As personagens de Inuyasha não me pertencem e possuem todos os seus direitos reservados.
CAPÍTULO VII
— Muito bem — disse Rin — Alguma dúvida sobre a programação do final de semana?
Ela correu o olhar pela mesa de conferências onde Kohako estava sentado, rodeado pela equipe técnica.
Na sexta-feira seguinte, a equipe viajaria para o Grand Canyon. Simon Harcourt possuía um chalé no parque nacional e costumava passar os finais de semana lá com a família. Rin havia planejado gravar algumas seqüências no local, o que seria perfeito para demonstrar a ligação do candidato com o meio ambiente, a família e a saúde. Além disso, o local em si proporcionaria um espetáculo à parte. Esperava, apenas, que o tempo estivesse bom.
Sesshoumaru estava sentado no outro extremo da mesa, e a observava. Durante toda a reunião, estivera consciente disso. Ele estivera representando o papel de seu amante durante os últimos dias, e mesmo que não a tocasse no trabalho, parecia despi-la com o olhar. Sempre que se fitavam, um sorriso lento curvava os lábios viris, fazendo-a derreter. O efeito perturbador era potencializado pelos olhos penetrantes, que evocavam lembranças de cada toque, de cada beijo.
Ela desviou o rosto e pigarreou.
— Creio que conseguiremos gravar todas as cenas de que precisamos no sábado e no domingo, mas temos de nos preparar para ficar mais tempo. Mantenham a agenda de segunda e terça-feira abertas. — Suavizou o tom com um sorriso. — Melhor ainda, não assumam nenhum compromisso até o final da próxima semana. Afinal, temos o direito de nos divertir enquanto trabalhamos, não acham?
Murmúrios excitados percorreram a sala e Rin se levantou com um sorriso satisfeito.
...
— Olá...
Rin ergueu os olhos do computador quando Sesshoumaru enfiou a cabeça pela fresta da porta de seu escritório.
— Olá! Hoje é seu dia de folga. O que está fazendo aqui?
Ele entrou. Usava a tradicional calça jeans e camiseta e carregava uma sacola de compras.
— Senti uma necessidade incontrolável de vê-la. — A voz rouca soou baixinho, mas Rin sabia que a secretária estava atenta à conversa. — Kagome, segure as ligações da chefe. Ela vai fazer uma pausa para o almoço — ele disse, percebendo a preocupação de Rin — Não queremos ser perturbados — completou, trancando a porta.
— Sesshoumaru...
— Você precisa de uma pausa — afirmou ao retirar as embalagens e colocar sobre a mesa.
— Oh, meu Deus! Por que fui concordar com a estúpida idéia de fingirmos um romance? — ela gemeu. — O escritório todo acha que estamos tendo um romance picante, e nos trancarmos no meu escritório no meio do dia não vai ajudar a fazê-los mudar de idéia.
— Qual é o problema? Estamos apenas almoçando. — Sesshoumaru abriu a embalagem de salada de galinha e colocou uma porção no prato descartável — Humm... Está delicioso! Você tem de experimentar.
— Sesshoumaru, por que você nunca me leva a sério? Agora mesmo, metade da equipe está ocupada fazendo apostas, e a outra metade está esperando para ver o tamanho do seu sorriso quando sair daqui para fazer o lance.
— Quer ir ao cinema hoje à noite? — Sesshoumaru perguntou colocando uma porção generosa de salada para ela.
— Está vendo? Você está me ignorando! Odeio quando faz isso.
Ele colocou o prato sobre a mesa e inclinou o corpo para a frente. Com um dedo, pressionou o botão do interfone.
— Kagome?
— Sim? — A voz soou mais alta e estridente no alto-falante.
— Quero que saiba que não estamos fazendo sexo aqui, está bem?
Rin colocou a mão na testa, exasperada.
— Você ouviu, Kagome? — insistiu.
— Ouvi — a secretária respondeu num sussurro.
— Ótimo. — Desligou e olhou para Rin — Está se sentindo melhor?
— Minha reputação foi para a lata do lixo!
— Por quê? — Sesshoumaru a encarou com expressão séria — Você fez dessa companhia um lugar agradável para se trabalhar, Rin. É descontraído, amigável e muito tranqüilo. Paga bem seus funcionários e lhes dá autonomia. Por que acha que eles não farão o mesmo por você? — Recostou-se na cadeira e voltou a atenção para a comida — Ademais, as apostas dizem respeito a quando eles acham que eu farei o pedido, e não se nós fazemos sexo ou não.
