Inteligente e a disposição de um relacionamento íntimo e... discreto...
VI Capítulo
Era final de domingo quando os Amamiyas deixaram o hotel junto com o escritor. Entraram no carro de um mal humorado Ikki que não cansava de reclamar de tudo; mas o virginiano estava de bom humor, seguia conversando com Shun o tempo inteiro e admirando a paisagem pela janela do veículo. Fizeram uma viagem muito agradável de volta a Tóquio e aproveitaram a noite de domingo ainda passeando pelo cais e jantando num restaurante a beira mar.
Quando se acharam muito cansados, resolveram voltar para casa. O moreno coçou a cabeça com uma expressão incomodada que Shaka já conhecia bem.
- O que foi, Ikki?
- Você se incomodaria se eu dormisse fora, hoje? – perguntou baixinho, fugindo dos curiosos ouvidos pré-adolescentes de Shun.
- Claro que não. – falou o indiano.
- Ok. – respondeu o mais jovem e se voltou para o irmão – Vamos pra casa, Shun? Deixarei o Shaka em casa e depois vamos para o meu apartamento. Amanhã tenho que deixá-lo cedo na escola.
- Já? – reclamou o menino – Nii-chan, o final de semana passou tão rápido!
- Teremos outros! – o moreno afagou os cabelos castanhos do irmão e abriu a porta do carro para que ele entrasse. Shaka fez o mesmo e seguiram para a casa do escritor.
- Uau! Que prédio legal, Shaka! – falou Shun olhando a fachada.
- Obrigado... – falou o loiro saindo do carro e se aproximando da janela do motorista.
Trocaram um olhar incerto e apaixonado.
- Então... te vejo amanhã... – falou Ikki e Shaka apenas assentiu com a cabeça.
- Por que vocês não se beijam, hein? – perguntou Shun colocando a cabeça para o lado de fora pela janela traseira do carro.
- Cala a boca, moleque! – falou Ikki coradinho e Shaka riu não menos corado.
- Shun, eu e seu irmão somos só amigos... – falou sem jeito.
- Me engana que eu gosto! – riu o menino – Tchau Shaka, foi um prazer voltar a vê-lo!
- Igualmente, Shun... – falou o escritor caminhando para dentro do prédio. Ikki esperou que ele entrasse e então deu partida no carro.
Shaka girou a chave na fechadura; riu ao pensar que no Japão em meio a toda a sua modernidade, conseguira encontrar um apartamento normal, aonde ainda se usa chave para abrir portas. Estranhou; não estava trancada e ele jurara...
- Oi, Shaka...
Quase caiu pra trás ao escutar a voz de Saga na penumbra da sala. Tratou de acender a luz.
- O que você está fazendo aqui no escuro? Enlouqueceu? como você entrou?
O grego riu.
- Uma pergunta de cada vez. Primeiro, estava esperando você, segundo, não enlouqueci e terceiro, o Milo me emprestou a chave...
Shaka ficou boquiaberto, um dia ainda mataria todos eles.
- E posso saber o que você está fazendo aqui? – perguntou cruzando os braços, confuso. Conhecia bem Saga, ele não era assim, nunca invadiria sua privacidade daquele jeito, então...
- Shaka, tentei falar com você o final de semana inteiro, aliás, todos nós...
- Todos nós quem, Saga? Do que você está falando?
O geminiano se ergueu e caminhou em direção ao loiro que recuou instintivamente.
- Estou falando de Mu, Aiolia, Camus, Milo e eu, seus amigos.
O indiano piscou os olhos azuis, confuso, e Saga se indagou como conseguira dispensar alguém tão encantador.
- Qual o problema nisso? Tenho direito a ir e vir e não preciso de proteção, embora vocês sempre achem que preciso.
Saga sorriu, aquele sorriso devastador que desde a adolescência deixava as pernas do indiano, bambas; estranhamente, daquela vez, permaneceram firmes. O grego ergueu a mão e tocou a pele macia do rosto de Shaka.
- É que você sempre me pareceu tão inocente... – falou se aproximando mais, sua voz grave ficando ameaçadoramente mais lânguida e rouca.
Shaka deu mais um passo pra trás, fugindo da mão que lhe afagava a pele.
- Saga, não sei o que você tem em mente vindo aqui a essa hora, mas...
- Shaka, já disse, só estávamos preocupados com você e...
O loiro o mirou intrigado.
- E...?
- Bem, eu sei sobre...
