A sala de interrogatório da polícia federal francesa era fria. Talvez fosse de propósito, assim os suspeitos/prisioneiros se sentiriam ainda mais desconfortáveis. As algemas nos pulsos de Jensen, em frente ao seu corpo e em cima da mesa de vidro eram igualmente geladas. O tilintar proposital que ele fazia batendo na mesa com as algemas era também proposital. Talvez irritassem o Agente Especial Jeffrey Dean Morgan.
- Sabe desde quando tentamos te pegar? - Ele falava calmamente. Parecia desfrutar daquele momento e não querer que ele acabasse nunca.
- Sendo filho de quem eu sou, posso supor que... Desde que eu nasci talvez? - Jensen respondeu irônico após um longo suspiro.
- Pode ironizar o quanto quiser. - Jeffrey respondeu enquanto Jensen apenas o encarava indiferente. - Conheço sua fama, conheço cada traço da sua personalidade e posso te prever completamente...
- Isso é pra me dar medo, impor respeito ou é uma declaração de amor? - O loiro riu mais aberto desta vez, sem parar aquele barulho irritante de algemas batendo no vidro.
- Vou te dar uma oportunidade única. - Jeffrey recomeçou ignorando completamente o comportamento totalmente previsível de Jensen.
- Quero meu advogado, Agente Morgan. - Jensen igualmente não deu a menor atenção as palavras de Jeffrey. Conhecia como funcionavam essas propostas. E, não, definitivamente, ele não entregaria ninguém.
Jeffrey riu de canto como se Jensen fosse completamente ingênuo.
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Lauren Cohan andava em círculos pela outra sala de interrogatório, ao lado da de Jensen. Ouvindo, por alguns minutos, apenas a respiração de El Lobo a cada suspiro impaciente do colombiano.
- Sabe desde quando tentamos te pegar? - Ela disse com um sorriso pretensioso. O andar dela fazia com que seus passos soassem num ritmo compassado com seu salto alto.
- Vejamos... - Ele fingiu pensar por um momento. - Conheci Michael há mais de dois anos e meio então... Dois anos e meio! - Ele riu, mostrando os dentes bonitos, parecendo uma criança na classe acertando uma resposta do professor. - Acertei?
- Pode ironizar o quanto quiser. - Lauren sorriu e finalmente sentou-se em frente a ele na mesa. - Conheço sua fama, conheço cada traço da sua personalidade e posso te prever completamente...
- Gostaria de poder dizer o mesmo sobre você. - Ele lançou um olhar furtivo a ela, mordendo o lábio inferior quando concluiu.
- Vou te dar uma oportunidade única. - Ela disse olhando firme nos olhos dele, cruzando as pernas sensualmente.
- Quero meu advogado, doutora Cohan. - Ele disse fechando os olhos mostrando claramente que estava ficando entediado daquele teatro todo. Ele não ia entregar Jensen se era isso que ela iria propôr.
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- Acha que vão aceitar? - Michael falava com Erica Durance, sua parceira de anos de Scotland Yard. Ele acompanhava ambos interrogatórios.
- Lógico que vão. - Erica respondeu confiante. - É a única chance deles. Mike, é uma em um milhão. E o quanto antes começarmos tudo e conseguirmos abafar tudo isso, melhor. Mohamed não pode saber que eles foram presos, senão...
- Eu sei. - Mike pensou na noiva e queria simplesmente ir pessoalmente atrás dela. Mas precisava se manter focado se quisesse recuperá-la.
- E Murray? - Erica perguntou distraída.
- Está com Sophia. - Mike respondeu. - Mas está repetindo o mesmo discurso.
- Certo. - Ela disse e foi ao encontro de Lauren quando esta saiu da sala. - E então?
- Hora de agir, não podemos mais perder tempo. - Cohan estava apreensiva e bastante preocupada. - Se Amanda está nas mãos de Collins, é um milagre se ainda estiver viva...
Ela andou até sua sala rapidamente pegando alguns papéis e, alguns segundos após, Justin Hartley entrava com Sandy McCoy na sala da federal francesa.
- Então, o que o FBI acha da proposta? - Lauren perguntou olhando para Hartley.
