Capítulo 5

"Você está pensativo..."

"Estou?"

Snake tinha levado Jan para o andar de cima para mostrar aonde ela poderia dormir. Subiram as escadas, passaram pela cozinha e foram até um quarto com algumas camas que pareciam ser improvisadas. Ou talvez as camas militares fossem todas assim mesmo. Não que ela reclamasse, do que podia se lembrar, não tinha dormido em uma tão confortável desde a época de sua casa na Escandinávia.

Até que eram confortáveis, tinha de admitir. Ou talvez no seu estado qualquer coisa mais acolchoada estivesse ao ponto de parecer convidativa o bastante. Tentou acompanhar Snake e sentar em uma delas, mas não agüentou por muito tempo e teve de deitar. Estava cansada demais e tinha de descansar para a próxima missão. E o ferimento nas costas não ajudava nem um pouco. Mas pensou que umas poucas horas de sono já seriam o bastante. E uma conversa com o seu herói também.

"Não é nada. Eu só... estou pensando na próxima missão" Ele foi meio sincero. A missão era um dos motivos, mas estava longe de ser o único.

"O que tem para pensar sobre ela? Você não me parece estar planejando alguma estratégia ou coisa do tipo..." Jan disse de olhos fechados.

Esperava conseguir dormir durante a conversa, e sabia que Snake não se importaria muito com isso. Talvez até achasse melhor. As vezes parecia que ele só estava preocupado com ela por sentir alguma obrigação com o que aconteceu.

"É porque isso não é uma missão simples, como: o objetivo é esses e você deve cumpri-lo, ponto final! Não estou fazendo essa missão por que alguém me mandou, ou ao serviço do meu país" Até porque ele odiava isso, e jurou nunca mais faze-lo. "Mas porque é meu dever finalizar essa missão. Eu comecei e eu vou terminar" Nem acreditava que estava falando isso para a garota. Era tão... clichê. Apesar de verdade.

"Vocês homens e seu orgulho..." Ela completou com uma pequena risada.

"É, mas você também me pareceu bem orgulhosa" Snake provocou de volta.

"Ok, você me pegou" Se mexeu um pouco na cama procurando alguma posição confortável. Ficar deitada de costas incomodava um pouco por causa do ferimento. Resolveu deitar de lado, e aproveitou para se cobrir.

"É melhor você ir dormir. Ainda temos dez horas até chegar à Praga. Daqui a umas oito eu venho te acordar, tudo bem?" A moça só resmungou de volta. Snake levantou e foi em direção à porta.

"Mas e você?" Ela resolveu perguntar, um pouco curiosa.

"Tenho algumas coisas pra resolver ainda"

"Só tem três camas aqui, aonde vai dormir?"

"Não se preocupe, qualquer coisa eu durmo em alguma cadeira lá por baixo"

"Espera!" Esticou o braço e conseguiu segurar na mão dele, impedindo que ele prosseguisse. "Essa aqui... não é a sua cama... é?" Perguntou, mas achando que já sabia a resposta dele.

"Por que?"

"Desculpa, eu não queria incomodar tanto assim" Cada vez mais ela sentia que não deveria estar ali. As coisas não deviam ter ocorrido dessa maneiras. Estava tudo sendo tão bom para ela. Não devia ser assim.

"Não tem problema. Esqueça isso e vai dormir" Snake disse de forma ríspida. Não queria ofender Janm, mas essa parecia ser a única alternativa.

"Obrigada" Ela soltou a mão dele e sorriu. Snake abriu a porta e estava quase saindo. "Snake. Acho que da pra duas pessoas deitarem aqui!" O sorriso sincero mudou para o malicioso em uma questão de milésimos. Era incrível como ela conseguia fazer isso com tanta facilidade.

"Não!"

"Eu posso ficar por cima e-"

"Não!"

Ele fechou a porta antes que ela pudesse falar mais alguma coisa. Deu uma risada, sabendo que Octopus devia estar fazendo o mesmo. Tinha de admitir que por mais inesperado que tudo isso possa ter sido, a presença da jovem mexeu um pouco com ele. Para melhor.

"Você a deixou sozinha?" Naomi perguntou.

Snake estava sentado em um pequeno sofá do outro lado da cozinha do avião. Vez ou outra Sunny gostava de ficar deitada naquela mesma peça enquanto jogava seu videogame portátil – até tentou ensinar o velho a jogar umas duas ou três vezes, mas sem sucesso. O mesmo tentava agora fingir que dormia, de olhos fechados e o rosto apoiado em uma das mãos, mas o cigarro aceso denunciava sua mentira. Naomi arrancou-o da boca de Snake e jogou no chão, pisando em cima para apagar. Agora que tinha a atenção do fingido agente, podia continuar.

"Snake, você sabe que ela tem problemas na cabeça" Pronto, ia começar tudo de novo.

"Estresse pós-traumático" Snake corrigiu e começou a apalpar os bolsos atrás da carteira de cigarros.

"Que seja. Ela precisa de tratamento. Não pode ficar sozinha. Aliás, não poderia nem ficar aqui conosco. Eu sei que você não se importa comigo, mas pelo menos tenha consideração com a Sunny e o Hal" Ela cruzou os braços e olhou feio para o velho.

"Hal? O que houve com 'Dr. Emmerich'?" Olhou sério para ela, mas no fundo querendo rir.

"N-não mude de assunto!" Podia até bater o pé no chão agora que não adiantaria. Snake conseguiu desarmá-la.

"Naomi, escute: se ela tem problemas, então eu também tenho"

"Ah, Snake, para com isso! Você é um herói, por mais que tenha matado outras pessoas. Octopus é uma assassina mercenária. Pra ela não existe coisas como honra e dever. Por Deus, ela matou o próprio pai, não queira se comparar a-" As palavras morreram na sua boca. Percebeu tarde demais o que tinha falado. "Eu... eu não queria ter dito isso, descul-"

Naomi viu Snake levantar abruptamente, em silêncio. Tentou não olhar para o rosto dele, evitando um possível olhar furioso do velho, mas não conseguiu. De relance pode ver a face dele, que para sua surpresa estava com um semblante triste, bem diferente do que imaginava. Em passos rápidos ele foi até o outro lado da sala e abriu a porta para o quarto que estava até pouco tempo. Antes de entrar na sala escura virou-se para Naomi:

"Não se preocupe. Eu vou mandar Jan falar com Rosemary, ela vai poder aconselha-la e dar as precauções necessárias que deve ter. E se for necessário, algum remédio. Eu sei que Jan não vai se opor a isso. Aliás, eu vou pedir alguma coisa também. Vai que eu fico louco e acabo machucando um de vocês" Terminando com a ironia, fechou a porta.

"Como eu... pude falar isso..." Sentou no mesmo lugar que o velho estava, e ficou ali olhando para o chão e um cigarro amassado que ainda mantinha algumas cinzas acesas.

Olhou para o estranho relógio pregado em uma das paredes. Demorou algum tempo para vencer o pouco de tontura que ainda restava, e finalmente quando a dúzia de ponteiros se tornou apenas um, descobriu por quanto tempo havia dormido.

"Meia-noite, ainda? Não passaram nem três horas..."

Chegou a fechar os olhos e tentar dormir, mas não adiantou muito. Sentia uma estranha disposição que não a deixava relaxar o corpo por mais de alguns minutos. Mudou de posição diversas vezes e depois de olhar novamente para o relógio e perceber que os ponteiros não andaram quase nada, resolveu levantar e arriscar uma caminhada. A tontura foi sumindo ainda quando estava na cama e não precisava mais se apoiar nas paredes para compensar a tremedeira na perna que já não existia.

Não havia ninguém ali com ela. Deviam estar ocupados demais, ou com medo de dividir o quarto com uma assassina psicótica e depravada, embora só Snake e Naomi soubessem dessa sua última qualidade. O que realmente achou estranho foi a menina não ter estado ali. Pelo menos era o que indicava a roupa de cama rosa, que não estava amarrotada ou amassada e que ela supunha ser da loirinha pequena. Se aproximou da cama em questão, pegando um bichinho de pelúcia que ficava sobre ela. Não era o clássico ursinho, mas sim um outro animal estranho de bochechas vermelhas, orelhas pontudas, rabo estranho e cor amarela. Deve ser de algum desenho ou coisa assim... É, só podia ser a cama da criança.

"Ah não ser que aquele tal de Otacon goste dessas coisas" Deu uma leve risada ao lembrar de ter visto um papel de parede de um personagem de desenho no computador que o rapaz de óculos, e também piloto de helicóptero, usava.

Deixou o bichinho no mesmo lugar de antes e foi em direção a porta. No caminho notou que havia uma cadeira perto de sua cama e um maço de cigarros sobre ela. Provavelmente de Snake, que devia ter ficado um pouco ali enquanto ela dormia. Mais por precaução e segurança do que outra coisa, mas Jan sabia que aos poucos estava ganhando a confiança dele. Ouviu alguns barulhos vindos de fora do quarto e resolveu investigar o que era, assim já aproveitava para andar um pouco.

"Já acordou?" Perguntou uma voz que ela já estava aprendendo a reconhecer.

Sunny pulou do pequeno caixote que usava de apoio para alcançar a pia e o fogão e correu para perto da moça. Jan estranhou um pouco a disposição da menina naquela hora da noite, mas pensou que se socializar um pouco não faria mal nenhum. Ainda mais com uma criança simpática como aquela.

"É... eu... não consegui dormir direito" Respondeu meio incerta.

"Devem s-ser os medicamentos que a Naomi deu para você. Eu sugeri que desse algum calmante, mas ela achou melhor não..." A menina disse meio pensativa. Sabia que eles tinham um remédio bom para isso, mas a doutora Hunter achou que era melhor não arriscar nenhum medicamento mais forte. Bom, a médica aqui era ela, devia saber o que estava fazendo. E como o tio Hal não se opôs, então aquela devia ser a melhor opção mesmo.

"Seu nome é Sunny, não é?" Foi a pergunta menos idiota que pensou para puxar conversa. A loirinha assentiu, sorrindo. "E então, o que você estava fazendo?" Outra pergunta idiota, mas já que a conversa parecia estar se desenvolvendo dessa forma, não custava nada continuar.

"N-nada demais. Só tava arrumando os pratos"

"Ah, lembrei! Você trouxe comida para mim quando eu acordei hoje cedo, não foi? Uma pena que não tive tempo de comer..."

"Sim. Infelizmente o Snake jogou fora..." Ela disse um pouco triste.

"Bom, de qualquer forma não é bom comer ovos fritos frios, ou requentados, né?"

"N-não?"

"Hm... não..." Talvez tenha sido uma boa não ter comido mesmo. Vendo a cara de decepção da menina, resolveu fazer uma proposta "Já sei! E que tal se amanhã nós duas prepararmos alguma coisa pra comer?"

"Você sabe cozinhar? Pode me ensinar?" Os olhos da menina brilharam.

"Claro! Eu não preparo nada desde que sai de casa, mas acho que ainda sei me virar!" Abaixou-se, ficando quase na mesma altura de Sunny. Botou as mãos nos ombros da menina e continuou. "Fazem alguns anos que não encosto em um fogão, mas eu era uma excelente cozinheira. Tenho certeza que não perdi a mão! E eu ensino sim. Você vai ver como é fácil" Jan achou que não tinha como o sorriso na menina ficar maior.

"Que bom! Podemos fazer alguma coisa para o Snake antes dele sair para a missão. E se ficar bom, t-tenho certeza que a missão será um sucesso!" Sunny percebeu que a moça não entendeu bem o que ela disse. "É que eu sou v-vidente, posso ver o futuro. Bem, não exatamente ver, mas consigo prever se alguma coisa vai dar certo ou não, e pra isso eu tenho que cozinhar. Se a comida ficar boa, então algo de bom vai acontecer, se não ficar, e-então algo de ruim vai acontecer!"

"Então eu presumo que você preparou algo delicioso antes do Snake ir para a América do Sul, não foi?"

"Hm... Snake não gostou dos ovos, m-mas tenho certeza que ele disse isso só para me provocar. Eu... também não experimentei, mas se você e a Naomi estão aqui quer dizer que deu tudo certo. Eles devem ter ficado muito bons!" Sunny disse cheia de animação.

É. Deu tudo certo, mais do que certo, na verdade. Isso simplesmente não deveria ter acontecido. Eu não deveria estar aqui. É tudo... bom demais para ter acontecido comigo... Tentou manter a mesma expressão no rosto. "Sunny, você deve ter feito uma comida deliciosa. Deu tudo certo no final" E sorriu para a menina.


"Deu, já podem virar!"

"Sem brincadeiras dessa vez, tentáculos?"

