Surpresas

"Não fique muito amiga dele, Rosie, Vovô Weasley nunca iria te perdoar!"

Eu rio, e preciso rir, porque não há nada que instigue mais um adolescente do que dizer que ele não deve fazer algo. Toda nossa juventude foi uma prova disso, mas Ron gosta de esquecer do que é inconveniente para ele lembrar. Ainda rindo, eu dou um tapinha em seu braço, e ele reclama comigo, sorrindo também. São tantos anos juntos que este sorriso parece ser tão necessário quanto o ar, embora eu não seja mais uma menina apaixonada como fui um dia. Ron é simplesmente uma parte grande demais da minha vida para que não seja absolutamente necessário.

Mesmo quando ele foi embora, sempre esteve lá, comigo, em meu coração. Nós sabemos disso, embora raramente relembremos aqueles tempos sombrios. Ele sempre gostou de olhar para o futuro, de esperar pelo melhor, sempre foi um otimista - e talvez por isso tenha ficado tão afetado pelo medalhão, que roubava sua alegria costumeira.

E se me dissessem, naquele tempo, que eu viveria para ser esposa dele, para ter seus filhos, e ver em minha própria menina os cabelos vermelhos dos Weasley, os olhos azuis de Ron, e meus dentes da frente proeminentes, eu riria em deboche e descrença. Eu acreditava em Harry, mas sempre fui sensata demais para me permitir esperar por uma solução tão positiva. Eu riria, em deboche, pensando em meus pais exilados, nas mentiras, nos feitiços, no desespero que já era tão grande que não havia nada em mim para a Horcrux consumir ou alimentar.

Nunca me acostumei a estar errada, mas pela graça de deus, desta vez eu estava. E Ron me deu a mão e me levou a Austrália para consertar meus erros - se é que foram erros - e quando acabaram as lágrimas, e os reencontros, me prometeu que jamais iria embora novamente. Na época, nada mais me importava. Agora, me parece que tudo seria preferível a deixar minha pequena menina ir embora.

Tudo tem seu tempo, eu sempre soube, e sabia que esse momento chegaria. Então eu aperto a mão de Ron mais forte enquanto o trem apita e vai embora, enquanto ela acena para mim, enquanto Hugo puxa a manga da minha blusa, querendo que eu lhe dê atenção. Não há lágrimas em meus olhos, desta vez.

Só a surpresa, por tudo ter acabado tão bem.