As personagens de Inuyasha não me pertencem e possuem todos os seus direitos reservados.


CAPÍTULO V

Olá!

Surpresa, Rin desviou o olhar de sua tarefa. Estava no furgão de equipamentos, guardando sua câmera. Kohako, parado no estacionamento, sorria para ela.

Olá — repetiu, desejando imediatamente ter dito alguma coisa mais inteligente.

Eu não sabia que você também operava a câmera. — Kohako ergueu os óculos escuros e relanceou o equipamento portátil que ela segurara nos ombros durante a tarde toda. — É muito maior do que a filmadora que tenho em casa.

Constrangida, Rin afastou os cabelos caídos sobre o rosto. Tinha feito um rabo-de-cavalo, mas depois de muitas horas de trabalho duro capturando a imagem de Harcourt sob o sol quente, o penteado se desfizera, assim como o restante de suas roupas. Os shorts e o top estavam cobertos do fino pó vermelho do Arizona. Kohako sorria, e ela se obrigou a sustentar o olhar. Contato visual, lembrou-se, esperando não demonstrar o quanto estava assustada. O sorriso dele era caloroso e gentil. Mas não tão agradável quanto o de Sesshoumaru...

Posso? — ele perguntou, apontando para a câmera. Quando Rin assentiu, ele pegou-a.

Puxa! Não tinha idéia de que fosse tão pesada. Você a carregou o dia todo?

Ela sorriu diante da ironia de ser admirada pela força.

Apenas no período da tarde. Um dos rapazes da equipe teve uma emergência na família. Tive de substituí-lo.

Estou impressionado. — Kohako recolocou a câmera no furgão. — Vou me lembrar de não deixá-la furiosa comigo.

Ele estaria flertando com ela? Deus, ele estava! Agitada, concentrou-se em guardar o equipamento na valise.

Você deve estar cansada — Kohako comentou.

Nada que um banho e um refrigerante não resolvam.

Ela se moveu para a beirada do furgão, prestes a descer, mas enroscou o pé num fio e tropeçou. Do outro lado do estacionamento, Sesshoumaru observou alarmado quando Rin perdeu o equilíbrio. Fez menção de sair correndo para segurá-la antes que caísse, mas, por mais rápido que corresse, estava consciente de que não chegaria a tempo. No entanto, Kohako estava lá. Ele a sustentou nos braços, protegendo-a, e seu alívio se transformou rapidamente em ciúme quando o viu segurar Rin... E não ter a menor pressa de soltá-la. Sesshoumaru contou até dez, e somente então o advogado recuou um passo. Mesmo assim, manteve as mãos sobre os ombros dela.

Desejando desesperadamente poder ouvir a conversa, observou Rin enquanto ela falava. O corpo permanecia tenso, mas dirigiu a Kohako um belo sorriso, e Sesshoumaru sentiu o estômago se apertar. Era verdade, ela ainda não dominava a arte da linguagem corporal, mas não devia haver um só homem vivo que resistisse a um sorriso como aquele. Pelo menos, ele não podia resistir...

Continuou a observar até ver que Rin endireitava os ombros e enfiava as mãos nos bolsos do short. Kohako, então, retirou a mão de seu braço, e ela, num gesto quase imperceptível, recuou, afastando-se. Não havia cruzado os braços, mas a mensagem de rejeição era evidente. Mesmo à distância, Sesshoumaru percebeu sua tensão, desconforto e timidez.

Kohako disse alguma coisa, sorriu e foi embora. Rin olhou para Sesshoumaru, que rapidamente se ocupou de colocar o restante do equipamento no outro furgão. Logo, tudo estava guardado e os veículos partiram, retornando para o estúdio. Sesshoumaru atravessou o estacionamento na direção de Rin, que se apoiava, exausta, em seu carro.

Quer que eu dirija? — ofereceu, solícito.

Ela não abriu os olhos. Simplesmente estendeu-lhe a chave.

Agora, se você conseguisse me colocar dentro do carro como num passe de mágica... — ela disse, e ofegou quando ele a ergueu nos braços.

Sesshoumaru! — ela protestou enquanto ele a carregava até o banco de passageiros.

Ele abriu a porta sem soltá-la e gentilmente a acomodou.

Não foi exatamente um passe de mágica — ele comentou, ajustando o cinto de segurança ao redor dela. — Mas funcionou.

Você está me deixando mal-acostumada... Se continuar me mimando desse jeito, vou ficar devastada quando você for embora.

E se eu não for?

Rin se sentou, recuperando-se do estado de letargia no mesmo instante.

