Capítulo Dois – Paixão
HOGWARTS, NOVEMBRO DE 1996
Não tinham muitas aulas juntos e as que tinham, Daphne ficava colada em Tracey e ele em Dean. Olhares furtivos e esbarrões propositais, ele tentava de tudo para se aproximar, mas a única aproximação concreta aconteceu na aula de Herbologia, quando uma vagem de arapucoso pulou de sua mão para a testa da garota. Seamus quis morrer naquele instante.
"MÉRLIN! Desculpe-me, Daphne, me desculpe", ele apanhou a vagem enquanto ela limpava o rosto.
"Tudo bem, tudo bem...", ela respondeu suspirando. A única chance de se aproximar de Daphne e ele tinha desperdiçado.
Desde aquele incidente na aula, tentou se afastar da garota, por vergonha. Sentia que estava brincando com fogo. Ela era sempre tão fina e educada, e ele sempre atrapalhado. Ela merecia alguém como Zabini, embora este terminara com a garota e já não mais ligava para ela.
Nas outras aulas se manteve distante, assim como nos corredores, na biblioteca, no pátio, em todos os lugares. Observar a beleza da garota à distância o dava uma sensação de incompletude, e ao mesmo tempo o desesperava. Tudo girava em torno dela agora, e o sentimento crescera em algumas semanas.
Sonhava com ela quando dormia, pensava nela nas aulas, queria ela no café-da-manhã, desejava seus lábios no intervalo. Daphne e seus olhos azuis e seu cabelo loiro; a ninfa que o perturbava. O abismo entre eles aumentava a cada dia.
Era dia de jogo, as Casas se enfrentando. Eles se enfrentando.
Absorto em pensar nela, não reparou que ela estava se sentando a menos de um metro dele. Tão próxima e tão distante. Depois de três maus momentos, ela não olharia na sua cara, não falaria com ele. Talvez não fosse mesmo pra acontecer nada.
"Oi", ela disse olhando para ele.
Ela falou comigo. Depois de tudo, ela falou comigo.
Comigo, Seamus. Daphne.
"Oi", respondeu tendo que controlar as palavras. Queria se declarar naquele momento, queria beijá-la sem ligar pra opinião de ninguém. Contudo, mais de cem pessoas estavam no caminho, e mais de cinco séculos de rivalidade entre Casas estavam entre eles, e Seamus, que sempre fora tão seguro de si, não soube o que fazer. Mais uma vez.
"Quero ela, Dean!"
"O quê?"
"Quero ela, ela, Daphne, agora!"
"Vai atrás dela, cara!", o amigo apontou a garota que agora descia as arquibancadas, provavelmente entediada por ver sua Casa perder novamente. Daphne não podia escapar, e ele correria atrás dela como Apolo, esperando um final mais feliz do que a história original.¹
Seria um jogo animado. Mesmo tendo que ouvir o choramingo de Astie porque Draco não ia jogar, seria interessante ver Potter como capitão. Não tinha nada contra ele na verdade se recusou a participar da Brigada Inquisitorial, porque odiava qualquer tipo de censura.
Achava Potter bem corajoso, aliás, e chegava a ter uma pontadinha de admiração por isso. Gostava de perceber as características das Casas em seus alunos. Gostava de imaginar que Seamus tinha o tal cavalheirismo que o Chapéu Seletor falara em um de seus discursos.
Para a partida, Daphne tinha pintado listras verde e cinza nas bochechas dela e da irmã. Estavam devidamente vestidas com as cores da casa, e cheias de expectativa. Para falar a verdade, não botava muita fé no time, sabia que Potter tinha um time bem melhor, mas ela gostava de ver as manobras, os lances, a paixão dos jogadores e torcedores.
Sentaram-se no limite da arquibancada sonserina, os únicos lugares restantes àquela hora, uma vez que as irmãs já estavam bem atrasadas. Contudo, de lá tinham uma boa visão do campo. Daphne achava divertida a forma de torcer da Grifinória, com seus chapéus e pompons, muito menos sóbria do que a Sonserina. E no meio daqueles chapéus engraçados estava Seamus Finnigan.
