Capítulo Cinco – Esperança
1997 ~ 1998
Arrumava o malão mais uma vez, mas agora com menos coisas dentro. Era seu último ano em Hogwarts e, embora sua mãe não quisesse que ele fosse, Seamus estava pronto para o que viesse. Sabia da preocupação dela: com Snape na direção e dois Comensais como professores, um rapaz mestiço como ele corria perigo. Mas ele era maior de idade e muito mais preparado do que imaginavam, afinal, ele tinha aprendido algo nos meses de treino da Armada de Dumbledore.
Ele tinha medo sim, mas não por ele, mas pelas pessoas ao seu redor. A carta que Dean tinha lhe mandado ainda estava aberta sob a cômoda. O rapaz não podia brincar com fogo, era nascido-trouxa, com pai, mãe e irmãs para proteger, mas ele tinha outros planos: iria fugir, perto da família, eles seriam pegos. Seamus não sabia o que responder, apenas disse faça o que achar melhor, amigo, e desejou o melhor para Dean.
E havia Daphne, é claro. Ela nada devia temer: sendo sangue-puro e com uma família que não tinha nenhum problema, não havia razões para os Greengrass serem perseguidos; mas Daphne namorava um mestiço. Tentou, por algumas vezes, convencê-la a se afastarem, mas nem ele mesmo conseguiria. Daphne tinha se tornado parte dele, e não havia chance de lutar contra isso.
Seamus não tinha certeza se os pais dela saberiam de sua existência, mas ele não se importava, era melhor assim. Astoria sim, ela sabia e não gostava nem um pouco. Talvez ela tivesse razão. Se Daphne namorasse alguém puro e influente poderia voltar para Hogwarts sem qualquer medo de represália, e ele se sentiria mais tranqüilo. E então, pensando em protegê-la, pegou um pedaço de pergaminho e pôs-se a escrever uma longa carta à Daphne.
Tentava, mais uma vez, convencê-la a fingirem não estarem mais juntos, principalmente perto daqueles Comensais que viraram professores. Não era um fim, nenhum deles queria isso, era apenas uma proteção. Estaremos juntos ainda, querida, mas os Carrow não precisam saber, escreveu ele na carta. Temia a reação dela, porque depois de tantas tentativas, talvez ela pensasse que ele queria terminar com ela, o que não era o caso.
Mandou a carta esperando resposta, mas ela demorou a chegar. Depois de uma semana, Seamus acordou com a resposta deixada por sua coruja sob a cômoda.
"Está bem, vamos fazer isso. Mas continuarei do seu lado", ela dizia.
Seamus escondeu o rosto nas mãos, ele não agüentava pensar em Daphne. Ele sabia, desde o começo, que não seria fácil, mas uma coisa era agüentar brincadeiras maldosas de Parkinson ou o olhar torto de alguns grifinórios. Uma guerra entre eles era bem diferente.
Hogwarts. Era a primeira vez que estava no trem sem Dean, sem conversas sobre futebol e partidas de snap explosivo. Era difícil, mas compreendia o amigo – era perigo demais para os Thomas. E Daphne? O que ela estaria fazendo, no vagão dos sonserinos? Será que estava bem? Será que estava segura?
"Seamus?" Era Neville, que se juntava a ele na cabine. "Não tinha visto você aí. Dean... ele não vem esse ano, não é?", perguntou o colega, sem jeito. Seamus negou com a cabeça, não se sentindo muito bem. Uma tonteira, um enjôo, uma vontade de gritar, uma vontade de Daphne... "Você está bem, cara?", perguntou Neville.
"Não, não to nada bem. Não sei se vou ficar... mas tentarei", respondeu Seamus.
"Harry, Ron e Hermione também não vieram", o amigo comentou, "Você acha que eles fugiram?"
"Ouvi que Ron pegou sarapintose, Hermione é nascida-trouxa e Harry... bem..."
"Acho que estão juntos, mas não fugindo, planejando algo"
Seamus não queria se apoiar nisso, embora fosse uma idéia reconfortante.
Aquele não seria um ano fácil mesmo. Os professores agora deveriam entregar os alunos que não se comportavam para os Comensais Amicus e Aleto Carrow, muito piores do que Umbridge. A raiva de ouvir xingamentos aos trouxas cegou Seamus na primeira semana. Não deveria ter provocado Amicus Carrow, mas já o tinha feito. Lá estava Seamus, acorrentado a uma cadeira na sala do Comensal em Hogwarts, os cabelos sendo violentamente puxados para trás.
"Então você é mestiço, hã? Logo imaginei... só alguém com sangue sujo poderia ser tão imbecil!", e dizendo isso, Carrow deu um violento soco na barriga de Seamus. Torturasse o quanto quisesse, ele estaria pronto. Harry Potter poderia estar fugindo (e ele não o culparia por isso), mas ele estava lá, firme. Estaria pronto para lutar quando os aliados da Ordem, aurores e a A.D. se juntassem contra a nova ordem estabelecida.
Assim que foi liberado por Carrow, Seamus se dirigiu ao dormitório, sem pressa. Neville o aguardava no salão comunal, uma garrafinha de ditamno nas mãos. "Isso pode ajudar, Seamus...". Enquanto a essência fazia efeito, o garoto se olhava no espelho. Teria que ir à enfermaria para Madame Pomfrey pôr de volta o dente perdido no espancamento, e seu rosto estava um pouco inchado. Era impossível não pensar em Daphne. O que ela acharia de vê-lo daquele jeito?
"Você vai ficar bem. Temos que lutar", disse Neville, dando um tapinha em suas costas doloridas.