Os olhos do indiano se abriram mais e ele empalideceu.
- Sabe?
- Sim, sei sobre você e o garoto de programa que o Aiolia e o Mu contrataram...
Shaka grunhiu de irritação.
- Eles não tinham esse direito! Não tinham o direito de expor minha vida dessa forma... – falou indignado; tinha vontade de matar os amigos, como puderam dizer uma coisa daquelas para Saga? Eles sabiam que aquilo o magoaria e mesmo assim...
- Eles só estão preocupados com você, Shaka, e acharam que você poderia me ouvir. – falou Saga, visivelmente preocupado.
- Por que escutaria você? – perguntou áspero.
O geminiano sorriu e voltou a se aproximar dele.
- Porque você sempre me ouviu desde a época da faculdade. - disse com carinho – E porque me preocupo de verdade com você.
Ergueu o queixo do indiano que corou imediatamente e desviou o olhar.
- Saga, por favor...
- Você sempre gostou de mim, não é? – falou e o indiano ergueu os olhos para encará-lo.
- Que importância faz agora? Você disse que não poderia se envolver comigo...
- Sim, na verdade, tinha medo de magoá-lo, como disse, sempre o achei inocente demais...
- Não sou inocente...
- É sim, inocente o suficiente para cair na lábia de um garoto de programa...
Shaka empurrou a mão que tocava-lhe o rosto.
- Você não o conhece, não fale como se o conhecesse...
O grego suspirou.
- Shaka, acho que conheço mais desse tipo de gente que você e tenho um pouco mais de experiência também. Posso lhe garantir que esse rapaz só quer tirar proveito de você...
- Como disse, você não o conhece. – falou com frieza – Agora quero ficar sozinho, Saga, por favor...
- Tudo bem, não insistirei. – falou o grego – Mas, posso voltar para conversarmos amanhã?
- Não sei, preciso pensar. – tornou o indiano abrindo a porta – E por favor, me devolva às chaves. – pediu virando a mão.
Saga tirou as chaves do bolso e colocou sobre a mão do loiro, parando mais uma vez para olhá-lo.
- Pense no que falei, odiaria vê-lo magoado.
- Não verá, tenha certeza. – disse e esperou que ele saísse, para depois bater a porta e encostar-se a ela com um suspiro. Seu ego estava ferido e sua cabeça dava voltas, mas ele não queria pensar naquele momento, tomaria um banho e dormiria. No dia seguinte, Ikki estaria de volta e tudo ficaria bem como fora o final de semana. Sem Saga e sem amigos controladores para infernizar sua vida.
Com tais pensamentos, caminhou para o banheiro.
Ikki chegou mais tarde à academia, porque tivera que levar Shun ao colégio, antes. Estava feliz como não era há muito tempo; o final de semana com Shaka foi muito agradável e ele pode esclarecer algumas coisas sobre os próprios sentimentos, embora ainda tivesse muita coisa confusa dentro do seu coração.
Estava ansioso para encontrá-lo aquela manhã; queria aproveitar o tempo livre para ensinar algumas coisas ao indiano. Sorriu com os pensamentos maldosos e caminhou como de costume para a esteira. Mas, alguma coisa estava diferente na academia; não que fosse raro atrair olhares, mas as coisas estavam um pouco que exageradas, além dos notórios assovios e cochichos que ouvia.
Ignorou. Ele era exímio na arte de ignorar quem quer que fosse. Começou o exercício sem se preocupar com o que acontecia ao redor. Até que Seiya chegou e o encarou sério, ficando parado em frente a esteira.
- O que é? – perguntou mal humorado.
- É muito fácil me julgar por ter aceitado o acordo dos Kido, não é, Ikki? Quando na verdade, você não se importa com ele, porque já arranjou outra fonte de renda!
O leonino o mirou sem entender.
- Você enlouqueceu, Seiya?
- Ah, o louco aqui é você! Eu, ao menos, estou com a Saori porque gosto mesmo dela, independente de ela ser uma Kido, não é simplesmente por dinheiro como sei que, no seu caso, é!
- De que diabos você está falando? – Ikki desligou a esteira e se aproximou do seu pretenso irmão que lhe jogou uma revista de fofoca. Gelou e empalideceu. Manchete:
"A paixão secreta de Shaka Phalker..."
Abriu a revista e folheou: "O recluso escritor indiano foi flagrado aos beijos com um rapaz desconhecido em sua recente estadia em nosso país..."