— Eles acham que... Que nós vamos nos casar?
— Jakotsu me ofereceu metade do dinheiro arrecadado se eu fizer a proposta na data que ele escolheu — ele disse entre uma garfada e outra. — Então, daqui a duas semanas, vou pedi-la em casamento, está bem?
— Meu Deus, Sesshoumaru. Você é tão romântico quanto um computador.
— Achei melhor avisá-la para não pegá-la desprevenida.
— E o que você fará se eu aceitar? Estaria disposto a arriscar o restante da sua vida comigo por uma quantia que não deve passar de cem dólares?
Era o momento, Sesshoumaru pensou. Não haveria oportunidade melhor de declarar seu amor. Mas as palavras pareciam presas na garganta. Ele tossiu e colocou o prato na mesa.
— Ouça, Rin...
O telefone soou e ela o atendeu rapidamente. Identificou-se e ouviu por alguns instantes antes de voltar a atenção para a agenda de mesa.
— Não. Não será possível. — Outra pausa, e ela adiantou algumas folhas — Estarei ocupada no próximo final de semana. Vamos para o Grand Canyon. — Rin apertou os olhos e olhou para o relógio. — Agora?
Sesshoumaru a fitava com expectativa enquanto ela confirmava e desligava.
— Era a secretária de Aaron Fields. Havíamos marcado uma reunião no Canal 5 para hoje à noite. O problema é que Kohako teve de cancelar e está livre agora. Ele já falou com Fields e...
— E, mais uma vez, você não vai comer — Sesshoumaru observou-a retocar o batom.
— Não tenho escolha. A outra alternativa é arriscar me encontrar com Fields sem Kohako. — Ela fechou o porta-batom e o guardou na bolsa. — Eu deixaria de almoçar todos os dias se isso significasse não ter de ficar sozinha com aquele imbecil.
— Você nunca me disse por que não gosta dele.
— Ele me convidou para jantar há cerca de três anos — ela respondeu com a mão na maçaneta. — Fui estúpida o bastante para aceitar, e Aaron entendeu como uma resposta global para o resto da noite. Isso, combinado com o charme incrível dele, dentre outras coisas, o colocaram na lista das dez pessoas que devo evitar a qualquer custo.
— Quando você tiver mais tempo, quero que me conte o que realmente aconteceu.
Como ele sabia que havia mais? Rin tinha consciência de que Sesshoumaru não podia ler sua mente. Se pudesse, já saberia sobre seus sentimentos secretos e já teria partido da cidade.
Notando a expressão frustrada com que ele a fitava, Rin resistiu ao impulso de ficar e contar toda a história. No entanto, ele também se recusara a revelar o que estava por trás daqueles lampejos de tristeza que ela flagrara em seu olhar.
— Claro. Qualquer dia desses, contarei todos os detalhes, depois de você me dizer por que deixou Los Angeles às pressas.
— É melhor você ir, ou chegará atrasada — Sesshoumaru apressou-a, evitando o assunto.
— Mais cedo ou mais tarde você vai me contar.
Ele sorriu para ela, fazendo-a prender a respiração.
— Mais cedo ou mais tarde — ele concordou. — O que acha de irmos ao cinema hoje à noite, já que sua reunião foi cancelada? Você escolhe o filme.
— Está bem, se você prometer que não vai tentar me convencer a ver alguma coisa com muito sangue e violência.
— Prometo. Tomara que escolha o novo filme de Bruce Willis. Você sabe como gosto desse ator.
— Sesshoumaru, você nem respirou antes de quebrar a promessa.
— Aposto que você está louca para ver Bruce Willis. Não negue.
— Até mais tarde. — Rindo, ela abriu a porta.
— Está bem. Não vou dizer mais nenhuma palavra sobre qualquer filme até termos comprado os ingressos.
Rin olhou por sobre o ombro.
— Combinado.
...
— Mal posso acreditar que encontramos o arquivo mais valioso sobre Simon Harcourt — Rin dizia enquanto Sesshoumaru procurava uma vaga no estacionamento do shopping. — Você provavelmente não se lembra, mas alguns anos atrás, houve um incêndio num centro comunitário no sul de Phoenix, num daqueles núcleos educativos onde as crianças podem ir depois da escola para ficar fora das ruas. Bem, depois do incêndio, a estimativa era de que os reparos do prédio fossem tão dispendiosos que todos acharam que seria o fim da instituição.