"Feh! Eu já disse, podem se virar. Dessa vez eu estou com roupas. Sério"

Otacon e Snake o fizeram. Jan estava na frente dos dois com as mãos na cintura. Como havia dito, estava vestida, e com uma roupa totalmente diferente da camisola, e da roupa de quando chegou ao Nomad. O que ela usava na verdade era uma veste reserva do velho, a Octocamo suit, adaptada para o seu corpo. Ou pelo menos deveria. A roupa estava exageradamente larga em seu corpo. Ela até pensou que ficaria grande no próprio Snake. Tirando a região das mãos e dos pés, que estavam perfeitas.

"Presumo que tenha alguma coisa errada" Ela comentou. "Vocês não disseram que adaptaram para o meu tamanho?"

"E adaptamos" Otacon respondeu.

"É, ficou perfeito. Se eu tivesse 130kg"

"Me dê sua mão direita" Snake disse ao se aproximar dela.

"Eu aceito" Brincou, mesmo sabendo que não teve graça. Acompanhou enquanto o outro apalpava a região em volta de seu pulso, e quando estava prestes a perguntar a razão daquilo.

"Aqui" O velho disse e apertou a região acima das veias do pulso da moça. Um pequeno barulhinho foi ouvido, e o mecanismo começou a agir.

"Ai!" Jan protestou. Sentiu como se todo o seu corpo fosse prensado por alguma força externa.

Como se fosse mágica, a roupa encolheu de um segundo para o outro, ficando no tamanho exato do corpo de Octopus. A loira quase não conseguia acreditar naquilo. Era algo tecnologicamente muito mais avançado que a sua antiga veste da Beauty and the Beast Unit. E não se tratava apenas daquela tecnologia de vácuo utilizada para ajustar o tamanho, conseguia sentir uma sensação diferente em seu corpo, como se estivesse mais ágil e forte. Tocou os ombros e logo em seguida os braços. Era perceptível que eles estavam mais grossos, devido a uma camada de um tipo de fibra com pouco mais de um centímetro que ficava entre a pele do usuário e o tecido final da roupa. Podia sentir que aquela fibra agia de alguma forma em seu corpo, passando uma sensação de relaxamento.

Então sentiu os músculos de seu corpo esquentarem, como se tivesse acabado de realizar aquecimento para a prática de alguma atividade física. Não conseguia explicar mas era como se estivesse em perfeitas condições para a próxima missão.

"O que eu vou dizer vai parecer muito idiota, mas eu me sinto perfeita, como se tivesse além da capacidade do meu corpo" Ela disse enquanto dava uma boa olhada no traje. Era uma Octocamo como a de Snake, mas conseguiu notar algumas diferenças.

"Essa roupa foi projetada para compensar os problemas que o envelhecimento trouxe ao corpo do Snake. A Octocamo da mais força e agilidade ao usuário, o que deixa o Dave em igualdade física com qualquer outro soldado jovem de PMC" Otacon limpou o óculos. "Eu diria que ele até leva vantagem sobre qualquer soldado em atividade hoje em dia, afinal, ele é o lendário Solid Snake"

"É, eu senti isso na pele" Jan deu uma risada. Procurou algum espelho por perto, mas não achou nenhum. Resolveu ir até os computadores e ficou na frente do que tinha uma câmera em cima do monitor e a usou para ver como a roupa tinha ficado no seu corpo. "Mas vocês homens são todos iguais mesmo. Olha só como ficou apertado na minha bunda" Ela disse de uma forma absurdamente casual, e terminou com um tapa de cada lado.

"E-eu p-posso arrumar, se quiser" Otacon respondeu envergonhado.

"Ahn? Não precisa não, foi só um comentário" Ela ficou de frente para a câmera e deu um pequeno salto no ar. "É, pelo menos os peitos não pulam tanto quanto a outra" Virou para Snake, e Otacon, incrédulo com os últimos comentários. "Ta perfeito! Obrigada!"

"B-bom, continuando, essas diferenças todas que você está sentindo são devido as funcionalidades do traje. Como ele foi feito para compensar as deficiências físicas de Snake, e você... bem... é perfeita e não tem problema algum, provavelmente vai levar uma boa vantagem com a Octocamo."

"Oh, que fofo, você acha mesmo?" Ela sorriu quando viu o rapaz de óculos corar.

Depois de sua aparência ter sido aprovada, Jan resolveu sentar novamente apesar de estar se sentindo muito bem disposta. Mas de qualquer forma não havia necessidade de gastar energia, mesmo sentindo que havia de sobra. Ficou observando Snake e Otacon enquanto eles terminavam os preparativos finais antes do avião pousar na Europa. Enquanto assistia os dois irem de um lado para o outro, passando com armas, equipamentos e até carregando aquele robozinho, começou a notar algo de diferente em seu corpo, novamente. Sentiu um arrepio, fazendo com que arqueasse as costas. Um formigamento surgiu na área do seu ferimento, mas estranhamente ele não incomodava em nada.

"Doutor Otacon" Não sabia o nome dele então resolveu usar o codinome. "Estou sentindo algo estranho aqui no meu ferimento. Não dói nem nada, mas-" Ela logo foi cortada pelo cientista.

"Ah, é a Octocamo que está tratando do seu ferimento" Ele disse com orgulho. Indicando que aquilo obviamente era obra dele "Essa fibra especial da roupa não é apenas para melhorar a força e agilidade do usuário, ela também produz uma substância-secreção com fosfolipídios que junto a pequenas correntes elétricas induzidas pela roupa ajudam no fator de recuperação do indivíduo. Os lipídios com as correntes estimulam a produção acelerada de membranas nas áreas dos ferimentos. Quer dizer que ela está tratando do seu ferimento" Otacon estranhou com a cara de desgosto que a moça fez.

"Isso... é... nojento" A expressão dela logo voltou para uma de surpresa. "Mas incrivelmente útil! Fantástico!"

Snake e Otacon se olharam. E voltaram aos seus afazeres. A loira pareceu não ligar para a falta de atenção e foi buscar outra coisa com que se ocupar. Resolveu procurar por Sunny.

-Só tinha um pequeno problema: ela não conseguia respirar.

Já havia passado o que? Meia hora? Talvez. Nem era tanto tempo assim, parando para pensar. Provavelmente era a excitação da primeira missão "oficial" ao lado de Solid Snake. Não que a parceria na América do Sul tivesse sido desconsiderada, mas essa agora era de certa forma, especial. -

"Guerrilha local conquista mais uma cidade considerada ponto estratégico para objetivo de tomar capital sul-americana!" Ela anunciou alto. Para a sorte de Snake ninguém por perto deu bola para a moça. "- essa é a primeira derrota que uma PMC tem em um ano. Em comunicado oficial a Pieuvre Armement prometeu o deslocamento de mais dez mil homens para a região ainda essa semana" Disse sobre os ombros de Snake.

"Pode parar com isso?" Ele fechou o jornal e virou para o lado oposto da moça.

"Você fez um belo estrago lá, hein? Se não fosse a presença do lendário Solid Snake eu duvido que os guerrilheiros tivessem alguma chance"

"Isso é um elogio?" Snake perguntou, caindo na conversa.

"Uma autopromoção, na verdade. Se eu ainda estivesse lá a história seria diferente" Jan se ajeitou na cadeira, tentando ver alguma coisa do jornal que o velho segurava.

"Você queria estar lá?" Perguntou mais por curiosidade do que pra testar a companheira.

"Não. Pouco me importava quem eles eram ou porque lutavam" Ela disse, respondendo uma pergunta que ele não fez. "O que é bem engraçado. Eu mesma não sabia porque estava lutando, e agora essa pergunta não me sai da cabeça." A loira cruzou as pernas e começou a observar uma pequena fila se formar para a compra de passagens. "No entanto, eu sei que estar aqui com você é a coisa certa a se fazer" Acompanhando o último movimento, cruzou os braços.

"Você deixou de ser parte de um erro. E isso já é um começo." Disse olhando para ela. Jan notou a atenção extra que recebia e retribuiu.

"Isso é tão profundo... e vago" Mas de fato achou uma frase interessante. O outro riu.

"Essa é a idéia" Se aconchegou na cadeira e voltou a abrir o jornal, mas não achou nenhuma notícia que lhe chamasse a atenção. "Você tem que fazer isso por algum motivo, e esse motivo não pode ser o seu governo, país ou política. Se não, você vai ser apenas mais uma peça no tabuleiro"

"É isso que diferencia um herói de um soldado?" Ela perguntou, curiosa tanto pelas palavras quanto por ver Snake filosofando.

"Eu não sou um herói. Nunca fui, e nem nunca vou ser." Para fugir da atenção que atraia da moça, olhou para um lugar qualquer da multidão que se acumulava no terminal.

"Mas é bem modesto..." E deu uma risada. Mal percebera que tinha acabado de matar a conversa. Talvez até para a felicidade de Snake. Se arrependeu, ainda haviam coisas que ela queria ouvir. "Só que Snake, você não pode negar: é diferente de todos nós" Ela foi bem imprecisa nas palavras para dar mais uma chance dele divagar.

"Eu talvez tenha feito algumas coisas que os demais militares jamais sonhariam em fazer, mas isso não me faz melhor do que eles"

"E o que faz, então?" Ela sinceramente esperava outra resposta vaga dele, mas não custava nada perguntar.

"Eu nunca disse que era melhor que os outros"

"Não. Mas você mesmo falou que tem que fazer isso por algum motivo que não sejam políticas nem governos. Eu tenho certeza que Solid Snake não luta pelos Estados Unidos, nem por política alguma. Portanto você não é peão nem uma peça de tabuleiro. Isso já lhe faz superior aos demais"

"Você já tem uma idéia do que seja. Já formou uma opinião do que pode ser. De que adianta eu falar quais são os meus motivos?" Sabia que estava irritando a moça com tantas divagações, mas se quisesse ajuda-la, era disso mesmo que ela precisava.

"Porque eu quero ouvir de você, da sua boca. Qual é o motivo da sua luta, o que o tornou uma lenda, um herói!"

"São muitas perguntas..." Ele sorriu e voltou a olhar para o jornal.

"Dane-se, responda uma por vez! Nós temos tempo!" Octopus protestou.

"Temos menos do que você pensa" Continuou com o sorriso, acentuando que não era do relógio que ele falava.

"Ah, desisto! Era muito mais fácil ser uma vaca insana!" Virou o rosto e deu as costas para ele. Não agüentou muito tempo e bateu os pés no chão. "Então você deve lutar por alguém! Quem?" Ele não respondeu, mas pelo menos o sorriso já tinha sumido. "Sunny?" Arriscou. "Otacon?" Nada. "Naomi?" Nada. "Seus amigos?" Nada. "Eu?" Snake riu. Tudo bem, foi uma tentativa idiota. "Todas as crianças do mundo?" Disse quase cantando. Pra variar, nada. Só restava uma opção. "Aquela garota de Shadow Moses, Meryl Silverburgh?" Sorriu maldosamente, prevendo que dessa vez haveria alguma manifestação.

"Por que trazer a Meryl à conversa?" Ele perguntou ríspido. Tudo bem, Octopus entendeu. Zona proibida.

"Eu tinha que chutar alguma coisa, e como você ficou um bom tempo com ela, então eu logo pensei..."

"Andou lendo alguns arquivos?"

"É, não tinha nada pra fazer. E eu queria saber mais sobre o meu parceiro" Jan disse se explicando. "Mas não desconverse. Ainda não respondeu minha pergunta"

"Se eu responder, você vai rir, ou achar que é mentira"

"Só vamos saber depois que falar!"

"Futuro. Eu luto por um futuro" Finalmente respondeu.

"Você ta brincando não é?" Jan fez uma cara incrédula. "Se tivesse falado 'todas as criançinhas do mundo' seria menos idiota" Continuou e Snake riu.

"Esperava que eu dissesse o que?"

"Eu não sei, mas isso foi tão... decepcionante..."

"Decepcionante por quê?"

"Eu não posso lutar por algo assim. É tão idiota, clichê."

"Não quer lutar por um futuro?" Ele não pretendia, mas infelizmente se deixou absorver pela conversa com a loira. Acabou que foi tomado pela curiosidade, agora também queria saber os motivos de Jan Jensen.

"Não é isso, mas... como eu posso lutar por alguma coisa tão vaga? Você tem de entender... não há objetivos nisso. Como eu vou saber se o que eu fiz foi a coisa certa? Como vou saber que fui bem sucedida em lutar por um 'futuro'?" Fixou o olhar no velho, esperando que ele lhe desse algum conselho ou compartilhasse sua sabedoria. Era estranho olhar para Snake assim, como um sábio-ancião. Jamais pensara nele como alguém do tipo.

"Isso só você pode descobrir"

"Mas... e se depois disso eu descobrir que lutei pela coisa errada? Vai ser como ter lutado por um país ou política... por uma mentira"

"Não, Jan. Não há erro em lutar pelo futuro. Você vai estar lutando por você mesma, por mim, pelas pessoas que você conhece e ama, pelas criançinhas do mundo ou pelo pessoal da fila ali na frente. Vai lutar para que as pessoas continuem vivendo suas vidas. Isso nunca vai se tornar uma mentira. Talvez, por um infortúnio, o futuro não seja como você esperava, talvez algo de ruim seja resultado de suas ações, mas você jamais deixará de ter feito a coisa certa, pois lutou por aquilo que acreditava"

"Mas para isso... você precisa ter fé nas pessoas... e no mundo" Ela disse ao chegar na primeira conclusão que conseguiu. "Eu não gosto disso. Não gosto dessa palavra." Descruzou os braços e os descansou nos apoios da cadeira. "Só que eu não tenho alternativa, não é? Vou ter que aprender a gostar dessa palavra. E acreditar nela" Com uma das mãos, ela afastou o sobretudo branco do peito. Sentiu sob a camisa vinho o colete de kevlar. Deslizou os dedos sobre um pequeno relevo nele, era onde estava aquele símbolo que tanto lhe chamou a atenção anteriormente. "Se eu quiser isso... vou ter que acreditar na fé" Para que o mundo possa ser.

"Exatamente" Snake disse, mesmo sem ter a menor idéia do que ela pensava, ou sem mesmo ter acompanhado devidamente as palavras de Octopus, que logo notou a atenção que recebia.

"Ei! Pare de olhar meus peitos!"


Passou a mão no vidro tentando ver alguma coisa lá fora. Não adiantou de nada, como esperava. Não tinha como tirar os pingos de chuva do lado de fora da janela. Teria que esperar o temporal passar lá fora para que pudesse enxergar alguma coisa. Encostou a cabeça no vidro e fechou os olhos, pensando que dormir talvez fosse uma boa idéia. Tinha acabado de entrar no trem com Snake e se acomodado na cabine. O velho falou que demoraria um pouco até chegarem em Praga, inclusive aconselhando que ela descansasse um pouco, o que arrancou uma pequena sensação de satisfação de Jan na hora vendo o agente demonstrar o mínimo que fosse de preocupação em relação a ela.

Evitou de olhar para ele por enquanto. O espião já tinha largado o jornal ao seu lado e agora analisava uma papelada, provavelmente da missão ou então falando do cenáo ou falando do cenente da misslado e agora analisava uma papelada vez fosse uma boa idrio em Praga. Jam sabia que seria importante dar uma lida naquilo também, mas não tinha a menor vontade. Ficar esperando a chuva passar parecia muito mais interessante no momento. E também, se Snake julgasse que havia algo que ela precisava saber, passaria a informação, ou que precisasse ler a papelada toda, que entregasse a ela. Jamais iria se recusar a faze-lo.

"Snake?" Continuou de olhos fechados e encostada na janela.

"Tentáculos?" Tentou soar agradável.

"O que vai acontecer com os crimes que eu cometi?" Ela sabia que a pergunta ia tirar a concentração dele, e foi exatamente isso que aconteceu.

"Quando isso tudo acabar? Vão ser apagados" Ele respondeu normalmente, meio que estranhando a situação. Achou que isso seria algo bem óbvio para Octopus concluir.

"Tão... simples assim" Abriu os olhos e alisou o vidro da janela novamente.

Snake deu uma última olhada em seus papéis, eram algumas fotos de satélite da região para que iam com a posição das tropas das PMC, como já havia memorizado-as, botou a papelada de lado, em cima do jornal. Já não tinha mais vontade de ficar ali estudando as fotos e sabia onde a conversa com Jam Jensen ia parar. Ela ia se questionar de seus motivos e aquela conversa fiada toda. Depois, os dois iam trocar filosofias e ele supostamente ia ensinar alguma coisa que iria mudar a forma dela de pensar e ver as coisas. E tudo aparentemente ia ficar bem. Quanta besteira... Mas não podia se enganar, até que estava gostando disso tudo.

"Vai tudo sumir da sua ficha. No lugar de criminosa de guerra, aparece heroína de guerra" Ele disse olhando para a mesma janela.

"Isso de alguma forma torna as coisas mais fáceis?" Ela sabia que Snake entenderia do que se referia.

"Sim" Ele foi bem rápido para responder. "Você deixa de responder por esses crimes em um tribunal internacional. Talvez, com sorte, até ganhe uma medalha por isso"

"Eu vou ganhar uma medalha por tudo que fiz?" Ela foi tomada por uma sensação de repulsa. Como alguém poderia ser premiada por tamanhas atrocidades? Pensou ela.

"Jan, você vai ganhar uma medalha por 'bravura e coragem' ou alguma merda dessas. E não pelas pessoas que matou, seja lá como"

"Todas as guerras são assim? Premiam seus assassinos?" Nem foi uma pergunta, na verdade.

"Matar um soldado não é assassinato. Era dever, e agora recentemente, negócios"

"Agora que você falou, eu lembrei" Deu uma risada baixa, mas prolongada, como se realmente estivesse achando graça de alguma coisa. "O meu pagamento" Ela fez uma pausa. "Pela Pieuvre Armement, eu digo. Agora que eu praticamente desertei, o meu pagamento e minha conta foram para o espaço" Não que ela ligasse muito para isso, pois nunca teve a chance de utilizar o dinheiro – e talvez, as vezes ela pensava – esse dinheiro nem existisse afinal ela não passava de uma arma ou um experimento. No entanto ela se sentia um pouco mal de ficar dependendo do dinheiro de outros. As roupas que vestia eram um exemplo disso, foi tudo bancado pelo pessoal por trás da operação do Snake.

Octopus não sabia se ria mais do infortúnio do dinheiro perdido ou da besteira de achar que estava dando despesas demais naquela operação. Mas de qualquer forma, não era qualquer operação que se dava o luxo de bancar as roupas dos seus agentes. E ela bem que aproveitou a situação, escolhendo as peças que mais lhe agradavam sem se preocupar com o preço, desde a roupa que usava até umas outras mais casuais para usar no Nomad. Foi estranha a situação de comprar roupas para sua nova "casa" se assim podia-se chamar aquele avião. Por mais banal que fosse comprar uma calça, moletom, camisetas e qualquer outra peça de roupa que ela tenha comprado, o pensamento de que aquilo tudo seriam para sua nova vida tornavam as coisas muito estranhas.

Ela deixou esses pensamentos – em parte – de lado e levantou rapidamente, o que atraiu a atenção do outro ocupante daquela cabine. Usando a janela como espelho, começou a observar o fraco reflexo de sua silhueta no vidro. Chegou até a girar para poder ver os lados e as costas. Os pingos de chuva tornavam a tarefa mais difícil, mas conseguiu dar uma boa analisada em sua figura. Até se perguntou o por que de não ter aproveitado e feito isso na loja, mas agora não adiantava reclamar. Se achando satisfeita com o que viu, resolveu perguntar.

"Snake, você acha que eu estou na moda?"

"Mas que diabos?" De todas as perguntas e propostas que Jam fez, essa com certeza foi a mais ridícula.

"É só uma pergunta, oras. Quero saber a sua opinião"

"Acho que você nem precisa me conhecer o bastante para saber que isso não é um assunto para discutir comigo"

"É, você parece ser bem limitado quando se trata de dialogar com as pessoas"

Uma passada por vez. Uma passada lenta, diga-se. Irritante, até. Para sua felicidade, faltava pouco para que pudessem retomar o passo e andar normalmente. A fila se estendia por todo o corredor do vagão que estavam, e um pouco além. Seria um percurso rápido, e até fácil, se não houvesse três pessoas ocupando o espaço reservado a uma.

Parecia um daqueles momentos em que o karma, má-sorte, universo ou seja lá o que fosse, conspiravam para que tudo desse errado. Como se todas as constantes da natureza reunissem em um só trem todas as pessoas da Europa Oriental com um compromisso urgente.

Jan pensou em rir, mas desistiu. Achava engraçada a situação. Os dois – ela e Snake – estavam em uma missão importante para salvar o mundo. Isso também é engraçado, pensou ela. Eu, salvando o mundo, completou. Mas o ponto em que ela queria chegar não era esse, mas sim o absurdo daquele momento.

Temos o que? Uma ou duas horas para encontrar o esconderijo da Paradise Lost, em uma cidade com toque de recolher e cheia de soldados patrulhando a rua, e provavelmente com a Kumiko no nosso encalce querendo nos matar. Deu mais uma passada. E estamos aqui andando como velhinhos em um asilo fazendo fila para a hora do almoço.

Pensou novamente em rir, e mais uma vez desistiu. Ficou preocupada com o que iam achar se a vissem rindo do nada. Poderiam achar que ela estava louca. E devo estar, porque isso esta realmente engraçado. E concluiu: Mesmo não tendo graça alguma.

Deu outra passada. No momento errado, como confirmou o tropeço dela. Só não caiu pois a pessoa na sua frente a segurou. Quer dizer, a área que ele ocupava no espaço que impediu a queda. O gordo barbudo ao sentir o impacto em suas costas virou com uma cara de indignado. Quando viu a moça elegante de sobretudo branco, passou os olhos nela de cima para baixo e deu um sorriso, seguido de alguma palavra em checo que ela não entendeu.

O imenso homem estava prestes a se virar para ela e começar uma interessante e longa conversa. Só de imaginar aquela imensidão barbada e de camiseta do Sparta Praha puxando conversa com ela que já começou a se lamentar. O pior era o bafo dele, um misto de todas as bebidas servidas no trem com alguma coisa em decomposição.

Já havia girado 90º na sua direção e a moça já conseguia distinguir umas duas ou três bebidas diferentes. Pensou em empurrar o homem. Sim, era isso que ia fazer. Abriu os punhos até então cobertos pelos bolsos do casaco e começou a retirá-los dali de dentro.

Sentiu um estalo. Ou ouviu um. Não era um barulho externo, mas sim vindo dela mesma. Como um sinal. Piscou, uma, duas vezes, e sua imaginação pediu licença.

Número 9 - foi o nome que deu temporariamente ao barbudo – desabava da escada como uma avalanche, levando ao chão duas pessoas na sua frente e finalmente parava quando entalava na porta.

A sua cintura do tamanho pneu de caminhão entalou na porta. A cabeça e os braços para o lado de fora, e as pernas, balançando desesperadamente a procura de apoio só encontravam o ar. Olhou para trás e no lugar de Snake encontrou Mel Brooks acenando.

A imaginação se despediu, deixando de presente seus olhos arregalados e incrédulos com o que acabara de fantasiar. Fechou os punhos, desistindo da investida contra bola-de-neve Número 9. E temendo que Mel Brooks aparecesse do nada e acusando-a de plágio.

Ouviu uma voz conhecida. Parecia que Snake tinha tomado conhecimento da situação. Veja só, ele se incomodando com o Papai Noel passando uma cantada em mim. Ou estava apenas preocupado com o tempo.

Não entendeu uma palavra do que ele falou, mas devia ter sido alguma coisa ameaçadora ou intimidante pois Sparta Praha fez o percurso de volta, um giro em volta dele mesmo, em uma velocidade incrível. Não importa. Pelo menos ele nos deixa em paz.

"O que disse a ele?" Perguntou.

"Nada demais" O agente respondeu.

"Nada demais? O cara ficou branco!" Virou para Snake. "Ah, deve ter sido por isso" Disse após perceber que a facecamo o deixava com aparência jovem. "Você realmente fica intimidante assim." Segurou a gola do casaco dele e o puxou para si. "E outras coisas também"

Sentiu as mãos dele tocarem seus ombros e por um momento, pela expressão dele – aquela própria de Snake, que poderia dizer qualquer coisa – pensou que seria surpreendida de alguma forma. E foi.

Snake girou ela na direção oposta onde não havia mais ninguém. Papai Noel por milagre passou pela porta e agora a pequena escadinha que dava para o terminal estava livre.

Ela suspirou e piscou, fazendo uma cara de decepção para o nada.

"Você não é nem um pouco divertido" Disse enquanto descia a escada.

Olhou pra baixo ao chegar no ultimo degrau. Pouco menos de trinta centímetros dali até o chão. Era só descer normalmente. Ou não. Deu um pequeno pulo e seus dois pés, firmes, chegaram ao solo.

Aguardou, estática, o companheiro descer, ainda com medo que dali saísse Mel Brooks ou mesmo Dark Helmet e Barfolomew.

Sentiu-se estranhamente aliviada ao ver o velho, ou pelo menos por enquanto, jovem Snake. Mas precisava se certificar que ainda não estava alucinando. Nem precisou esperar muito, quando Snake passou reto por ela teve certeza que tudo estava normal.

"Snake, você já viu Spaceballs?" Já que ainda estava com o filme na cabeça, resolveu perguntar.

"Space-o que?" Foi a resposta. Pelo menos se virou para ela ao responder.

"Nada, esquece" Apressou o passo para alcançá-lo, esperando que Mel e seus amigos seguissem a direção contrária. "Vocês me deram alguma droga ou coisa assim?"

Snake levantou uma sobrancelha ao ouvir a pergunta. Um pouco preocupado com a garota e temendo que ela estivesse se sentindo mal. Afinal, isso poderia comprometer a missão.

"Não. Mas não posso responder por Naomi" Viu um pequeno sorriso nascer e logo sumir no rosto de Jam.

Foi a vez dela passar reto, mas ao contrário de Snake teve a consideração de parar ao perceber a falta do companheiro. E também por não saber onde ir.

"Não é nada. Sério" Ficou por alguns segundos sob o olhar desconfiado do agente. Anteriormente até sentir-se-ia incomodada. Agora não tinha mais esse problema, parte por ter se acostumado com essa reação dele, parte por acreditar que aquilo era um esboço de preocupação dele.

"Vamos pegar a mala" Disse, arrumando a gola do sobretudo e em seguida passando por Jan.

Ela tratou de segui-lo. Ainda um pouco distante de Snake, virou, e caminhando de costas acenou para o nada.

"Tchau Mel!"

Aguardou por alguns segundos que o vazio daquela área do terminal lhe respondesse. Não aconteceu. Aliviada, apressou o passo para alcançar o parceiro, esperando nunca mais encontrar Mel Brooks ou o barbudo do Sparta Praha.


Ao longo da caminhada – que para ela foi longa, até demais – passaram por quase uma dezena de checkpoints – pontos de checagem – mantidos pela companhia militar privada que controlava a cidade.

Por sorte puderam evitar todos. Na maioria levavam a saídas diferentes ou então plataformas de trens que não interessavam à dupla.

No entanto a sorte estava sorrindo demais para eles, provavelmente para se desculpar do ocorrido no desembarque do trem. De qualquer forma, a generosidade parecia estar se desfazendo aos poucos.

Jan começou a notar a presença de soldados crescer cada vez mais, e já não haviam tantas mulheres ou crianças pelos portões de embarque que passaram. Pelo menos não mulheres que aparentassem ser mães de família ou qualquer outra coisa que não fossem militares.

Viu poucas dessas na multidão que encontrou por aqueles lados. Evidentemente nenhuma delas trajava algo feminino ou coisa parecida, apenas uma pequena variação do traje que os homens militares usavam. As vezes nem isso.

A única coisa que a incomodou foi uma semelhança que todas aquelas mulheres traziam: cabelo curto.

Tirou uma das mãos dos bolsos e a deslizou por suas mechas douradas – e curtas – lamentando que a luva impedisse os dedos de senti-las.

Disfarçou ao perceber Snake de espectador. Jogou a franja que hora ou outra teimava em cair perto dos olhos para um lado qualquer. Esquerda, talvez. Os fios brilhosos obedeceram e ficaram por ali mesmo.

Perguntou a si mesma quando que aquilo aconteceu. Sequer lembrava de apreciar tal corte. Sempre preferiu o cabelo longo, gosto que provavelmente herdou de sua mãe.

As imagens da senhora Jansen logo roubaram sua atenção. Chegou até a ouvir sua voz, lembrar de uma coisa ou outra que ela falava. Estranhamente, não conseguia identificar nenhuma das palavras.

Talvez estivesse se esquecendo dela. Primeiro a voz, depois alguns ocorridos, logo em seguida a fisionomia, até que não sobrasse mais nada, nem o nome, apenas a lembrança que um dia uma mulher muito parecida ou muito diferente de se mesma, a criou.

Viu-se caminhando em um piso totalmente diferente do anterior. O bege de antes sumiu, dando lugar a um marrom puxando para o vermelho. Concluiu que passou tempo demais com as memórias de sua mãe.

Concentrou-se em sua complexa tarefa: seguir Solid Snake. Agora, com os olhos bem abertos e vigilantes, desviava de um ou outro transeunte que viesse desatento e sua direção. Um deles, ou melhor, uma, era outra daquelas militares de cabelo curto.

Então tomou uma decisão. Em homenagem à sua mãe, deixaria o cabelo crescer novamente.

E cortes de cabelo alheios não viriam a lhe incomodar mais.

"Você quer ajuda com isso?" Perguntou por perguntar.

Não tinha a menor intenção de carregar aquela mala, e sabia que Snake não a deixaria. O que, ela tinha de confessar, foi um dos motivos de ter feito a pergunta. Não queria ficar por aí carregando algo de sabe-se lá quantos quilos. Mas também se sentia mal por ver o amigo com aquele peso nas mãos, e as delas ali, descansadas e aquecidas dentro dos bolsos.

E mesmo que vencesse sua preguiça, Jan não carregaria o objeto. Qualquer chance que Solid Snake tinha de mostrar que não estava velho era aproveitada. Queria a todo custo provar aos outros que sua idade não o tinha mudado em nada. E talvez, acima de tudo, quisesse provar a si mesmo que seu corpo jamais venceria sua vontade.

Alguns pareciam não entender isso. Dentre eles, seus amigos e pessoas próximas. Tinham pena de exigir tanto do velho soldado. Tinham pena do próprio se exigir tanto. Não só isso. Mesmo que não admitissem, no fundo, também temiam que ele não fosse capaz de cumprir aquela missão.

Não devia ser mais um daqueles casos que em toda regra havia uma exceção. Porque, pensou, nem Otacon acredita plenamente que eu posso fazer isso.

"Não" Respondeu. Desnecessário que fossem ditas outras palavras. Bastava aquela, rápida e direta.

Olhou para a garota em seguida. Desconhecia o motivo de ter feito isso. Por coincidência, ela fazia o mesmo. Viu um pouco de preocupação estampada no rosto dela, o que era estranho, pois quando perguntou as palavras dela continham tudo menos preocupação.

Jan era difícil de ler. Até que a eslava conseguisse reconstruir Jan Jansen por completo e destruir Laughing Octopus em definitivo, provavelmente seria impossível de decifrar seus gestos e ações. Ou então ele era burro mesmo.

Talvez a ultima afirmação estivesse correta, pois ele foi incapaz de ver ao seu lado a exceção à regra em pessoa. A loira era a única pessoa que acreditava que "Old" Snake era capaz de completar aquela missão, e mais, que só ele poderia fazer isso.

A preocupação desapareceu quando ela desviou o olhar, voltando-se para o que havia em frente. O velho fez o mesmo, e respirou fundo ao avistar o fim do terminal, e conseqüentemente, o último checkpoint.

Como em qualquer aeroporto ou terminal, haviam algumas televisões espalhadas pela sua extensão. Onde estavam, ao lado de uma área de espera eram necessárias mais de duas telas para que todos que sentassem nas dezenas de bancos fossem entretidos.

Não chegou a contar quantas eram, mas conseguia ouvir o som do mesmo canal vindo de todas as direções. Passava um programa de perguntas e respostas, pelo que pode concluir.

Uma mulher colocada de três grandes círculos que giravam para todos os lados. Fora deles, um senhor sentado em uma cadeira muito mais confortável que a da mulher. Devia ser o apresentador, ela supôs. E mais além ainda, a platéia.

O velho mais parecia um político. O terno negro - ou acizentado, com aquela iluminação ficava difícil distinguir - de listras brancas e finas. A feição era definitivamente de um homem público, simpático e com um ar de manipulador.

Pediu que a mulher escolhesse um tema. Ela hesitou um pouco e tomou sua decisão. Companhias Militares Privadas. Não parecia ter conhecimento algum sobre elas. Na verdade, não parecia ter conhecimento sobre coisa alguma.

O velho fez a pergunta com um certo sarcasmo, como se tivesse certeza absoluta que ela erraria. Qual PMC, disse, teve sua origem na França, e hoje possui um contingente maior que a população do México e Canadá juntos?

Era meio óbvio. Bastava escolher a opção com o nome que mais lembrasse francês, Pieuvre Armament. Mas, talvez pelo nervosismo, ou por pura burrice, ela escolheu outra opção.

Perdeu a chance de ganhar meio milhão de dólares. Mas nem tudo estava perdido, ela não sairia dali de mãos vazias. Foi presenteada com uma torradeira.

Essas drogas ainda fazem sucesso? Jan perguntou a si mesma. Parece que fiquei muito tempo... perdida. Era a expressão que resolveu usar para definir seu estado nos últimos anos.

"won't you take me to... funkytown"
"won't you take me to... funky-y-y-town!"

Ouviu uma música. Era mais baixa que a dos televisores, vinda de algum lugar próximo. Parecia estar meio abafada, como se dentro de um bolso.

Do meu bolso? Pensou.

Uma pequena vibração massageando suas pernas confirmou. Havia um celular ali. Pegou o pequeno aparelho enquanto a moça de voz irritante repetia o refrão da música. Era fino e leve o bastante para ela sequer ter percebido a existência dele antes.

Um pouco maior que a palma da sua mão, de largura ainda menor, talvez a de um lápis comum. Não possuía teclas, apenas uma grande tela, e nela, os números. Acima deles o nome da origem da ligação: Nomad. Apertou com cuidado a tela, onde mostrava um pequeno telefone esverdeado.

"Oi, mãe?" Disse ao aproximar o celular do ouvido.

Como resposta, silêncio. Ouviu alguém falar alguma coisa mas não conseguiu entender. Depois, uma pigarreada.

"Hm... Octopus?" Era Otacon.

"Vou chama-lá, só um instante" Esperou dois segundos. "Sim?"

Riu ao ver a cara de reprovação de Snake. E gargalhou ao ouvir Naomi reclamando do outro lado da linha.

"Er.. então... você poderia afastar o telefone um pouco?" Ele continuou.

"Ahn? Por quê?" Ficou sem entender, o riso obviamente já havia cessado.

"Video-conferência, sua anta!" Naomi gritou, irritada.

Snake segurou de leve o pulso da moça, afastando o aparelho dela. Posicionou-o de uma forma que a câmera pudesse captar a imagem de ambos. Só aí que Jan percebeu que na telinha do celular mostrava Naomi e Otacon.

"Credo, os celulares fazem isso hoje em dia? Devo ter perdido muita coisa nesses 10 anos..." Se arrependeu de falar isso, com medo de que a tristeza a tomasse, como acontecia toda vez que lembrava do tempo que ficou... perdida.

"Snake" Otacon disse, querendo certificar-se que o amigo lhe voltasse à atenção. O velho assentiu, então ele continuou. "Não vamos usar o codec aqui, seria muito perigoso. Eu modifiquei o sinal dos celulares, isso deve nos dar algum tempo até que eles percebam" Disse tentando se explicar do porque de usar o celular.

"Tudo bem, continue"

"Vocês não podem passar pelos detectores. As nanomáquinas do seu corpo iriam revelar sua identidade, e eles estão procurando por Solid Snake. Também tem o problema da mala, o Mark II está ai dentro e o detector de metais com certeza o pegaria"

"E quanto a mim?" A loira perguntou.

"Da última vez que olhamos você ainda estava como MIA – desaparecida em campo de batalha. Isso pode complicar um pouco as coisas, mas acredito que não haveriam maiores problemas"

"É, mas eu não posso passar sozinha" A moça disse. Da tela do celular conseguiu ver Otacon assentindo, e ele continuou.

"E o nosso contato?" Snake perguntou.

"Meryl" O de óculos respondeu.

Snake não gostou de ouvir aquilo. Encontrar Meryl novamente não estava em seus planos, nem agora, nem antes do Oriente Médio. O acaso, no entanto, parecia querer insistir em uma nova reunião.

Evitou a soldado todos esses anos com sucesso, mesmo sabendo que durante os primeiros ela ficou a procurá-lo incessantemente. E tinha de admitir, algumas vezes quase cedeu à vontade de deixar-se ser encontrado.

Não se permitiria continuar com aquela ilusão dos meses subseqüentes a Shadow Moses. Acabou, e essa foi a melhor decisão a se tomar, pensava o velho. Aquele futuro – palavra que ele tanto repetiu para Jan horas atrás – seria demasiadamente incerto. Tantas incertezas não poderiam levar a algo bom.

Ou feliz. Foi o que ensinou a si mesmo. Teve muito trabalho até se convencer daquela lógica, como se tivesse passado por um longo e incessante treinamento, talvez o mais difícil pelo qual já passou.