- Que merda... – murmurou; mas não pensava em si, pensava que a imprensa faria da vida do indiano um inferno.
- Merda mesmo! Você só tem pensado em você esse tempo todo. Em nenhum momento pensou em Shun, em Shiryu ou em mim. Mas em nós dois eu até entendo! – reclamou Seiya – Porém, o Shun é uma criança e é seu irmão de verdade, você deveria pensar um pouco nele! Seria bem melhor para ele ficar com a Saori do que com a Sayaka.
- Isso não lhe diz respeito! – esbravejou o leonino – Eu sei cuidar muito bem do Shun, sempre soube e nunca precisei da ajuda de ninguém!
- Se você acha que deixar o garoto trancado numa escola é cuidar, então está tudo bem, mas eu discordo disso! Seria bem melhor que, ao menos, aceitasse conversar com a Saori, agora é ela quem responde por tudo que envolve os Kido, e tenha certeza, ela não é como os outros!
- Você, além de burro, está apaixonado, não acho que seja o melhor conselheiro! – desdenhou Ikki - Faça o que quiser da sua vida, do Shun cuido eu!
- Ah, claro, estou vendo como está cuidando, essa reportagem diz tudo!
- Seiya, não é o que você está pensando, esse... ele...
- Daqui a pouco você tentará me convencer de que esse loiro é o velho... – Seiya se interrompeu olhando o rosto sério do leonino – É ele?
Ikki balançou a cabeça afirmativamente. Não sabia por que estava dando satisfações ao idiota do Seiya, mas as palavras dele combinaram perfeitamente com as opiniões de Shaka e isso o perturbava. Será que estava tão errado?
- Ikki, se eu fosse você, ouviria a Saori, ela não quer...
- Não me interessa o que sua noivinha pensa ou quer, Seiya. Você é um vendido, faça o que quiser, eu não aceitarei as migalhas daquela gente! Tenho meus princípios.
- Certo, pra mim chega! Você só pensa mesmo em você e nesse orgulho imbecil! Pensei que ao menos, você quisesse o bem do Shun, mas estava enganado! – Seiya disse e saiu.
Ikki ficou parado por um tempo analisando as palavras dele, percebeu que todos dentro da luxuosa academia o observavam.
- Por que não vão cuidar da vida de vocês?! – esbravejou pegando a sacola e indo para o vestiário. Perdera completamente a vontade de malhar. Estava saindo da academia quando sem esperar recebeu uma bofetada.
- Então era tudo mentira! – esbravejou Esmeralda que levava um exemplar da revista de fofoca nas mãos.
"Zeus! Esse povo não tem coisa melhor para ler, não?" Pensou.
- Esmeralda, eu...
- Você se fez de todo ofendido com minha mudança para Paris... e na verdade, você me enganou esse tempo todo!
- Eu não a enganei... eu!
- Ikki, como você pode? Quem é esse homem? Desde quando você é gay?
A menina perguntava transtornada, as lágrimas descendo por seu rosto bonito, copiosas.
- Esmeralda, eu... – o que diria? Contaria a verdade, que era um garoto de programa e que se envolvera com aquele homem por dinheiro, mas acabou se afeiçoando a ele e não sabia como, já que nunca sentira atração real por homens, mesmo que profissionalmente tivesse ficado com outros? Não, não poderia dizer e por isso, emudeceu constrangido.
- Fala alguma coisa, Ikki! – pediu ela – Então tudo que vivemos nesses dois anos foi uma mentira?
- Não, Esmeralda, não foi! – disse a encarando – Mas, não entendo o que você quer cobrar, você me deixou, lembra?
- Não, eu não o deixei! Você que não sabe aceitar as coisas! Eu nunca disse que o deixaria, nunca. Liguei para você todo esse tempo e você se recusou a me atender! – chorava a loira – Como pode...? Você... você já estava com ele antes de terminar comigo, não foi? Por isso, você aceitou tão fácil que eu fosse embora?
Ikki parou estarrecido. De certa forma a ex-noiva tinha razão. Fora bem mais fácil aceitar o final do relacionamento, devido a presença de Shaka e o efeito que ele causava em seu coração.
- Esmeralda me desculpe... – pediu envergonhado.
- Eu estou muito decepcionada, Ikki Amamiya... – disse a moça enxugando o rosto – Espero que, ao menos, você goste dele, porque já não acredito que você possa ter sentimentos verdadeiros!
