Capítulo Quatro – Perda: Parte II

HOGWARTS, JUNHO DE 1997

Estavam sentados à beira do lago depois do almoço. Fazia sol e muitos alunos se refrescavam debaixo das sombras das árvores, e era exatamente o que Seamus e Daphne estavam fazendo. Ele estava absorto numa lista dificílima de exercícios, enquanto a namorada, deitada na grama, protegia os olhos azuis da claridade solar, observando o céu.

"Você também sente isso, Seamus?", perguntou de repente.

"Sinto o que?", respondeu ele sem tirar os olhos da lista.

"Esse clima estranho", Daphne comentou sombriamente.

O garoto então olhou para ela, estranhando, mas achando alguma graça.

"Como assim, estranho, Daph? Olha, estão todos felizes. É verão, o ano letivo está acabando...".

Mas a garota não parecia compartilhar o mesmo otimismo.

"Não sei explicar, Seamus", ela se aproximou dele e encostou a cabeça em seu ombro.

"Ainda está tudo difícil na Sonserina?", Seamus colocou a lista de lado e começou a acariciar os cabelos dourados de Daphne.

"Não ligo muito para eles. Tracey tem sido uma grande amiga e tudo, mas... o problema é Astoria". Quando a garota quis fungar, Seamus apertou o abraço.

"Um dia ela vai entender, Daphne".

Um grupo maciço de garotas apareceu, cochichando e apontando para o lado direito deles. Numa árvore próxima, Harry Potter e Ginny Weasley estavam abraçados e com os rostos muito próximos.

"Não sabia que eles estavam juntos", comentou Daphne despreocupada.

"É recente, foi depois da competição de quadribol"

Era bom ter um casal como aquele na escola, porque desviava bastante a atenção. Muitos colegas que olhavam feio para Seamus ou Daphne preferiram comentar sobre o romance d'O Menino-Que-Sobreviveu.

O único que parecia pensar apenas neles era Zabini. Seamus não deixava a namorada sozinha um minuto sequer, e quando não podia estar perto, ficava com o coração na mão. Não tinha mais medo de perdê-la, mas sabia que de algum modo o rapaz sonserino era uma ameaça.

"Zabini me deu uma trombada ontem", ele tentou manter o tom descontraído, mas sem sucesso. Queria, precisava conversar sobre aquele pequeno assunto com Daphne, estava engasgado de raiva.

"Ele é um idiota, Seamus, já sei", retrucou ela aborrecida.

"Ele me disse...", mas Seamus não conseguiu terminar a frase perante o olhar inquisitorial da namorada.

"Ele disse o que, Seamus?"

"Ele disse que você e eu não nos veríamos porque você estaria na casa dele no verão...", mas antes que a garota protestasse, ele continuou, "sei que é mentira, Daph, mas eu quero saber, você já passou férias na casa dele?"

"Claro que NÃO! Caramba, Seamus, eu não entendo ele, que fica mentindo pra atrapalhar a gente, depois do fora que ele me deu, e não entendo você, que fica acreditando nele!", disse a garota se afastando, mas Seamus a puxou de volta.

"Não acreditei nele. Mas daqui a pouco ele vai tomar um soco"

Daphne riu, pondo o rosto do namorado entre as mãos. Não ria dele, obviamente, era um riso terno, compreensivo.

"Se isso não te tirar pontos, querido, eu adoraria que o fizesse".


O dia foi passando devagar. O céu foi ficando nublado e o ar mais abafado. O mormaço causava um mal estar externo, mas por dentro, Daphne estava bem pior. Quis deitar na grama com Seamus, quis dar um tapa na cara de Pansy, quis abraçar Tracey, quis gritar. Sentia os olhares cortantes dos grifinórios ao redor: ela não era de confiança. Mas também não era mais um exemplo na Sonserina.

Professor Dumbledore, pode criar uma quinta Casa dos deslocados?

Mas antes de cogitar fazer essa pergunta, uma notícia caiu como uma bomba por toda Hogwarts.

"E o Draco, você soube? Parece que estava no meio dos Comensais...", comentou Pansy assustada.

"O quê?", perguntou Daphne completamente aterrorizada.

"Ele se gabou tanto no começo do ano letivo, disse que não ficaria mais em Hogwarts... Blaise duvidou, mas ele estava lá, com os Comensais da Morte!", Pansy disse com a voz esganiçada.

Alunos corriam de um lado para outro de pijama, sem saberem o que fazer, e Daphne buscava a irmã. Astoria estava encolhida em um sofá, agarrada a uma gravata como se rezasse. Daphne reconheceu como uma peça de roupa que Draco tinha emprestado à sua irmã três anos antes, quando a dela rasgara; foi o começo da paixonite.

"Astie, vamos dar o fora daqui...", mas a irmã se recusou a encostar nela.

"Draco não é um assassino. Ele não faria isso. Estou do lado dele", disse febril.

Ficaram, então, sentadas no salão comunal, à espera de notícias. Foi Theodore quem apareceu com a pior notícia que poderia vir.

"É o que estão dizendo pelo castelo. Comensais entraram em Hogwarts, atacaram aurores e professores, e... Snape matou Dumbledore". Tamanho horror pareceu não penetrar na cabeça de Astoria.

"E Draco?", Astoria perguntou aflita.

"Draco fugiu com os outros", respondeu Theo. "Dumbledore está morto. O que vai ser dessa escola?"

Daphne só encontrou Seamus no dia seguinte, enquanto ele gritava no saguão de entrada de Hogwarts com uma mulher muito parecida com ele, vestida de roupa de viagem. Ela não precisou pensar muito para entender que se tratava da mãe dele, sua sogra.

Seamus gritava que queria ficar para os funerais de Dumbledore, e sua mãe dizia que talvez ela não tivesse onde ficar e que eles deveriam sair do país. Sabia o porquê do medo da bruxa: seu filho era mestiço. Embora o trouxa Sr. Finnigan já tivesse morrido, Seamus ainda seria perseguido.

Não quis se aproximar deles, não era o momento. Seus pais, os dois de sangue puro, também estavam com medo pelas filhas, e não eram os únicos. As gêmeas Patil, também de sangue puro, tinham acabado de ir embora, entre outros colegas que recebiam muitas cartas dos familiares preocupados.

"Daphne!", ela ouviu Seamus chamar em voz alta. Só então a garota tomou coragem de se aproximar, tomando o cuidado de manter um sorriso simpático, mas não muito feliz, já que o clima não era propício para felicidade. A mulher a olhou com profunda curiosidade.

"Mamãe, esta é Daphne Greengrass, minha namorada"

Minha namorada, ela fez questão de repetir mentalmente.

"Esta é minha mãe, Jasmine". Apertou a mão da senhora, e percebeu que a mulher estava ansiosa, mas não por causa da namorada do filho.

"Muito prazer", disse ela.

"Gostaria que tivéssemos nos conhecido numa situação mais agradável", e Daphne concordou com a cabeça. Era um alivio saber que fora aceita.


E aí, gente? *_*