Acordei com o sol na minha cara, o que me deu muita agonia. Eu adoro o sol, mas não gosto de acordar com ele na minha cara. Abri os olhos, e vi que ainda estava debaixo do pinheiro, e que aquilo foi só um sonho.

- Então, acordou? – perguntou alguém no meu lado, cujo não conseguia ver, pois meu cabelo tapava. Era Luke. Tinha certeza, só pela voz.

- Não, eu ressuscitei – disse sarcástica. A piada foi tão horrível que Luke nem se quer disfarçou dando uma risada sem jeito, ou sei lá. Então botei meu cabelo para traz da orelha para poder vê-lo. Ele estava sentado apoiado na árvore e com as pernas esticadas na frente. Estava olhando o acampamento com a testa franzida.

- Ei, que horas são? – perguntei a ele.

- Hã... Deve faltar uma meia hora para o almoço – disse ele ficando de pé – vamos, ainda não te mostrei o acampamento inteiro – ele se virou para mim e estendeu a mão para me ajudar a levantar. Eu peguei na mão dele e ele me puxou, assim que firmei os pés no chão, me lembrei de onde estava. Acampamento meio-sangue. Sim, ACAMPAMENTO MEIO-SAGUE!

- Aaah! – comecei a dar uns gritinhos e pulinhos e risinhos, ou qualquer coisa que termine com "inho". Pois é, lá estava eu, no topo da colina do acampamento, com Luke ao meu lado, dando pulinhos de alegria. Não existe mico maior. Tá, existe sim, mas, sério, eu tenho problemas. Além de ser semideusa, também sou louca da cabeça. Eu falo sozinha, canto sozinha (pelo menos eu canto bem, muito bem), desenho criaturas loucas e inexistentes (bom, agora descobri que algumas são reais) e invento histórias de coisas nada a ver, tipo dimensões diferentes onde as pessoas voam, ou fazem coisas estranhas e impossíveis. Mas o que eu posso fazer? Eu sou assim.

- O que houve? – Luke me perguntou olhando com uma cara estranha.

- estou no acampamento meio-sangue! – Falei parando de saltar e empinando o nariz com orgulho.

- Jura? – disse irônico – Achei que estivéssemos em Paris – Luke revirou os olhos – Vamos, falta pouco pro almoço, mas ainda dá tempo de ir em algum lugar. Onde você quer ir?

- Hum... – botei a mão no meu queixo, pensativa, fingindo ter um cavanhaque – Vamos à praia! – uhu, ideia brilhante, Katy. Eu adoro ir à praia, tomar banho de sol e mar. Adoooro! Hehe.

- Então vamos – disse ele descendo correndo o morro, comigo bem atrás. Passamos pelos chalés, o treino de arco e flecha, os campos de morango. Enfim entramos na floresta, onde encontramos uma criatura familiar. Não, não era um monstro. Era um bode. Bem, pelo menos metade bode. Era um sátiro, o sátiro do meu sonho, só que agora os cabelos ruivos e cacheados estavam maiores, e a barba aparecia mais.

- E ai, Luke? – disse o bode dando um tapinha nas costas de Luke. – Quem é essa ai? – disse ele dando um olhar malicioso para o amigo, mas Luke não mudou sua expressão: um verdadeiro sorriso "colgate".

- Ah, Grover, essa é minha amiga, Katy – disse ele me mostrando para Grover – e Katy, esse é Grover. – eu já conheço seu amigo, bem ele pode não me conhecer, mas eu o conheço. Era o que eu queria dizer, mas não estava a fim de dar explicações a Luke.

- Prazer – disse Grover estendendo a mão e apertando a minha, com um sorriso, que não era tão fabuloso quanto o de Luke, mas em uma escala de 1 a 10, ele recebe... hã... 6. Acho que o cara estava dando em cima de mim. Eca! Ele é metade bode.

- O prazer é todo meu – disse devolvendo o sorriso – Hã... vamos Luke? – olhei para Luke, que pelo jeito não tinha gostado muito da atitude de Grover. Acho que aquela de dar em cima de mim. Eba. – Quer vir junto, Grover? – perguntei, só pra provocá-lo.

- Ah, eu iria, mas tenho que falar com Quíron, agora. Até mais – então saiu trotando com os cascos de bode fazendo aquele barulho de quando bodes galopam. Isso é muito estranho. Metade humano, metade cabrito. Tá, não é um cabrito, é um bode, mas pra mim dá no mesmo.

- O que você disse Katy? – Luke virou-se para mim, com uma cara de "você é louca ou o que?". Já estou acostumada com isso, as pessoas fazem essa cara pra mim quando eu... falo sozinha. Ah, Katy! Falando sozinha de novo? Que saco, quando vou parar com esse vício?

- Eu disse alguma coisa? – Perguntei com a cara "pelo jeito você não é só louco, mas surdo também". Ok, não existe uma expressão pra isso, mas eu acabei de inventar.

- Eu... eu acho que sim. – então ele começou a encarar o chão com uma cara de "é, o louco aqui sou eu". Tá vou parar de inventar nome para as expressões das pessoas.