— O quê?

Mas Sesshoumaru já havia fechado a porta. Ele contornou o carro e se sentou ao volante.

Sesshy, você está pensando em ficar em Phoenix um tempo?

Ele engatou marcha-ré e ajustou o espelho retrovisor.

Rin o chamava de Sesshy apenas quando o assunto era de extrema importância para ela. Desde que a mãe morrera, era a única pessoa que se dirigia a ele pelo apelido. Ao longo dos anos, ele havia desencorajado até mesmo suas namoradas a fazer o mesmo. Sesshy soava muito vulnerável. Fazia-o se lembrar do menino de doze anos, sozinho e assustado numa nova escola, revoltado com o abandono do pai, o que obrigara que a mãe e ele se mudassem para um minúsculo apartamento no bairro pobre da cidade.

Fora Rin, que se mudara para o mesmo prédio no verão seguinte, que começara a chamá-lo de Sesshoumaru. Ela imaginava que ele fosse algum tipo de herói, e essa admiração não lhe permitia ter tempo para sentir pena de si mesmo. Rin era um ano mais nova, e ele logo aprendeu a apreciar o papel de protetor, o que era desnecessário, admitiu com um sorriso. Ela sabia se defender. Descobrira isso depois de ela atacar um aluno mais velho que fizera insinuações sobre a paternidade de Sesshoumaru. O rapaz, que tinha o dobro do tamanho dela, havia ido embora com o nariz quebrado e a camisa rasgada. Depois daquele episódio, a amizade entre os dois se tornara mais equilibrada.

Enquanto dirigia pelo tráfego da tarde, sentiu que Rin o observava.

Sesshy, você está pensando em transformar Phoenix em um lar temporário?

Temporário? — Virou-se para ela com uma sobrancelha erguida. — Você não quer que eu fique na cidade permanentemente?

Você não é do tipo que se assenta. — Rin tirou os sapatos e moveu os dedos dos pés. — Pelo menos, é o que tem repetido nos últimos dez anos.

Talvez eu tenha mudado de idéia.

Algo na voz grave e rouca fez Rin olhá-lo com atenção. Por um breve instante, ele desviou-se da estrada e fitou-a, e ela percebeu alguma coisa diferente em seus olhos. Era mais do que tristeza. Era um tipo de desespero que ela não tinha visto antes. Ao menos não antes daquela visita.

Sesshy, não consigo parar de pensar que você está tendo alguma espécie de crise. — Ela tocou-o no braço. — Gostaria que me dissesse o que há de errado para que eu possa ajudá-lo.

Sesshoumaru reduziu a marcha e parou atrás de uma longa fila de carros no farol vermelho. Tomou a mão dela na sua e apertou de leve os dedos delicados.

Eu ficarei bem — afirmou, rezando para que não fosse mentira.

Você sabe que eu faria qualquer coisa por você. Basta pedir.

Ele sorriu e beijou a mão dela antes de soltá-la.

Eu vi sua saída graciosa do furgão de equipamentos.

Você está mudando de assunto.

Muito perceptivo.

Rin ficou em silêncio. Desde quando Sesshoumaru mantinha segredos dela?

Você fez de propósito?

O quê? — Ela pestanejou, distraída como os próprios pensamentos.

Quando você pisou em falso, foi de propósito para que Kohako a segurasse?

Ah, sim. Eu planejei intencionalmente fazer papel de idiota — ironizou. — Descobri que isso enlouquece os homens.

Funciona comigo.

Sesshoumaru estava sorrindo, e Rin se flagrou correspondendo.

Não vou me esquecer disso.

Por que era tão fácil flertar com ele? Ela não ousaria dizer algo tão sugestivo para Kohako. Talvez porque soubesse que Sesshoumaru não representava um perigo. Ele jamais a levaria a sério, da mesma forma que ela nunca confundiria o flerte dele com algo real.

O que Kohako deu para você? — ele perguntou.

Então, você estava me observando... Eu já suspeitava. — Estreitou os olhos. — Como foi minha linguagem corporal?

Precisa ser aprimorada. — Ele foi direto.

Achei que estava indo bem — ela protestou. — Quero dizer, Kohako estava me tocando. Por um instante, achei que fosse me convidar para sair. Ele disse que haveria uma recepção no clube de campo de Harcourt hoje à noite e me entregou o endereço. Disse que eu poderia levar um acompanhante. — Suspirou.

Foi isso o que ele entregou para você? O endereço do clube?

Sim.

