I can take the rain on the roof of this empty house,
(Eu posso suportar a chuva no teto dessa casa vazia,)
That don't bother me.
(Isso não me incomoda.)
I can take a few tears now and then and just let them out.
(Eu posso suportar algumas lágrimas de vez em quando e apenas deixá-las rolar.)
I'm not afraid to cry.
(Não tenho medo de chorar.)
Jared pelo menos agora não reclamava do calor. O frio, apesar de deixar Paris incrível naquela época do ano, sequer importava para o moreno alto que agora passava pelo desembarque do aeroporto apenas com uma mochila nas costas. Ele vestia um pesado sobretudo preto, jeans e uma touca cobrindo os cabelos mais longos que há seis meses atrás.
Ele checou o endereço que tinha em mãos. Pertencia ao apartamento de Lobo, onde Jared já sabia que Jensen estaria. No momento em que ele tirou os olhos do papel e voltou a olhar pra frente, sentiu seu coração bater na garganta e ele perder a capacidade de andar.
Os três rostos conhecidos haviam parado a sua frente impedindo que ele continuasse a andar. Ele ficou confuso, sem entender como sabiam que ele estava ali. Ele não disse nada, não sabia nem o que dizer na verdade.
- Não posso dizer que é um prazer vê-lo. – Chad foi quem começou, dando um passo na direção de Jared, ficando mais perto do ex-agente.
- Como vocês...?
- Eu sei que pensou que éramos idiotas. – Chad interrompeu a prevista pergunta de Jared. – Mas a partir de agora estamos um passo a sua frente.
- Eu não estou mais no FBI. – Ele disse convicto, tentando passar credibilidade.
- Nós sabemos. – Katie respondeu. – Óbvio que estivemos a par de todos os seus passos.
- Eu não quero nada com vocês... – Jared falou mais baixo dessa vez, como se pedisse calma.
- Sabemos o que você quer também. – Foi a vez de Beaver intrometer-se na conversa e posicionou-se ao lado de Jared e começou a puxá-lo discretamente pelo braço.
- Olha, eu não quero problemas... – Jared estava começando a ficar com certo pânico de tudo aquilo. – Eu só quero falar...
- É pra onde estamos te levando. – Chad disse enquanto ajudava a 'escoltar' Jared para fora do aeroporto e fazendo-o entrar dentro do sedan preto.
Beaver entrou, em seguida Jared e Chad, deixando o moreno alto entre os dois no banco de trás do carro. Katie acomodou-se no banco da frente ao lado de Cliff, dando ordem ao motorista que seguisse para casa.
Jared estava completamente apavorado àquela altura. Chegou a se arrepender por um segundo de ter ido, simplesmente porque não havia pensado na possibilidade da 'gangue' de Ackles estar seguindo seus passos. Que coisa de amador, Jared. Como podia ter esquecido desse detalhe? Ele bronqueava consigo mesmo em pensamento.
- Onde está o Jensen? – Ele perguntou receoso.
- Você sabe muito bem onde ele está. – Chad respondeu seco, sem encarar o moreno, apenas continuando a apreciar as luzes da caída da noite parisiense.
- Então... Ele sabe que estou aqui? – Jared perguntou olhando Beaver, que não lhe respondeu. Olhou Chad em busca de uma confirmação, e apenas o silêncio em resposta, o que já era suficiente para confirmar o que ele queria saber.
É, parecia que ninguém queria conversar muito.
- X -
Every once in a while even though goin on with you gone still upsets me
(De vez em quando, apesar de que continuar sem você me chateia)
There are days
(Há alguns dias)
Every now and again I pretend I'm okay but that's not what gets me
(Que eu finjo estar bem, mas não é isso que me intriga)
Jensen sentia todas aquelas emoções voltarem. Aquela breve ilusão de que Jared fazia parte do seu passado, realmente agora era de fato uma ilusão completa. Ele andou pelo quarto vestindo-se após o banho, e continuava extremamente tenso. Agora mais do que nunca.
Jared entraria por aquela porta a qualquer minuto e ele não tinha nem a mais vaga noção do que fazer, dizer ou pensar. A única coisa em que ele sentia mais medo era de desabar e parecer flexível, fácil e acessível àquele homem que o havia feito se entregar de uma forma tão intensa e depois o apunhalara pelas costas.
