As personagens de Inuyasha não me pertencem e possuem todos os seus direitos reservados.


CAPÍTULO VI

O silêncio no carro se tornou tenso. Rin se virou para a janela com olhar distante e expressão sombria, o que deixou Sesshoumaru preocupado.

Concluiu que não devia tê-la beijado daquela forma. Era óbvio que Rin havia percebido que estava apaixonado e tentava descobrir uma forma de rejeitá-lo sem que o magoasse. Talvez devesse se desculpar, ponderou. Não. Recusava-se a pedir desculpas por fazer algo que desejava desesperadamente fazer de novo, algo que pretendia repetir na primeira oportunidade. O problema era que não teria outra chance, a menos que se desculpasse...

Rin... — começou, limpando a garganta. Mantendo os olhos na estrada, ele pôde sentir a expectativa no olhar dela quando se voltou para fitá-lo. — Eu... Eu acho que exagerei na dose agora há pouco.

Bem, foi muito realista.

Sinto muito — disse, repreendendo-se em silêncio por mentir. Ele não se arrependia nem um pouco.

Sesshoumaru... — Rin começou, e ele se preparou para o pior — Podemos parar em algum lugar para comer? Estou faminta.

A princípio, as palavras não fizeram sentido. Não era o que esperara ouvir. Ela estava com fome, e não furiosa com ele. Ele se desculpara, e ela obviamente não estava dando tanta importância ao assunto. Sesshoumaru não soube se ficava aliviado ou desapontado.

...

Covarde! Rin disse para seu reflexo no espelho do banheiro enquanto escovava os dentes. Sesshoumaru havia parado numa lanchonete, atendendo a seu pedido, e ela se forçara a comer um hambúrguer mesmo sem fome. Agora, ele estava na sala, confortavelmente instalado no sofá, com a televisão ligada, trajando apenas short sem camisa. Mesmo tendo se desculpado por beijá-la, ainda havia uma espécie de tensão no ar, nova e extremamente sensual, que preenchia o espaço cada vez que seus olhares se encontravam.

Rin tentou se convencer de que aquilo não significava nada enquanto retirava a maquiagem e espalhava o creme hidratante no rosto com gestos automáticos. Ela ansiava por uma relação longa e duradoura. E, se a única forma de conseguir isso fosse manter a amizade, então seriam somente amigos.

Se era assim, por que havia colocado a sensual camisola preta sob o robe? Por que desejava ir até a sala, desligar a televisão e se despir diante dele? Por que estava pensando em se atirar sobre ele, sem considerar as conseqüências?

Fechou os olhos, lembrando-se do beijo. Sim, queria mais... Uma noite com Sesshoumaru valeria o preço? Uma vida sem ele seria insuportável. Se fizessem amor, não tinha dúvida de que ele iria embora e nunca mais voltaria.

Abriu a porta do banheiro e caminhou devagar para a sala. Sesshoumaru ergueu o rosto e diminuiu o volume da televisão com o controle-remoto.

Você vai dormir?

Sim. — Rin deu-lhe as costas, acovardando-se. Não conseguiria tentar seduzi-lo. — Boa noite, Sesshoumaru.

Boa noite, Rin.

A voz suave a seguiu pelo corredor até o quarto. Sim, ela era covarde. No entanto, não foi a perda potencial da amizade deles que a fizera recuar. Ela tivera medo de ser rejeitada ao tentar seduzi-lo.

...

Sesshoumaru estava no banheiro quando ouviu a campainha. Enrolou a toalha na cintura e foi até o corredor. Ele não tinha ouvido movimento no quarto de Rin aquela manhã e julgou que ela ainda estivesse dormindo.

A campainha soou novamente. Surpreendeu-se ao abrir a porta.

Sinto muito — Kohako parecia tão surpreso quanto ele.

Acho que deveria ter ligado antes de vir.

Era evidente que não esperava ver Sesshoumaru ali, especialmente usando apenas uma toalha.

Creio que sim. Rin... Digo, a senhorita Nakagawa ainda está na cama.

A implicação de que ele estivera com ela era clara, e se Kohako acreditasse naquilo não se esforçaria para desmentir.

O homem estava se esforçando para manter a expressão neutra, mas a boca apertada numa linha fina não deixava dúvida de que estava contrariado.

Quando a senhorita Nakagawa afirmou que vocês eram simplesmente amigos, eu disse a ela que não acreditava que era isso que você tinha em mente.

Você é um homem inteligente. Não é para menos, estudou em Harvard, não?

Isso mesmo. E suponho que você despreze esse tipo de coisa. Quando se trata de qualidade ou classe, você recusa sem pensar.

