Jensen não via nada à sua frente. Apenas Jared, Jared machucado, a voz de Rosenbaum e tudo aquilo passando como um filme novamente na cabeça dele. As ruas de Paris estavam começando a ficar cheias naquela manhã, e conseqüentemente o trânsito também.
- Cliff, mais rápido, por favor. – Ele dizia ao motorista conforme iam cruzando a avenida até quase o outro lado da cidade.
Ele aprendera com seu pai a boa e velha política do "atirar primeiro e perguntar depois", e estava aí um bom momento pra colocar aquilo em prática. Ele não queria nem fechar os olhos enquanto Cliff ultrapassava todos os limites de velocidade, porque a imagem de Jared surrado aparecia novamente.
Sim, sentia-se culpado. Talvez se não tivesse sido tão teimoso, tão orgulhoso... Jared estaria bem e estaria com ele. O pior já havia passado no momento em que Jared adentrou seu escritório e agora, a vida de seu amor estava novamente em risco e pra quê? Para proteger Jensen. E ele sentiu verdade nas palavras do moreno quando assistiu ao DVD.
O imenso prédio perto do rio Sena para o qual Lobo havia se mudado depois que saiu de Madri em função de toda aquela confusão de seis meses atrás, estava com o saguão lotado. Mas isso nem de longe intimidou Jensen.
Ele desceu do carro com pressa, não olhando pra ninguém. Seu passo era firme, objetivo e ele não se deu ao trabalho de responder nem ao bom dia do porteiro. Ele não via nada, estava totalmente concentrado em Jared, em achar Jared. Entrou no elevador e subiu até a cobertura.
A pequena viagem entre um e outro abrir e fechar das portas da caixa de metal, ele só conseguia pensar que poderia esperar até uma nova traição de Jared, mas não Lobo.
Duas batidas na porta.
Passos calmos, risos. Parecia que Lobo estava acompanhado.
Em poucos segundos a porta se abriu.
- Ackles? – O moreno alto exclamou quando abriu a porta. Ele vestia apenas um roupão branco.
Jensen o encarou com certa repugnância entrando mesmo sem ser convidado. Viu roupas no chão, algumas taças e garrafas de bebidas vazias. Ele deu uma boa olhada ao redor e viu um garoto, com cerca de vinte anos, sair do banheiro e olhar Jensen um pouco assustado.
- Jensen, você está...
- Mande-o embora. Temos assuntos pra tratar e você bem sabe disso. – Jensen o interrompeu. Ele fez um gesto com a cabeça apontando para o garoto.
- Como quiser. – Tom sorriu de canto, crente que aquilo apenas se tratava de ciúmes.
O garoto, um pouco apavorado, aceitou o dinheiro que Lobo estava entregando e deu um beijo inspirador na boca do colombiano. Jensen apenas revirou os olhos impaciente.
O garoto saiu. Tom voltou sua atenção ao loiro, não deixando de ficar até animado com todo aquele teatro que ele achou que Jensen estava fazendo.
- Não sabia que tinha assim tanto ciúmes. – Welling sorriu aproximando-se de Jensen e, o loiro sem absolutamente nenhuma cerimônia, sacou a arma das costas e apontou pra cabeça do moreno alto.
- Onde ele está? – Jensen perguntou quase num sussurro e Tom ficou absolutamente sem ação por alguns segundos.
- Que pensa que está fazendo? – Welling riu incrédulo. – Abaixe a arma agora.
Jensen engatilhou a Glock e afastou centímetros para o lado da cabeça de Lobo, apertando o gatilho e acertando um tiro na parede. Tom fechou os olhos e seu sangue gelou.
- Vou ter que repetir? – Jensen disse irônico.
- Que PORRA pensa que está fazendo, Ackles? – Lobo agora estava furioso, bufando.
- Diga onde está Jared, Welling. – Jensen já estava igualmente sem paciência. – AGORA! – Ele gritou e a arma tocou a cabeça de Tom.
- EU NÃO SEI DO QUE ESTÁ FALANDO! – O moreno alto gritou de volta ao perceber que Jensen estava falando sério e extremamente descontrolado.
Jensen respirou fundo e voltou a engatilhar a arma. Olhou fundo nos olhos azuis de Tom e conseguiu ver pânico.
- Você sabe o que eu faço com quem me trai, não é? – Ackles disse num tom quase macabro. – Pare de me fazer perder tempo e me diga onde está Jared, caso contrário, tenho certeza que sequer vão investigar sua morte.
- Jensen... – Tom recomeçou tentando parecer calmo. – Eu não sei o que faz pensar que eu saiba qualquer coisa em relação a Jared.