Ele vestia uma camisa azul e uma calça social preta e já se dirigia para a sala. Tentou encarar aquilo de todas as formas. Reunião de negócios, encontro com um cliente, trabalho... Mas cada opção parecia ser a mais absurda possível.
Ele encarava a janela do alto do apartamento com as mãos nos bolsos, tentando se acalmar. Respirava fundo, tentava pensar em outras coisas... A garrafa de whisky pareceu de repente bastante tentadora. Ele serviu-se de uma dose e bebeu num gole, repetindo o ato por duas vezes. Ele sentiu a bebida descer cortando na garganta e esquentando seu peito.
A porta da sala se abriu revelando um Jim Beaver ligeiramente apreensivo.
- Ele está no escritório. – Jim disse quando Jensen virou-se para encará-lo.
- Como... ele está? – Jensen sentia que seu coração saltaria do peito.
- Bem. – Beaver respondeu. – Corajoso. Decidido.
Jensen apenas acenou com a cabeça que havia entendido. Ele passou as mãos pelo rosto sentindo a barba áspera nas mãos. Deu uma última olhada para Beaver e tomou rumo do caminho do escritório.
Jared olhava ao redor das paredes frias e da mesa enorme. O escritório do apartamento não lembrava o da mansão. O cheiro de Jensen ao redor é que sim. Ele fechou os olhos e suspirou sentindo aquele cheiro ficar cada vez mais forte, presente. E não era apenas o perfume. Ela perfume... algo mais. Cheiro de Jensen.
O moreno tirou a touca de frio e passou uma das mãos pelos vastos cabelos castanhos, jogando-os para trás.
What hurts the most, was being so close
(O que mais machuca é estar tão perto)
And having so much to say
(E ter tanto pra dizer)
And watchin' you walk away
(E ver você indo embora)
- Seu cabelo está maior. – O loiro disse perto da porta, com ares de quem estava observando há um certo tempo.
Jared sentiu cara célula do seu corpo ser invadida por uma adrenalina nada comum, num nível que ele ainda havia desconhecido. Levou um tempo para ele ter coragem de virar de frente para Jensen. Não sabia o que esperar, mas definitivamente sabia o que queria. Não que Jensen estivesse muito diferente. Mas estava mais magro, menos prepotente e com toda certeza menos feliz.
- Sua barba também. – O moreno respondeu e Jensen passou uma das mãos pelo cavanhaque.
Ele atravessou o escritório passando por Jared sem encará-lo. Sutilmente fez sinal para que ele se sentasse na cadeira e frente a mesa enquanto ele deu a volta e sentou-se de frente para Jared.
- Então... – O loiro começou olhando para um Jared que recusou-se a sentar e o encarava pasmo. – O que você quer?
- Como é? – Jared perguntou olhando atônito para um Jensen frio. – "O que eu quero?''
- Você está aqui pra alguma coisa, não é? Apesar de Paris ser uma bela cidade, não acredito que esteja aqui a turismo. – Jensen era sarcástico.
- Ok. – Jared respirou fundo, tentando ser compreensivo. – Eu mereço isso, certo.
Jensen permaneceu sério com um leve ar debochado, pôs as mãos sob a mesa entrelaçando os dedos e ainda encarando Jared com certo desprezo.
- Não pensou em mim durante esse tempo? – Jared perguntou quase num sussurro.
Um Jensen Ackles furioso levantou-se dando um murro sob a mesa e encarando Jared como se conseguisse fuzilá-lo com o olhar.
- Não tem esse direito. – Jensen respondeu cheio de mágoa.
- Eu te...
- NÃO TEM ESSE DIREITO! – Ele gritou impedindo Jared de falar o que sentia. – Não tem o direito de me dizer isso.
- Perguntou o que vim fazer aqui, não foi? – Jared agora deixou toda ternura com a qual havia chegado de lado.
Ele deu a volta na mesa indo em direção a Jensen parando a menos de um palmo dele. O encarava com firmeza nos olhos enquanto o mais velho parecia extremamente surpreso.