Ela soltou o cinto de segurança e saiu do carro, continuando a falar enquanto fechava a porta.
— Mas Harcourt soube da história e contratou uma equipe para verificar o prédio. E foi então que descobriu que a estrutura ainda estava boa, e que a maioria dos danos havia sido provocada pelo fogo e pela água.
Sem interromper o relato, ela seguiu Sesshoumaru para o cinema e entraram na fila para comprar os ingressos.
— Simon se uniu às crianças e líderes comunitários e...
Sesshoumaru passou o braço sobre o ombro dela e a puxou para mais perto, e Rin se calou no mesmo instante.
— E...?
— Eles organizaram uma faxina geral. — A voz soou ofegante quando a mão deslizou casualmente para sua cintura. — Sesshoumaru, o que está fazendo?
A pele era como seda. Sesshoumaru sentiu a suavidade e o calor nas pontas dos dedos e obrigou-se a parar.
— Temos de fingir que somos amantes, lembra? — avisou, mantendo-a no lugar com firmeza quando ela tentou se afastar.
—Sesshoumaru...
Ignorando o protesto, enlaçou a cintura delgada com os dois braços, forçando-a a encará-lo.
Não passava de um jogo, Rin se convenceu. Ele gostava de jogos. O problema era que aquele em particular envolvia sentimentos.
O pior era que Sesshoumaru parecia sincero... Agia como se estivesse apaixonado, e o olhar ardente poderia facilmente ser interpretado como real.
— Não precisamos fingir. Ninguém nos conhece aqui — ela protestou.
— Tem certeza? Nunca se sabe quem pode estar por perto... Alguém do escritório ou da equipe de Harcourt pode ter decidido assistir o mesmo filme. Phoenix não é uma cidade tão grande.
Rin apertou os lábios e o fez rir ao lançar-lhe um olhar cético.
— Bem, se meu argumento não a convenceu, ao menos considere a oportunidade de praticar a linguagem corporal. Vamos, qualquer um que estiver nos observando vai achar que você não gosta de mim.
Avançaram alguns passos, acompanhando a fila, e Sesshoumaru a soltou. Porém, Rin tomou a mão dele num gesto tímido.
— Assim combina mais com meu estilo — ela justificou, olhando-o com o canto dos olhos. — Se ainda acha que não é suficiente para convencer a audiência, que, aliás, não está prestando a mínima atenção em nós dois, eu posso acrescentar que gosto de você, Sesshoumaru.
— Já é um começo — ele disse com um sorriso, apertando os dedos dela entre os seus.
Quando chegaram ao guichê, Rin se afastou para que Sesshoumaru pegasse a carteira.
— Dois ingressos — pediu, e olhou para Rin — O que vamos ver?
— Você não vai pagar meu ingresso.
— Podemos discutir sobre isso mais tarde. Agora, temos de escolher o filme. Veja o tamanho da fila atrás de nós. — Fez um gesto discreto com o queixo. — O que vamos ver, Rin?
— O que acha que vamos ver? — Ela perguntou com um sorriso divertido. — O filme de Bruce Willis, é claro!
— Oh, é claro! — Sesshoumaru riu e apanhou os ingressos.
— Você não achou mesmo que eu escolheria outro filme, não é? — Rin perguntou enquanto era conduzida para a fila da pipoca. — Quanto lhe devo pelo ingresso?
— Nada. Isso é um encontro, Rin... digo, senhorita Nakagawa — corrigiu-se — Vou pagar a pipoca e o refrigerante. E não tente me fazer desistir.
Algo nos olhos dele a impediu de argumentar. Por alguma razão, assumir os gastos naquela noite era importante para Sesshoumaru. Provavelmente, estava levando a sério a representação. Rin sabia que, se realmente estivessem juntos, ele sempre insistiria em pagar tudo.
Estudou-o com discrição, refletindo que aquilo era um exagero. Estaria ele tão envolvido na situação que não seria capaz de parar nem mesmo quando chegassem em casa? Não queria que ele fizesse amor com ela simplesmente por causa de um jogo. Porém, conseguiria resistir?
Enquanto esperavam a pipoca, Sesshoumaru afastou os cabelos que caíam no rosto dela. Foi um gesto terno, gentil e carinhoso, que refletia a expressão suave em seus olhos. Rin sentiu o coração disparar.
Lembrou-se de que era apenas uma fantasia. Parecia com a vida real, ela sentia como se fosse real, mas não era nada além de sonhos e desejos.