Sabe o que eu acho? — Ele não esperou a resposta. — Acho que ele pretendia convidá-la, mas então você recuou e o fez mudar de idéia.

Eu recuei?

Sim. — Sesshoumaru parou o carro no estacionamento do prédio e desligou-o, entregando as chaves para ela. — Dessa vez, você o repeliu ao colocar as mãos no bolso do short e se afastar. Ele interpretou como uma recusa. Então, como um homem normal, decidiu evitar a humilhação da negativa. Você não pode culpá-lo.

Eu não pretendia repelir Kohako.—Rin apanhou as chaves e afundou no assento, desanimada. — Sou anti-social. Uma analfabeta na linguagem corporal. É impossível, Sesshoumaru.

Não é, não. — Sesshoumaru saiu do carro, contornou-o e abriu a porta para Rin. Ela desviou o rosto, mas não rápido o bastante para esconder os olhos marejados de lágrimas.

Meu Deus, você está falando sério. — Agachou-se ao lado dela. — Vamos, não fique assim... Você pode aprender a linguagem do corpo, basta praticar.

Praticar?

Isso mesmo. Vamos entrar, tomar um banho e mudar de roupa para a recepção no clube de campo. Eu vou com você.

Mas você odeia esse tipo de coisa.

Vou sobreviver. Você precisa estar em público para praticar.

E não preciso de alguém com quem praticar? Kohako não está exatamente disposto.

Você não vai precisar de Kohako. Você tem a mim.

...

Os saltos altos da sandália de Rin ecoaram no mármore lustroso do saguão do clube. Ela parou à entrada do salão de baile. Havia no mínimo duzentas pessoas, mas o recinto espaçoso comportaria dez vezes aquele número. Os convidados conversavam em pequenos grupos, sentados às mesas ou em pares, na pista de dança. No outro extremo, um trio executava melodias suaves e românticas. Todos os homens usavam smoking, e as mulheres vestiam variações dos trajes luxuosos que ela vira na festa do sábado à noite.

A mão de Rin repousava levemente no braço de Sesshoumaru, que a conduziu com gentileza para o centro do salão. Ela notou o reflexo dos dois no imenso espelho que ocupava parte da parede lateral, e quase riu alto. Sesshoumaru parecia um executivo da alta sociedade. Ele combinava à perfeição com o smoking elegante. Os cabelos prateados brilhavam sob a iluminação indireta, penteados para trás com uma leve camada de gel que emprestava aspecto úmido aos fios. Os lábios maravilhosos se curvaram num sorriso que se ampliou quando os olhos se encontraram no espelho.

Rin, olhe para você — ele sussurrou. — Está deslumbrante.

E foi o que ela fez. Parecia outra pessoa. Naquela noite, escolhera o tubinho preto de veludo que Sesshoumaru havia comprado. Finas alças cruzavam-se nas costas, e o decote drapeado caía num movimento fluido entre os seios, revelando que não usava sutiã. Mas a mulher cujo reflexo ela via naquele enorme espelho não precisava de sutiã. A deusa morena, com fios negros caindo em cachos pelas costas nuas, de pernas longas e delgadas cobertas pela meia de seda preta e sandálias de salto alto, era segura, bonita e confiante o suficiente para saber que podia atrair qualquer homem. Sesshoumaru estava certo. Estava tão linda que não parecia real. E os dois formavam um casal perfeito. Claro, não poderia ser diferente, pensou. Eram amigos, estavam à vontade e relaxados juntos, e isso se revelava na linguagem corporal de ambos.

Bem, aqui estamos — ela disse. — O que faremos agora?

Que tal tomar um drinque? Quer que traga alguma coisa para você do bar?

De jeito nenhum vai me deixar sozinha. — Rin segurou o braço dele com mais força.

A mulher mais bonita da festa não quer soltar o meu braço. — Sesshoumaru sorriu. — Creio que posso conviver com isso.

Cuidado com os elogios, Sesshoumaru — ela disse. — Posso começar a acreditar em você.

Os olhos dourados perscrutaram o rosto dela.

E isso seria tão terrível assim?

Rin desviou o olhar, incapaz de sustentar o contato, com receio de... Do quê? perguntou-se. Não tinha medo de Sesshoumaru. Tinha medo de si mesma, de se entregar ao não conseguir afastar os olhos da boca dele, de seus lábios. E Sesshoumaru, um especialista em linguagem corporal, saberia no mesmo instante que ela queria beijá-lo. Deus, precisava que ele a beijasse. O que havia de errado com ela ultimamente?

E aquele drinque? — Rin lembrou.

