Capítulo 7 - Trégua

Kagome arqueou a sobrancelha.

- O que foi essa cara? – disse.

- Que cara? – respondeu Inuyasha se fazendo de inocente.

- Esquece... – disse Kagome balançando a cabeça.

Os dois ficaram em silêncio, se olhando. Um vento forte passou, balançando o cabelo de Kagome e fazendo com que seu cheiro se fizesse presente, Inuyasha fez uma careta.

- Porque você usa tanto perfume? – perguntou o hanyou.

- Eu não uso perfume. – disse Kagome rindo.

- Quer que eu acredite que você tem um cheiro tão forte assim?

- Olha, antes que a conversa vá para um caminho estranho e que você resolva dizer que eu estou fedendo novamente, preciso que me responda uma coisa.

Inuyasha apenas balançou a cabeça, incentivando-a a falar.

- Pretende ouvir o que tenho a dizer? – disse Kagome. – Não estou falando pra você acreditar no que eu falo, mas quero saber se vai parar de me ignorar e de me tratar como se eu fosse uma doença.

- Eu não pretendo ser seu amigo, sabe disso, não sabe? – disse Inuyasha.

- Alguém aqui usou a palavra amizade? – disse Kagome. – Não pense que estou fazendo isso por você, eu tenho meus motivos pra estar nesse fim de mundo e acredite, ser sua amiga não está nem perto de ser um deles, eu só quero que você colabore e torne a sua vida e a minha vida mais fáceis!

- E o que exatamente você está querendo dizer com isso? – perguntou Inuyasha.

- Duvido que você goste de roubar a cena como defensor de donzelas indefesas toda vez que um yokai se aproxima de mim e sinceramente, acho isso um saco. Só que assim, toda vez que você resolve me resgatar eu tenho de agüentar uma pessoa bem mal humorada falando na minha cabeça, como se eu fosse a culpada de você ser um completo tapado! Então, se você colaborar comigo, eu te ajudo a evitar essas cenas estúpidas de territorialismo animal e você me ajuda a não agüentar os sermões. Pode ser?

- Eu sabia que estava certo em relação a você – disse Inuyasha dando um meio sorriso.

- Do que é que você está falando agora? – disse Kagome.

- Você se faz de boazinha pra todo mundo, mas na verdade você é bem grossa. Não tem vergonha de enganar as pessoas desse jeito?

- Inuyasha, você é um yokai, mesmo que apenas em parte. Eu não deveria sequer ficar batendo papo com você como se fosse algo normal, porque não é, então agradeça que estou tentando te ajudar da forma mais pacífica possível e pare achar problema onde não existe. Tá bom?

- Isso não muda o fato de você ser grossa. – disse Inuyasha dando de ombros.

Kagome bufou, balançando a cabeça de forma impaciente.

- A chatice é de família, só pode. – resmungou. – Faça o que quiser então, só não venha me encher o saco.

A garota olhou mais uma vez para Inuyasha e saiu andando. Para encarar o hanyou, Kagome tinha de virar o pescoço pra cima, ele era alto, não tão alto quanto Sesshoumaru, mas ainda fazia com que ela se sentisse uma anã. Ela batia uns 5cm acima da altura do cotovelo de Inuyasha e parecia uma criança ao seu lado, pois além de tudo ele tinha os ombros largos. Por ser um hanyou, Inuyasha tinha um par de orelhas caninas e cabelos brancos que no sol se tornavam prateados, os olhos eram cor de âmbar, quase dourados. Não era magro, tinha até mesmo um corpo atlético para uma pessoa que não freqüentava academia. Apesar de toda a chatice, Kagome tinha de confessar que o hanyou era muito bonito, chegando até mesmo a ser atraente de alguma forma.

Ele logo começou a andar, alcançando-a e caminhando ao seu lado exatamente como Sesshoumaru fizera poucos minutos antes.

- Como é mesmo essa história de instinto? – disse com voz de pouco caso.

Kagome revirou os olhos.

- Essa será uma missão muito, muito difícil. Senhor, daí-me paciência!

E ouvindo isso, Inuyasha deu um leve sorriso, porque Kagome parecia ter percebido que ele usaria aquela história toda para atazaná-la. E ele faria aquilo com muito gosto.


Sesshoumaru olhou para a trilha em que estava, o caminho quase escondido no meio das árvores o levaria até sua casa. Sentiu um cheiro desagradável, era como se uma leve brisa o trouxesse junto de si de tão fraco que era, mas ele conseguia sentir aquele fedor que só lobos exalavam.

- Como se não bastasse, ela ainda atrai essa porcaria. – resmungou.

- Falando sozinho?