Poderia estar errado, no entanto. Poucas incertezas seriam maiores por aquela vivida recentemente por ele. Poupar, e não apenas isso, como também confiar em um inimigo. O resultado da quebra de tal promessa estava ali, ao seu lado, com suas mechas loiras mais brilhosas que qualquer coisa que ele tenha visto naquele país.

Era possível, então, que algumas raras incertezas pudessem tornar-se exceções tão felizes como uma certa loirinha provocante e graciosa. Coincidentemente, ela que o fez voltar a realidade:

"Certo, então temos que causar alguma distração ali. Isso chamaria a atenção da tal de Meryl, nosso contato" Praticamente resumiu a conversa que tiveram enquanto Snake ponderava sobre incertezas e moças.

"Pensaremos em alguma coisa. Isso é tudo, Otacon?" Snake perguntou.

"Hum... é" Otacon respondeu depois de pensar um pouco, certificando-se que não esqueceu nada.

"Nesse caso..." A loira tomou o celular da mão de Snake, sem tempo dele protestar. "Tchau, nos vemos depois. Pode deixar que levamos algumas lembrancinhas!" E desligou.

Guardou o aparelho no bolso da calça e deu alguns passos à frente, olhando pelo canto da parede que os impedia de serem notados pelo grupo de soldados cuidando do maquinário de checagem.

Sob o olhar curioso de Snake, começou a tanger algumas possibilidades de ação para aquele momento. E dentre as poucas estratégias que conseguiu bolar naquela rápida olhada que deu, obviamente escolheu a mais absurda.

Voltou-se para o parceiro e o presenteou com mais um de seus milhares sorrisos. Snake logo aprenderia o significado desse e o classificaria junto àqueles que precediam alguma confusão.

"E...?" Mostrou-se curioso com o que ela poderia propor.

"Estive pensando qual seria a reação deles ao estar frente a frente com uma comportada dama da Beauty & The Beast"

"Ficariam comovidos, eu presumo" Disse, mostrando que entendeu a idéia dela.

"Se quiser pode olhar feio e xingar a mãe deles. Também ajudaria" Ela sugeriu.

"Como se você sozinha não causasse confusão o bastante"

"O que posso fazer? É o meu charme!" Piscou para ele. Sem perder tempo deu as costas e foi em direção aos soldados.

Snake pegou a mala e a seguiu. Havia uma pequena fila em frente ao checkpoint e mais alguns homens conversando por perto. Meia dúzia de soldados armados guardavam e realizavam a checagem. Uma variação nas cores de suas roupas os diferenciava. Os dois com calças beges eram da já conhecida Pieuvre Armament, e o restante quase que totalmente de verde eram da Raven Sword.

Esperaram por menos de um minuto até que chegasse a vez de Jan. Virou-se para o companheiro sorrindo, e antes de prosseguir deu mais uma demonstração de sua incrível habilidade de mudar completamente a expressão no rosto.

Impassível, e parecendo ser outra pessoa, foi de encontro à máquina semelhante a um detector de metais. Não hesitou e a passos lentos atravessou para o outro lado. O rapaz que cuidava do computador logo notou que havia algum problema.

"Um momento, por favor" Apesar das palavras falou em tom de ordem.

Alternou o olhar entre a moça e a tela do computador algumas vezes. O rosto completamente coberto pelo capacete e uma balaclava, demonstrava estar um pouco impressionado com a situação.

"Qual a sua identificação, hm.. senhora?" Levantou da cadeira para perguntar, o que chamou a atenção dos outros soldados.

Ela cruzou os braços, fechou os olhos, respirou longamente, e os abriu novamente. O vazio no olhar só não era maior que o do rosto por completo. Quando falou, os lábios mal pareciam se mexer.

"O que diz o seu computador?" Perguntou com tanta calma e frieza nas palavras que fez o rapaz recuasse.

Mesmo Snake ficou espantado. O sotaque escandinavo sumiu completamente da voz dela, cedendo lugar à um legitimamente francês. A impassibilidade dela chegava a ser ainda mais surpreendente.

Jan Jensen estava diante dele, mas não parecia. Os olhos azuis e cabelos dourados pareciam pertencer a outra pessoa. Até mesmo a graça que todos os seus movimentos esbanjavam desapareceu.

Era Laughing Octopus. A indiferença que ela demonstrava com seus braços cruzados e olhos vazios parecia mais um aviso de que a qualquer momento a agressividade e insanidade poderiam voltar.

"Eu... eu..." As suas pernas tremeram. Aquela era uma das B&Bs, e não só isso, como também uma de suas superiores em campo.

A paciência de um dos soldados da Raven Sword esgotou e ele foi ver o que tinha deixado o da Pieuvre Armament atordoado.

"Você, digo, a senhora... é Laughing Octopus?" Perguntou, compartilhando do medo que o outro sentia.

A menção do nome da moça tornou o sentimento comum ao restante dos soldados. Ouviam-se as piores histórias possíveis do grupo de mercenárias Beauty & The Beast. Cada uma delas era provinha dos altos escalões de PMCs diferentes, mas juntas, não respondiam a nenhuma delas, era uma unidade autônoma à serviço da companhia Outer Haven.

Sua atuação nos territórios em guerra possibilitou que uma grande gama de rumores e contos absurdos se espalhassem pelos campos de batalha de todo o mundo. Toda vez que apareciam era certo que muita gente morreria, fossem estes inimigos ou aliados.

"Óbvio" Ela demonstrou impaciência na voz.

A sua automação e importância era tanta que nenhuma delas era responsabilizada por qualquer baixa aliada, independente dos atos serem ou não cometidos com dolo. Resumindo, tinham autorização para matar qualquer um hierarquicamente inferior a elas, e em alguns casos, até superior.

"P-perdoe-nos, mas é que a senhora... desapareceu em batalha ontem, na América do Sul" Nem acreditou que conseguiu completar a frase.

E eles ali, simples recrutas rebaixados à tarefa de checagem por atos de insubordinação, poderiam se tornar a qualquer momento meros números na contagem de mortes das mercenárias. Era justificável então, e plenamente compreensível, que se jogassem aos chãos de joelhos pedindo clemência. Certamente o fariam logo.

"Desaparecida, hein?" Ela se aproximou do Raven Sword.

O rapaz sentiu que a cada passo dela, era como se um segundo da breve contagem regressiva para sua morte se dissipasse. Octopus era menor que ele, por pouco passava da altura de seus ombros. Mas a presença dela, congelando o ar a sua volta, parecia fazê-la agigantar-se, e o amedrontado soldado, diminuir.

"Que tal mudarmos isso?" Perguntou, ainda impaciente. Ele assentiu, mas por algum motivo não saiu do lugar.

Sua mão esquerda vagarosamente foi se aproximando do rosto coberto do rapaz, que acompanhou o movimento com os olhos se assemelhando a um relógio. Podia jurar que sentiu os dedos gelados encostar em sua face, apesar da balaclava que usava e da luva da mulher.

"Agora!" Deu um tapa nele. Não precisou usar muita força, sabendo que não seria necessário.

A cabeça do jovem girou para o lado, seu corpo o acompanhando. Só não foi estirado ao chão, pois a única perna em contato com o solo fez com que mantivesse o equilíbrio.

"Arrumem essa droga de uma vez, eu não tenho o dia todo" Pela primeira elevou a voz.

"Sim senhora!" Os seis responderam em uníssono.

O do computador se jogou na cadeira e começou a cumprir a ordem de Octopus. O restante pareciam com palhaços num circo, correndo de um lado para o outro procurando um posicionamento invisível para se postarem.

A seriedade dela desapareceu por alguns instantes quando começou a rir da situação. De forma alguma isso comprometeu sua atuação, pelo contrário, fez com que os palhaços ficassem ainda mais desesperados.

Ficaram os cinco dispostos ao lado da porta de vidro que levava à saída do terminal, todos em posição de sentido, apesar de tal demonstração de respeito ter sido abolida no passar dos anos.

Snake, um dos vários espectadores da pequena platéia que se formou para prestigiar a fantástica apresentação de Jan Jensen. Sentiu o olhar de Laughing Octopus mirá-lo entre todos os curiosos. Percebeu que alguns homens ao seu lado recuaram e mesmo a fila atrás dele deu alguns passos para trás.

A bela fez um gesto com a mão, o chamando. O olhar gelado apontou para a sua esquerda, onde faixas de contenção impediam qualquer um de entrar naquela área. Ele logo entendeu a mensagem.

Seguindo a sugestão que Jan lhe dera minutos atrás, melhorou ainda mais a cara de "bad boy", franzindo as sobrancelhas e se aproximou.

O operador do computador demorou um pouco para notar a presença do homem de sobretudo marrom. Viu a oportunidade perfeita para desculpar-se de sua superiora, e ainda, mostra-se útil. Estimulado, levantou a voz.

"Ei, você! O que pensa que está fazendo?" Se acanhou depois disso, percebendo todos os olhares na sua direção.

Octopus continuou parada no mesmo lugar, muda. Percebeu os lábios do amigo formarem um quase imperceptível sorriso. Começava a gostar disso. Ela e Snake já podiam se comunicar apenas com pequenos gestou e olhares. Se ele queria se divertir um pouco, não seria ela que ia intervir.

Snake parou, esperando que todas as atenções se voltassem a ele. Viu Jan, ou melhor, Octopus arquear as sobrancelhas, como se perguntasse "e agora?". Acabaria com a curiosidade da moça em pouco tempo.

Aguardou os seis soldados tomarem conhecimento dele, e quando o fizeram voltou a andar, ignorando a pergunta de um dos fardados.

"Não pode ir por esse lado, tem que passar pela máquina!" Não adiantou. "Parado!" Gritou mais alto ainda.

Os outros resolveram tomar uma atitude e apontaram as armas para o homem debochado. Mesmo estando na mira deles, demorou um pouco até que obedecesse. Colocou a mala no chão e não fez mais nada.

Dois soldados passaram pelo detector e se aproximaram de Snake, se colocando à esquerda e direita dele. As armas, já destravadas e pontas para atirar, miravam no mesmo alvo.

Sua mão esquerda, coberta por um dos bolsos do sobretudo, fez um pequeno movimento, mas brusco o bastante para ser noticiado pelos dois mercenários.

"O que tem aí?" Perguntou um deles.

Snake levantou o punho fechado até chegar perto de seu rosto. A dupla acompanhou o movimento com certa apreensão, se perguntando o que ele tinha ali.

Ele finalmente revelou, para o alívio dos soldados, um cigarro. Mas isso não perdoaria sua petulância. Um deles se aproximou após o homem acender o cigarro e colocá-lo na boca.

"Você é surdo? Ta achando isso engraçado, é?" Disse irritado com o sorriso zombeteiro do outro.

Botou a mão no ombro dele com força, tentando fazer que virasse de costas para poder algemá-lo, e em seguida ensinar a não se meter a engraçadinho.

Snake encolheu o ombro e se inclinou para o lado, o braço do soldado passou direto, ficando logo a sua frente. Segurou o braço dele e empurrou para aquela direção, fazendo com que todo o corpo dele acompanhasse.

Com passadas longas e desengonçadas ele conseguiu manter o equilíbrio, parando ao lado do companheiro, em pé, mas muito irritado. Quando virou para o homem que fez isso, sua raiva cresceu ainda mais.

Snake, de braços abertos e com um sorriso que mal conseguia segurar o cigarro, deu alguns passos para trás zombando dos dois militares.

O outro soldado se aproximou com cautela, mas de arma abaixada tentando mostrar ao homem que não queria feri-lo. Achou ter sido feliz na escolha de sua estratégia quando segurou o pulso do homem de cabelos castanhos.

Por pouco tempo. Snake puxou o braço para trás se desvencilhando do soldado, que acabou dando as costas devido ao movimento brusco do agente. Aproveitou e empurrou o mercenário. Assim como o primeiro, quase perdeu o equilíbrio.

Snake ajeitou a gola do sobretudo, levantando-a para cima. Colocou as mãos nos bolsos novamente, ignorando a gravidade da situação. Isso só deixou os dois soldados mais irritados.

Investiram ao mesmo tempo contra o agente debochado. Ele aguardou imóvel até que se aproximassem. Deu dois passos para o lado, ficando de frente para um deles. Com um rápido pulo para o lado, absorvendo o pequeno impacto com uma perna e levantando a outra contra o mercenário.

Parou ao receber o impacto da joelhada desferida pelo homem. Seu corpo se curvou um pouco e ele apertou os braços contra a região do estômago, a área atingida.