Seamus concordou com a cabeça, fraco demais. Amanhã era mais um dia.
Foi sofrido passar a viagem toda, desde King's Cross, sem vê-lo, trancada no vagão da Sonserina. Pansy, embora um pouco abalada pela falta de Malfoy, tentava organizar uma segunda Brigada Inquisitorial, e já tinha ganhado o apoio incondicional de Crabbe. Goyle estava um pouco indeciso, Millicent se recusava por ser mestiça e já sofria a represália da colega. Theodore manteve sua posição neutra e tentava proteger também à Tracey, então Pansy buscou apoio nos colegas de sangue puro restante: Daphne e Blaise.
"Espero que você saiba qual é o lado certo, Greengrass", Pansy falou mansamente.
"Sei bem, Parkinson", respondeu Daphne com nojo.
Blaise se mostrava muito favorável a qualquer projeto de Pansy, mas não porque visava eliminar os mestiços ou nascidos-trouxa, mas porque eliminaria Seamus.
"Você sabe que seu namoradinho já era, não? Não vai durar muito em Hogwarts com os Carrow", disse Blaise tentando encostar Daphne na parede do vagão. Olhando assim de perto, ela achava as feições dele, outrora tão atraentes, doentias. Os olhos rasgados do colega eram frios, e da boca de dentes muito brancos, escorria veneno. Cobra.
"E você acha que eu vou voltar correndo pra você, não é?", a garota deu uma gargalhada forçada e empurrou o rapaz para longe. "Pois se enganou!"
A primeira semana de aula já deu uma demonstração do que seriam os meses seguintes. Não teriam Defesa Contra as Artes das Trevas, apenas Artes das Trevas, não aprenderiam a salvar e a proteger, mas a torturar. A escola tinha se tornado um internato de assassinos, uma inquisição medieval bruxa. Questionar os professores novos era pedir para apanhar, no mínimo. Viu Neville Longbottom perguntar qual a porcentagem de sangue trouxa de Alecto e sentiu pena por um momento; depois o sentimento se transformou em admiração. Eram pessoas como ele que derrotariam Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado e seus comparsas.
Harry Potter e seus melhores amigos não estavam na escola, mas Daphne sabia que, por debaixo dos panos, a Armada de Dumbledore iria se reorganizar e lutar contra a nova ordem da escola, e tinha certeza que Seamus estaria nessa. Daphne não poderia se juntar a ele, porque os colegas de A.D. não a olhariam com bons olhos, aliás, nunca olharam. Ela sentia o olhar gelado de Brown e de Patil quando passam por ela: as melhores amigas de Seamus não pareciam achá-la boa o suficiente.
Era muito bom quando sua única preocupação era se Lavender Brown a achava boa o suficiente para namorara o amigo. Agora parecia que ninguém a achava boa, ela era mais um aluno entre as dezenas, alguém não confiável, uma traidora, uma porção de coisas que ela nunca quis ser. Daphne tirava suas forças de Seamus, cada vez mais corajoso, do amor que seu sorriso confiante emanava e da tranqüilidade de ficar em seus braços, mesmo que por cinco minutos. O tempo que eles antes tinham de sobra, agora era escasso. Quando podiam se encontrar longe de perigo, Seamus fazia questão de lembrar que não podiam demorar – ele não queria que ela sofresse o que ele sofria.
Ao fim da primeira semana de aula Daphne pode encarar a realidade assustadora a que seu namorado tanto se referia.
Era uma manhã estranha. Na noite anterior, Seamus não fora ao encontro que tinham planejado e também não deu qualquer desculpa. Daphne sabia que não tinha sido por mal, e por isso mesmo estava aflita. Alguma coisa muito errada tinha acontecido. A certeza veio quando seu olhar angustiado encontrou o de Lavender Brown. A garota da mesa grifinória retribuiu o olhar lacrimejando, como se tentasse dizer mudamente que o que Daphne pensava era verdade. Não, não, ele não foi pego, implorava ela.
Repetindo esse mantra, foi em direção à sala onde teria a primeira aula do dia, mas foi interceptada pela irmã.
"Você já sabe, Daph?", perguntou Astoria, puxando a irmã pelas vestes.
"O que, Astie?", Daphne já estava impaciente. Não tinha visto Seamus o dia inteiro.
"Seu namoradinho apanhou do Carrow ontem. Muito", sublinhou Astoria. A irmã mais velha ofegou, apoiou-se na parede, assustada.
Já tinha idéia de que aquilo iria acontecer, mas rezava contra. Era uma grande loucura ele continuar em Hogwarts. Deu meia-volta e foi para a enfermaria, esbarrando em muitos alunos, que ela mal via. Madame Pomfrey foi compreensiva, achava a tortura de alunos um grande absurdo e indicou a maca onde Seamus se encontrava. Ele dormia, um grande roxo em seu olho e um vidro de PROCURAR ao seu lado. Daphne teve medo de acordá-lo, mas Seamus já tinha aberto os olhos.
"Daphne!", sua voz estava engrolada. "Você devia estar na aula".
"Você apanhou muito, Sea! Quem fez isso com você?", ela segurava sua mão junto ao peito.
"Amicus Carrow, é claro", ele respondeu virando os olhos.
"Isso é loucura, Seamus, volta pra sua casa...", ela pediu, lágrimas caindo em seu colo.
"Ele não vai me deter, Daphne. Vamos vencer, por Harry Potter, por meu pai, por todos os trouxas e mestiços, por um mundo onde possamos ficar juntos. Escreva isso".
Muito sofrido, pessoal? O próximo capítulo é o último e é mais longo... REVIEWS, PEOPLE! (:
