Faça seu coração parar de chorar

Capítulo 12

Notas iniciais: Músicas do capítulo (leiam ouvindo dará mais emoção) My Immortal – Evanescence; Stop crying your heart out – Oasis, respectivamente.

Boa leitura.

-OOO-

No capítulo anterior:

Shaka estava concentrado em arrumar os papéis que Sayaka havia acabado de assinar quando Ikki abriu a porta. Ergueu-se por instinto para mirar o moreno que o olhava chocado.

- Shaka!

- Ikki! – disseram ao mesmo tempo.

Sayaka sentou-se no sofá, onde até então estava deitada, de supetão, mirando estarrecida o sobrinho, ajeitando o vestido no corpo.

O indiano passou as costas da mão nos lábios limpando os resquícios de batom que ficara em sua pele.

- Ikki, eu... eu posso explicar... – gaguejou totalmente embaraçado.

O moreno continuava olhando para o homem que amava, vestido apenas numa cueca boxer branca, no meio da sala de sua tia, enquanto essa permanecia seminua no sofá. Ikki bufava como um touro preste a golpear o toureiro...

Shaka continuava estático com os papéis nas mãos, Saori e Seiya olhavam a cena por cima do ombro de Ikki que não dizia nada, somente sua respiração denunciava seus sentimentos.

- Ikki... – Shaka tentou novamente – Eu...

- Cale a boca! Seu... seu...

- Ai! De novo não... – o loiro tapou os ouvidos.

- PUUUUUUUUUUUUUTO!

-OOO-

- Não diz isso! – reclamou o escritor – Eu... eu... eu realmente posso explicar!

- Explicar o quê? Que você está comendo minha tia? – berrou o moreno.

Shaka se ergueu e com os olhos procurou por suas roupas. Sayaka continuava estática no sofá sem saber o que fazer, afinal, nem ao menos se lembrara de que aquele era o dia do sobrinho deixar o dinheiro da pensão e do colégio de Shun. Estava tão terrivelmente animada e excitada com o encontro que havia cuidadosamente preparado, que acabou não se lembrando daquele detalhe. Mesmo porque, depois que recebesse o dinheiro do loiro, não precisaria mais da esmola de Ikki.

- Ikki, eu... olha... – Shaka realmente não sabia o que dizer; seu embaraço era evidente.

- Cale a boca! – berrou Ikki e olhou do loiro para a tia – Desde quando e por que isso está acontecendo?

Shaka o mirou confuso.

- O quê?

Ikki bufou dando dois passos em direção ao indiano que, instintivamente, correu para atrás do sofá numa tentativa infantil de se proteger. O olhar do moreno era de dar medo ao mais corajoso dos homens.

- Ikki, me escute...

- Fala o que está acontecendo então, Shaka! – vociferou inconformado. Os pensamentos perdidos, o peito a ponto de explodir – Ela chantageou você, foi isso? Ela me ameaçou, o que ela fez para que você... Merda! O que ela fez pra tirar você assim de mim?

O loiro mirou os olhos desesperado do amado. Teve vontade de abraçá-lo, de dizer que não era nada daquilo. Mas temia a fúria de Ikki, não seria imprudente a ponto de pensar que uma simples explicação resolveria as coisas entre eles, pior, achava que se dissesse o que fora fazer ali, tudo só pioraria.

Shaka pegou a calça que estava pendurada no sofá e vestiu apressado.

- Ikki, não é nada disso, eu... ela nunca me tiraria de você... foi...

- Não tenta mentir pra mim, loiro! – gritou o moreno – O que ela fez? Por que você está aqui? Preciso de explicações, por Deus!

- Espere, Ikki, você tem que se acalmar! – pediu Sayaka se erguendo, ainda ajeitando o vestido – Isso não é mesmo o que você está pensando, bem, o Shaka e eu... sabe... nós dois...

- Cale a boca, Sayaka! – pediu Shaka – Não piore as coisas.

Ikki continuava avançando com os punhos cerrados. Não entendia o que estava acontecendo, não entendia porque Shaka estava com sua tia, porque Saori e Seiya estavam ali, por que... Mirou a maleta que descansava sem atenção em cima de uma cadeira. Imediatamente, os olhos de Shaka seguiram os seus, e o indiano empalideceu mais ainda, se isso fosse possível.