Snake deu um chute na bunda dele que o levou ao chão, definitivamente acabando com a ameaça desse. O outro ficou sem reação, embasbacado com o que acabava de ver.

Lastimando por não poder usar sua arma dentro daquele terminal, jogou-a no chão e prosseguiu com cautela na direção do homem. Posicionou as mãos como um lutador de boxe, imaginando estar reproduzindo de forma correta. Não sabia lutar, mas esperava que isso assustasse o adversário.

Se ele quer brigar, quem sou eu pra dizer não? Snake sorriu para si mesmo. Assumiu posição de combate. As duas mãos, uma mais a frente do corpo e a outra próxima estavam relaxadas, as palmas para baixo e os dedos dispostos livremente davam a impressão de ser qualquer coisa menos um estilo de artes marciais.

Desviou do primeiro soco com facilidade, só precisando inclinar e dobrar levemente a coluna. Suas pernas afastadas possibilitaram o próximo movimento sem a mínima perda de equilíbrio.

Pegou o braço dele e forçando este e o antebraço em direções opostas fazendo com que a guarda do rapaz fosse totalmente desarmada. A dor o pegou de surpresa e cessou qualquer reação. Snake levou o pulso dele contra as costas como se fosse algemá-lo. Chutou a dobra do joelho do soldado e sem dificuldades o jogou no chão.

Os outros soldados resolveram agir. Ignoraram a ordem de não atirar no terminal e empunharam suas armas, prontos para o fazê-lo se precisassem. Estavam para pedir a moça loira, sua superior, que lhes desse passagem, pois estava na frente do detector.

Ela se virou antes que pensassem em abrir a boca. Como antes, eles congelaram ao ver a expressão dela. Um pouco diferente, no entanto. Dessa vez não havia uma expressão impassível, mas sim de irritação. Se antes o olhar dela poderia congelar alguém, agora era capaz até de matar.

"Parem" A voz continuou a mesma, mas não deixava de ser menos amedrontadora. "Ele está comigo"

"P-perdão, senhora?" Um deles tomou coragem e perguntou.

"Ele é o meu segurança" Deu as costas para os soldados e foi até Snake.

Eles ficaram parados sem entender nada, imaginando por que uma das melhores mercenárias do mundo precisaria de um guarda-costas.

"Ele não tem registro no banco de dados. Não há necessidade de passar por ai" Não demonstrou, mas ficou receosa de estar falando alguma besteira.

"Mas temos ordens para realizar a checagem em todos" Um deles se atreveu a falar, achando um pouco estranha a situação.

A loira pegou a arma que um dos soldados tinha deixado cair quando lutou com Snake e mirou na direção dos outros.

"Vocês realmente..." Começou a dar risadas rápidas e pausadas. "...querem me ver fazendo isso?" Com apenas uma mão estendeu a arma horizontalmente, apontando na direção dos quatro assustados. Continuou com suas risadas.

"Não vai ser necessário!" Disse uma voz feminina.

Uma mulher ruiva e de trajes militares apareceu atrás dos outros soldados. Não empunhava arma alguma, suas duas grandes pistolas eram visíveis no coldre e colete que usava.

Jan abaixou a arma, reconhecendo a soldado de fotos que viu no Nomad. Era Meryl Silverburgh, o contato deles para a missão. E outras coisas também... pensou a loirinha. Travou a arma e jogou no chão, cruzando os braços em seguida. Sua expressão continuou a mesma apenas mudando de insana para impassível, sentindo uma enorme vontade de cumprimentar a ruiva como Laughing Octopus.

"Eu assumo daqui. Eles estão conosco" Falou para os soldados, que finalmente abaixaram as armas.

Ela não foi até Snake e Jan, como se eles não fossem merecedores do cansativo esforço de andar dez passos.

Jan só saiu do lugar depois que Snake pegou a mala e foi em direção do detector. Parou ao lado dele e de uma fita de isolamento. Jogou a mala por baixo dela, que deslizou reta e sem cair, depois passando as pernas por cima e chegando ao outro lado.

A loirinha foi um pouco atrás, mas passando pelo detector, queria ter a chance de encontrar seus amigos de novo. Olhou um por um, que ordenadamente recuaram ao serem encarados por aquele olhar gelado, e como descobriram a pouco, insano. Totalmente voluntário, um sorriso se formou nos lábios dela. Um sorriso de Laughing Octopus, ela fez questão.

Recuaram mais ainda, um deles quase chegando ao cúmulo de tropeçar. A brincadeira não chegou ao fim, a garota de olhos azuis queria fazer mais uma coisa. Olhou para Meryl enquanto caminhava de braços cruzados em direção da porta, estudando a ruiva o tempo inteiro.

Não presenciou a reação que desejava. Surpreendeu-se ao ver a soldado voltar o olhar para ela e também cruzar os braços. Meryl Silverburgh demonstrou mais coragem que qualquer outro ali. Só que ela também era humana e já tinha ouvido as histórias da Beauty & The Beast, mais do que isso, presenciou o horror cometido pela unidade no Oriente Médio.

E Jan Jensen sabia disso. Portanto resolveu fazer mais uma tentativa. Parou, e depois de alguns segundos de suspense propositais, sorriu para a ruiva. Conseguiu o que queria, uma resposta dela. Foi quase imperceptível, quem sabe até para a própria Meryl, mas ela deixou escapar.

A loira pode ver o medo nos olhos da outra. Satisfeita, Laughing Octopus abriu a porta e sumiu. Jan Jensen chegou ao outro lado, não se preocupando em procurar por Octopus.


Recusou-se a falar na frente dos outros soldados. Por isso não disse nada enquanto caminhavam. Um ou outro sempre aparecia pelo corredor, e ela até agradeceu por isso. Não se sentia preparada para conversar com Snake. Porém, seria inevitável, então ela ia aproveitar o tempo que restava pensando nas palavras certas a dirigir para ele, e rezando para que mais alguns soldados aparecessem.

Imaginou que tais efemeridades sequer passavam pela cabeça de Snake. Jamais imaginaria estar enganada.

Segurou no cabo de uma de suas Desert Eagles. Apertou forte algumas vezes na esperança que aquilo diminuísse o seu nervosismo. Quando seus dedos começaram a doer percebeu ter sido inútil.

Chegaram ao fim do corredor, dando de cara para um imenso shopping que era integrado ao terminal. Poucas lojas ainda estavam abertas, basicamente só as referentes à alimentação e outras usadas pelos soldados. Desde o início da semana o edifício estava sendo utilizado como base operacional.

Meryl olhou para os lados. Ninguém por perto. Parecia haver tempo para uma pequena conversa descontraída. Deu de costas para um pilar próximo à porta. Snake fez o mesmo. Solidários, dividiram o silêncio por algum tempo.

Viu que ele levava outro cigarro à boca e resolveu usar isso para botar um ponto final no silêncio. Surpreendeu o antigo companheiro com um isqueiro. Aquela talvez tenha sido uma das únicas vezes que o usou. Snake não deu a devida atenção que o acendedor merecia.

Não reconheceu seu velho isqueiro prateado com letras grafadas formando a palavra Alasca. A ruiva ficou decepcionada, mas resolveu esquecer. Guardou o objeto o mais rápido que pode, se forçando a acreditar que aquilo foi apenas falta de atenção dele.

Pensou que começariam uma conversa com isso, mas teve de pensar em outra coisa para dizer. Percebeu que o olhar dele se perdia em algum lugar do outro lado do hall e aproveitou para dar uma rápida olhada no velho.

Foi a primeira coisa que notou. O rosto jovem e conhecido, no lugar daquele que destruiu a imagem que tinha de Solid Snake, levando consigo aquela pequena chama de esperança que custou nove anos para ser apagada.

Sentiu vergonha. Não aquela vergonha lírica, o rubor saudável entre dois apaixonados. Era uma vergonha muito pior que isso, comparável a... repulsa. A repulsa sentida ao seu antigo amor naquele dia e que fez aumentar o ódio que ela sentia de si mesmo. Ela se sentia suja, indigna por ter perdido sua compaixão em algum dia entre os nove anos que se passaram.

Passou os olhos pelos trajes dele, na expectativa de esquecer os pensamentos vergonhosos. Continuava elegante como sempre. Poucas pessoas sabiam que o lendário agente tinha bom gosto na hora de se vestir, ela era uma delas. Não foram muitas as oportunidades que teve de vê-lo vestido de tal forma, mas vez ou outra, há anos atrás, passava algumas horas olhando o guarda-roupas dele.

A calça clara e listrada combinava com o sapato escuro. A camisa de um verde-oliva não chamava mais atenção que a gravata, e vice-versa. O paletó de mesma cor da calça contrastava muito bem com o sobretudo marrom. Talvez não fosse o melhor conjunto já feito, mas com certeza era algo surpreendente, vindo de um guerreiro como Solid Snake.

Se pegou sorrindo, finalmente lembrando de alguma coisa agradável dos velhos tempos. Munida daquela sensação boa, resolveu voltar para o rosto dele, esperando conseguir desenvolver alguma conversa dessa vez.

Parecia relaxado. Dividia a coluna com ela, também encostado na estrutura. Não devia ter passado pelo mesmo turbilhão de pensamento que ela, dada sua feição serena. Que piada, pensou ela, imagine só se Solid Snake passaria por algo parecido. Seus olhos, por outro lado, não aparentavam estar descansados. Durante aquele tempo todo deviam estar ocupados com alguma coisa.

Ela imaginou o que seria. Acompanhou uma linha imaginária do que julgou ser a direção na qual Snake olhava. Chegou a uma figura vestida de forma tão elegante quanto ele.

Lembrou do momento que recebeu a ligação informando que deveria aguardar por um certo "inspetor da ONU", e mais, que ele provavelmente estaria acompanhado de uma mercenária. Estranhou, mas jamais poderia imaginar quem seria essa mulher.

Para falar a verdade, não consigo acreditar nisso até agora. Pensou em pedir alguma explicação de Snake sobre sua nova parceira. Não que isso lhe interessasse, longe disso.

Resolveu guardar essa pergunta para mais tarde. Alguma coisa lhe dizendo que o diálogo tomaria um rumo desconhecido quando tocado nesse assunto. Deixaria-a para o final, ou esperaria que ele comentasse alguma coisa. Talvez fosse melhor nem perguntar.

Só que aquilo, em parte, também dizia respeito a ela. Ainda tinha consideração pelo ex-parceiro - e odiava ter de admitir - mais do que isso até. Era a vida e segurança de Solid Snake que estava em questão. Afinal, ele já não era o mesmo homem que encontrou em Shadow MOses.

"Você está mais jovem. Qual o seu segredo?" Esperou que Snake lembrasse desse tom de voz jovial e que sempre usava para uma brincadeira.

"Você acha, é?" Deu uma tragada no cigarro e deu uma risada.

Meryl fez o mesmo, aliviada por ele ter ignorado a seriedade do assunto. E principalmente, por ter lembrado de seu tom provocativo.

"Facecamo" Desviou o olhar da ruiva em direção a loira do outro lado do hall. "Um presentinho da tentáculos" Deu uma batidinha com o dedo no cigarro, expulsando as cinzas dali. Voltou o olhar para ruiva.

Parecia ser inevitável, Meryl concluiu. Se a aparentemente insana mercenária foi citada, teria de fazer a pergunta.

"Sobre isso..." Olhou para o lado contrário, impossibilitando que Snake pudesse ver seu rosto. "Que palhaçada é essa?" Disse, já arrependida com a escolha das palavras.

Snake se voltou para ela, confuso. Notou que estava quase de costas para ele, apenas o cabelo cor de fogo virado em sua direção. Finalmente entendeu a pergunta, e se lamentou ao prever que isso terminaria em mais uma discussão.

"Palhaçada?" Se fez de bobo, sabendo que a ruiva perceberia a ironia.

"O que você quer que eu pense disso?" Disse ainda de costas. "É a única palavra que achei para descrever" A única menos ofensiva, ela pensou.

"Qual é o problema com ela?" Continuou se fazendo de desentendido.

"Ah, nenhum. Fora o fato dela ter o diabo dentro do próprio corpo" Finalmente revelou sua cara de indignação para o outro.

"Não comece, Meryl" Tão infantil quanto a ruiva, virou o rosto para outra direção.

Ficou indignada com o descaso que ele demonstrou, mas não deixaria que essa discussão acabasse. Se colocou frente a frente com Snake, evitando que ele pudesse desviar a atenção novamente.

"Não começar? O que você quer que eu diga sobre isso? Que é algo perfeitamente normal e aceitável?"

"Eu não quero que diga nada!" Disse encarando os olhos verdes da ruiva.