O yokai, de alguma forma, parecia surpreso. Talvez o cheiro dos lobos o tivesse distraído, mas isso não explicava o fato de não ter ouvido aquela pessoa se aproximar.

- Você está tentando se matar? – perguntou.

- Nunca! – respondeu. – Eu só estava precisando falar com você!

- E o que um amiguinho do meu irmão iria querer comigo?

Miroku sorriu, não um sorriso forçado tentando agradar um yokai, mas um de seus sinceros e típicos sorrisos.

- Meio-irmão! – corrigiu Miroku em tom risonho. – Como o Inuyasha sempre gosta de lembrar.

- Você está me fazendo perder tempo. – retrucou Sesshoumaru pouco interessado. – Pra estar aqui no meio do nada, atrás de um yokai, suponho que tenha alga muito importante pra falar, então seja rápido.

- Ora, vamos, Sesshoumaru! Como você disse, você é um yokai, tem todo o tempo do mundo, o que custa bater um papo amigável?

- É isso que você acha? Que tenho todo o tempo do mundo? – perguntou o yokai, cerrando os olhos. – Se seu assunto não é nada além de um bate papo amigável, o qual eu não faço questão nenhuma de bater, me dê licença que tenho mais o que fazer da minha vida.

Não obtendo respostas, Sesshoumaru começou a andar, resmungando sobre como aquele tinha tudo pra ser um péssimo dia, até que uma pergunta de Miroku o fez parar. Ele voltou seus olhos dourados para o moreno com uma expressão curiosa.

- O que foi que você disse? – perguntou o yokai.

- A Kagome. – disse Miroku casualmente. – Ela não é humana, não é?

- Está me dizendo acha que aquela que aquela garotinha não é igual você... Acha que ela é o quê? Um yokai disfarçado, é isso? – perguntou Sesshoumaru em tom de deboche.

- Você sabe do que eu estou falando. – disse dando de ombros. – Eu pesquisei, sabe? Não que eu tenha achado alguma coisa relevante, parece até uma seita secreta maluca, foram só boatos na internet. A gente lê uma coisa ali outra coisa aqui e vai juntando as peças, mas já faz alguns meses que estou atrás disso, na verdade, desde que você apareceu pela primeira vez lá em baixo.

- E qual o motivo dessa sua curiosidade? – perguntou Sesshoumaru. – O básico você já deve ter descoberto. Como um humano que é não precisa ficar se preocupando com esse tipo de coisa.

- Não sei exatamente o que fazer com essa informação que tenho, porque ela ainda não é bem uma informação, é só uma teoria. – disse Miroku tornando-se sério. – O que está me preocupando nisso tudo é o Inuyasha, ele tem tido mudanças drásticas de humor desde que a Kagome chegou à cidade, passa várias noites sem dormir, sempre resmungando de um cheiro que ninguém mais consegue sentir. Eu sei que você não se importa com o seu irmão, mas ele não tem falado com ninguém... Sei lá, eu pensei que a Kagome pudesse ter feito algo com ele, embora eu duvide muito disso...

- O problema com ele é que ele é muito novo. – disse Sesshoumaru. – Ou ele é somente burro mesmo, eu voto nessa segunda opção porque não saber lidar com os próprios instintos é uma vergonha.

- Instintos? – perguntou Miroku.

- É. – respondeu Sesshoumaru balançando a mão impaciente. – Toda essa coisa mexe com os yokais, essas pragas fazem isso. É muito fácil pra elas manipularem os mais novos e pelo o que eu entendi o Inuyasha nunca tinha visto uma delas antes, então essa reação ridícula dele chega a ser compreensível, mesmo sendo humilhante.

- Está dizendo que a Kagome está fazendo isso com o Inuyasha?

- Você faz muitas perguntas pra uma pessoa que eu vi pouquíssimas vezes na minha vida e sabe, eu não gosto de conversar. – resmungou Sesshoumaru. – Sua sorte é que mocinha está por perto ou já teria te jogado morro a baixo há muito tempo!

- Agradeço a consideração. – disse Miroku sorrindo. – Mas ainda não respondeu minha pergunta.

Sesshoumaru passou a mão no rosto demonstrando irritação com toda aquela conversa, apesar da vontade louca de terminar aquilo e voltar para sua casa achou que o rapaz merecia ter suas respostas, afinal, não era qualquer um que se aproximava dele sem ser percebido.