A menos que...
A menos que Sesshoumaru estivesse tão concentrado em sua atuação que se convencera de que realmente estava apaixonado. Mas, e então? Permaneceria por perto por um mês ou dois, talvez três se ela tivesse sorte. Depois, ficaria inquieto e partiria.
— Então, organizaram uma faxina... — Sesshoumaru pegou as pipocas e o refrigerante, e os dois começaram a se dirigir para a sala de exibição.
Rin o encarou, confusa.
— Você estava me contando sobre um dos arquivos de Harcourt que encontrou — lembrou-a.
— Ah, é verdade! O centro comunitário. Bem, ele doou tudo que era necessário para a reforma, e as pessoas da comunidade fizeram um mutirão e trabalharam juntas. Mas, e essa é a melhor parte, Harcourt ajudou com as próprias mãos.
— Está brincando.
— Não. Tenho as cenas em que ele aparece pintando as paredes, todo sujo de tinta. Está ao fundo de uma entrevista com as crianças. Harcourt nem sabia que estava sendo gravado, o que prova que não procurava publicidade. Não disse uma só palavra durante a gravação toda. Aliás, desconfio que o cinegrafista nem sequer o tenha reconhecido. Ele estava apenas trabalhando, como um cidadão comum, trajando jeans e camiseta. — Animada, Rin o seguiu para a frente da sala. — Eu mesma não o teria reconhecido se Kohako não tivesse me mostrado. Ele ampliou a imagem e fiquei perplexa quando o vi. Esse material será excelente para Harcourt.
A sala de exibição estava escura e fria, e havia poucos assentos vagos.
Sesshoumaru parou numa das fileiras da frente e cochichou ao ouvido de Rin:
— Aqui está bom para você?
— Considerando que é o mesmo lugar em que sempre nos sentamos quando vamos ao cinema, eu diria que está perfeito.
Sesshoumaru entrou primeiro, mas, em vez de se sentar na segunda cadeira, percorreu a fileira toda até um lugar mais afastado. Rin arregalou os olhos quando ele colocou os refrigerantes nos porta-copos acoplados ao braço da poltrona e voltou, tomando a mão dela para acompanhá-la.
— Amantes sentam-se perto da parede, onde é mais escuro — ele explicou.
Com um gesto firme e gentil, fez com que Rin se sentasse e ocupou a poltrona ao lado dela, passando o braço ao redor dos ombros como se fosse o gesto mais natural do mundo.
A penumbra desenhava sombras misteriosas no rosto viril. Os olhos pareciam brilhar, mais dourados do que nunca. Ele a fitava intensamente.
O coração Rin disparou no peito e ela respirou fundo.
— Sesshoumaru...
Ele tocou-a no queixo, interrompendo as palavras com um beijo.
Rin não se lembrava de já ter sido beijada daquela forma antes. Foi um beijo lento e provocante, que começou com Sesshoumaru roçando a ponta da língua em seus lábios. O contato era gentil, mas firme o suficiente para demonstrar que não terminaria logo. Ele deslizou a língua por seus lábios entreabertos, dessa vez com mais pressão, numa exigência silenciosa.
Ela correspondeu antes de considerar as conseqüências. Sesshoumaru provava sua boca lentamente, impedindo-a de pensar. Girando numa espiral de desejo, beijou-o com a mesma intensidade, sem pressa e sem se importar com o mundo que os rodeava. Ouviu-o gemer quando tentou puxá-la para mais perto, mas o braço da poltrona o impediu.
Sesshoumaru se afastou e Rin retomou aos poucos a consciência, percebendo que as luzes haviam se apagado. Virou-se para Sesshoumaru, que tinha o rosto iluminado pela tela, e prendeu a respiração ao ver a inequívoca paixão nos olhos dele. Por um milésimo de segundo, permitiu-se ter esperança de que ele a desejava, e de que talvez a amasse.
— Senhorita Nakagawa... — ele disse, e as esperanças se desfizeram como as bolhas do refrigerante.
Sesshoumaru sabia exatamente o que estava fazendo, o que provava que mantivera o controle. Jamais teria se lembrado de chamá-la de senhorita Nakagawa se estivesse ardendo de desejo. Não, sua imaginação fora longe demais. Não passava de um jogo para ele. Não podia se esquecer disso, nem se deixar envolver pela fantasia, ou terminaria machucada.
