Capítulo 3 - Branca de neve

Kagome começou a colocar, calmamente, o material de Inuyasha na mala, ele havia saído correndo e deixado tudo para trás. Após fazer isso, colocou a mochila do hanyou em um ombro e a sua própria no outro. Arrumou as mesas que estavam fora do lugar, caminhou até a porta, apagando a luz no meio do caminho.


Inuyasha estava parado no portão da escola encarando um homem um pouco mais alto do que ele. O homem parecia ser mais velho, ter uns 20 e poucos anos, seus cabelos, assim como os de Inuyasha, eram brancos, compridos e lisos. Seus olhos eram dourados, pelo menos no sol. Vestia roupas casuais e tinha feições humanas.

- Não me diga que estuda aqui. – disse o homem, quando se deparou com Inuyasha impedindo sua passagem.

- O que faz aqui, Sesshoumaru? – rosnou Inuyasha.

- Me pergunto o que você faz aqui. – retrucou Sesshoumaru calmamente, mas com um perceptível desprezo na voz. – Quero dizer, dá pra ver pelo uniforme que você estuda nesse buraco, mas não entendo porque ainda não sumiu da cidade.

- Isso é algum tipo de ameaça? – perguntou Inuyasha. – Não me diga que depois de tanto tempo resolveu sair da montanha só para reclamar sobre nosso pai!

- Você acha que eu sairia da minha casa para choramingar sobre como seu pai é uma vergonha para a nossa espécie? – retrucou Sesshoumaru, com os olhos semi cerrados. – Não, não. Sinto muito, eu não vim fazer uma reuniãozinha de família, como você tem sonhado todos esses anos, pequeno cãozinho solitário. Meu assunto aqui é outro.

Inuyasha sentiu seu sangue ferver com as palavras de Sesshoumaru, seus punhos se fecharam demonstrando sua vontade de voar em cima do homem e trucidá-lo.

- Me diga, Inuyasha, você ainda não percebeu, não é? – perguntou Sesshoumaru que mantinha o tom calmo de desprezo.

- Perceber, eu acho que ele percebeu, mas ainda não sabe o quê exatamente percebeu.

Inuyasha virou-se de costas para o homem ao ouvir a voz de Kagome, ela lançou-lhe um sorriso e continuou:

- É um instinto, não tem como escapar. Mas devo confessar, nem todos são tão bons quanto você, por acaso, você é o yokai de que ouvir dizer? Que se enfiou em uma mansão no meio do mato e agora vive feito um desses ricos excêntrico?

Sesshoumaru gargalhou, um som rouco saiu de sua garganta, como se não fizesse aquilo há muitos anos. Era isso ou ele estava forçando uma risada bem exagerada. Inuyasha voltou-se para ele, com uma expressão de pura confusão.

- Então é essa a fama que eu consegui com vocês? Eu acho muitíssimo curioso como vocês adoram deturpar tudo o que eu faço. Se mato, sou sanguinário, se tiro férias, sou excêntrico. – disse.

- Vocês se conhecem? – perguntou Inuyasha.

Nem um dos dois respondeu. Kagome, que até então olhava Sesshoumaru, caminhou até Inuyasha e esticou o braço, com a mochila na mão.

- Você esqueceu na sala, peguei pra você. – disse e começou a abaixar a voz. – Hei, você estava preocupado comigo, é isso? Por isso me mandou ir embora, por causa dele?

Ele arrancou a mochila das mãos da garota e olhou-a irritado.

- Não fale besteiras, é claro que não! Porque eu me preocuparia com a vida de uma humana feito você? – retrucou.

Sesshoumaru pareceu se interessar na conversa, pois abriu a boca para fazer algum comentário, comentário esse que nunca foi feito, pois Kagome o interrompeu:

- Não adianta, ele não sabe.

Sesshoumaru deu de ombros e sussurrou um "Hanyou idiota".

- Vocês parecem bem íntimo, né? Têm até segredinhos! – disse Inuyasha colocando a mochila nas costas. – Ótimo, isso significa que não preciso apresentar ninguém e nem agüentar a presença odiosa dos dois. Aproveitem-se.

E dizendo isso, ele saiu batendo os pés. Kagome e Sesshoumaru o seguiram com os olhos, até que ele sumisse de vista.

- Ele está com... Ciúmes? – perguntou Sesshoumaru.

- Só se for de você, ele me odeia. – respondeu Kagome.

- Eu até que o entendo. – disse Sesshoumaru, fazendo Kagome sorrir. – Quando você chegou na cidade, achei que o problema era comigo, mas estar estudando aqui significa que a questão não sou eu, não é?

- Hm, digamos que não posso falar esse tipo de coisa. Você é o Sesshoumaru, não é? É mesmo o maluco do matagal? – perguntou Kagome.

- Maluco do matagal? – perguntou Sesshoumaru. – Achei que o humor de vocês fosse um pouco melhor. Mas respondendo à sua pergunta, sim, eu sou o Sesshoumaru e você, quem é?

