Capítulo DOIS
"They say that I must learn to kill before I can feel safe
But I, I'd rather kill myself than turn into their slave"
– In The Shadows, The Rasmus
Regulus estava a pouca distância de Lucius Malfoy, os dois sentados nas poltronas da sala da Mansão Malfoy. Lord Voldemort também estava na casa, conversando em particular com sua leal Bella, e Narcissa tentava disfarçar, sem sucesso, o nervosismo, enfeitiçando agulhas para bordarem o enxoval do bebê que ela tanto queria. Uma cena familiar, se não fossem quatro assassinos e uma cúmplice.
"O que tanto eles conversam?", perguntou Regulus sem real interesse na resposta.
"O lorde quer dar à Bellatrix uma missão vital. Não gosto nem um pouco dessas conversas na minha casa. Por que não usam a Mansão Lestrange?", disse Lucius, com raiva.
"Porque ele quer falar com você também, Lucius, tenho certeza", comentou Narcissa, como se nada fosse.
Como ela conseguia se mostrar tão indiferente? Regulus tinha cada vez mais nojo daquela situação. Se antes olhava para Bellatrix com orgulho, agora via os mortos e os torturados nos olhos negros e no sorriso doentio da prima. Não conseguiria matar Sirius por nada. Estavam perdidos.
Assim que Lucius foi chamado para o cômodo isolado, Regulus fingiu olhar as tapeçarias da parede e foi atrás dele. O mínimo que esperava de um Lord das trevas era uma porta imperturbada, mas não, conseguiu ouvir parte da conversa. "... não vou dizer o que são, apenas que são objetos valiosos para mim, cada qual com sua história de aquisição. Vou confiá-los aos Comensais em quem confio, enquanto me retiro para proteger um em particular...", dizia Voldemort.
"Esse é mais importante, senhor?", perguntou Lucius curioso.
"Não interessa. Só interessa que os escolhi para protegê-los e devem dar sua vida para tal"
"Daremos, Milorde. Tenha certeza", ouviu Bellatrix dizer com paixão.
Objetos importantes para o Lorde das Trevas. Era possível isso? Alguém tão preocupado em coisas maiores, querendo proteger cacarecos sentimentalistas? Não, não era possível, definitivamente. Esses objetos deviam guardar algo oculto, algum poder especial.
E por que o Lorde tinha dado ênfase à palavra vida?
"Precisa de alguma coisa, senhor?", ouviu a voz aguda do elfo doméstico dos Malfoy.
"Cale a boca, Dobby, não sabem que estou aqui". Tudo o que não precisava agora era ser descoberto. Já não era um bom oclumente, e mentir para Voldemort, após fraquejar descaradamente era pedir para morrer.
Mas assim que Regulus voltou disfarçadamente à sala, foi chamado para ter com Voldemort.
"Com licença"
"Sente-se, Regulus", convidou o mestre.
"Planos para a missão que te encarreguei?"
"Senhor", ele tentou começar forçando uma coragem que não tinha, "vou conseguir, mas preciso de tempo..."
"Terá, Regulus. Por agora, quero outra coisa"
"Pois não"
"Um elfo doméstico".
"Senhor, Dobby..."
"Se eu confiasse nesse verme eu tinha pedido a Lucius, não? Quero o seu elfo, velho, fiel, confiável"
"Kreatcher é tudo isso, senhor. Seria uma grande honra para mim e para ele"
"Ótimo. Devolverei. Mas traga-o o mais rápido possível".
"Kreatcher, venha cá", chamou Regulus já em casa, despindo o sobretudo.
"Senhor"
"O Lord das Trevas me pediu um favor. Ele quer um elfo doméstico"
"E... o senhor..."
"Ofereci você, mas não se preocupe, é só um trabalho, você ainda será da família Black"
"Tudo o que o senhor pedir", Kreatcher fez uma reverência exagerada, encostando o nariz no chão.
"Então vá com ele, faça tudo o que ele pedir e depois volte para casa. Entendido?"
"Sim, meu senhor".