Com um suspiro frustrado, Sesshoumaru a conduziu, tentando decidir se tomaria uma cerveja ou um refrigerante. O que seria mais eficaz para acalmá-lo? Decidiu pela cerveja. Contanto que não bebesse demais, ficaria bem. Caso se embriagasse, provavelmente não conseguiria conter o impulso de se atirar aos pés de Rin e implorar que tivesse piedade dele.

Quer uma taça de vinho? — cochichou-lhe ao ouvido quando chegaram ao balcão.

Ambientes lotados costumavam aborrecê-lo. Porém, percebeu que estava gostando de estar ali. O excesso de pessoas forçava Rin a ficar perto dele, permitindo que sentisse o delicioso aroma que emanava dela. Rin não usava perfume, mas a combinação de xampu e sabonete, somada ao inconfundível cheiro que pertencia somente a ela, era melhor que a mais fina fragrância. Sesshoumaru sentiu o corpo responder àquela proximidade e rezou para que ela não percebesse sua reação.

Querem beber algo? — o barman perguntou.

Cerveja, certo, Sesshoumaru? Duas, por favor.

Ela sorriu para o rapaz quando ele despejou o líquido dourado nos copos de cristal. Entregou um para Sesshoumaru e ergueu o outro para um brinde.

À linguagem corporal!

Os copos tilintaram e ambos tomaram um longo gole da bebida gelada.

Por falar em linguagem corporal... — Sesshoumaru afastou-a do bar repleto — Acho que você poderia fingir...

Ele tomou outro gole enquanto Rin esperava que continuasse.

O quê?

Fingir que está interessada em mim. — Sesshoumaru sorriu quando os olhares se encontraram, mas não estava brincando. Rin nunca o vira tão sério.

Ela ficou em silêncio enquanto era levada para um lugar mais tranqüilo. Encontraram um canto isolado com cadeiras e mesinhas de vidro. Sesshoumaru parou, retirou a cerveja da mão dela e colocou os dois drinques sobre a mesa.

Primeiro, você precisa relaxar — instruiu, e ela percebeu que havia cruzado os braços com força. — Comece fingindo que gosta de mim.

Sesshoumaru, eu não tenho de fingir isso.

Ótimo. — O sorriso se alargou quando ele tomou as duas mãos dela com delicadeza. — Faça de conta que sou um velho amigo que voltou para a cidade. Finja que ficarei aqui somente esta noite, e você acabou de perceber que está apaixonada por mim. Temos apenas algumas horas e não há muito tempo para me mostrar o que sente. Finja também que você não é o tipo de pessoa que vá se declarar. — Soltou as mãos dela e recuou um passo. — O que vai fazer?

Que bobagem. Por que tenho de fingir tudo isso?

Porque se eu propuser que você finja estar diante de um estranho que lhe chamou a atenção, ficaríamos uma hora discutindo sobre a estupidez de flertar com uma pessoa que você não conhece. Além disso, reagirá com mais naturalidade com um homem que não é um assassino em potencial, como Kohako... ou eu.

Rin pegou nervosamente o copo de cerveja e tomou um gole.

A verdade é que não conheço Kohako bem o bastante para saber se ele não é um assassino.

Sesshoumaru riu.

Rin, agora você está inventando desculpas.

Mas eu... — Ela meneou a cabeça. — Não sou boa em fingir e, acima de tudo, sou péssima em seduzir. Não entendo como não sou mais virgem. Você acha que é tarde demais para me tornar freira?

Sim — Sesshoumaru respondeu com firmeza. — Tarde demais. Você não tem de saber como seduzir um homem. Basta que saiba como... ser seduzida. Apenas confie em mim — acrescentou com suavidade. — Você confia em mim?

Rin assentiu, agitando de leve a cerveja e observando bolhas pequeninas estourarem na superfície.

Lembra-se do que eu disse sobre contato visual?

Ela assentiu mais uma vez e, quando os olhares se encontraram, Sesshoumaru sorriu.

Estou vendo medo e timidez em sua expressão. Tente se soltar. Faça com que eu veja que você está pensando em sexo.

Mas eu não estou.

Deveria estar. Olhe para mim, Rin. Senhorita Nakagawa.

Ela obedeceu, e o olhar de Sesshoumaru pareceu se incendiar de desejo. Percorreu lentamente cada milímetro do seu corpo.

Pode adivinhar no que estou pensando? — indagou, fazendo-a corar ao fitá-la.

Sim, mas...

Mas, o quê?

Sou mais antiquada que você, Sesshoumaru. Não consigo simplesmente apertar um botão e sentir... luxúria.