Ela disse e saiu correndo. Ikki ficou um tempo parado com os pensamentos distantes, até ver alguns flashes. Correu para o carro e guiou para a casa do indiano. Estava desolado e precisava dele; contudo, não gostava de demonstrar fraqueza, por isso, tentava se acalmar no percurso.
Quando entrou no apartamento o encontrou na varanda, numa posição de yoga bastante curiosa, apoiado na própria cabeça e com as pernas suspensas no ar o que exigia um abdômen extremamente forte para agüentar o peso do corpo e bastante equilíbrio.
- Então é por isso que você tem essa bundinha tão linda?! – disse e o indiano despencou no chão com o susto. Riu, vendo-o se levantar soprando os cabelos que se espalharam por seu rosto.
- Ikki, você é tão sutil quanto uma manada de elefantes! – reclamou o loiro.
- Ah, não sabia que estava tão concentrado. – falou se aproximando e o puxando do chão contra seu corpo – Mas, repito o que disse, sabia que esse traseiro perfeito e essas pernas lindas não eram culpa simplesmente da genética...
Shaka riu corando e depois olhou para ele.
- E então, como passaram a noite?
- Ah, o Shun caiu no sono assim que entrou em casa. – falou jogando a bolsa no chão. Shaka o encarou lendo seu semblante carregado.
- O que aconteceu? – perguntou, percebendo perfeitamente a ruga de preocupação que se formava na testa do rapaz e que acentuava a cicatriz que ele possuía entre as sobrancelhas.
Ikki tirou a revista da bolsa e entregou a ele. Shaka levou a mão aos lábios, corando.
- Ah, eu não acredito... como podemos ser tão descuidados?
- Você! – acusou Ikki – E não tem noção dos problemas que isso está me causando!
- Desculpe, não foi minha intenção! – falou o loiro zangado, mas o moreno o puxou novamente para seus braços.
- Você não entende nada do que eu digo, meus problemas são outros, mas... isso pode agravá-los, desculpe, eu não quero colocar a culpa em você, seu bobo, mas é que...
Shaka mirava o rosto do rapaz e percebia o quanto ele estava perturbado. Afastou-se e segurou-lhe a mão.
- Vem, deita aqui nesse tatame, você está muito tenso, vou lhe fazer uma massagem. – falou e Ikki sorriu, tirando a camisa e obedecendo.
- Eu deveria fazer massagem em você...
- Ah, ninguém sabe fazer massagem como um indiano... – disse o loiro, vendo-o se deitar de bruços sobre o tatame, começou a massagem – Você não quer me contar o que aconteceu?
- Conto sim... – suspirou Ikki sentindo os dedos hábeis passeando por seus músculos tensos. Foi contando todo o ocorrido à medida que relaxava sob os dedos de Shaka. Tinha certeza agora que ninguém fazia uma massagem como um indiano, realmente. Quando ele parou estava tão relaxado que só pensava em dormir.
Contudo, Shaka levava uma expressão preocupada.
- O que foi, loiro? – perguntou o mirando e Shaka sentou em posição de lótus ao seu lado.
- Ikki, esse seu amigo, irmão, sei lá! Ele realmente se preocupa com você e o Shun, não é?
- O que isso tem a ver? Ele é um idiota...
- Sei... – Shaka suspirou achando melhor não começar uma briga com ele – Ele, ao menos, pensa igual a mim quanto a um colégio interno não ser a melhor opção para uma criança.
- Eu sei que não é, mas não tenho escolha, o que quer que eu faça? Que deixe o Shun aos cuidados da Sayaka?
- Não, claro que não! Ela não tem condições nem de cuidar de si mesma! – falou o loiro – Mas, devemos ter outra opção.
- Não temos não, loiro... – falou Ikki e só depois ponderou as palavras do escritor. Devemos? Desde quando aquele era um problema de Shaka?
- Shaka, não quero que se preocupe, são meus problemas...
- Não estou preocupado, apenas estou tentando ajudá-lo. – respondeu pensativo.
Ikki virou-se com a barriga pra cima para olhá-lo.
- Pensei que ficaria histérico com essa reportagem...
- Na verdade, não quero dar muita atenção a isso. A notícia vai circular por algum tempo; não poderei sair de casa nas próximas semanas sem algum disfarce; entrarão em contato com o Milo querendo informações e entrevistas, e depois de alguns dias, esquecerão o fato. – suspirou – Fico preocupado com o impacto disso em sua vida, pelo que me falou a sua "profissão" é secreta e, não demora a empresa descobrir o que você faz; sempre temos inimigos dispostos a ganhar alguma coisa com nossa vida. Você também deve ter os seus...
