As personagens de Inuyasha não me pertencem e possuem todos os seus direitos reservados.


CAPÍTULO II

Sesshoumaru havia planejado tirar a barba quando chegasse a Phoenix. Porém, quando viu seu reflexo no espelho do banheiro naquela manhã, duvidou que pudesse expor o rosto e a expressão triste e frustrada que os pêlos prateados escondiam.

Rin havia programado o relógio para despertá-lo às dez horas. Isso lhe deu tempo suficiente para tomar banho e preparar alguma coisa para comer antes da reunião de pré-produção agendada para as onze e meia.

Enquanto se vestia, balançou a cabeça, espantado consigo mesmo. Perguntava-se o que ainda estava fazendo na cidade. Durante a manhã toda, tinha oscilado entre as opções de que dispunha. Podia subir em sua moto e sumir dali o mais rápido possível. O problema era que havia prometido a Rin que a ajudaria nas gravações. Claro, quando fizera a promessa, não sabia que ela estava apaixonada por outro homem. Outra alternativa seria ficar por perto e sabotar as tentativas dela de chamar a atenção do advogado. Poderia, então, oferecer seu ombro amigo enquanto ela superava a decepção amorosa. Ou ainda, o que era mais provável, poderia agir como o velho e bom amigo e ajudá-la. Seria fácil fazê-la ser notada por um homem rico e bem-sucedido, capaz de oferecer o estilo de vida que ela sempre quisera... O mesmo tipo de vida que ela jamais teria ao lado dele, não importava quanto dinheiro tivesse no banco.

Rin sempre gostara da cultura, do requinte e do reconhecimento que acompanhavam a riqueza. Ele, ao contrário, preferia o anonimato. Podia ficar sócio de um clube de campo refinado ou comprar o melhor vinho que qualquer vinícola do mundo pudesse oferecer, mas não estaria sendo autêntico. Preferia assistir a um jogo de futebol pela televisão, bebendo uma cerveja gelada.

Na verdade, ele era feliz sendo o que era. Tinha um trabalho de que gostava, roupas confortáveis e liberdade. O fato de contar com quase meio milhão de dólares em sua conta bancária não mudava nada, exceto, talvez, a marca da cerveja que consumia e os lugares que visitava nas férias. Claro, apreciava viver com conforto e ter dinheiro para gastar em cinema, música ou qualquer outro tipo de entretenimento que lhe viesse à cabeça. No entanto, não via necessidade de ostentar a riqueza como uma bandeira. A jaqueta de couro preto era bem-vinda no clube local que freqüentava. Não tinha de se preocupar com trajes sociais. Porém, não era essa a vida que Sandy almejava, pensou com desgosto ao colocar os óculos de sol. As botas e a jaqueta ainda estavam úmidas, mas vestiu- as mesmo assim. O vento quente do Arizona secou os longos cabelos enquanto ele conduzia a Harley Davidson até a rua 44, onde se localizava o escritório da Vídeo Enterprise, a companhia da qual Sandy orgulhava-se de ser proprietária. Era abril, e finalmente havia parado de chover. O sol estava alto no céu e o clima quente anunciava que o verão seria abrasador.

Sesshoumaru entrou no estacionamento sem ter decidido o que fazer. Optou, então, por esperar para saber exatamente quem era Kohako Yamamoto IV antes de definir uma posição. Ademais, se optasse por ir embora, tinha de pensar numa boa desculpa. Rin contava com ele no projeto da campanha.

Abriu a porta da frente e entrou no ambiente frio e impessoal do saguão. Enquanto se dirigia para o segundo andar do casarão que Rin transformara na sede da empresa, tirou os óculos de sol e pendurou-os no decote da camiseta. Ao deparar-se com seu reflexo no imenso espelho na parede do hall, quase não se reconheceu. Os cabelos longos e a barba, combinados com os músculos avantajados, faziam com que parecesse um motoqueiro transviado. Por um segundo, arrependeu-se de não ter se barbeado antes de sair. Caminhou até a sala de reuniões, que era um lugar bastante amplo. Imensas janelas davam vista para a paisagem do deserto e havia uma grande mesa oval no centro, rodeada por cadeiras confortáveis.