Não faço nada sem pensar — Sesshoumaru retrucou em tom seco, apoiando-se ao batente. — Se fizesse, não estaria parado aqui, conversando com você. Eu já o teria socado e levado de volta ao seu carro de luxo.

Isso é algum tipo de ameaça?

Você estudou em Harvard — Sesshoumaru sorriu perigosamente. — Estou certo de que conseguirá interpretar minhas palavras.

O olhar de Kohako pousou sobre a tatuagem de dragão no ombro direito de Sesshoumaru.

Você precisa de perigo e violência na vida, não é? Embora mantenha a aparência de um homem civilizado, no fundo não passa de um selvagem.

Sesshoumaru riu, mas não havia humor no olhar frio.

Você não sabe nada a meu respeito, Kohako. Então...

Ao contrário — ele o interrompeu. — A segurança de Simon Harcourt investiga todos que fazem parte da equipe. Sei tudo a seu respeito, Sesshoumaru. Sei que não terminou a universidade...

Eu passei na prova classificatória da Universidade de Harvard...

Não sem antes ter falsificado as notas do colegial para ter acesso à universidade.

Certo. — Sesshoumaru conteve a urgência de gritar, e baixou o tom de voz. — Sou um criminoso porque quis ter nível superior...

Você esteve na cadeia por duas vezes.

Uma vez por que fiz parte da equipe que cobriu uma manifestação que se transformou num caos. A polícia não se preocupou em escolher os verdadeiros culpados e colocou todos na viatura.

Você também foi preso por roubar um carro da polícia — Kohako prosseguiu sem se abalar.

Eu apenas peguei emprestado — ele respondeu com frieza. — Foi uma emergência. Minha câmera quebrou e eu tinha de ir ao estúdio o mais depressa possível. Não pude encontrar um táxi. Não tive escolha.

Bem, isso o levou a ficar dezenove dias na prisão por roubo de bem público.

E também me levou a ganhar um Emmy pela matéria. Como vê, meu ato de delinqüência foi motivado por uma causa nobre.

Talvez, mas você não vai ganhar nenhum prêmio pela forma como trata as mulheres.

Sesshoumaru estreitou os olhos.

Harcourt investigou minha vida pessoal também?

E o relacionamento mais longo que você já teve foi com Kagura Nakayama — Kohako prosseguiu. — Esteve com ela por cinco meses e dezessete dias, sendo que a relação apenas durou todo esse tempo porque você esteve fora do país por três meses.

Não acredito que...

Durante os últimos dez anos o tempo mais longo que você permaneceu em um lugar foi seis meses, quando trabalhou numa locação no Alasca. — O tom de voz impessoal era o mesmo de um executivo numa reunião de negócios.

Sim, eu gosto de viajar. E daí?

Então, tudo o que eu tenho de fazer é esperar. Mais cedo ou mais tarde, você estará fora da vida de Rin Nakagawa. E espero que seja o mais cedo possível.

Sesshoumaru lutou para manter o controle.

Você desejava algo ao vir até aqui?

Tenho de entregar um material para a senhorita Nakagawa e foi mais conveniente passar por aqui do que ir até o escritório dela.

Essa é a desculpa mais esfarrapada que já ouvi — Sesshoumaru falou num tom de voz excessivamente agradável.

Para sua surpresa, Kohako riu.

Eu sei. É uma péssima desculpa. Você está certo. Na verdade, eu queria ver Rin. Mas você já devia saber disso. — Estendeu algumas fitas de vídeo. — Mesmo assim, poderia entregar para ela?

Sim.

E peça para ela me ligar quando estiver pronta para irmos jantar. — Ele fez menção de sair, mas voltou a encarar Sesshoumaru — Não se preocupe. Eu mesmo vou dizer isso a ela.

Sesshoumaru resistiu à urgência de bater a porta no nariz dele. Porém, fechou- a suavemente e colocou as fitas na mesa do hall de entrada. A porta do quarto de Rin continuava fechada, e ele parou no corredor, olhando-a por longos momentos.

A culpa o sufocava. Por que não dissera a Kohako que ele e Rin eram apenas amigos? Por que não revelara a verdade?

A resposta era simples. Não desejava a verdade. Queria ser o amante de Rin... Não, queria ser o marido dela. E agora que ela conseguira despertar o interesse de Kohako, seu sonho ficara ainda mais distante.

Mas Rin gostava de Kohako e o queria. Prometera ajudá-la, e estava fazendo exatamente o oposto. E o pior, suspeitava que Kohako estivesse certo ao sugerir que ele não estava à altura dela.