Prefiro chamar de atração física. E comigo também não é assim, só apertar um botão. Trata-se de derrubar as defesas, de demonstrar algo que eu normalmente manteria escondido.

Rin pestanejou, tentando compreender as palavras.

Não espera que eu acredite que você me acha atraente. — ela disse.

Acredite ou não Rin, eu acho — ele respondeu, com um traço de aborrecimento na voz. — Acho você extremamente sensual.

Uma risada zombeteira escapou dos lábios dela.

Certo.

Sesshoumaru agarrou o braço dela, quase derrubando a cerveja de sua mão.

Droga, Rin. Quando vai parar de se desvalorizar? Nunca menti para você, por que começaria agora?

Sinto muito. Sei que não está mentindo.

Claro que ele se interessava por ela como amiga. E quanto à atração física, não era novidade que Sesshoumaru gostasse de mulheres. Apenas não tinha percebido que ele a via como mulher.

Rin puxou gentilmente o braço. Não queria discutir. Estava cansada, com fome e queria ir para casa. Porém, sabia que Sesshoumaru não a deixaria sair de lá até que representasse aquela farsa sobre a linguagem corporal. Deixou de lado o copo de cerveja. O fato era que não tinha de fingir que o desejava. Tinha apenas de fingir que finalmente estava no mundo perfeito com o qual havia sonhado tantas vezes. Era só olhar para ele e deixar que toda a paixão e o anseio que sentia transparecessem. Ela sustentou seu olhar conforme uma série de emoções perpassava o rosto dele. Viu surpresa, descrença, confusão e, por fim, aprovação, antes de um brilho caloroso.

É esse o olhar — ele disse.

Ela sorriu com timidez e estendeu ambas as mãos, com as palmas para cima.

Como estou me saindo?

Não muito sutil, mas melhorou muito. Dance comigo.

Por quê?

Por que é o próximo passo lógico — ele explicou. — Seu olhar revelou o jogo que você quer jogar. A menos que eu esteja louco, corresponderei tentando tê-la em meus braços. Dançar é perfeito para isso. E uma desculpa para os casais se abraçarem.

Não sou boa dançarina.

Você vai se sair bem. — Ele sorriu. — E isso não é sobre dança. É sobre sexo.

Rin sentiu o rosto corar.

Sesshoumaru, estou exausta.

Apenas uma dança e vamos embora. Prometo. — Ele conduziu-a para a pista.

Rin sentiu-se envolvida pelos braços fortes e se perguntou por que estava reclamando. Dançar com ele era como mergulhar em um sonho. Ela estava no paraíso. Fitou-o, e ele a estreitou ainda mais, puxando-a de encontro ao peito musculoso. Não havia espaço entre eles. Os corpos estavam separados apenas pela fina barreira das roupas. Rin sentiu a mão de Sesshoumaru na pele nua das costas, exposta pelo decote do vestido. Ele acariciou-a lentamente, com delicadeza e sensualidade.

Sim... — ele sussurrou em seu ouvido. — Você se lembrou do quarto passo.

Rin percebeu que acariciava a nuca dele, enrolando os dedos nos fios espessos e sedosos de seu cabelo. Sem pensar, ela tinha seguido o quarto passo. Transformara uma dança comum em uma carícia. Porém, fizera isso naturalmente, de forma inconsciente. Talvez ainda houvesse esperança para ela com essa história de linguagem corporal, pensou.

Senhorita Nakagawa — ele murmurou — Não há um só homem neste lugar que não esteja nos observando dançar.

Ela sentiu a mão dele subir por suas costas, e tocá-la sob o cabelo, provocando arrepios em todo o seu corpo. Era uma sensação maravilhosa.

Eles devem estar pensando que sou um homem de sorte. — Ele sorriu. — E têm razão.

A música cessou, mas Sesshoumaru não a soltou.

Yamamoto também está olhando — avisou, sem desviar os olhos dos lábios macios.

Quem? — Rin balbuciou.

Yamamoto — ele repetiu. — Kohako.

Oh...

O que acha de realmente lhe darmos algo para ver? — murmurou. Era uma boa desculpa como outra qualquer, e Sesshoumaru precisava desesperadamente de um pretexto para beijá-la. — Talvez isso dê a ele a idéia certa — acrescentou, embora a única idéia que quisesse dar a Kohako era a de que aquela mulher pertencia a ele de corpo, coração e alma.