Em que posso ajudá-lo, senhor? — Jakotsu Matsumoto, assistente de Rin, o interceptou logo que o viu entrar.

Olá, Jakotsu — ele saudou, notando que, por trás dos óculos, os olhos do rapaz se arregalaram de surpresa.

Sesshoumaru! Meu Deus, pode ser um choque para você, mas sabia que está coberto de pêlos?

Sesshoumaru riu e fez uma mesura afetada.

É o meu novo estilo. Gostou?

Jakotsu cruzou os braços e o estudou de cima a baixo.

Para um homem que costuma provocar desmaios das mulheres quando passa na rua, você está irreconhecível — disse por fim. — Para dizer a verdade, parece que acabou de ser resgatado de uma ilha deserta.

Jakotsu, quando alguém pede uma opinião, não espera que se diga a verdade. Já ouviu falar de uma regra de etiqueta chamada "tato"?

Reservo o "tato" para as damas aristocráticas que jamais dizem o que pensam, e não para você. — Jakotsu abaixou a voz. — Sabia que a chefe não teve um único encontro desde que você esteve aqui da última vez?

Os dois se viraram para o outro extremo da sala, onde Rin estava parada perto da janela conversando com um homem que só podia ser Kohako Yamamoto IV. Sesshoumaru sentiu o coração afundar quando notou o terno elegante, obviamente talhado sob medida por um alfaiate, e a sensação piorou ao ver como o homem combinava com o traje. Era alto e forte, com ombros largos e corpo atlético. O porte altivo condizia com os traços do rosto aristocrático. Praguejou baixinho. Kohako parecia ter saído diretamente das páginas de uma revista de moda masculina.

Como você consegue manter um relacionamento platônico com alguém como a chefe é o maior mistério do mundo Sesshoumaru. — Jakotsu olhou no relógio. — Sente-se e fique à vontade. A reunião já vai começar.

Sesshoumaru cruzou a sala na direção da mesa de conferências e ocupou uma cadeira imediatamente à esquerda da cabeceira, onde sabia que Rin se sentaria. Observou-a conversar com Kohako. Os ombros dela estavam tensos, assim como o restante do corpo, e ela era incapaz de manter contato visual com ele. Nunca a vira tão nervosa. As mãos apertavam com força a valise, que ela segurava de encontro ao peito como se fosse sua tábua de salvação. Por fim, Rin olhou para o relógio e disse alguma coisa. Os lábios se curvaram com timidez, o que não era nem sequer a sombra do seu sorriso habitual. Sesshoumaru se reclinou na cadeira. Se Riny não relaxasse, Kohako veria apenas uma imitação insignificante dela. Os cabelos presos num coque e o tailleur conservador abafavam toda a sua sensualidade inata. Ela dirigiu-se à mesa e, ao se sentar em seu lugar, deu-lhe um sorriso caloroso.

E pensar que tive todo aquele trabalho para encontrar o aparelho de barbear que deixei na pia do banheiro hoje cedo — disse em voz baixa. — Por que não tirou a barba?

Estou gostando, e até pensando em deixá-la bem grande — ele provocou, sorrindo.

Ela abriu a boca para responder, mas sua atenção foi instantaneamente desviada para Kohako quando ele ocupou o assento à sua direita, diante de Sesshoumaru.

Sesshoumaru percebeu, irritado, que o homem era ainda mais charmoso e elegante de perto. Quando seus olhares se encontraram por um breve instante, captou o brilho de desaprovação, ou talvez de desdém, nos olhos escuros. A mensagem clara era que Kohako não confiava em ninguém com uma aparência como a dele.

Kohako Yamamoto IV não era diferente daqueles jovens que tinham zombado de Rin e dele durante os anos de escola, simplesmente por causa da forma como se vestiam, por não terem dinheiro para roupas caras. Seria possível que ela não soubesse disso? Lembrou-se, então, de que, apesar do tratamento hostil que recebera, Rin sempre havia almejado ser aceita pela elite. Se conquistasse a atenção e o coração de Kohako, conseguiria tudo o que sempre desejara. Ela havia esperado a vida inteira um homem como ele.