- Indiretamente, é ela. – disse. – Antes que você pergunte o porquê, vou te explicar. Essas coisas têm um poder sobre nós: a aparência, o cheiro, o tom de voz, os olhos, o cabelo, enfim, tudo nelas nos atrai, isso é um instinto. Segundo elas, é um instinto de sobrevivência, porque da mesma forma que elas nos atraem, nós as atraímos. Você deve ter lido que elas nos matam e resumindo bem a história, é basicamente isso que acontece. Então, esse instinto faz com que nós não as ataquemos e elas não nos matem.

- E isso funciona? Digo, esse instinto.

- Na maioria dos casos, não. É só uma baboseira que inventaram pra explicar essa atração bizarra entre as raças.

Miroku pareceu pensativo e Sesshoumaru se alegrou com a idéia de que talvez o rapaz tivesse desistido da conversa, mas ele estava enganado.

- Algo não faz sentido. – disse. – Se o Inuyasha está atraído pela Kagome, concorda comigo que ele deveria ir atrás dela? Mas ele faz exatamente o contrário.

- Isso é outro instinto. – explicou Sesshoumaru desanimado com a volta das explicações. – É meio complicado de explicar... Veja as coisas assim: você se aproximaria de algo que você sente que é perigoso só por aquilo ser bonito?

- Então o que ele sente é medo? É isso?

- Não. Você disse que ele tem reclamado de um cheiro que ninguém consegue sentir, não é? Esse cheiro é dela, todas elas tem cheiros muito fortes e característicos. Eu até consigo entender porque está tirando o sono dele, a tal da Kagome infestou todos os cantos desde que chegou, até eu lá de cima consegui sentir o cheiro e precisei descer pra ver quem era. – disse Sesshoumaru tornando-se irônico. - E pra tornar tudo mais interessante mandaram pra cá uma que atrai especialmente yokais da família canídeos, cães, lobos, coiotes e essas coisas todas.

- Mandaram? Quem mandou e mandou pra quê?

- Eu não sei o porquê da maluca da Kikyou ter mandado a Kagome pra cá, mas tem um motivo. Sempre tem. Ela não veio pra cá por achar a cidade acolhedora ou porque o ar puro faz bem.

- Então eu estava certo em me preocupar com o Inuyasha, não é?

- Não é pra mim que você deve perguntar isso. Eu já disse que não sei o que ela quer aqui, pode ser só desgraçar minha vida atraindo aquelas porcarias de lobos pra perto da minha casa, isso é típico daquela mulher odiosa.

- É a tal da Kikyou? – perguntou Miroku. – Quem é essa?

- Você já fez perguntas demais, não acha? É muito bonitinha essa sua amizade com meu irmão, querendo salvá-lo e coisa e tal, mas você deveria se preocupar mais com a sua vida. – disse Sesshoumaru usando novamente aquele tom irônico

- Pela sua esquiva na resposta, devo concluir que essa Kikyou é alguém muito importante, estou certo?

- Não, ela é só uma maluca. – disse Sesshoumaru. – Deve ser a mais velha no momento, por isso deve estar ensinando as outras e escolhendo pra onde vão.

- Algum motivo em especial pra só usar feminino? Elas são todas mulheres?

- Eu pelo menos nunca soube da existência de um homem entre elas.

- Então, yokais mulheres estão livres?

- Bom, mulheres são mulheres, mesmo que sejam em parte animais. Então, você consegue imaginar como elas se resolvem entre elas. A história de atração mutua não funciona, no máximo uma simpatiza com a outra, mas geralmente elas se matam. Literalmente.

- Não consigo imaginar como alguém com a Kagome é capaz de matar um yokai. – sussurrou Miroku mais pra si mesmo do que para Sesshoumaru.

- Não se deixe enganar, o cheiro dela ser tão forte não é bom sinal. – disse o yokai que ouvira perfeitamente o comentário do moreno, graças à sua audição. – Isso sem falar do olho...

- O que isso tem a ver?

Sesshoumaru revirou os olhos, irritado.

- Olha, se você for me perguntar cada detalhe sobre essa gente, você vai precisar de pelo menos uns 100 anos e mesmo que você tivesse esses 100 anos, eu não iria passar tanto tempo falando sobre pessoas que eu odeio, então, vamos terminar logo com isso. Que tal você perguntar diretamente pra ela? Eu não sirvo de enciclopédia.

- Está certo, desculpe por fazer tantas perguntas e agradeço imensamente sua generosidade em me explicar tantas coisas. – disse Miroku voltando a sorrir.

- Como você parece ter vindo aqui atrás de um jeito de ajudar aquele imbecil, então faça o grande favor a si mesmo de não deixar que ele se apaixone. E tente entretê-lo toda vez que um yokai aparecer e for falar com a Kagome, mesmo que esse yokai seja eu, é muito difícil para nós ver esse tipo de coisa e não fazermos nada. E com ela parece ser especialmente mais difícil de se controlar.