- Humor não é nosso ponto forte mesmo, desculpe. Se maluco do matagal não agradou, tem o meu apelido favorito: branca de neve. Você sabe, toda essa vida agora no mato, com animais e esse seu cabelo branco. Aposto que você faz 7 anões de reféns por lá. – disse Kagome rindo da própria piada.

Sesshoumaru a encarou e depois fechou os olhos balançando a cabeça negativamente.

- Não tente fazer piadas, garota, você não é engraçada. Deixe o humor para outra pessoa.

- É, pelo visto Branca de Neve não agradou. – disse Kagome.

- Não, nenhum pouco. – respondeu Sesshoumaru.

- Bem que as meninas me avisaram que seu humor era péssimo.

- Você tem um grave problema. Você fala, fala, fala, mas não diz nada. Até agora, não me disse quem é você e porque está aqui.

- Meu nome é Kagome. E eu estou aqui, basicamente, pelo mesmo motivo que você.

Sesshoumaru revirou os olhos e apontou para uma montanha enorme que ocupava grande parte do horizonte:

- Eu vim de lá para me encontrar com você! – disse, irritado. – Não pode me dar respostas melhores?

Kagome apontou para a entrada da cidade e deu um sorriso:

- Eu vim de lá porque sabia que você viria me encontrar. – disse. – Talvez eu tenha as respostas para suas perguntas, mas até agora você não fez nenhuma pergunta certa.

- O que lhe faz pensar que quero conversar com você? – retrucou Sesshoumaru, encarando-a. – E que sabe algo que eu não já não saiba?

- Você não abandonou seus anões para me ver? Imagino que gostaria de conversar, se quiser podemos comer alguma coisa ou até mesmo tomar um café e então você me pergunta o que tem para perguntar. – perguntou Kagome, arrumando a mochila que agora escorregava por seu ombro.

Os olhos, até então, alarmados de Sesshoumaru cerraram-se em uma feição desconfiada e claramente irritada.

- O que pensa que está fazendo? Isso é algum tipo de piada? – disse, entre dentes.

- Você disse que eu deveria parar com as piadas, não disse? Acredite, eu não estou aqui pelos motivos que você acredita, não por enquanto. Enquanto sua preocupação não se concretiza não vejo nada de errado em sermos adultos e agirmos como seres civilizados que somos. Você não tem que se preocupar com nada, isso não é uma armadilha.

- Não por enquanto? – repetiu Sesshoumaru.

- Você sabe melhor do que eu como essas coisas funcionam. – disse Kagome. – Você não é um problema, logo, não precisa se preocupar.

- Agora eu não sou mais um problema? – perguntou Sesshoumaru. – Engraçado você dizer isso, porque pra mim vocês ainda são um problema.

- Faz sentido. – disse Kagome. – Não é como se você fugisse da sua natureza me dizendo isso.

- Não fale como se me conhecesse. – retrucou Sesshoumaru grosseiramente. – Eu não sou como essas escórias que você está acostumada!

- Não é? E quem foi que te disse isso?

O yokai cerrou os olhos.

- Não brinque comigo, garota. Você não é tão especial assim, não pense que vou me sentir intimidado com a sua presença. Você pode ser melhor do que as outras, mas ainda é uma criança. O que sabe sobre a vida? O que te põe em posição de me julgar?

- Desculpe, mas não entendo tanta hostilidade. Eu não estou te julgando como você diz, estou mostrando fatos: você é um yokai. Não importa quão velho você é, nem quão nobre é sua linhagem; você ainda é um yokai e isso te torna igual a todos os outros os quais cruzei. Quem os define como escória é você, logo, quem está te rebaixando é você mesmo. – disse Kagome.

- Então é assim que você nos vê? Somos todos iguais? Então você me colocaria, eu, um assassino, no mesmo patamar de um yokai que nunca tocou em um humano?

- Porque fala como se nos visse de forma diferente?

- Uma pergunta não deve ser respondida com outra!

- Minha existência responde sua pergunta, não responde? – retrucou Kagome que pela primeira vez alterava sua voz, deixando transparecer uma possível mágoa. – Se todos vocês fossem santos, se não tivessem essa natureza assassina como você mesmo disse, pessoas como eu poderiam ser livres. Enquanto pessoas como eu precisarem existir eu vou acreditar que vocês são sim, todos iguais.

- Isso é uma desculpa para o que faz? – perguntou Sesshoumaru.

- Eu não preciso de desculpas, porque eu precisaria de desculpas por fazer exatamente aquilo que nasci para fazer?

- Então o que nos torna tão errados ao seguirmos nossa natureza? Você faz o mesmo.

- Sua natureza é assassina. – respondeu Kagome, rispidamente.

Sesshoumaru deu um sorriso cínico.

- Mais uma vez me julgando. Você pode ser boa no que faz, mas seus argumentos são falhos. E sabe por quê?

Kagome arqueou a sobrancelha e o encarou.

- Não, eu não sei. .

