Pelo Bem Maior
Você não entendia nada sobre futebol, mas assistia com meu irmão todos os jogos do West Ham. Eu achava engraçado, você sempre foi diferente – mas acho que só hoje eu posso imaginar o quanto.
O envelope entreaberto sobre a nossa mesa, e eu não sei o que dizer para nosso filho. Claro que eles enviaram alguém para explicar tudo, mas ele tem perguntas que eu não sei responder – ou temo estar respondendo com mentiras. O que você era, afinal? E por que desapareceu?
Meus dedos passam pelo selo partido, pelos desenhos intrincados, e os olhos negros de nossa criança me observam atentamente, enquanto as palavras me faltam – enquanto você nos falta para explicar tudo isso.
Ou talvez eu esteja realmente sendo lunática em pensar que você sabia de alguma coisa, talvez você realmente tenha simplesmente cansado e dito que compraria o jornal, para nunca mais voltar. Quanto mais eu penso, menos eu sei, e pergunto se algum dia eu te conheci.
Lembro daquela última manhã, e você com Dean correndo em volta de você enquanto tentava chutar a bola nova, que você tinha trazido na noite anterior. Mal tinha um ano, mas o fanatismo do meu irmão te contagiava, e consequentemente, a ele. Ele te amava tanto, e você nunca soube, que quando você foi embora, ele dormiu abraçado com ela por anos, como se te esperando voltar, enquanto as cores se esvaeciam e o pano enchia-se de bolinhas. Faz só dois anos que ele desistiu de você e a atirou no lixo.
Eu, infelizmente, não desisti. É como algo que nunca acabou realmente, apesar de minha vida ter seguido em frente. Eu casei, e tive outros filhos, mas nunca parei de me perguntar o que aconteceu com você.
Já não sei se esta carta é uma nova pista ou uma enganação. Seria você um bruxo? E teria ido embora porque não sabia como me contar? Será que pensava que eu não acreditaria, ou que meu amor não seria o suficiente?
Eu só tenho perguntas, e nenhuma resposta. Dean as quer, mas o que eu poderia dizer? A verdade é que eu nunca soube nada a seu respeito, você apenas surgiu na minha vida um dia, e desapareceu em outro, enquanto eu acreditava que tudo estava bem. Quando eu nunca antes tinha sido mais feliz.
Olho para nosso filho, e sua camisa já velha do West Ham, e digo a única coisa que posso:
"Eu nunca imaginei que existiam bruxos ainda!"
Mais uma noite em claro.
Não é uma decisão fácil, ele não gosta de mentir, mas a ama demais para envolvê-la em todos os perigos que cercam o mundo mágico. Não seria seguro, e não havia melhor esconderijo do que fingir-se de trouxa (todas aquelas aulas tinham ajudado em algo!) e mantê-la na ignorância. Isso certamente garantiria a segurança dela – e a do pequeno Dean.
Ao mesmo tempo, sentia-se mal por não lutar enquanto tantos de seus amigos sofriam, perdiam, morriam, vertiam sangue por uma causa nobre – mas não, tinha aprendido em casa a importância de não se intrometer. Tinha orgulho de seu sangue, não por ser mágico e puro, mas por vir de uma família decente, que tinha ensinado-o como escapar das pequenas malicias da sociedade mágica.
Só não tinham previsto algo em tão grande escala.
Respirou fundo, sabendo que não poderia se esconder assim por muito tempo. Levantou com cuidado, pouco antes do amanhecer. Sua esposa se remexeu, e sussurrou que iria comprar o jornal, antes de beijá-la na testa ternamente.
Tenta segurar as lágrimas, para que não caiam, mas ao ver Dean em seu berço, é inevitável não chorar. Gostaria que houvesse outro jeito, mas não conseguia achar outra solução. Abaixou-se, beijando levemente a cabeça do garoto, que nem se mexeu. Pegou do chão a bola nova, colorida, e os gizos fizeram um barulho suave conforme a deixava dentro do berço, perto da criança, para que ele soubesse – com alguma parte de sua mente, que o amava acima de tudo, que era por ele que fazia tal sacrifício. Pelo seu futuro, por suas chances.
Virou as costas, sabendo que em breve sua força de vontade vacilaria. Desceu as escadas, as lágrimas rolando pelo rosto, e fechou a porta com uma delicadeza impar, respirando profundamente o ar da madrugada londrina.
Um dia depois, estava morto.
Nunca soube por quanto tempo seu filho abraçara a bola durante todas as noites, esperando que voltasse.
