Você não soube me amar
Capítulo 11
-OOO-
Shaka virou-se na cama e abriu os olhos, como se percebesse sua presença. Imediatamente se sentou na cama, ainda desnorteado pelo sono e mais confuso do que nunca.
- Ikki, o que está fazendo aqui?
O moreno não respondeu, caminhou até ele e o puxou pra si pelos cotovelos com violência, assustando o loiro que arregalou os olhos.
- Ikki, me solta! – pediu, a força com que o leonino o segurava machucava sua pele.
- Puto! – rosnou o moreno e afundou as mãos nos cabelos sedosos, puxando o escritor para mais próximo de si – Cachorro, vadio!
Shaka abriu a boca para responder, mas foi interrompido por um violento beijo, enquanto era jogado de volta à cama.
-OOO-
O indiano tentou se libertar, mas estava preso sob o peso do moreno enquanto recebia a carícia intensa e indelicada de seus lábios e língua. O loiro tentou lutar, mas via, desesperado, seu corpo corresponder àquela carícia com uma ânsia talvez mais avassaladora que a do homem que o atacava. Sim, seu corpo estava pedindo, clamando por ele, queria-o mais que tudo. Entretanto, sua razão não permitiria que seu lado mais primitivo o dominasse àquele ponto.
Lutou para afastar os lábios, virando o rosto, buscando ar desesperadamente.
- Solte-me, Ikki, você enlouqueceu? – tentou empurrá-lo mais uma vez, mas o moreno se afastou apenas o suficiente para mirá-lo com mágoa, prendendo seus braços ao lado do rosto.
- Poderia ter me dito que queria ficar com ele! – esbravejou – Eu sairia facilmente de sua vida, não havia por que me enganar, Shaka!
- Não o enganei... – tentou protestar, mas, novamente, foi calado pelos lábios do moreno. O indiano lutava para não sucumbi ao desejo que sentia, pela necessidade que tinha do corpo, do cheiro, do sabor de Ikki...
Empurrou-o novamente, com força, obrigando o mais jovem a forçar ainda mais os punhos que mantinham os braços do escritor presos a cama.
- Não quer? – o leonino perguntou, os olhos brilhando ameaçadoramente – Não sente mais nada por mim a esse ponto, Shaka? Vai me rejeitar?
Os olhos angustiados de ambos se encontraram. Shaka virou o rosto para fugir daquele olhar, e também, para que o outro não lesse a mágoa em seus olhos e percebesse o quanto seu coração estava machucado.
- Não quero dessa forma. – sua voz foi um sussurro – Acho que já aconteceram coisas demais para estragar as lembranças de tudo que vivemos...
O moreno se afastou, deixando o loiro deitado, ofegante. Shaka vestia apenas uma calça de pijama branca, seus cabelos estavam bagunçados, espalhados por seus ombros e rosto, e a mágoa que estampava nos límpidos olhos azuis desconsertava o leonino.
- Eu... – Ikki tentou falar, visivelmente embaraçado – Nunca o machucaria...
- Eu sei... – respondeu magoado e ainda tentando controlar o descompasso do seu coração – Não estou falando disso, mas... se fôssemos para a cama agora... estaríamos satisfazendo algo meramente físico e instintivo. Não queremos isso, não é?
- Não, não queremos. – Ikki respondeu seco e baixou o olhar.
Um silêncio constrangedor se estabeleceu entre os dois, Shaka se sentou na cama, afastando os cabelos do rosto.
- Ikki, o que faz aqui? – o loiro repetiu a pergunta. Estava cansado e confuso. Nem sabia se aquilo era mesmo realidade ou sonho.
- Eu... é... – gaguejou, mas depois olhou sério para o escritor, como se de repente se lembrasse do que tinha a dizer – Tenho algumas verdades para lhe dizer, é isso!
O indiano cruzou os braços e esperou o que o mais jovem diria. Ikki ficou meio desarmado com aquela atitude blasé do loiro; desarmado e triste, porque isso significava que Shaka nada sentia por ele, ao menos, era isso que significava para o mais jovem.
- Estou esperando, Ikki. – tornou o escritor, tranquilamente.
- Shaka... seu... seu...
- Seu?
- Cachorro! Como pode me trair assim?
O leonino berrou, e o indiano arregalou os olhos. Ergueu-se da cama e se aproximou dele, olhando fundo dentro das safiras escuras do amante. A expressão de Shaka era séria e inexpressiva.
- Então é isso que pensa de mim, Ikki? – perguntou a milímetros de distância do outro – Repete? Agora repete olhando dentro dos meus olhos.
O mais jovem engoliu em seco; aflito com a proximidade do corpo seminu do indiano, e que corpo delicioso ele tinha, que cheiro inebriante. O desejo brotava em seus poros como a água na nascente de um rio. Precisava de autocontrole...
Afastou-se dele, numa atitude irritada, para fugir daquelas sensações.
- Não se faça de ofendido, eu vi!
- Ah, você viu? – o indiano riu com ironia – O que você viu, Ikki? O que havia de concreto naquelas fotos?
Ikki se calou. O que havia de concretos naquelas fotos? Nenhum beijo, nenhuma carícia mais íntima, insinuações; maldade e malícia de uma imprensa marrom, mas concreto... Nada.
- Você e aquele cara... – tentou falar, mas seus próprios pensamentos interrompiam as palavras. Concreto? Nada...
Mirou Shaka nos olhos.
- Vocês estavam juntos hoje! – esbravejou – Você sempre gostou dele!
Shaka suspirou, e um sorriso melancólico escapou dos seus lábios.
- Sim, sempre gostei dele, isso até conhecê-lo, Fênix, mas vejo que tudo que vivemos foi uma mentira...
O peito do moreno apertou. Havia tanto tempo que o loiro não o chamava de fênix, isso demonstrava que as velhas barreiras foram reerguidas e que ele não queria proximidade.
- Nem vem com essa, loiro! – tornou, tentando readquirir o controle da situação – O que fazia com ele na Grécia? Você mentiu! Disse que não se encontrariam...
- Aquele não era o Saga. – suspirou mais uma vez – Não deveria perder meu tempo explicando nada...
- Ah, não deveria? – riu Ikki irritado – Então não perca, acho que nada que disser me convencerá! E se me acha tão pouco importante que nem mereça uma explicação, realmente o que vivemos foi uma mentira!
Ikki explodiu, vendo que, naquele momento, retomava o controle da situação. Shaka baixou o olhar, e uma expressão de tristeza se apossou do seu rosto.
- Não estou tentando convencê-lo, mesmo porque isso não me interessa mais... – o murmúrio foi baixo, mas categórico. Ikki resignou-se, sentindo-se estranhamente infeliz e vazio ao ouvir aquelas palavras. Ele, que estava ali para dizer suas verdades, se rendia as verdades proferidas pelo indiano, e de forma tão patética que tinha raiva de si mesmo.
Naquele momento tudo que acreditara durante duas semanas pareceu não fazer sentido algum. Shaka não era leviano, não era mentiroso e não o enganaria. Todavia, o ciúme, muitas vezes, falava mais alto que sua metódica razão de psicólogo.
- Então, não o interesso mais? – a ironia que tentou demonstrar não superou a tristeza de sua voz – Engraçado ter perdido o interesse tão facilmente por alguém que dizia amar...
O loiro ergueu os olhos para ele e afundou as mãos nos espessos cabelos da nuca, gesto que só fazia quando se achava muito nervoso ou angustiado. Ikki sorriu; tão pouco tempo juntos e conseguia entender Shaka como um livro lido e relido diversas vezes; decorara cada gesto, cada atitude e expressão...
- Diz, Shaka! – aproveitou-se do primeiro momento em que o enxergava vulnerável – Diz que não me ama mais, que acabou!
- Diz você, Ikki... Diz que uma simples fofoca acabou com todo amor que dizia sentir por mim? – a voz do indiano foi baixa, mas firme.
- O que queria que pensasse? – perguntou o moreno angustiado – Você me conhece, Shaka, talvez me conheça mais que eu mesmo; sabe que não sou tranqüilo e sábio como você, mas também não sou burro. Pensei e repensei sobre aquelas fotos, analisei todos os ângulos antes de resolver deixar sua casa, e sabe por que fiz isso?
- Não... – os olhos azuis celestes miraram o rosto magoado do leonino. Ikki sentiu vontade de abraçá-lo; aqueles olhos límpidos diziam tanto; desnudavam a alma quente e desmascarava a atitude blasé do escritor. Conteve-se, Shaka parecia não necessitar de afagos.
- Você não me ligou mais. Você sumiu. – disse Ikki – Achei então que tudo fazia sentido.
Ambos ficaram em silêncio pensando em toda situação.
- Estive doente... – Shaka explicou depois de um tempo que pareceu uma eternidade – Sabe como são meus amigos, o Milo foi ficar comigo em Atenas; não tive como ligar pra você. Mas tentei depois, por várias vezes, você desligou o celular.
Ikki arregalou os olhos. Shaka esteve doente! Sim, agora que ele falara, realmente o indiano parecia abatido. O Amamiya mais velho se sentiu pequeno como nunca com aquela informação; pequeno e culpado.
- Shaka...
- Não diz mais nada, Ikki – interrompeu – Só pra você saber, aquele homem que estava comigo nas fotos era o Kanon, meu agente financeiro, irmão gêmeo do Saga. Estávamos juntos por que... Bem, temos negócios a resolver e, naquele dia em especial, ele me ajudou, só isso...
Ikki passou as mãos nos cabelos escuro num característico gesto de nervosismo e desolação. Sentia-se mal, injusto, pequeno.
- E precisava ficar grudado nele para que o ajudasse? – reclamou se sentindo cada vez pior e, com aquilo, tentando fugir da sensação de culpa. Sabia que o loiro não mentia, por que foi tão tolo e impulsivo? Mesmo assim, ainda havia o ciúme.
- O motivo que nos levou aquele encontro não interessa. O que interessa é que não tenho nada nem com ele, e nem com o Saga.
- E você acha que sou ingênuo o suficiente para cair nessa história absurda de irmão gêmeo? – tentava ainda fingir irritação, embora o seu coração doesse profundamente. Desligara o celular porque sabia que não resistiria se o loiro ligasse. Não resistiria a vontade de ouvir sua voz, e a necessidade de desabafar sua revolta, então, resolveu que aquela era a única forma de conseguir se controlar.
- Não me importa se acredita ou não, Fênix, não me importa mais. – Shaka sentiu a voz embargar no momento que pronunciou as palavras – Saia da minha casa...
Ikki o mirou nos olhos.
- Então agora você é o dono da verdade? – vociferou irritado, caminhando até o indiano que estava encostado à parede do quarto – Pois, também tenho coisas a dizer, e você vai me escutar!
Ikki já não sabia o que tinha a dizer, só sabia que precisava ficar ali com ele, e não permitiria ser expulso da vida do indiano, por mais que ele estivesse magoado, não deixaria que Shaka o mandasse embora.
- Escute, loiro...
- Não quero ouvir, Ikki. – Shaka baixou a cabeça, olhar para o moreno era difícil; olhar para ele era admitir que viveu uma mentira; que os amigos estavam certos. Então, seu ponto de fuga era evitá-lo, evitar seus olhos, evitar sua voz grave, profunda e sensual, evitar seu corpo forte.
- Não, loiro, você vai me escutar. – disse segurando o outro pelos cotovelos, forçando o indiano a encará-lo – Posso ter sido impulsivo, mas você me deixou sozinho, não deu notícias! Saia do seu mundinho egoísta e pense como me senti quando vi aquelas fotos!
Shaka não respondeu, encarou o moreno no fundo dos olhos, e uma lágrima escorreu por seu rosto. Ikki estremeceu, havia muito mais naquele olhar, muito mais que a mágoa que julgava, era uma mágoa maior.
- Eu vi, Ikki... – o sussurro do indiano lhe deu a certeza dos seus próprios sentimentos.
- Viu? Viu o quê?
- Estive em seu apartamento. O Shun me deu a chave e...
Ikki respirou fundo; então era isso, Shaka o vira na cama com Esmeralda.
- Espere, loiro, não era... – empalideceu mesmo sem querer. Não era para Shaka saber daquilo, não era para ele ver aquilo! Não daquele jeito. Não, sem a chance de explicar como as coisas aconteceram.
- Não tente se explicar, Fênix, realmente não quero saber, quero apenas que me deixe em paz. Não quero mais te ver, não quero nem te olhar! – desvencilhou-se dos braços que o prendia.
Ikki o mirou sem saber o que dizer; o que diria? O loiro não estava enganado, ele esteve com Esmeralda, dormira com ela, seu corpo foi tocado pelo da ex-noiva, e conhecia Shaka o suficiente para saber o quanto ele estava magoado e que não o perdoaria.
- Shaka...
- Quando chegou aqui, achou que encontraria o Saga, não foi? – o loiro o interrompeu mais uma vez, depois sorriu com amargura – Patético para um futuro psicólogo, Ikki, julgar os outros por suas próprias atitudes. Dessa vez você errou em suas conclusões tão brilhantes. Não sou como você!
O moreno baixou a cabeça, e encheu de ar os pulmões soltando devagar, coisa que sempre fazia quando precisava pensar rápido e tomar decisões difíceis.
- Sim, Shaka, você não é igual a mim. – disse em fim, sua voz foi calma e triste – Acho que não deveria mesmo tê-lo arrastado para o meu mundo sujo. Você é tão limpo, tão íntegro! Mesmo assim, de uma forma bem estranha, sei que fiz bem a você, assim como você me faz bem. Não me pergunte por que acredito nisso, mas é o que acredito, é o que sei, é o que sinto!
O indiano desviou o olhar mais uma vez. Seu coração estava muito magoado, mesmo porque era a primeira vez que se entregava daquela forma e era, por isso mesmo, tão profundamente magoado.