Ikki olhou o loiro, aturdido, não só por ele ter razão, mas por ser capaz de pensar primeiro nele que em si próprio, coisa que ninguém nunca fez.
- Você tem razão, isso... se o Shun ficar sabendo... se os colegas dele ficarem sabendo! Shaka, o que farei? – perguntou nervoso.
- Calma, Ikki, descanse. – sorriu o loiro – Darei uns telefonemas e depois sairei, não se preocupe, eu resolvo isso...
- Não, loiro, eu não quero que você cuide dos meus problemas, você já tem problemas demais! – Ikki estava constrangido e confuso com todas aquelas informações e mais ainda com as atitudes de Shaka. O que ele estava fazendo afinal? Não estava acostumado a ter alguém cuidando dele e aquela atitude do escritor o incomodava um pouco, não gostava daquela dependência.
Suspirou e relaxou no tatame; não havia mesmo o que fazer e estava cansado. O indiano voltou minutos depois vestido numa calça jeans e num blazer preto por cima de uma camisa branca. Usava óculos escuros e seus cabelos estavam presos.
- Loiro, aonde você vai?
- Não se preocupe, apenas resolver algumas coisas, vou a editora cancelar as entrevistas que daria...
- Não poderia ligar? – perguntou e sorriu com charme – Não poderíamos ficar aqui e terminar o que começamos ontem?
- Não. Há coisas na vida mais importantes que sexo. – disse Shaka sério - E você descanse, amanhã tem faxina! – falou saindo.
- Você não tem coração, Shaka! – esbravejou Ikki, vendo-o bater a porta atrás de si. Não havia o que fazer, a não ser, dormir.
Shaka tomou um táxi, tentando se recordar do caminho. Ao menos, parecia que a imprensa não conseguira localizar ainda o local onde morava, ao contrário, os abutres já estariam a sua caça.
- É aqui... – disse e o táxi parou. Desceu dando o dinheiro ao homem e passando pelo pequeno portão de madeira. Voltando aquela casa bagunçada que lhe causava náuseas.
A mulher apareceu mais uma vez e franziu a testa ao vê-lo pela porta de vidro. Sua aparência era melhor que no primeiro encontro dos dois e ela sorriu com malícia, fazendo o loiro engolir em seco. Abriu a porta e com um gesto o convidou a entrar, o que Shaka fez a contra gosto.
- Então, o que o traz de volta a minha humilde casa? O Ikki mandou você? – perguntou Sayaka convidando o escritor para se sentar e cruzando as pernas sensualmente a sua frente.
- Na verdade, ele não sabe que estou aqui, mas... preciso de uma informação que não posso pedir a ele...
Sayaka se empertigou no sofá com seu sorriso mais sensual, deixando a alça do vestido lilás que vestia escorregar propositalmente. Shaka corou, percebendo que a mulher não teria pudor nenhum em tentar seduzir um amigo do sobrinho.
- Então peça... Qual o seu nome?
- Shaka...
- Shaka... – falou sensualmente – Que nome exótico. Então peça, Shaka.
- Preciso do endereço da família do pai dele...
A mulher tornou-se séria de repente.
- Por quê?
- Quero ajudá-lo. Seria muito importante que eu conseguisse falar com a família dele, mas... ele não permitiria que eu fizesse isso, então...
- O que há entre você e meu sobrinho? – perguntou Sayaka voltando a sorrir maliciosamente – Um simples amigo não se preocuparia tanto...
O loiro corou mais.
- Digamos que meu interesse seja por motivos profissionais...
A mulher não entendeu e nem pareceu acreditar. Aproximou-se mais do loiro e sussurrou bem próximo ao seu rosto:
- E o que ganho em troca dessa informação?
Shaka titubeou sem entender.
- A senhora fala de dinheiro? – perguntou e Sayaka riu deslizando sua perna, desnuda no vestido curto, para perto da do indiano que arregalou os olhos azuis.
- Você é inocente assim mesmo ou está fazendo tipo?
- Fazendo tipo... por favor, senhora, preciso apenas de um endereço... – Shaka falou se afastando correndo o traseiro sobre o sofá.