Quando ele se inclinou para beijá-la novamente, desvencilhou-se e apertou as mãos sobre o colo para que ele não visse que estavam tremendo. Usando toda a sua concentração, obrigou-se a prestar atenção ao filme.
Confuso, Sesshoumaru recuou. O que havia acontecido? Segundos atrás, ela correspondera ao beijo com toda a paixão...
Não estava acostumado à rejeição feminina. Quando o filme começou, observou o perfil de Rin com uma inquietude crescente. E se ela não o desejasse? E se o amor fraternal que nutriam um pelo outro havia tanto tempo a impedisse de vê-lo como homem? E se ele não conseguisse fazê-la se apaixonar?
Estudou o rosto bonito com o peito doído, apavorado com a idéia de que seu tempo estava se esgotando.
...
— Vou para a cama — Rin avisou, parada na porta da sala. Sesshoumaru estava sentado no sofá lendo uma revista e mal a olhou.
— Certo.
— Boa noite.
Sesshoumaru apenas assentiu, sem erguer os olhos do que estava lendo.
Rin deitou-se e, mesmo exausta, não conseguiu dormir. Ora observava a luz que entrava pela fresta da porta, ora olhava para o relógio. Meia hora se passou, e mais meia hora... E mais meia hora. Percebeu que a luz se apagou, mas ainda podia ouvir Sesshoumaru se movimentar no corredor. Ao senti-lo parar diante de seu quarto, prendeu a respiração.
A porta foi aberta lentamente.
— Sesshoumaru?
Ele deu um pulo e praguejou.
— Droga, Rin! Você quase me matou de susto!
— Eu assustei você? Foi você que se esgueirou para dentro do meu quarto.
— Achei que estivesse dormindo — ele disse — Estava procurando minhas chaves.
— Suas chaves? — Rin estendeu o braço e acendeu o abajur.
— Mudei de roupas aqui ontem e devo tê-las colocado em algum lugar...
Sesshoumaru usava jaqueta e calça de couro, que combinava com as pernas longas como uma segunda pele. Mas a noite estava quente... Se estava com aquela roupa, na certa, planejava sair. E em alta velocidade.
— Aonde você vai? — Ela tentou soar casual.
— Preciso dar uma volta.
O coração de Rin se apertou enquanto ela se levantava para ajudá-lo a procurar as chaves. Ele precisava sair. Era assim que o desassossego e a necessidade de vagar começavam. Ele sairia em sua moto no meio da noite para percorrer as estradas desertas, para sentir o vento no rosto e nos cabelos. A princípio, essa ilusão de total liberdade o satisfaria, mas logo os passeios se tornariam mais longos. Um dia, ao acordar, descobriria que ele fizera as malas e se fora. E, tão rapidamente quanto tinha aparecido, Sesshoumaru sumiria.
Encontrou as chaves sobre a cômoda e suspendeu-as, fazendo-as tilintarem. Sesshoumaru observou-a atravessar o quarto. Ela usava um daqueles ridículos pijamas velhos e confortáveis com que adorava ir para a cama. O problema era que, com a iluminação do abajur atrás dela, o tecido se tornava transparente.
Com os cabelos caindo em desalinho sobre o rosto, ela estava mais sensual do que nunca.
— Não consegue dormir?
Ele segurou a respiração, esperando pela resposta. Peça-me para ficar, pediu em pensamento. Se ela dissesse uma só palavra, diria que a amava e...
— Estou com muita coisa na cabeça — Rin respondeu, alheia à suplica silenciosa. — Tenho medo de que alguma coisa dê errado nesse final de semana no Grand Canyon.
Por favor, peça-me para ficar... Os olhares se encontraram, mas Rin entregou-lhe as chaves e virou o rosto rapidamente.
— Tenha cuidado. Eu me preocupo quando você sai à noite.
Era óbvio que ela não pediria que ficasse. Ele suspirou, desapontado.
— Não tenho de ir... – Rin apenas o fitou — Se você quiser, eu ficarei — ele disse suavemente.
— Não. Você precisa ir, lembra? — Ela meneou a cabeça. — Dê uma volta para espairecer e se livre disso. Se não for, estará estressado no final de semana, e preciso de você e da sua câmera mais do que nunca.
Sesshoumaru hesitou. Percebeu que não precisava mais ir. Tinha de ficar e falar com ela. Tinha de fazer amor com Rin... Ela voltou para a cama.
— Boa noite, Sesshoumaru.
...
O telefone tocou às vinte para as quatro da madrugada. Rin deu um pulo e tateou na escuridão.