- Mesmo não entendendo o que você quis dizer com isso, agradeço o conselho. – disse Miroku. – Se incomoda se eu fizer uma última pergunta?

Sesshoumaru não respondeu, dando abertura para que Miroku fizesse a sua pergunta.

- O que ela é? – perguntou.

O rosto do yokai se iluminou ao ouvir aquilo, como se algo muito engraçado viesse à sua mente. Até mesmo deu um leve sorriso.

- Um anjo. – disse.

- Um o quê? – disse Miroku confuso.

- Essa era sua última pergunta, rapaz. – retrucou Sesshoumaru. – Antes de ir quero que você me responda uma coisa! Como foi que chegou aqui sem que eu notasse?

Miroku começou a rir.

- Eu sou uma pessoa discreta, só isso. – disse.

- Você pergunta mais do que responde. – concluiu Sesshoumaru.

- É o que dizem. – respondeu Miroku. – Acho que você não vai mais me responder nada, então vou voltar lá pra baixo, esses dias Inuyasha disse que yokais lobo estavam rondando a região, não quero ser encontrado por um.

- É o melhor que você faz. – disse Sesshoumaru. – Com esse cheiro que você está, me admira que ainda não tenha atraído lobos no cio!

- Que encorajador. – disse Miroku começando a andar.

Sesshoumaru revirou os olhos e tirou o moletom que estava usando.

- Hei.

Miroku parou de andar e olhou para trás.

- Use isso! – disse Sesshoumaru atacando o moletom pra Miroku. – Lobos odeiam meu cheiro.

O rapaz segurou o moletom e olhou para Sesshoumaru confuso, ele retribui seu olhar como quem diz "não pergunte e só aceite". Vestindo o moletom, Miroku sorriu e voltou a andar. Sesshoumaru viu o humano se afastar e resmungou, enquanto voltava a andar:

- É, Rin, agora é aquela hora em que você rola de rir!


Miroku deixou para trás a trilha que levava até a casa de Sesshoumaru e voltou para a cidade. A primeira coisa que viu foi o rosto de Sango, numa mistura de alivio e curiosidade.

- Você demorou! – a morena reclamou.

- Estava preocupada comigo? – disse Miroku.

Sango parecia querer mudar de assunto, por isso rapidamente procurou algum outro rumo para a conversa.

- Que blusa é essa?

- Do Sesshoumaru. – respondeu o rapaz.

- E porque você está usando a blusa dele? – perguntou Sango sem entender absolutamente nada.

- Essa é uma longa história, Sangozinha.

- Miroku, você é gay? – perguntou Sango seriamente. – O que você esteve fazendo lá em cima? Você sabe, eu não tenho preconceitos...

- Não é nada disso! – respondeu Miroku rapidamente meio que rindo. – Nossa, Sango, o que você acha que eu sou? Primeiro a Nuriko-San, agora o Sesshoumaru!

Sango deu de ombros.

- Vindo de você eu não duvido de nada! Mas enfim, se não é isso, então qual a explicação pra essa blusa? Nem está tão frio assim!

- Como eu disse, essa é uma longa história, você lembra aquela sua teoria sobre a Kagome?

- Dela não ser humana?

- Essa mesma.

- O que tem ela?

Antes que Miroku pudesse responder, ele sentiu uma mão fechada socando-o levemente nas costas, ele não podia ver quem era, mas a expressão de susto que Sango tinha fez com que ele pensasse na possibilidade de ser Sesshoumaru ou até mesmo um yokai lobo.

- Porque você está com esse cheiro?

- Ah! É você, Inuyasha! – disse o moreno suspirando.

- É claro que sou eu, quem mais você achou que fosse? – disse o hanyou. – Está com medo de que aquele maluco venha pedir a camiseta dele? Isso me faz pensar, porque diabos você está usando roupas do Sesshoumaru?

Miroku virou para responder Inuyasha, mas imitando a reação de Sango, seu rosto adquiriu uma expressão de surpresa, ele olhou para a morena e depois para Inuyasha, que soltou um "quê foi?".

- Kagome? – ele disse apontando para a garota ao lado de Inuyasha.

- Oi, Miroku. – ela respondeu sorrindo.

- Eu perdi alguma coisa? – disse Sango. – Desde quando vocês se falam?

Inuyasha olhou para baixo, procurando Kagome, ela deu de ombros dizendo:

- Parece que ele superou o trauma do primeiro dia de aula.

- Muito engraçada você, heim? – disse o hanyou.

- Inuyasha, está me dizendo, que bom, não sei, talvez vocês tenha virado amigos? – perguntou Miroku preocupado.