- Vá embora... – sussurrou – Não quero olhar pra você, Ikki...
- Você tem esse direito. – resignou-se o leonino – Não vou me justificar, e nem posso dizer que estou arrependido pela noite que tive com a Esmeralda. Estava triste e sozinho, e ela...
- Eu não quero saber, sai daqui! – esbravejou o indiano – Não preciso saber disso!
- Mas vai me escutar! – vociferou Ikki – O que tive com ela não foi nada mais do que o que sempre tive com várias outras, vários outros! Não venha com essa falsa moral! E se fosse um cliente? Estaria tão indignado, loiro, se fosse apenas profissional?
Shaka calou-se; Ikki não compreendia que suas mágoas não estavam relacionadas ao ato em si, mas aos seus sentimentos traídos.
- Shaka, o que houve entre a Esmeralda e eu foi somente pele, carência física, nada além disso. Será que é tão moralmente certinho que não pode perdoar algo assim?
- Isso não tem nada a ver com moral! – regougou o indiano – Você me magoou, me abandonou por causa de uma fofoca de tablóide!
- Errei sim, mas agora você está me deixando por causa de algo sem importância!
- Sem importância? Você e aquela moça, vocês tiveram uma história, não é como se fosse um cliente...
- E se fosse um cliente?
- Quê? – Shaka piscou sem entender a pergunta. Ikki achou que era o momento de colocar tudo em pratos limpos; se queria um futuro com Shaka era melhor esclarecer de uma vez, tudo que pensava.
Sentou-se na cama e cruzou os braços; o loiro continuava parado perto da porta. Cruzou os braços também sobre o peito nu.
- Se ao invés da Esmeralda, eu tivesse transado com um cliente, seria menos sério pra você? – perguntou.
- Ikki, não sei se reparou mais não estamos aqui discutindo a relação, estamos aqui terminando a relação, e acho que informações como essas são irrelevantes.
- Responda somente, depois vou embora.
- Não sei, talvez sim. – respondeu o loiro, irritado – Mas o que importa saber disso? Não há mais porque tratar de assuntos como esse!
- Você em toda sua moralidade seria capaz de aceitar minha profissão, loiro?
A pergunta foi incisiva; Shaka piscou confuso; até o momento não havia pensado naquilo.
- Não fale comigo como se fosse um moralista, estou longe de ser isso! – disse o escritor irritado – Eu só... só não considero que isso que você faz...
Ikki o encarou firme, percebendo que Shaka parecia extremamente constrangido com aquele diálogo.
- Termine... – pediu, e o indiano hesitou.
- Que isso seja uma profissão, desculpe! Mas... eu não consigo, você tem razão, nunca conseguiria!
O loiro sentou-se na cama também, assumindo uma posição derrotada, com os ombros curvados e a cabeça baixa.
- Me desculpe, devo mesmo ser um moralista idiota... – murmurou – Acho que na verdade sou um ciumento, só isso...
Ikki somente o observava com uma expressão fechada, o que potencializava o constrangimento do indiano.
- Por favor, Ikki, vá embora...
- Quer mesmo que eu vá?
Os imensos olhos azuis foram erguidos para ele, angustiados.
- Não me faça esse tipo de pergunta. Estou confuso, magoado, preciso ficar sozinho, preciso pensar...
- Pensar em quê, loiro? – o leonino sorriu triste – Você acaba de responder que não aceitaria o que faço. A questão nunca foi a Esmeralda, não é isso? A questão sempre foi o que faço. Você não é diferente dos seus amigos.
O escritor o mirou aturdido e irritado.
- Não seja ridículo! Eu briguei com todos eles por você!
- Sim, mas na primeira dificuldade está desistindo de mim!
- Não tente inverter as coisas, senhor Fênix! – esbravejou Shaka – Foi você quem duvidou dos meus sentimentos, foi você quem estava na cama com outra pessoa!
Ikki não soube o que dizer, a mágoa era evidente, era evidente que o sonho se quebrou, era evidente que Shaka estava profundamente decepcionado.
- Não queria magoar você... – respondeu em fim num fio de voz – Desculpe, acho que... não daria mesmo certo...
- Não, não daria... – o loiro disse baixando o olhar – Talvez isso seja o melhor, Fênix...
- Que merda! Quer parar de me chamar de Fênix? – irritou-se o moreno, e Shaka se calou, continuando com o olhar baixo.
- Vai embora... – disse num suspiro – Não há mais nada para se falar.
- Você tem razão. Desculpe-me, minha intenção nunca foi magoar você.
- Mas magoou. – respondeu o indiano.