- Eu o darei, mas... que tal nos conhecermos melhor primeiro?
"Ah, céus, isso deve ser uma maldição!" Pensou Shaka e sorriu, tentando controlar a irritação.
- Poderíamos sim, a senhora... digo, você é uma mulher muito atraente, mas... será que poderia ser depois que eu resolvesse esse problema para o Ikki?
Sayaka se levantou e cruzou os braços, irritada.
- Tá legal, eu lhe darei o endereço dos ricaços. – falou e depois voltou a se aproximar do loiro – Mas, você promete voltar, certo?
- Sim, eu prometo.
Ela caminhou até uma estante e pegou um cartão e lhe estendeu.
- Esse é o cartão de perua de cabelos cor-de-rosa... – disse – Vê se você consegue convencer aquele teimoso do Ikki a aceitar a grana.
Shaka se levantou assim que pegou o cartão e tentou esconder a expressão de repulsa ao se despedir da mulher. O pior era que prometera voltar e ele sempre cumpria suas promessas, embora não estivesse certo se teria coragem de cumprir aquela.
Acenou para um táxi que passava e pediu para que ele seguisse o endereço do cartão.
Minutos depois, entrava no prédio imponente da grande fundação e informava que precisava falar com a diretora.
As duas moças na recepção cochicharam algo e ele soube, mau grado seu, que elas o reconheceu da foto da revista.
- Qual o nome do senhor para que o anuncie?
- Shaka Phalke e não tenho horário marcado, diga que... sou amigo do Ikki.
A moça assentiu com a cabeça e pediu para que esperasse, mas Shaka estava nervoso. Mesmo porque parecia que todas as pessoas na imensa recepção, o olhavam; ele não gostava de ser o centro das atenções e se sentia um alienígena.
Não demorou muito para alguém pedir um autógrafo.
- Desculpe, sou escritor e não celebridade... – falou sem jeito e estava a ponto de gritar de desespero; pois logo alguns celulares começaram a fotografá-lo, sem contar que os cochichos aumentavam vertiginosamente...
- Senhor Phalke, venha por aqui. – ouviu a voz da recepcionista de forma distante e percebeu que estava a ponto de desmaiar. Seguiu a mulher meio cambaleante e entrou num elevador que o levou a cobertura do prédio, logo sendo levado a uma sala ampla e arejada, agradável. Encontrou uma moça bonita, atrás de uma imensa mesa, que lhe sorriu.
- Olá, eu sou a Saori Kido. Fiquei surpresa ao saber que um amigo do Ikki queria falar comigo. – ela disse – Por favor, sente-se.
- Obrigado. – disse Shaka se sentando em frente a moça – Na verdade, ele não sabe que estou aqui, mas... acredito que ele precise de ajuda...
- Sei, bem, o Ikki é uma pessoa difícil, ele não fala comigo. – falou a jovem – O que exatamente você quer de mim, Shaka?
- Eu... eu gostaria de ajudá-lo e ao irmão. Sei que... sei que a guarda do menino, o irmão mais jovem, está com... a tia...
- É uma bêbada desprezível! – falou Saori irritada – O Ikki é um teimoso, porque me ofereci para cuidar do Shun, mas ele acredita que tudo que faço é para garantir o patrimônio; e... na verdade, gosto do garoto...
- Gosta? – Shaka observava a explosão da moça, meio pasmado.
- Bem, eu... na verdade, sou filha adotiva e nunca tive irmãos. Quando soube que meu avô era um... safado... digo, era um homem... namorador... – corrigiu sem jeito – Fiquei até feliz porque teria uma família, mas o Ikki fez disso uma batalha e não permitiu que me aproximasse do Shun. Ele é uma criança, não merece ficar naquela escola sozinho a maior parte do tempo!
- Gostaria de ajudar...
- Não há como, a guarda do Shun é da Sayaka e ela recebe uma pensão minha para cuidar dele, não aceitará perder sua fonte de renda...
Shaka arregalou os olhos, pasmado.
- Você dá dinheiro a ela?
- Sim, todo o mês, por quê? – Saori não entendeu a surpresa do loiro.
- Mas... o Ikki também dá dinheiro para ela e ainda paga o colégio do Shun...
Saori empalideceu e depois ficou vermelha como um pimentão.
- Ah, eu vou matar aquela vad... quero dizer, pilantra! – corrigiu-se envergonhada.
Shaka estava meio atordoado com aquela quantidade de informações e pensava em achar uma saída para aquilo.
