carregava.

-Ahn? – O menino bode largou-a no chão.

-Vamos gente! Monstros! Rápido! – ele pegou a mão de Annabeth e começou a correr descendo a colina, para poder finalmente subir a do acampamento – é lá! Vamos!

-Quantos deles? – perguntou a punkizinha falando pela primeira vez, agora bem mais agitada.

- Sete. As três fúrias, dois cães infernais, a Hydra e o minotauro. Vamos rápido! – o bode pegou Annabeth no colo e começou a correr, deixando Luke e a menina para traz, ela ficou paralisada, assustada.

- Thalia? Vamos! Estamos perto agora! – disse Luke puxando-a pelo pulso.

- Não dá mais tempo, Luke – disse a garota, continuando parada – já consigo ouvi-los. E isso tudo culpa minha.

- Ah, qual é Thalia? Vamos – disse tentando puxá-la denovo.

- Venham seus loucos! – gritou o bode lá do topo da colina.

Luke agarrou Thalia pelos braços e começou a forçá-la a andar até a colina, mas ele foi interrompido por uma das cabeças da Hydra, que puxou a garota para cima, que gritava, agora provavelmente arrependida por ter resistido de subir no morro. Estão o minotauro desceu correndo a outra colina e investiu no Luke, jogando-o em uma árvore. Ele desmaiou, e o minotauro foi investir mais uma vez contra ele, mas uma flecha o atingiu bem no coração. O sátiro desceu a colina meio-sangue correndo com o arco na mão e quando a Hydra estava abrindo a boca para engolir Thalia, ele atirou uma flecha que a transformou em pó, e Thalia caiu, de uma altura enorme, de costas. Annabeth desceu a colina para ajudar os amigos.

-Annabeth, fique aí em cima! – gritou o bode – não saia daí! – mas a garotinha não o obedeceu, saiu correndo e foi direto onde estava Luke, ainda inconsciente. Ela começou a arrastar o seu corpo, mas duas fúrias apareceram de trás da árvore e a derrubaram no chão. Annabeth sacou rapidamente sua faca e acertou uma fúria no peito, enquanto a outra ia para o corpo de Luke. Ela chegou vagarosamente por trás dela e atravessou a faca nas costas dela, na altura do umbigo. A fúria se transformou em pó. Annabeth ficou observando o monstro se dissolver na sua frente. A terceira fúria saiu com um pulo de trás da mesma árvore e se atirou por cima dela, mordendo o braço dela, mas antes que pudesse arrancá-lo, o bode atirou outra flecha, que atingiu-a na nuca. Isso não a transformou em pó, só a destraiu por tempo o suficiente de Annabeth fugir gritando, deixando o corpo de Luke para traz. A fúria virou-se para o sátiro, com um olhar intimidador, mostrando as presas, ele preparou mais uma flecha, mas a fúria saltou por cima dele. O bode levou um susto, por que ele não estava realmente perto do monstro, então fez uma coisa que me surpreendeu, ele recuou um pouco, fechou os olhos, apertando-os e apontou a flecha para frente, como se fosse uma lança. Exatamente como eu fiz. Estranho. A fúria bateu diretamente com o peito na ponta da flecha, e em uma fração de segundos se tornou pó, como os outros.

- Annabeth! Venha cá, rápido! – disse o sátiro – ainda não acabou, temos mais dois cães infernais pela frente, eles chegam daqui alguns minutos.

- O que vamos fazer, Grover? - disse a menininha se aproximando, já aos prantos.

- Calma – Grover colocou a mão no ombro de Annabeth, para acalmá-la – se eu levar Luke e você Thalia, conseguiremos chegar no acampamento!

- Eba! – disse ela correndo para o corpo de Thalia, ainda inconsciente.

- Grover? Ann... Annabeth? – Grover virou a cabeça, para ver quem o chamava. Luke estava se sentando, ainda meio atordoado – O que aconteceu?

- Você bateu a cabeça, cara – o sátiro ajudou-o a levantar – Vamos, falta pouco, só temos que subir a colina, e estaremos lá – Luke passou um dos braços pelo pescoço de Grover, ainda estava tonto e precisava de ajuda para andar.

Annabeth estava tentando arrastar Thalia pelo pé, mas era muito fraca para levar o peso de Thalia.

- Grover! Luke! Preciso de... de ajuda – então largou o pé de Thalia – ela é muito pesada!

- Já vamos Annabeth! – gritou Luke já no topo da colina. Estava sentado bebendo néctar. Luke começou a se levantar, mas Grover não permitiu.