- O que é isso? – perguntou o moreno pegando a maleta antes que Sayaka pudesse evitar.

- Isso é meu, me devolve agora, moleque! – bradou a mulher, mas Ikki a ignorou, puxou a trava e abriu a mala, fazendo as notas presas em elásticos caírem ao chão.

Fez-se silêncio enquanto Sayaka catava o dinheiro.

- Seu estúpido, isso é meu! – reclamava a mulher.

Os olhos escuros do moreno se voltaram para o loiro que engoliu e seco.

- O que isso significa, Shaka? – a voz do leonino foi trêmula e angustiada.

- Ikki, me desculpe, eu...

- O que isso significa? – bradou Fênix possesso, os olhos flamejando em fúria – Quem você está comprando? Quem?

Shaka saiu de trás do sofá e chegou perto do rapaz, olhando fundo em seus olhos. Ficou um tempo em silêncio, com receio. O rosto de Ikki tremia, um veia em sua têmpora esquerda pulsava de nervosismo, assim como a do seu pescoço.

- Fala! – esbravejou o mais jovem, o que fez o escritor estremecer e responder de imediato.

- O Shun...

Fechou os olhos com força ao receber uma bofetada que desalinhou seus cabelos e deixou os dedos do mais jovem marcado em sua pele alva.

- Seu pervertido filho da puta! – gritou Ikki – Meu irmão não está à venda! Eu não estou à venda, entendeu bem?

Shaka baixou o olhar, incapaz de revidar. O que diria? Explicar-se-ia? Não, não tinha forças para isso, e nem vontade. Nada saiu da forma que imaginou. Não era para ter ido pra cama de Sayaka, poderia ter revertido aquela situação. A verdade era que estava cansado demais para brigar por qualquer coisa, cansado e triste demais.

- Desculpe-me... – sussurrou somente, pegando a própria camisa e começando a se vestir, tentando realinhar os cabelos, incapaz de encarar o homem que amava.

Ikki, por sua vez, não sabia o que pensar, o que dizer e nem como sair daquela situação. Nesse meio tempo, Saori, esperta, pegou a pasta com os papéis de adoção e passou discretamente para Seiya que a escondeu debaixo da jaqueta que vestia.

Shaka estava de costa para Ikki, abotoando a camisa quando foi puxado pela mão de ferro do amante, que segurou seu braço sem delicadeza. Seus olhos estarrecidos miraram o rosto do moreno que continuava furioso.

- Ikki, o que está fazendo? Solte-me... – pediu cansado.

- Desculpe? É só isso que tem a dizer? – vociferou o mais jovem – Quero explicações, Shaka! Quero saber por quê?

Os olhos claros do escritor fitaram, aflitos e envergonhados, os escuros do garoto de programa.

- Eu... eu não tenho explicação pra isso... – murmurou e viu Ikki fechar o punho. Achou que receberia um murro, mas o moreno apenas o soltou e lhe deu as costas. Continuando com as mãos crispadas, numa tentativa extrema de autocontrole.

- Shaka, por favor, me diz a verdade... – a voz de Fênix foi um fio, e sem mais conseguir suportar a angústia daquela cena, Saori, que não gostava de se intrometer, se obrigou a isso.

- Ikki, ele fez isso para ajudá-lo...

O primogênito dos Kido se voltou. Seus olhos azul noite miraram a moça, cheios de angústia.

- Ele só queria vê-lo feliz, Ikki, ele... – Saori gaguejou.

- Mentindo pra mim? Me enganando e transando com minha própria tia? – gritou sem conseguir mais segurar as lágrimas que desceram por seu rosto.

- Você é mesmo um idiota! – disse Saori irritada – O que passa por sua cabeça? Que o Shaka está comprando o Shun para ele? Não! Ele está comprando pra você! Porque não suportava mais vê-lo infeliz, porque não suportava mais vê-lo sofrer sem nada poder fazer pra tirar o irmão da posse dessa bêbada!

- Epa, perua! Não ofende não! – Sayaka se irritou.