Inuyasha e Kagome balançaram negativamente a cabeça juntos e disseram:

- De jeito nenhum!

- Resolvemos apenas ter uma convivência pacifica. – completou Kagome.

- E isso é possível? – disse Miroku.

Sango olhou confusa pra expressão de Miroku, o rapaz parecia preocupado com alguma coisa. Ela sabia que tinha algo a ver com a conversa que ele resolvera ter com Sesshoumaru, sabia que algo em Kagome estar perto de Inuyasha deixava o rapaz aflito.

- O que quer dizer com isso, Miroku? – perguntou Sango.

- É, o que está querendo dizer com isso? – perguntou Kagome.

Miroku olhou para Inuyasha e balançou a negativamente.

- Nada, não quis dizer nada. – disse. – Quem está com fome? Estou pensando em ir comer alguma coisa.

Kagome sorriu e saltitou até parar ao lado de Sango, pegando o braço da morena e meio que o abraçando carinhosamente.

- Eu topo! – disse animadamente. – Estou morrendo de fome, vamos, Sango?

Sango sorriu dando alguns tapinhas na cabeça de Kagome.

- Você parece uma criança, sabia?

- Você vem, Inuyasha? – perguntou Miroku.

- Porque eu não iria? – disse o hanyou.

- Ótimo! – disse Miroku. – Você paga pra todos então!

Inuyasha começou a reclamar, fazendo Sango e Kagome começarem a rir. O moreno sorriu, apesar dos avisos de Sesshoumaru agora ele sabia que de alguma forma as coisas estavam certas daquele jeito. Porque pela primeira vez em meses ele sentia que tudo estava em seu lugar.


- Está aberta, é só entrar!

Kagome estava gritando da cozinha para a pessoa que tocava sua campainha, ela estava sentava enrolando alguns bolinhos de arroz e parecia não querer ter o trabalho de ir abrir a porta. Poucos minutos depois, Inuyasha já estava em sua sala, olhando boquiaberto para a mesma.

- Porque você escondeu de todos que era rica? – perguntou.

- Essa casa não é minha, só me mandaram pra cá. – disse Kagome.

Inuyasha caminhou até a cozinha, não que ele conhecesse a casa de Kagome, mas ele apenas seguiu o cheiro da garota.

- Se não estaria pronta às 23h, porque me mandou vir pra cá? – resmungou o hanyou. – Hoje é sexta feira, eu poderia estar fazendo algo melhor!

- Tipo o que? – perguntou Kagome rindo. – Senta ai e me ajuda a terminar esses onigiris.

- Você está brincando comigo, não é? – disse Inuyasha incrédulo.

- Porque eu estaria? – disse Kagome. – Você está com fome?

- É claro que estou! Você falou pra eu não comer! Eu só quero entender o que isso tem a ver com o que eu te pedi...

- Ótimo, agora eu preciso que você sente e me ajude com isso.

- Mas que diabo de mulher. – reclamou Inuyasha enquanto lavava as mãos.

Inuyasha puxou um banco e sentou-se em frente à Kagome, pegando um punhado de arroz em uma panela, o cheiro de comida fez com que seu estômago roncasse e ele levou o bolinho torto que acabara de fazer até a boca.

- Você não pode comer, deixe isso ai. – disse Kagome antes que o hanyou mordesse o onigiri.

- E porque não? – retrucou o hanyou emburrado. – Eu aposto que você jantou!

- É claro que eu já jantei. – a morena respondeu. – Inuyasha, me diga o que foi isso que você tentou fazer agora?

- Que? – ele perguntou.

- Com o bolinho, o que você fez com ele?

- Eu tentei comê-lo, mas isso é óbvio.

- Sim, é claro que é óbvio, mas porque você quis comê-lo?

- Porque eu estou com fome! – respondeu Inuyasha já ficando impaciente.

- Vê? Você acaba de responder a pergunta que você me fez. – disse Kagome.

- Eu acho que não estamos falando da mesma coisa! – disse Inuyasha levantando-se. - Eu devia estar maluco quando aceitei essa idiotice toda!

- Pense um pouco, seu preguiçoso! – disse Kagome. – Estou tentando te explicar as coisas da forma menos vergonhosa pra você no futuro: te fazendo concluir tudo sozinho, mas pelo jeito você é burro demais pra isso!

- Ah, então vamos lá, gênio! No que uma panela de arroz e meu estômago roncando podem me ajudar a controlar essa porcaria de instinto?