- Fique aí, você está muito fraco, eu vou lá sozinho.

- Mas, Grover...

- Fique. Aí. – Disse o bode interrompendo Luke. Grover desceu galopando a colina na direção de Thalia.

- Obrigada Grover – disse Annabeth, virando-se para Grover, de costas para a floresta.

- Grover? O que aconteceu? – disse olhando estranho para ele, pois Grover arregalara os olhos e estava olhando por cima do ombro de Annabeth.

- Annabeth, cuidado! – dois cães infernais surgiram da floresta saltando em cima do corpo de Thalia. Se não fosse por Grover, um deles teria esmagado Annabeth, mas ele atirou-se nela, desviando-a dos monstros.

-Thalia! – Luke berrou do topo da montanha. Ele levantou em uma fração de segundos e desceu a colina, correndo o mais rápido o possível. Chegou na parte plana, mas não parou de correr, sacou a espada e se atirou em cima do primeiro cão infernal. Ele montou nas costas dele e cravou a espada. O cão uivou e se desfez em pó. Luke ia cair no chão, mas o outro monstro segurou-o pela canela, deixando-o de cabeça para baixo. A espada de Luke caiu no chão.

- Não! Ah... – gemeu, pois sua perna estava sendo rasgada pelos dentes do bicho. Grover empurrou Annabeth para traz e começou a tocar uma música desafinada com aquela flautinha. Pequenas trepadeiras nasceram do chão, e se enroscaram nas patas do cão, mas ele se desfez delas rápido. Luke ainda estava pendurado, tentando alcançar a espada dele no chão, mas estava muito distante.

-Annabeth! A espada! – Mas nem deu tempo de Annabeth se mexer, o cão infernal abriu a boca, deixando Luke cair de cabeça no chão. – Aah!

- Ahn? – disse Thalia acordando do tombo. E que tombo!

- Thalia? – falaram os três ao mesmo tempo, olhando para ela, deitada atrás do cão infernal. O monstro virou-se e se jogou pra cima dela.

- Thalia! – Gritou Annabeth jogando a faca no cão. O punhal acertou-o nas costas, mas não causou nada. Luke juntou a espada do chão e pulou no bicho, cravando-a no crânio do animal, e transformando-o em pó. Mas era tarde demais. Thalia havia morrido. Em volta de Thalia tinha uma poça de sangue e ela estava pálida.

- Tha...lia? – Luke começou a se aproximar cuidadosamente, agachou-se do lado dela e ficou fitando-a, até se dar conta do acontecido. Grover e Annabeth se aproximaram também, mas ficaram atrás de Luke.

- Luke? – falou Annabeth cautelosamente. Luke virou a cara para eles, os olhos vermelhos e cheios de água, o rosto pálido.

- Vamos levá-la para o acampamento – disse Grover – talvez Quíron possa fazer algo.

- Não há o que fazer – disse Annabeth com os olhos inchados e vermelhos, e lágrimas escorrendo pelo seu rosto – ela está morta – anunciou.

- Mas vamos lá, vamos fazer uma homenagem a ela. Queimar sua mortalha.

- Vamos – disse Luke, em um tom de ordem, se levantando e limpando as lagrimas do rosto – Ela merece – então pegou o corpo da menina, pouco se importando por estar cheio de sangue.

Os três subiram a colina do acampamento em um silêncio mortal, a não ser pelo choro de Annabeth. Ao chegarem ao topo, Luke largou o corpo de Thalia na grama, e ajoelhou-se do lado dela. Quando Thalia tocou no chão, começaram a nascer plantinhas em volta de seu corpo, que começaram a envolvê-la, puxando o corpo para baixo da terra. Luke ficou olhando aquilo como se fosse a coisa mais natural do mundo, enquanto os outros se apavoraram.

- O que está acontecendo? – perguntou Annabeth.

- Luke! Tire ela já daí! – ordenou Grover, mas Luke continuou olhar Thalia sumindo para baixo da terra, como se ele não estivesse dentro de si.

Aos poucos o corpo de Thalia foi sumindo, e os outros aderindo a tranquilidade de Luke. Assim que o corpo de Thalia sumiu, uma plantinha brotou no lugar, que continuou crescendo, até se tornar um pinheiro. O pinheiro onde eu estava cochilando. O pinheiro Thalia.

desculpem o atraso gente... mas ta ai um capítulo gigantescamente grande com 4.901 palavras :D

Obrigada pelas reviews! mas eu queros mais...