- E você cale a boca antes que eu te dê uns sopapos, sua... aproveitadora de loirinhos inocentes! – Saori berrou, lançando um olhar homicida pra mulher, depois, lembrando-se de que era uma lady, se recompôs e voltou a mirar Ikki – Ele fez isso porque te ama, e não merece ser tratado assim! O que pensa que está fazendo, Ikki? O Shaka se sujeitou as vontades dessa louca por sua causa e é isso que ele recebe por sua boa ação?

O moreno piscou, perturbado, depois mirou o rosto de Shaka marcado por seus dedos. Não sabia o que fazer, o que dizer, nada fazia sentido ali. Resolveu fazer a única coisa que achava prudente para não enlouquecer. Fugir. Assim, marchou, a passos largos, para fora da casa da tia, entrou no carro e deu partida, saindo o mais rápido que podia. As lágrimas desciam por seu rosto, e há tanto não chorava por ninguém. O que estava acontecendo com ele? O que acontecia desde que Shaka entrou em sua vida?

I'm so tired of being here

Suppressed by all of my childish fears

And if you have to leave

I wish that you would just leave

Your presence still lingers here

And it won't leave me alone

Estou tão cansado de estar aqui

Reprimido por todos os meus medos infantis

E se você tiver que ir

Eu desejo que você vá logo

Porque sua presença ainda permanece aqui

E isso não vai me deixar em paz

- Shaka... – Saori tentou, mas um sinal de mão, e o escritor a impediu de falar. O loiro deixou a casa de Sayaka, e caminhou devagar pela calçada em direção a lugar nenhum, querendo apenas esquecer aquilo tudo. Ikki foi embora, e sabia que ele não voltaria. Tinha que se conformar e desistir. Estava definitivamente sozinho.

Chegou à areia úmida da praia, respirou profundamente, tirou os sapatos e caminhou sentindo as ondas molhando seus pés, assim como as lágrimas molhavam seu rosto. Ele que prometeu nunca mais chorar por ninguém. Como pode ser tão tolo a ponto de deixar que aquele garoto virasse sua vida de cabeça pra baixo? Como pode ser tão tolo em pensar que ele entenderia seus atos no final? Em pensar que ele veria o tamanho do seu amor?

When you cried I'd wipe away all of your tears

When you'd scream i'd fight away all of your fears

And I've held your hand through all of these years

But you still have all of me

Quando você chorou, eu enxuguei todas as suas lágrimas

Quando você gritou, eu lutei contra todos os seus medos

Eu segurei a sua mão por todos esses anos

Mas você ainda tem tudo de mim

Ikki acelerava seu Peugeot e tentava não pensar em todo aquele pesadelo. Tentava não se lembrar de todo amor que queria arrebentar seu peito e que agora estava perdido. Não suportava mais viver aqueles sentimentos. Quando se deixou capturar por aquela armadilha chamada paixão? Ele que sempre fora tão metódico, tão auto-suficiente? Por que Shaka o enganou? Tentava entender os acontecimentos. Tentava achar explicação para tudo que vira na casa de Sayaka, mas sua cabeça estava perturbada demais para achar respostas, então ele corria...

These wounds won't seem to heal

This pain is just too real

There's just too much that time cannot erase

Essas feridas parecem não querer cicatrizar

Essa dor é muito real

Isso é simplesmente muito mais do que o tempo

Pode apagar

O céu claro de Tóquio era um contra ponto a tempestade íntima que ambos sentiam; tão perdidos, tão desesperadamente apaixonados, tão abandonados e resolutos.

You used to captivate me

By your resonating light

But now i'm bound by the life you left behind

Your face it haunts my once pleasant dreams

Your voice it chased away all the sanity in me

Você costumava me cativar

Pela sua luz ressonante

Agora eu estou limitado pela vida que você deixou para trás

Seu rosto assombra

Todos os meus sonhos, que já foram agradáveis

Sua voz expulsou

Toda a sanidade em mim

O indiano parou sua caminhada e olhou para trás. Precisava de equilíbrio, havia mais pessoas envolvidas naquela história que ele e Ikki. Não podia se esquecer de Shun, e de Saori e Seiya que tão prontamente quiseram ajudá-lo. Não. Não deixaria tudo para trás por causa de seus sentimentos pessoais. Precisava retornar, mesmo com o coração aos pedaços.