- Eu já recebi o DVD e... – Jensen fez uma pausa ao lembrar-se das palavras de Jared. – Welling, se algo acontecer a ele, que Deus me ajude, mas eu vou te matar.
- Jen... – O moreno alto respirou fundo tentando se acalmar. Fechou os olhos antes de continuar. – Encare isso então como um último pedido. O que está acontecendo?
Jensen conhecia Tom muito bem. Bem a ponto de saber que definitivamente ele não era nenhum idiota a ponto de mentir numa hora como aquela, porque sim, ele tinha certeza, Jensen mataria qualquer um que precisasse se fosse para proteger Padalecki.
- Jared foi seqüestrado e o resgate sou eu quem deve pagar. – Jensen começou e pode perceber que Lobo prestava atenção. Ele arqueou as sobrancelhas em sinal de surpresa quando Jensen terminou a frase. – Tenho que entregar meus arquivos confidenciais e ele está livre, ou... Ele mesmo pode contar o que sabe. – Jensen finalizou mais calmo, mas sem tirar a arma da cabeça do moreno alto.
- Não faz sentido. – Tom respondeu.
- O que é que não faz sentido? – O loiro rebateu intrigado.
- Não faz sentido você achar que é coisa minha! – Welling pareceu um pouco surpreso por Jensen ligar tudo aquilo a ele. – Tenho negócios com você, Ackles, antigos... Esses tais documentos me incriminariam de alguma forma também, pra quê eu ia querer ferrar você se iria acabar levando a mim mesmo junto?
Jensen ficou em silêncio por um tempo. Realmente não tinha uma boa resposta e o que Tom acabara de dizer era bastante coerente. De fato, ele tinha que admitir que fazia sentido.
- Ouvi Rosenbaum no DVD. – Jensen disse por fim. – E sei que Jared está perto da praia...
- Sabe como? – Tom perguntou curioso. Jensen não respondeu. Lembrou-se de South Beach, de Jared falando sobre aquilo...
- Eu só sei. E você tem uma cabana em Lion.
- Sim, Kristin está lá. – Tom respondeu calmamente.
Jensen imediatamente baixou a arma. Kristin, como havia esquecido dela? Óbvio que aquilo tinha chances de ser coisa dela. Ou melhor, Jensen teve certeza que era.
Ele sentiu-se um pouco mal por julgar Tom tão mal e pensou no quanto teria se arrependido caso algo tivesse acontecido com ele. Ele guardou a arma nas costas novamente e olhou para o colombiano como se pedisse desculpas apenas com o olhar.
- Quer ajuda? – Welling perguntou entendendo a atitude de Jensen, o desespero. Não era hora de julgá-lo. Sabia o quanto Jared havia significado pra ele e certamente ainda significava.
- Onde está Rosenbaum? – Jensen perguntou após respirar fundo, resignado e até um pouco sem graça.
- Vou ligar pra ele, certo? – Tom disse enquanto ia até o bar e preparava uma dose dupla de whisky e em seguida entregando a Jensen que, não pensou duas vezes antes de virar o copo de uma vez.
- Eu acho que vocês devem estar brincando, não tem outra explicação. – Chad dizia dando voltas e voltas em torno da mesa de centro da sala do apartamento de Ackles.
- Não saiu exatamente como o planejado, mas... – Katie não estava tão apreensiva quanto Chad, mas certamente estava nervosa.
- Mas? – Chad insistiu irônico. – Beaver, você assinou uma sentença de morte com esse plano idiota! Ackles nunca vai te perdoar.
- Não seja ridículo e dramático, Murray. – Jim disse indiferente quanto a temer que Jensen fizesse algo contra ele. Na verdade, o que ele temia agora é que Jensen fizesse besteira.
- Kristin não atende o celular. – Katie disse após algumas tentativas. – Qual era o próximo passo, Jim?
- Jared não está livre isso significa que ele não falou. – Beaver respondeu pensativo. – O garoto não vai entregar Jensen...
- Eu tenho certeza que não vai. – Katie disse tentando fazer a ligação novamente.
- Vamos. – Jim começou andando até a porta. – Temos que ir a Lion acabar com isso antes que Jensen se machuque.
Os outros dois seguiram o mais velho e todos rumaram para a saída com destino certo agora.
- Esse cara não vai falar, Kreuk. – Michael Rosenbaum dizia com convicção no cômodo ao lado de onde mantinham Jared.
- Vamos fazer apenas mais uma tentativa. – Ela respondeu fria, seguindo para o quarto onde Jared estava.
O barulho do salto agulha ecoou pela pequena cabana simples e contrastou com o ranger da porta do quarto, revelando um Jared deitado sob o colchão sujo. Ele estava ensangüentado e com os dois olhos inchados, nariz arroxeado por estar quebrado, sobre cílio e cantos da boca cortados. Escoriações pelas mãos, testa e a julgar pelos hematomas no abdômen, até costelas quebradas.