— Alô?
— Rin, querida, ainda está acordada?
Era Sesshoumaru, e ele obviamente tinha bebido.
— Agora estou — respondeu, acendendo a luz. — Onde você está?
— Onde diabos estou? — ouviu-o perguntar a alguém, com música ao fundo e o som inconfundível de uma máquina de fliperama. — Na esquina da Van Buren com a Vine. Estou num bar chamado Rancho Cactus. — Alguém disse-lhe algo que o fez rir — Cale-se, Miroku. Meu parceiro Miroku, o barman, apreendeu minhas chaves. Ele não vai me deixar dirigir de volta para casa, e o bar fechará daqui a menos de uma hora. Não tenho dinheiro para um táxi, e Miroku não quis me fazer um empréstimo. Preciso de você desesperadamente, querida. Venha me salvar.
Querida? Era a segunda vez que a chamava assim.
— Deixe-me trocar de roupas e...
— Venha com o que você está vestindo agora. — Sesshoumaru abaixou a voz — Seu pijama é muito sensual. Você sabia que quando entrei no seu quarto e você acendeu a luz, o tecido ficou transparente?
Deus, ela não sabia... Tentou manter a voz estável enquanto vestia as calças jeans.
— Van Buren e Vine. Logo estarei aí.
— Rin?
— O que, Sesshoumaru?
— Não conte a Miroku, mas ele tem razão. Estou um pouco bêbado.
— Um pouco — ela concordou.
Rin parou o carro no estacionamento pequeno do Rancho Cactus. A rua estava deserta, e não teve certeza se sentiu alívio ou medo. A região não era das melhores. O poste com uma lâmpada trêmula iluminava a fachada descuidada, e uma fileira de motocicletas ocupava parte do estacionamento, ao lado de apenas mais um carro.
Parou o mais perto possível da porta e saiu. Bastava entrar, pegar Sesshoumaru e ir embora, repetiu para si mesma, respirando fundo.
A porta se abriu com um rangido e ela hesitou antes de entrar no ambiente enfumaçado, com música alta. Havia cerca de quinze pessoas, e todas, até as mulheres, usavam roupas de couro, típicas de motociclistas.
Avistou Sesshoumaru sentado ao balcão, conversando com o barman, um homem simpático com traços que lhe lembravam um monge.
— Sesshoumaru.
Ele se virou rapidamente para encará-la e perdeu o equilíbrio, caindo no chão. Porém, logo olhou para cima com um sorriso no rosto, que revelava que ele não tinha se machucado.
— Ei! Rin! O que está fazendo aqui?
— Você me ligou. — Ela o cutucou de leve com o pé — Para vir buscá-lo e levá-lo para casa.
— Você deve ser Rin. Sou Miroku — o barman se apresentou com um sorriso, estendendo a mão, que ela apertou brevemente — Você é mesmo tão bonita quanto ele disse. — Entregou-lhe as chaves da moto de Sesshoumaru — Escutamos muito a seu respeito esta noite.
Sesshoumaru tentava se levantar.
— Eu telefonei para você? Quando? Bem, não importa. Você está aqui agora, querida, e é tudo que interessa. Vamos dançar?
Rin arregalou os olhos, espantada. Mesmo mal conseguindo parar em pé, Sesshoumaru conseguia ser o homem mais atraente que ela já vira. Os cabelos estavam no mais completo desalinho, ele tinha de se barbear, mas o sorriso charmoso e os olhos penetrantes eram os mesmos.
Ele se aproximou, fazendo-a se lembrar dos truques de sedução. Primeiro passo, invadir o espaço pessoal...
— Vamos, querida. Quero dançar com você.
Rin cruzou os braços e recuou.
— Sesshoumaru, eu saí da minha cama quentinha para vir buscá-lo. Tenho de ir trabalhar daqui a três horas. Portanto, não vou dançar.
— Rapaz, dê uma olhada nisso — ele disse com voz pastosa, virando-se para Miroku — Veja o que diz a linguagem corporal. Ela está furiosa comigo.
— Vá para casa — o barman aconselhou com gentileza — Vou cuidar de sua moto. Venha buscá-la amanhã.
Sesshoumaru se voltou para Rin, como se não tivesse ouvido.
— Seis mulheres. Seis mulheres diferentes... — olhou para Miroku — Não é verdade?
— Isso mesmo — respondeu o barman.
— Seis mulheres diferentes tentaram me levar para casa esta noite. Mas eu não queria ir com nenhuma delas.