I've tried so hard to tell myself that you're gone

But though you're still with me

I've been alone all along

Eu tentei com todas as forças dizer a mim mesmo que

você se foi

Mas embora você ainda esteja comigo

Eu tenho estado sozinho todo esse tempo.

—OOO—

Quando Ikki chegou a casa, encontrou Shun assistindo televisão e comendo pipoca. O mais jovem observou o horrível aspecto do irmão e franziu o cenho. O que teria acontecido?

- Ikki...

- Você sabia, não é? – perguntou o mais velho, lutando para se controlar.

- Sabia o quê? – indagou Shun, largando o balde de pipoca.

- Não se faça de desentendido! – grunhiu Ikki, caminhando em direção do sofá onde o irmão estava, o que fez o pré-adolescente pular por cima do mesmo, e se proteger atrás do móvel.

- Do que você está falando, Ikki? – insistiu Shun, os olhos arregalados, com medo da reação do irmão. Sim, ele saíra àquela manhã com um péssimo humor, mas não esperava que voltasse pior.

- Estou falando das armações do Shaka, da Saori e do burro xucro do Seiya! – gritou o mais velho transtornado.

- Armações? Não eram armações! – gritou Shun de volta, rodando em torno do sofá para que o moreno não conseguisse alcançá-lo.

- E o que era então? Vocês me apunhalaram pelas costas! E eu esperava isso de qualquer pessoa, menos de você, Shun!

- Eu não fiz isso! – berrou o menino com os olhos marejados – Eu... eu só queria ficar com você! Não agüento mais ficar preso naquele colégio! E o Shaka só quis me ajudar porque ama você!

As lágrimas que escorreram pelo rosto do caçula terminaram de partir o coração do moreno. Ikki respirou fundo e se sentou no sofá, pesadamente. Shun continuou no mesmo lugar que estava, sem coragem de se aproximar.

- Vocês brigaram de novo? – perguntou o mais jovem – E de novo foi por minha causa?

Ikki suspirou.

- A culpa não foi sua, Shun... – falou resignado – Não era pra dar certo.

- Por que não? Você gosta dele que eu sei! E ele gosta de você. Pra mim isso é tão simples!

- Isso porque você tem doze anos e não sabe nada da vida. – resmungou o Amamiya velho e passou as mãos nos cabelos repicados. Estava cansado, frustrado, infeliz, tentando organizar os próprios pensamentos e sentimentos. Mas não conseguia.

- Posso não saber nada, mas sei que pessoas que se gostam devem ficar juntas! – disse o mais novo – Por favor, Ikki, vai atrás do Shaka, não deixe que ele vá embora! A gente já não tem ninguém, a vida toda foi assim! Sempre sozinhos! Eu não quero perder o Shaka também!

Ikki sentiu um nó na garganta com as palavras e as lágrimas do irmão.

- Shun, eu...

- Não deixe que ele vá embora, Ikki, por favor... – implorou o caçula.

Os olhos azul turquesa do moreno demonstraram aflição com as palavras do irmão. Todavia, Ikki achava que aquele não era o momento de procurar Shaka, estava envergonhado com as atitudes que tivera e muito magoado com as atitudes do indiano. Ainda assim, seu coração apaixonado queria vê-lo, temia deixá-lo triste, vulnerável, ao mesmo tempo em que dizia que ele era um puto, cachorro e outros predicados elogiosos do tipo. Ah, por que não conseguia pensar com clareza? Entretanto, algo mais que tudo, fazia seu peito sangrar; o tapa! Zeus! Ele bateu em Shaka! Como pode fazer algo tão idiota e doentio? Seus pensamentos fervilhavam, e sabia que não teria paz enquanto não resolvesse aquele assunto de uma vez por todas. Enquanto não entendesse realmente as atitudes do loiro, enquanto não ouvisse sua voz...

- Shun, não sai de casa, eu... eu preciso sair. – disse se erguendo do sofá.

- Ikki, aonde... – Já era tarde, o irmão já havia partido.

-OOO-

A campainha tocou por três vezes, antes de Milo abrir a porta. Seus olhos adquiriram uma expressão confusão ao ver Shaka que entrou sem esperar que o escorpiano o convidasse.

- O que aconteceu? – perguntou Milo estranhando a atitude do amigo sempre tão formal.

- Preciso ir embora. Não há mais nada a fazer no Japão, e sou tão pateticamente dependente de você que não sei como arranjar um voo de emergência. – proferiu o loiro se deixando cair no sofá da luxuosa suíte. Antes de decidir ir embora, voltara à casa de Sayaka a tempo de encontrar Saori e Seiya e se certificar que tudo correra como combinaram. Shun estava salvo, ficaria com Ikki. Isso, ao menos, o deixava mais aliviado, embora não abrandasse a dor em seu coração.

- E por que você quer ir tão rápido? – o grego o encarou com olhos felinos, e Shaka o encarou também, resignado. Não conseguiria mentir para Milo nem se quisesse, afinal, se conheciam quase que a vida toda.

- Tudo não passou de um sonho, Milo, um sonho que acabou. Acordei! – sorriu, tentando demonstrar uma indiferença que estava longe de sentir – O... o Ikki não é quem eu pensava e...

- Deixe de tolices! – Milo o interrompeu – Não venha me dizer que descobriu agora que não ama aquele rapaz?

- Não importa. Amando-o ou não, tenho que ir embora. Por favor, providencie as passagens! – o indiano ergueu-se e sairia do apartamento, mas no caminho, acabou trombando com Camus que entrava.

- Shaka, que surpresa! – disse o ruivo, cordialmente.

- Oi, Camus, já estou de... – não completou a frase porque a mão de ferro do francês se fechou em seu braço, e ele se viu sendo arrastado, de costa, de volta a sala.

- Camus! O que está fazendo? – perguntou chocado e irritado ao mesmo tempo.

- O que foi isso em seu rosto, senhor Phalke? – indagou o escritor francês.

- Isso o quê? – Shaka se vez de desentendido.

- Que tal esse hematoma bem no meio de suas fuças? – Milo indagou cruzando os braços – Achou que não tinha visto?

Shaka ergueu os olhos aos céus. Não, de novo não! Não suportaria mais uma das crises de zelo dos amigos.

- Eu estou bem. Direi uma coisa a vocês; é extremamente desconfortável para um homem ser tratado como uma flor de laranjeira! Eu não sou de cristal, não sou uma donzela em perigo e nem muito menos uma criança que precisa da proteção de vocês! – irritou-se o indiano – Por todos os deuses hindus, parem com isso!

- Nos preocupamos com você. – disse Camus sem perder a calma – E não gostamos de vê-lo machucado.

- Camus, não estamos mais na escola, ok? – volveu Shaka – Não sou o adolescente nerd que você precisa proteger, aliás, nunca precisei de proteção!

Milo suspirou e balançou a cabeça.

- Não quero estar aqui quando o Aiolia ver isso em seu rosto!

Shaka empalideceu. De todos seus amigos lunáticos, Aiolia era o pior.

- Estou falando sério! Isso não foi nada, eu... eu não admito que falem para o Aiolia! Ikki e eu... nós tivemos uma briga só isso, ele está bem pior, eu juro!

Milo caiu na gargalhada.

- Conta outra, Phalke, você não seria capaz de machucar uma mosca!

- Não seria mesmo, minha filosofia de vida condena a violência e... – Shaka se interrompeu vencido, percebendo que caíra na armadilha de Milo – Por favor, não digam nada ao Aiolia, foi só um tapa.

- Eu não contarei nada ao Aiolia, mas não posso prometer pelo Milo. – disse Camus – Bem, estou cansado, vou tomar um banho.

O francês se dirigiu ao quarto, deixando os dois loiros na sala.

- Milo, por favor, faça o que pedi, e não conte nada ao Aiolia, ok?

- Tudo bem, eu não vou falar nada. – o grego o encarou sério – Mas, você vai sentar agora aqui comigo e me explicar tudo que está acontecendo entre você e aquele rapaz.

Shaka resignou-se, suspirou e voltou a se sentar.

- Ah, Milo, acho que fiz tudo errado.

E então, o escritor narrou todas as suas ações, e o fático resultado que elas causaram naquela manhã.