- Sabe? Eu até desenharia pra você, igual a gente faz com aquelas crianças, mas nem assim você entenderia. Inuyasha, você me perguntou como controlar esses ataques ridículos que você dá toda vez que um yokai se aproxima de mim, eu estou te dando a resposta! Ela está na sua frente!

- Eu só vejo arroz! – retrucou.

Kagome balançou a cabeça negativamente, alisando o rosto de forma impaciente.

- Quando você está com fome a primeira coisa que você sente vontade é de comer, não é?

- Óbvio.

- A fome é um instinto primário de sobrevivência, mas mesmo que seu estômago esteja roncando e chegue ao ponto de doer, se for preciso você consegue agüentar, não consegue? Você não ficou sem comer até agora, como eu falei pra você fazer?

- Está me dizendo que é tão simples quanto ficar um tempo sem comer?

- Mais ou menos. – disse Kagome. – O problema é que quando se trata de mim eu sou a panela de arroz na frente do estômago roncando e não um dia inteiro sem comida.

- Do mesmo jeito que na frente do bolinho, eu me rendi a fome e fui comer, quando é você lá com os yokais, eu me rendo e vou te defender. – concluiu Inuyasha.

Kagome ergueu os braços pro céu.

- Obrigada, meu Deus, obrigada! – disse. – Eu achei que essa alma não tinha salvação!

- Como espera que eu aplique essa teoria, espertona? – retrucou Inuyasha.

- Eu tenho mais uma panela de arroz aqui, você vai se sentar e fazer onigiris até a panela ficar vazia. – disse Kagome. – Você não vai poder comer nenhum, não importa o quanto sua barriga grite, quando terminar poderá comer. Depois disso, vamos pras montanhas, preciso me livrar de alguns yokais e será uma ótima oportunidade pra você "aplicar a teoria", como você mesmo disse.

- Tratamento de choque?

- Tratamento de choque. – respondeu Kagome sorrindo.

Kagome deu um pulo, descendo o banco. Inuyasha pôde notar que ela usava um leve vestido vermelho, com mangas curtas e na altura do joelho, no pé usava um sapatinho branco com um salto bem baixo e quadrado. O cabelo estava preso em um coque. Ele pensou que a garota realmente lembrava uma criança.

Ela caminhou até o fogão, pegando a outra panela e levando até a mesa. Empurrou a panela para Inuyasha e disse:

- É toda sua.

Voltou a andar, indo até a geladeira, pegou um pote de ameixas em conserva e uma latinha de refrigerante, pousou tudo na mesa, foi até o armário e pegou um copo. Pulou novamente e sentou-se no banquinho, Inuyasha a olhava curioso. Ela abriu a latinha e encheu o copo, deixando em frente ao hanyou.

- Já sei, também não posso beber, não é? – disse desanimado.

Ela sorriu.

- Pelo menos você aprende rápido!

Inuyasha revirou os olhos, puxando a panela para mais perto e repetindo a ação de antes, Kagome abriu o pote de ameixas e entregou uma para o hanyou, ele pegou colocando no meio do punhado de arroz e continuou dando o formato do bolinho.

- O que eu faço com isso agora? – perguntou.

- Entrega pra mim!

E dizendo isso Kagome pegou o onigiri da mão de Inuyasha e enrolou parte dele em uma alga escura. Ela puxou um pranto onde estavam os outros bolinhos que ela fizera anteriormente e colocou-o lá.

Os dois ficaram em silêncio por meia-hora, enquanto faziam os onigiris quase como que automaticamente. Tanto Inuyasha, quanto Kagome estavam levando à sério a história de não serem amigos, cada um deles tinha seus próprios motivos pra isso, mas era óbvio que aquela era a decisão certa.

- E esse é o último. – disse Inuyasha quebrando o silêncio.

- Parabéns, como prêmio você pode comer o que agüentar. – disse Kagome.

A garota puxou o copo que estava na mesa e deu um gole, desceu do banco indo até a geladeira e pegando outra lata, foi até o armário e pegou um copo, colocou os dois em cima da mesa e sentou-se novamente.

- Sirva-se. – disse Kagome.

- Aquele copo não era meu? – disse Inuyasha.

- Achei que seria muita maldade te deixar o dia inteiro sem comer nada e depois te dar coca cola sem gás e sem gelo. – disse Kagome.

- Quanta bondade. – retrucou Inuyasha ironicamente.

- Mal agradecido. – disse Kagome.

Inuyasha pegou a lata e o copo e puxou a bandeja com os onigiris. Encheu o copo e começou a comer, Kagome apoiou o cotovelo na mesa e usou a mão como apoio para a cabeça.

- O que está olhando? – perguntou Inuyasha com a boca cheia de arroz.