A flecha do ciúme que o atingiu tirou-lhe a respiração. Para disfarçar, apanhou as cópias do projeto que Rin distribuía e fez seu melhor para ignorar Kohako enquanto analisava as informações. Tinha sido designado para operar a câmera portátil e flagrar as reações espontâneas das pessoas nos comícios, além de focalizar e explorar ângulos diferentes e interessantes. Era o que mais gostava de fazer, e Rin sabia disso. Era óbvio que se importava com ele... embora não da maneira como desejava. Respirando fundo, continuou lendo e descobriu que a primeira gravação estava marcada para sábado à noite, num jantar para arrecadar fundos de campanha. Harcourt faria um discurso e Sandy pretendia registrá-lo para usar como propaganda.

Se houver alguma pergunta ou problema durante as gravações, eu não estarei disponível — Rin disse, alheia à turbulência emocional de Sesshoumaru. — Portanto, procurem o sr. Yamamoto se tiverem algum problema.

Kohako — ele corrigiu com um sorriso charmoso, voltando-se para Sesshoumaru com um olhar que parecia dizer que ele não estava incluído nesse rol.

Bem, tudo certo, então? Vejo vocês no sábado. — Rin encerrou a reunião.

Ela permaneceu na sala por alguns instantes, organizando os papéis antes de guardá-los na valise. Sesshoumaru continuava sentado ao seu lado, sem intenção de ir a lugar algum. Os cabelos repartidos ao meio, caindo sobre os olhos, e a barba comprida emprestavam-lhe certo ar bíblico, como se fosse um dos apóstolos da Santa Ceia... Exceto pelo dragão tatuado no bíceps direito, Rin pensou com um sorriso. Duvidava que algum dos seguidores de Cristo tivesse uma tatuagem.

Bem, acho que tenho tudo de que preciso — disse Kohako, interrompendo os pensamentos dela. — Vejo você no sábado à noite. O roteiro diz que devem chegar às cinco da tarde, é isso?

Sim, estaremos lá. — Ela sorriu de volta.

Ah, quase me esqueci... — Kohako retirou um envelope do bolso do paletó.

O sr. Harcourt pediu para lhe dar ingressos para o jantar dançante que ocorrerá após o discurso.

Eu não sei... — Rin mordeu o lábio. — Eu não acho que...

Ela vai ficar com eles, obrigado — interferiu Sesshoumaru, retirando o envelope das mãos de Kohako e guardando-os na valise de Rin.

Sesshoumaru é um antigo amigo da escola — ela se apressou em explicar. — É também o melhor cinegrafista que conheço. Temos sorte ao tê-lo trabalhando conosco neste projeto.

Sesshoumaru notou que Kohako o reavaliava enquanto apertavam as mãos.

— É um prazer conhecê-lo. — Os olhos escuros estavam muito mais amigáveis do que quando o tinham avaliado minutos atrás. — Então, vejo vocês no sábado.

Com outro sorriso para Rin, ele se afastou lentamente. Ela encontrou o olhar de Sesshoumaru e sorriu.

E então? O que achou dele? — perguntou ao fechar a porta da sala de conferência para ficarem a sós.

Sesshoumaru se recostou à mesa e cruzou os braços.

Ele parece ser... — Artificial? Sério? Tedioso? Todas as palavras pareciam apropriadas, mas ele não ousou dizer em voz alta. Em vez de falar, encolheu os ombros. Rin riu e também cruzou os braços.

Sesshoumaru, você definitivamente não tem o dom da palavra.

Tem razão. Prefiro as imagens.

Você acha que... — Ela hesitou, insegura. — Você acha que pelo menos ele sabe que eu existo?

Sesshoumaru olhou para o chão, evitando encará-la.

Honestamente?

Não!... Minta para mim, Sesshoumaru. — O tom irritado traiu sua impaciência. — É claro que quero que seja honesto, seu idiota!

Bem, nesse caso preciso dizer que, se você quiser ser notada, teremos muito trabalho pela frente.

Oh... — Os ombros de Rin caíram em desalento. — Acho que é melhor eu esquecer essa história.

Quer parar de se desvalorizar? — O volume da voz de Sesshoumaru subiu um tom, e Rin deu dois passos para trás, espantada. — Você é uma mulher maravilhosa, inteligente, divertida, sensual e incrivelmente desejável — ele enumerou. — Um idiota como Kohako deveria agradecer a sorte que tem por você estar interessada nele. Se quiser mesmo esse homem... Você realmente o quer?