- Ai, que nojo, Shaka! – exclamou Milo fazendo uma careta – Você comeu a bêbada!

- Quer fazer o favor de não me lembrar disso? – pediu o indiano, sentindo um arrepio de repulsa – Eu precisava ajudar aquela criança. E mesmo que o Ikki não entenda o que fiz, fico feliz por ter ajudado o Shun.

- Ah, meu amigo, você sempre pensando no bem da humanidade. – tornou Milo esticando as pernas – Mas, chegou o momento de pensar um pouco em você também.

- Por isso quero ir embora o mais rápido possível. Acabou, Milo, de verdade agora.

- Acho que deveria procurá-lo e explicar tudo.

- Ele não quis me ouvir, acho que, na verdade, estava com tanta raiva do que viu entre a tia e eu que não conseguiu ouvir nada. Não tiro a razão dele, mas... o que fiz não foi por motivos egoístas, não foi por prazer, e ele deveria me conhecer o bastante para saber disso!

- Shaka, pense um pouco. – pediu Milo com carinho – Ele é um garoto, ele ama você, mas é difícil para ele compreender tudo isso, inclusive os próprios sentimentos; eu também ficaria puto se visse o que ele viu! Não seja radical.

Shaka sorriu mais uma vez com tristeza, e lutou para que a dor não se transformasse em lágrimas.

- Não estou sendo, acredite. O que aconteceu hoje só confirmou tudo que já sabia. Ikki e eu conversamos ontem, vimos que não daria certo.

- Por quê?

- Porque somos diferentes. – Shaka se levantou – Não o entendo, Seferis, antes estava pronto a me convencer de que eu estava sendo romântico e tolo em continuar com essa ilusão. O que aconteceu para que mudasse de ideia?

- Há coisas sobre mim que você não sabe, Shaka, mas esse não é o momentos de falarmos disso. – Milo sorriu – Quero que você vá pra casa e descanse, farei o que me pediu.

- Agradeço.

O indiano se virou e começou a caminhar para a porta.

- Ah, Shaka, só mais uma coisa!

- O quê? – virou-se, contrafeito.

- O Saga quer vê-lo hoje, disse ser importante.

- Tudo bem. – concordou o indiano e partiu.

Assim que Shaka desapareceu pela porta, Milo ergueu-se num pulo e pegou o telefone.

- Alô? Aiolia, olha, preciso que você e o Mu venham a minha suíte. É urgente!

-OOO-

Saori conversava com o advogado, sobre os últimos detalhes para a adoção de Shun por Ikki. A jovem herdeira estava apreensiva, pois seria necessário que o rapaz comparecesse a presença de um juiz junto com a tia para concretizar a adoção. Como conseguiria convencer Ikki, sem Shaka?

Coçou a extensa cabeleira e mordeu a caneta. Precisava de Seiya para ajudá-la a pensar em algo, e o noivo não estava ali, estava na faculdade e só o encontraria à noite. Contudo, ansiosa como era, queria resolver logo aquilo.

- Então, eu volto amanhã, Saori. Espero que já tenha conversado com o rapaz até a audiência.

- Eu também, Dr. Hiroshi, obrigada. – sorriu e atendeu ao telefone que tocava. Gelou com o que a secretária dizia.

- Não, claro! Pode deixá-lo entrar.

Não demorou dois minutos depois que o advogado saiu, e Ikki adentrou a sala da moça.

- Ikki, sinceramente, não esperava vê-lo aqui depois do ocorrido pela manhã. – disse Saori na defensiva, se erguendo da cadeira – Espero que não tenha vindo aqui pra brigar.

- Não, Saori. – proferiu sério e taciturno – Vim aqui tentar entender como tudo isso aconteceu.

A moça suspirou de alivio e voltou a se sentar em sua cadeira.

- Então, sente-se, contarei tudo e espero que, agora, você possa me ajudar a resolver essa história da melhor forma possível.

Ikki, resignado, resolveu escutar aquela que até então, ele via como uma inimiga.

-OOO-

Shaka estava embalando suas coisas em duas caixas de papelão. Era tudo que tinha do que vivera no Japão. Tudo do mês mágico que já não existia. Precisava parar de chorar e começar de novo. Tentou fazer tudo certo, tentou ajudar Ikki, ajudar Shun. Alguém tentou ajudá-lo? Ninguém. E ele estava definitivamente cansado de sofrer.