Rin umedeceu os lábios num gesto nervoso, e foi o convite de que Sesshoumaru precisava. Ele usou a mão esquerda para afastar gentilmente os cabelos do rosto dela e se inclinou para capturar os lábios macios. Era uma doce e deliciosa tortura. Apenas um pequeno e breve contato não era suficiente. O coração de Sesshoumaru disparou, e ele se esforçou para estabilizar a respiração. Mas quando fitou-a, não conseguiu se conter.

Não sei... — sussurrou, ignorando o fato de que a banda havia recomeçado uma música lenta e os casais dançavam ao redor deles. — Você acha que ele notou? Acho melhor fazermos isso de novo só para garantir.

E ele a beijou outra vez, mais longamente, mas ainda de maneira doce e gentil.

Vamos. Prometi que a levaria para casa.

Quase com desespero, ele a tirou da pista de dança. Se ficasse mais um segundo ali, não seria capaz de se controlar e a beijaria novamente. E, se fizesse isso, ele se entregaria. Ainda não estava pronto. Era cedo demais.

Rin Nakagawa.

Kohako e outro homem se aproximaram, e Sesshoumaru praguejou em silêncio enquanto forçava um sorriso.

Kohako. — Rin pestanejou, como se a realidade se abatesse subitamente sobre ela.

Afastou-se de Sesshoumaru e cruzou os braços para descruzá-los em seguida, lembrando-se das orientações sobre linguagem corporal. Com um gesto nervoso, afastou os cabelos do rosto e deixou que os braços pendessem ao longo do corpo.

Estou feliz que tenha vindo — Kohako disse com um sorriso caloroso e se voltou para Sesshoumaru. — Sesshoumaru Taisho, não é?

Boa memória. — Ele sorriu quando apertaram as mãos.

Faz parte do treinamento de um político — Kohako explicou. — Senhorita Nakagawa, conhece Aaron Fields? Ele é apresentador do noticiário do Canal 5. Concordou em nos fornecer imagens adicionais de Harcourt guardadas nos arquivos da emissora.

Sesshoumaru observou Rin e toda a insegurança pareceu evaporar quando ela se transformou na presidente da Vídeo Enterprise, uma mulher confiante, reservada e controlada. Ela fitou o jornalista com um sorriso estudado. Não ofereceu a mão, e Sesshoumaru percebeu que ela não gostava daquele homem. Intrigado, estudou Aaron Fields. Dentre todos os habitantes do planeta, havia apenas uma parcela ínfima que Rin não apreciava. Ela sempre dava segundas chances e perdoava os amigos, mas não parecia disposta a ter a mesma condescendência com Aaron. O rapaz aparentava ter cerca de trinta anos, com cabelos loiros, rosto bronzeado e olhos pequenos. Alheio à animosidade de Rin, Kohako prosseguiu a conversa, tentando marcar uma reunião para verificarem o vasto material que a emissora guardara ao longo dos anos.

Fale com minha secretária — Fields sugeriu. — Minha agenda está apertada na próxima semana, mas podemos marcar um horário à noite.

Seria melhor se víssemos o catálogo interno das gravações primeiro. — Rin deixou claro que não estava animada com a idéia de reuniões noturnas com o rapaz. — Talvez isso leve algum tempo, e...

O material sobre Harcourt já está catalogado — Fields a interrompeu com um sorriso vitorioso.

Rin hesitou, e Sesshoumaru entendeu no mesmo instante. Ela não queria ficar sozinha com o repórter.

Vou pedir que minha secretária ligue para a sua — ela propôs, por fim. — Talvez possamos encontrar algum horário em comum durante o dia.

Kohako, seria interessante que você também visse o catálogo — Sesshoumaru interferiu. — Por que não tenta estar presente nessa reunião?

Rin o encarou, incerta se ele estava tentando atirá-la nos braços de Kohako ou se, de alguma forma, percebera sua aversão por Aaron Fields. O sorriso significativo que ele lhe endereçou fez seu coração disparar. Como Sesshoumaru podia saber sobre o rapaz? Ela mesma não percebera o tipo de homem que era quando o tinha conhecido.

Então, lembrou-se do plano de envolver Kohako e uma onda de frustração a atingiu. Claro que Sesshoumaru estava tentando aproximá-los. Aquele era seu objetivo. Fora tola ao esperar que os beijos tivessem significado alguma coisa. Por um segundo, chegara a pensar que Sesshoumaru tivesse agido daquela forma por outro motivo que não chamar a atenção de Kohako...

Na verdade, uma reunião à noite será melhor para mim — Kohako disse, olhando para ela. — Porém, posso tentar organizar minha agenda, se você preferir.