No dia seguinte, o elfo foi procurar Lord Voldemort, e ficou ausente por um dia inteiro. Regulus já estava preocupado, quando ouviu um crack na cozinha de madrugada e foi encontrá-lo.
"Conte-me tudo, Kreatcher, exatamente tudo", pediu. Assim que o elfo contou a história, Regulus foi ficando cada vez com mais medo e nojo do então mestre.
Nunca fora a favor da liberação dos elfos, mas, aquilo era demais. Esconder um medalhão numa caverna usando um elfo velho, a qualquer custo, aquilo era absurdo, e, junto com a missão de assassinar Sirius fazia Regulus querer ter certeza de que era melhor ter escolhido casar-se e ter filhos lindos, longe daquilo tudo.
"Fique escondido, Kreatcher. Ninguém pode saber que você voltou. Não saia de casa por nada, não fale com ninguém, nem mesmo com minha mãe. Agora me conte detalhadamente como era esse tal medalhão. Fielmente de modo que eu possa... reproduzi-lo".
"Mas, meu senhor..."
"KREATCHER! Você me jurou".
Não era tão brilhante quanto Sirius, mas deu um jeito de forjar um medalhão parecido com o original do Lorde das Trevas. Um pouco de pesquisa nos lugares certos, principalmente quando se tem contato com arte das trevas, fazia a resposta surgir naturalmente.
Regulus ficava abismado com certas falhas daquele que tanto temiam, que juravam ser o mais poderoso bruxo de todos. Objetos valiosos, não materialmente, mas emocionalmente. Escondidos. Parte da vida dele, figurativamente ou literalmente? Magia negra.
Horcruxes.
Então o intuito de Voldemort era ser imortal, e isso seria o fim realmente. Regulus não queria mais fazer parte daquilo, não queria mais que aquilo existisse. Queria proteger Sirius, mas salvar-se a si mesmo também, e para isso teria que chegar a esses objetos, começando pelo medalhão.
"Kreatcher", chamou ele pelo elfo, debaixo armário onde este morava. Não se importou em disfarçar o nervosismo, porque aquele elfo o pareceu, mais do que nunca, o único ser confiável na sua vida. "Me leve àquela caverna. Você vai me ajudar a trocar aquele medalhão por este", e mostrou o falso que tinha feito.
"Terei que beber aquele líquido de novo, senhor Regulus? Por favor, piedade!"
"Kreatcher, eu realmente sinto muito e me arrependo por você ter tido que passar por essa experiência, mas dessa vez será realmente necessário. Se você me ajudar a trocar esses medalhões será sua maior glória e meu maior motivo de agradecimento".
Com essas palavras, convenceu o elfo.
Aparataram num rochedo, em meio ao mar aberto. Seu coração pulava dentro do peito, sabendo que aquele era um momento importante, talvez o mais importante de toda sua vida. Eliminar, mesmo que apenas uma parte, a alma do Lord das Trevas e torná-lo um pouco mais mortal davam a ele um falso alívio.
Na noite anterior escreveu um pequeno e sucinto bilhete, assinando com suas iniciais, mesmo sabendo que esse artifício não atrasaria a ira de Voldemort. Não tinha pensado em plano de fuga, não tinha avisado Sirius que corria perigo, não tinha se despedido da mãe. Tinha apenas um elfo velho ao seu lado, pronto para servi-lo, para morrer por ele se fosse necessário.
Não. Quantos mais teriam que morrer para parar a fúria incontrolada e sem sentido de Lord Voldemort? Quantos trouxas ele teria que matar, quantos mestiços ele teria que torturar? Quantas crianças ficariam órfãs, quantas famílias seriam despedaçadas? Ele esperaria Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado se tornar imortal para fazer algo?
Várias perguntas fluíam como água em sua cabeça enquanto Kreatcher guiava um frágil barco até terra firme. E essa era a pergunta que mais o assustava: Kreatcher merecia passar por aquilo novamente? Só porque ele era um elfo e não humano não merecia aquela tortura repetidamente. E ele, Regulus, não era Voldemort, e mesmo que seu intuito fosse outro, ele e só ele deveria ser o responsável por seus atos.