Rin fechou a boca e assentiu.

Ótimo! Você o terá. A partir de sábado, ele passará a notá-la em tempo integral.

Tomando o braço dela, Sesshoumaru conduziu-a para a porta. Ela mal teve tempo de apanhar a valise sobre a mesa antes de ser empurrada pelo corredor.

Sesshoumaru! Aonde vamos?

Você vai tirar a tarde de folga.

Mas eu não posso...

Pode, sim — ele disse com firmeza.

...

Rin não desviou os olhos do espelho enquanto Tony, amigo de Sesshoumaru, atacava seus cabelos com a tesoura.

Mas eu não quero um permanente... — ela disse em tom de lamento. — Já fiz permanente uma vez, lembrar-se, Sesshoumaru? Fiquei parecendo um poodle!

E por acaso o cabeleireiro fui eu, querida? — Tony perguntou, e o ruído metálico da tesoura cessou quando os olhares se encontraram no espelho.

O homem alto e bonito usava avental verde-claro sobre calças largas, camisa branca de linho e sandálias. As cores suaves das roupas combinavam com a decoração elegante no salão de beleza. Tudo parecia limpo e brilhante, com exceção do estado de espírito de Sandy.

Fui eu? — ele repetiu com impaciência.

Não — Rin respondeu lentamente.

Então, não tire conclusões precipitadas. — Tony endereçou-lhe um sorriso angelical e voltou a manejar a tesoura.

Rin relanceou o olhar para Sesshoumaru, encostado ao balcão com os braços cruzados.

E se eu odiar?

Você não vai odiar — Tony prometeu. — Querida, posso garantir que você vai amar!

Sesshoumaru conhecera Tony em Hollywood, num dos sets de filmagem em que trabalhara. Dissera a Rin que o cabeleireiro tinha uma lista infindável de mulheres famosas que entregavam os cabelos nas mãos dele, e nunca tivera uma queixa. Ele havia se mudado para Scottsdale por causa do clima, benéfico para sua asma, e muitas das clientes de Hollywood viajavam para o Arizona em vez de se arriscarem com outro profissional em Los Angeles.

Sesshoumaru, você será o próximo a sentar na minha cadeira — o rapaz anunciou. — O estilo Robson Crusoé está fora de moda, querido.

Hoje não, Tony — Sesshoumaru replicou. — Não temos tempo.

Não levará mais do que quinze minutos. Posso cuidar dos seus cabelos enquanto o produto faz efeito em Rin.

Mas eu ainda não concordei com...

Não — Sesshoumaru a interrompeu. — Tenho de fazer compras. Pretendo atualizar o guarda-roupa de Rin.

Você? — Ela começou a rir. — Você vai comprar roupas novas para mim?

Ele assentiu, com um sorriso que escondia um traço de tristeza.

Sei do que os homens gostam.

É disso que tenho medo... — Rin murmurou.

Fique aqui e faça tudo o que Tony mandar. Venho apanhá-la dentro de... — Ele olhou para o cabeleireiro.

Daqui a duas horas.

Certo. Voltarei dentro de duas horas.

Sesshoumaru, você nem sabe meu número — Rin protestou.

Tamanho médio. Sapatos número 38, sutiã 42 e...

Por Deus, Sesshoumaru! Fale mais alto! Acho que as duas mulheres com a cabeça debaixo do secador de cabelos não conseguiram escutar — ironizou, irritada. Porém, ele atravessou o salão com passadas largas e fechou a porta atrás de si.

Estamos prontos para o nosso permanente? — Tony sorriu com expressão sedutora.

Você acha mesmo que vai ficar bom?

O sorriso se alargou no rosto bonito.

Querida, "bom" não é exatamente o que tenho em mente. — Ele suspendeu algumas mechas dos cabelos negros. — Imagine só... Cachos suaves ao redor do seu rosto. Seus cabelos ganharão vida. Sesshoumaru vai ficar maluco e não vai conseguir tirar as mãos de você. Isso é uma promessa.

Sesshoumaru e eu somos apenas amigos — ela se apressou em explicar.