Ikki baixou a cabeça e resolveu deixar a casa, a vida de Shaka, finalmente. Aquilo tudo foi um sonho, um belo sonho que tinha acabado. Quando ele saiu, Shaka permaneceu no mesmo lugar por alguns minutos, parado, letárgico. Só muito depois, caminhou até a porta principal fechando-a. fechando definitivamente aquela página de sua vida.
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Aiolia encontrou Milo num sofisticado bar no centro de Tóquio. O loiro bebia uísque e passeava os olhos pelo local tranquilamente.
O leonino se sentou a sua frente, e seus olhos deixavam transparecer a inquietação de sua alma.
- O que foi, Aiolia? Ainda aquela história do Shaka? – riu Milo – Você está ficando meio paranóico,o Mu vai acabar com ciúmes!
- O Mu sabe perfeitamente o que o Shaka significa pra mim, tenha certeza que ele nunca pensaria bobagens. Agora me admira você, Seferis, de uma hora pra outra concordar com as loucuras do loiro!
- Não concordei com nada. – retorquiu Milo – Só compreendi que não tenho o direito de me intrometer, e você deveria fazer o mesmo!
Os olhos verdes de Aiolia se prenderam aos de Milo que, imediatamente, desviou. O escritor sorriu. Eles se conheciam há muito tempo, tempo suficiente para reconhecer cada expressão do outro.
- Fala logo, Milo, o que aconteceu que fez com que mudasse de ideia tão fácil? – Aiolia perguntou intrigado – Você não é assim! Você é mais teimoso que eu!
- Por que não diz a verdade, Milo? – os dois gregos se voltaram para Camus que estava parado próximo a mesa com os braços cruzados.
O loiro baixou o olhar, e o francês se sentou, pedindo licença, depois apoiou o rosto nas mãos, continuando a mirar o namorado.
- Perdi alguma coisa? – perguntou Aiolia incomodado.
- Camus, por favor, eu não quero falar disso. – pediu Milo, visivelmente embaraçado.
- Você sempre foi um manipulador, mon ange, - Camus declarou calmamente – E se o Aiolia adquiriu essa obsessão pela vida do Shaka, a culpa em parte é sua. Então, por que não trata de esclarecer ao nosso querido amigo, o que o fez mudar de ideia?
Milo ergueu os olhos e passou os seus pelos azuis frios do namorado e os verdes confuso do amigo.
- Mudei de ideia, porque o Camus me mostrou que estava sendo ridículo, egoísta, manipulador, tudo que ele sempre faz questão de jogar em minha cara, não é mesmo, mon ange? – ironizou profundamente irritado.
Camus permaneceu calado, encarando Milo seriamente, tanto que embaraçava o desembaraçado grego.
- O que mais estão escondendo? – perguntou Aiolia, incomodado com aquela troca de olhares, como alguém que chega no meio da piada e não entende nada.
- Tá bom, eu falo! – irritou-se o loiro – Certa vez... – parou sem jeito, coçando os cabelos cacheados – Quando éramos estudantes...
- Pare de gaguejar, Seferis, e fala logo! – irritou-se o leonino.
- Eu já fiz programa, pronto! Estão satisfeitos agora? – explodiu Milo, seus olhos marejaram. Não era uma lembrança boa, não era algo de que se orgulhasse, não por vender seus corpo, mas por outras verdades que não queria relembrar.
Aiolia piscou pasmado por um tempo, meio boquiaberto. O constrangimento de Milo era visto pelo leve rubor que cobriu sua face, e Camus permanecia impassível.
- Você não tinha esse direito, Camus, não tinha! – o loiro se levantou e jogou uma nota na mesa – Se queria que me sentisse um lixo, conseguiu! Obrigado, Camus Verseau!
Ele saiu em direção ao estacionamento, e Camus se levantou calmamente. Antes de sair olhou para Aiolia.
- Espero que compreenda porque fiz isso. – disse.
- Sim, eu compreendi. – respondeu o grego parecendo que estava muito distante dali.
Camus assentiu com a cabeça e deixou o bar. Encontrou Milo no estacionamento chutando a Ferrari alugada, furiosamente, enquanto, fumava um cigarro e tentava, em vão, achar um reboque.
O francês se aproximou dele, se encostando no carro e cruzando os braços.
- Vai me ouvir? – perguntou calmamente.
- Não! E sai de minha frente pra eu não quebrar sua cara, Verseau! – grunhiu discando um novo número.
- Já disse o quanto você fica incrivelmente sexy zangado? – o ruivo observou, o que fez o grego parar e o encarar. Sempre acontecia isso quando Camus fazia um comentário que não era bem próprio dele; e o ruivo já os fazia exatamente porque sabia que somente assim, o teimoso loiro o escutaria.
- Que porra você quer agora, Camus? – perguntou – Já fiz o que você queria, custa me deixar em paz?