- Saori, já ficou claro que o interesse da Sayaka é financeiro, então, por que você não paga pela guarda do Shun?
- Não posso ficar com a guarda do Shun, ainda não tenho vinte anos, só depois disso, poderei fazer alguma coisa e isso só acontecerá daqui a quatro anos. Já pensei em pagar a ela pra que, ao menos, deixasse o menino morar comigo e com o Seiya. – falou e sorriu – Seiya é meu noivo; isso quando nos casarmos, mas ela pediu um valor absurdo que a fundação não pode me disponibilizar devido aos processos que os garotos moveram...
Shaka suspirou.
- Seria mais fácil se o Ikki estivesse do seu lado. – concluiu pensativo.
- Sim, mas ele me odeia, parece que acha que matarei o Shun e esconderei o corpo se ele for morar comigo, é um burro egoísta. – falou a moça irritada.
- E quanto aos outros irmãos?
- O Seiya já conversou diversas vezes com ele, mas ele não escuta; o Shiryu não se envolve e os demais... cada qual está em uma parte do mundo e não se interessam nessa história.
- Saori, tentarei ajudar, não se preocupe, essa situação tem que se resolver mais cedo ou mais tarde.
A mocinha se levantou e caminhou até o escritor, segurando suas mãos. Shaka a mirou sem jeito com o gesto.
- Você parece mesmo um anjo. – disse Saori – Sinto que conseguirá resolver isso da melhor forma...
O indiano se ergueu e acenou com a cabeça, se despedindo e deixando a sala. Quando chegou a recepção, esta estava cheia de fotógrafos e jornalistas. Protegeu os olhos dos flashes e correu para a saída em meio ao avalanche de perguntas:
"Quem é o rapaz?"
"Por que nunca declarou-se gay publicamente?"
"Vocês se conheceram no Japão ou é algo de longa data?"
"Continuarão juntos quando voltar para a Grécia ou é um amor de verão?"
Não respondeu nada, entrou no táxi pedindo para que o mesmo seguisse a toda velocidade.
Ikki acordou se espreguiçando. Estava deitado no tatame ainda e a casa estava envolta na penumbra do final de tarde. Ergueu-se. Pelo visto, Shaka ainda não voltara. Onde ele teria ido? Resolveu tomar um banho e esperá-lo o mais gostoso e perfumado possível.
A campainha tocou quando ele estava saindo do banho; estranhou. O indiano não era de receber visitas, quem seria? Abriu a porta e Aiolia e Mu entraram como furacões; pararam no meio da sala e esperaram o japonês fechar a porta.
- O que pensa que está fazendo? – perguntou Aiolia zangado, mirando Ikki de cima abaixo – Não te pagamos para fazer isso...
- Isso o quê? – perguntou o mais jovem em desafio colocando as mãos nos quadris – Não estou entendendo o que querem!
- Ah, você está entendendo sim...
- Espera, Aiolia. – Mu pediu, calmo – Vamos sentar todos e discutir como pessoas civilizadas, ok?
Os dois leoninos obedeceram e se sentaram um de frente ao outro. Ikki, que só usava um roupão, mirou os olhos verdes irritado a sua frente.
- Fênix, é... bem... – Mu estava com receio das palavras – Bem, soubemos que o Shaka... que... vocês dois...
Ikki olhava para o jovem de cabelos lavandas agora, que parecia muito embaraçado.
- Bem, soubemos que a relação de vocês, tornou-se íntima demais, sabe?
- E daí? – perguntou o moreno.
- E daí que somos amigos do Shaka e não deixaremos nenhum espertinho tirar proveito dele! – explodiu Aiolia puxando a carteira do bolso – Quanto você quer, hein?
Ikki ficou pasmado por um tempo antes de soltar uma sonora gargalhada.
- Como é que é?
- É o que você ouviu. – falou Mu num suspiro – Fênix, espero que não nos leve a mal; não viemos aqui para julgá-lo, na verdade, pouco me importa suas intenções, mas me preocupo com o Shaka e por isso...
- Não, vocês não se preocupam com ele, se isso fosse verdade, pensariam nos sentimentos dele antes de jogar um garoto de programa na vida dele sem aviso; em nenhum momento vocês quiseram saber como ele se sentiria; queriam apenas se livrar de um colega rabugento...