"Esta é a bacia, senhor. Devo...?" Kreatcher se precipitara com a taça com a insígnia dos Black, trazida de casa, nas mãos.
"Não. Não dessa vez, Kreatcher. Eu bebo"
"SENHOR!"
"Kreatcher, me jure que vai voltar pra casa. Que vai cuidar de minha mãe, da nossa casa. Jure que nunca contará a verdade para a minha mãe", exigiu com a voz firme, uma confiança surgida sem motivo.
"Juro".
Entregou então o medalhão falso para o elfo, com o bilhete dentro, e começou a esvaziar a bacia. Era como se mil feitiços Cruciatus atingissem-no ao mesmo tempo: uma dor lacerante percorria seu corpo de ponta a ponta. E pior do que a dor física era a sensação de tristeza, como se todos os dementadores estivessem ao seu lado naquele momento.
Culpa. Muita culpa. Ele era todo culpa. Seu pai morrera sem netos. Sua noiva tinha sido abandonada. Sua mãe nunca ouviria adeus. Seu irmão poderia morrer a qualquer momento.
"SIRIUS! ME PERDOE, ME PERDOE, SIRIUS!", ele berrava, mas não conseguia se ouvir.
"Senhor... eu disse que era horrível!", lamentava-se Kreatcher, enchendo mais uma concha, contra a vontade.
"NÃO QUERO QUE VOCÊ MORRA! EU AMO VOCÊ! SIRIUS!". Aquilo era a morte, não, aquilo era pior que a morte. As pessoas que ele tinha torturado tinham passado por isso, como ele pode?
"Acabou, acabou", ele ouviu a voz fraca de Kreatcher, que titubeava com a concha ainda na mão. "Por quê? Por que isso, meu senhor?", perguntou o elfo.
"Não conte para minha mãe sobre isso, Kreatcher... agora me dê água", mas o pedido não foi atendido.
"Não posso, não, não é indicado..."
"VOCÊ QUER SABER POR QUE, KREATCHER? POR QUE EU ESTOU PASSANDO POR TUDO ISSO?", berrou Regulus, tremendo. "Porque eu não posso deixar ninguém mais morrer ou ser torturado em nome daquele maligno, Kreatcher. É uma vingança por tudo o que ele fez e pretende fazer. Por ameaçar Sirius, por ameaçar você. Por roubar minha vida, por destruir tantas famílias"
"O senhor é tão bondoso, senhor Reg", Kreatcher não conseguiu mais conter o choro.
"Preciso de água".
O bruxo estava à beira do lado escuro, cansado como se tivesse 100 anos de idade, como se tivesse sofrido todos os padecimentos de uma vez só.
E então, tocou na água gelada, mas não conseguiu trazer o braço de volta. Uma mão fria e branca o segurava firmemente, e Kreatcher não sabia o que fazer.
"Eu disse, senhor, não era indicado...", enquanto isso batia a cabeça numa pedra. "Fuja daqui, Kreatcher, AGORA. Fuja, fuja"
"Não posso deixá-lo aqui!" Mas já era muito tarde. Cerca de seis defuntos brancos como cera moviam-se para perto de Regulus, que estava consciente de seu último ato.
"Troque os medalhões, agora, Kreatcher, e destrua o original. Fuja. Deixe-me morrer. Não conseguirei encarar minha mãe novamente, e serei morto de qualquer jeito", disse Regulus, se afundando cada vez mais.
Era o fim, seu fim. Não poderia salvar Sirius ou presenciar Voldemort morrendo. Tornando-o mais fraco... FUJA, KREATCHER!"
E ele se sentiu afundando, naquela água gelada e escura, morrendo, se juntando àqueles corpos, tornando-se um Inferi, e aquilo não parecia absurdo para ele, de forma alguma. Era o melhor a fazer, era a única coisa a fazer, aliás. Por ter destruído sua família, por querer matar Sirius, por ser doente.
Regulus não estava apenas se matando, mas matando Lord Voldemort.
Então, leitores corajosos que chegaram até aqui... mande-me um review pra dizer se está bom ou ruim, hein? :D