- Milo, me desculpe, sei que essa história o magoa, mas foi necessário.
- Necessário me expor? Expor fatos que quero esquecer? – o loiro estava desolado – Sabe, Camus, você era o único que sabia disso, o único! Você não podia usar isso contra mim!
Camus saiu da posição em que estava e se aproximou do loiro, tirando o celular de uma de suas mãos, e o cigarro da outra.
- Escute-me, Milo, não fiz isso para convencer o Aiolia, fiz porque já era hora de você confrontar esse passado que tanto o incomoda. Não tente dizer que não, eu sei que sim.
O loiro baixou a cabeça.
- Sim, incomoda tanto que preferiria esquecer.
- Sei disso, mas as coisas não são assim, precisamos confrontar nossos demônios e não deixá-los escondidos num baú, porque um dia eles voltam a nos assombrar. Sei que quando viu o Shaka envolvido com aquele rapaz, foi isso que aconteceu, seus demônios voltaram. Você achava que ele não era capaz de ser sincero, porque um dia você também foi leviano, e no fundo, ainda acha que é...
- Não é isso...
- É isso sim, Milo Seferis, você em seu íntimo acredita que ainda é o rapaz de dezoito anos que vende o corpo e se aproveita de mulheres e homens carentes e abandonados. Você nunca conseguiu se livrar dessa sensação, então, quando viu o garoto com o Shaka, era como se estivesse se vendo no passado.
Milo continuava calado, a respiração um pouco ofegante, os olhos úmidos pela sensação de humilhação e derrota que sentia.
- Ainda assim, não tinha essa direito... – murmurou o loiro – Estou há tanto tempo tentando esquecer isso, Camus! Você não entende, nunca entenderá!
- Entendo sim, você que não entende que o que fez, mesmo sendo errado, não foi um crime, foi apenas a forma que encontrou de sobreviver àquela época.
- Não, Camus, eu não só vendia meu corpo,sendo sincero, não ligo a mínima pra isso! Isso nunca me incomodou de verdade... – desabafou o escorpiano – Mas eu seduzia, me aproveitava das pessoas, me aproveitava das pessoas que se apaixonavam por mim, é isso que faz com que me sinta horrível!
- Isso acabou, Milo, você não faz mais isso, não pode se culpar a vida toda. Acabou. Vem cá... – o ruivo o envolveu nos braços num carinhoso abraço – Você é uma pessoa maravilhosa, Milo Seferis, cabeça dura e manipulador, mas mesmo assim, uma pessoa maravilhosa, e tenho muito orgulho de você.
- Me beija, Camus...
- Aqui não...
- Aqui sim... – volveu o escorpiano e tomou os lábios do amante num beijo ardente, afundando as mãos em seus cabelos lisos. Camus sorriu contra aquela boca carnuda que o devorava, saboreando seu sabor mentolado aliado ao áspero gosto de cigarro.
- Para, Seferis, vamos para o hotel... – disse o afastando e envolvendo seus ombros – Já chamei um reboque, amanhã você pega seu carro.
Milo olhou para o carro enquanto seguia com Camus em direção ao carro do francês.
- Chamou o reboque? Quando?
- Quando estava esvaziando o pneu, claro!
- Camus, você esvaziou o pneu do meu carro? – perguntou indignado.
- Conheço bem suas reações, furacão grego... – sorriu com o canto dos lábios. Milo acabou rindo também, descansou a cabeça no ombro do ruivo e seguiram de volta ao hotel.
-OOO-
Amanheceu. Manhã de uma noite insone para Shaka, mas com muitas questões a resolver. Ainda não passava das oito quando recebeu a ligação de Saori. Em menos de duas horas, a moça chegou ao seu apartamento.
- Bom dia, Shaka... – cumprimentou.
- Bom dia, Saori.
Ela mirou o indiano por um tempo, mas achou melhor não comentar nada. Não era da sua conta.
- Vamos? A Sayaka está esperando, é melhor que ela não fique nervosa.
- Sim, claro! – concordou o escritor – Só me deixe pegar um agasalho, está muito frio hoje.
Saori mirou, pela janela, o belo dia que fazia em Tóquio, onde um sol forte brilhava.
- Shaka, você está bem? – forçou-se a perguntar, preocupada.
- Acho que me resfriei, só isso, estou bem. – disse, pegou um casaco no quarto e seguiu com Saori; Seiya os esperava no carro, e eles rumaram a toda velocidade para a casa da tia de Ikki.
Seiya estacionou o carro a alguns metros da residência. Shaka pegou a maleta com o dinheiro e a pasta com os papéis que a mulher deveria assinar.
- Me esperem aqui. – pediu o escritor.