Definitivamente a materialização de não apenas uma surra. Mas de várias.
- Agente. – Kristin cumprimentou presunçosa, debochada.
- Ex. – Ele respondeu sem encarar a morena. Manteve apenas os olhos no chão.
- Vejo que seu treinamento não foi à toa. – Ela continuou cruzando os braços e olhando mais atentamente para o moreno. – Pena que parece ser pouco inteligente...
- É a última cartada? – Jared esboçou um leve sorriso sarcástico, com certa dificuldade pra falar. – Me torturar fisicamente não deu certo então agora apelam pro psicológico?
- Como eu ia dizendo... – Ela continuou não dando atenção à ironia do ex-agente. – Pouco inteligente. Vai dar a sua vida em pra proteger um homem que te despreza?
- Olha quem fala... – Jared continuou no mesmo tom. – Como vai seu marido? – É claro que ele sabia que Tom havia deixado a esposa. – Aliás... Você é expert quando se trata de desprezo... Ser deixada pelo marido, a gente entende... Mas até pelo amante? – Ele riu com vontade e ela o encarou como se pudesse matá-lo só de olhar pra ele. – Você não conseguiu segurar nem o Murray, aquele sabonete de quartel... – Ele na verdade gargalhou agora.
Ela, com uma raiva quase desumana, sacou a arma e deu um tiro pra cima cessando o som que a risada de Jared fazia, mas apesar disso ele ainda sustentou o sorriso.
- Falou o falso moralista. – Ela disse num tom quase macabro. – Você traiu Jensen, traiu seu país...E acha que tem alguma moral aqui? Mesmo que fosse pra julgar alguém como eu?
- Ah é! Temos aí outro assunto! – Jared mantinha o sorriso de deboche. – Confiança. Aquela que Lobo também não tem mais em você! E nem Chad! E seus dois únicos amigos estão presos! – Jared só não ria ainda mais porque seus músculos doíam até pra isso.
- Se eu pudesse, eu te mataria agora mesmo. – Ela rebateu com um tom de voz que Jared nunca tinha ouvido nela antes.
- Se você "pudesse"? – Jared repetiu estranhando a colocação.
É claro que ela poderia matá-lo a hora que quisesse, por que agia como se não devesse? Ele a encarou nos olhos pela primeira vez desde que ela entrara e viu que a tinha feito perder a linha, como se ela tivesse falado demais.
- Não pode me matar, não é? – Jared abriu ainda mais o sorriso, provocador. – Não pode me matar. – Ele repetiu agora mais seguro devido à falta de resposta dela.
- Muito cuidado, Padalecki. – Ela se afastou percebendo que acabaria mesmo puxando o gatilho na cabeça do moreno. Só que sabia que se fizesse isso, ela era a próxima.
Ela deixou o pequeno quarto batendo a porta atrás de si. Jared de repente, apesar da dor intensa, sentiu que tinha algo muito a seu favor em toda aquela coisa estranha.
- Ele não está atendendo. – Lobo dizia enquanto Jensen andava de um lado para outro com o celular em mãos. – Acho que não temos escolha.
- Vamos agora mesmo a Lion. – Jensen disse recompondo-se e assumindo a seriedade inicial.
- Certo. – Lobo respondeu enquanto terminava de vestir-se e, claro, armar-se. Jensen apenas o observou de longe e sentiu certa culpa pelo que fizera.
Acabava de ameaçar um de seus clientes e, claro, amigo de tantos anos por conta de seu impulso. Isso fez o loiro questionar o que Jared fazia com ele. O deixava imprudente, o perturbava, o fazia mudar de comportamento e certamente perder a compostura. Ele respirou fundo, mas não conseguia se concentrar.
- Você vem ou não? – Lobo perguntou da porta, pronto, olhando um Jensen que parecia perdido em pensamentos.
- Thomas... – Ele andou até o outro o puxando pela nuca e lhe dando um selinho demorado, correspondido por Lobo. – Me desculpe.
Jensen esperava algum tipo de reação positiva de Lobo, talvez que ele sorrisse ou o abraçasse, mas não. Por um momento Lobo pareceu indiferente e até com um pouco de pena de Jensen.
- Não faça mais isso. – Foram as palavras de Welling. – Não preciso disso.
- Tom...
- Nós não precisamos disso, Jensen. – Ele afastou-se do loiro e andando até o corredor rumo à saída.
- De que está falando? – Jensen perguntou num tom mais calmo enquanto o seguia.
- Disso, Jensen. – Tom respondeu como se o loiro fosse ingênuo. – De nós.