- Você sabe que eu ainda sou uma garota, não sabe? – disse Kagome. – Agradeceria se não falasse com a boca cheia, é nojento.

Inuyasha deu de ombros, colocando outro bolinho na boca e voltando a falar:

- Os yokais que você disse antes, são os lobos que se instaram por aqui, não é?

Kagome fechou os olhos, tentando tirar de sua mente a imagem do arroz triturado dentro da boca do hanyou, ela sabia que ele estava fazendo aquilo de propósito. Pegou um bolinho, mordeu e começou a falar de boca cheia.

- Ahan. Seu irmão veio me pedir para tirá-los de perto da casa dele.

Inuyasha cerrou os olhos, não por ouvir a palavra "irmão", mas porque a garota agora o imitava e deixava que o arroz mastigado pudesse ser visto.

- Que nojo. – ele resmungou fazendo uma careta. – Eu não precisava ver isso!

- Te apresento o ditado "não faça com os outros o que não quer que façam com você"! – disse Kagome.

- É um prazer conhecê-lo, senhor ditado. – disse Inuyasha.

- É, ele também fica feliz em conhecê-lo. – disse Kagome. – Já terminou de comer? A gente ainda tem que andar um bocado!

- Você tem que andar, eu não. – disse Inuyasha pegando outro bolinho.

Kagome revirou os olhos e tomou mais um gole de refrigerante e depois de mais vinte bolinhos devorados por Inuyasha os dois se levantaram e foram em direção à porta. O hanyou olhou para o céu e percebeu que não era possível ver nenhuma estrela, muito menos a lua, virou o rosto para Kagome e disse:

- Qual é a da chuva?

- Qualquer dia te explico qual é a da chuva! – disse Kagome imitando a voz do hanyou.

- Eu vou na frente. – disse Inuyasha. – Te encontro lá em cima!

- Claro, claro. – disse Kagome.

Inuyasha saiu correndo para pegar impulso e então saltou. Kagome olhou enquanto ele se tornava apenas um borrão e se perguntou como ele conseguia correr e saltar por ai usando uma calça jeans. Suspirou, ela realmente não estava afim de andar.

- Eu gostaria de ter férias.

Kagome andava calmamente pela cidade, sentindo o vento no seu rosto. Olhava vez ou outra para o céu e se sentia frustrada por ser incapaz de ver as estrelas, pouco tempo depois já estava na trilha e se xingou mentalmente por não ter pego uma lanterna. Apesar de ser uma trilha no meio do mato, o caminho era todo feito com paralelepípedos o que evitava calombos de raízes invisíveis e formigueiros gigantes.

- Aquele maluco bem que me disse que logo mais eu aproveitaria o passeio no mato! – resmungou.

O caminho até o topo era longo, mais longo do que Kagome imaginara, estava começando a se irritar com toda aquela caminhada. A cada cinco minutos inventava um motivo novo para reclamar. Na sua cabeça passavam milhares de formas de matar Kouga, por não ter ido embora, Sesshoumaru, por ido atazaná-la e Inuyasha, por ter deixado-a sozinha para trás. Cerrou os olhos pensando no hanyou e levou uma mão até a cabeça.

- Por favor, não tenha feito nada idiota! – sussurrou.

E ao pensar nisso, Kagome apertou o passo, porém logo depois uma voz obrigou-a a parar.

- Como espera que eu acredite que você é capaz de matar yokais se é tão lenta desse jeito? – disse Inuyasha que estava em pé em um galho. – Acho que até uma tartaruga consegue te matar!

- Talvez, afinal uma tartaruga não é um yokai. – disse Kagome.

- O que você quer comigo, porque me chamou? – disse Inuyasha.

- Eu não chamei ninguém. – disse Kagome dando de ombros. – Você está ficando louco.

- Está dizendo que eu ouço coisas, é isso? – disse Inuyasha.

- Não, só te chamei louco, a parte de ouvir coisas foi por sua conta mesmo. – disse Kagome.

- Você pretende demorar muito? – disse Inuyasha. – Sabe, eu adoraria ir dormir!

- Ah, então essa é a coisa melhor que você poderia estar fazendo sexta à noite? – disse Kagome. – Diversão, heim? E sim, eu vou demorar, já viu o tamanho das minhas pernas?

Inuyasha pulou do galho onde estava e parou na frente de Kagome de costas.

- Sobe.

- Você está falando sério? – disse Kagome fazendo uma careta.

- Olha, como foi mesmo que você disse, eu facilito a sua vida e você facilita a minha? Então, é isso que eu estou fazendo. Quanto mais rápido você chegar lá, mais rápido eu volto pra minha casa e fico longe desse cheiro de lobo.