- Eu vim aqui pegar o que é meu. – Jared disse ao mesmo tempo que segurou Jensen pelo colarinho. Milímetros da boca dele. Jensen que pareceu se perder por alguns breves segundos, retomou a razão e empurrou Jared pra longe dele.
- Não tem nada seu aqui! – Ele respondeu arrumando a camisa. Tentou disfarçar o quão perturbado ficou ao sentir o calor daquele corpo perto de novo, o cheiro...
Jared não se deu por vencido e voltou a se aproximar, segurando Jensen com mais força dessa vez. Jensen, que estava ainda mais surpreso com a afronta, não sentiu mais seu cérebro funcionar assim que seus lábios foram tocados pelos de Jared.
Never knowing what could have been
(Nunca saber o que poderíamos ser)
And not seein that lovin you
(E não ver que amar você)
Is what I was tryin to do
(Era o que eu estava tentando fazer)
A língua apressada do moreno alto já abriu caminho na boca de Jensen invadindo completamente, tomando conta e controlando o beijo que o mais velho inevitavelmente correspondeu. E tinha como não fazê-lo? Depois de desejar ter aquela boca como um verdadeiro maníaco viciado, ela estava ali, novamente colada na sua, sugando e mordendo seus lábios com agressividade. Era visível que ambos estavam cheios de saudades.
Jensen reviveu naquele beijo cada cena que passaram juntos. De se escritório na mansão até Nova York, até Miami e até seu quarto. Das vezes que aquele homem fora tão seu, das vezes que aquela cama parecia incendiar... Da vez em que ele, ajoelhado a seus pés, contou com uma arma apontada pra sua cabeça, quem era de verdade.
Jensen sentiu aquela raiva voltar a invadi-lo. Ele empurrou Jared novamente o encarando com mágoa. Ele limpou a boca num gesto de repugna. Jared apenas ofegava no mesmo ritmo de Jensen e, quando resolveu aproximar-se mais uma vez, sentiu o punho do loiro o atingir na mandíbula.
Ele cambaleou pro lado e sentiu o gosto de sangue. Ele passou uma das mãos pelo canto da boca onde o plasma vermelho escorria e encarou Jensen com o canto dos olhos, voltando a ficar na mesma posição de afronta. Jensen bufava e tinha o cenho franzido e segurou-se para não abraçá-lo.
O moreno sorriu de canto e ambos continuavam naquele diálogo de olhares. Jensen sabia exatamente o que Jared estava pensando e vice-versa.
Mais uma vez, o moreno segurou Jensen pelo colarinho e agora o prensou contra a mesa enorme, sentindo a respiração dele bater em seu rosto.
- Você pode me bater o quanto quiser. – Jared dizia entre dentes, sussurrando. – Pode me mandar embora, pode me empurrar pra longe de você, mas não pode dizer que não me ama...
- JARED! – Jensen gritou tentando se desfazer do Padalecki. Em vão, ele era muito maior e agora tinha a força de um tigre.
- Diga! Diz, caralho! – Jared permanecia com as mãos em cima de Jensen e agora colava seu peito ao dele. – Diz que você não me ama!
- Eu... Eu não te amo! – Jensen respondeu de um jeito marrento.
- Não espera que eu acredite, não é? Sabe que não pode mentir pra mim... – Jared dizia agora segurando o rosto do outro, impedindo-o de se afastar.
Jensen não conseguia mais pensar e parou de se debater. Jared obviamente percebeu a breve desistência do outro e voltou a mergulhar na boca dele. Jensen sentia o gosto de sangue na boca do outro e mesmo assim não conseguia afastá-lo.
Quando o moreno o sentiu mais calmo e rendido em seus braços, ele finalmente o soltou aos poucos, permanecendo com eu corpo colado ao dele. Eles estavam ofegantes e Jared sentiu pela primeira vez seu lábio arder pelo ferimento.
It's hard to deal with the pain of losing you everywhere I go
(É difícil lidar com a dor de perder você em qualquer lugar que eu vá)
But I'm doin it
(Mas estou conseguindo)
It's hard to force that smile when I see our old friends and I'm alone
(É difícil forçar um sorriso quando vejo nossos velhos amigos e estou sozinho)
Still harder gettin up, gettin dressed, livin with this regret
(É difícil levantar-se, vestir-se, viver com esse arrependimento)
- Você está certo... – Jensen recomeçou, falando baixo. – Eu te amo...