- Thomas... – Jensen começou escolhendo as palavras. – Não estamos apaixonados, nunca estivemos. Não tem amor envolvido nisso.
- Não significa que não tenha que haver respeito. – Tom respondeu sério e Jensen não tinha uma boa resposta.
- Não estou te desrespeitando. – Jensen ficou sem jeito. – Quer dizer, cometi um erro... Não deveria ter... te abordado da forma como abordei.
- Jensen, não estou falando de você apontar uma arma pra minha cabeça. – Tom sorriu de canto. – Não é a primeira vez que isso acontece, embora fosse a primeira vez que eu realmente achei que ia atirar...
- Thomas...
- Jensen você ama Jared, aceite. – Tom o interrompeu. – É capaz de qualquer coisa por ele e, dadas as circunstâncias, ele igualmente... – Ele fez uma pausa e Jensen não sabia o que dizer. – Aceite. Estão ligados pra sempre... Tenho certeza que agora entende do que estou falando.
O moreno alto extremamente bem vestido entrou no elevador seguido por Jensen e o loiro apenas ficou em silêncio. Sim, ele havia entendido.
- E o que quer que eu faça afinal? – Michael estava agora a beira de um colapso. – Lobo está me ligando tem quase uma hora, e o que direi a ele?
- Tenho certeza que pensará em algo. – Kristin definitivamente não estava nem aí. Ela ajeitou a bolsa de grife sob o ombro e preparava-se para deixar a cabana. – Libere aquele verme... Jogue-o em qualquer canto, algum beco de Lion, não sei...
- Beaver não deu a ordem. – Michael retrucou.
- Não são as ordens de Beaver que você segue. – Ela respondeu autoritária. – Está sendo muito bem pago pra fazer parte de toda essa farsa e é do meu bolso.
Michael não respondeu. Não podia e, além do mais, ele pensou que poderia simplesmente dizer a Lobo que estava ocupado com a namorada.
- Não podemos libertar Jared. – Ele disse tentando ficar calmo. – Kristin, temos que esperar as ordens de Beaver porque o plano é dele.
- Rosenbaum, se eu estou...
Ela parou abruptamente de falar ando ouviu um carro se aproximar. O que fazia bastante barulho já que a área era extremamente silenciosa. Kristin olhou apreensiva para Michael e os dois pareciam dizer um ao outro com o olhar que esperavam realmente que fosse Beaver.
Mas não era.
Jensen Ackles deu um chute na porta da frente apontando a arma para Kristin já da porta. Ela ficou estática no meio da sala e Rosenbaum apenas imaginou que acabara de assinar sua sentença de morte ao ver Lobo aparecer atrás do loiro.
- Abaixe a arma, Jensen, eles não vão a lugar nenhum. – Lobo disse enquanto adentrava o cômodo. Ele tinha uma classe única no jeito de andar, falar e agir. Conseguia ser mais superior naquelas situações do que o próprio Jensen.
- Tom, eu posso... – Kristin começou a falar, mas se calou imediatamente. Não, Lobo não disse nada, apenas lançou a ela o olhar mais frio que a própria já vira.
- De você, eu nunca esperei muita coisa. – Ele disse quase num sussurro, com a voz cheia de desprezo. – Mas você... – Ele concluiu a frase olhando para Michael.
Jensen guardou a arma e apenas observou. Sentia-se coadjuvante. Não que fosse algo muito surpreendente, pois se tratava de El Lobo. E ele roubava a cena. E com classe.
- Welling, eu apenas tentei ajudar. – Michael disse num tom baixo, quase de respeito.
- Em que? – Tom sequer olhou para o amigo.
- É tudo uma farsa. – Michael disse rapidamente, e não escondeu certo nervosismo.
- Farsa? – Jensen agora foi quem tomou a frente e andou até Michael.
- Beaver armou tudo. – Kristin disse tentando esconder o medo na voz. – Queria saber se Jared dessa vez era confiável.
- Onde ele está? – Jensen perguntou apreensivo e pronto para atacar a morena.
Ela não respondeu, apenas olhou para a porta indicando onde Jared estava. Jensen não pensou em mais nada, não olhou mais nada e simplesmente andou a passos largos até o quarto onde Jared estava.
Tom, sem a menor cerimônia, andou na direção de Kristin, ficando de frente pra ela e, com uma frieza quase impossível de ser descrita, apontou sua arma para a cabeça dela.
- Sabe que não vai atirar. – Ela disse com lágrimas nos olhos e um sorriso apreensivo. – Não vai me matar, eu sei...
- Cala a boca, vadia. – Ele disse sem expressar nenhum tipo de emoção. – Não me desafie e nem muito menos me diga o que eu vou ou não fazer.
Ele puxou o gatilho calmamente e a morena caiu a seus pés.
