Disclaimer:

Metal Gear Solid 4 e seus personagens são criações de Hideo Kojima e seus direitos pertencem à Konami Digital Entertainment Co., Ltd. Esta obra não tem fins lucrativos.

Thank you, Mr. Director.


Capítulo 1 - Então me mate. Ou aceite minha ajuda.


"Por que está me falando isso? Você espera que eu sinta pena dela?"

"Nah, eu sei que esse tipo de coisa não existe no seu mundo. E além do mais isso é uma guerra... certo? No entanto, eu acho que isso era o certo a se fazer"

"O que?"

"Lutar com você ajudou a limpar a mente dela. Mas chega de papo furado, há outras feras na selva a sua frente. Cuidado com suas costas."

Solid Snake desligou o codec. Antes de sair, voltou a olhar para a garota caída no chão. Laughing Octopus se encontrava no meio do laboratório. Deitada em posição fetal ela apenas dormia pacificamente sobre o efeito de tranqüilizantes.

O velho soldado virou em direção à porta que levava à saída do complexo e andou naquela direção. Quanto estava prestes a girar a maçaneta ouviu um barulho que supôs ser um gemido. Novamente, ele voltou a atenção para a loira. Decidiu voltar e checar a moça.

Apesar de terem lutado há poucos momentos e por mais de uma vez Snake ter quase morrido, não conseguia achar um motivo para acabar de vez com a ameaça. Talvez tenha sido a história que Drebin lhe contou.

A garota realmente passou por uma experiência traumatizante, isso era inegável até para alguém como ele que já tinha visto de tudo na guerra. Mas ele só ouviu essa história depois de por a garota para dormir com uma boa quantidade de tiros tranqüilizantes, então, o que o motivou a não atacar a garota com munições letais? Afinal, ela tentava mata-lo.

Checou a pulsação dela pela segunda vez mesmo sendo desnecessário. Bastaria olhar o rosto sereno dela para perceber isso. Era quase agradável ficar ali observando a garota dormir pacificamente. Mas não tinha tempo para isso. A prioridade de Solid Snake agora é resgatar a doutora Naomi Hunter que logo, logo estará longe se ele não fizer nada para impedir que a levem novamente.

O melhor a fazer era deixar a "tentáculos" ali dormindo e apressar-se. Exatamente o que pretendia fazer, se não tivesse ouvido a garota sussurrar novamente. Mas desta vez conseguiu entender o que ela falava.

"Papa!"

Snake então percebeu que continuava com a mão próxima a garota, seu dedo indicador ainda no pescoço dela sentindo a pulsação. Antes que pudesse levantar, duas delicadas mãos seguraram a sua com força. Ele levou um susto e tentou puxa-la, mas a garota não soltava por mais que tentasse. Estava prestes a dar um puxão com força e sair logo dali quando a garota pareceu acordar.

Os dois se olharam por alguns instantes antes que se jogassem cada um para um lado. Ela, totalmente indefesa apenas cobria o rosto com as mãos enquanto o outro apontava a arma para a suposta ameaça, desta vez com uma pistola de munição real, pronto para apertar o gatilho a qualquer momento. Hora ou outra a loira olhava para ele, mas na maior parte do tempo apenas cobria os olhos e tremia no chão. Uma pessoa totalmente diferente da assassina de poucos minutos atrás.

Solid Snake aos poucos foi abaixando a sua Operator até que a garota não estivesse mais na sua mira. Foi recuando, mas nunca sem a perder de vista, ainda que com a arma abaixada. Deu de costas com a porta de metal e lentamente deixou o laboratório. Ao fechar a porta tratou de ir em direção a trilha que dava a floresta o mais rápido possível. Só quando recebeu outra ligação pelo codec que conseguiu tirar a loirinha da cabeça.

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Ele não conseguia agüentar mais aquele Sol, doía só de manter os olhos abertos. Mas Snake não podia sequer procurar uma sombra para descansar por um minuto. O relógio estava contra ele. Em pouco tempo Naomi Hunter pegaria um helicóptero e sumiria da América do Sul. Acha-la depois disso seria quase impossível, mesmo se Otacon se pusesse a procurar dia e noite pela localização dela.

Aquela era sua última chance de resgata-la e não podia desperdiçar. Fechou os olhos por alguns instantes e voltou a si. Estudou as pegadas no chão. Haviam várias e logo a frente se dividiam em três caminhos diferentes. Para a sorte de Snake era possível ver claramente por qual caminho Naomi havia seguido graças as marcas dos sapatos que ela usava, diferente das botas dos militares.