- Tá, tanto faz, vamos logo – puxei-o pela manga da camiseta, até que ele desviou os olhos do chão – Vamos? – olhei para ele no fundo dos olhos, até me perder naquele azul lindo-perfeito-maravilhoso. Ele mexeu a cabeça, como se quisesse espantar os pensamentos.

- Vamos. – então nós fomos, mas dessa vez andando como pessoas civilizadas. Graças a Deus. Aliás, aos deuses. Eu não aguentava mais correr.

Andamos mais um pouco, desviando de galhos e raízes. Para não tropeçar ficava olhando o chão o tempo inteiro, e pra saber que direção seguir fiquei segurando a ponta da camiseta de Luke. Ele estava indo um pouco rápido demais pra mim, tanto é que quando ele parou, eu bati a testa nas costas dele.

- ai. – falei cochichando pra mim mesma, mas não foi um cochicho tão baixo assim. Bem, ele ouviu, tanto é que deu uma risadinha. Ele puxou algumas folhagens que estavam atrapalhando o nosso caminho. Assim que começou a afastá-las, muita luz entrou no local, por que a floresta estava cheia de sombra e tal, mas lá fora estava com um sol enorme que nossa! Ok, o sol estava do mesmo tamanho que sempre, mas deu a impressão de maior, porque fez contraste com o escuro. Bom, na verdade eu nem consegui ver o tamanha do sol, só a luz, por que tinha alguém super alto e com os ombros largos na minha frente. Ombros largos muito sexys, pra falar a verdade. Ok, não me leve a sério, eu sou muito sem noção. Tá, tá, era um pouquinho sexy... Ah, que saco! Para de pensar nisso!

- Katy? Kaaaty? – disse Luke já de frente para mim passando a mão direita na frente da minha cara algumas vezes. Dispersei da minha hipnose, desviando meu olhar da barriga tanquinho bem definida que marcava na camiseta dele. Olhei pra cima, pro seu rosto, que agora estava com um sorriso de lado e os olhos azuis brilhando. Sério, ele é muito gato. Muito. Mesmo. De mais. Tá parei.

-Katy? – dessa vez ele botou as duas mãos nos meus ombros e me chacoalhou devagarzinho.

-sim? – falei bem bobinha.

- Vamos? – disse apontando pra praia.

- Ah, claro, claro. Vamos – dei uma empurradinha nas costas dele, e ele foi andando pra fora da floresta.

Assim que saímos ele ficou apertando os olhos por causa do sol, mas eu não senti necessidade de fazer o mesmo. Subimos as dunas, que não eram muito altas, até dava pra ver o mar antes de subi-las. Quando descemos estava ventando um pouquinho, a ponto de esculhambar meu cabelo, que por acaso já é esculhambado, principalmente agora que estava preso em um rabo de cavalo torto. Ah, quem liga? Tá, eu ligo, mas nesse momento resolvi não me incomodar por causa disso.

- Então, o que você quer ver aqui na praia? – disse Luke, super escabelado também. Mas tinha um problema: ele ficava bonito escabelado, eu não.

- Não sei, sinceramente, não sei.

- Então quer volt...

- Não! – falei interrompendo-o – ah, desculpa. É que eu gosto de ficar aqui.

- Por quê? – agora ele tinha se virado para mim.

- Sei lá. É legal. Eu gosto do mar, e do sol... e da areia...e...e... sei lá – gaguejei. Agora estava forçando a vista para olhar pro sol. Eu sei que isso faz mal pros meus olhos, mas eu acho legal tentar olhar. É, eu sou um pouco masoquista

- Hã. Ei... Você está... ficando vermelha – desviei o olhar do sol e fiquei piscando, pra passar a dor nos olhos.

- Como? – falei incrédula.

- Ficando... ve-vermelha – olhei para os meus braços, pra mim estavam na cor natural – não no corpo, na cara – coloquei a mão na minha testa pra ver a minha temperatura. Pra mim estava normal, mas pra falar a verdade estava morrendo de calor.

Luke botou a mão na minha testa, mas tirou rapidamente, como se tivesse se queimado.

-Nossa! Você está quente! – disse sacudindo a mão – Katy, você está... – mas não deu tempo dele terminar a frase, eu entrei em pânico e comecei a tirar meus tênis – Kat, que diabos você está fazendo? – tirei os tênis, e assim que coloquei os pés no chão senti queimar, então fui correndo e mergulhei no mar. Quando entrei na água ela estava gelada, mas não durou muito tempo assim, depois de alguns segundos ela já ficou quente.

-Katy! Tá louca? Essa água tá gelada – gritou Luke correndo em minha direção, mas sem entrar no mar – Katy...

- Sim? – falei, ainda dentro da água.

- Acho... Acho que você é filha de Apolo.

-Por quê? – perguntei, agora saindo do mar, mas ainda estava com muito calor.

-Receio que seja o símbolo de Apolo girando em cima da sua cabeça – então apontou para mim. Olhei pra cima, e vi um sol com algumas notas musicais em volta dele, mas logo desapareceu num clarão.

- Mas... mas então quer dizer que sou...

-meia-irmã de Carol – falou ele pasmo.