Estava do lado dela, menos de um metro de distância, mas havia uma barreira invisível entre eles. Invisível para os outros, mas óbvia para ela. Assim que ele notou a presença dela, olhou assustado como se nunca tivesse conversado com a garota. Seamus tinha medo dela.
"Oi", disse tentando parecer mais amigável.
"Oi", respondeu ele ainda desconcertado.
Havia toda uma rivalidade de séculos entre eles expressa nas cores que usavam, na Casa em que pertenciam, mas que não devia ser deles. Daphne queria acreditar que ele não a odiava, embora lançasse a ela olhares arredios e assustados. Queria estar do lado de lá, de mãos dadas com ele. Queria ser de outra família, de outra criação, com outras tradições. Mas aquela não seria ela.
O placar, como sempre, estava favorável à Grifinória, e Daphne sabia que não ia mudar, e não estava disposta a enfrentar o tumulto do fim da partida. Como Astoria não quis acompanhá-la, ela foi descendo sozinha a arquibancada, entre gritos e empurrões, já sem o ânimo do começo da partida. Então, alguém a segurou pelo braço, dizendo, "Espera aí". Ele usava vestes vermelhas e douradas, e o cabelo cor de palha combinava com as sardas do rosto.
Seamus Finnigan.
"Vai embora?"
"Ah... é... não, não...", ela estava gaguejando, e isso era tão ridículo...
"Quer dar uma volta por aí?", perguntou ele hesitante.
Dar uma volta com ele, sozinhos, ninguém ao redor.
"Eu... quero!".
E o sorriso surgiu sem que ela pudesse conter. Sentia-se leve, como se fosse feita de borboletas, e o sol parecia brilhar mais do que nunca. Lado a lado, escaparam do campo cheio, rumo aos pátios de Hogwarts.
"Estamos fazendo algo certo, Seamus? Quer dizer..."
"Estamos, Daphne", disse ele.
Audacioso aquele grifinório, ela pensou. Assim que se sentaram à beira do lago, todo o assunto do mundo pareceu sumir, e Seamus ficou mudo.
"S-seamus?", ela estava nervosa, o coração pulava do peito.
"Sim?"
"Eu... eu rio alto demais. Eu não gosto de verde, embora minha mãe me obrigue a comprar roupas dessa cor. Eu já cumpri várias detenções, principalmente por falar alto na biblioteca. Eu gosto de Herbologia, odeio Poções...", dizia a garota rapidamente, para que o rapaz pudesse desisitir a tempo.
"Daphne?"
"Han?"
O beijo começou doce, delicado, a mão dele segurando o rosto dela, com delicadeza, com firmeza. Ela reconheceu o perfume dele como o terceiro elemento, que ela não pode identificar na hora, que emanava do caldeirão com Amortentia, na aula de Poções com Slughorn. Então, o beijo foi ficando mais atrevido, combustivo, apaixonado. Era a timidez se dissipando. Ao fundo, a voz de Zacharias Smith ecoou do campo.
"GRIFINÓRIA VENCE!"
"Hoje eu vou dar uma festa na sala comunal, Daphne!", Seamus comentou baixinho, com os lábios colados nos dela.
"Porque ganharam de novo"
"Não... porque eu tenho você". Daphne se sentiu queimando como aquele caderno, tempos atrás...
¹ WIKIPEDIA: Apolo foi induzido a ser apaixonar por Dafne com uma flecha de Eros. Este mesmo acertou Dafne com uma flecha de chumbo, que fez a ninfa rejeitar um amor de Apolo. Apolo, porém, começou a persegui-la. Cansada de fugir, pediu ao pai que a livrasse da situação. Ele, então, a transformou em loureiro.
E aí, minha brava gente? Mereço reviews? *lança veela powers*