Você é o cliente. Escolha a hora que for mais conveniente para você.

Aaron está nos fazendo um grande favor. Vamos nos adequar à disponibilidade dele.

Ora, Kohako, não se preocupe com isso. — O sorriso simpático no rosto do jornalista seria capaz de convencer a quem não o conhecesse como ela. — Que tal na próxima semana, digamos, às sete e meia? E discordo da Senhorita Nakagawa. Rever esses tapes será tedioso. Acho que seria melhor se você esperasse até escolhermos o que pode ser útil para a campanha de...

Acho importante que Kohako esteja lá — Rin interrompeu.

Será perda de tempo — insistiu Fields.

Ela fuzilou o rapaz com o olhar e se virou para Kohako.

Kohako, vamos dançar?

Kohako piscou, surpreso, e olhou para Sesshoumaru, que encolheu os ombros.

Com licença — disse para Fields antes de segui-la para a pista de dança.

Sesshoumaru não podia ver, não queria ver, e ainda assim não conseguiu desviar os olhos deles.

Você a conhece bem?

Ele sobressaltou-se com a pergunta de Fields, e um sorriso forçado curvou seus lábios enquanto observava Kohako tomar Rin nos braços. Formavam um bonito casal, e essa constatação fez seu estômago se apertar.

Ela é maravilhosa. Tem um corpo escultural e o cérebro de um computador. É uma combinação perigosa. Mulheres são como crianças, bonitas para serem olhadas, mas não para serem ouvidas, especialmente quando tudo que dizem é "não". Se Yamamoto precisar de mim, diga que estou no bar.

Sesshoumaru tentou não rir. Podia imaginar Aaron Fields revelando sentimentos similares a Rin que, sem dúvida, o retalharia em mil pedaços com um simples olhar. Todavia, o sorriso desapareceu de seu rosto quando se voltou para Kohako e Rin. Ele a segurava perto demais, e ela mantinha a cabeça inclinada para trás enquanto falava baixinho. Sesshoumaru teve de sair dali.

...

E depois da última vez que Fields foi tão... rude, jurei que nunca mais manteria negócios com ele novamente — Rin disse para Kohako. — Ele é um idiota. Mas, obviamente, tem algo que você quer, então...

Podemos entrar em contato com outras emissoras — Kohako sugeriu.

O problema é que o Canal 5 é o melhor. — Rin meneou a cabeça. — Eles receberam o prêmio de melhor noticiário local por sete anos seguidos. Não encontraremos nada que se compare nas outras emissoras.

Não quero deixá-la em posição difícil. — A expressão de Kohako era séria. Os olhos castanhos estavam escuros e era quase impossível discernir a pupila, num efeito devastador.

Se você for à reunião, eu ficarei bem. Fields só age como um idiota quando estamos sozinhos.

Estarei lá — ele assegurou rapidamente, aumentando a pressão dos braços ao redor da cintura fina. O corpo dele era firme e musculoso e, no entanto, Rin notou que não era tão poderoso quanto o de Sesshoumaru. — Pode contar comigo.

Em todo caso, vou colocar meu spray de pimenta na bolsa, apenas por precaução.

Spray de pimenta? — Kohako franziu as sobrancelhas com um brilho divertido nos olhos.

Ele a segurava da mesma forma que Sesshoumaru, com as mãos espalmadas em suas costas. Rin franziu o cenho num ato inconsciente. Por que não sentia o mesmo calor e a mesma vibração?

Há quanto tempo você está namorando Sesshoumaru?

Nós não estamos namorando. — Kohako pareceu confuso com a resposta, e ela acrescentou: — Sesshoumaru e eu somos amigos.

E ele sabe disso?

E claro que sim — respondeu com uma risada. Porém, Kohako não pareceu convencido.

Tenho de admitir, fiquei surpreso quando você me convidou para dançar. Por um instante, cheguei a pensar que não seria apropriado.

Sinto muito. Acho que teria sido melhor se eu esperasse e lhe contasse sobre meu problema com Fields amanhã, por telefone. É que dançar pareceu ser uma boa forma de termos uma reunião particular.

Kohako desceu as mãos lentamente pelas costas dela, e os dedos traçaram um caminho sinuoso sobre a pele acetinada.

Esta é melhor reunião particular que já tive... — ele sussurrou, sedutor — Há chance de agendarmos outras?

Rin ergueu o rosto devagar. Kohako Yamamoto queria vê-la novamente... Estava tocando-a, acariciando-a da mesma forma que Sesshoumaru fizera. A diferença era que não se sentia incendiar de desejo. A música parou e ela se afastou suavemente.