Rin o encarou com expressão fechada.
— Por que está dizendo isso, Sesshoumaru? Espera que eu lhe dê uma medalha por bom comportamento?
— Sabe o que eu disse a elas? — Ele virou-se para Miroku.
— O que eu disse, Miroku?
— Você disse que havia uma só mulher no mundo todo com quem gostaria de ir para casa. Então, a menos que alguma delas fosse Rin Nakagawa, você não iria a lugar algum.
Rin olhou atônita para o sorriso de Sesshoumaru. Era óbvio que ele não queria dizer nada de mais... Estava bêbado, e a única pessoa em quem confiava era ela.
Mas e se...?
Balançou a cabeça, sentindo-se tola. Não era o momento para analisar o sentido daquelas palavras. Sesshoumaru não sabia o que estava dizendo. Ele nem sequer se lembrava de ter telefonado, quanto mais o que havia dito para as seis mulheres que tinham tentado sair dali com ele. Seis mulheres...
— Por favor, Sesshoumaru, vamos embora. — Puxou-o com gentileza. — Até logo, Miroku.
— Até logo. E até amanhã, Sesshoumaru. Foi um prazer conhecê-la, Rin. — O barman sorriu com serenidade e voltou a secar os copos.
O céu começava a se tingir de dourado quando Rin ajudou Sesshoumaru a se acomodar no banco de passageiros, fazendo um esforço monumental ao ter de suspender as pernas musculosas para fechar a porta. Finalmente, sentou-se ao volante, fechou a porta e girou a chave na ignição.
Seguiu para o Norte, dirigindo em silêncio por muitos minutos até Sesshoumaru virar-se para ela de repente.
— Pare o carro.
Como não havia tráfego, ela logo entrou no acostamento e, pouco depois, parou no estacionamento de uma loja de conveniência.
— O que foi? Você não está se sentindo bem?
A resposta foi um beijo quase selvagem que lhe tirou o fôlego. O gosto que combinava uísque, cerveja e fumaça de cigarro preencheu sua boca. Mas, para além de tudo isso, reconheceu o sabor inequívoco da boca de Sesshoumaru, quente, macia, irresistível. Porém, afastou-o. Ele estava bêbado. De alguma forma, beijá-lo naquela condição a deixava com a incômoda sensação de estar tirando vantagem.
— Sesshoumaru, pare com isso.
— Eu não quero parar. Beije-me, Rin. Por favor...
Ele a fitava intensamente, os olhos brilhantes. Qual seria o grau de embriaguez em que se encontrava? Sentado ali, olhando-a daquela forma, certamente não parecia tão alcoolizado quanto antes, quando ela o carregara pelo estacionamento do Rancho Cactus. E então ele sorriu.
— Por favor? — ele insistiu. — Beije-me como você fez no cinema... Como se quisesse que eu arrancasse todas as suas roupas com meus dentes.
Rin riu com evidente nervosismo.
— Não foi assim que eu beijei você.
Ele riu também, e os olhos desceram para a boca de Rin, numa provocação silenciosa.
— Oh, sim... Foi assim mesmo. Por favor, querida, beije-me daquele jeito de novo.
Rin desviou o rosto, embaraçada, mas ele a segurou pelo queixo e virou sua cabeça, fazendo com que os olhares se encontrassem.
— Por favor?
Sem esperar que respondesse, ele puxou-a para perto e Rin não pôde resistir. Quando a boca cobriu a dela, fechou os olhos e agarrou-se a ele, permitindo que Sesshoumaru invadisse seus sentidos, penetrando a língua profundamente, sem pedir permissão. Ouviu um gemido gutural, e ele aproximou-a ainda mais, praguejando e rindo entre os beijos ao ter o movimento restrito pelo cinto de segurança.
Ele a tocava em todos os lugares, nos cabelos, no rosto, nas pernas, na cintura... Rin prendeu a respiração quando os dedos tatearam seus seios e encontraram os mamilos sensíveis evidenciados sob o tecido da blusa.
— Oh, Deus... Como eu a desejo... — ele sussurrou. Desceu as mãos para a barra da blusa, puxando-a do cós da calça enquanto abria os botões. — Preciso de você, querida... Por favor...
A urgência do gesto fez com que os botões saltassem para o chão do carro.
A blusa aberta revelava a renda delicada do sutiã preto em contraste com a palidez da pele. Ele a tocou, deslizando os dedos sobre o tecido, moldando os seios suaves nas palmas das mãos, enquanto encontrava seu olhar.
