VII.

- Não olhe ainda. – ele advertiu enquanto a guiava.

Ao longe ouviam cantigas natalinas. As pessoas de Godric's Hollow começavam a comemorar o natal cedo, de fato, e o vilarejo já estava todo decorado, mas não naquela parte onde Harry a guiava. Ali um feitiço de impertubabilidade mantinha as pessoas afastadas, mas isso tinha sido necessário enquanto a reforma durara.

- Onde estamos?

- Pode olhar. – ele disse.

Gina piscou para um enorme jardim através de um portão de ferro aberto. O gramado era fofo, as árvores eram antigas e havia um ar de liberdade e selvageria na assimetria com que as plantas se dispunham ao longo do caminho que se estendia à frente. Ela ergueu um pouco a cabeça e viu uma linda casa de aparência antiga, mas completamente restaurada, pintada num tom perolado. As portas e janelas tinham forma de arco e os dois andares superiores mostravam belas e amplas sacadas.

- Uau – ela ofegou, então viu a placa ao lado do portão e engasgou – essa é... essa é...

- A antiga casa dos meus pais, sim. – disse com satisfação.

- Mas ela estava destruída, não estava?

- Eu a consertei. O que você acha?

- É isso o que vem fazendo por esse tempo que anda sumido?

- Sim.

- Você fez um bom trabalho. – avaliou, cuidadosamente.

- Venha, vamos ver lá dentro.

Harry tinha mantido o máximo possível do que Voldemort não destruíra. E durante aquilo, também tinha podido reviver algumas partes de Lilian e Tiago das quais nunca tivera acesso. Álbuns de família, objetos pessoais, seus brinquedos antigos, um velho piano na sala de estar – tudo o ajudara a reconstruir o dia a dia que fora tomado de si, e isso lhe tinha aproximado dos pais como nunca e surpreendente acalmara algo em seu coração. Ele tinha desenvolvido uma forte afeição pela casa, e descobrira que andar pelos seus corredores, tomar café em sua cozinha e sentar no sofá da sala não era doloroso porque, antes de seus pais terem morrido ali, eles tinham sido felizes, e os seus avós antes deles, e para a sua surpresa, até mesmo o seu ancestral Ignotius Perevell tinha morado ali.

Após mostrar para Gina os cômodos eles foram para uma sala aconchegante do segundo andar, que era como uma biblioteca da família e tinha uma grande vidraça numa das paredes, por onde dava para ver o fundo do quintal cheio de árvores e com uma mesa de piquenique encravada na grama.

- Ela é incrível, Harry – Gina disse por fim – Você pretende ficar?

- Eu imagino que sim. Mas é uma casa... muito grande, você sabe.

- Ah, é. Talvez você se sentisse solitário. Se bem que, eu tenho certeza, Rony e Hermione vão viver aqui lhe visitando.

- Eu acho que isso não é o bastante.

- O que mais você poderia querer? - ela brincou, brincando com o fato de Rony e Hermione ultimamente não serem as melhores companhias, porque, ou estavam grudados um no outro, ou porque estavam brigando sobre canapés e vestes para o casamento.

O silencio de Harry a fez virar-se para ele, e ele se inclinou para frente, a beijando. Harry tinha decidido que, acima da sua timidez e insegurança, ele precisava sentir os lábios de Gina outra vez e talvez aquela fosse a única maneira de saber se a 'coisa' que tinha sido tão forte entre eles antes ainda existia. Pelo forte puxão que ele sentiu no baixo ventre, ele soube que ainda estava ali. Ela se afastou ofegando e vermelha.

- Harry!

- Desculpe. – disse sem conseguir não sorrir ou parecer arrependido. – o que eu estava dizendo, Gina, era... você se vê aqui?

- O quê? - ela piscou, confusa.

- Aqui, nessa casa, comigo, você pode se ver desta maneira? Almoçando comigo na mesa do jardim, durante domingos quentes, ou acordando pela manhã e sendo eu a primeira pessoa que vê?

- Ah, Harry, eu... – mais que sem palavras, Gina parecia sem ar.

- Você não precisa responder agora, realmente. Acho que você deveria pensar sobre, primeiro. E então, daqui há uns meses, ou anos...

- Você sabe – ela o interrompeu – que depois desse ano, ainda ficarei mais um em Hogwarts.

- Sim. Eu esperaria por você.

O rosto dela pareceu atingir o tom máximo de vermelho. Ela cobriu a boca com as mãos, mas os olhos castanhos e cheios de água disseram tudo a Harry e o jovem a trouxe para seu abraço apertado beijando o topo da cabeça ruiva, também a sua emotividade aflorando sem aviso por detrás dos óculos de aros redondos.

(continua...)