"Mas eu vou" Inabalada pelo olhar intimidante dele, continuou. "Isso é loucura, você não pode aceitar a ajuda daquele monstro. Isso vai comprometer a missão"

"A missão, não é?" Ficou com vontade de dar outra tragada, mas desistiu. "Essa é a minha missão, e eu vou conduzi-la da forma que achar melhor. E se me lembro bem, quem foi que disse que era uma missão suicida e absurda?"

"Esse não é o único problema. E as pessoas que estão ao seu lado? Você não pensa nelas? O que Otacon esta achando de trabalhar com uma maníaca psicótica?"

"Você não acha que está levando isso para o lado pessoal?" Sabia que a pergunta ia desarmá-la, e com sorte, acabar com a discussão.

"E porque eu levaria?" Disse após alguns segundos, demorou para digerir o que Snake disse.

"Eu tive a oportunidade de matar a Jan, mas desisti" Começou a contar a história, na tentativa de diminuir a tensão que já os cercava.

Viu o rosto de Meryl se contrair levemente ao citar o nome verdadeiro da moça, e não o codinome no qual era conhecida. Mas se ela pediu uma explicação, que agora ficasse quieta e escutasse.

"Pouco tempo depois eu fui rendido. Foi quando ela apareceu e me salvou. Resolvi aceitar a ajuda dela, e até o final do dia ela se mostrou merecedora de minha confiança" Percebeu que a ruiva se acalmara um pouco, mas que continuava a encara-lo.

"Ela teve varias oportunidades de me matar nesse meio tempo, mas não o fez. Eu sei quem ela era, vi o que fez no Oriente Médio e o que fez contra mim mesmo. Mas ela mudou, e eu tenho certeza disso." Se sentiu ridículo tendo que explicar aquilo tudo, mas pareceu ter funcionado.

"Você sabe que ela tem problemas" Meryl insistiou, mas visivelmente mais calma.

"Eu sei. Uma pena que o sistema não tenha funcionado com ela. Nenhuma nanomáquina suprimiu suas emoções, ou fez que esquecesse os seus atos, porcaria tecnológica alguma disse para ela que o que estava fazendo era errado" Desviou o olhar de Meryl, sem saber que ela fez o mesmo, enquanto olhava para a loirinha de branco lá longe, inconsciente de que era o assunto da discussão.

"Lembra quando o SOP caiu lá no Oriente Médio, e você sentiu o que era ter toda aquela emoção que foi suprimida, tudo de errado que você cometeu, todas as pessoas que você matou, liberadas, em um só momento?" Botou a mão nos ombros da ruiva.

"Meryl, ela passou por isso grande parte da sua vida. Dez anos de morte e sofrimento acumulados e vividos intensamente. Por isso, acredite em mim quando eu digo que confio nela." Ela olhava fixamente para Snake.

"Eu vi ela sorrindo de verdade. Diferente do que ela fez lá atras" Disse se referindo a pequena confusão que armaram. "Um sorriso sincero, incapaz de ser falso. Uma pessoa que passou pelos mesmo problemas que ela... e conseguiu demonstrar inocência e sinceridade, como ela o fez pra mim... eu me sinto obrigado a acreditar nela"

Ele terminou, sabendo que aquilo colocaria um ponto final naquela discussão infeliz. Não queria ter falado tanto, e da forma como falou, mas era a única alternativa de terminar aquilo sem machucar ainda mais Meryl. E ele já havia prometido a si mesmo que nunca mais faria aquilo.

Sabia que era um computador. Do tipo laptop, ou notebook. Nunca soube qual a diferença entre eles, se é que tinha alguma. Haviam dois modelos na vitrine: o cinza fosco e o rosa metalizado. Presumiu que o ultimo era para atrair o público feminino. Pelo menos com ela não funcionou.

Passou para a prateleira acima. Não reconheceu nada. Vários aparelhos distintos de tamanhos, formas e cores diferentes. Alguns, extravagantes e abusando do colorido, outros, procurando a discrição do preto e cores foscas.

Se perguntou o que eram aqueles objetos, como eram chamados, a quem se destinavam, qual a sua utilidade. Não sabia nada sobre eles. Sentiu-se como um daqueles velhos rabugentos que reclamavam de tudo e diziam que na sua época as coisas eram diferentes e melhores.

Se o problema fossem só aqueles objetos, seria muito mais fácil. Só que o problema dela era maior que saber o nome daquelas bugigangas aparentemente inúteis. Não sabia quase nada sobre o mundo em que vivia.

Tinha conhecimento de uma ou outra coisa, por exemplo, que estavam em guerra. Mas nem imaginava o motivo dessa guerra. Lembrou de Snake falando que não havia um motivo, que aquelas batalhas simplesmente aconteciam como algo perfeitamente natural.

Talvez sua missão fosse acabar com aquelas guerras. Não tinha dúvidas de que Liquid Ocelot estava por trás de tudo. Mas como o mundo chegou a ao ponto de se tornar um salão-de-festas para um anarquista megalomaníaco, ela não tinha nem idéia.

Alguma coisa lhe dizia que não estava sozinha em relação a isso. Apesar das pessoas desse mundo terem idéia de para que serviam aqueles aparelhos coloridos da vitrine, assim como ela, não sabiam os motivos, nem os objetivos daquelas lutas sangrentas. Arriscaria ainda, que eles não se importariam com isso.

Procurou se ocupar de outra coisa diferente de aparelhos desconhecidos e combates. Seria um pouco difícil. Curioso como conseguiram transformar um shopping num arsenal. Para qualquer lado que olhasse havia algo relativo a guerra. Militares, mercenários, metralhadoras, rifles, pistolas, explosivos, Snake e a mulher ruiva.

Fitou os dois por algum tempo. Primeiro pareciam estar tranqüilos, e até se divertindo. Depois a ruiva começou a se exaltar e pouco depois Snake a acompanhou. Não precisava nem ouvi-los, mesmo da distância que estava podia notar claramente que eles discutiam.

Começou a imaginar do que estavam falando. Não devia ser sobre a missão. Conhecia Snake a pouco tempo, mas uma coisa que já tinha aprendido sobre o agente é que jamais se exaltaria para discutir seus objetivos. Como um verdadeiro profissional, mantinha-se frio nesses momentos.

Ou sempre, pensou. Veio a se corrigir pouco depois, lembrando de uma ou outra ocasião que ele deixava aquele jeitão taciturno para se tornar alguém mais sociável. Não tão sociável quanto ela queria, infelizmente.

Não se preocuparia com isso. Após cumprir sua missão, teria tempo de sobra para importunar o velho rabugento até ele aprender a dar bom-dia pelas manhãs.

Uma pequena mudança na atitude do casal do outro lado do hall trouxe-a de volta para o shopping, as armas, vitrines e mercenários. Tinha de aprender a parar de sonhar acordada de vez em quando. Outra promessa que deixaria para cumprir após a missão.

Desviaram os olhares, ignorando a presença um do outro. Snake deu uma rápida olhada em sua direção. Por coincidência, provavelmente. Talvez por ela, talvez por não ter mais para onde olhar. Eram possibilidades a se cogitar.

Ele botou as mãos sobre os ombros da ruiva. Fez o mesmo com ela algumas vezes, a loira lembrou. A discussão acabaria logo, tinha certeza disso. Era impossível vencer o velho depois disso, afinal, nem ela conseguia, que dirá a ruiva.

Mal tinha botado os pés para fora do shopping e começou a chover. Como se ela fosse o chamariz para que aquela precipitação ocorresse. Não tinha um guarda-chuva, afinal seria ridículo demais carregar um para aquela missão. Que mal poderia fazer uma chuvinha daquelas?

Era apenas uma queda d'água tímida e comum em Praga naquela época do ano. As ruas da cidade mal haviam secado da anterior, o asfalto continuava escurecido e molhado, nas estreitas vielas corriam uns pequenos fios de água.

Os pingos começaram a ficar maiores e a incomodá-la quando batiam em seu rosto. Um deles acertou o olho esquerdo que se fechou em seguida. Ela abaixou a cabeça e esfregou as mãos cobertas de látex na face.

A franja, já pesada e molhada, anunciava sua presença às duas orbes azuladas de Jan. Ela passou as mãos pelo rosto novamente, levantando a franja e jogando-a para trás. Tentou ajeitar o cabelo como pode, tentando manter-se apresentável.

Juntou-se ao silêncio da cidade. E à serenidade. Quase se condenava por pensar nisso, mas o toque de recolher imposto à chuvosa capital chegava a tornar-se atraente. As ruas vazias eram estranhamente convidativas. Sentiu-se tentada a aceitar o convite, a não realizar essa desfeita, mas tinha coisas mais importantes para fazer.

E não é que fosse recusar, pelo contrário. Iria, e iria acompanhada. Talvez não fosse o que as ruas quisessem, talvez fosse. Quem sabe elas preferissem a companhia de outro passante. Ou só a ela. Infelizmente, não daria as ruas o privilégio da escolha, que era dela.

Jan Jensen aceitou o convite de Praga, mas levaria um penetra para aquela festa. O penetra que estava mais para convidado do que ela, mas isso também não importava. A presença de ambos já estava confirmada. Só faltava seu acompanhante aparecer.

Esperou por ele respeitando o único pedido feito e destacado no convite. Manteve-se em silêncio. Ouviu apenas a própria respiração e as gotas de chuva tamborilando em umas latas de lixo próximas.

A trilha sonora apenas mudou quando o som de das solas de um sapato pisoteando o chão coberto de pedras se juntou ao musical. Solid Snake finalmente deixara a ruiva para trás e resolvera levá-la ao compromisso.

- Te deixei esperando por muito tempo?

Não conseguiu decifrar as palavras, nem o som de sua voz. Não sabia se aquilo tinha sido uma piada, uma provocação ou a pura sinceridade do homem. Não gostou disso. Preferia saber interpretá-lo, mas também não detestou a situação. Era como se o diretor de um filme concedesse à atriz – ela – a graça de um improviso.

- Não. Digo, sim. Mas fiquei aqui conversando com a cidade e ouvindo a serenata que a chuva fez para mim.

Snake olhou para a moça por algum tempo. Chegando a conclusão de que toda vez que parecia conseguir decifrar e entender Jan Jensen, ela colocava em funcionamento sua incrível habilidade de mostrar ao mundo que nem tudo era o que parecia.

- Você gosta de se fazer de louca, não é?

Ela não precisava responder. Não com palavras, e os dois sabiam disso. Ela o faria da forma que mais achava prazerosa, aquela que fazia com que os mais diferentes sentimentos voltassem a se formar dentro do outro, todos parente próximos da confusão e imprevisibilidade.

Um sorriso – novo – foi surgindo no rosto dela. A sua resposta. Os lábios foram se arqueando, forçando com que as duas bochechas as acompanhassem. Um sorriso com o mais sincero e agradável deboche que Snake já recebeu, e que ela, Jan, forneceu.

Fazer com que tudo parecesse novo, confuso, imprevisível e desejável, estava fazendo muito bem aos dois companheiros em armas. Não sabiam que faziam isso um ao outro, óbvio. Do contrário, talvez isso tudo nem funcionasse.


"Tum-tum-tum-tum-tum-tumdum-dum"

Snake olhou para ela, obviamente incrédulo. A moça continuou a cantarolar o que ele identificou como o refrão da música mais duas vezes, acompanhando o som do celular. Quando estava prestes a protestar ela finalmente atendeu o celular.

Desta vez fez o procedimento certo. Abriu o aparelho, afastou do rosto para que a câmera à filmasse e o companheiro e completou com um sorriso debochado especialmente preparado para a morena do outro lado da conferência.

"Sim, doutora?" O tom de voz também preparado para a outra.

"Logo você que tinha que ficar com o celular?"

"Não sou bom com essas geringonças" Disse Snake, respondendo por Jan e evitando que outra discussão entre as moças começasse.

"Geringonças, que palavra de velho" Jan só percebeu depois do breve silêncio que comentara aquilo alto. "Querido, você só tem a aparência de um, não precisa agir como um velho" Balançou a mão, gesticulando alguma coisa indecifrável para Snake, como se tentasse afastar para longe a besteira que dissera.

"Eu estou rezando para que você leve um tiro" Naomi deu uma risada e continuou. "Usem o Detector de Sinais para interceptar as mensagens dos membros da resistência. Assim que ele achar uma, vai realizar automaticamente uma triangulação na região, revelando a área em que esse sinal foi iniciado. Assim poderão achar um dos membros da Paradise" A morena deu uma tossida. "O resto é com vocês. Sigam o cara, capturem, interroguem, sei lá"

"E quanto a torturar?" Os olhos de Jan quase brilharam.

"Sua especialidade, Octopus" Respondeu secamente.

Jan olhou para o lado, o oposto de Snake. Percebeu tarde demais que a escolha de palavras foram as piores possíveis para sua provocação. Era o tipo de assunto que não deveria nem ser cogitado em ser pronunciado próximo à Naomi, ainda mais vindo dela.

"Não vamos pegar muito pesado com ele, fique tranqüila doutora" Piscou para a morena e fechou o celular, desligando na cara dela antes que pudesse dizer mais alguma coisa. Alguma ofensa, provavelmente.

Virou para Snake, esperando que fosse recebida com desaprovação. Não viu nada parecido com isso na expressão dele. Preferia ter visto.

"É isso aqui" Disse ele enquanto segurava um objeto na mão.

Lembrava um daqueles telefones celulares dos anos oitenta, os primeiros, que Jan viu recentemente em um filme no Nomad. Devia ser umas cinco vezes maior do que o aparelho que ela tinha em mãos, e umas oito mais pesado.

"Ligou ele?" Ela perguntou.

"Sim"

"E como vamos saber se ele detectou alguma coisa?"

"Otacon disse que ele ia apitar. Ou vibrar. Acho que os dois." Snake parou para pensar um pouco antes de responder. "Quer ficar com ele?"

"Eu não! Olha o tamanho dessa droga"

"Como quiser. Vamos"

"Para onde? Alias, como sabe por onde começar?"

"Eu não sei. Por isso que vamos para um local mais alto"

Ela pensou um pouco e concordou. Seguiu Snake e ambos subiram uma escadaria no final da rua.

Contou até três e esticou o pescoço. As mechas voltaram a atrapalhar sua visão, mas conseguiu enxergar seu alvo sem problemas. Um dos olhos azuis viu apenas a pintura esverdeada da parede, o outro teve mais sorte, viu a rua, alguns carros, e o seu alvo.

Ele era tão silencioso quanto Jan e Snake, embora já tivesse se mostrado desatento algumas vezes quando caminhava no meio da rua e entre áreas mais iluminadas que o normal. Com certeza não tinha experiência alguma em missões de infiltração, ou de passar despercebido por uma cidade tomada por soldados.

E nem ela tinha, Jan admitia a si mesma. Mas pelo menos estava ao lado do lendário Solid Snake, que tinha experiência de sobra em ambas as situações. Só que por algum motivo o velho fazia com que ela sempre estivesse na liderança.

A única hipótese que lhe ocorreu foi que Snake estava conduzindo uma espécie de treinamento com ela. Fazia comentários sobre sua postura e ações, dizendo o que estava certo e o que estava errado – quase tudo.

A loira praticamente viu toda sua experiência na infância e adolescência com filmes de ação e espionagem serem jogadas no lixo. Era tudo muito diferente na realidade. Haviam regras para tudo, como andar, correr de forma silenciosa, segurar a arma e até mesmo encostar-se na parede.

O companheiro chamou a atenção dela mais de uma vez para essa última. Ela insistiu varias vezes em ficar de costas para a parede quando precisasse se encostar nas superfícies. Snake disse que aquilo não adiantava de nada, e era estrategicamente incorreto.

A melhor forma era sim encostar-se na parede, mas ficar de frente para ela, com uma mão servindo de apoio – para que motivo, ela não entendeu – e a outra empunhando a arma. Que de preferência seria uma pistola ou outra de pequeno porte.

Aquilo não tinha graça nenhuma e sem o menor estilo, mas ela se forçou a adotar tais táticas. Se Snake dizia ser aquela a forma correta, não seria Jan Jensen que ia discordar. Embora estivesse começando a achar James Bond bem mais estiloso que o amigo. Fez questão de comentar isso para ele.

- E então? – Perguntou uma voz rouca.

- Ele está sozinho, por enquanto. Mais na frente tem alguns soldados. Acho que isso vai ser um problema.

- Provavelmente.

Snake gostou da observação da moça. Ela até mesmo se adiantou alguns passos adiante, citando os soldados inimigos e que teriam de interferir de alguma forma. Sentiu-se um professor e a loirinha sua aluna. Aproximou-se de sua estudante, usando a mesma parede que ela para servir de cobertura enquanto espiava para a rua.

A calçada em que estavam era minúscula, uma pessoa mal passaria por ela sozinha, quanto mais duas ao mesmo tempo. E pra ajudar ainda tinha uma van atrás deles que diminuía ainda mais o espaço que tinham. Tiveram os dois de se espremer para que Snake pudesse ver o outro lado da rua.


Era o terceiro lance de portas. Talvez o quarto. E como em todos os outros, a maca que adentrava violentamente por aquele hospital, arremessava as portas nas paredes. Um estrondo muito alto podia ser ouvido toda vez que aquilo acontecia.

Chamar aquilo de hospital era com toda a certeza, um equívoco. Apesar de possuir toda a aparência de um, sequer tinha a licença para atuar como tal. Na verdade, sequer era conhecido pelo público. O melhor hospital de toda a Europa residia em Praga. E era clandestino.

Envolta da maca haviam duas mulheres, um homem e uma garotinha. Naomi Hunter podia ser confundida com a enfermeira no lado oposto ao seu, dados os trajes que usava. As duas seguravam as barras de metal da maca cada uma em seu lado. Na parte traseira, um médico, Naomi pode concluir pelo estetoscópio que ele tinha no pescoço, pois sua roupa remetia a qualquer coisa menos ao titulo de doutor. Um jeans escuro e uma camisa de um time de futebol, provavelmente local.

Atrás de todos eles, a garotinha. Suas pequenas pernas a impossibilitavam de manter o mesmo ritmo dos adultos, além do fato de aquela ser uma das únicas vezes na vida que precisou correr tanto. Mas a última coisa que queria era que eles diminuíssem o passo para que ela pudesse acompanhá-los. O mais importante no momento era que o paciente deitado na maca chegasse ao seu destino.

Raiden não tinha muito tempo de vida. E Sunny não precisava ser médica para saber disso. Queria que isso lhe motivasse a correr mais, mas o efeito parecia contrário. Tinha certeza que poderia ser útil se ficasse ao lado de Jack, mas seu corpo não parecia disposto a permitir isso.

Em algum lugar entre a quarta e a quinta porta, seu corpo lhe traiu. Sentiu uma dor nos músculos da perna e sentiu-se forçada a parar. Foi quando sentiu que não apenas os membros inferiores sentiram o impacto do excesso de exercício. Seus pulmões também estavam desacostumados com tamanho abuso se energia.

Não sabe quanto ficou ali, de boca aberta, puxando a maior quantidade de ar que podia para acalmar os dois principais órgãos do seu sistema respiratório. Sentiu-se idiota por pensar neles com tamanha formalidade científica. Eram só dois malditos pulmões, e que nem conseguiam fazer seu trabalho direito.

Aos poucos foi recuperando o fôlego, assim como a boa vontade de suas pernas doloridas. A dor diminuiu o bastante para que conseguisse se colocar a andar novamente numa velocidade consideravelmente rápida.

Com algum esforço empurrou a última porta dupla que levava à sala na qual Raiden foi trazido. Estavam todos no centro dela. Sunny viu algumas cadeiras à sua direita e uma moça loira sobre uma delas.

Naomi, a enfermeira e o jovem medico conversavam com um velho senhor. Ela quase riu dele se a situação não fosse tão séria. O senhor parecia com o famoso cientista – e um dos ídolos de Sunny – Albert Einstein. Estava tudo lá, o bigode, cabelo branco e a cara excêntrica, mas agradável e simpática.

"Doutor Madnar, ele disse que deveríamos procurar o senhor" Era Naomi.

"Deus, em que problema você andou se metendo dessa vez, Raiden?" Dr. Madnar deu um tapinha no ombro do homem na maca e apontou para outra porta, no final da sala. "A máquina de hemodiálise fica ali, e os outros equipamentos necessários também. Andel, Zizka, levem-no para dentro e liguem a máquina" Disse para o médico e a enfermeira.

Os dois obedeceram. Naomi foi atrás deles, deixando Madnar, Sunny e a moça loira sozinhos na sala. O velho olhou para a menina e acenou para ela.

"Fique tranqüila, senhorita. Vamos cuidar do seu amigo" Ele sorriu e foi em direção à sala que os outros entraram. Antes de chegar na porta parou, e virou para a moça sentada na cadeira. "Diane, porque você não dá um doce para a nossa amiga? E mostre a ela a minha sala também" Sorriu novamente para Sunny e entrou porta adentro.

"Você deve ser Sunny Gurlukovich, não é?"

Entre uma respiração e outra a pequena fez que sim com a cabeça, curiosa com a outra saber o seu nome, e espantada por saber o sobrenome. Ele não estava presente no banco de dados da Interpol, CIA e nem mesmo na FOXHOUND e Philantrophy. Como aquela mulher aparentemente comum, enfermeira ou atendente de hospital poderia ter obtido a informação, era uma coisa que realmente intrigava a inteligente menina.

"Snake falou de você"

A moça falou, sem saber que fazia um grande favor à menina respondendo-lhe tamanha pergunta. E sem intenção, trazer outra. Agora o que intrigava Sunny era o motivo de Snake ter comentado sobre ela e seu nome.

Diane percebeu que a expressão confusa ainda estampava sobre seu pequeno rosto. Rosto, alias, que lembrava muito alguém do passado de Diane.

"É que Snake sabia que eu conhecia sua mãe" Sabia que isso provavelmente só iria deixar a menina mais confusa, mas continuou. "Sabe, Sunny, a sua família ajudou muito o nosso pessoal há 10 anos atrás. Principalmente a sua mãe. Foi ali que nós a conhecemos."

"V-você conheceu minha mãe?" Fora Snake e seu tio Hal, nunca soubera de ninguém que tenha conhecido sua mãe.

E mesmo eles não eram capazes de responder todas suas perguntas sobre Olga. Pelo menos nas raras ocasiões que se permitia perguntar. Já desconfiava há um bom tempo que nenhum de seus dois guardiões gostavam de falar muito no assunto. Principalmente Snake. Por ironia era exatamente ele a pessoa mais próxima de sua mãe que tinha notícia.

"Sim, inclusive pessoalmente. Acho que posso até dizer que fomos bem amigas, apesar do período breve que passamos juntas."

"E-eu.. eu não sei nada da minha mãe." Sentiu algo parecido com vergonha. Era difícil encontrar com pessoas que conheciam sua mãe. Sempre tinham tanta coisa pra falar, tantos elogios e agradecimentos, e ela não tinha nada para retribuir. Nenhuma experiência ou lembrança.

"Ei, não fique assim Sunny" Diane se abaixou e colocou as mãos sobre os ombros da menina. "Eu vou ter o maior prazer de lhe falar sobre a Olga"

Sunny levantou a cabeça e fitou a moça. Ela tinha olhos castanhos, uma face fina e elegante. O tom do cabelo não era o natural, mas sim um loiro claramente artificial, com duas mechas vermelhas caindo ao lado dos olhos. Uma das orelhas devia ter quase meia dúzia de piercings. Para completar, uma maquiagem de sombras forçada e escura.

A ultima coisa que lhe chamou atenção na mulher foi o moletom de um numero bem maior que o dela. As mangas do moletom cobriam quase que totalmente as mãos, e tinha uma estampa bem chamativa acompanhada das palavras Thin Wall. Sunny concluiu que era um moletom de banda.

Olhou fixamente para a estampa. Era o desenho de pessoas com uma aparência que lembravam a de Diane – e que Sunny viria depois a descobrir que chamavam-se punks – derrubando uma parede com martelos e outras coisas. Não era um desenho que agradava a ela particularmente, mas até que achou interessante. Sempre quis um moletom ou camiseta de banda, apesar de não conhecer nenhuma que lhe agradasse.

Na verdade, não conseguia nem lembrar do nome de uma banda ou cantor, seja qual fosse seu estilo.

"Ah, isso? É da minha banda. Fizemos algum sucesso há alguns anos atrás." Sorriu.


Notas do autor:

Não atualizava TLTWB há tempos, mas como recebi um pedido especial resolvi upar o que eu já tinha feito. Infelizmente a fiction está longe de estar completa e não sei se um dia voltarei a trabalhar nela, mas agradeço a todos que acompanharam aqui pelo e pelo nyah, aos que deixaram reviews e aos que também não deixaram. Agradeço os elogios e críticas que recebi por essa fanfiction principalmente daqueles que falaram que não precisaram jogar MGS4 para entender a história e entrar no clima, isso realmente foi um grande elogio para mim, principalmente por ser um fã da série e saber o quão difícil e maravilhoso é entrar e explorar esse mundo e personagens fantásticos criados por Hideo Kojima. Espero um dia poder retornar à essa história e quem sabe muitas outras. Obrigado a todos.