Que tal se fôssemos jantar? — Kohako convidou, relutante em se afastar.

É uma boa idéia. Telefone para marcarmos — respondeu por sobre o ombro enquanto voltava para perto de Sesshoumaru.

Vou telefonar — ele assegurou. — Seguramente.

Ele sorriu calorosamente para ela e acenou com polidez para Sesshoumaru antes de se afastar. Sesshoumaru ficou em silêncio enquanto o manobrista trazia o carro, pensando na forma como Kohako segurara Rin durante a dança. Mas, o que fazer? Não podia ficar sentado enquanto o oponente a cortejava. O problema era que Kohako Yamamoto tinha tudo o que Rin desejava num homem, enquanto ele... Ele era apenas Sesshoumaru.

Rin estremeceu no ar frio da noite, e ele percebeu que ela não tinha um casaco. Sem pensar, passou o braço ao redor dos ombros delicados. Ela se aninhou em seu peito, envolvendo-lhe a cintura sob o smoking. O veículo modesto surgiu na escuridão do estacionamento e parou ao lado dos carros de luxo. Sesshoumaru tirou o paletó e cobriu-a. Enquanto abria a porta para ela, viu Kohako conversando com outro manobrista. Soube, pela maneira como olhava na direção deles, que havia reparado em Rin mais do que o suficiente.

Não havia dúvida de que Kohako sonharia com ela naquela noite. Esse pensamento o enlouqueceu. Em vez de abrir a porta, puxou-a para si e viu a surpresa nos olhos dela antes de tomar-lhe os lábios. Mas o beijo não foi como o que haviam trocado na pista de dança. Dessa vez, Sesshoumaru aprofundou o contato, inserindo a língua para explorar sua boca. Ao senti-la corresponder, o mundo pareceu explodir numa onda luminosa de calor e paixão. Puxou-a para mais perto e mergulhou os dedos nos cabelos longos e perfumados. O corpo suave se moldava perfeitamente ao dele. Sesshoumaru ouviu um gemido rouco e levou alguns segundos para perceber que o som partira dos lábios de Rin, e não dos seus. Não teve dúvidas de que ela também o queria. Com a respiração ofegante, recuou um passo e se surpreendeu com a intensidade do desejo refletido nos olhos dela.

Sesshoumaru, o quê...?

Se ela o tivesse chamado de Sesshy, não teria resistido ao ímpeto de dizer que a amava.

Kohako está olhando —justificou, com voz rouca.

Abriu a porta do carro e ajudou-a a entrar. Enquanto contornava o carro, olhou para Kohako. O homem estava mesmo observando, e Sesshoumaru o encarou com uma expressão sombria. Porém, Kohako não parecia do tipo que se intimidava com esse tipo de aviso.

O manobrista havia deixado o motor ligado e ele arrancou assim que se sentou ao volante. Sentia que Rin o observava, com os olhos ainda arregalados, mas não a fitou. Ela, por sua vez, permaneceu em silêncio, revivendo o beijo intenso. Como tinha ansiado que ele a beijasse daquela forma! E, mesmo que tivesse imaginado tantas vezes como seria, suas fantasias não haviam se aproximado da realidade. Sentia os joelhos fracos e a poderosa descarga de adrenalina ainda pulsava em suas veias.

Era disso que sentira falta ao dançar com Kohako. A proximidade dele não a fazia estremecer, nem provocava uma reação devastadora em todo o seu corpo. Com Kohako, não sentira o sangue se transformar em lava incandescente nem o coração bater disparado no peito. Sensações que experimentava com o toque de Sesshoumaru. Estava com sérios problemas. Não estava apaixonada por Kohako. Estava apaixonada por Sesshoumaru Taisho.


Pedido de desculpas: gente era pra eu ter postado esse cap ontem, mas eu não estava conseguindo configurar o site do ff net, ficava dando erro o tempo todo! Peço desculpas ainda por só estar postando agora, é que acabei de chegar em casa, estava fazendo a prova da OAB durante toda a tarde (começou às 14:00 e terminou às 19:00), estou só o pó, então por favor relevem qualquer eventual erro que a fict tenha!

Agradecimentos especiais para: Yuuki-chan s2 , sandramonte e Chelsea de Aguia: VLW PELOS REVIEWS MENINAS!

A chantagem de SOMENTE atualizar se receber reviews permanece, então por favor, escrevam uma mensagenzinha pra me fazer feliz! hahaha

Bjus =)