- Muito a contragosto concordamos com isso. - O loiro, dentro de um terno impecavelmente bem alinhado, respondeu um pouco mal humorado. - Mas é por uma boa causa e realmente acho que é a melhor maneira.
- E quanto a Padalecki, Beaver e Cassidy? - Erica perguntou e Justin e Sandra sentiram-se ligeiramente desconfortáveis ao ouvir o nome de Jared como se ele realmente fosse um criminoso.
- Mandei dois agentes buscá-los. - Lauren respondeu. - Temos motivos suficientes para um mandado ao apartamento e para os computadores e celular de Ackles e cia. - Ela entregou copias dos papéis que segurava para Justin e Sandra, e outro para Michael e Erica. - Hora do show. - Ela se dirigia para fora da sala acompanhada das duplas. - Coloquem El Lobo e Ackles juntos.
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Não era a primeira vez que Murray se encontrava numa sala de interrogatório. A diferença é que, há alguns anos atrás, ele era apenas um adolescente de dezesseis anos se achando muito esperto. Agora, ele sabia que a coisa era muito mais séria e sim, eles tinham provas para colocá-lo na cadeia por um bom tempo.
Ele tinha os pulsos algemados sob o colo e desviava o tempo todo do olhar de Sophia Bush, a delegada de polícia de Paris.
- Você poderia ganhar muito mais dinheiro fazendo as coisas dentro da lei, Chad. - Sophia quase sussurrava enquanto tinha o deleite de interrogar um dos melhores hackers americanos do mundo.
- E onde estaria a adrenalina? - Chad riu respondendo a ela no mesmo tom, sorrindo.
Ela arqueou as sobrancelhas, surpresa pela declaração dele ser quase uma confissão. O que na verdade seria apenas um plus, já que tinham o suficiente para mantê-lo por alguns bons anos preso.
- Ei, Bush. - Lauren Cohan abriu a porta chamando pela delegada. - Ackles e Welling estão sendo trazidos pra cá.
Chad franziu o cenho ao ouvir aquilo enquanto Sophia levantava-se em pé. Atrás de Lauren, entraram Sandy, Justin, Erica e Mike. Chad não deixou de se sentir ligeiramente acuado. Cercado de agentes americanos, ingleses e franceses, por outro lado, ele quase se permitiu pensar que era algum tipo de celebridade. E ele era.
Logo em seguida, ao lado de Chad, cercados por dois agentes, sentaram-se Katie Cassidy e Jim Beaver. Beaver parecia definitivamente preocupado, Katie esforçava-se para manter-se séria.
- Cadê o Jared? - Chad perguntou num sussurro para Katie.
- Levaram ele para outra sala. - A morena respondeu. - Ele está com Morgan. - Ela lançou um olhar preocupado para Chad que apenas imaginou que, provavelmente, o moreno teria alguma regalia.
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Ele havia avisado Jensen. Ele sabia que uma hora isso iria acontecer. Ele sabia que, dessa vez, ele iria junto. Há um ano atrás, ele saía da sala de Jeffrey Dean Morgan como um agente respeitado que iria arriscar sua vida para infiltrar-se no narcotráfico. Agora, ele era um dos cúmplices de um dos traficantes mais procurados.
O agente especial americano tentava disfarçar a mágoa que sentia enquanto andava de um lado para outro olhando algumas folhas de papel.
- Acredito que sabe porque está aqui. - Morgan começou largando as folhas em cima da mesa, colocando-as em frente a Jared.
Jared apenas passou os olhos pelos papéis e em seguida voltou a encarar Morgan. Tinha finalmente entendido do que aquilo se tratava.
- De quem foi a decisão? - Jared perguntou, ajeitando desconfortavelmente as algemas nos pulsos.
- Da Scotland Yard. - Morgan respondeu sentando-se em frente a Jared e olhando as algemas que prendiam o ex-agente. Tinha o olhar de um pai decepcionado.
Jared, é claro, percebeu mas resolveu não dizer nada. Nem ele sabia bem como tinha se colocado naquela posição, mas não estava arrependido, estava consciente. E ali, bem a sua frente, estava finalmente a chance que ele queria para recomeçar tudo com Jensen.