- Por quê? – Seiya protestou. Conhecia muito bem a tia de Ikki, e sabia que não era nenhuma flor que o loiro devesse cheirar – Você não deve entrar com esse dinheiro e sozinho, Shaka, sei lá, e se ela contratou algum marginal para roubar você?
O indiano riu, abrindo a porta do carro.
- Você anda assistindo filmes demais, Seiya, tenha certeza, me roubar não é bem o que a Sayaka quer comigo! – balançou a cabeça, e o rapaz japonês se entreolhou com a noiva.
- Shaka, tem certeza? – insistiu Saori.
- Por Buda! O que uma mulher pode fazer a um homem do meu tamanho? – irritou-se o loiro – Começo a achar que o problema sou eu! Todos querem me proteger!
Adiantou-se a entrar na casa da tia de Shun; não ficaria ali ouvindo tolices.
Ao contrário das vezes em que entrou naquela casa, dessa vez, o ambiente estava limpo, perfumado e aconchegante. As janelas e cortinas estavam abertas, e o ar fresco corria livremente. Shaka sorriu, apreciando o ambiente de tons claros, parecia que Sayaka finalmente tinha se livrado do estado constante de embriaguez.
Chamou pela mulher, e ela pareceu minutos depois sorrindo. Estava arrumada e perfumada. Os cabelos negros soltos e penteados, um vestido simples rosa cobria seu corpo, e um rubro batom os lábios.
- Shaka, que bom que veio! – sorriu encantadoramente.
- Olá, Senhora Sayaka, vejo que está bem melhor.
- Sim, estou à procura de novos rumos em minha vida.
- Isso é bom. – sorriu o loiro sem jeito, enquanto a mulher se aproximava.
- Hum... você tem palavra... – disse ela – Falou que voltaria e voltou, agora, será que trouxe algo mais que me interesse, além de sua presença?
O escritor resolveu ignorar a provocação da mulher.
- Trouxe sim, mas primeiro assine os papéis de adoção. – pediu se sentando, com certo incômodo, no sofá.
Sayaka se sentou ao lado do loiro e examinou os papéis. Estava surpresa que Ikki houvesse concordado em receber o dinheiro do escritor, tão orgulhoso que era o sobrinho, mas pensava que isso também não era de sua conta, só precisava do dinheiro e pronto! Sairia da vida dos sobrinhos e todos seriam felizes.
Pegou uma caneta e começou a assinar.
- Como convenceu meu sobrinho? – perguntou enquanto assinava, sendo vencida pela curiosidade.
- Isso não vem ao caso. – engoliu em seco o escritor – Preciso que assine todas as vias.
Sayaka sorriu, erguendo os olhos pretos para mirar o rosto sério de Shaka, maliciosamente.
- Você é sempre tão formal?
- Sim, sempre.
- Até com o Ikki?
- O que quer dizer? – o loiro ruborizou mesmo se odiando por isso.
Sayaka soltou uma risada charmosa.
- Ah, é claro que vocês são mais que amigos. Não sou boba a ponto de acreditar que faria isso por qualquer um...
Shaka baixou o olhar e suprimiu um suspiro.
- Posso lhe garantir que não tenho nada com seu sobrinho, agora assine.
A mulher estancou a caneta e descruzou as pernas, colocando os papéis sobre a mesa de centro. Shaka a encarou, aborrecido e surpreso.
- Então fica mais fácil... – declarou Sayaka e o empurrou no sofá enquanto subia em seus quadris – Se você fosse do Ikki, com certeza, não tentaria nada...
- Quer sair de cima de mim? – pediu Shaka irritado e embaraçado.
- Eu o quis assim que o vi, Shaka, vamos lá, não sou tão repulsiva assim. Veja, arrumei tudo porque estava esperando você, sabe há quanto tempo não me arrumo? Sabe há quanto tempo não dou a mínima pra nada em minha vida?
Shaka arregalou os olhos. Não! Aquilo só poderia ser um pesadelo, ou então seus feromônios estavam descontrolados. Ikki, Saga, e agora, Saiyaka! Era gente demais em sua vida sentimental. Estava solitário há anos, agora recebia uma superdose de pretendentes.
- Eh... senhora, digo, Sayaka, por favor, as coisas não são assim... sabe, eu... bem...
- Shaka... – a mulher disse com voz lânguida – Só quero um momento contigo, só um. Estou cansada dos amantes vagabundos que arranjo. Você é tão diferente deles! Tão cheiroso, tão elegante, tão...lindo...
O loiro encarou a mulher e suspirou.
- Sayaka, sinto muito, eu...
- Só dessa vez, aí assino tudo que quiser... – ela afagou os cabelos do loiro, e Shaka fechou os olhos fortemente.