Jared respirou fundo e agora sentia seu peito se encher novamente. Ele acariciou o rosto de Jensen que, agora, passava as mãos pelos cabelos do mais novo, daquele jeito que ele costumava fazer.
- Nosso problema nunca foi falta de amor... – Jensen continuou com o olhar triste. – O problema é outro...
Jared afastou-se um pouco dele, a fim de procurar os olhos do outro, eu agora definitivamente estavam ainda mais tristes. O mais novo não sabia exatamente o que era, mas definitivamente não parecia bom.
- Então não existe problema, Jensen... – Ele disse baixinho, novamente mais perto do rosto dele.
- Eu não confio em você. Não confio no que diz sentir... – Jensen respondeu enquanto calmamente tirava as mãos de Jared de cima de si.
- Jensen...
- Não... – O loiro o interrompeu enquanto afastava-se dele. – Eu por um tempo achei que conseguiríamos, Jared... – Ele agora não conseguia mais olhar pra ele. Ele afastou-se da mesa e de Jared, continuando a andar até o meio do escritório.
Jared ficou parado. O preço que ele estava pagando pelo que fez era bem mais alto do que ele imaginava.
- Jen...
- Por favor, Jared, vá embora. – Ele interrompeu o moreno antes que mudasse de idéia. Ele disse a frase seca.
- Por que está me pedindo isso quando sei que não quer que eu vá? – Jared tinha claro desespero na voz.
- Você precisa Jared... – Jensen estava de costas e ainda sem coragem de encará-lo.
Jared percebeu que era o ponto final que ele precisava. Não o que ele queria, mas sua prioridade em ir a Paris era justamente essa: terminar com seu sofrimento. Deixar Jensen da forma que ele havia deixado, certamente doía bem mais. Coisas inacabadas dão a sensação de incerteza eterna, e nada poderia ser pior que aquilo.
But I know if I could do it over
(Mas eu sei que se pudesse refazer)
I would trade, give away all the words that I saved in my heart that i left unspoken
(Eu trocaria, daria todas as palavras que salvei no meu coração e não foram ditas)
Ele jogou novamente os cabelos pra trás, deu uma última olhada para Jensen, que permanecia de costas, mas Jared teve certeza de que ele estava chorando. Era aquilo, estava acabado. E agora ele não tinha que se conformar com um amor não correspondido, tinha que se conformar em abrir mão de um homem que nunca confiaria nele.
Ele pareceu demorar uma eternidade para seguir o caminho até a porta. Talvez ele tivesse a esperança de que Jensen voltasse atrás, mas nada foi dito. O silêncio era fúnebre. Os únicos sons que foram ouvidos foram o da porta se abrindo quando Jared passou e quando a fechou atrás de si.
O que fez muito barulho interno foi um Jensen caindo em choro e sentido-se quebrado por dentro. Aquilo havia sido muito pior que da primeira vez.
Jared seguiu pelo corredor até deixar o apartamento completamente. Jensen em seu escritório pensando seriamente em atentar contra a própria vida.
E Jim Beaver na sala ao lado ouvindo tudo.
Assim que Jared saiu, ele pegou o celular chamando alguém pela discagem automática.
- Preciso de um favor. – Ele começou assim que alguém atendeu. – Me encontre daqui uma hora perto do beco no Champs Élysées.
Foram as únicas palavras dele antes de desligar.
- Chad. – Ele chamou pelo loiro que estava com seu fiel computador na sala, enquanto se dirigia ao cômodo.
- E então? – Chad levantou-se rapidamente curioso quanto a conversa.
- Vá ver Jensen. – Beaver ordenou enquanto buscava Katie com os olhos pela sala. – E você... – Ele disse quando viu que a moça prestava atenção. – Preciso que me ajude numa coisa.
- Que coisa? – Chad foi quem perguntou curioso.
- Ainda está aqui? – Beaver respondeu irritado e Chad apenas bufou. – Vai!
Chad obedeceu e seguiu até o escritório ver como Jensen estava. Katie apenas seguiu Beaver enquanto eles deixavam o apartamento.