É claro que são —Tony respondeu com uma risada descrente.

Rin estudou seu reflexo no espelho por alguns segundos e suspirou.

Está bem. Vamos lá — decidiu.

Sesshpoumaru colocou as últimas sacolas de compras no banco de passageiros do carro de Rin e voltou para o salão de beleza. Estava irritado e aborrecido, e a última loja onde entrara havia sido a responsável por tamanho mau humor. A idéia de estar comprando lingeries que provavelmente nunca veria o deprimiu, e a noção de que era Kohako quem veria as peças de fina seda mal encobrindo o corpo sensual de Rin o deixou louco. Por que estava fazendo aquilo? Porque amava Rin e queria que ela fosse feliz, concluiu. Porque parte dele ainda esperava que ela pudesse mudar de idéia, atirar-se em seus braços e declarar que era impossível amar Kohako, já que ele era o dono do seu coração.

Ele abriu a porta do salão com uma força além da necessária. A lufada de ar frio do ar-condicionado o atingiu no momento em que entrou, e foi o que o salvou, ou teria se incendiado com a visão de Rin, sentada de costas para ele na cadeira diante do espelho. Os cabelos estavam repartidos de lado, e cachos graciosos e leves caíam ao redor do rosto bonito. Uma cascata negra se desdobrava sobre os ombros e costas. O trabalho de Tony dera volume e luz aos cabelos.

Ela saboreava um sorvete e, enquanto conversava com Tony e a cliente na cadeira ao lado, Sesshoumaru observou-a em silêncio. O movimente sutil da língua tocando o sorvete fez seus hormônios se manifestarem. Naquele momento, seus olhares se encontraram. Ele desviou os olhos com receio de revelar o desejo que o tomava. Respirou fundo ao caminhar na direção dela e forçou um sorriso.

Você está maravilhosa! Eu não disse que Tony sabe o que faz?

Embaraçada, Rin abaixou o rosto e voltou a atenção para o sorvete. A cliente que estivera conversando com ela era uma senhora cujos cabelos brancos molhados caíam sobre a testa. Pelo espelho, ela olhou de Rin para Sesshoumaru.

Seu namorado precisa de um bom corte de cabelos e tem de fazer a barba.

Ele é muito teimoso quando se trata desse assunto. — Rin se virou para ele com um sorriso de provocação.

Debaixo de todos esses pêlos, deve haver um homem bonito — a mulher observou. — Mas não acho que seja seu tipo, querida. — Ela inclinou o corpo para o lado e abaixou a voz, como se Sesshoumaru não pudesse ouvi-la. — Ele não tem classe suficiente para uma jovem adorável como você.

Tony lançou um olhar significativo para Rin e fez um movimento discreto com a mão sugerindo que ela não desse ouvidos ao que a cliente dizia. Sesshoumaru, por sua vez, virou-se de costas para evitar que Rin visse a mágoa em seus olhos.

A senhora está enganada — ela respondeu. — Homens como Sesshoumaru Taisho são raros. Na verdade, levei quinze anos para encontrar um que não se apague totalmente quando comparado a ele.

A boca de Sesshoumaru se curvou num sorriso. Aquela era sua velha e boa amiga, leal até o fim!

Vamos, Rin — chamou, tomando-a pela mão. — Tony, eu lhe devo um favor.

De jeito nenhum, querido. — O cabeleireiro se virou quando eles seguiam para a porta. — Eu lhe devia um favor, lembra-se? Agora, estamos quites.

Sesshoumaru piscou em cumplicidade para o amigo e correu os dedos pelos novos cachos de Rin com tanta leveza que ela nem notou.

Sesshoumaru! — A voz de Tony o deteve, e ele se voltou com a mão na maçaneta da porta.

Sim?

Ela é um amor.

Eu sei.

Sesshoumaru observou pela janela enquanto Rin entrava no carro.

E ela disse que são apenas amigos.

— É verdade.

Sim... — Tony riu. — E minha mãe é o Papa!

...

Sesshoumaru colocou as sacolas de compras sobre a cama de Rin e saiu apressado do quarto.

Vou apanhar o restante das compras — disse por sobre o ombro, desaparecendo no corredor.

Ainda tem mais? — Rin admirou-se, pondo-se a abrir os pacotes.