Vestiu-se devagar para o trabalho, com a calça e a camisa novas que Rin havia escolhido quando tinham comprado o smoking. Mal se reconheceu ao ver sua imagem no espelho do banheiro. Havia muitos anos que seus trajes se resumiam a calças jeans e camisetas. A peça mais cara que possuía era a velha calça de couro que costumava usar para pilotar a moto no frio ou à noite.

E ali estava ele, trajando-se como um executivo... Riu, refletindo que as pessoas faziam loucuras por amor, e a mudança temporária em seu guarda-roupa ainda estava dentro dos limites da sanidade.

Ajeitou os cabelos e suspirou. Rin ficaria furiosa quando soubesse que Kohako fora até lá e o encontrara. E ficaria ainda mais brava quando descobrisse que ele não fizera nada para corrigir a impressão incorreta de que haviam dormido juntos. Em breve, teria de contar, ou morreria de culpa.

Às sete e meia, tinha terminado de tomar o café da manhã, e Rin ainda não havia acordado. Parou diante da porta do quarto e bateu de leve. Nenhum som. Insistiu, e não obteve resposta. A porta não estava trancada e ele a abriu lentamente. As janelas fechadas impediam a entrada da luz. Ele esperou que seus olhos se ajustassem às sombras e atravessou o aposento.

Rin estava deitada de costas e dormia profundamente.

Rin, acorde... — Tocou-a de leve no rosto, mas ela não deu sinal de que despertaria. — Ei, Rin. — Aumentou o tom de voz, e ela finalmente abriu os olhos. — Acho que seu despertador não tocou.

Ela ergueu a cabeça e olhou para o rádio-relógio no criado-mudo.

Droga — gemeu, forçando as pálpebras sonolentas. — Tenho uma reunião às oito horas!

Rin jogou os lençóis para o lado, levantou-se e correu para o banheiro.

Sesshoumaru! — gritou acima do ruído do chuveiro. — Estou muito atrasada. Escolha uma roupa para mim, por favor.

Ele abriu o armário e analisou as roupas penduradas. Deteve-se no vestido florido que ficara na loja para alguns ajustes e fora entregue no dia anterior. Estava pendurado na maçaneta do armário. Dentro daquele modelo, ela ficaria parecida com um anjo...

Pegou apressadamente um conjunto de saia e blusa. Não havia razão para Rin andar por aí parecendo um anjo, não quando planejava passar o dia com Kohako no trabalho.

Colocou as roupas sobre a cama um segundo antes de ela entrar correndo no quarto. Os cabelos ainda estavam molhados e ela mantinha uma toalha ao redor do corpo.

Sesshoumaru, hoje será um dia muito quente — reclamou ao ver a roupa que ele havia escolhido. — Você não pode estar falando sério. Não vou usar esse conjunto. — Apanhou o vestido florido do armário. — Quero usar uma roupa bem bonita hoje. E agora, saia. Preciso de privacidade para me arrumar.

Por que quer ficar especialmente bonita hoje?

Por quê? — repetiu, empurrando-o para fora.

Porque queria que Sesshoumaru a notasse, pensou. Olhou para a água que pingava no chão.

Porque acho que Kohako vai me convidar para jantar.

Rin, tenho de contar uma coisa...

Terá de esperar — ela avisou, fechando a porta. Quando abriu, já vestida, Sesshoumaru ainda estava parado lá.

Ele a seguiu até o banheiro e observou-a diante do espelho, aplicando maquiagem.

Ouça, Rin, tenho mesmo de contar... Acho que você não vai gostar, mas...

Ela o encarou pelo espelho.

O que você quebrou dessa vez, Sesshoumaru? Não me diga que foi minha xícara de café favorita!

Bem que eu gostaria que fosse isso... — ele gemeu, desolado.

O bule de porcelana que foi da minha avó?

Não.

Não foi o espelho do corredor, não é? — ela indagou enquanto aplicava batom — Não posso viver com sete anos de azar...

Eu não quebrei nada. Foi algo que fiz — Sesshoumaru disse enquanto ela corria para a cozinha. — Na verdade, foi algo que não fiz.

Rin apanhou uma maçã da geladeira e lavou-a na torneira da pia. Começou a comê-la enquanto apanhava a valise e seguia para a porta. Ao destrancá-la, notou as fitas de vídeo sobre a mesa. Apanhou-as com a mão livre e encarou Sesshoumaru.

O que é isso?

Bem, era o que eu estava tentando dizer... — Ele sorriu sem jeito. — Kohako veio até aqui hoje bem cedo e deixou esse material para você. Como ainda estava dormindo, eu não quis acordá-la, e...