- Não, não, sinto muito... – insistiu o escritor, mas a morena o prendeu fortemente entre as pernas, o que fez o indiano arregalar os olhos.
- Não o deixarei fugir, e só assino a papelada depois, essa é minha condição.
Shaka resignou-se. Soltou um suspiro pesado e derrotado. O que faria? Prometera a Shun que ele e o irmão estariam livres da tia, e ele, Shaka Phalke, sempre cumpria sua palavra.
- Está bem. – a voz saiu quase um queixume, e ele virou o rosto para fugir dos lábios da mulher que o puxou pelo queixo.
Sayaka sorriu.
- Juro que não tirarei nenhum pedacinho de você... – murmurou.
"Bem, ao menos, é por uma boa causa..." pensou o loiro ao receber os lábios carnudos e vermelhos da mulher contra os seus.
Minutos depois, do lado de fora, um Peugeot preto estacionava e Ikki descia, dando de cara com Seiya e Saori que estavam parados, nervosos, na calçada.
- Seiya, Saori? – exclamou o moreno surpreso.
Os dois mais jovens empalideceram.
- Ikki, o que você faz aqui? – quase gritaram.
- Eu... – interrompeu-se, mirou a casa, e depois os dois novamente – O que está acontecendo?
- Bem, Ikki, é que... – Seiya tentou, mas não conseguiu. Ikki começava a juntar alguns fatos estranhos da noite anterior. Shun saíra com Saori e Seiya, Shaka o flagrara com Esmeralda, Shaka estava com a chave de Shun quando entrou em seu apartamento, Saori e Seiya entregaram Shun muito tarde e pareciam ressabiados com alguma coisa; logo, Shaka, Seiya e Saori se conheciam ou se conheceram naquela noite. Então...
Mirou mais uma vez os dois jovens com um olhar que demonstrava o seu grau de irritação e confusão. Andou, logo em seguida, a passos largos em direção a casa. Seiya e Saori o seguiram, aflitos...
Shaka estava concentrado em arrumar os papéis que Sayaka havia acabado de assinar, quando Ikki abriu a porta. Ergueu-se por instinto para mirar o moreno que o olhava chocado.
- Shaka!
- Ikki! – disseram ao mesmo tempo.
Sayaka sentou-se no sofá, onde até então estava deitada, de supetão, mirando estarrecida o sobrinho, ajeitando o vestido no corpo.
O indiano passou as costas da mão nos lábios limpando os resquícios de batom de sua pele.
- Ikki, eu... eu posso explicar... – gaguejou totalmente embaraçado.
O moreno continuava olhando para o homem que amava, vestido apenas numa cueca boxer branca, no meio da sala de sua tia, enquanto essa permanecia seminua no sofá. Ikki bufava como um touro preste a golpear o toureiro...
Shaka continuava estático com os papéis nas mãos, Saori e Seiya olhavam a cena por cima do ombro de Ikki que não dizia nada, somente sua respiração denunciava seus sentimentos.
- Ikki... – Shaka tentou novamente – Eu...
- Cale a boca! Seu... seu...
- Ai! De novo não... – o loiro tapou os ouvidos.
- PUUUUUUUUUUUUUTO!
Continua...
Notas finais: Ai, gente! Eu sei que mereço morrer por ter deixado a bêbada tocar no Shaka, mas foi preciso para essa história entrar nos eixos já que estamos no final dela. E o Ikki mereceu provar do próprio veneno hehehehehe.
Espero que tenham gostado do capítulo, nossa! Foram quase 10 páginas só de DR entre o Shaka e o Ikki e ainda assim eles não conseguiram se entender, ETA povo sem jeito! XD... Acho que o título "Você não soube me amar" serve para os dois, aff!
Participaçãozinha mais que especial do meu segundo casal favorito, espero que tenham gostado, vamos ver o que o Aiolia vai fazer depois da revelação.
Obrigada de coração a todos que acompanha em especial aos que perdem um tempo para deixar uma review de incentivo.
Beijos ao pessoal do Nyah – Ops! Demorou hein? Espero que o site agora fique em definitivo. Maya Amamiya, Izabel, Belle_princesse, Reiko, Keronekoi, Natz_Cullen, Danieru, Mefram_Maru, Arcueid, naluza, Shunzinhaah2, liliuapolonio
Beijos ao pessoalzinho do FF que são poucos, mas valiosos; Amamiya fã, Suellen-san, K. Langley (hehehe, que bom que o Saguito deixou sua listinha negra,querida, ele é legal, eu juro! Hehehe), Kate-chan, Dani, Kojican (saudades).
Obrigada de corações a todos que estão acompanhando essa novelinha, já estou triste por ela estar terminando. Sniff...
Abraços afetuosos!
Sion Neblina