— Eu te amo... — Sesshoumaru sussurrou. — Eu te amo, senhorita Nakagawa. Case-se
comigo.
Rin lutou contra a onda de desapontamento que ameaçava sufocá-la.
Sesshoumaru havia perdido o senso de realidade. Ela sabia que ele estava bêbado. Então, por que havia permitido que a beijasse? Lágrimas inundaram seus olhos. A culpa era dela. Ele apenas representava o papel de amante e fora envolvido pelo jogo. Ele não a amava. Estava apenas fingindo. Quanto ao pedido de casamento, na certa tinha se enganado. Teria de fazê-lo dentro de uma semana, ou então ele e Jakotsu não ganhariam a aposta no escritório.
Empurrou-o com firmeza, mantendo a blusa fechada com as duas mãos.
Sesshoumaru a encarou surpreso e confuso até ver as lágrimas no rosto adorável.
— Meu Deus, eu fiz você chorar — ele disse, em voz rouca. — Rin, o que fiz? Eu machuquei você?
Estendeu o braço, mas ela se afastou.
— Não toque em mim, Sesshoumaru. Não quero que me toque.
— Por que não?
Rin ligou o carro e saiu do estacionamento a toda a velocidade.
— Por que não? — Sesshoumaru insistiu, colocando a mão no joelho dela. — É bom tocá-la. É muito bom...
Ela afastou a mão dele, irritada.
— Não. Não é bom.
Ignorando a hostilidade, ele tocou-a de novo.
— Ora, vamos...
Rin pisou no freio, fazendo o carro parar bruscamente.
— Não! Pelo amor de Deus, Sesshoumaru, eu disse "não"!
Agora, ele também tinha lágrimas nos olhos. O tolo estava bêbado e não compreendia. O álcool o enviara a um mundo em que ele considerava apenas o presente. Naquele momento, não tinha passado nem futuro com que se preocupar. O presente era tudo o que importava, e por um breve momento, Sesshoumaru vivia um encontro passional com uma representante do sexo feminino chamada Rin...
Não que o nome particularmente interessasse para ele na condição em que se
encontrava.
Sim, Sesshoumaru estava alcoolizado, mas ela não estava. Rin estava lúcida e preparada para resistir a um breve instante de gratificação nos braços dele. Claro, desejava-o, mas queria que a recíproca fosse verdadeira. Queria que ele soubesse com quem estava, e não que a visse apenas como uma mulher que, por coincidência, estava disponível. Queria que a amasse, e não que representasse um papel num jogo estúpido de sedução. E, se fizessem amor, queria que ele se lembrasse pelo resto da vida.
Ele tinha virado o rosto, incapaz de conter a emoção certamente provocada por tanto álcool no organismo. Ela enxugou os próprios olhos com a barra da blusa e colocou o carro em movimento.
— Sesshoumaru...
Ele não ergueu o rosto, nem respondeu.
— Se ainda quiser... — Rin umedeceu os lábios com nervosismo. — Se ainda quiser fazer amor comigo quando estiver sóbrio, me avise, está bem?
Somente então ele a encarou, enxugando os olhos com as costas da mão.
— Estou muito embriagado, não?
— Sim. — Ela sorriu com pesar. — E aposto que não vai se lembrar de nada disso amanhã.
— Talvez. Mas há uma coisa de que jamais me esquecerei, não importa o quão bêbado eu esteja.
Rin parou o carro no estacionamento do condomínio.
— E o que é isso, Sesshoumaru?
Ela virou-se para encará-lo, e ele sorriu. A expressão no rosto bonito se tornou frágil e vulnerável.
— O quanto eu te amo.
Ela sentiu uma nova torrente de lágrimas inundar seus olhos.
— Isso foi muito gentil, Sesshoumaru. — De alguma forma, ela conseguiu manter a voz estável.
— Você não acredita em mim, não é? — perguntou, ansioso.
— É claro que acredito — ela mentiu, abrindo a porta do carro.
Agradecimentos especiais para: jubs-chan, Yuuki-chan s2: VLW PELOS REVIEWS MENINAS!
Bom galera, peguei o gabarito oficial ontem e chan chan chan: EU PASSEI! \o/
Segunda fase aí vou eu!
Lembrete: a CHANTAGEM permanece! rsrs
Façam essa pessoa aki feliz e me deixem reviews!
Bjus =)