Rin colocou a valise sobre a mesa para guardar as fitas.

Kohako veio aqui hoje cedo e você atendeu a porta?

Sim.

Rin controlou a vontade de rir. Aquilo tinha sido péssimo. Então, por que estava se divertindo?

E ele esteve aqui antes ou depois de você tomar banho?

Depois, mas não muito depois, se é que me entende... — Sesshoumaru olhou para os pés e estudou as botas com atenção.

E suponho que você estava vestindo meu robe cor-de-rosa.

Não. Apenas uma toalha.

Rin conseguiu imaginar uma cena de uma comédia romântica. Sesshoumaru, seminu, com os cabelos molhados, frente a frete com Kohako Yamamoto...

E Kohako deve ter pensado que... — Ela deixou a frase incompleta.

Sim.

Oh, perfeito, Sesshoumaru! — Ela encostou a cabeça na porta.

E eu disse a ele ontem à noite que não havia nada entre nós.

Sim, ele mencionou e, bem, agora ele acha que você finalmente sucumbiu ao meu charme.

Rin fechou os olhos. Se ao menos fosse verdade...

Sinto muito. Deveria ter esclarecido tudo assim que abri a porta.

Ele provavelmente não teria acreditado. Poucas pessoas acreditariam que um homem como você passaria a noite na casa de uma mulher e dormiria no sofá. — Ela suspirou. — Bem, deve ser o destino. Não está escrito que Kohako e eu ficaremos juntos.

Ela ergueu o rosto para encontrá-lo observando-a intensamente, com uma estranha expressão. Não era justo. Havia perdido sua chance com Kohako por ele ter pensado que estava envolvida com Sesshoumaru, que era quem realmente amava.

Não, a vida não era fácil... Por que aquele homem não percebia que eles dois formavam o casal perfeito? Por que não a tomava nos braços e dizia que estava loucamente apaixonado? Porque nada disso era real. Sesshoumaru não estava, e nunca estaria apaixonado por ela.

Sesshoumaru viu os olhos de Rin se encherem de lágrimas e seu peito se apertou. Ela tinha se aborrecido mesmo com aquilo. Ela realmente gostava daquele homem.

Ouça, Rin, não é tão mal assim. Tudo que temos de fazer é romper o romance.

Rin o encarou como se estivesse maluco.

O quê?

Kohako está realmente interessado em você. Deixou mais do que claro hoje de manhã. Agora, temos de fingir durante algum tempo que temos um romance. Então, podemos simular uma briga e um rompimento.

Enquanto falava, a idéia começou a ficar interessante. Sesshoumaru ponderou que teria chance de representar o papel de amante de Rin por algumas semanas. Era um papel que assumiria com a mais absoluta sinceridade. E, talvez, Rin começasse a desejar que ele o ocupasse indefinidamente, e de forma mais realista.

É uma boa idéia, Rin — insistiu, animando-se. — Veja, podemos fingir que eu a abandonei e...

Fingir que estamos juntos? O que isso quer dizer?

Quer dizer que manteremos a farsa fingindo que somos amantes.

Riny abriu a boca, confusa. Na verdade, não sabia como amantes agiam. Havia muito tempo que não se relacionava com ninguém. Casais apaixonados ainda andavam de mãos dadas? Beijavam-se quando acordavam e antes de dormir?

Ela sentiu uma onda de calor ao pensar nas conseqüências de Sesshoumaru beijá-la nas próximas semanas. Depois de alguns dias, provavelmente se tornaria incoerente. Depois de uma semana estaria se atirando nos braços dele.

Não, definitivamente não era uma boa idéia.

Não vai funcionar — declarou, seguindo para a porta. — Até mais tarde, Sesshoumaru.

Ele se despediu com um aceno, disfarçando o sorriso malicioso. Havia percebido a hesitação nos olhos dela. Sim, funcionaria perfeitamente, concluiu. E, se a sorte estivesse a seu favor, Rin acabaria em seu braços...


Agradecimentos especiais para: jubs-chan, zisis, sandramonte e Chelsea de Aguia: VLW PELOS REVIEWS MENINAS!

Pra quem estiver curiosa sobre como fui na prova da OAB ontem, o gabarito oficial sai só amanhã, mas estou muito confiante de ter passado! \o/

Qto à chantagem de SOMENTE atualizar se receber reviews, cara se eu soubesse que isso dava tão certo, teria usado nas minhas outras ficts tbm! hahaha

Por tanto, a chantagem permanece!

Façam essa pessoa aki feliz e me deixem reviews!

Bjus =)