Mu engoliu em seco e Aiolia explodiu:
- Quem você pensa que é, Michê, pra falar assim com a gente? Você entrou nessa história por nossa causa e sairá quando mandarmos, ouviu bem?
- Aiolia, as coisas não se resolvem assim. – falou Mu calmamente e se virou para Ikki – Você tem razão, erramos desde o início, mas isso não é justificativa para que você erre também; por favor, saia da vida do Shaka enquanto ele ainda não foi magoado...
Os olhos índigos de Ikki examinaram os rostos a sua frente, depois ele se recostou no sofá cruzando as mãos atrás da cabeça.
- Vocês riquinhos de merda, sempre disposto a julgar todo mundo, achando que dinheiro compra tudo, não é?
- Não, dinheiro não compra tudo, mas comprou você, esquece do quanto lhe pagamos? – falou Aiolia – Estamos oferecendo outra quantia razoável para encerrarmos o contrato, o que há de mal nisso?
- Não aceito. – falou entre dentes – Por que não esperam o Shaka chegar e fazem essa proposta na frente dele? Por que tiveram que esperá-lo sair para se comportarem como ratos?
- Pra mim chega, Mu, não ficarei aqui ouvindo esse michê nos ofender! – o grego se levantou – Escute, rapaz, estamos lhe oferecendo uma boa quantia para sumir, só isso, o que quer? Acha que pode nos extorquir mais ainda, é isso?
Ikki se levantou.
- O dinheiro de vocês não me importa.
- E o que importa a gente como você, além de dinheiro?
Mu olhava para os dois, estarrecido, temendo o pior.
- Por favor, mantenham a calma. Aiolia, se lembre que estamos aqui pelo Shaka, precisamos pensar em como resolver isso...
- Eu digo como resolver isso! – falou Ikki e apontou para a porta – Vocês dois saem e esquecerei que estiveram aqui e quanto ao dinheiro, podem enfiar no rabo que não dou à mínima!
- Você não passa de um prostituto, dinheiro é tudo pra você. – falou Aiolia com desprezo.
- Não tenho vergonha do que faço. – ironizou Ikki – É um dinheiro honesto e que paga minhas contas, não conseguirá me ofender. Agora saia!
- Fênix... – Mu começou – Por favor me ouça...
- Não escutarei mais nada de vocês, já escutei demais!
- Por Zeus! O que você quer com o Shaka? – irritou-se Mu – O acordo era para que fosse seu amante profissional por um mês, sem envolvimentos!
O moreno sorriu com melancolia e baixou o olhar.
- Vocês pensaram em tudo, menos que sou um ser humano e seres humanos não mandam nos sentimentos.
Aiolia puxou Mu pelo braço.
- Vamos embora, Mu! – falou o grego e mirou o rapaz nos olhos – Temos outras formas de resolver esse problema.
- Não tenho medo de suas ameaças! – falou e os amigos de Shaka saíram do apartamento.
Chegaram ao térreo e Mu puxou o celular ligando para Milo.
- Milo, deu tudo errado, ele não aceitou dinheiro, o que faremos? – perguntou o tibetano aflito – Acho que o rapaz é mais esperto que pensamos, ele sabe que ganhará muito mais ficando com o Shaka.
- Deixa que eu falo, Mu! – falou Aiolia puxando o celular das mãos do namorado – Milo, não sei se você vai concordar, mas acho que devemos dar um susto nesse cara, ele é mais esperto que pensamos, ok, estamos indo pra aí.
Desligaram e partiram.
Continua...
Notas finais: O que esses amigos loucos farão com o Ikki, hein? E o que o Shaka fará para livrar o Shun das garras da bruxa má da Sayaka? Veremos no próximo capítulo. Hehehehehe
Sei que o capítulo não foi kawaii como o anterior, mas ele tinha que acontecer, não é gente? (cora).
Perdoem possíveis erros, estou sem tempo para esmiuçar o texto como gosto, mas é só me informar que conserto.
Beijos especiais a todos que leram em especial aos que tiveram a delicadeza de deixar uma review.
Kojican, K. Langley, Amamiya fã! (kkk, coitado do Pato! E o Shun foi um desmancha prazer mesmo, bjus!), Vagabond, Myu, Pandora Hiei, Izabel, Danieru, sasulove, rogerklow, Mefram_Maru, Shunzinhaah2, Juliabelas, Arcueid, Keronekoi, liliuapolonio.
Adoro muito todos vocês meus leitores e incentivadores! Beijos de coração.
Sion Neblina