- Obrigado, Jeff. - Ele disse sussurrando, procurando os olhos de Morgan.
- Não me agradeça. - Ele respondeu seco, levantando-se da cadeira. - Eu fui contra. - Ele concluiu e Jared apenas baixou os olhos. - Então, vamos fazer isso logo.
- Jensen aceitou? - Jared perguntou, empolgado.
- Vamos saber agora.
Assim que Morgan respondeu, a porta da sala de reuniões se abriu revelando Lauren escoltando Jensen, Mike escoltando Tom e Sophia escoltando Chad. Os agentes sentaram-se do lado oposto da mesa grande, deixando os prisioneiros de frente a eles.
Morgan, Rosenbaum, Bush e Cohen pareciam tão empolgados quanto crianças num playground novo. Estavam satisfeitos, com aquela boa sensação de dever cumprido. Jensen e Jared trocaram olhares tímidos e Welling agora não estava entendendo mais nada.
- Quero que saibam que o que vamos propor é única e exclusivamente por falta de opção. - Morgan foi quem começou. - Não somos bonzinhos e não acreditamos que um dia vocês serão.
Ele concluiu e Jensen então entendeu do que se tratava, confirmou o que suspeitou quando viu o carro da polícia tática indo prendê-los.
- Amanda está nas mãos de Collins. - Lauren tomou a palavra. - E, infelizmente, a partir do momento em que ele souber que sabemos ou que vocês estão aqui, ela morre. - A agente especial concluiu e qualquer um pode ver que Mike tentava controlar o pânico ao ouvir aquelas palavras.
- Não temos outra alternativa que não seja vocês. - Sophia acrescentava. - Mohamed tem consideração por você, Ackles, e você é um bom negociador apesar de prepotente, Lobo... - Ela dizia e Ackles apenas sorriu de canto. Tom finalmente estava começando a entender.
- Se nos ajudarem... - Mike disse pausadamente. - Estarão exonerados.
Fez-se silêncio na sala. Chad, em compensação, abriu um de seus melhores sorrisos e seus olhos até brilharam. Ele olhou Jensen e então Tom, esperando uma reação, mas ambos permaneceram calados e um tanto quanto desconfiados.
- Deixe-me adivinhar. - Jensen começou, inclinando-se sob a mesa. - Querem a nossa ajuda pra resgatar a noiva do Mike e, em troca, estamos livres de todas as acusações? - O loiro tinha um tom quase irônico.
- E quais são as nossas garantias? - Welling perguntou quase desafiador.
- Nenhuma. - Jared respondeu pelos agentes. Já conhecia todo o planejamento de exoneração.
- Como nenhuma? - Chad perguntou espantado e agora entendendo a falta de empolgação dos outros. - Não estamos protegidos ou não temos garantia de que, de fato, vão cumprir o acordo?
- É, Murray, parece que você entendeu. - Morgan disse calmo. - É pegar ou largar.
- Mas e se tudo der certo e ainda formos presos? - Jensen perguntou rindo.
- Você escolhe, Ackles. - Cohen dizia, já sem paciência. - Ou vai preso agora ou corre o risco de não se preso depois. - Ela disse e Jensen desfez o sorriso percebendo que ela realmente falava sério. - É pegar ou largar. - Ela repetiu as palavras de Morgan.
- E se Collins nos matar? - Chad perguntou como se fosse tudo muito óbvio.
- O problema não é nosso. - Cohen respondeu. - Estamos nessa pela Amanda, não por vocês. Vocês estão por conta própria, lutando pela própria liberdade.
- Ei, isso não é justo! - Welling reclamou.
Tom mal terminou de falar e Mike deu um murro sob a mesa, levantando-se imponente em pé, bem de frente para Lobo. Todos passaram então a prestar atenção nele.
- Não é justo? Sabe o que não é justo, Welling? Um lixo como você exigir que nos preocupemos com a sua vida, então acho melhor vocês quatro aceitarem isso logo e tentar fazer a porra da existência de vocês valerem alguma coisa.