Extasiada, espalhou pela cama uma coleção de roupas para a noite, na maioria vestidos. Quando olhou para as peças, percebeu que sua boca estava aberta, e fechou-a. Então, começou a rir. Nunca, nem em um milhão de anos, teria comprado qualquer um daqueles vestidos. Não que fossem feios ou de mau gosto. Pelo contrário, todos eram elegantes e modernos. Porém, nunca teria escolhido nada que não a fizesse passar despercebida na multidão. Mas aquele era o problema, ponderou. Tinha de ser notada por Kohako. Abriu outra sacola e encontrou sapatos de diversos modelos e tamanhos de saltos, em várias cores para combinar com os vestidos. Quando abriu o pacote de lingeries, fechou-o rapidamente. Voltou a abrir com mais vagar, enfiou a mão e retirou uma peça tão minúscula que cabia na palma de sua mão. Sesshoumaru entrou no quarto, e ela jogou a calcinha de seda preta de volta na sacola.

Você espera mesmo que eu vista isso, Sesshoumaru?

Eu não teria comprado se achasse que você não usaria. — Ele se sentou perto dela na cama e colocou as sacolas restantes no chão. — Acho que você deveria usar o vestido branco no sábado.

Curiosa, Rin começou a abrir uma das sacolas que ele acabara de colocar no chão, e encontrou todo o tipo de maquiagem e perfumes finos.

Vá em frente. Experimente suas roupas novas. — Sesshoumaru ergueu os olhos para ela, ansioso, como se esperasse para ver um desfile de modas particular.

Sesshoumaru... Eu não tenho estilo para usar essas roupas.

Você quer ser notada, não é?

Ela assentiu com relutância.

Pois então! Ouça, Rin, apenas coloque um dos vestidos. Se não gostar, não será obrigada a usá-lo.

Tem razão — ela murmurou.

Apanhou o vestido branco e sentiu o tecido suave. Na certa, ele havia pagado uma fortuna por aquela peça. Ela nunca usara nada parecido antes. Imaginou que se colaria ao corpo, evidenciando cada curva. Mas aquele era o objetivo, não era?

Com um suspiro, pôs-se de pé e relanceou o olhar para sua imagem no espelho. O tailleur que usava fazia com que parecesse muito mais velha. De repente, desejou saber como ficaria com aquele vestido, e olhou para Sesshoumaru, esperando que ele saísse. Porém, ele se recostou na cama, deixando evidente que não iria a lugar algum.

Rin! — Ele a chamou quando fez menção de sair. — Não se esqueça disso — disse, sorrindo, e lançou uma calcinha branca e minúscula na direção dela.

Rin se trocou lentamente no quarto que havia transformado em escritório. Como não havia espelho, não pôde ver como ficara. Apenas sentiu o contato macio do tecido. O vestido se moldou ao corpo como uma segunda pele, proporcionando conforto e permitindo que se movimentasse livremente. O decote debruado revelava discretamente a curva dos seios, realçados pelo modelo do sutiã, que parecia aumentá-los. Escutou uma batida suave à porta, seguida pela voz de Sesshoumaru:

Você se esqueceu das meias e sapatos.

Quando ela abriu a porta, encontrou-o parado diante de si com os sapatos e a meia-calça nas mãos. Olhos ávidos percorreram-na de cima a baixo, de maneira apreciativa. Num gesto instintivo, cruzou os braços para se proteger.

Uau! Você está...

Sem esperar que terminasse a frase, arrancou as meias e os sapatos das mãos dele e fechou a porta com força. O tom das meias finas combinava à perfeição com sua pele. Rin deslizou-as com vagar pelas pernas e calçou os sapatos, recusando-se a pensar em Cinderela. O modelo, confortável e elegante, completou a sensualidade discreta do traje. Arriscou alguns passos, acostumando-se aos saltos altos antes de abrir a porta. Sesshoumaru ainda estava esperando do lado de fora. Tomou-a pela mão e conduziu-a pelo corredor até a cozinha.

Sesshoumaru, espere! Eu ainda nem vi como fiquei e...

Sem dar ouvidos, ele a fez se sentar numa cadeira.

... ainda não aprendi como andar com esse sapatos de...

Sesshoumaru espalhou todos os estojos de maquiagem sobre a mesa. Com um gesto ágil, envolveu uma toalha ao redor dos ombros de Rin e prendeu-a no pescoço.

Temos de ter cuidado com o vestido branco — explicou com um ar profissional. — Não quero sujá-lo.

Sesshoumaru... — Rin respirou fundo, tentando soar racional e controlada. — Sesshy, o que está fazendo?

Ele a avaliava com olhar crítico.

Vou maquiá-la — disse distraidamente enquanto estudava o rosto bonito.

A expressão séria se atenuou, e ele sorriu, encontrando os olhos dela.

Você não precisa de muito. Seu rosto é perfeito. Vou apenas realçar alguns traços.

Você?

Sim, eu mesmo. Trabalhei como assistente de maquiagem em alguns projetos. Você conhece Jim Fabrizio?

É claro que sim. Todos conhecem Fabrizio, o maquiador mais renomado de Hollywood. O que tem ele?

Acontece que fui assistente dele. Fabrizio disse que, se eu quiser abandonar a câmera, posso ter um trabalho de tempo integral como maquiador.

Ele também mencionou sua modéstia? — ela ironizou.

Erga a cabeça e feche os olhos — Sesshoumaru ordenou, ignorando-a. — E a boca também, mocinha.

Rin obedeceu e sentiu os dedos em seu rosto. Para um homem tão grande, o toque era incrivelmente leve e gentil. Abriu os olhos e viu o rosto viril a poucos milímetros do seu. Os olhos intensos provocaram uma onda de calor em seu corpo. Sesshoumaru estava quase sobre ela, as pernas longas tocando as suas. Encolheu-se involuntariamente, afastando-se do contato. Porém, não havia para onde fugir. Então, fechou os olhos novamente, tentando relaxar. A voz dele era suave enquanto explicava o que estava fazendo, ou pedia que virasse a cabeça para o lado. A respiração quente e doce acariciava seu rosto, aquecendo-a.

Pronto! — ele disse, retirando a toalha. — Espere um pouco! Esqueci de uma coisa... Mantenha a cabeça inclinada para trás.

Rin abriu os olhos de repente quando sentiu a mão dele entre os seios.

Sesshoumaru!

Ele estava ajoelhado diante dela com o tronco pressionado contra suas pernas.

Fique quieta — ordenou enquanto passava a esponja de pó compacto no vale entre os seios. — Esse é um velho truque de Hollywood. Vai realçar seu busto.

Rin tentou ignorar o efeito daquele toque em sua pele, lutando bravamente contra a súbita consciência de cada milímetro sólido de músculos em contato com seu corpo.

Você está perfeita. — Ele se afastou e avaliou-a com um sorriso satisfeito.

Rin o encarou, hipnotizada pela veemência que identificava nos olhos dourados. Ele ainda estava muito próximo, e ela notou reflexos acastanhados mesclando-se com o dourado, cor do sol. As pupilas eram circundadas por um halo dourado mais forte.

Você tem olhos lindos, Sesshoumaru — ela sussurrou, observando as pupilas se dilatarem.

Aquele era o momento oportuno para um beijo, se qualquer outro homem que não Sesshoumaru Taisho estivesse diante de si. Em vez de fazer isso, ele pestanejou, riu e se levantou.

Venha!

Rin tentou não cair dos precários saltos enquanto o seguia pelo corredor. Sesshoumaru a esperava à porta do quarto e recuou um passo, fazendo uma mesura para que ela entrasse. Após alguns passos, deteve-se diante do espelho.

Meu Deus! - exclamou, admirada.

Estava... linda! O vestido se ajustava a cada curva, deixando sua silhueta alongada e feminina. O comprimento, pouco abaixo dos joelhos, proporcionava a impressão de que era ainda mais alta, e as pernas longas e bem torneadas se delineavam sob a textura aveludada das meias. E, teve de admitir, os sapatos eram incrivelmente sensuais. Os cabelos eram uma explosão de negro e luz ao redor do rosto, os olhos ganharam um aspecto exótico, com cílios longos e encurvados, e os lábios receberam cuidadosa camada de batom vermelho, evidenciando a pele acetinada. Olhou para baixo, impressionada. Não se lembrava de ter seios tão voluptuosos. Pelo espelho, viu Sesshoumaru recostado à porta, com os braços cruzados.