- Porque você e todas as outras são patéticas. – disse, simplesmente. – Eu pensei que após tantos anos vocês tivessem evoluído, mas pelo contrário, é como se regredissem. Vocês são teimosas e orgulhosas, não aceitam perder; ainda mais para um yokai. Pessoas normais aprendem com seus erros, mas não vocês! Vocês não podem aprender, precisam passar essas lendas estúpidas anos após anos, como se ao acreditarem nessa baboseira toda ela fosse se tornar verdade. Mas ela não vai se tornar realidade!

- O que te faz achar que sabe tanto assim sobre nós? – retrucou Kagome.

- Eu já te disse, você é uma criança, não sabe nada sobre o mundo. O que sabe é o que elas lhe falaram, ao invés de engolir tudo o que lhe falam, porque não se questiona o motivo das coisas serem assim? Não tenta descobrir da onde saíram essas porcarias todas?

- Se sabe tanto assim sobre tudo, porque não me diz algo que eu já não saiba? – desafiou Kagome.

- Isso até que seria interessante. Eu adoraria ver a cara dela quando a história se repetisse, mas acredite, eu não faço questão nenhuma de me misturar com vocês.

- Você não parece ter descido aqui para fazer perguntas. – concluiu a morena. – Na verdade, você age como se soubesse de tudo. Então, me diga, o que veio fazer aqui?

- Não consegue imaginar?

- Hm, pela sua distância devo concluir que desistiu dos seus planos.

- A sua distância até mim é a mesma. Desde que aquele hanyou estúpido foi embora você não moveu sequer um músculo. – disse Sesshoumaru formando novamente um sorriso cínico nos lábios. – Devo concluir que seus instintos me mantêm a salvo?

- Oh, não, não. Não pense que você exerce algum tipo de influência sob mim, estou apenas sendo civilizada, como já propus lá no começo, quando o chamei para comer.

- Espero que seja melhor controlando seus instintos do que mentindo. – disse o yokai, que ainda sorria.

Kagome revirou os olhos e bufou.

- Acho que está na hora de voltar para os seus anões. Só eles mesmos te agüentariam por mais de cinco minutos

- Você é uma pessoa de sorte, sabe disso, não sabe? – disse Sesshoumaru.

- Provavelmente a pessoa com sorte aqui é você, não eu. Se não tem nada mais interessante para me falar, me dê licença, eu tenho mais o que fazer.

- Fugindo?

- Sinceramente? – disse Kagome.

Sesshoumaru apenas arqueou as sobrancelhas e a encarou.

- Sim, estou fugindo. Você é incrivelmente chato, se eu passar mais um minuto perto de você corro o risco de me matar.

- Sábia escolha de palavras.

Kagome começou a gargalhar.

- Quero deixar algo bem claro aqui, eu não tenho medo de você, seu cachorro velho. Então, não tente crescer pra cima de mim! – disse Kagome.

Sesshoumaru abriu a boca para dizer algo, mas a garota o cortou.

- Eu imagino que você não fale com outra pessoa há séculos - e juro por Deus como consigo entender o porquê - e esteja adorando poder ouvir sua própria voz, mas como eu já disse, eu tenho mais o que fazer. Então, aproveite o passeio no mato e tenha um ótimo dia.

A colegial começou a andar, mas ouviu Sesshoumaru chamando-a. Ela apenas virou o rosto para ele, com uma expressão de impaciência no rosto.

- Não pense que essa porcariada toda que você me disse não terá volta. Logo mais será você á aproveitar o passeio no mato.

- Não tenho medo das suas ameaças. – disse Kagome.

- E quem disse que era uma ameaça? – retrucou Sesshoumaru, sorrindo cinicamente.

Kagome balançou a cabeça negativamente, pousando a mão sobre a testa. Ele ainda a encarava, como se esperasse alguma resposta. Ela ergueu o par de olhos azuis que encaravam o chão e fitou o dourado dos olhos dele, fez uma careta e resmungou:

- Mas que chatice.

Sesshoumaru deu de ombros.

- Você também não é das mais interessantes.

Ela o ignorou, até que ele resolveu desistir daquela conversa. Olhou-a mais vez, antes de voltar a fazer o caminho até sua casa, vendo-o se afastar, Kagome resmungou:

- Convencido.


Olá! :D E aqui está mais um capítulo. Se ele pareceu confuso, logo mais as coisas serão explicadas. Minha intenção não era fazer um capítulo só de uma conversa sobre um assunto que só eu sei qual é, mas eu sempre sonhei em colocar o Sesshoumaru e a Kagome juntos, batendo de frente, então acho que me empolguei um pouco.

Aricele: Obrigada *-* E ai está uma ótima pergunta! xD Tem muito a ver com a história, juro que não troquei o sobrenome dela sem um bom motivo. Mais para frente sua resposta vai ser respondida :D

Hatara-L: Muito obrigada, querida! Fico feliz que esteja gostando. Sobre as asas e as garras, isso também vai ser explicado na fic, mas ainda vai demorar um tempinho! Mas juro que tem muito a ver com a história.

Então é isso. Obrigada a quem lê e não comenta, a quem lê e comenta e a quem só passa rapidinho por aqui. Reviews são legais e bem vindas :) Até semana que vem.