Hold on!

Hold on!

Don't be scared

You'll never change what's been and gone

May your smile (May your smile)

Shine on (Shine on)

Don't be scared (Don't be scared)

Your destiny may keep you warm

Segure-se!

Segure-se!

Não tenha medo

Você nunca mudará o que aconteceu e passou

Talvez seu sorriso (talvez seu sorriso)

Brilhe (brilhe)

Não tenha medo (não tenha medo)

Seu destino pode mantê-lo aquecido

Era hora de esquecer, hora de partir, hora de desistir do amor que fazia seu peito sangrar como o de um amaldiçoado. Pegou, em meio a vários papéis, um envelope com algumas fotografias. Seu coração falhou. Observou uma foto onde estava com Ikki e Shun, tirada naquele final de semana que passaram juntos no hotel...

Lutou contra a onda de lágrimas que se apossou de seus olhos. Além de tudo, aquilo! Ikki o transformara num chorão, um sentimental, para depois abandoná-lo.

Precisava se erguer, precisava lutar para fugir daquele abismo, daquele imensurável caminho de dor.

'Cause all of the stars

Are fading away

Just try not to worry

You'll see them some day

Take what you need

And be on your way

And stop crying your heart out

Porque todas as estrelas

Estão desaparecendo

Apenas tente não se preocupar

Você as verá algum dia

Pegue o que você precisa

E siga seu caminho

E faça seu coração parar de chorar

-OOO-

Duas lágrimas molharam o rosto de Ikki quando Saori finalmente terminou de narrar tudo que ele não sabia. E para completar com chave de ouro o abismo em que caiu, a jovem herdeira disso ao final:

- Tudo que ele fez foi por amor, Ikki, por amor a você...Ele não merecia o que você fez...

Get up (Get up)

Come on (Come on)

Why you scared? (I'm not scared)

You'll never change what's been and gone

Levante (levante)

Venha (venha)

Por que você está assustado? (Não estou assustado)

Você nunca mudará o que aconteceu e passou

Ikki nada disse, se ergueu e saiu rápido, sem olhar pra trás, precisava encontrá-lo, precisava pedir perdão, olhar para Shaka e dizer que fez tudo errado, que estava cego pelo medo de perdê-lo. Que foi um imbecil, um egoista!

Entrou no carro e deu a partida. Já era noite, hora do rush, e acabou preso num engarrafamento enquanto observava o céu ficar cada vez mais pesado, tão pesado quando seus pensamentos, quanto seu coração. Perderia Shaka.

- Alô! – Shaka atendeu o telefone – Oi, Saga!

- Shaka, estou esperando por você. Aliás, não canso de esperar por você.

O indiano riu, embora seu coração estivesse aos pedaços.

- Você sempre de bom humor. Não se preocupe, estou terminando de embalar minhas coisas, em meia hora estarei aí.

- Você vai embora mesmo?

- Sim, definitivamente.

Desligou o telefone. Guardou as fotos, e deixou que as lágrimas rolassem em fim, prometendo que seriam as últimas.

'Cause all of the stars

Are fading away

Just try not to worry

You'll see them some day

Take what you need

And be on your way

And stop crying your heart out

Porque todas as estrelas

Estão desaparecendo

Apenas tente não se preocupar

Você as verá algum dia

Pegue o que você precisa

E siga seu caminho

E faça seu coração parar de chorar

Ikki perdeu a paciência, abandonou o carro no meio do engarrafamento, e saiu correndo entre os outros veículos. Seu coração nunca lhe dera um aviso tão forte. Era como se ele dissesse que perderia Shaka para sempre se não o encontrasse imediatamente, se não dissesse imediatamente que o amava.

Shaka lacrou a última caixa. Fez questão de deixar o envelope com as fotos sobre uma cômoda; que o novo morador fizesse o que quisesse com elas. Não levaria aquelas recordações consigo, já bastava as que não poderia abandonar.

Vestiu um casaco, pois ameaçava chover e Tóquio começava a esfriar...

