The Last Hiding Place
A noite era gelada, a neve grudava em sua pele, seus cabelos, tirava as forças de suas pernas, mas Mérope se forçava a continuar. Haviam lhe dito que havia um lugar, um pouco mais a frente, e ela se arrastava, vestida em farrapos. Tinha abandonado seu pai, seu irmão. Seu belo Tom a abandonara. Não tinha nada, não tinha ninguém, mas a dor nas costas era insuportável, e ela finalmente aceitava procurar abrigo.
Quem abriu a porta foi uma jovem senhora. Muito respeitável, bem vestida, e não pareceu surpresa que na noite de 31 de dezembro uma mulher grávida estivesse vagando pelas ruas de Londres.
"Pobrezinha, pode entrar, vamos, coma alguma coisa quente". A mulher cheirava a gim, certamente estivera celebrando. Não havia mais quase nenhum barulho, exceto pelo burburinho das crianças maiores, indo para suas camas. Uma menina apareceu logo depois, com um sorriso no rosto marcado pela doença e um chá da mesma cor que seus cabelos amarelo-palha.
"Eu sou Mary" falou, animadamente, mas Mérope não tinha forças para responder. Apenas tomou tudo de uma vez só, e colocou a mão nas costas doloridas.
"Está doendo?" perguntou a mulher mais velha, com um ar conhecedor.
"Há horas" respondeu, balançando a cabeça em desolação. "Mas eu estou acostumada a dor."
"Tenho certeza disso" replicou a outra, em um murmúrio. "Chame Anne, Mary, nossa nova hóspede vai precisar da ajuda dela antes do fim da noite."
A mulher deu um tapinha leve na mão da grávida, e falou, sua voz preocupada.
"Tome mais um pouco de chá, você precisa se aquecer." E então, em um tom mais confiante: "Não se preocupe, querida, vai dar tudo certo."
E, pela primeira vez, Mérope soube o que era ser cuidada.
(Teria doído saber que aquele conforto foi o pesadelo de Ms. Cole por mais de uma década, amaldiçoando o momento em que acolhera a mãe de uma criança tão estranha e problemática.)