O velho grisalho tomou o caminho da esquerda e mesmo que suas costas reclamassem, caminhou arqueado por vários metros até chegar a uma clareira. Uma arvore no meio, cercada por alguns arbustos e atrás dela dois caminhos diferentes. Antes que entrasse, tomou cobertura atrás de algumas pedras e analisou a área.

Não havia ninguém nas poucas vegetações aos lados, no matagal em um dos caminhos e nem nos arbustos. Respirou fundo, empunhou a sua pistola e foi andando em direção aos dois caminhos. Ao mesmo tempo que ficava atento ao ambiente e à possíveis inimigos escondidos, olhava para o chão procurando as pegadas certas. As únicas diferentes, exatamente dos sapatos de Naomi, seguiam novamente para o outro caminho da esquerda.

Quando Snake estava prestes a seguir por esse ouviu um barulho de folhas sendo reviradas. Quando virou para trás já era tarde demais, uma das mercenárias da FROGS o tinha sobre a mira. Snake, seu velho idiota. Esqueceu de olhar a árvore! Levantou as mãos, mas sem deixar a arma cair.

Começou a olhar para os lados numa tentativa inútil de achar alguma coisa que pudesse ajuda-lo na situação. A mulher foi se aproximando até que ficou há pouco mais de quatro metros de distância dele.

Olhou para o seu peito, o pequeno pontinho vermelho se movia em círculos em volta dá área de onde estava seu coração. Parecia que ela queria ir direto ao ponto sem pestanejar. Um ou dois tiros diretos no coração para acabar com a ameaça do velho. Enquanto acompanhava a mira da soldado dançar em sua direção, alguma coisa chamou sua atenção.

O reflexo de uma lente nos rochedos atrás dele e da FROG. Snake nem chegou a piscar e um tiro atravessou àquela área. Mas não era destinado a ele. O impacto fez a parte traseira do capacete da mercenária rachar e a jogou para frente, caindo quase nos pés do homem rendido. Ainda de mãos para o céu, ele olhou para a direção que veio o tiro.

Seus olhos cansados e afetados pelo Sol não conseguiam enxergar nada a princípio, mas aos poucos conseguiu perceber alguma movimentação entre as pedras. Foi como ter um flashback. A jovem começou a caminhar em sua direção, a mão que cobria o rosto descia delicadamente pela sua face clara, pescoço e parando logo abaixo dos seios.

A textura da roupa mudava aos poucos, deixando de ser da cor das rochas e voltando para o marrom-acinzentado original. Com o andar lento e sensual – que Snake tinha de admitir, era hipnotizante – Laughing Octopus foi se aproximando do velho.

"Solid... Snake!"

Ficaram frente a frente. A garota pegou a pistola que Snake segurava – ainda que a apontasse para o céu – e jogou para o lado. Estando a sua arma, uma metralhadora P90, com o cano encostado na cabeça do homem, ela se sentiu segura o bastante para uma brincadeira.

Na ponta dos pés para tentar ficar na mesma altura, encostou a cabeça em um dos ombros do velho. Seu braço livre logo envolveu o agente como se o estivesse abraçando. Ficaram assim por poucos segundos, até que ela aproximou o rosto mais ainda e falou como se só para ele ouvir:

"Você podia ter me matado..."

Ela se afastou minimamente, o bastante para ficarem com os rostos próximos e com os olhares fixos um no outro. Continuava apontando a arma para uma das têmporas de Snake, a outra mão deixou de abraça-lo, para acariciar-lhe o rosto. O sorriso cínico dela mudou um pouco, mas conseguiu convencer Snake de uma estranha sinceridade.

"Mas não o fez. E eu agradeço"

Ela se afastou mais ainda, agora ficando a uma boa distancia do lendário agente. Girou sua arma algumas vezes, imitando os filmes de faroeste e a estendeu, virada e apontada para ela mesma, entregando para o que estava a sua frente. Ele relutou um pouco, até finalmente pegar a P90 da mão dela. No entanto ele não foi tão gentil quanto a bela, deixando-a novamente sobre sua mira.

"O que você quer?"

"Ajuda-lo. É o mínimo que eu posso fazer"

Snake apenas ficou em silêncio e moveu a arma lentamente até que laser vermelho da mira percorresse o belo rosto da loira. Para ela era mais do que óbvio que não tinha conseguido conquistar a confiança do outro. A jovem então tratou de pensar em alguma forma de fazer o velho mudar de opinião, ou pelo menos tirar aquele feixe de luz irritante de perto de seus olhos.

Lembrou da conversa que ouviu dos mercenários sobre a escolta da cientista até o heliporto. Eles haviam preparado alguns planos reservas caso fosse necessário despistar as milícias locais – embora jamais pensariam que teriam de faze-lo para evitar apenas um homem: Solid Snake.

Octopus deu as costas ao agente e se jogou no chão, ficando de quatro sobre o irregular solo de areia, grama e pequenas rochas. A textura de parte de sua roupa – mãos e pernas, as que estavam de contato com o chão - mudou, copiando a cor do solo. Engatinhou – obviamente de forma provocativa – cerca de menos de dois metros e virou o rosto para o homem, enquanto uma das mãos apontava para as pegadas no chão.

"Olhe – as pegadas, e não a minha bunda!" Ela fez questão de frisar. "Vê a única diferente delas? As do sapato? Elas estão profundas demais. Provavelmente as FROGS pegaram o sapato da doutora Hunter para te enganar. Ela tem um corpo como o meu, sem chances que faria uma pegada tão profunda!"

Snake não conseguia enxergar com perfeição daquela altura, e não queria se arriscar se abaixando. Mas não havia outra alternativa. Dando um passo ou dois em direção a garota, apoiou-se em um dos joelhos e se abaixou sem perder a suposta inimiga de mira, que parecia não se importar mais com toda a precaução excessiva que o agente tomava. Ela tem razão, pensou.

As pegadas de sapato estavam consideravelmente mais profundas em comparação àquelas que o levaram para a clareira. Uma FROG poderia facilmente ter feito aquilo, já que o equipamento que carregavam devia ser bem pesado. Sua atenção só foi desviada quando percebeu a loira engatinhar a sua frente, fazendo questão de rebolar e sorrir para ele.

"Só podem ter ido para a direita" disse enquanto apontava para o caminho ao lado.

Ele resmungou alguma coisa concordando com ela e se levantou. Octopus apoiou as mãos nas coxas e ficou observando com curiosidade o velho, que apertou um botão na espécie de tapa-olho/engenhoca no seu olho esquerdo. Lembrou que Snake havia usado o aparato na luta contra ela. Provavelmente deve ter visão de calor e binóculos, pensou ela.

"Tem dois mercenários há uns trinta metros de distância. Nenhuma FROG" avisou o homem, como se aceitando a momentânea parceria. Ele logo percebeu o que disse e fechou a cara novamente. Olhou para a garota com um olhar de poucos amigos como se tentasse desfazer o deslize que cometeu.

"Então... isso ai consegue ver por baixo da minha roupa?" ela perguntou e deu uma risadinha tentando quebrar o gelo. Snake resmungou novamente, não ligando para a provocação – ou brincadeira – dela.

"Eu agradeço a sua ajuda. Você salvou a minha vida, mas não é assim que as coisas funcionam." Snake disse olhando para a garota ajoelhada no chão.

Ela logo fez uma cara de desgosto pelas palavras dele. Mas alguma coisa nele dizia que a loirinha não iria desistir tão fácil. Ele novamente empunhou a arma e apontou para a cabeça dela, mal percebera que havia baixado a guarda por alguns segundos.

"Então me mate. Eu não tenho mais uso algum" ela segurou com as duas mãos o silenciador da P90 e puxou a arma com vigor até que o cano encostasse com força em sua testa coberta pelos cabelos loiros. Cerrou os dentes tentando demonstrar o máximo de agressividade que conseguisse, embora soubesse que Solid Snake provavelmente não se deixaria enganar pela atuação fingida.

Ela sabia que ia convencer Snake, mas não imaginava que seria tão cedo, nem que ele faria o que fez a seguir. O velho, talvez até para sua própria surpresa, simplesmente estendeu a mão para a loirinha, que pareceu quase boba com a surpreendente ação dele.

Snake teve de aproximar a mão mais ainda do rosto dela, até que a moça se ligasse e voltasse a realidade. Segurou a mão dele e boquiaberta levantou-se aos poucos. Ao ficar firme e de pé olhou ainda surpresa para o homem, até que um detalhe na roupa dele chamasse sua atenção. Sobre a kevlar negra de fibra sintética havia, bem no centro dela, a inscrição de um kanji japonês. Ela não entendeu o que dizia, mas por sorte letras romanas traduziam em inglês o significado dele.

To let the world be. Ela leu e falou para sí mesma. Passou a mão lentamente por cima do kanji, sem dar-se conta da estranheza na situação. É por isso que você luta? Perguntou em silêncio, e dirigiu o olhar para Solid Snake. Ela não percebeu, mas aquela foi a primeira vez em muitos anos que olhou para alguém de forma genuína, sem segunda intenções, sem violência, sem qualquer sentimento falso ou ruim.

A garota corou. Na sua frente não estava um velho, um homem ou um soldado qualquer. Aquele era Solid Snake. O lendário herói que salvou o mundo diversas vezes. Outer Heaven, Zanzibar, Shadow Moses. Todas as histórias que ouviu dele quando criança passaram pela sua cabeça, os rumores que ouviu sobre tal agente quando já havia perdido sua inocência e vivia apenas como uma assassina que agia como um animal. Solid Snake salvou o mundo. Solid Snake à salvou.

Ele podia ter simplesmente metido uma bala na cabeça dela e acabado com sua miserável vida, mas não, ele lhe deu uma nova chance. Quando resolveu vir atrás dele foi como um gesto automático de agradecimento, mas agora, com ele ali na sua frente, o seu salvador, as coisas pareciam um pouco mais complicadas. Ela se sentia na obrigação de ajuda-lo, não só a sair dali e achar a doutora Hunter, mas ajuda-lo na sua causa.

"Por favor, Snake, eu quero ajuda-lo. E-eu p-preciso!" encostou a cabeça no peito dele e fez uma coisa que não fazia desde que... eu virei um monstro!

Ela começou a chorar. Com seu rosto sobre o kanji, abraçou com força o velho homem. Este, não fez nada além de deixar a arma cair no chão e ficar estático por alguns momentos.

Aquilo não podia ser uma atuação de Laughing Octopus. Conhecida como uma mestra na arte de enganar e na atuação, naquele momento ela não conseguia botar nada em suas lágrimas senão sinceridade. Não havia nenhuma ilusão ali, era ela na sua mais pura forma, na sua inocência destruída tentando se reconstruir agora que encontrou um motivo para viver.

"To let the world be… Snake-não! Solid Snake! Por favor, me perdoe…" Ela quis cair de joelhos, mas dois braços fortes a seguraram.

"Se você quer ajudar, não – me – atrase!" Snake falou pausadamente, levantando a garota até que ela recuperasse o equilíbrio. Ela assentiu, aceitando a condição.

Ele se afastou e foi ajuntar as armas caídas. Pegou sua pistola que estava ao lado e foi checar o corpo da mercenária, conseguiu uma granada e dois cartuchos de munição para a metralhadora.

Se abaixou para pegar a P90 próximo aos pés da garota e tentou ao máximo não olhar para o corpo dela enquanto se levantava. Octopus, de braços cruzados e olhando para o chão sequer notou a movimentação do agente. Seus olhos azuis fixados em um ponto qualquer no chão só ajudavam a mostrar que estava perdida em pensamentos. Snake começou a imaginar se deixar a garota acompanha-lo tenha sido uma boa decisão afinal.

Tal idéia sumiu de sua cabeça quando num piscar de olhos o semblante da sua aliada mudou. Meio trêmula, mas nitidamente decidida, ela pegou a metralhadora das mãos de Solid. Em pouco tempo já tinha tomado uma posição de alerta. Posicionada na altura dos ombros, a arma firmava-se nas mãos delicadas da loira. Virou minimamente o rosto, até que seus olhos focassem no companheiro.

"Podemos?" perguntou com um rápido sorriso.

"Depois de você" ele respondeu. Aliados ou não, ainda não confiava nela o bastante. Por enquanto era melhor tê-la onde pudesse alveja-la caso necessário, por mais que não quisesse pensar na possibilidade.

Em passos mais lentos que a discrição permitia, os dois puseram-se a andar.


Notas do autor:

Bom, por que a Laughing Octopus? Simples, pq ela é insana. Literalmente. rs.
Eu gostaria muito de conseguir transcrever essa insanidade dela para a personagem da fiction, mas acho que não vou conseguir perfeitamente. Escrever sobre o Snake que é um blank character ja é difícil, ter a Octopus com toda essa carga de emoções e loucura só torna as coisas quase impossiveis. Ainda mais para alguém chato com storyline/char. development como eu rs.

Se alguém estiver muito perdido e achar que há necessidade de fazer um glossário dos termos e acessórios presentes na fic, é só falar.