'Cause all of the stars

Are fading away

Just try not to worry

You'll see them some day

Just take what you need

And be on your way

And stop crying your heart out

Porque todas as estrelas

Estão desaparecendo

Apenas tente não se preocupar

Você as verá algum dia

Pegue o que você precisa

E siga seu caminho

E faça seu coração parar de chorar

Ikki corria desesperado na noite fria, estava a algumas quadras quando Shaka fechou a porta de casa. Saga o esperava, e ele não ficaria remoendo suas dores, tinha coisas a fazer.

Where all us stars

We're fading away

Just try not to worry

You'll see us some day

Just take what you need

And be on your way

And stop crying your heart out

Nós somos todas as estrelas

Nós estamos desaparecendo

Apenas tente não se preocupar

Você nos verá algum dia

Apenas pegue o necessário

E siga seu caminho

E faça seu coração parar de chorar

Ikki dobrou a esquina no momento que um táxi saía da frente do harmonioso prédio. Não teve tempo de ver que era o escritor quem entrava nele. Subiu as escadas correndo, sem se preocupar em cumprimentar o pobre senhor Nakamura. Empurrou a porta que não estava trancada – Shaka, sempre descuidado quando a questão era segurança – mas o apartamento estava vazio. Não pode se conter, chorou, e seu olhar escorregou para o envelope sobre a cômoda. Caminhou até ele o segurando com mãos trêmulas e retirando as fotos daqueles dias em que foram tão felizes. Felizes como nenhum dos dois jamais pensou que seria.

Deixou as fotos cairem ao chão e encostou a cabeça na parede, soluçando. Acabou. Perdera Shaka para sempre. Seu coração lacerado não conseguiria mais continuar...

- Pare de chorar, rapaz. – ouviu a voz grave atrás de si, e virou-se lentamente.

Where all us stars

We're fading away

Just try not to worry

You'll see us some day

Just take what you need

And be on your way

And stop crying your heart out

Nós somos todas as estrelas

Nós estamos desaparecendo

Apenas tente não se preocupar

Você nos verá algum dia

Apenas pegue o necessário

E siga seu caminho

E faça seu coração parar de chorar

Stop crying your heart out

Faça seu coração parar de chorar

Parados na entrada do apartamento, quatro homens o observavam. Dois ele conhecia muito bem, eram seus contratatantes, e dois, vira somente uma vez, mas sabia que eram amigos de Shaka.

- Chorar não o trará de volta. – disse Milo cruzando os braços.

- Isso mesmo. – disse Aiolia sério – Temos muito que conversar.

Mu se adiantou até Ikki e, solidariamente, pôs a mão em seu ombro. O moreno baixou o olhar, envergonhado por ser visto num momento tão vulnerável.

- Ainda não acabou. – disse o tibetano – Enxugue essas lágrimas. Hora de continuar...

Where all us stars

We're fading away

Just try not to worry

You'll see us some day

Just take what you need

And be on your way

And stop crying your heart out

Nós somos todas as estrelas

Nós estamos desaparecendo

Apenas tente não se preocupar

Você nos verá algum dia

Apenas pegue o necessário

E siga seu caminho

E faça seu coração parar de chorar

Stop crying your heart out

Faça seu coração parar de chorar

Continua...

Notas finais: Caros, em fim, esse foi o penúltimo capítulo, o próximo já está no forno.

Obrigada a todos pelo carinho e paciência.

Kao-san, Neko-sama, Izabel, Danieru, Arcueid, Mefram_Maru, Vagabond, naluza, Reiko, Keronekoi, Maya Amamiya, Shunzinhaah2, Maga do 4, Kate-chan,

Amamiya f (Menina, eu já sabia que o Ikki é a possível reencarnação o Kagaho em Lost Canvas, mas não fica triste não, ele é bem o Ikki, vc precisa ler, ele é fiel a Hades, mas tem um bom coração, tanto que o Hasgard de touro reconhece isso quando eles lutam e ele até salva Tenma da morte. No Japão onde a onda Ikki e Shaka casal yaoi é muito grande, cobraram do sapo Kururu o encontro entre ele e Asmita, pena que isso não aconteceu, sniff... Bjus!).

Abraços a todos, mesmo os silenciosos.

O próximo capítulo é o último.

Até!

Sion Neblina