Kagome revirou os olhos.

- Certo, entendi a idéia, mas espera que eu suba em cima de você como? Quer que eu te escale? – disse Kagome.

- Mas você não serve pra nada mesmo, heim?

E dizendo isso Inuyasha abaixou-se, Kagome passou os braços pelo pescoço de Inuyasha e apoiou seu tronco nas costas dele, ele jogou os braços para trás, segurando-a pelas pernas. Ficou em pé e saiu correndo e logo saltou.

- Eu deveria ter colocado uma calça. – resmungou Kagome.

- Você está me enforcando. – disse Inuyasha. – Ou afrouxa isso ai ou te jogo daqui de cima.

- Quanta educação. – disse Kagome enquanto o obedecia.

Em menos de 5 minutos Inuyasha fez o caminho que Kagome levaria, pelo menos, mais meia hora pra fazer. Ele parou há poucos metros de uma mansão enorme, soltou as pernas de Kagome, que caiu sentada já que Inuyasha sequer abaixara para ela descer.

- Ai! – reclamou a garota.

- De nada. – respondeu o hanyou.

- Estúpido.

- Mal agradecida.

Kagome levantou-se, enquanto Inuyasha a olhava e disse:

- Não importa o que aconteça, não se meta, entendeu?

- Você deveria falar isso para os seus amigos lobos, não pra mim! – disse Inuyasha.

E então o som de uivos se fez presente, Kagome piscou algumas vezes forçando sua vista a enxergar no escuro, quando finalmente percebeu que os dois estavam cercados por lobos que agora rosnavam e estavam em posição de ataque.

- Err, Inuyasha, acho que temos um problema. – disse Kagome.

- Um problema? – repetiu o hanyou.

- É, eu não queria falar nada, mas eu não sou uma dessas princesas da Disney! – disse Kagome.

- Eu acho que não é uma boa hora para suas piadas sem graça. – retrucou Inuyasha.

- É, acho que você tem razão. – disse Kagome que agora começava a se encolher.

- Dê logo um jeito nisso! – disse Inuyasha.

- Era isso que eu estava tentando dizer, Inuyasha. Eu não falo com lobos. Pelo menos, não com esses.

E dizendo isso Kagome deu um passo, ficando atrás de Inuyasha.

- Você é mesmo uma imprestável. – disse Inuyasha. – Fique ai, eu não pretendo ser culpado pela sua morte. De novo.

- Você não precisava nem mandar! – disse Kagome.

Inuyasha revirou os olhos tendo certeza absoluta que a história dela ser capaz de matar yokais era apenas um blefe, mas antes que pudesse ao menos por para fora sua revolta com a inutilidade da garota, um grito se fez presente. Ele olhou para trás, mas já era tarde demais.

- Maldição.


Oláá! Como estão? :) Hoje eu acabei me atrasando pra postar porque fiquei na cama um tempãão dopada por causa dos remédios, como eu disse lááá no primeiro capítulo, eu estou presa em casa por causa da minha saúde e às vezes, ela me deixa na mão. Estou escrevendo feito louca, pois daqui uns 10 dias vou operar e então, só vou vir pro pc mandar os capítulos prontos ;_; Estou me esforçando pra mesmo de cama não abandonar quem me acompanha ;_; Enfim...

Biia-Sama: Olá querida *-* Essa questão do que é a Kagome vai ficar mais clara com o tempo, uma dica é prestar atenção no que o Sesshoumaru fala :) Ele é mais velho então sabe de um mooooonte de coisas importantes e sobre a Rin, ela foi citada hoje! :D Quando li seu comentário lembrei dessa parte na hora! Ela vai aparecer mais pra frente, mas a história dela é um tanto quanto complicada e sim, ela é como a Kagome :) Quando quiser perguntar algo, é só perguntar, não precisa se preocupar 8D

H-Quinzel: Então, resolvido! :D Continuarei no esquema dos capítulos grandes, mas uma vez por semana! Ai, espero que esse mistério todo continue sendo atrativo e não um pé no saco _ Obrigada pela review

Sayurichaan: Muito obrigada

Aricele: Own, obrigada ;_; É bom saber que terei compainha!

Chinchila: Olá querida! Nossa, nem me fale, meu pc anda uma porcaria, ele desliga do nada, a internet fica caindo, eu já perdi capítulos inteiros com essa história de ficar desligando sozinho, é um sofrimento só, mas agradeço o empenho em ler minha fic ;_; Espero que esteja gostando pelo menos!

E é só isso! Agradeço as visitas, as reviews e tudo mais, tenham uma boa semana e até domingo! Beijos :*