Sesshoumaru, você realizou um milagre. — Virou-se para fitá-lo. — Um verdadeiro milagre.

Nada disso. — Ele meneou a cabeça. — Eu só aproveitei o que você tem de melhor.

Rin avaliou-se mais uma vez.

Eu só não sei se consigo usar isso.

Por que não?

Bem... — Ela se calou para procurar um argumento. — Para começar, fico muito alta com esses sapatos.

Ora, por favor, Rin!

É verdade, Sesshoumaru! Olhe para mim. Pareço um monumento!

Um monumento maravilhoso da cabeça aos pés — ele completou. — E daí?

Vou ficar mais alta do que todo mundo.

Você não vai ficar mais alta que Kohako. — Sesshoumaru atravessou o quarto e parou ao lado dela. — Ele é tão alto quanto eu, não é?

Talvez um pouco mais baixo.

Nada além de alguns centímetros — afirmou, puxando-a para si como se fossem dançar e estreitando-a contra o corpo. — Está vendo? Vocês vão combinar à perfeição. Ele vai adorar. Não vai resistir ao impulso de beijá-la.

Sesshoumaru olhou para a mulher em seus braços. Por Deus, queria ficar segurando Rin por toda a eternidade! Ela o fitava como se ele tivesse perdido o juízo, com os olhos arregalados e os lábios suaves entreabertos de surpresa.

Rin teve a súbita consciência de que se sentia bem naqueles braços. Quando ele passou os dedos por seus cabelos, um arrepio percorreu sua espinha. Porém, Sesshoumaru se afastou e enfiou as mãos nos bolsos da calça, rezando para que ela não tivesse percebido sua ereção.

Acho que não posso usar essa roupa no sábado — ela insistiu com pesar.

Você está sendo negativa. Comece a pensar positivamente.

Seria diferente se eu tivesse um acompanhante. Mas a idéia de que tenho de atravessar sozinha aquele lugar, vestida desse jeito... — Rin fez uma careta.

Serei seu acompanhante.

Com essa jaqueta de couro e calça jeans? Pode funcionar em Los Angeles, Sesshoumaru, mas estamos em Phoenix.

Prometo usar roupas adequadas. Vai funcionar. — Sesshoumaru propôs, gostando da idéia. A encenação lhe daria a chance de dançar com ela e tê-la por mais tempo em seus braços. — Se você for à festa acompanhada, ficará mais interessante aos olhos de Kohako. Você sabe como funciona, o brinquedo dos outros meninos sempre parece mais interessante que o nosso.

Bem, como posso resistir quando você coloca nesses termos? — Rin respondeu sarcasticamente, sentando-se na cama. — Está bem, mas você terá de fazer a barba.

Fechado!

E cortar os cabelos.

Ele fez uma careta e passou os dedos pelos fios longos.

Gosto desse corte. Ter cabelo comprido é um estilo...

Não da elite de Phoenix. — Rin olhou para os dedos, fingindo estar interessada nas unhas.

Sesshoumaru observou-a por alguns instantes. Ele queria muito ir. Talvez Kohako estivesse interessado em outra pessoa. Talvez não gostasse de morenas. Talvez se Yamamoto estivesse fora de cena...

Está bem. Por você, vou cortar os cabelos.

Rin se levantou com um sorriso.

Ah! E eu me encarrego das roupas. Vou fazer o mesmo que você fez por mim.

Certo, mas acho que você não terá muita escolha. O traje exigido é black tie.

Sim, e seguramente essa jaqueta de couro preto não vai servir, Sesshoumaru.

Sesshoumaru riu, e dessa vez sentiu o riso chegar aos olhos. Talvez, com um pouco de sorte, Rin percebesse que era nos braços dele, e não nos de Kohako, que preferia estar.


Bom, quero deixar meu super OBRIGADA para zisis, por ter me feito tão feliz com sua review! Espero sinceramente q tenha gostado do cap de hoje!

SE eu receber reviews neste cap, posto o próximo cap amanhã, se não, só postarei qdo um review aparecer!rsrs

Bjus =)