Fez-se um silêncio breve na sala. Welling não atreveu-se a responder. Ackles apenas revirou os olhos achando tudo um drama desnecessário. Chad assustou-se um pouco com tudo aquilo e Padalecki permanecia encarando as próprias mãos sob o colo quando finalmente resolveu se manifestar.
- A gente aceita. - O ex-agente disse calmo, parecia ter pensado muito antes de fazê-lo.
- Jay! - Jensen protestou, virando-se na direção de Jared.
- Nós vamos fazer isso sim, Jensen! É nossa chance. - Jared rebateu.
- Padalecki tem razão, Jen. - Chad concordou. - Sabe que podemos fazer isso...
Jensen respirou fundo e, por fim, encarou Tom, que pareceu também concordar a contragosto. Welling era orgulhoso sim a ponto de abrir mão de sua liberdade apenas para se negar a ajudar a polícia,
- Tudo bem, vamos fazer isso. - Jensen respondeu e os quatro agentes pareceram satisfeitos.
- Ótimo. Vamos ao plano. - Sophia Bush disse enquanto os agentes retiravam as algemas de Jared, Jensen, Chad e Tom. - Mande chamar Beaver e Cassidy! - Ela gritou para um dos policiais que escoltava a porta e o homem baixo em seguida obedeceu.
J&J
Enquanto isso, Amanda permanecia calma, ou pelo menos, tentava permanecer. O pior já havia passado desde que Collins invadira seu apartamento sem nenhuma cerimônia ou medo de ser preso ou reconhecido pelas câmeras. Ela o acompanhou calmamente e voluntariamente até o carro já que ele lhe havia dito que Mike corria perigo de vida.
Ela, ingenuamente como qualquer pessoa, colaborou achando que tudo aquilo era verdade.
O vestido branco agora sujo pelo chão úmido e empoeirado de o que parecia ser o porão de algum prédio em construção abandonado por alguma infração de engenharia de construção. Um lugar em que ela poderia gritar, chorar, espernear e clamar por socorro e não seria ouvida.
Collins tinha acabado de chegar com alguma junk food pra ela comer. As mãos da moça, que estavam amarradas nas costas, apenas foram colocadas em frente ao seu corpo para que ela pudesse manusear a comida. Ele não cansava de olhar pra ela feito um animal faminto espreitando sua presa. Ela tentava não demonstrar medo, mas os olhos azuis dementes do louco Misha Collins pareciam completamente hipnotizadores e capazes de criar um caos de terror interno simplesmente pela forma lasciva e insaciável com a qual devorava o corpo da morena.
Ela não se atreveu a desviar o olhar, como numa tentativa de desafio a intimidação do matador que, agora, sacou a arma e apontou para a cabeça dela. Em silêncio, ele pode perceber, para seu deleite absoluto, a respiração dela parar por um segundo.
Em seguida puxou o gatilho.
Ela fechou os olhos e o próximo som que ouviu foi o da risada macabra de Collins.
- Boom. - Ele riu alto em seguida do barulho seco da arma descarregada. Apenas o clique de um revólver sem balas, pelo prazer de sentir o medo que ela exalava de que a qualquer momento poderia ser seu último suspiro.
Ele aproximou-se dela, que estava sentada no chão, num canto escuro do porão, e percebeu que ela começou a suar frio. Ele abaixou-se a fim de ficar na altura dela e, a menos de um palmo de distância do rosto dela, a observava de maneira débil, como se ela fosse algum mistério da ciência. Gentilmente, ele afastou uma mecha dos cabelos que caíam sob os olhos dela, e percebeu que ela tremeu, se esquivou inconscientemente e ele, claro, adorou saborear o poder que tinha sobre ela. Sobre a vida dela.
Ele sorriu aberto, mostrando os dentes bonitos. Um sorriso macabro. Frio, quase robótico.
- Não, querida. - Ele começou e ela sentiu a respiração ficar mais pesada. - Ninguém vai te salvar. - Ele concluiu mantendo o sorriso e a encarando de perto.
Ela sentia suas esperanças se esvaírem cada vez mais. Aquele homem era a própria besta materializada e, pela primeira vez, de verdade temeu pela própria vida.
